Navegando Posts publicados por JEM

200 casos verídicos narrados por Jorge de Souza

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de navegar
Sobre as ondas azuis o nosso pensamento!
Miguel Torga
(“História Trágico-Marítima” – Alguns Poemas Ibéricos, 1952)

Na adolescência fascinavam-me os livros de biografias e as aventuras reais. Meu saudoso pai incentivava as histórias de figuras que permaneceram na história, pois as entendia como exemplos norteadores. As epopeias e grandes aventuras pouco a pouco também preenchiam minhas estantes. Marcas indeléveis permaneceram. Nos blogs, que remontam a Março de 2007, há inúmeros livros que, após leitura, resenhava ou comentava, mormente os relativos à cadeia de montanhas do Himalaia e seu pico maior, o Everest. Com a “vulgarização” das subidas ao pico, movidas por organizações especializadas nesse mister, centenas de “curiosos” sobem anualmente e não poucos sucumbem. Perdeu-se a magia, profanaram a Deusa Mãe do Céu Sagarmatha, segundo os nepaleses, desvirtuaram o alpinismo, hoje, de turismo. Apesar dessa realidade, ainda me entusiasma a leitura dos acessos ao K2, duzentos e pouco metros menos elevado, muito mais perigoso e, por não ser o maior, pouco visitado.

Nesses últimos dez anos entusiasmaram-me as aventuras do extraordinário aventureiro francês Sylvain Tesson e resenhei mais de dez livros (vide Resenhas e Comentários no menu) em que o autor descreve com agudeza suas andanças pelo planeta, quase sempre solitário.

Nessa interminável pandemia, li em um dos portais instigante artigo sobre um navegador que, em barco pequeno, realizou a circum-navegação do planeta sem parar em terra alguma. Ao fim da matéria havia publicidade de um livro: “Histórias do Mar – 200 casos verídicos” (São Paulo, Agência 2, 4ª edição, 2020). Interessei-me e adquiri-o via internet. A conta-gotas fui lendo as duas centenas de aventuras que se estendem do início do século XVI à atualidade. O autor, jornalista Jorge de Souza, é especialista em fatos, aventuras e histórias ligadas ao mar. Criou revistas afins e tem atuação permanente na mídia.

O notável navegador Amyr Klinck opina sobre o “Histórias do Mar”: “Sensacional! Livro viciante, daqueles que a gente não consegue parar de ler”.

Rigorosamente leigo na matéria, só entrei em um barco pequeno, o famoso pô-pô-pô – denominação simpática devido ao barulho do seu motor -, abundante nas águas do rio Guamá, para uma travessia de Belém à ilha do Cumbu. Comungo a opinião do pianista René François Duchâble (vide blog: “René François Duchâble”, 30/01/2021), que tem medo de viajar de navio e que jamais o fez. Esse é meu temor também, mas o fato não invalida assistir a documentários sobre barcos pesqueiros no mar do norte, ou aventuras marítimas pungentes. Recordo-me das duas leituras, uma na juventude e outra faz alguns anos, de “A expedição Kon-Tiki” (vide blog: 29/09/2018).

Amyr Klinck, tantas vezes navegante solitário, tem toda a razão sobre o livro. Centrei-me em poucas histórias diariamente, mas a vontade era prosseguir.

Jorge de Souza é um expert na temática “mar” sob os mais variados aspectos. Historicamente narra desde aventuras, naufrágios, pirataria e aspirações que remontam aos primórdios do século XVI. Torna-se evidente que a documentação desse período e os subsequentes é bem mais escassa, mas o autor, com perspicácia, consegue imprimir “atualização” a essas aventuras marítimas de antanho.

À medida que nos aproximamos do século XX e que a navegação se torna bem mais intensa, relatos ganham configuração mais abrangente, a não ser quando há misteriosos desaparecimentos de comandantes e seus adjuntos no mar, mas não das embarcações. Não são poucas essas narrativas. Pirataria em alto mar, revolta de tripulações que, após eliminarem comandantes e ajudantes, evadiram-se em barcos salva-vidas e igualmente deles não restariam traços. Jorge de Souza sempre enfatiza essas situações. Navios fantasmas.

