“Muros: Partir e Construir”

O único sucesso da razão humana
foi a descoberta do princípio da dialética.
Andreï Tarkovski
(Journal, 1970-1986)

Assistimos, no Consulado Geral de Portugal em São Paulo (02 de Novembro), à mostra de oito curtas realizadas por criadores portugueses contemporâneos, na tradicional programação “Cine Lusco Fusco – tardes de cinema”, sessões realizadas periodicamente aos sábados.

Inicialmente, a mostra “Muros: Partir e Construir – Contributos artísticos de Portugal para uma reflexão global” (2010, 14′) leva à elucubração e revela aspecto nem sempre lembrado em sua essência essencial, a diáspora, que permanece atavicamente no de profundis de cada cidadão. Crises econômicas, políticas, religiosas e sociais serão sempre responsáveis para dispersão dos povos. Meu saudoso pai, nascido na região de Braga, para cá veio em 1928 e jamais retornou ao Minho, mas sempre a devotar amor ao torrão natal. Quantos milhares de portugueses, italianos, espanhóis, japoneses, sírios e libaneses não fizeram o mesmo, desembarcando em nossas terras e aqui constituindo suas famílias?

Apesar da unicidade da mostra, as abordagens foram bem diferenciadas, sendo que dois curtas metragens representariam, talvez, a antítese dessa diáspora.

Em “Casas para o povo” (2010, 14’), realização de Catarina Alves Costa, a fixação seria a aspiração válida de moradores pobres por moradias dignas. Uma pesquisa nos arquivos, que se estendem de Agosto de 1974 a Outubro de 1976, levou a realizadora e antropóloga a edificar um curta, a privilegiar Lisboa e Porto, em que cidadãos menos favorecidos reivindicavam moradias decentes. Como assevera Catarina Alves Costa: “É a história do SAAL, Serviço de Apoio Ambulatório Local (1974-1976), um movimento lançado após a revolução por um grupo de arquitetos que respondia à luta de rua dos moradores sem recursos que, no Verão de 1974, gritavam ‘Casas Sim! Barracas Não’ ”. Leitura outra de uma categoria de “diáspora” no próprio território português.

De instigante interesse o curta “ON EXILE, elsewhere within here” (2017, versão curta de 2019, 15’), filme de José Carlos Teixeira. Depoimentos pungentes de refugiados muçulmanos do Norte da África e do Oriente Médio, asilados nos USA, narram dramas e tragédias. Desraizados, entendem o presente, sonham retornar, apesar de terem assistido à destruição de suas comunidades e à morte de parentes e amigos. Acostumamo-nos às mídias internacionais, que rarissimamente ouvem esse emigrante internamente dolorido. Dos muitos entrevistados, apenas uma mulher já madura atesta acostumar-se à realidade, mas também sonha regressar. As vozes individuais dão por vezes espaço ao silêncio para que as ideias sofridas vertam, o que provoca ainda mais a sensação da tragédia vivida por esses desafortunados personagens.

“Teresa” (2017, 4’,37”), realização de Tânia Dinis, apresenta-se no idioma Changana, um dos existentes na África austral e uma das línguas de Moçambique, ex-colônia portuguesa. Bem fragmentado, “Teresa” apresenta-se como memória individual onde estão em causa partida e regresso.

Particularmente causou-me forte impressão “Penúmbria” (2016, 9’), realização de Eduardo Brito. Impressa no programa, a descrição: “Penúmbria foi fundada há duzentos anos num extremo de difícil acesso. De solos áridos, mares revoltados e clima violento, ficou a dever o seu nome à sombra e à nebulosidade quase permanentes. Até que um dia, os seus habitantes decidiram entregá-la ao tempo. Esta é a história de um lugar inabitável”. Penúmbria, cidade imaginária e abandonada por seus habitantes é a diáspora sem o sonho do retorno. Cenas de ruas desertas, prédios não destruídos, mas sem vida, sensivelmente focalizados, sempre tendo o mar revolto em fúria constante a instigar a expulsão dos habitantes, poderiam suscitar até, num voo imaginário, o vazio ou desespero a que chegou a pequena população “de um lugar inabitável”. Uma centelha de esperança permaneceria na cidade, pois uma moradora e seu cão, assim como um homem nas cenas finais, permaneceram.

