Reminiscências da infância

Por uma noite, em criança,
tive uma estrela que brilhou pela minha vida inteira.
Willy Corrêa de Oliveira
(Extraído da passagem “Apocalipse no fundo do quintal”)

Willy Corrêa de Oliveira é uma figura de convicções firmes em todas as áreas em que se pronuncia. Compositor de muitos méritos que viaja numa escrita multifacetada, extremamente cuidadosa e sensível. Um dos nomes essenciais da vanguarda no Brasil. Seu pensamento, rigorosamente pessoal, tem sempre profundo interesse. Diria que suas escolhas literárias, musicais e artísticas ratificam seu pensar.

Convivi com Willy durante décadas na Universidade. Éramos colegas. Acredito ter sido Willy o professor mais emblemático da Música na Universidade de São Paulo, pois parte considerável de seus alunos o veneravam e, não raro, seguiam-no pelos caminhos maltratados do entorno do Departamento. Mesmo aqueles que o criticavam jamais o faziam sob o aspecto da essência do que lhes era transmitido, mas sim por suas posturas de impacto e inusitadas frente à classe. Após nossas respectivas aposentadorias em 2008, através da compulsória, não mais o vi. Curiosamente, apesar da ausência de uma aproximação maior com Willy, tivemos dois recentes encontros em que pudemos nos entender bem amistosamente, como jamais ocorrera no campus universitário. É fato. Estamos exatamente nos 80 anos de idade e nessa faixa – é de se crer – distanciamo-nos de qualquer tentativa de simulacro. Fomos ao piano em seu estúdio e nos revezamos na mostragem que ele fez de exemplos de criações recentes e de outras, bem mais antigas, que toquei e que deverão fazer parte de meu próximo CD a ser gravado na Bélgica, na milenar Capela Saint-Hilarius em Müllem. A certa altura Willy me perguntou se tinha medo da morte. Minha resposta negativa deixou-o surpreso, pois asseverou o contrário.

Reações inesperadas de Willy Corrêa de Oliveira são proverbiais e ficaram registradas na memória. Em 1989 fomos ao Rio para a gravação de meu último LP no Brasil para o selo FUNARTE, dele a constar unicamente obras de sua autoria que estudei com entusiasmo. Gravei extenso repertório que seria lançado no ano seguinte. O desvario do recém empossado Presidente Collor de Mello, num desastroso início de mandato, inviabilizou a edição do material gravado, assim como os projetos que estavam em andamento na Instituição. O material desapareceu, exceção à coletânea “Recife, Infância, Espelhos…”, que Willy conservaria em fita cassete e mais tarde em CD particular. Adoro essas 16 peças, que estarão definitivamente gravadas, agora nas melhores condições planetárias possíveis na planura da região flamenga da Bélgica. Estou a me lembrar de que, durante os dias no Rio de Janeiro, fomos jantar com amigos e um convidado. Este era simplesmente esverdeado. A conversa encaminhou-se para a coloração inusitada do indivíduo, que mencionou ter recebido forte e irreversível radiação. Sentado ao seu lado, Willy estava intrigado e não falava. A certa altura – já o tema das conversas era outro – perguntou ao cidadão: “Você esteve em Chernobil?”, a se referir à catástrofe nuclear ocorrida em 1986 na então República Socialista Soviética da Ucrânia. O amargurado homem negou, mas observou que sofrera radiação no Brasil (creio ter mencionado a propagada contaminação por radioatividade ocorrida em Goiânia em 1987). Willy desajeitadamente levantou-se, sem querer provocar reações, e foi-se para outro assento.

Alegrou-me a dedicatória de dois Estudos para piano de Willy: “Hanns Eisler in memoriam: für das volk der DDR” (In memoriam Hanns Eisler: para o povo da DDR), composto em 1989, e “Estudo – retrato de José Eduardo Martins”, finalizado no dia de meu aniversário em 1990. O primeiro, tema com cinco variações, é verdadeira obra-prima, e o segundo a exigir do intérprete o controle absoluto da distância intervalar, mercê da presença de semicolcheias obsessivas em presto. Belo Estudo magistralmente escrito. Apresentei-os publicamente. “Hanns Eisler – para o povo da DDR” (Deutsche Demokratische Republik) em Potsdam e Berlim em fins de Maio e começos de Junho de 1989, na antiga Alemanha Oriental, meses antes da queda do muro. Ao receber o programa em Potsdam das mãos de um administrador – deputado igualmente -, observei que faltava a razão do título, ou seja, o “povo da DDR” enfatizado por Willy. Apenas respondeu-me que havia dois regimes distintos vigentes, mas que o povo da Alemanha era um só, motivo da supressão da sigla. Ao regressar entreguei o programa a Willy Corrêa de Oliveira e a Gilberto Mendes (1922-2016), pois deste também apresentara “Um Estudo? Webern e Eisler caminham nos mares do Sul”. A reação de Willy foi imediata, questionando-me sobre a ausência da sigla DDR. Após minha explicação, recusou-se a receber o programa. Se naquele momento causou-me forte estranheza, compreenderia mais tarde que a reação condizia com um dos atributos ou virtudes de Willy, a coerência.

