Quando a distância temporal determina emoções

Caminho, caminho, caminho.
Quando me encontro no jardim,
que é uma pátria de aromas
,
sento-me em um banco.
Olho e vejo folhas que voam e flores que fenecem.

Sinto que tudo morre e renasce.
Sensações que não me abalam.
Sou vigilância em pleno mar.
Não se trata de paciência,
pois é na caminhada que encontro o prazer
e não em seu término.
Antoine de Saint-Exupéry
(“Citadelle”, cap. CLXXXVI)

No penúltimo post comentava o programa do recital que apresentei no Theatro Municipal no dia 28 de Junho. Há recitais e recitais. O realizado naquele dia revestiu-se de aura diferenciada. O distanciamento tão imenso do tempo entre duas apresentações não permitia entender a récita como mais uma. Nascido em São Paulo, tendo me apresentado umas poucas vezes no Theatro Municipal, sendo que o último recital deu-se aos 17 de Junho de 1963, pois com orquestra apresentei-me nos anos 1970, o evento causou-me uma nostálgica sensação a anteceder o momento de entrar no palco. Quantos não eram, entre aqueles do numeroso público, que vieram ao mundo nesses 54 anos decorridos. Temos certamente duas gerações no espaço de tempo pouco superior a meio século!!!

Sempre que passo pelo Theatro Municipal, contornando-o durante inúmeras corridas como as do Centro Histórico ou da São Silvestre, lembro-me, entre uma longa respiração e outra, de minhas apresentações no mais tradicional e belo teatro da cidade. Pensava igualmente que jamais retornaria para realizar recitais naquele recinto. A minha total idiossincrasia quanto a ter um empresário, fruto talvez de minhas escolhas repertoriais, tornaram-me o que se denomina um low profile. Rigorosamente sinto-me bem nessa situação, pois a liberdade de agir, os locais eleitos no Exterior, para onde me desloco anualmente para apresentações destinadas a públicos que têm absoluto respeito ao repertório pouco frequentado, assim como para as gravações na mágica capela de Saint-Hilarius, perdida na planura flamenga da Bélgica, levam-me, já a caminho dos 80 anos, a considerar que a missão está a valer.

Não me desviando das propostas erigidas desde a década de 1970, o repertório apresentado no dia 28, luso-brasileiro, continha obras de quatro compositores portugueses e outros quatro brasileiros. Ao adentrar o palco, tendo o piano com plena luz e uma sombra a encobrir o público, entendi que este era numeroso pela vibração que acompanha a entrada de um intérprete. Proferi algumas palavras iniciais e lembrei-me, mercê da sugestão do Sr. Cônsul Geral de Portugal em São Paulo, Dr. Paulo Lourenço, idealizador da magnífica série de eventos que teve como título “Experimenta Portugal’17″, de mencionar aquela longínqua apresentação. Dei ênfase à frase, pois disse “aos 17 de Junho de… 1963″ e, para minha surpresa, fui aplaudido. Descontração maior, clima mais propício não poderia existir. “… Resistir, quem há-de?”, lembrando-me do soneto de Luiz Guimarães Júnior, “Visita à casa paterna”.

O programa, iniciado com duas Sonatas basilares de Carlos Seixas (1704-1742), foi sendo apresentado e poemas da poetisa portuguesa Violeta Figueiredo foram lidos, a anteceder cada uma das seis peças de Eurico Carrapatoso, executadas em primeira audição no Brasil, dando prosseguimento à récita. Escusado dizer que a excepcional coletânea teve guarida absoluta e, após o recital, vários estudantes pediram-me cópia da partitura. Como não sentir emoção ao tocar os seis “Estudos Transcendentais” e “Adamastor – O Gigante das Tempestades”, de Francisco Mignone, tendo presente a viúva do compositor, a pianista Josephina Mignone, incansável batalhadora nessa luta hercúlea pela preservação da memória desse imenso músico brasileiro. Na ordem, Gilberto Mendes, Fernando Lopes-Graça e Júlio Medaglia, sendo que a pequena peça deste, “Zé Eduardo arpeggiando no choro”, pelas características da obra e minha primeira incursão no gênero, mereceu aplausos inusitados. Há um fato que sempre me intriga. Quando apresento obras do notável compositor português Jorge Peixinho (1940-1995), criações austeras, seriais, de difícil entendimento inicial para o público, a reação é imediata e calorosa. Assim sempre ocorreu, seja com “Villalbarosa”, composta em 1987 para o centenário de Villa-Lobos, seja com o “Étude V Die Reihe-Courante”. Criações telúricas, que extraem todos os recursos possíveis do piano e cujo emprego dos pedais se mostra rigorosamente singular. Nessa duas obras tenho de utilizar luvas, pois há glissandos que percorrem todas as teclas, brancas e pretas, processo basicamente impossível de ser realizado com as mãos abertas desprotegidas.