Poder-se-ia entender “Água Mole” (2017, 9’15”), realização de Alexandra Ramires (Xá) e Laura Gonçalves, como apenas uma animação (vários colaboraram) a beirar o amadorismo. Contudo, a mensagem desse curta leva-nos a refletir sobre essas pequenas aldeias portuguesas com pouquíssimos habitantes enraizados, envelhecidos, que ao final permanecem, simbolicamente, numa casa que flutua. A música, com forte apelo ao ideário campesino, corrobora a sensação de nostalgia, assim como a do isolamento como destino.

“Arquivo e Domicílio” (2014, 5’14”), realização de José Maçãs de Carvalho, é rigorosamente minimalista no sentido amplo. Desconcertante, no caso. Estou a me lembrar de criações minimalistas para piano do ilustre compositor santista Gilberto Mendes (1922-2016). Interpretei-as em muitos recitais. Todavia, disse-lhe que flutuações dinâmicas nas inúmeras repetições dariam anima às partituras. Aquiesceu. Durante os 5’14” do curta, escrivão carimba página por página de um maço de papel. O rosto do escrivão fica oculto, mas o gesto repetitivo do carimbar papel após papel, com o ruído sem alteração, poderia até fazer supor a desesperança total. Não deixei de pensar no magistral “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, como antítese do que assisti através do curta.

“Femmes” (2012, 2’50”), realização de Tânia Dinis, apresenta quatro mulheres completamente nuas, bonitas aliás, que sentam, caminham, gesticulam em um jardim. Lembrei-me do pintor Maurice Denis (1870-1943), do grupo nabi, e suas belas mulheres em tantas telas imortalizadas. A música de Jorge Quintela possivelmente estaria mais adequada para outra encenação menos idílica.

“Ordem e Progresso (Pixote)” (2017, 3’), realização de Daniel Moreira e Rita Castro Neves, faz pensar. Reza o texto: “O vídeo é um plano fixo que, enquadrando três edifícios de cinzenta arquitetura, vai sendo invadido pelo movimento, sub-reptício e a meia haste, de uma desproporcionada bandeira do Brasil (a da justamente chamada Praça da Bandeira, no centro de São Paulo). A simbólica bandeira de Ordem e Progresso magnetiza como um sinal dos tempos Temer-osos, escondendo-se e ressurgindo atrás de um outro prédio desocupado. Aqui, insígnias da tradicional pixação paulista juntam-se a uma homenagem à personagem do filme icônico brasileiro Pixote (Hector Babenco, 1980)”. Paradoxalmente, a bandeira e sua frase positivista contrapõem-se à realidade paulistana, centro degradado, inúmeros prédios pixados e ocupados desordenadamente, sem contar as muitas dezenas de moradores de rua no entorno. O aparecimento da bandeira a tremular por trás do prédio desocupado, sua permanência e retorno ao estado oculto podem ter incontáveis versões neste país que continua à deriva, mormente desde o início deste século. A incerteza em futuro promissor não seria a causa da contramão do fluxo migratório, pois quantos já não deixaram nossas terras numa viagem sem retorno, nessa interpretação outra da diáspora? Na manhã desta quinta-feira, 7 de Novembro, ouvi  a notícia de que o principal dos quatro símbolos nacionais, congregador da nação brasileira e içado na Praça da Bandeira, está rasgado. Faz pensar.

In this post I write brief comments on a series of eight short films — made by independent Portuguese filmmakers — shown last Saturday at the cultural event entitled Cine Lusco Fusco at the Consulate General of Portugal in São Paulo. Though not all the films focus on the same topic, the underlying theme of most of them is the diaspora of communities from their original homeland. The programme featured the following films: Casas para o povo, by Catarina Alves Costa; On exile, elsewhere within here, by José Carlos Teixeira; Teresa, by Tânia Dinis; Penúmbria, by Eduardo Brito; Água Mole, by Alexandre Ramires (Xá) and Laura Gonçalves; Arquivo e Domicílio, by José Maçãs de Carvalho; Femmes, by Tânia Dinis; Ordem e Progresso (Pixote), by Daniel Moreira and Rita Castro Neves.