Dos nossos dois encontros, que se prolongaram em clima extremamente cordial, recebi “Passagens” (São Paulo, Luzes no Asfalto, 2008), livro de Willy editado num formato pequeno, espécie de pasta a abrigar folhas soltas seguindo ordenação alfabética dos títulos, mas a dar liberdade ao leitor de poder fazer sua escolha, organizando-as ao seu gosto. Temos mais uma revisita de Willy à sua infância na cidade que o viu nascer, Recife. Curtas narrativas extraídas do seu de profundis, recuperando momentos, por vezes instantes, que permaneceram inalienáveis num compartimento secreto. E as pequenas passagens, inconfessas durante imensas décadas, fadadas estariam ao ostracismo não fosse a memória que a reteve. Experiências individuais, escondidas durante toda uma existência, afloram com tonalidades narrativas sedutoras. Passagens que contêm introspecção única, não transferível. A quem contaria essas observações lúdicas? Talvez uma ou outra narrativa pudesse ser conhecida. Todavia, a ideia do “livro”, dedicado ao neto Lucas Dessalien, possibilitou lidar com as reminiscências e ligar elos de uma infância feliz. As brevíssimas crônicas passam ao leitor a autenticidade. Willy as escreveu aos 70 anos, num estilo tão ao gosto da percepção dos pequeninos, a estabelecer a aura da magia. Senti esse poder imanente na coletânea para piano mencionada: “Recife, Infância, Espelhos…” de 1989.

A contracapa do livro sintetiza a origem da ideia que levaria à decantação das lembranças: “Neste livro tudo o que é contado ocorreu antes dos 10 anos de idade. Não obstante, não se trata de autobiografia porque o cotidiano nã0 foi cotado. Preferimos indigitar tão só as passagens que observadas desde certo termo da vida do passageiro, aparecessem como passos essenciais (fundamentos): aquelas que se engramaram no ser indiviso, e não só na memória”.

Compartimentados, a maioria dos mais de trinta textos tem títulos sugestivos. Tantos tratam desses lúdicos devaneios rememorados, idílios de uma só via, sonhos de miúdo a ter coleguinhas ou filhas de vizinho como referência. Estando na mesma faixa etária de Willy, também tive minhas musinhas. E como frequentavam minha mente… Willy dedica a elas várias passagens, nomeando-as ou simplesmente mencionando etereamente as pequenas figuras femininas. Seria na passagem “Memórias de Casas Novas” que Willy amplia o leque desses deliciosos idílios da infância e um desenho em espiral na folha do texto contém o nome de algumas dessas meninas. Uma frase em um desses recortes diz tanto: “Encontrei-a numa tarde e brincamos a tarde inteira, e amei-a (sem que ela soubesse) por semanas a fio”.

Uma das virtudes de Willy, tão característica na literatura russa, mormente Dostoiewsky, é a observação. Seja ao tratar do mobiliário e dos espaços onde viveu a infância, descritos nos pormenores, ou quando se fascina pela luz mutante a incidir numa sala ou terraço, o que faz com que o menino acompanhe essas transformações, à la manière de Monet e a Catedral de Rouen, o olhar do garoto recifense está sempre atento e as imagens ficariam indelevelmente gravadas na memória.

Paradoxalmente, Willy, professor que influenciou gerações, graças também à abrangência de seus conhecimentos multidirecionados, comenta em “Bandeira do Reino do Desespero”: “Fiquei no Internato do Colégio Americano Batista do Recife por um semestre (ou dois) na divisão das crianças mais tenras. Afirmavam que aprenderia mais e melhor e que a disciplina iria me fazer bem. Não foi verdade. Não aprendi nada, melhor: menos ainda. Em escola nenhuma: então e nunca”.

Em “Bestiário Besta”, Willy desfila animais domésticos, nomeando cães e pombos, discorre sobre uma patativa que comprou na feira e descobriu-se mais tarde que estava tuberculosa. No sudeste denominamos facão (o tórax seca e os ossos ficam salientes), moléstia que leva fatalmente à morte. Ficaria “furibundo com o comerciante de pássaros da feira que me havia enganado”. Teve galinha de estimação, poupada da morte certa que viria pelas mãos da Creusa, “…galinha que tinha o peito estofado (como câmara de ar inflada), mas não de vaidades… Não muito tempo após amanheceu morta. Chorei”. Estou a rememorar minha infância e o vasto quintal onde coabitavam araras, papagaios, pássaros vários, peixes em dois tanques bem grandes, galinheiro e devidas incubadoras e mais jabutis e cães. Uma festa!

A morte a conviver no cotidiano é lembrada por Willy nas “Três Mortes prematuras” e outras mais. Causam impacto na mente da criança, daí rememorá-las com certa ênfase. O imenso pianista Wilhelm Kempff não traduziria o efeito da morte de sua avó em sua imaginação de menino em “Cette Note Grave – Les années de la jeunesse”, em uma das mais pungentes páginas do gênero?

