Através dos depoimentos de seus ex-alunos

O estudo de piano necessita longos esforços.
Não obstante, eles não consistirão em lutar contra a natureza.
Uma mão normal é feita para tocar piano
e todo pianista que não partilha essa convicção é indigno de sua arte.
Marguerite Long
(“Le Piano”)

Catherine Lechner-Reydellet, pianista e professora de ensino artístico no Conservatório Regional de Música de Grenoble, tem dons outros de escritora, poetisa e, sobretudo, de investigadora musical a desvendar caminhos. Entre seus livros sobre música, dois foram resenhados neste espaço: “Messiaen, L’empreinte d’un géant” (I e II, 10 e 17/11/2018) e “Traité de technique musicale pour tous” (02/02/2019). No presente livro, a autora aprofunda-se em tema que lhe é caro e que, sob outra égide, está desenvolvido em “La Grande École française du piano” (2014). No desiderato de dar a conhecer as metodologias didáticas de 50 relevantes pianistas franceses que desempenharam, concomitantemente à atividade pianística, o professorado competente, Lechner-Reydellet buscou nos depoimentos de ex-alunos, que se destacaram em suas futuras atividades musicais, as observações obtidas em sala de aula, majoritariamente no Conservatório de Paris. Nesse sentido, deu liberdade aos convidados de não apenas enveredarem na estrita visão didática, nos processos técnico-pianísticos aplicados pelos mestres, como na interpretação e escolha repertorial. Permitiu-lhes comentários sobre caraterísticas pessoais do professor, sua integração com os futuros pianistas, seu humor, sua afirmação como pianista e didata.

Catherine Lechner-Reydellet explica os propósitos de “Les Légendes Françaises du piano” (France, Aedam Musicae, 2020) na nota introdutória: “Consagrado à memória dos pianistas franceses do século XX, o livro tem como vocação descobrir como os artistas de hoje foram influenciados pelas figuras de ontem, e resgatar a herança dos mestres do passado legada aos grandes intérpretes que os sucederam. Parte ao encontro de testemunhas da história das ‘lendas francesas’ para descriptografar a técnica dos ‘antigos’, sua captação pedagógica, sua maneira de transmitir o saber”.

Primeiramente, impressiona o número de relevantes pianistas que representaram a Escola Francesa e que tiveram carreiras consagradas no mundo. O debruçamento sobre dezenas de pianistas-professores evidencia que alguns deles são notoriamente conhecidos mundialmente e outros, destacados intérpretes que, mesmo sendo respeitados, não granjearam a divulgação merecida por vontade pessoal ou por motivos vários. Catherine Lechner-Reydellet, antes do testemunho desses ex-alunos que se notabilizaram nas várias ramificações da arte musical, explana com propriedade o perfil do homenageado. O leitor tem a oportunidade de apreciar todos os personagens “lendários”, mormente aqueles menos conhecidos do grande público, todos já falecidos. Se Alfred Cortot (vide blog: Alfred Cortot e a poética inefável, 29/02/2020), Marcelle Meyer (vide blog: Marcelle Meyer – A redescoberta merecida, o6/03/2007) , Marguerite Long (vide Marguerite Long – permanecerá na história, 11/04/2020 e Marguerite Long – Livros e método didático, 18/04/2020), Yves Nat, Vlado Perlemuter, Jeanne-Marie Darré, Yvonne Lefébure, Robert Casadesus, Jean Doyen (vide blog: Jean Doyen – A interpretação inefável, 31/08/2007), Monique Haas, Pierre Sancan, Yvonne Loriod, Samson François, Brigitte Engerer, entre alguns mais, são sempre lembrados pelos aficionados, o pormenorizar pianistas menos ventilados, mas excelentes, revela por parte da autora a determinação do resgate necessário de luminares da Escola Francesa de Piano. Dois que tiveram dupla nacionalidade estão presentes: Magda Tagliaferro, a grande pianista e professora brasileira que obtivera a nacionalidade francesa, e o notável Aldo Ciccolini (ítalo-francês).