Não há como pontuar algumas das 200 histórias, tantas trágicas, outras dramáticas e algumas hilárias. O texto de Jorge de Souza tem teor jornalístico, é leve, agradável, sem quaisquer requintes literários mais sofisticados. Talvez seja essa apreensão, independentemente de algumas histórias mais longas e elaboradas, que tornam a leitura tão agradável. Se não aborda o Titanic (mais de 1.500 vítimas), pois já se tornou um enfado retornar ao tema, creio que um pormenorizar maior sobre a tragédia marítima que atingiu 9.300 pessoas e que, no livro, tem como título “O triste fim do Titanic de Hitler”, enfatizaria ainda mais a insanidade das guerras, quando o transatlântico alemão Wilhelm Gustloff foi torpedeado por submarino russo em 30 de Janeiro de 1945, nos estertores da IIª Grande Guerra. O Titanic, cercado de glamour e aura de navio perfeito, foi a pique ao chocar-se com um iceberg; quanto ao segundo, superlotado por civis alemães em fuga e soldados feridos do regime nazista, dos certamente mais de 10.500 “passageiros” apenas 1.239 sobreviveram.

Um sobrevivente dirá décadas após: “os mortos estão tranquilos, mas nós, sobreviventes, morremos a cada dia”. Pungente documentário traduz a maior tragédia marítima em termos de vidas perdidas:

https://www.plongee-infos.com/chaque-jour-une-epave-30-janvier-1945-le-wilhelm-gustloff-la-plus-grande-tragedie-maritime-de-tous-les-temps/

A contrastar com essa magnitude, em “Histórias do Mar” Jorge de Souza conta casos até bizarros de viajantes solitários que, atingindo ou não seus objetivos, arriscaram-se pelos mais variados motivos: aventura, fuga, diversão, notoriedade, furto. Alguns se deram muito mal e levaram seus sonhos para o fundo do mar. Impressionam determinados casos de aventureiros que contam unicamente com o alimento extraído do mar — peixes, tartarugas — e do espaço, quando aves migratórias ou distantes de terra firme encontram um lugar para descansar. Nas “histórias” de Jorge de Souza sobre esses navegadores solitários o que não falta é a diversidade de condutas.

Jorge de Souza alerta sobre o descaso das autoridades que permitem que barcos superlotados de turismo ou de viajantes naveguem pelas águas brasileiras. Menciona a tragédia “do barco Novo Amapá na foz do rio Amazonas, onde morreram mais de 250 dos 600 passageiros – embora ele só tivesse capacidade oficial para 150 pessoas”. Oito meses após seria o Sobral Santos II, característica gaiola amazônica (Setembro, 1981), igualmente naufragando por falta de fiscalização, superlotado, a deixar dezenas de desaparecidos. O autor insere no livro a tragédia do  Bateau Mouche, também superlotado, que naufragaria na noite de 31 de Dezembro de 1988 na saída da Baia de Guanabara. Não há necessidade de profetizar, mas por desleixo na fiscalização tantas outras tragédias como essas serão tratadas pelo autor futuramente, hélas.

Pela abrangência, tem interesse especial o relato sobre o submarino alemão U-507, que, durante a IIª Grande Guerra, com seus torpedos afundou vários navios brasileiros em 1942. Comenta: “Foi ele, também, que decretou o trágico destino de mais de 600 brasileiros, muitos deles mulheres e crianças, ao torpedear navios de passageiros sem nenhum aviso. Foi Harro Schacht (comandante), enfim, que fez o Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial, após a nação, indignada, romper sua neutralidade”. Meses após, em 1943, o submarino voltaria aos mares do sul e encontraria seu fim causado por bombas de profundidade lançadas por um avião Catalina, que escoltava comboio de navios.

Creio que o leitor poderá se interessar pelas narrativas que, por vezes, em casos específicos, são abordados por Jorge de Souza com fino humor ou ironia.

Ficaria apenas uma observação, resultado de meu desconhecimento de outras obras de sucesso do autor. Gostaria que houvesse sido inserida a extraordinária façanha de Ernest Henry Shackleton, que, na expedição à Antártida (1914-15), assistiu ao esmagamento pelo gelo de seu navio Endurance, mas que, após verdadeira epopeia, salvaria a tripulação.

Since my youth I have enjoyed books based on true adventures. Many have already been mentioned in this blog, like the ones about the Himalayan mountain range or the many books by the French adventurer Sylvain Tesson. “Histórias do Mar” (Sea Stories), written by Jorge de Souza, a journalist and editor specializing in facts occurring at sea, is a book of great interest and worth of attention. A real page turner, from beginning to end a compelling read.

