Tema sempre recorrente

Do ponto de vista dinâmico,
o conflito central opõe os desejos da vida gloriosa
e os desejos de morte presentes na origem.
André R. Missenard
(“Narcissisme et rupture”)

Quando o tema é a figura do herói, vasta literatura, que perpassa da Grécia Antiga aos tempos modernos, seja em epopeias, romances e narrativas, desperta sucessivamente interesse às gerações durante o passar dos milênios. Quantos não foram os heróis reais ou aqueles vivificados pela mitologia que alimentaram inúmeras vertentes humanísticas? Mitificados, permanecem na história e na imaginação dos homens. Presentes nas artes visuais, na literatura e na música, perduram até os nossos dias, causando admiração e debruçamento voltado às pesquisas sobre a figura do herói. Quanto já não foi escrito, analisado por especialistas, envolvendo-o? O mito do herói sempre existiu e não desaparecerá. Tem-se o modelo, idealiza-se o personagem que poderá servir de exemplo, seja em momento extremo e único que caracteriza a ação imediata de um salvamento, à constância na ação heroica perpetrada através de aventuras voluntárias que o comum dos mortais vê-se impossibilitado de realizar.

Muitos estudos reportam até à gravidez como ato heroico e seguem acompanhando o desenvolvimento da criança, do adolescente em seu caminho à idade adulta. Análises vêm o herói como arquétipo. O leitor interessado encontrará abundante literatura a respeito, mormente a envolver disciplinas como a psicanálise e, em casos específicos, estudos psicobiográficos que levam à compreensão de personagens tidos como heróis nos mais variados campos.

Vem o tema após conversa com o amigo Marcelo, que habitualmente encontro na feira livre de sábado. “Não seriam os tripulantes da expedição Kon-Tiki os verdadeiros super-heróis da modernidade, em detrimento dos famigerados personagens que infestam as criações cinematográficas rendendo somas volumosas?”, perguntou-me Marcelo. Marcamos um curto no domingo à tarde no Natural da Terra e conversamos a respeito.

A edificação do herói pode ser seguida desde o encaminhamento dos pais visando à vida gloriosa dos ungidos, seja em qual área “escolhida”, ou mesmo no ato “voluntário” que contrariaria desejos paternos e se apresentam como opposit às aspirações almejadas por ascendentes. Seria possível entender que, por vezes, embrionariamente uma semente de “heroísmo” exista e que basta um instante do acontecido para que o ato heroico emerja sem sequer resquício de qualquer ação voluntária anterior voltada à figura do herói. Quando recentemente o imigrante malinês Mamoudou Gassama, de apenas 22 anos, escalou com intrepidez absoluta os cinco andares de um prédio na França, agarrando-se como o mais hábil dos símios a grades e beirais de um edifício, a fim de salvar uma criança dependurada numa sacada e que certamente iria cair, tipificou na essência essencial esse ato heroico que provavelmente jamais teria sido por ele imaginado. Incontáveis exemplos acontecem diariamente e heróis anônimos surgem em catástrofes de todos os tipos. Incêndios, tsunamis, terremotos, desabamentos provocam em tantos cidadãos comuns, que nunca pensaram em situações semelhantes, o impulso que leva ao ato heroico.

Quantos não foram os blogs que escrevi sobre Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), autor que admiro profundamente, tendo como livro de cabeceira seu extraordinário Citadelle. Herói, sobrevoou o Atlântico Sul em um monomotor, a serviço da Aéropostale. Perdeu companheiros e morreria tragicamente no fim da guerra, de maneira misteriosa, com a queda de seu avião não distante de Marselha aos 31 de Julho de 1944, possivelmente abatido por caças alemães. No ano 2000 destroços do avião foram encontrados e livro foi escrito pelo mergulhador Luc Vanrell e o jornalista Jacques Pradel na busca de esclarecer o enigma. Conselhos para que não realizasse a missão de observação a que se propôs não demoveram a obstinação de Saint-Exupéry. O herói em arriscado encontro “voluntário” que o levou à morte. Anteriormente, Jean Mermoz (1901-1936), o extraordinário piloto da Aéropostale, desapareceria no Atlântico Sul em sua 25ª travessia. Henry Guillaumet (1902-1940) estaria presente em um dos livros mais marcantes de Saint-Exupéry, Terre des Hommes, após queda nos Andes em 1930 na sua 92ª travessia sobre a cordilheira, das 393 que realizaria nessa região montanhosa. Caminhou durante sete dias até ser encontrado. Teria dito a Saint-Exupéry: “O que eu fiz, eu te juro, nenhum animal teria feito”. Morreria tragicamente depois de seu avião ter sido abatido por caça italiano sobre o Mediterrâneo. Outros aviadores franceses sucumbiram durante esse período heroico nessa longa viagem da França ao Chile, sempre a serviço.