O que dizer da magnífica “Valse-Caprice” op.11 nº 1, de Henrique Oswald? Uma das criações mais comunicativas do repertório brasileiro, estará presente em meu próximo CD, já editado e com previsão para lançamento entre 2018 e 2019. O público a desconhecia, pois o manuscrito não foi encontrado e poucas cópias da edição publicada subsistem em arquivos institucionais. Uma das alunas de Henrique Oswald, Honorina Silva, presenteou-me com uma cópia, ela que foi intérprete notável de Oswald. Também a interpretação dessa magnífica Valsa a encerrar o programa mereceu efusivos aplausos. Friso sempre que esses são destinados prioritariamente às obras, sendo eu apenas o mensageiro.

Duas peças extra-programa foram apresentadas: “Oraison dominicale des Castors”, síntese da síntese de uma obra, pois essa pequena “oração”, que faz parte das “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste”, evolui em forma de coral, após a menção de um canto, apenas a melodia. Um primor. E como sempre faço ao apresentar os denominados encores, interpreto de vez duas peças. “Viva-Villa”, de Gilberto Mendes, encerraria o recital que, diferentemente de tantos outros ao longo de meu caminho, sensibilizou-me muito.

Uma sugestão ficaria para a programação do Theatro Municipal. Presentemente não mais imprimem os programas. Tive de me socorrer junto ao Consulado Geral de Portugal em São Paulo, que na última hora fotocopiou o programa. Que os responsáveis pela programação do teatro entendam que o programa editado faz parte de uma apresentação. Qual a memória escrita que restaria de uma récita? Os sons podem permanecer nas mentes do ouvinte ou se volatizarem, o papel comprova e reaviva lembranças.

On my delight in playing once more in the great hall of Theatro Municipal de São Paulo last 28 June, fifty-four years after my previous solo recital at the same theatre, the most traditional and impressive in the city, as confirmed by the pictures that illustrate this post, taken by photographer André Hoss during my performance.

 

François Servenière comenta temas essenciais

O problema dos políticos é o de mudarem o Governo:
o meu é o de mudar o Estado.
Contam eles com o voto ou a revolução.
Conto eu com o curso da História
e a minha vocação e o meu esforço de estar para além dela.
Agostinho da Silva
(“Entrevista”)

Pensara inserir, no post a seguir “Ecos de Berezina”, comentários de François Servenière que enriquecem o blog mencionado. O recital do dia 28 impediu-me a inserção, fazendo-a agora. Um dos aspectos fulcrais de Berezina foi a aceitação do jovem que entra em combate que lhe é imposto. Não haveria tempo para esse soldado, tampouco maturidade para uma reflexão maior sobre o assunto. Sob outra égide, temas a envolver ideologias, sistemas de governo, dialética permanente entre pensamentos divergentes estão contidos nas reflexões de François Servenière.