 

Carreira consagrada e projeto cultural a envolver a Chapelle Royale de Senlis

É certo que, para um artista que carrega uma mensagem, devolvê-la numa hora fixada
diante de um público que se pretende numeroso,
ao menor estremecimento das fibras de sua sensibilidade resultará um estado entre a ação das graças
e o suplício de Tântalo.
Transfigurado pela pujança de sua visão,
ele entra em incandescência
até se tornar a encarnação viva da revelação fugidia.

György Cziffra
(“Des canons et des fleurs”)

Neste último post sobre o pianista György Cziffra, três temas têm interesse maior: a carreira vertiginosa que assombraria plateias, o hercúleo projeto que compreende a guarda e restauração da Chapelle Royale de Saint-Frambourg em Senlis e a intensa relação com seu filho, György Cziffra Jr., regente de talento.

Fugindo do regime húngaro em 1956, no início da revolução húngara, que em poucas semanas foi sufocada pelos tanques Soviéticos, Cziffra, a mulher Soleika e o filho se refugiam na França, país que concederá futuramente a cidadania aos três. Sua primeira apresentação naquele ano foi fulminante. Impactavam-se as estruturas conceituais da denominada escola francesa de piano. Jamais tinham ouvido tão grande virtuosidade em um pianista. Alain Lompech comenta: “György Cziffra tinha um ar estranho e dez vezes mais dedos do que seus contemporâneos” (“Les grands pianistes du XXº siècle”, 2012). Doravante sua carreira foi meteórica, apresentando-se no Ocidente e no Oriente diante de plateias extasiadas por suas performances singulares.

Esse assombro persistiria durante certo tempo e, posteriormente, o conhecido esprit de corps de alguns colegas e da crítica tentaria minimizar sua atuação, mormente no fator estilo. Alain Lompech avoca: “sua colega Martha Argerich (1941-), que amou Cziffra na primeira vez que o ouviu através de discos nos anos 1950, contou que sentiu o desprezo da classe em relação a ele quando transmitiu toda a sua admiração a músicos célebres. Responderam-lhe ‘sim, o cigano…, enfadonho’ ”. No post anterior inseri palavras ácidas de Cziffra sobre a crítica. Corroborando certos posicionamentos quanto às suas performances extraordinárias, que ensejaram opiniões até desairosas devido seguramente à sua formação inicial e “autodidata”, fora dos padrões de conservatórios, pareceria inacreditável a ausência de seu nome, sequer como menção, nos livros de Harold Schonberg, “The great pianists” (1966) e de Elyse Mach, “Great contemporary pianists speak for themselves” (1991), mormente deste, sabendo-se que em “Des canons et des fleurs” Cziffra tanto escreveu! Incontáveis outros pianistas respeitáveis são mencionados, mas inúmeros sem a dimensão de Geörgy Cziffra.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, de J.S.Bach a Toccata e Fuga em ré menor:

https://www.youtube.com/watch?v=0O7mb0soC3g

A atividade do pianista não se resumiria somente à vertiginosa carreira. Ao receber a cidadania francesa, passa a utilizar o prenome Georges e não György. Após as agruras mencionadas no blog anterior, busca retribuir a acolhida em França e tem interesse o diálogo com André Malraux (1901-1976), notável escritor, pensador, historiador e ministro da Cultura (1959-1969) no governo de Charles de Gaulle. György Cziffra foi aconselhar-se com Malraux, a fim de sugerir essa contribuição que entendia necessária, no caso, a restauração de um templo:

“- Seu projeto vos honra… mas não deve ser realizado em Paris, pois não mais há na cidade um pedacinho de terreno onde a intenção do homem não colocou o pé. Talvez em Senlis, que não é uma cidade como as outras. Senlis é bem mais do que isso, é o berço da França. Creio ser a mas antiga dessas igrejas, a antiga Chapelle Royale de Saint-Frambourg, obra-prima hoje periclitante. Outrora foi o feudo dos primeiros Capetianos (final do século X). Presentemente está na iminência de desabar. Vandalizada durante a Revolução, serviu de templo da Razão, forja, loja de forragem, manejo de cavalos, caserna de bombeiros e atualmente… estacionamento pago! Deus sabe como ela é bela. Se você conseguir revelá-la, a França lhe deverá uma vela honrosa, digo-lhe francamente. Mas, há necessidade de muito dinheiro. Você tem o suficiente?”