Quanto a Thor Heyerdahl (1914-2002), entende-se com clareza que a Expedição Kon-Tiki (1947) não foi um capricho (vide blog anterior). A construção do projeto foi longamente arquitetada. Sabia de todos os riscos, mas desafiá-los a fim de provar sua teoria suplantou todas as opiniões, que viam a possibilidade da tragédia na empreitada visando à travessia de 4.300 milhas em precária jangada. Crescia o herói. Todo o esforço preparatório dá a medida da obstinação. Com cinco companheiros chegou a termo numa aventura que ficou consagrada.

Neste espaço já resenhei livros de Sylvain Tesson, que me surpreende sempre, mercê de voluntária necessidade de enfrentar longas marchas a pé através do planeta, não apenas para evidenciar ser possível realizá-las, como no intuito de revelar civilizações outras, possibilidade de sobrevivência em áreas inóspitas ou mesmo denunciar descasos. Passou por perigos que o levariam fatalmente à morte. Num prosaico acidente em Chamonix em 2014, quando “escalava” um prédio de poucos andares, caiu, entrou em coma e subsistiu com graves sequelas que persistem. Parcialmente recuperado, continua com suas aventuras. Teria declarado, logo após sair do hospital, que acredita que irá morrer de maneira violenta. O herói a cumprir sua trajetória.

Esse breve relato sobre alguns heróis modernos tem origem também em minha infância. Aos dez anos de idade, li com avidez “Os Doze Trabalhos de Hércules”, de Monteiro Lobato. Aqueles feitos heroicos encantaram a criança que eu fui e na adolescência e juventude, entre as muitas leituras, as façanhas de personagens intrépidos ficaram na memória. Só para citar três que abordam figuras que permaneceram na história e no imaginário, mencionaria “Haníbal”, de Mirko Jelusich (Porto Alegre, Globo, 1942), “A Conquista da Terra”, de Wilhelm Treue (Rio de Janeiro, Globo, 1945) e “A Vida de Nun’Álvares”, de Oliveira Martins (Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1944). Aos oitenta anos ainda tenho prazer de ler determinadas aventuras ou feitos que foram vencidos ou tragicamente abortados. Afinidades temáticas fincam raízes e essas só se aprofundam. Parece-me um bom sinal.

This post is a brief consideration about a few modern heroes and their outstanding feats, impossible to be achieved by common mortals. They are: Saint-Exupéry, Jean Mermoz, Henry Guillaumet, Thor Heyerdahl and Sylvain Tesson.

 

 

 

 

 

Uma releitura em tempos de catalogação

Nenhuma nuvem tempestuosa e carregada de baixa pressão
nem qualquer mau tempo oferecia maior ameaça para nós do que o perigo
sempre possível, de uma súbita bátega psicológica entre seis homens
encerrados juntos durante meses numa jangada a vogar.
Em tais circunstâncias,
uma boa pilhéria era muitas vezes tão prestadia quanto um salva-vidas.
Thor Heyerdahl

A primeira leitura de “A Expedição Kon-Tiki”, de Thor Heyerdahl (São Paulo, Melhoramentos, 1952), deu-se durante a adolescência. O livro publicado em 1948 e traduzido para aproximadamente 70 idiomas tornou-se um best seller mundial. Desse período, algumas preferências concernentes à leitura prolongar-se-iam ao longo da existência. O piano já era praticado desde os nove anos, mas a consciência voltada à leitura, tenho-a presente desde os 12-13 anos. Sem contar obras literárias de autores referenciais indicadas por nosso pai aos quatro filhos, escolhas foram feitas paralelamente à leitura “imposta”, mas acatada prazerosamente. Aventuras, biografias de figuras relevantes da música, literatura e artes já faziam parte de minhas opções. Ao receber “A Expedição Kon-Tiki”, li-o com avidez e meu pai mandou encaderná-lo, gravando meu nome na parte inferior da lombada. Assim procedeu com os livros preferidos de meus irmãos. Ao pensar, só posso reverenciá-lo por ter tido sempre uma visão cultural humanística sólida para seus quatro filhos. “A expedição Kon-Tiki” permaneceu na estante até semanas atrás e, ao folheá-lo durante catalogação que realizo de meus livros, veio-me a vontade de percorrê-lo novamente, pois basicamente toda a história permanecia retida em minha memória. Esse regresso  aos anos de formação literária, sempre tão caro, reveste-se de dupla alegria, revisitar temas que me entusiasmaram e verificar que o passar das décadas imprime à memória apenas uma nova percepção dos fatos, mas não altera a essência essencial do que foi apreendido.