 

Qualidade repertorial a contradizer silêncio da mídia

Será necessário que o intérprete moderno
tome para si a responsabilidade de completar
a leitura de um manuscrito imaginando
mil pormenores que escapam à notação.
André Souris
(“Conditions de la Musique”)

Que repertório qualitativo pouco frequentado fica a depender de tantos fatores voltados à divulgação é fato. Estou a me lembrar que nos anos 1970 dei palestras em Goiânia sob o patrocínio da MUZIKA, escola de interpretação e dança, a abordar o tema do repertório não visitado pelos intérpretes, mesmo a merecer, pela qualidade, ampla divulgação. Décadas se passaram e poderia repetir as palestras sem nada alterar, mas com uma agravante, a decadência cultural atingiu a divulgação das apresentações de música erudita, mesmo que, em menor escala, programada com autores consagrados. Se isso está a ocorrer, mais sensivelmente o repertório pouco conhecido está fadado a ações voluntárias esparsas. A mídia brasileira dá ínfimo espaço à música erudita. Para as obras de extraordinário valor, mas ainda pouquíssimo divulgadas, a situação é quase caótica.

Considerando-se autores consagrados e presentes nos programas durante séculos, qual a razão para que, das 32 Sonatas para piano de Beethoven, apenas uma dezena seja insistentemente visitada? Seriam muitas outras inferiores? Repetidamente interpretadas, essas tantas Sonatas adquirem uma aura diante do público, possibilitam a insistente reescuta, motivam a comparação que os leigos fazem da execução de um intérprete frente a outro. Tornaram-se a Mona Lisa de Da Vinci ou o Semeador de Van Gogh. Fato semelhante se daria com as obras sinfônicas, óperas, música de câmara de inúmeros autores. Com uma pinça a história da interpretação retira da opera omnia de um autor determinadas composições. Eleitas, perduram per saecula saeculorum.

Tendo apresentado décadas atrás as integrais de Jean-Philippe Rameau (ao piano), Claude Debussy, Modest Moussorgsky e Francisco de Lacerda, verifica-se ao longo do tempo que apenas determinadas obras são “pinçadas” e continuarão isoladamente a ser ungidas pelos intérpretes. Independentemente desse pinçamento histórico, concorrem também a repetição repertorial empreendida por professores de instrumento de todo o mundo, que insistem na repetição, assim como concursos nacionais ou Internacionais de instrumento. Fato concreto nesse mister é a seleção que se faz de obras para os concursos. Bem prioritariamente as mesmas criações. De tal compositor podem tais e tais obras, em detrimento de outras persistentemente ignoradas. Qualidade maior das eleitas? Raras vezes. Das cinquenta e tais peças de Rameau para cravo, apenas 10% são visitadas esporadicamente por poucos intérpretes pianistas. E há quantidade excelsa na integral para teclado de Rameau. Considerando-se criações de Debussy, Clair de Lune, Arabesques, La Cathédrale Engloutie e Feux d’artifice como exemplos, caíram no gosto do público. Superior às dezenas de criações para piano do compositor? Certamente a preferência nasceu por circunstâncias do acaso, de títulos poéticos e até misteriosos, ou de outras mais conotações. Se os extraordinários Quadros de uma Exposição de Moussorgsky granjeiam repercussão permanente, as tantas outras pequenas criações para piano, que juntas seriam outros Quadros, permanecem sem a visitação de que seriam merecedoras.

As palavras acima ratificam o pouco interesse pela divulgação de Francisco de Lacerda, mormente a se ter em conta o desconhecimento pleno que se tem em nosso país das suas criações e a pouca frequência na programação em Portugal. Contudo, no pequeno auditório do Ateneu Paulistano da Sociedade Brasileira de Eubiose, a recepção às obras de Francisco de Lacerda, mormente as Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste, foi intensa. Ao multum in mínimo lacerdiano, aqueles que compareceram ao recital reagiram fortemente às mensagens do compositor açoriano no ano do sesquicentenário de seu nascimento.

Diferentemente do que foi feito em várias cidades portuguesas em 2011, em que as apresentações tinham a apoiá-las o power point preparado pelo ilustre professor da Universidade de Coimbra, o musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso, na impossibilidade da utilização de uma tela ao lado do piano na acolhedora sala paulistana, verbalizamos as epígrafes e as frases programáticas inseridas por Lacerda em muitas das histórias. Com um microfone, Marta Salles Corrêa de Oliveira, esposa do compositor Willy Corrêa de Oliveira, lia pausadamente os títulos e eu fazia o mesmo com as epígrafes ou frases contidas em certas histórias. Experiência que deu certo e que mereceu muito boa acolhida.