Após a negativa de Cziffra, a dizer que poderia ao menos iniciar a recuperação, imediatamente Malraux o interrompe com a afirmação de que seria necessário muito dinheiro, indagando como poderia fazê-lo: “Seria com os seus dez dedos que pensa reerguer a capela real de suas cinzas?”. “Sim, respondeu Cziffra”.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, de Franz Liszt, Grand Gallop Chromatique:

https://www.youtube.com/watch?v=a-fyNP7y680

O estado da Chapelle Royale era deplorável: Paredes rompidas, espaços vazios sem vitrais que se tornaram abrigo, segundo Cziffra, para “corvos, centenas de pombos, milhares de pardais e gatos negros que doravante teriam de buscar abrigo em outro lugar”. Tudo a ser restaurado e… a carreira vertiginosa a dar alento.

Ao iniciar a empreitada com seus próprios recursos, vê-se cercado por “pilha de faturas com tantos zeros que me fizeram estremecer. Sou crente e habitualmente jamais rezo para pedir algo pessoal, mas sim pela saúde e felicidade de meus familiares. Neste dia rezei para São Francisco de Sales, padroeiro da igreja justo em face de minha janela, para que me desse forças para continuar, pois somente um milagre poderia fazer com que pudesse cumprir sozinho os encargos massacrantes desse projeto, mormente naquele período em que meus compromissos pianísticos eram imensos e eu não podia parar”. Desalentado, refletia sobre os quase intransponíveis trabalhos que estavam anunciados, quando sua esposa Soleika, imprescindível na condução dos trabalhos, comunica que donativos chegavam, primeiramente para os vitrais, um a representar Santa Elizabeth da Hungria e, outro, São Francisco de Sales. Saliente-se que o escultor e pintor Joan Miró (1893-1983), amigo do pianista, ofereceria também vitrais para a Chapelle Royale. Outras tantas doações permitiram, após longo processo de reconstrução, a abertura da Chapelle Royale de Saint-Frambourg para apresentação de recitais, concertos com orquestra, corais, exposições e masterclasses. O Festival de Senlis, sonho de György Cziffra, prossegue até o presente.

A proposta de André Malraux possibilitou a utilização por 40 anos da Chapelle Royale, e os esforços hercúleos do pianista húngaro-francês no sentido de reconstruí-la foram coroados. Para tanto, foi criada em 1975 a Fundação Georges Cziffra, importantíssima para a divulgação e recepção de fundos. Somente em 2016, concretizando-se o sonho do pianista, a Fundação Cziffra adquiriu a Chapelle Royale Saint-Frambourg que, na realidade, já desde a década de 1970 era a sua sede histórica.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, de Franz Liszt, Valsa-Impromptu:

https://www.youtube.com/watch?v=nRD5RralCgA

Um dos grandes prazeres de Cziffra era tocar sob a regência de seu filho, György Cziffra Jr. Em 1981, o jovem regente morre em incêndio em seu apartamento. Cziffra não mais tocou com orquestra e sua carreira vitoriosa aos poucos perderia a denominada joie de vivre. O brilhantismo, sempre presente, doravante ficaria marcado pela nuvem da nostalgia. György Cziffra morreu em 1992, vítima de ataque cardíaco.

Clique para ouvir, na memorável interpretação de György Cziffra ao piano, sob a regência de György Cziffra Jr. a conduzir a Orquestra Nacional da ORTF, as Variações Sinfônicas de Cesar Franck:

https://www.youtube.com/watch?v=offejPoTAzo

A interpretação de György Cziffra ultrapassa os ditames tradicionais em aspectos fulcrais. Considerando-se a atualidade que, graças à profusão de intérpretes das novas gerações, mormente da legião de pianistas do Extremo Oriente que impactam o Ocidente munidos do técnico-pianístico irrepreensível e amparados por fortes holofotes, que possibilitam às câmaras fixarem o gestual sempre mais acentuado, ouvir Cziffra, hoje, é desfrutar de algo raro. Sem contar o fenômeno absoluto que ele representa, sem explicação plausível. Há em sua execução algo de telúrico, uma anima não encontrável em outros pianistas da nova geração. A constatação de Martha Argerich se expande até os dias atuais e não são poucos os “puristas” que o veem de maneira desabonadora. Como exposto no blog anterior, Cziffra fez sua autocrítica, preparou-se leoninamente após as vicissitudes para penetrar no âmago das obras e dos autores estudados, saindo-se vencedor. O longo mergulho no de profundis da criação musical não foi realizado sem sacrifícios. Contudo, o sabido desabono de alguns intérpretes baseia-se, possivelmente, na impossibilidade de alcançarem eles próprios as performances de György Cziffra, sobretudo no quesito técnico-pianístico. Foi ele um caso à parte na história da interpretação pianística. Entre as suas incontáveis qualidades, primeiramente se destaca a virtuosidade rigorosamente singular. Acrescentem-se a clareza de sua execução, mesmo nas passagens mais transcendentais da literatura pianística; a extensão dinâmica em seus limites; a pedalização econômica nas culminâncias da virtuosidade; o senso do rubato; a sensibilidade que não esconde um passado dramático; o gestual discretíssimo; a sinceridade na execução das obras. Nada é apresentado para impactar o público, pois sua interpretação, mais precisamente nas obras de grande virtuosidade, jorra na intensidade de lavas vulcânicas.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, de Chopin, a Fantaisie Impromptu op. 66:

https://www.youtube.com/watch?v=ow1c8esX3bQ

No pórtico dos 83 anos sensibiliza-me sempre a epopeia, o desprendimento e a generosidade de um pianista excelso que, em país que o acolheu, lega uma herança musical e física que o dimensiona como rigorosamente ímpar entre todos aqueles que se destacaram nessa “Voie Royale” (extraordinário livro de André Malraux), que também foi a grande senda percorrida pelo artista György Cziffra. Ele mesmo comparou sua futura empreitada à criação de André Malraux.

György Cziffra compôs algumas obras, assim como transcreveu para piano inúmeras outras de conhecimento público, configurando tantas delas numa escritura transcendental.

Ao finalizar o terceiro post sobre György Cziffra, exibo uma sua gravação realizada em 1934, registro incompleto, diga-se, em que o menino se apresenta com o traje de marinheiro oferecido pela irmã, tão comum nas crianças de então. Prenunciava-se a singularidade.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra aos 13 anos de idade, de Franz Schubert, o Impromptu op 90 nº 4:

https://www.youtube.com/watch?v=-rDoRRKXLSY

In this third post I address the celebrated career of György Cziffra after his escape from Hungary to France; the Chapelle Royale project in Senlis; the premature death of his only son, the conductor György Cziffra Jr., and some fundamental aspects of his interpretation.

As vicissitudes de um soldado pianista

O pior sofrimento está na solidão que o acompanha.
György Cziffra

Se os tempos passados na Academia Franz Liszt foram decisivos para o amadurecimento pianístico de György Cziffra, a IIª Grande Guerra veio interromper o percurso do intérprete. Recrutado para o serviço militar, tem de preparar-se em poucas semanas para ir ao front combater o exército da União Soviética, pois o Reino da Hungria integrava o Eixo Berlin – Roma – Tóquio. Cziffra narra em “Des canons et des fleurs” (Paris, Robert Laffont, 1977) sua epopeia. O título da autobiografia teria origem na frase atribuída a Robert Schumann após ouvir Liszt, “Canhões sob um campo de flores”. Daquela infância fragilizada física e socialmente aos estudos na Academia Franz Liszt, Cziffra viu-se “jogado” em ambiente rigorosamente estranho à sua existência até então.

Escrito tardiamente, seria possível que narrativas pungentes tenham sofrido influência do ambiente que o cercava. Comentar algumas das vicissitudes vividas por György Cziffra se faz necessário, pois, ao que se conhece, nenhum pianista viveu sucessão de agruras tão violentas. A título de correlação mencionaria excelentes pianistas que estiveram em campos de concentração ou de “reeducação”: Lili Kraus, igualmente húngara (1903-1986), a pianista chinesa Zhu Xiao-Mei, nascida em 1949 (vide post: “La Rivière et son Secret” (06/11/2009), e o intérprete polonês Wladislaw Spilman (1911-2000), que escreveria Morte de uma cidade, mais tarde reeditada sob o título O Pianista, narrativa de sua história nos guetos de Varsóvia. Roman Polanski, a partir do relato, dirigiria o premiado O Pianista.