Ao reler o livro do norueguês Thor Heyerdahl (1914-2002), 66 anos após a primeira leitura, descortinei nitidamente a narrativa a cada virada de página. Uma diferença transparente se apresenta: o conhecimento dos navegadores aventureiros da Kon-Tiki em 1947 e a imensa diferença tecnológica atual relacionada a todos os aspectos da navegação. Se naquela época meu encantamento foi pleno, mais ainda após a releitura atual. Realmente foi uma epopeia, uma das mais significativas do século XX.

Em 2012 uma empreitada reeditando a expedição Kon-Tiki e a aventura, tendo entre os tripulantes um neto de Heyerdahl, chegou a termo em menor tempo. A evolução de assistência à navegação foi extraordinária entre as duas travessias. Internet, satélite, precisão das correntes marítimas. Mais do que o fato em si, o documentário da Tangaroa Expedition (2012), assim batizada, focaliza a  preparação da viagem, as imensas balsas (madeira utilizada em 1947) sendo cortadas nas florestas do Equador, as imagens da réplica da embarcação em mar por vezes bravio e o convívio a bordo, estabelecendo em medida menor, diga-se, a dimensão dos percalços a que os navegantes em 1947 foram submetidos. Se Thor Heyerdahl buscou ser o mais fiel às navegações dos povos que habitaram as terras do Peru e que, saindo do litoral, buscaram descortinar novos horizontes a oeste em travessia pelo Oceano Pacífico, a  Tangaroa Expedition certamente foi muito bem assistida tecnologicamente. Inclusive, tal era a certeza da concretização que familiares aguardavam os novos navegantes na Polinésia, diversamente da incerteza absoluta de sucesso da Expedição Kon-Tiki. O leitor poderá acessar o documentário de 2012 através do link:

https://www.youtube.com/watch?v=29waAjmbO2w

Thor Heyerdahl e seus cinco companheiros na intrépida aventura tiveram  como desiderato primordial provar que a colonização da Polinésia foi feita por povos que saíram da costa oeste da América do Sul. Totens existentes nessa vasta região, na Ilha de Páscoa e na Polinésia com características bem similares, o perfil físico dos habitantes das regiões andinas e dos polinésios, entre outras razões, motivaram a concretização de viagem pouco viável, principalmente por se tratar de uma jangada a navegar milhares de quilômetros por uma das rotas mais perigosas do planeta. Uma longa tramitação, que contou com o apoio fundamental de instituições norte-americanas, norueguesas, e aconselhamento de especialistas de várias nações possibilitaram aos aventureiros a realização do arriscado projeto. O nome escolhido para a jangada foi Kon-Tiki, tributo à divindade inca Viracocha, em quíchua Apu Kun Tiqsi Wiraqutra. Os habitantes da Polinésia também tinham conhecimento do nome Tiki. Se a “expedição Tangaroa”  de 2012 contou com orientações ditadas pela modernidade internética, satélites e outros mais avanços, a Expedição Kon-Tiki teve como instrumental de auxílio rádio que nem sempre funcionava nesses contatos do denominado rádioamador, assim como mapas, sextantes e relógios. Não obstante o auxílio do instrumental de 1947, outros fatores poderiam ter paralelismo com conhecimentos que a civilização inca possuía, como a vela e os movimentos das correntes marítimas. Detém-se Heyerdahl em longa exposição sobre a Ilha de Páscoa, que não foi visitada, mas cujos totens serviram de argumento à causa. Descreve bonança, tempestades e os diversos peixes que seguiam esporadicamente a precária embarcação, cuja forma plana, possibilitava a visitação constante dos menores, como pilotos, aos maiores como dourados, bonitos e até polvos e caranguejos. Devido à “colheita” espontânea, a alimentação dos navegantes foi sempre farta. O autor comenta encontros com tubarões e até de um possível tubarão gigante, mas também menciona uma baleia que os acompanhou por momentos.