Na segunda parte, Zara – epitáfio para uma criança, do homenageado, e In memoriam Francisco de Lacerda, de Willy Corrêa de Oliveira, amalgamaram-se, pois a também miniatura de Willy fazia alusão a tantas lembranças… Dois dias antes do recital toquei, como ensaio, as Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste de Francisco de Lacerda para Willy em minha casa. Ao findar, o ilustre compositor e pensador apenas disse: “essa obra é um milagre”!

O programa completou-se com a Danse du voile-Danse Sacrée de Lacerda e as célebres Danses Sacrée e Profane de Debussy, na transcrição para piano solo do editor do compositor francês, Jacques Durand.

Fiquei mais uma vez convencido de que, se houvesse guarida da mídia para eventos dessa natureza, em que obras excelsas são apresentadas, o repertório sacralizado e repetido sem limites teria uma injeção de novas partituras de autores que, pelos mais variados motivos, não conseguiram vencer uma barreira sem o menor sentido de existir, mas a permanecer quase intransponível. O desconhecimento de repertório qualitativo não frequentado limita o conhecimento, empobrece as mentes, pois tesouros jamais ouvidos jazem enclausurados nos arquivos das bibliotecas, consultados por especialistas que tantas vezes, após trabalhos acadêmicos, abandonam pesquisa realizada. Fato comprovado e hodiernamente repetido não apenas em nossas plagas.

Apesar da decadência cultural sensível, tem-se de olhar para o desconhecido. Autores qualitativos, mas desconhecidos, atendem à expectativa do público de concerto? Se pensarmos nos Concertos para piano e orquestra, possivelmente não chegam a três dezenas aqueles mais ventilados, sendo que desses uns poucos são ungidos em todas as temporadas espalhadas pelo mundo, fazendo parte de todos os repertórios dos virtuoses que percorrem as grandes salas de concerto do planeta. Como exemplos, dos 27 Concertos para piano de Mozart, poucos são os ungidos; dos cinco de Beethoven, prioritariamente apenas três são exaustivamente interpretados.

Apesar dos problemas seletivos do Youtube, que aceita joio e trigo indiscriminadamente, louve-se o fato de que Concertos antes desconhecidos do grande público ao menos podem ser ouvidos. Se chegarão às salas de concerto, só o tempo dirá.

Nos anos 1970 decidi enveredar por repertórios qualitativos pouco frequentados, do barroco à contemporaneidade. Visitando periodicamente obras consagradas, foi na opção escolhida que encontrei o meu norte. Mídia e Sociedade de Concertos têm suas regras, o que leva o intérprete a aceitá-las. Permaneço nessa partícula repertorial se considerado for o imenso universo composicional basicamente ignorado. É o que sei fazer. Semear fez-me bem. Sementes germinarão? Talvez…

Over time, a few classical pieces have been picked out by interpreters and concert societies, while others have been kept in limbo despite their quality. The public that goes to classical concerts keep hearing the same repertoire again and again, while excellent works remain hidden in museums and libraries. Since the seventies I’ve opted for the seldom played repertoire, trying to bring to light unknown treasures. Last Saturday at Ateneu Paulistano concert hall I performed pieces by composers Francisco de Lacerda, whose works are little known in Brazil, Claude Debussy and Willy Correa de Oliveira, with good reception from the audience. I believe it is rather healthy – for the growth of both performers and public –  to promote new works instead of offering the same alternatives year in, year out. I consider myself a sower scattering seeds. Maybe they will germinate.

Duas manifestações que mereceram especial atenção

Deve-se estar atento às ideias novas que vêm dos outros.
Nunca julgar que aquilo em que se acredita
é efetivamente a verdade.
Fujo da verdade como tudo,
porque acho que quem tem a verdade num bolso
tem sempre uma inquisição do outro lado
pronta para atacar alguém;
então livro-me de toda a espécie de poder – isso sobretudo.
Agostinho da Silva
(Entrevista)

Apesar do desconhecimento que se tem no Brasil da criação musical portuguesa de cariz erudito, tiveram invulgar recepção os dois blogs focalizando o compositor Francisco de Lacerda (1869-1934), neste ano em que se comemora o sesquicentenário do músico nascido nos Açores. Gostariam de conhecê-lo mais. Observei no post precedente que brevemente sua produção maior, as “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste”, estará no Youtube a partir de minha gravação para o selo belga De Rode Pomp em 1999, com power point preparado pelo ilustre musicólogo português José Maria Pedrosa Cardoso e a montagem do vídeo pelo devotado amigo Elson Otake, responsável pelas inserções de minhas interpretações no popular aplicativo.