A inaptidão para as tarefas da caserna fá-lo não observar determinadas instruções: “A preparação à disciplina militar, que não é senão a arte de disciplinar o civil após domá-lo, pareceu-me uma aberração inexprimível”. Lembrar-se-ia da saudação que era obrigado a realizar para um cabo instrutor não satisfeito com seus erros, “uma espécie de bruto de aspecto pré-histórico: levantar a perna bem alto, descendo-a e batendo três vezes no chão, uma vez a saudá-lo, outra dando meia volta e a terceira vez para caminhar em direção ao objetivo designado”. Essas e outras inobservâncias valeriam sua “prisão” intramuros durante curto período, em que apenas lhe davam 300 gramas de pão e água. As palavras de uma alta patente, que apropriadamente denomina César, mais bruto do que o cabo, a vaticinar o seu quase certo fim no campo de batalha, deixam-no ainda mais deprimido. Tão logo reintegrado aos que deveriam partir provoca uma queda diante de todos para evitar o front, sabedor de que, “desmascarado às vésperas da partida, estaria definitivamente curado pelas palavras reconfortantes que o padre do tribunal militar lhe diria antes de sua execução sumária”.

Logo seria capturado por partisans russos, que o consideraram prisioneiro de guerra e desertor, pois estava sem armas. Passaria período sombrio em uma mina insalubre com muitos outros infelizes. Ludibriando um dos guardas consegue fugir e vagueia por algum tempo em alguma parte do território ucraniano.

Cenas pungentes são narradas por Cziffra que, durante a fuga, entra em uma igreja, descrevendo com pormenores a sua construção. Feridos de guerra húngaros e alemães se amontoavam, muitos mutilados. Ao dizer que era pianista a um dos médicos, este lhe pede para tocar órgão, a fim de amenizar sofrimentos. Realiza várias improvisações, inclusive do hino húngaro, mas, ao ouvir tiros de canhão ao longe, sorrateiramente foge a correr e refugia-se numa floresta próxima. De lá assiste a um poderoso tiro de canhão lançado pelo exército soviético, que destrói a igreja que a seguir consome-se em chamas.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, de François Couperin, La Bandoline:

https://www.youtube.com/watch?v=GKq4KGpt5Ho

Errando pela floresta, sem rumo e desorientado, deixa-se recapturar pelos partisans e retorna desesperançado à mina por período que não sabe precisar, pois “os relógios de todos foram confiscados desde a chegada e o conceito tangível do tempo passou a não mais existir para nós”. Posteriormente emerge dos subterrâneos com os outros condenados, a fim de longa caminhada a pé durante mais de uma semana, levados por soldados soviéticos a um campo de concentração. Nesse dramático caminhar recebiam pão preto duro e cebola crua. Comenta: “prevendo a marcha do dia seguinte, ninguém deixava sequer uma migalha da ração, sabendo que um desmaio durante o percurso seria tratado pelos russos como pelos alemães com uma bala na nuca”. Ao sair do bloco que apoiava o Eixo, a Hungria se “aproxima” da União Soviética e, após a estada no campo, György Cziffra é levado com outros húngaros ao seu país natal para se reincorporar ao exército.

Na caserna os tempos melhoram para György. Quando convidado pelo comandante para se apresentar como pianista durante uma festividade, reluta inicialmente, pois há anos não mais tocava, mas aceita. Teve dez dias para se preparar, após anos sem tocar e, nervoso antes de entrar em cena, aceita tomar uma bebida alcoólica fortíssima. Sente-se melhor e bebe mais de uma dose, o que o faz entrar em cena não ziguezagueando, mas confuso. Escreve: “Não me lembro sequer de ter saudado o público e, desde o início, verifiquei que minha execução estava inqualificável’. Lamentaria durante o resto da existência ter tocado pessimamente nessas condições, mas sem aferição de um público não exigente. Seu testemunho não deixa dúvidas da seriedade com que encararia futuramente a consagrada carreira: “A lembrança de minha desventura, qual uma chaga ardente, consumia o meu de profundis e, durante muitos anos após, assombrava meus dias e sobretudo minhas noites. Na verdade, foram necessárias umas boas décadas de atividade profissional irrepreensível para esquecer. Foi o único unguento capaz de cicatrizar e apagar definitivamente o que restou desse estigma interior”.