Clique para ouvir, na interpretação de Jeanne-Marie Darré (1905-1999), a Toccata de Saint-Saëns:

https://www.youtube.com/watch?v=ZJMi_DD0b5s

“Les Légendes françaises du piano” é uma verdadeira enciclopédia, a desvelar pormenores da denominada Escola Francesa de piano em sua linha mestra, mas a conter vertentes. Determinadas palavras serviram durante décadas para definir o técnico-pianístico francês: clareza, jeu perlé, articulação digital, desvio de excessos interpretativos, pedalização quase sempre econômica, som que se poderia considerar como “característico” da Escola Francesa e tantas outras. Todavia, dos 50 pianistas-professores, não poucos sofreram influências de outras tendências, como a da Escola Alemã e certamente a da Escola Russa. Essa combinação de metodologias de ensino aplicadas por cada pianista-professor, mormente no Conservatório de Paris, é desvelada criteriosamente pelos testemunhos de ex-alunos de maneira não unânime, mas com inúmeras concordâncias. Não fosse o levantamento hercúleo de Lechner-Reydellet, o olvido implacável seria definitivo para pianistas-professores menos ventilados em França.

Os contributos testemunhais por vezes se atêm a mais de um professor. É o caso específico do excelente pianista Désiré N’Kaoua, meu colega em Paris, que se debruça sobre sete homenageados com quem teve a oportunidade de estudar. Outros mais comentam dois ou três mestres. Considere-se que alguns pianistas-professores receberam mais de um testemunho a enriquecer a qualidade de ensino, pois apresentam olhares diferentes sobre a metodologia do didata. Yvonne Loriod, notável pianista e professora, esposa do compositor Olivier Messiaem, é retratada pela autora a partir de excerto retirado de seu livro acima mencionado sobre o ilustre músico. Frise-se que todos os colaboradores desenvolveram proficuamente suas carreiras. Tive o privilégio de escrever sobre dois de meus mestres, Jean Doyen e Jacques Février. Marguerite Long, com quem estudei, foi pormenorizada por N’Kaoua em diversos dados inéditos.

A riqueza de “Les Légendes françaises du piano” vem dessa captação de elementos diversos. A partir de uma coluna mestra estabelecida através da denominada Escola Francesa de pianoforte-piano, alicerçada desde as primeiras décadas do século XIX, seus epígonos, nascidos nas décadas finais daquele século — exceção à Marie Jaëll (1846-1925) —, souberam transmitir seus conceitos essenciais a uma plêiade de expressivos pianistas pedagogos: Marguerite Long (1874-1966), Alfred Cortot (1877-1962), Armand Ferté (1881-1973), Lazare-Lévy (1882-1964), Blanche Selva (1884-1942), Jeanne-Célestine Blancard (1884-1972) Nadia Boulanger (1887-1979), Yves Nat (1890-1956), Marcel Ciampi (1891-1980). Dessa coluna mestra didática, vertentes surgiram em consequência prioritariamente das individualidades, contudo sem haver olvido das orientações de antanho. Desses mestres, como não se lembrar dos contributos extraordinários deixados através da publicação de métodos e tratados pianísticos criados por Marguerite Long, Alfred Cortot, J.-Célestine Blancard e sobretudo, mercê da extensão qualitativa, as referenciais obras de Marie Jaëll e Blanche Selva que serviram de esteio aos pósteros?

Em seus depoimentos, os ex-alunos não têm nem poderiam ter um discurso unânime sobre a decantada Escola Francesa de piano, o que demonstra pluralidade. Esse fato evidente revela, entretanto, que os quesitos básicos técnico-pianísticos persistiram. Os métodos com exercícios e estudos fundamentais para o aprimoramento da técnica seriam basicamente os mesmos. A aplicação do ensino a visar à virtuosidade, essa sim, estaria a depender da personalidade de cada pianista-professor. Quanto ao repertório, estende-se basicamente de J.S.Bach aos compositores modernos, preferencialmente franceses. E seria nesse conjunto repertorial que alguns conceitos sobre a Escola Francesa de piano estariam ampliados, mercê dos depoimentos sobre a aplicação didático-metodológica. As declarações daqueles que viveram o aprendizado e aperfeiçoamento em sala de aula estendem e enriquecem a conceituação que se tem da Escola Francesa, universalizando conceitos antes enraizados.