A antagonizar essa temática, histórias plenas de jocosidade levaram-me a gargalhar: “Mijo Mortal” e “Noite de Circo”. O garotinho entraria pela primeira vez num cômodo de despejo de sua morada e urinaria em uma parede. Fê-lo muitas vezes. Certo dia “… ouvi distintamente, Sila falando para Zulmira: ‘Cheiro horrível de xixi lá no quarto de despejos. Vou pôr fogo pra quebrar o cheiro; agora: dizem que seca o xixi da pessoa que fez e que a pessoa finda morrendo de xixi secado’. Perdi – naquela hora – a paz. Vivi dos pés à cabeça a estrutura fundamental de todas as angústias”. O intento realizado por Sila levou a criança ao desespero, contemporizado pelos adultos: “Vi-me cercado de familiares que me juravam que o meu xixi não ia secar não. Que eu não morreria, não”.

“Noite de circo” é hilariante. Willy escreve: “Fomos à loja comprar um fato novo com o fito de irmos ao circo no sábado. Sempre preferi circos a roupas, mas desta feita a conjunção roupa e circo valia alegria cheia. De boa vontade dispus-me a experimentar (frente ao espelho, e aos olhos e mãos das mulheres acertando as minudências das vestes sobre o corpo), pacientemente, até a eleição final para gáudio de todos nós. Um conjunto marrom com detalhes (pala, vira das mangas e bolsos) em bege xadrez diagonal com cores combinantes. Faziam vista até para quem gosta mais de circo e brinquedos de que de roupas”. Vem a noite esperada e o maravilhamento do circo, banda a tocar, a amazona em ousadas trocas de cavalos, palhaços, chineses habilíssimos nos trapézios e… “A seguir vieram os macacos. Multidão de macacos. Nunca vistos: tantos. As luzes rodeando-os para focá-los, e distingui – Céus! – todos (às dezenas): todos vestidos como eu: todas as roupas dos macacos eram iguaizinhas à minha. Idênticas, infalivelmente da mesmíssima confecção. Senti-me macaco (igualmente) na vida”. Prossegue o autor: “Alguém pode imaginar o que é uma criança ganhar uma roupa nova para estreá-la no sábado, dia inesquecível de um circo monumental, o sorriso franco luzido (chispando dos olhos, ventas, poros), e sentar-se na arquibancada para descobrir – em mágoa – que se assemelhava a macacos, e que toda a gente já sabia, estariam de olhos nele, arregalados, risotando do menino vestido na plateia, fora do picadeiro?” Willy finaliza que “nunca conseguiram que eu tornasse a usar a trágica indumentária”.

É de se salientar a recorrência da cantiga infantil Você gosta de mim? Ela surge nomeada, com o tema simples apresentado ou harmonizada no correr do livro. Faz-me lembrar da frase do poeta português José Gomes Ferreira: “Música minha antiga companheira desde os ouvidos de criança”.

“Passagens” encanta. Willy perpassa o cotidiano do menino que ele foi nesse incessante acúmulo que pode ser tão mais marcante se vivido numa plenitude. As várias mudanças de morada acentuam a diversidade geográfica que possibilita o aguçamento do miúdo observador. Sob outra égide, Willy também encanta pelo seu personalíssimo estilo literário. Se insere por vezes belas palavras arcaicas, trabalha o vernáculo a dar elasticidade a determinados termos (neologismos?), a ratificar que a pena do escriba é a mesma que desliza pelo papel pautado.

My comments on the book “Passagens”, written by Willy Corrêa de Oliveira, former professor of composition at Universidade de São Paulo and one of the essential names among Brazilian contemporary composers. The book is a collection of reminiscences of a happy childhood spent in Recife. Reflexive sometimes, hilarious others making me convulse with laughter but always delightful, his memories are written in a very personal prose style, as unique as his musical writing. An enthralling book one savours with pleasure.

 

O tempo implacável a retardar respostas

Não corro como corria
Nem salto como saltava
Mas vejo mais do que via
E sonho mais que sonhava

Agostinho da Silva

Entre as inúmeras mensagens recebidas através do endereço eletrônico inserido no menu do meu blog muitas continham questionamentos. Anotei-os criteriosamente por categorias para respostas futuras em blocos. Busco no presente post atender às dúvidas e às questões formuladas pelos leitores.

Perguntam-me sobre a atividade musical, as preferências literárias, as corridas de rua, as viagens ao Exterior, o distanciamento das apresentações no Brasil, as gravações e até a política em nosso país… Mui dificilmente deixo de atender leitores, mormente se há questionamentos urgentes merecendo respostas imediatas por e-mail, e essas, nesse caso, saem logo após a recepção, pois mensagens se acumulam e o retorno à nova leitura torna-se quase sempre improvável. Ao se distanciar no tempo, tendem às calendas. Portanto, temas que me são caros quando questionados, mas que demandam um maior debruçamento, se não os respondo de imediato deixo-os numa lista de espera. Nesses quase 12 anos de blogs ininterruptos jamais recebi mensagem desinteressante e esse fato é reconfortante e fonte de estímulo.

Não foram poucas as mensagens lamentando a ausência das ilustrações do saudoso amigo e imenso artista Luca Vitali. Sinto muito a sua falta, pois foram dezenas de blogs que, após minha leitura durante nossos almoços às terças-feiras no Natural da Terra, tiveram charges plenas de humor, ironia e perspicácia do amigo artista. Deixou-nos em 2013. Lembrá-lo atende não apenas leitores sensíveis, como é singela homenagem que lhe presto. Sob outro patamar, elogios nunca cessaram às participações sábias do ilustre compositor e pensador francês François Servenière. Lê em França todos os blogs e incontáveis vezes inseri seus comentários. Formávamos um trio que permanece em nossas mentes. Os Études Cosmiques para piano de Servenière, que gravei na Bélgica e saíram em França pelo selo ESOLEM em 2017, estão no Youtube. Foram escritos a partir da monumental Série Cósmica, pintada (acrílico sobre tela) por Luca Vitali.