Após tratativas que resultaram, György Cziffra consegue desligar-se do exército e, reencontrando sua mulher e filho, consegue subsistir tocando em cabarés, casas de chá, sempre improvisando com maestria. Apresentando-se com uma jazz-band americana, músicos e público o saudavam com entusiasmo. O regente do conjunto comparou-o ao extraordinário pianista de jazz Art Tatum.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, uma de suas improvisações:

https://www.youtube.com/watch?v=usi0lkfIhjw

Apesar dos sucessos nessa atividade musical, tentaria sair da Hungria com a mulher e o filho. Presos, foram separados e durante três anos, de 1950 a 1953, Cziffra permanece detido em um campo disciplinar. Não há como não pensar em Sisuphos ao se ler a passagem: “Durante dez horas, dia após dia, subia blocos de sessenta quilos do térreo ao sexto andar de uma universidade em construção. Devido ao esforço, os músculos dos meus punhos ficaram de tal maneira dilatados que era obrigado a colocar apertadas munhequeiras para evitar inflamações”. Teve de usá-las durante décadas. Confessaria que, no futuro, “muitos do métier passaram a usar os braceletes de couro, persuadidos de que se tratava de uma invenção astuciosa de minha parte, destinada a favorecer a alta virtuosidade”.

Cumprida a pena, sem perspectivas, retoma sua atividade como improvisador. Cônscio de sua qualidade técnico-pianística ímpar, teve a chance de ser ouvido nessas noitadas por influente personalidade oficial, que o convida para reunião cujo resultado o deixa esperançoso, pois seria engajado oficialmente para uma série de concertos. Narra com sinceridade as suas “deficiências” estilísticas, que o fazem estudar, até as apresentações meses após, dez horas por dia. Lembrar-se-ia de que, após seus longos anos de infortúnio e apesar de sua técnica excepcional, “tornei-me um anticristo nas improvisações que multiplicavam as dificuldades por dez”. Apesar do sucesso incontestável junto ao público, tomou consciência de que teria árduo trabalho junto ao repertório sacralizado. “Cada vez que voltava ao camarim, sentia-me desmoralizado pela quantidade de imperfeições e a noção da distância que ainda teria de percorrer, persuadido de que um artista digno desse nome não confunde a visão de uma verdade com a demonstração dessa verdade”. A acolhida pública fê-lo  recuperar a fé.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, de Chopin-Liszt , Canto Polonês.

https://www.youtube.com/watch?v=ALvqdKD-1Bc

Ressalte-se sua opinião sobre parte da crítica que, independentemente de suas performances, não esquecia seu passado. Comenta: “Nada tenho contra a crítica, entendendo-a indispensável, mas acredito que ela deveria ser exercida por profissionais, ou seja, por artistas que, em sendo eles próprios produtivos, sabem do que falam”. É ácido em suas observações: “Exceções à parte, esses necróforos de espírito estreito, que formam legião, são reconhecidos facilmente por sinais distintos: orgulho incomensurável e pensamento derisório”.

Em sua última apresentação na Hungria interpretou o dificílimo IIº Concerto para piano e orquestra de Béla Bártok, que teve de preparar em pouquíssimo tempo. Após a apresentação, eram evidentes os sinais a apontar para a Revolução Húngara de 1956, que se estendeu de 26 de Outubro a 10 de Novembro até ser sufocada pelos tanques soviéticos. “As duas mil pessoas presentes ao concerto saíram da sala cantando o hino nacional, arrancando das ruas tudo o que não tivesse as únicas cores nacionais”. Aproveitando a brevíssima abertura das fronteiras, György Cziffra finalmente consegue fugir com mulher e filho. “Alguns dias após nossa fuga dei meu primeiro recital em Viena, apresentação que foi saudada, pelo público e pela crítica, como a performance de um mestre”. (tradução: JEM).

No terceiro post, abordarei o início da grande carreira de György Cziffra a partir de seu porto seguro, a França, assim como seu projeto filantrópico, “restaurar e glorificar a capela real de Saint-Frambourg em Senlis, não apenas para a minha música, mas dedicada a todas as artes”.

 

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, de Robert Schumann, Toccata:

https://www.youtube.com/watch?v=ztvEgLjZWYU

I believe there has been no celebrated pianist who has gone through so much adversity as György Cziffra. In this blog I mention, with quotes from Cziffra himself, his various arrests and hardships endured while serving in the Army, both during and after World War II.