Numa visão abrangente, a maior parte dos pianistas-professores franceses lembrados estudou com seus antecessores no Conservatório de Paris e a maioria dos depoentes foi premiada nessa Instituição de ensino. Sob outra égide, os 50 intérpretes focalizados, tantos os sobejamente conhecidos como aqueles igualmente competentes, mas menos divulgados, exerceram a atividade de intérpretes dentro do território francês, na Europa, nas Américas, mormente a do Norte, e por vezes no Extremo Oriente. Seria evidente a troca de informações e a assimilação por muitos deles de processos aplicados em terras outras.

Clique para ouvir, na interpretação de Samson François (1924-1970), L’Isle Joyeuse de Claude Debussy:

https://www.youtube.com/watch?v=evU5ubgtRXA

Duas pianistas relevantes que se notabilizaram, mormente pelas pesquisas sobre a técnica pianística, Marie Jaëll (1846-1925) e Blanche Selva (1884-1942) integram a preciosa lista e os textos a elas pertinentes foram extraídos de publicações da Bibliothèque National de Strasbourg e das Éditions Symétrie, respectivamente.

Clique para ouvir, na interpretação de Blanche Selva, o tríptico Prelúdio Coral e Fuga de César Franck, (gravação de 1928):

https://www.youtube.com/watch?v=IdlM-nK8ppM

Em um segundo blog serão tratados aspectos desenvolvidos em sala de aula e comentados por ex-alunos, quando a diversidade de ensinamentos – apesar de um eixo paradigmático da Escola Francesa existir -, faz-se sentir.

The pianist, pedagogue and writer Catherine Lechner-Reydellet has already had two of her books commented on in my blog. Today I write about her new work, “Les Légendes Françaises du Piano”. In her own words, the book intends to find out how artists of today have been influenced by those of yesterday and to rescue the heritage that great masters of the 20th century bequeathed to the performers that followed them. It does so through the testimony of former students of fifty masters of the distinctively French piano style, trying to decode their techniques, their way of transmitting knowledge, the pedagogical pianistic lineage they helped establish. The classroom experience of such witnesses, all of them great interpreters in their own right, improves our knowledge of the so-called French piano school, also unveiling the influence on some of the legendary teachers of new approaches to technique and interpretation borrowed from other national schools of piano.

 


Uma pianista surpreendente

Não há cérebro melhor para fazer música
do que o de Tatiana Petrovna Nikolaieva.
Sviatoslav Richter

No blog do dia 15 de Agosto focalizei a notável Maria Yudina em suas interpretações rigorosamente pessoais, resultado de tantas opções na vida concernentes a outras áreas. Tatiana Nikolaieva tem perfil distinto. Membro do Partido Comunista desde 1956, sem contudo ter-se engajado na causa, Nikolaieva forjaria uma carreira sui generis e dois compositores preponderariam em seu vastíssimo repertório, J.S.Bach e Dmitri Shostakovich. Dotada de uma memória prodigiosa, em seu repertório imenso muitas obras foram apresentadas em público poucos dias após aprendê-las.

Tendo participado do Concurso Bach em Leipzig em 1950, obtém o primeiro prêmio. Shostakovich, que integrava o júri, ficou impressionado com os dons de Nikolaieva. A ela dedicaria os 24 Prelúdios e Fugas op. 87, obra cuja publicação dependeu de várias tratativas, pois entendida pela Nomenklatura como “formalista”. Enfim, é publicada e estreada pela pianista aos 23 de Dezembro de 1952 em Leningrado. A pianista foi a intérprete preferida do compositor. O opus 87, assim como tantas outras, Nikolaieva apresentaria nos muitos países satélites da União Soviética e no Ocidente.