Basicamente as questões levantadas por leitores são concernentes aos temas espalhados em textos ao longo dos blogs, que tiveram início aos 2 de Março de 2007. O fato de ter, ao passar dos anos, recebido com enorme prazer a adesão crescente de leitores, implica, sob outro aspecto, o desconhecimento que novos seguidores do blog têm de temas abordados desde o início. Sem querer ser redundante, mas a buscar atender aos muitos novos leitores, respondo a várias perguntas sobre assuntos comentados nesse extenso período.

Questionam-me sobre minha ausência nas programações musicais, principalmente em São Paulo. Assiduamente me apresentava na cidade em que nasci, dos meados da década de 1950 aos anos 2000. São Paulo viveu estertores da efervescência cultural voltada à música erudita até dois ou três decênios após a metade do século. Naqueles tempos, a mídia estaria possivelmente descompromissada com o lucro advindo da ação cultural, concedendo espaços nos jornais e revistas ao que de fato interessava culturalmente à cidade, sem contrapartida. Estou a me lembrar que jamais, nas décadas em que mais atuei em São Paulo, jornais deixaram de publicar matérias, tantas vezes bem extensas, quando repertório mostrava-se relevante. Como tenho o hábito de tudo arquivar, as integrais (opera omnia) de Jean-Philippe Rameau (Auditório Itália, dois recitais em 1971) e de Claude Debussy (MASP, quatro recitais solo mais a integral para dois pianos com minha mulher Regina no Cultura Artística em 1982) mereceram ampla cobertura, gratuita diga-se, na Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde. Nessas apresentações, assim como nas das integrais das Sonatas Bíblicas de Johan Kuhnau (1972) e dos Estudos de Alexandre Scriabine (1977), ambas no MASP, havia público excedente sentado nas escadarias.

Não poucas vezes mencionei que na década de 1950 São Paulo tinha cerca de 13 críticos musicais, a maioria músicos-professores respeitáveis, como Caldeira Filho (“O Estado de São Paulo”), H.J.Koellreutter e L.C.Vinholes (“Diário de São Paulo”), Arthur Kauffmann (“Folha da Noite”), Dinorá de Carvalho (“Diário da Noite”), Cyro Monteiro Brizolla (“Correio Paulistano”), Diogo Pacheco (“O Tempo”), Odette de Faria (“Shopping News”), Lilly Wolff (“Jornal Alemão”), exemplos sensíves a serem destacados. Outros tempos, certamente. Em sendo músicos, frequentavam os recitais dos intérpretes consagrados, mas também dos jovens. Opinavam com competência, incentivando o jovem talento ou indicando que caminhos outros existem. A cidade cresceu desmesuradamente e, bem inversamente, desapareceria o crítico músico de ofício, conscientemente opinativo pois, salvo alguma possível exceção. Sob outra égide, espaços nos jornais dedicados ao pulsar musical erudito existente fora dos grandes holofotes parecem não ser mais a orientação da imprensa. Basicamente desapareceram.

Foi a partir de 1995 que iniciei, aos 57 anos, gravações, no Exterior. Essa atividade foi decisiva, pois nas mais perfeitas condições tecnológicas possíveis, delas constando a qualidade indiscutível dos engenheiros de som – o saudoso Atanas Baynov, na Bulgária, e Johan Kennivé, na Bélgica -, acústicas absolutas dos locais de gravação e pianos rigorosamente impecáveis. Priorizei, dessa época ao presente, as gravações, e o CD a ser gravado em Maio deste ano na Bélgica será o 25º, que, assim como os anteriores será lançado na Europa. Essa menção à gravação é importante, pois a partir dela o recital continuou como atividade amorosa e benfazeja, mas não mais como necessidade imperiosa da apresentação pública pela mera apresentação… Esta atitude fez com que me distanciasse um pouco do público, por opção pessoal, respeitando-o e sentindo o calor que ele transmite. Paralelamente, a realidade tem mostrado que o próprio recital de piano, sob o aspecto geral, ao não ser precedido de ampla divulgação – publicidade essa destinada aos nomes amplamente divulgados no Exterior que se apresentam na cidade, ou para os intérpretes pátrios com patrocínios vários, faz com que as récitas de intérpretes que ainda resistem à sensível queda de público cheguem a ter caráter heroico. Esse fato é real e a se lamentar. Se me apresento anualmente uma ou duas vezes em São Paulo, busco fazê-lo em salas que abrigam público não numeroso, mas fiel à tradição. Sinto-me feliz em poder dar meus recitais nessas salas.