Também, em parte, foi em torno de Francisco de Lacerda que o compositor e pensador Willy Corrêa de Oliveira e eu estreitamos laços de amizade, tênues e sujeitos aos nossos humores no intramuros universitário durante décadas. Dez anos de silêncio após nossas aposentadorias e reencontramo-nos, primeiramente em torno de sua preciosa obra “Recife, Infância, Espelhos…”, 16 peças que estreei em 1989 e que foram gravadas em Maio último na mágica capela de Saint-Hilarius em Mullem, na Bélgica flamenga, para CD a ser lançado em França pelo selo ESOLEM em 2020, junto a obras de François Servenière, Eurico Carrapatoso e Maury Buchala. Nos nossos 81 anos, Willy e eu podemos manter conversas unicamente sobre temas que nos são caros, como música, literatura diversa, poesia…, distantes de quaisquer assuntos da tumultuada vida universitária. Esse tête à tête sem interferências burocráticas ou acadêmicas alegrou nossos corações. Insaciavelmente, a buscar resgatar tempos perdidos, trocamos livros, CDs e filmes, avidamente copiados. Octogenários, ainda encontramos tempo para recuperações e avanços. Já mencionei em posts anteriores o desenrolar dessa nossa “tertúlia” dual.

Duas mensagens recebidas, com teores absolutamente diferenciados, despertaram minha atenção em particular. Regina Porto, musicista, jornalista e promotora cultural de mérito, escreveu-me e-mail que me calou muito. Há longos anos não entrávamos em contato, nem saberia precisar a distância temporal. Parece eternidade. Em torno de Willy em longínqua apresentação e de Francisco de Lacerda a ser interpretado, Regina Porto rememora e capta o instante do acontecido presente. A reminiscência, nessa fase da vida, pode representar tantas outras memórias. A mensagem de Regina Porto faz-me lembrar dos símbolos que, passados 30 anos, não dimensionara à altura. Percebo, através da escrita da amiga, que eram marcos de resistência. Diminuto e fiel público, a ouvir a primeira audição de criações do Willy Corrêa de Oliveira num período em que nossos laços amistosos não eram constantes.

Regina Porto, dotada de fina observação, apreendeu essencialidades de um relacionamento entre dois músicos. No dizer de Stravinsky, na entidade musical há somente duas espécies de músicos, o criador e o intérprete. Mas há mais, acredito, a depender de voos para outras áreas do pensar que dimensionam as duas categorias de músicos. Sem esses acervos reflexivos, por vezes fruto do acaso, lacunas insanáveis estiolam possibilidades. Ausência de amarras, sempre. Escreve Regina Porto, após meu pedido para estar presente ao recital do dia 26 de Outubro no Ateneu Paulistano em São Paulo:

“Você nem imagina os pulos que meu coração deu com a sua mensagem e o seu convite. É uma memória inteira que voltou, de tantas vivências musicais que partilhamos.

E uma dessas vivências primeiras e mais fortes é justamente a lembrança de você tocando Willy no Conservatório do Brooklin em 1988. Aquele foi um momento histórico que me marcou muitíssimo. Está no centro de toda a aproximação que vim a ter com o Willy tantos anos depois. E de tudo o que eu viria a entender dele a partir daí.

Então, vê-los juntos no palco novamente, em um recital, 30 anos depois (!), é coroar um capítulo de vida, se posso dizer assim. No sentido de entender que a vida ajusta as coisas, todos os desvios, todos os desencontros – ou simplesmente que põe todas as coisas nos seus devidos lugares, num gesto maior de compreensão. E no caso seu e do Willy é um ciclo de anos que se completa: as duas pontas se encontrando de novo. É muito lindo. Muito. Fico mesmo comovida.

Isso tudo para dizer o quanto estou encantada. E o quanto quero poder estar lá para, mais uma vez, ser testemunha de um momento histórico e extraordinário.

A última vez em que estive na casa do Willy (semestre passado), a primeira coisa que ele tocou ao piano para mim foi justamente esse Lacerda que você deu a ele. Significou muito para ele, o seu presente, você nem imagina. Você sabe, o Willy é todo ritualístico, me fez ouvir sem dizer o que era, sem que eu pudesse olhar a partitura, nada, aquelas coisas dele. E fui ouvindo aquela peça e me afundando na poltrona até ficar paralisada, sem reação, de tão profunda e imensa é essa miniatura. Agora só posso ansiar pelo que seja a intensidade de resposta do Willy. E posso intuir o que ela já representa para vocês dois.