Clique para ouvir, na interpretação de Tatiana Nikolaieva, o Prelúdio e Fuga op. 87, nº 7 de Shostakovich:

https://www.youtube.com/watch?v=3w0C3Ipwxkw

No ano de 1951 receberia o prêmio Stalin como compositora, mercê de seu Concerto para piano e orquestra, sendo que em 1983 foi proclamada “artista do povo”.

Clique para ouvir, na interpretação de Tatiana Nikolaieva, o Estudo em Mi Bemol Maior de sua autoria:

https://www.youtube.com/watch?v=CuIFhwDvO78

 

Em 1959 torna-se professora do Conservatório Tchaikovsky em Moscou, sucedendo seu ilustre professor, Alexandre Goldenweiser. Em 1993, executando os 24 Prelúdios e Fugas de Shostakovich em São Francisco, nos Estados Unidos, sofreria um AVC, vindo a morrer nove dias após.

Ficaram marcados os ciclos J.S.Bach, Beethoven e Schumann, assim como a incursão no repertório de seus contemporâneos, como a Sonata para piano de Henri Dutilleux e o Capriccio para piano e orquestra de Stravinsky. Sobre essa obra, fato memorável se deu quando o compositor visitou Moscou a fim de participar de um Festival e propuseram o seu Capriccio no programa. Como não houve quem o pudesse preparar em tão pouco tempo, Nikolaieva se habilitou e não apenas ensaiou com a orquestra, realizando leitura à primeira vista, como o tocou de memória durante o concerto.

A sua compreensão da obra de J.S.Bach era decantada e prolongar-se-ia após sua morte. Assim como Claudio Arrau e Edwin Fischer, Tatiana Nikolaieva apresentou em público a integral do compositor alemão. Sua leitura da obra de Bach segue a tradição, mas Nikolaieva imprime suas impressões digitais. Suas interpretações das Variações Goldberg e do Cravo bem Temperado são rigorosamente referenciais.

Clique para ouvir, na interpretação de Tatiana Nikolaieva, a Partita nº 1 em Si bemol Maior de J.S.Bach. A se observar, entre tantos outros processos da técnica pianística, a peculariedade de seus staccatos:

https://www.youtube.com/watch?v=4QTtcNWr7q0

Alexandre Scriabine igualmente fez parte de seu vasto repertório. Nikolaieva compõe a lista dos grandes scriabinistas. Ouçamo-la a interpretar os oito Estudos op. 42:

https://www.youtube.com/watch?v=aTlzKA91GIE

Como professora não impunha sua vontade e, desde que a interpretação fosse a seguir preceitos da partitura e da individualidade, a excluir o livre arbítrio, aceitava-a de bom grado. Dizia que disciplina e paixão são ferramentas indispensáveis e que uma obra a estudar deveria ser fonte de perene alegria. Seus pósteros afirmavam que aprendeu um dos Concertos para piano e orquestra de Brahms nos seus trajetos de ônibus e que a prática de aprender uma música sem a necessidade do instrumento lhe era habitual.

Tatiana Nikolaieva foi certamente um dos grandes fenômenos pianísticos do século XX. Sua concepção interpretativa tem quase sempre a amplitude de uma orquestra, pois timbres variados, graduação agógica, sentido pleno da dinâmica, articulação diferenciada e rica, pedalização ímpar, detectável mormente na obra de J.S.Bach, a privilegiar as grandes linhas, imprimem a cada obra executada singularidade raramente encontrada. Assim como alguns luminares da arte pianística de antanho, Nikolaieva tinha uma cultura geral respeitável. Ela confessava que não apenas a música era foco de suas atenções, mas a arte como um todo, pintura e literatura preponderando.