A narrativa de Heyerdahl é envolvente. Paradoxalmente, a travessia de 4.300 milhas em 101 dias, que transcorreu sem problemas intransponíveis, teria seu fim justamente em uma barreira de coral em ilha deserta do arquipélago de Tuamotu, na Polinésia, por não ter a jangada condições maiores de manobras. Dias após, o encalhe no recife de Raroia possibilitaria o contato com habitantes do atol de forma ovalada com 43 km de extensão e 14 de largura e que, à altura, contava com 127 habitantes. Heyerdahl pormenoriza-se na acolhida calorosa dos polinésios e entende-se a plena euforia após três meses e meio em pleno Pacífico nas condições apontadas.

A releitura traz-me esse prazer de percorrer as aventuras de intrépidos viajantes, navegadores ou alpinistas. Já passei por uma fase  voltada às escaladas no Himalaia. Entusiasmavam-me todas as empreitadas, que remontam a 1924 com Mallory e Irvine, que morreram em circunstâncias até hoje desconhecidas na escalada ao Everest, até o extraordinário alpinista português João Garcia, que conquistou os 14 picos acima dos 8.000m. Contudo, meu entusiasmo pelos relatos atuais esvaneceu-se, não pela magia do Himalaia, mas desde que “multidões” despreparadas estão a tentar chegar ao topo da montanha guiadas por ávidos agenciadores. A mística perdeu-se e o Everest tornou-se troféu sem glória ou túmulo eterno para os que se arriscam. Sob outra égide, estou sempre atento aos livros de Sylvain Tesson, esse incansável andarilho francês que já atravessou quase todo o planeta e que comunica ao leitor o que vê e o que sente, geralmente com uma visão cáustica do mundo atual. Já foram quatorze os livros de Tesson resenhados neste espaço.

“A Expedição Kon-Tiki” levou-me à reflexão voltada às nossas escolhas. Tantas delas abandonamos ao sair da adolescência ou juventude. Outras permanecem. Se marcaram nossa formação, dificilmente fugirão de nosso pensar. Transfiguram-se na apreensão, mas a elas regressamos, pois integram o nosso de profundis.

In 1947, the Norwegian adventurer Thor Heyerdahl and a crew of five men left Callao (Peru) to Polynesia in a hand-built raft made from balsa wood in an attempt to prove that South Pacific islands may have been populated also by indigenous migrants from South America sailing by balsa rafts across the Pacific. The evidence of interconnections could be found in legends and archeological indications. The expedition was a success and resulted in Heyerdahl’s best-selling book “Kon-Tiki: Across the Pacific by Raft”, translated into seventy languages. Re-reading the book today as an adult has proved it is a real gem, as exciting and intense as it was when I first read it sixty-six years ago. This post is about the Kon-Tiki expedition, the record of an astonishing journey, an epic voyage rightly considered one of the greatest adventures of the 20th century.

 

 

 

Leitora interessada em dados sobre magnífica Capela em Botucatu

Só é importante e pode substanciar poemas verdadeiros
o engajamento perante a vida.
Antoine de Saint-Exupéry.

Júlia Carolina Athanásio Heliodoro, engenheira florestal, doutoranda em Ciência Florestal e Pós-graduanda em Museografia e Patrimônio Cultural, escreve-me sobre tema que sempre me foi muito caro, a figura de Dom Henrique Golland Trindade (1897-1974), arcebispo de Botucatu, centralizando sua mensagem na Capela da Santíssima Trindade, idealização do ilustre prelado.

Transmito ao leitor sua simpática mensagem: “Estou escrevendo um artigo sobre a Capela da Santíssima Trindade do Seminário São José de Botucatu. Já pedi o empréstimo da tese da D. Maria Amélia para leitura, mas ainda assim encontro poucos relatos sobre a capela que não sejam sobre a pintura em si. Vi que o senhor conheceu nosso primeiro Bispo, que encomendou e acompanhou a obra. E participou de muitos concertos para arrecadar dinheiro para obras da igreja. Acredito que a melhor forma de enriquecer meu artigo é através da memória e oralidade. Se o senhor puder me ajudar com qualquer depoimento sobre a capela, sua construção ou sobre a relação da capela com o Bispo ou mesmo com o senhor, pode, por favor, me escrever?”