Então, muito obrigada por convocar minha presença.

E aqui volto ao chão.

… Não queria perder por nada esse recital. E caso, em último caso, se isso não for possível, deixo desde já um pedido: gostaria de vê-los juntos uma vez, você e Willy, tocando e falando música. Seria uma honra viver isso”.

A miniatura de Lacerda tem título e subtítulo: “Zara – Epitáfio para uma criança” e, a anteceder os 23 compassos da peça, estrofes de um poema de Antero de Quental (1842-1891), igualmente açoriano:

Feliz de quem passou por entre a mágoa
E as paixões da existência tumultuosa,
Inconsciente como passa a rosa,
E leve como a sombra sobre a água

Era-te a vida um sonho, indefinido
E tênue, mas suave e transparente,
Acordaste – sorriste… e vagamente
Continuaste o sonho interrompido

Willy captou a essência essencial de “Zara” em sua “In memoriam Francisco de Lacerda”, miniatura atemporal.

Ao leitor José Alberto, autor da segunda mensagem, respondo através de artigo com o título “Francisco de Lacerda e Claude Debussy por José Eduardo Martins”, publicado aos 12 de Janeiro de 1992 em ‘O Telégrafo’, Horta, capital da Ilha Faial, uma das nove do arquipélago dos Açores e assinado pelo redescobridor de Francisco de Lacerda, o musicólogo, também açoriano, José Manuel Bettencourt da Câmara. Anunciava a digressão que realizei àquela altura por três ilhas, Faial, Terceira e São Miguel.

“Encontrámo-nos pela primeira vez vai para três anos, na tarde acalorada duma Lisboa de Junho. José Eduardo Martins havia dado aqui o recital que o trouxera a Portugal, e eu falhara. Telefonara-me um crítico musical seu amigo, propondo o encontro, e a razão, para mim, já então com notícia, se bem que imprecisa, do percurso do pianista brasileiro, adivinhava-se facilmente: ao intérprete de Debussy, ao músico formado na velha França, interessavam naturalmente os traços que na música portuguesa encontrasse do chamado impressionismo musical, interessaria, concretamente, Francisco de Lacerda. Se algumas responsabilidades me já cabiam na matéria, havia, pois, que arcar com elas…

Para um segundo encontro, dias depois, em casa da minha velha professora, sua amiga igualmente, D. Júlia d’Almendra, apareci munido, como assentáramos, da cópia de trechos inéditos de Francisco de Lacerda, que previamente selecionara (das ‘Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste’ obtivera já José Eduardo Martins um exemplar da minha edição, incluída na coleção ‘Portugaliae Música’ da Fundação Calouste Gulbenkian).

Escutei-lhe então a leitura, à primeira vista, de algumas peças que, se não são de dificuldade transcendente, apelam, contudo, a outras qualidades de que não pode o pianista prescindir. Lembro ainda o esvoaçar leve de ‘Papillons’, sem hesitações, o elaborado modalismo de ‘Feuilles mortes’, o contraponto de ‘Danse funèbre’ – tudo, o que é sem dúvida mais importante, já na boa opção interpretativa, na melhor configuração estilística. Era a primeira vez que aqueles sons – que, tanto quanto sei, não tinham ainda conhecido outros dedos além daqueles que os haviam criado (e dos meus, que décadas passadas sobre a morte do compositor, os procuraram recuperar) – passavam a um outro plano de existência, objeto de diferente exigência interpretativa”.

Fica-me indelével esse sesquicentenário. Propiciou-me a introspecção sonora nessa fase crepuscular. Sondar o som puro que se desprende das harmonias para vibrar com as consequentes ressonâncias que lhe dão permanência, mesmo que efêmera. Mas, não seria a ressonância a alma inefável do som ou dos sons? Francisco de Lacerda, legado.

In this post I publish a message that touched me deeply, in which the journalist and musician Regina Porto whom I’ve known for a long time , recollects with affection the roundabout course of my relationship with composer Willy Corrêa de Oliveira through time. Next, in reply to a reader, I transcribe an article appeared in 1992 in the newspaper “O Telégrafo” (from Faial Island, Azores), entitled “Francisco de Lacerda and Claude Debussy by José Eduardo Martins”, signed by musicologist José Maria Bettencourt da Câmara. This article, so I think, well explains the genesis of my admiration for the work of the Portuguese composer Francisco de Lacerda.