O curto documentário sobre Tatiana Nikolaieva, com legendas em inglês, pode se acessado através do YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=Wtu81rUqrfk

The Russian pianist, composer and pedagogue Tatiana Nikolaieva (1924-1993) was one of the greatest pianistic phenomenon of the last century. In 1950 she won first prize at the Bach Leipzig piano competition, where she met Dmitri Shostakovich (a member of the jury panel). It was the beginning of a lifelong friendship with the composer, who considered Nikolaieva the best interpreter of his music. His 24 Preludes and Fugues have been dedicated to her, who premiered the work in 1952. Famous for her remarkable memory, Nikolaieva built up a huge repertoire, the names of Bach and Shostakovich standing out. Her performances had almost always the amplitude of an orchestra, with varied timbres, nuanced agogics, full sense of dynamics, rich articulation and unique use of pedals giving to her music a seldom found originality. For those who want to know her better, I give the link to a short documentary with English subtitles available on YouTube.


 

 

Idalete Giga e a leitura constante dos blogs

Escrevendo ou lendo nos unimos para além
do tempo e do espaço, e os limitados braços
se põem a abraçar o mundo;
a riqueza de outros nos enriquece a nós. Leia.
Agostinho da Silva

Diversas vezes escrevi sobre a notável especialista em Canto Gregoriano Idalete Giga, Diretora do Centro Ward de Lisboa. Conheci-a em 1981, pois discípula de nossa saudosa amiga, a ilustre professora Júlia d’Almendra (1904-1992), fundadora do Centro de Estudos Gregorianos em 1953, futuro Instituto Gregoriano de Lisboa (1976).

Quase todos os anos dou recitais em Portugal e nossos encontros são inevitáveis, prazerosos e profícuos. Há tantos temas em nossa área musical no sentido amplo e tenho a convicção de que nos enriquecemos mutuamente.

Idalete é leitora fiel de meus blogs semanais, fato que me traz alegria. A pandemia impediu-me de estar em Portugal neste 2020. Há meses não nos comunicamos. Todavia, foi uma surpresa agradável receber sua mensagem, a fazer uma síntese dos blogs que mais a sensibilizaram a partir do dedicado à grande pianista Guiomar Novaes em 9 de Maio último.

Transmito ao leitor a mensagem de Idalete Giga, como o faço com os e-mails do compositor francês François Servenière a focalizar sempre determinado post, estendendo largamente suas convicções a respeito da temática. Desta vez é Idalete que, ao opinar sobre blogs de Maio ao presente, bem focaliza essencialidades dos temas abordados.

“Sempre Querido Amigo José Eduardo,
Estive a ver o último e-mail que lhe enviei. Foi a 6 de Maio. O tempo passa muito depressa, apesar da situação de pandemia que estamos a viver. Aliás, perdemos até um pouco a noção do tempo.

Peço desculpa por ter deixado passar praticamente três meses sem lhe escrever. Fui, no entanto, lendo os seus posts, que são sempre para mim uma aprendizagem preciosa.

Já que tomo sempre algumas notas quando leio os seus textos, vou referir-me a alguns que mais me emocionaram. Fiquei encantada com tudo o que escreveu sobre a extraordinária pianista Guiomar Novaes. Que bela quadra do nosso saudoso e querido Agostinho da Silva como prelúdio do post de 9 de Maio! Congratulo-me com o querido Amigo por fazer lembrar, sobretudo aos brasileiros, essa genial pianista. Ouvi as gravações que inseriu nos posts de 9 e 16 de Maio (Rapsódia Húngara, de Liszt, Orfeu e Euridice , de Gluck-Sgambati e o Concerto para piano nº 20 em ré m, K.466, de Mozart!) . Qualquer das interpretações revela uma grande intérprete. A Melodie emocionou-me especialmente. Que expressividade, que delicadeza! Gluck choraria ao ouvi-la. Partilhei-a na minha página do facebook, bem como o Concerto de Mozart.

No seu texto de 23 de Maio , mais uma vez cita no prelúdio do post um pensamento de Agostinho da Silva, que achei profundamente filosófico: ‘Deus não se afirma nem se nega. Deus é, mesmo quando não é, numa plena manifestação da sua extrema liberdade’. Gostei da entrevista que fez ao seu irmão Ives depois de todo o sofrimento por que passou no hospital e também dos dois artigos que ele escreveu. Graças ao Pai do céu, seu irmão regressou ao mistério que é a própria vida.