Insiro no presente blog segmento concernente a D.Henrique, pois em post bem anterior (vide “Velho Natal – Um conto singelo”, 22/12/2007) apenas menciono a Capela, sem entrar em pormenores: “Dom Henrique Golland Trindade foi uma figura extraordinária. Poder-se-ia acrescentar: homem santo ou iluminado, a depender das conceituações espiritualistas. Nascido em Porto Alegre, a vocação levou-o à formação religiosa competente. Tornou-se franciscano e atuou com intensidade frente a várias paróquias do país. Quando designado para a vida eclesiástica em Botucatu, no Estado de São Paulo, teve seu apostolado voltado aos mais simples e às crianças órfãs. Bispo e mais tarde arcebispo da diocese de Botucatu, nem por isso deixou de lado essa missão diária de assistir aos desalentados da cidade. Fundador da Congregação Diocesana das Irmãs Servas do Senhor em 1952 e da Vila dos Meninos Sagrada Família, Dom Henrique amava as Artes. A Capela da Santíssima Trindade do Seminário Arquidiocesano foi pintada por Henrique Carlos Oswald, filho do grande artista plástico Carlos e neto do não menos ilustre compositor Henrique Oswald. Em 1952, João Carlos e eu demos um recital na Igreja de São Francisco, no Largo do mesmo nome, em São Paulo. Era uma homenagem ao eminente prelado. Nos anos subsequentes, oferecíamos regularmente recitais no Colégio Santa Marcelina, em Botucatu, com a renda inteiramente destinada à Vila dos Meninos. Por várias vezes fomos passar alguns dias no Arcebispado da cidade e, orientados por Dom Henrique, apreciávamos, nos mínimos pormenores, a belíssima pintura de Henrique Carlos Oswald na ábside da Capela. Foi nosso padrinho de crisma. Em 1963, em Campinas, oficiaria o meu casamento com Regina”.

Após essa premissa, diria que a dissertação da professora, escritora e pintora Maria Amélia Blasi de Toledo Piza, defendida na UNESP-Bauru em 1997 (“Henrique Carlos Bicalho Oswald: O Mural da Santíssima Trindade em Botucatu”), estuda pormenorizadamente a expressiva Capela botucatuense pintada por Henrique Carlos Oswald com a ajuda de sua esposa, Jacyra Carvalho Oswald. Tive o privilégio de compor a banca examinadora. A ascendência do pintor Henrique Carlos Bicalho Oswald (1918-1965) é extraordinária. Seu pai, Carlos Oswald (1882-1971), foi o pioneiro da gravura em metal no Brasil e pintor de enorme qualidade. Em seguida à dissertação, Maria Amélia concentrou-se justamente na obra de seu progenitor, e sua tese de doutorado, defendida igualmente na UNESP-Bauru em 2010, versou sobre “A Poética da Luz na Obra de Carlos Oswald”. Curiosamente, se Maria Amélia realizou dois trabalhos acadêmicos sobre Henrique e Carlos, meu doutorado junto à FFLESCH-USP, em 1988, foi sobre o avô do pintor da capela, Henrique Oswald (1852-1931), o mais importante compositor romântico brasileiro. A neta do compositor, a saudosa amiga Maria Isabel Oswald Monteiro, durante os anos em que a visitava mensalmente no Rio de Janeiro a partir de 1978 para aprofundamento em torno de seu avô, dizia-me convicta que seu irmão, Henrique Carlos, sofrera intensa influência de seu pai nesse caminho da contemplação mística em muitos de seus trabalhos e que a pintura do mural da Capela da Santíssima Trindade teria como estímulo adicional o convívio diário com Frei Henrique, assim Maria Isabel o chamava, pois minha dileta amiga conhecera bem o prelado antes de se tornar bispo e, mais tarde, arcebispo.

Rememorando o que não foi mencionado no blog de 2007, diria que, durante as várias visitas a Botucatu a convite de D. Henrique e sempre a tocar, o arcebispo, meu padrinho de crisma, sempre apresentava, pleno de encantamento, a pintura da ábside, comentando seus personagens, muitos “recriados” a partir de figuras que Henrique Carlos conhecera. Foi de D.Henrique a ideia arquitetônica da capela. Sentia um “santo orgulho”, como afirmou-me reiteradas vezes ao adentrar a capela em estilo românico. A inspiração veio após conhecer as igrejas da península itálica do primeiro milênio. Como afirma Maria Amélia em sua dissertação: “A riqueza decorativa daquelas igrejas, construídas singelamente em tijolos aparentes, se reservava para o interior, onde pinturas ou mosaicos coloridos compunham cenas da história sacra. Inspirada nessas basílicas, porém com as proporções reduzidas harmoniosamente pelo arquiteto Benedito Calixto de Jesus Netto (1910-1972), a Capela da Santíssima Trindade apresenta o típico plano trinitário: átrio, nave e ábside, em cuja concha foi pintado o mural”. A restauração da Capela, realizada entre 2004-05, deu-se graças à comunidade botucatuense, mormente aos três idealizadores da causa, Padre Antônio Pedroso, então pároco da Catedral, Maria Amélia Blasi de Toledo Piza e Rita de Cássia Athanásio, trabalho exaustivo que teve o acompanhamento de Júlia Carolina Athanásio Heliodoro, todos no árduo empenho para obtenção de verbas.