Ao leitor diria que, na década de 1990, estávamos em Belém do Pará, a grande pianista Yara Bernette (1920-2002) – uma das maiores do Continente -, o excelente violoncelista Antônio Lauro Del Claro e eu para apresentações distintas. Reunidos no terraço do Hotel em que estávamos hospedados, Bernette observou, para nossa surpresa, que o recital de piano tinha prazo certo de existência. Bernette, que durante décadas viveu em Hamburgo onde se tornaria chefe da cadeira de piano da Escola Superior de Música e Arte Dramática, observou que, independentemente dos nomes mediáticos, a grande maioria dos intérpretes estaria confinada às salas menores, pois teatros e salas monumentais não mais a abrigaria. Posteriormente, a escritora e historiadora de arquitetura Victoria Newhouse, em seu livro Site and Sound, explicita pormenorizadamente a problemática das grandes salas, muitas delas não mais ocupadas na plenitude, e a real possibilidade das salas menores. Anualmente, as visitas a Portugal e Bélgica e outras à França levam-me às apresentações que me entusiasmam, a ter sempre público seletivo em salas que abrigam umas poucas centenas de ouvintes. Creio que a explanação estaria a responder aos questionamentos de inúmeros leitores.

Perguntaram-me sobre as resenhas e qual o motivo de preferências sensíveis, como música e aventuras. Sirvo-me de frase do poeta português José Gomes Ferreira, que observava: “Música, minha antiga companheira desde os ouvidos da infância”. Temas relacionados às aventuras e conquistas do homem através dos tempos também me apaixonavam desde a tenra idade. Eis duas temáticas que sempre foram prioridades nas minhas leituras, Logicamente, tantos outros livros abordando romance, filosofia, arte, literatura epistolar e outras mais permaneceram ao longo, despertando constante interesse. Desde os meus 10 anos habituei-me à leitura, incentivado pelo nosso saudoso pai. Fazia-nos ler, pois somos quatro irmãos, um capítulo de livro por ele escolhido, sempre a priorizar a melhor literatura, preferencialmente a portuguesa – cuidado com o estilo -, e tínhamos de redigir diariamente resumo do que líamos, em apenas uma página. O pai corrigia, atribuía avaliações e uns poucos cruzeiros (moeda da época) para as sinopses precisas, sem erros. Dizia ele que o espírito de síntese era fundamento essencial na leitura e na vida. Esses cruzeiros revertiam-se em livros, escolhidos doravante por cada um de nós nas visitas que fazíamos no último sábado do mês às livrarias do centro de São Paulo. Somavam-se esses cruzeiros a outros que eram atribuídos à escuta de LPs de música clássica que nosso pai adquiria mensalmente. Após a audição escrevíamos o nome do compositor numa papeleta e nem sempre acertávamos, pois o acerto vinha após detectarmos o período histórico e o criador da composição. Nosso pai chegou a ter 5.000 LPs!!! Essas considerações são necessárias, pois a leitura virou respiração e a audição de música, uma constante, principalmente após o advento do Youtube.

Três leitores indagam-me sobre a desativada equipe de corridas TA LENTOS e as causas de seu desaparecimento. Longe de ser uma equipe como tantas, organizada oficialmente, com treinos semanais e programação, a TA LENTOS reunia cerca de 10 amigos, a grande maioria descendente de japoneses, para encontros em corridas determinadas, entre elas as provas de revezamento da Ayrton Senna (Autódromo de Interlagos) e a do Pão de Açucar (Ibirapuera). Congraçamento. alegria contagiante e a permanência na arena durante toda a competição de revezamento que para nós, oito corredores, suplantava bem as quatro horas de duração. O meu ingresso deu-se em 2008. Após sessões de quimioterapia a que me submeti para tratar de um câncer que quase me levou aos anjinhos, continuei e continuo, hoje com visitas periódicas, a frequentar o consultório da mesma médica que me acompanha desde 2004, a competente hematologista e hemoterapeuta, Drª Ana Rita Burgos Manhani. Como chefe da enfermagem da clínica em que trabalhava a Drª Ana Rita, a enfermeira Cristina Ito, ao saber que passara a correr em 2008, convidou-me a ingressar na TA LENTOS. Foram anos muito felizes participando de corridas em São Paulo, Mogi das Cruzes e Osasco. Com o desligamento de alguns, a TA LENTOS perdeu o sentido, mas não o vínculo amistoso, pois constantemente encontro três corredores da equipe, o casal Américo-Regina Umeda e André Shigueo nas muitas corridas de rua existentes. Shigueo até hoje prestigia a TA LENTOS ao vestir a camisa da equipe com desenho jocoso realizado por Luca Vitali.

Outros leitores escrevem para que opine esporadicamente sobre política. Fi-lo pouquíssimas vezes. Há incontáveis articulistas e radialistas que tratam do tema de maneira competente. Contudo, segmento expressivo entre eles que, graças à carga repetitiva do discuso com nítida orientação, é detectado facilmente pelo leitor ou ouvinte atento. Quando percebo o “ranço” partidário, passo ao largo. Creio, todavia, que a corrupção endêmica, acentuada de maneira estratosférica no Brasil neste século, verdadeiro saque aos cofres públicos, terá uma diminuição sensível com os novos governantes, mas estará longe de desaparecer, pois enraizada nessa relação espúria político-empresário. Sob outro aspecto, o povo, razão essencial de uma nação, basicamente não mais crê em nossa Justiça. Triste fato.