Ainda em Maio, o que escreveu sobre os Carnets de Saint-Exupéry revela muitos aspectos desconhecidos deste desse grande humanista.

Adorei o seu post sobre Clara Haskil. Das gravações que inseriu no Youtube e que ouvi, partilhei a Toccata em E m, de Bach. Que maravilha! Como é possível haver tanta ignorância sobre Clara Haskil e outros geniais pianistas que foram atirados para o mundo vazio do esquecimento?

As magníficas interpretações do José Eduardo de Les Tourbillons, de Dandrieu e Rameau, também as partilhei na minha página do facebook. Que desenho belíssimo do nosso querido e saudoso Luca Vitali, O giro da bailarina, a ilustrar o post. No Alentejo chamamos, ao turbilhão provocado pelo vento, um ‘espoginho’.

No post de 20 de Junho, as interpretações do pianista russo Emil Gilels são de cortar a respiração. Adorei sobretudo o Prelúdio em si m, de Bach-Siloti, e o célebre Concerto para piano nº 1, de Tchaikovsky. Interpretação vigorosa e ao mesmo tempo profundamente poética e romântica. Os temas dos vários andamentos são, aliás, belíssimos e inesquecíveis.

Fiquei impressionada com Sviatoslav Richter ao ver o documentário Enigma, de Bruno Monsaingeon. A sua interpretação da Fantasia & Fuga em Lá m, de Bach, é um monumento. Como Bach adoraria ouvir esse genial pianista. Partilhei na minha página e muitos amigos ficaram também impressionados com o virtuosismo de Richter. Ele desfaz-se em precisão rítmica! É único!

Desconhecia as obras interessantíssimas que o compositor contemporâneo Paulo Costa Lima lhe dedicou e que o José Eduardo interpreta genialmente. Pega essa nêga e chêra op. 28 e também Imikaiá op. 32 sugerem-me água em límpidas cascatas. O Ponteio-Estudo é de uma grande dificuldade interpretativa. Parabéns pelas suas interpretações! Estive a ver o link sobre o compositor e fiquei encantada. Encantou-me, sobretudo, a ligação que Paulo Costa Lima faz entre a música popular tradicional e a música erudita contemporânea.

Quanto aos posts de Julho, em que o Amigo escreve sobre as problemáticas da Música Clássica ( I e II ), a quadra de Agostinho da Silva, a preludiar o post de 11 de Julho,  ‘Não corro como corria/ Nem salto como saltava/ Mas vejo mais do que via/ E sonho mais que sonhava’ revela a profunda vivência e sabedoria dos velhos.

Creio que a diminuição de público nas Salas de Concerto é o resultado, sem dúvida, de uma Educação deficiente. Mas também se deve a uma ‘dessacralização’ do Ocidente , ou seja, ao desprezo por tudo o que é sagrado, cujo sentido se perdeu. Sendo a Música – popular e erudita, religiosa ou profana – a alma do som, a espiritualização sonora, nada disto interessa hoje aos materialistas e consumidores exacerbados de música barata , medíocre, descartável , ruidosa, que tem contribuído para a decadência da civilização. Justiça seja feita à China, que pretende mostrar ao mundo que assimilou a cultura ocidental, tendo criado centenas de Conservatórios e fábricas de instrumentos musicais…. e ultrapassa o Ocidente!

É uma distorção da mentalidade e mais uma vez uma triste ignorância considerar a Música clássica ligada ao racismo, como se a Música tivesse a cor branca, negra ou amarela. As citações que o José Eduardo menciona, uma de Rameau, ‘A música é a linguagem do coração’ e outra de Albert Schweitzer ‘Quando o homem aprender a amar o menor ser da Criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará de ensiná-lo a amar o seu semelhante’ revelam, sem dúvida, a alma da grande Música (a Mãe de todas as Artes), que é espiritual e profundamente humana.