Atendendo ao pedido de Júlia Carolina para que comentasse outras passagens a envolver D.Henrique, diria que meu convívio com o padrinho prolongou-se primeiramente até 1958, ano em que viajei para Paris com bolsa oferecida pelo governo francês, lá permanecendo cerca de quatro anos. Quando em rápida visita à capital francesa, fui aguardá-lo na estação ferroviária juntamente com minha colega, a pianista Odile Robert. Após meu regresso continuei a visitar Botucatu para recitais. Didaticamente, durante três anos, mensalmente viajava para a cidade, a fim de orientar jovens pianistas estudantes do Colégio Santa Marcelina. Mesmo nesse período, em todas as estadas visitava a Capela da Santíssima Trindade e, sentado, permanecia durante um bom tempo a meditar. Confesso à Júlia Heliodora que nenhuma igreja ou outra capela brasileira tem para mim essa mística inefável. Despojamento arquitetônico, ausência de artifícios, pintura de rara beleza…

Mencionaria outra passagem de meu blog de 2007 sobre a figura de D. Henrique: “No início da década de 1970, dera um recital em Botucatu e no dia seguinte, bem cedo, fui visitá-lo na Vila dos Meninos, onde há muito se recolhera. Encontrei-o ajoelhado, naquela manhã fria, a podar umas rosas. Tentei levantá-lo. Disse-me que estava bem. Perguntei ainda como se sentia após a renúncia da arquidiocese muito tempo antes, a fim de cuidar de crianças desamparadas. Baixou o capuz e serenamente respondeu: ‘Enquanto eu tiver forças nos braços para levantar e louvar a Deus, estarei bem’. Grande orador sacro, seus sermões não apenas cativavam pela profundidade dos ensinamentos, mas igualmente pelo vernáculo impecável. Escreveu vários livros, entre os quais Matt Talbot – O Operário Penitente e Nossos Pobres Contos”. Conservo-os com expressivas dedicatórias.

Um fato relacionado à Catedral de Botucatu relembro com clareza. Houve uma campanha para obtenção de verbas para a instalação dos sinos da Catedral. A arrecadação de um dos nossos recitais de piano em Botucatu, em 1955, foi destinada à obtenção de recursos para aquisição dos sinos. D. Henrique escreveu no Jornal Diocesano da cidade: “Que o Senhor de toda a beleza continue a orientar talentos tão peregrinos e que os queridos jovens, acompanhados por seus pais felizes, passem pela vida a semear harmonias e a semear o bem. E que o som grave do Sino do Centenário (que esperamos será uma realidade) espalhe pela nossa cidade centenária e seus arredores dois nomes de extrema simpatia, que estarão sempre ligados à sua história, como lição de desinteressada generosidade: José Eduardo e João Carlos Martins. (3-VIII-1955, Bispo Diocesano de Botucatu)”. Em 1997, após recital na cidade, subi até a torre da Catedral e li nossos nomes em alto relevo em um dos sinos. Regressei a Botucatu em 2013, igualmente para recital de piano. Comoveu-me muito o ato proporcionado pelas crianças da Vila dos Meninos, que subiram ao palco e me ofereceram uma camisa com a imagem de D.Henrique.

Sempre que convidado terei prazer em tocar na cidade dos “bons ares, bom vento”, sendo a verba aferida inteiramente dedicada à Vila dos Meninos.

A reader who is writing an article about the Holy Trinity Chapel of Botucatu, SP, has asked me to talk about my friendship with the late archbishop of Botucatu, Dom Henrique Golland Trindade (1897-1974), and also about the chapel (it was the archbishop’s idea to build the chapel in Romanesque style). Thus in this post I describe some episodes of my relationship with Dom Henrique, wich extended from 1952 to 1970. As to the chapel, I recommend reading the master’s thesis written by the retired university teacher, writer and painter Maria Amélia Blasi de Toledo Pisa, a serious research on the story of the chapel and in particular of its altar painting, work by Henrique Carlos Bicalho Oswald.