Por fim, as mensagens estimulantes apenas acentuam a vontade de continuar a escrever, uma de minhas grandes alegrias. Desvinculado de quaisquer interesses relacionados a patrocínios, felizmente nunca buscados, o que me possibilita a total independência, prossigo aos 80 anos escrevendo com o mesmo prazer que me levava a redigir artigos para o jornal do Liceu Pasteur, “O Arauto”, na longínqua juventude, quando em bancos escolares. E os textos continuarão a fluir, assim espero.

In this post I reply to questions  frequently posed by readers: my musical engagements, reading choices, trips, recordings, races and even my political opinions. The messages received are a stimulus to go on writing, something I do with the same enthusiasm of the time I was a student at Liceu Pasteur and a “columnist” of “O Arauto”, the school newspaper.

 

 

 

 

 

Quando a recepção aos textos precedentes ganha potencial relevo

É o insatisfeito, como era natural,
que junta alguma coisa à realidade;
desde que o homem se encontre bem de vida,
a força que o levava a criar,
seja qual for o domínio,
afrouxa e estaca.

Agostinho da Silva
(“Sete cartas a um jovem filósofo”)

O blog sobre a criação na juventude da idade adulta e na maturidade da idade adulta provocou inúmeras mensagens, sendo que a do compositor e pensador francês François Servenière foi de tal abrangência e dimensão que mereceria ser exposta ao leitor. Aguardei o término das festividades do Natal e do Ano Novo para publicá-la. Servenière tece comentários sobre o texto do médico e especialista Elliot Jaques, tema do blog de 15 de Dezembro, acrescentando dados que certamente despertarão atenção especial dos seguidores de meu blog semanal. O pensamento de Servenière leva sempre a um amplo campo reflexivo, passível de ser polemizado. Essa postura é um dos fatores de interesse de suas mensagens. Um privilégio para mim tê-lo tantas vezes como partner de meus blogs. Abrimos pois 2019 com tema relevante. François Servenière expõe:

“Fiquei interessado pelo artigo que encerrou a série sobre o jovem compositor português António Fragoso, morto precocemente vítima da gripe espanhola em 1918, na idade de 21 anos. Seu post abordou temas profundos e, como sempre acontece com seus textos, parte-se de um tema particular para se chegar à reflexão geral.

Primeiramente, entendo de interesse todos os comentários efetuados pelo médico canadense Elliot Jaques sobre a crise do meio da existência.

Concernente à criatividade e às idades mais favoráveis, tinha opiniões de certa forma estanques quando via todos esses gênios da música, da pintura e da literatura atingidos por alguma moléstia e abatidos pela morte antes dos quarenta anos. Estavam eles, como todos os criadores, aliás, imersos ainda jovens no efeito turbo dos hormônios do crescimento. Sabemos que a produção desses hormônios, verdadeiras anfetaminas destinadas ao crescimento e à reprodução da espécie no período em que os gametas têm mais potencial, diminui no sangue nas fronteiras dos trinta anos. Seria imaginar que os hormônios fizeram seu trabalho de transmissão do que há de melhor do DNA e que, passado esse período, o corpo humano não tivesse mais nenhuma utilidade para a continuação da espécie. Essa situação hormonal leva-me a pensar nos salmões subindo com energia delirante os rios e cachoeiras mais difíceis do Grande Norte – após um a três anos nos oceanos – até o lugar onde nasceram, a fim de desovar e, após, deixarem-se morrer no local, esgotados e não mais servindo para qualquer outra atividade, tendo pois completado o ciclo das gerações.

Essa metáfora tem relevo quando estudamos a vida de dois dos maiores gênios da musica em quantidade e em qualidade, Mozart (35 anos) e Schubert (31 anos). Morreram, cérebros e corpos esgotados pela vida criativa alucinante. Em ambos os casos, 626 e quase 1000 opus, respectivamente, existências abreviadas que ensejam algumas estatísticas musicologicamente comprovadas sobre os dois e outros criadores de grande talento que morreram precocemente:

- começaram a compor muito jovens;
- escreveram delirantemente, arruinando suas saúdes;
- repetiram-se inúmeras vezes, sendo que algumas obras ‘intermediárias’ serviram de rascunhos e de maquetes para as obras-primas que viriam a seguir, as cumeeiras criativas;
- viveram em períodos onde a esperança de vida era frágil (30-40 anos) e tinham consciência aguda da brevidade da existência.

Havia a percepção clara e generalizada de que o corpo humano não estava preparado face às grandes pandemias que assolavam a Europa periodicamente, a aumentar paradoxalmente a pujança criativa, pois sabiam que o fluxo da ampulheta seria rápido e desfavorável. Acredito com convicção que a vida criativa desses compositores, prematuramente desaparecidos, assemelhar-se-ia a um gigantesco tornado e que o término do fenômeno estaria por volta dos 30 anos.

Uma certa geração de extremistas e radicais do século XX acreditava que, ao encurtar a existência por conduta desregrada, haveria acesso mais rápido à consagração universal e à elevação ao panteão dos séculos… Nada é menos exato, se falarmos unicamente da técnica e da semântica, da organização, da conceitualização, da elevação da alma, do gênio artístico, tendo-se como referencial absoluto os mestres excelsos dos séculos passados. Para esses arrivistas suicidas em busca de um sucesso rápido e retumbante a partir do escândalo (droga, a vida outlaw, hoje o pomo chic), constata-se claramente a flagrante decadência ou hecatombe criativa em comparação aos gênios que permaneceram.