“Ao reler seu post sobre Berezina e meus comentários publicados em seu blog, compreendi melhor os caminhos tortuosos do pensamento na busca do entendimento de nossa realidade. Com efeito, qual o propósito de conhecermos a história se ela não nos leva a decifrar parte do presente? Trata-se de lição que não aprendemos jamais nos bancos escolares, pois a grande maioria dos professores não nos incita à compreensão do mecanismo de recorrência da história. Sob outro aspecto, o jovem em geral não capta as mensagens ou não tem maturidade para tal; o professor sobrecarregado não estaria disposto a propor esse mecanismo da transmissão do passado ao presente pelo fato de estar preso à ideologia progressista; a criança ou o jovem, impregnado da energia vibrante que o leva a pensar que tudo sabe e que poderá mudar o mundo, estuda os eventos históricos acumulados como uma lição obrigatória de pequenas histórias que lhe são narradas.
Na realidade, essas narrativas são galhos de uma mesma árvore e nós somos os galhos novos que nascem nas alturas. O fenômeno é clássico e universal, causa sensível da incompreensão da história pelos jovens, vítimas que são da patética e ‘eterna’ incúria das elites. Estas pensam influir sobre a história, quando na realidade, por total desprezo ao passado, são como capitães de um cargueiro diante de uma grande tempestade. Na Normandia, onde vivi durante tantos anos, sempre me indagava a respeito dessa tragédia que sacrificou jovens e que fez lotar cemitérios da segunda guerra mundial. Escrevi uma Symphony for the Braves, como você bem sabe. Trata-se de uma reflexão sobre a injustiça que consiste em matar jovens inocentes incapazes de discernir os motivos de suas presenças no campo de batalha, talvez para ‘expiar’ os erros dos poderosos, protegidos em seus palácios dourados.”.

Servenière aborda a seguir aspecto fulcral que atinge parte considerável da juventude, a alienação. Há poucos meses assistimos, pelos noticiários de TV, à absoluta falta de diretriz de quantidade apreciável de jovens alienados, acampados durante meses em barracas ao lado de um Estádio de Futebol. Meses perdidos à espera de um “cantor” do hemisfério norte, igualmente quase imberbe, pois esses brasileiros vindos dos mais variados rincões tinham de se postar na arena bem em frente ao “ídolo” desafinado. Mas a afinação acurada importa?

Continua o pensador francês: “Se os jovens conhecessem a história, revoltar-se-iam contra a constância de seus ascendentes em querer sacrificá-los em combate. Contudo, paradoxo trágico de nosso tempo, as novas gerações, pacificadas pela cultura, não mais têm a força de ir à luta para defender as fronteiras, deixando as portas abertas para que invasores determinados fixem posições, acabando por reivindicar o poder pelas urnas, processo menos violento… Processos não violentos, subreptícios, que jamais vingaram, pois todo processo de invasão não desejada de um território termina em catástrofe. Em todos os lugares do mundo.

São sempre as mesmas palavras e os mesmos males face à falta de coragem dos que decidem, dirigentes fracos (escolhidos à imagem de seu povo) e animados por desejos espúrios: a reeleição, as vantagens, a corrupção embutida e seus lugares confortáveis”. Não seria esse o quadro atual de nosso país atolado num lamaçal, mercê de governos que nos levaram ao pântano neste início do século?”. Servenière continua: “Parcela do povo grita ‘vivam os dirigentes fortes!’ E assistimos às consequências: milhares e milhares de cadáveres. Os cadáveres das guerras não seriam produtos da fraqueza ou da força do poder? Complexa questão filosófica, cujo alpha não consegui desvendar, tampouco o omega. Enquanto certas ideologias ulteriores do século XX querem liberar o homem de suas correntes, inversamente cerceiam-no em processos de perda da liberdade ainda mais virulentos, sendo que, em consequência da aplicação drástica de ideologias mortíferas, criou-se a legislação a condenar os ‘crimes contra a humanidade’