Não sabia que Luiz Godoy (que dirige os Pequenos Cantores de Viena) tinha sido seu aluno. PARABÉNS! Adorei ouvir a obra de Dick Lee,  Home, pelos pequenos cantores de Viena, outros coros e a Orquestra Filarmónica Juvenil de Singapura. dirigida por Godoy. Partilhei na minha página do Facebook.

Também achei muito pertinente o seu texto sobre La Peste, de Albert Camus (post de 25 de Julho), em que faz a comparação com a actual pandemia que estamos a viver. As tragédias humanas continuam a repetir-se e não são coisa do passado, infelizmente. A actual pandemia tem uma relação directa com a poluição do nosso planeta, que continua a ser destruído. E os déspotas, os governos tiranos não querem ver….

Nos ecos de La Peste fiquei triste com a afirmação de Vargas Llosa, que considera medíocre esta obra de Camus. Não consigo compreender tal afirmação de um homem tão inteligente e humano como Vargas Llosa.

Quanto ao excelso pianista chileno Cláudio Arrau, basta ouvir a sua interpretação da Sonata Appassionata, de Beethoven, para não restarem quaisquer dúvidas da sua genialidade.

Depois de ler o seu post e de ouvir as gravações da pianista russa Maria Yudina, só posso agradecer esta dádiva preciosa e não poderia nunca deixar de escrever algumas palavras, embora insuficientes para expressar, com emoção, a personalidade de tão grande e genial pianista. Na verdade, ela não se enquadra em nenhum “formulário” saído da tradição. A sua filosofia de vida, o seu inconformismo, o seu despojamento perante as riquezas materiais, a sua simplicidade, bondade extrema e profunda religiosidade (era uma cristã ortodoxa convicta), o amor que nutria pelo seu povo, para quem tocava e por quem sofreu, todos estes aspectos da sua personalidade nunca poderiam conduzir Yudina a clichés interpretativos, a imitações ou à dependência fosse de quem fosse. Ela encarnava a própria Música. Por isso, as suas interpretações são únicas, pessoais, e revelam bem a alma dessa mulher extraordinária. Ela teve a coragem de enfrentar o déspota e cruel Stalin, que se rendeu à sua genialidade. Se a interpretação sublime do Adagio do Concerto nº 23 em Lá M K.488, de Mozart, fez chorar Stalin, a interpretação de  Lacrimosa, do Requiem de Mozart (incluída no Documentário russo  Alma Mater), é como uma marcha fúnebre em que Maria Yudina chora por todos os compatriotas perseguidos e mortos.

Afirmava que para ela só havia um caminho para Deus, a Arte. Para compreendermos esta afirmação da própria Maria Yudina basta ouvir a sua interpretação do Prelúdio & Fuga em Lá m para órgão, de Bach (transcrição para piano, de Liszt), num Concerto ao vivo, em 1953. É o esplendor da Beleza. Bach devia ser a sua luz, a sua inspiração. Não admira que, em Leipzig, tenha atravessado de joelhos a praça que a conduziu à estátua do grande Mestre. Emocionante.

Obrigada, querido Amigo, por nos proporcionar interpretações únicas e históricas de grandes pianistas que vieram ao mundo para torná-lo mais belo e humano”.

A mensagem de minha dileta amiga e notável gregorianista corrobora a vontade de continuar. Desde 2 de Março de 2007 ainda não deixei de publicar um sábado sequer meus blogs hebdomadários. Já escrevi que a respiração não pede férias. Continuarei até…

Clique para ouvir pelo Coro “Capela Gregoriana Laus Deo”, Natal de Elvas, Cancioneiro Alentejano. Harmonização e regência Idalete Giga:

https://www.youtube.com/watch?v=l5YnExjckwU

Idalete Giga, choral conductor and an authority on the performance of Gregorian chants who lives in Portugal, is also a longtime friend and attentive reader of my blog. What a surprise to receive a message in which she comments on each of my posts published from last May to the present. Today I share her words with my readers. Idalete is a music lover and  I believe her thoughts can deepen our understanding of the topics addressed.