Trata-se de um eufemismo de época, pois o show business mui raramente apresenta o talento encontrável em tempos idos na Idade Média, na Renascença, no período clássico e mesmo na contemporaneidade, naquilo que denominamos arte séria (sob o aspecto da linguagem). Há outra realidade igualmente exemplar: a facilidade econômica das sociedades modernas afunda o talento artístico, assim como deteriora os comportamentos. Esse fenômeno ocorre, de preferência, quando as gerações pertencentes às sociedades ocidentais atingem a idade adulta.

Na verdade, entre os contemporâneos de Mozart (1756-1791) e Schubert (1797-1828), um século antes da profilaxia das vacinas, o stress vital devia estar no seu máximo. Pouco se fala das catedrais, construídas num período de um optimum medieval, época provavelmente mais calorosa do que a nossa, pois construídas nesse fervor artístico sob a égide do empenho coletivo de várias gerações de artesãos-artistas, poupados que foram do egoísmo contemporâneo das sociedades de super consumo. Criatividade, vida curta ou longa? Debate um pouco defasado quando relatamos as obras primas da antiguidade. No caso dos dois compositores mencionados, os últimos retratos de Mozart evidenciam traços de uma pessoa com mais de 70 anos, a se pensar nas fisionomias da atualidade. Estafado ao extremo, pai de oito filhos, dos quais apenas dois chegaram à idade adulta.

Fala-se da Pequena Idade Glacial para o período entre 1350 a 1900. Durante esse espaço de tempo, a mortalidade infantil foi enorme, assim como a fertilidade para assegurar a sobrevida da espécie, sendo que a esperança de vida se restringiu ao seu nível mais baixo, comparável àquele dos homens da pré-história. As pinturas de Hieronymus Bosch (1450-1516) evocam um período muito frio, quase glacial. Poder-se-ia pensar que o gênio criativo tenha sido correlativamente fraco. Pois o que aconteceu foi o contrário. Incontáveis os gênios artísticos e filosóficos que surgiram nessa Pequena Idade Glacial. Precariedade de vida pareceria associada a uma energia vital pujante do gênio criativo levado ao extremo…

Socialmente poderemos fazer um paralelo com a soma imensa das grandes obras produzida sob regimes totalitários. A restrição pareceria ser parâmetro importante. Mas, e a liberdade? É bem difícil responder abruptamente. A se considerar conjunturas históricas com tais diferenciais de saúde pública, de sistemas políticos, poder-se-ia considerar uma idade ideal para a criatividade? O que é certo é que, atualmente, o gênio é inversamente proporcional ao conforto a beneficiar criadores. Mais eles são inflados, incensados, menores esforços eles fazem para sair da rotina, do comum, das banalidades”. Em blog bem anterior (vide O Criativo – Quando apropriações estranhas criam distorções. 25/04/2009), considerava a apropriação indevida da palavra criativo, há tempos tão a gosto do profissional de propaganda e marketing. Vulgarizaram o termo. A publicidade atual evidencia tantas e tantas vezes o caminho da repetição em todas as áreas, pois se uma publicidade ganha grande visualização, outros “criadores” das muitas empresas, para produtos da mesma área, seguem o abominável caminho da repetição. As empresas a abrigarem “criadores” não estariam nessa zona “inflada, incensada, rotineira, banalizada, de conforto”, como expõe, sobre outra égide, Servenière?

O pensador francês prossegue: “O show business é o enterro da arte excepcional do passado. Quando se fundem na mesma expressão social, negócios e criação, o resultado é uma linguagem empobrecida no limite da precariedade, do sucesso fácil. A frase imbecil ‘todo mundo é um artista’ simboliza a triste realidade”. O funk não representa o que de mais desprezível existe sob o rótulo inapropriado de manifestação musical?

Servenière continua: “Uma conclusão rápida deve, pois, nos induzir à ideia de que as piores condições de vida aumentam consideravelmente o instinto criativo, que é integralmente relacionado ao instinto vital. Esse instinto pode atingir seu ápice aos 20, 40, 60, 80 anos. É evidente que a juventude transmite uma energia eruptiva em suas obras. Mas seriam elas profundamente pensadas, organizadas, arquitetadas, perenizadas? Enfim, a ciência e o saber acumulados durante a senectude verão nascer produções raras, que terão certamente maior pertinência. Não obstante, haveria a necessidade de o artista ter uma longa existência e saber organizar socialmente seu viático (sucesso, ensino, negócios, outro métier…) para ainda persistir a vontade de criar aos 80 anos. Os insucessos potenciais e recorrentes da vida podem reduzir toda vontade criativa a zero muitíssimo antes da chegada à idade avançada. Quantos não são os artistas que param toda a atividade bem rapidamente diante de um fracasso e partem para outra ocupação? Uma imensa maioria. Nem o talento, nem a força do talento, nem a pujança criativa renovada são ofertados a todo mundo. Na idade de 60 anos, os resistentes às vicissitudes da vida de artista são exceções em suas gerações.

Basicamente não se pode sinceramente criar grandes obras sem que se seja um faminto pela vida. Pareceria evidente. Sob outro aspecto, a depressão destrói tanto o instinto criativo como a vitalidade.

Numa outra apreensão, a luz do sol tem papel fundamental no humor das pessoas, terapia para as depressões sazonais, segundo confirmações da medicina desde o fim do século XX. O outono e o inverno nos deixam sombrios, enquanto a primavera é a fonte da juventude, de criatividade, de fluxo de hormônios, mercê do aproveitamento pleno da seiva. Quantos não foram os artistas do passado que, em carruagens, desceram às terras do Mediterrâneo ou realizaram a curta travessia do Mare Nostrum rumo ao Norte da África, ou mesmo atravessaram oceanos em busca de outros hemisférios, simplesmente para evitar que o ato criativo tivesse uma queda? Legiões. Não por acaso, a Califórnia tornou-se um dos centros mais criativos do planeta nas últimas décadas… Cria-se mais em espaços de bom humor e energia, geografias essas onde o sol nos invade com excesso de Vitamina D. No passado há exemplos dessas cidades florescentes, plenas de sol benfazejo: Roma, Florença, Atenas.

Se essa apologia ao sol é válida, consideremos que o Astro Rei representa o exemplo da superficialidade, do descompromisso, enquanto a pouca luz existente nas estações frias da nossa Europa favorece a introspecção e o aprofundamento. O hedonismo se opondo naturalmente à austeridade. A metáfora é possível e contraditória, praias e mosteiros. Ambos favorecem, à sa manière, a criatividade, embora por caminhos rigorosamente diferentes.

Ao observarmos esse parâmetro climático para falar sobre criatividade e hedonismo, emergem dois polos essenciais da cultura humana, aquele do norte – países frios – outro do sul – países quentes. Considerando a concepção europeia de arte, há forma, estilo, ambiente que poderíamos considerar como mediterrâneos, tendo como centro a Itália, assim como outra, nórdica, centrada na Alemanha. Duas culturas extraordinárias, nascidas na Europa e espalhadas para o mundo. A Itália e a Alemanha resumiram as oposições de estilo e pensamento. J.S.Bach (1685-1750) e Antonio Vivaldi (1678-1741), Richard Wagner (1813-1883) e Giuseppe Verdi (1813-1901) não seriam exemplos nítidos?

A cultura mediterrânea pareceria mais superficial e hedonista, enquanto a nórdica mais cerebral e conceitual. Encontraremos grande quantidade de músicas muito sensíveis na Itália, berço histórico da ‘lacrimosa’, enquanto a Alemanha nos oferecerá as formas musicais mais científicas, pensadas, organizadas e com resultados surpreendentes. A ciência pareceria alemã, a sensibilidade, italiana. É claro que essa definição esquemática se torna simplista. Há o contraexemplo, pois gênios italianos serão considerados ‘alemães’ e esses, ‘italianos’. São incontáveis os ‘vazamentos’ culturais e assimilações mútuas.

Na arte, como na luz, há todas as cores do arco-íris, todas as gradações possíveis, todas as nuances regionais que nos induzem a pensar que não existem regras absolutas… Seria um erro se, ao contemplarmos o globo terrestre e a disposição dos países, nos dispuséssemos a acreditar que a influência do sol determinará a criação de tendências maiores ou menores. Dir-se-á que tal estilo, tal caráter é francês, alemão, russo, chinês, mexicano, brasileiro, português, espanhol, americano, africano, etc, etc. Muito sol provocaria a preguiça, a fadiga e a hedonismo, e muito frio congelaria o cérebro. Os países temperados são os privilegiados sob a esfera da criatividade: nem tão frio, nem tão quente. Não se trataria apenas de uma questão da personalidade individual, como se constata em todas as partes do mundo. Há inúmeros exemplos que estabelecem as exceções nas civilizações habituadas aos extremos…

Evidentemente, podemos analisar a personalidade individual, em todas as suas conjunturas, como integrante da vontade individual, mas que será duramente impactada pelo meio onde ela emergir. Seria um acaso o aparecimento de gênios e grandes artistas, durante séculos, em Paris, Roma, Moscou, Londres, Amsterdam? A política, a abertura de espírito e a sensibilidade dos príncipes, a riqueza do comércio, o limite das populações e as geografias climáticas favoráveis, a curiosidade das massas, a filosofia e o pensamento dominante do entorno (todos parâmetros interdependentes) tiveram papel fundamental na história da arte e não podem ser desprezados. O artista ex nihilo não existe, aquele que surge a partir no nada. Ele vem de longe, de alguma parte, de uma forja cósmica social e universal, potencializada pelo tempo e pelas gerações. É ele filho, produto de um ambiente propício, de um acúmulo de camadas, de uma predisposição mental certa, mas também de uma cultura. Ele passará ao lado de seu destino, ou não. O acaso e a necessidade farão sua obra no segmento biológico que constitui a sua vida” (tradução: JEM).

The posts about the Portuguese composer António Fragoso’s untimely death and about the Canadian psychoanalyst Elliot Jacques (creativity at different stages of life) has been given special attention by the French composer François Servenière, who sent his comments on the matter: effects of hormones on creativity, celebrity and success breeding repetition and superficiality, climatic cold and heat shaping creative thinking, the impossibility of separating an artist’s’ mental disposition from his environment. Sometimes controversial, always thought-provoking, Servenière’s views will for sure capture the readers’ attention.