A partir de frase de Georges Benjamin Clémenceau (1841-1929), Servenière aborda a seguir fato concreto que assola grande parte da juventude: “É necessário um pouco de ordem e um pouco de desordem”. Segundo o compositor e pensador francês, referindo-se a esses jovens: “revoltam-se naturalmente, a fim de fixar seus territórios, contra a autoridade do pai, contra a ordem estabelecida. Como toda geração, eles têm a flama em suas lutas pela vida, como nós a tivemos. Todavia, reproduzirão o mesmo esquema educativo e coercitivo para com seus filhos e assim perpetuam o processo… ‘Tudo deve se transformar para que nada mude’. Vocês, brasileiros, têm um pé sobre cada campo: ‘ordem e progresso’, tradicionalmente direita e esquerda… que simbolizam nossa situação corporal instalada sobre dois pés, dirigida por dois cérebros. Não empregamos em França a fórmula metafórica ‘o coração à esquerda e a carteira à direita’ para exprimir essa dualidade existente? Têm graça a política e a filosofia! Os debates não são novos e se reproduzem a cada geração desde o advento da espécie humana, e muito antes entre os animais, cujos comportamentos adotam situações de submissão e de autoridade, de luta pelo poder, mas também de sabedoria e de instinto acurado… Malgrado os grandes pensadores que se ‘debruçaram’ sobre tais questões universais, as conjunturas sucessivas não fazem mais que reproduzir aos movimentos do balanço à mercê dos eventos que se sucedem. E como o desequilíbrio permanente, à imagem das forças estelares dos Éthers de l’Infini, é característico da sociologia humana, nossas respostas sociais e políticas são sempre as mesmas, idênticas… Sucedem-se umas às outras: ‘remetamos em ordem toda essa desordem’, e após, ‘remetamos um pouco de desordem nessa ordem plena’, parecem-me os mecanismos sociais automaticamente correntes… E assim até o fim dos tempos… Nosso espírito não estaria em permanente dialética a confrontar necessidades vitais: descongestionar a ordem em nossa cabeça e em nosso corpo; posteriormente tentar restabelecer a ordem nos pensamentos e atos confusos que nos assolam? A partir dessa dualidade, aprendemos que não há nenhuma posição congelada em nossas ideias e atos, e sim situações transitórias à imagem do balanço permanente da vida e suas manifestações, como ocorre com os ciclos multiformes da natureza. Em minha obra pianística Rhythmics and Repetitives busquei ‘fundamentar’ essas ideias e propósitos.

Numa outra abordagem, verificamos ainda hoje o processo orweliano através da internet: a mensagem progressista e libertadora ‘parece’ atraente e o controle das massas, assustador. George Orwell (1903-1950) em seu romance Nineteen Eighty Four (publicado em 1949) já preconizaria que os antagonismos filosóficos estão misturados na cabeça dos humanos para fazê-los perder sua referências ancestrais, como numa sociedade imaginária onde se diz ao indivíduo: ‘A paz é a guerra’.

Diria também que, nesse processo voluntário de mentira generalizada propalada nos discursos políticos de hoje, mesmo em França, pátria da literatura, onde as palavras deveriam ter significado claro, os homens voltados públicos dizem sempre o contrário. Inclusive, podemos constatar entre os mais virtuosos entre eles, aqueles da última geração, que expõem na primeira parte de uma fala, uma ideia e, ‘logo a seguir’, se desdizem sem qualquer rubor. Prática feita para agradar a categorias de eleitores, todas as cabeças, lunáticos ou solares… A cada um a escolha. Enfim, todos acabam decepcionados, pois os polos sul e norte, até segunda ordem, não estão situados no mesmo endereço. Na realidade, a vida é feita de escolhas. Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704) predisse as consequências desses processos mentais deformados pela ideologia da mentira: ‘Deus ri dos homens que lamentam os efeitos, consequências das causas que eles admiram’. Não seria a mentira a ‘técnica’ absoluta empregada por políticos e empresários brasileiros, corruptos e corruptores, a fim de negarem peremptoriamente quaisquer práticas ilícitas?
Servenière finaliza: “Pensemos na complexidade das almas e dos equilíbrios humanos através das gerações, impulsionando o progresso do ideal humano: ‘Liberdade do pensamento e de expressão nas sociedades cada vez mais seguras’. Vasto programa! Esse último artefato histórico das ‘sociedades seguras’ contém o germe dos perigos de uma nova ditadura mundial, tal qual preconizada por Orwell e Aldous Leonard Huxley (1894-1963), via internet e suas derivantes… O melhor dos mundos… Não obstante, o perigo nunca está distante ‘O combate não tem fim’ é o próprio fim, apesar de que a vida não é feita que de combates… Almejamos todos a paz, no nosso de profundis, entendendo-se todas as aspirações individuais rigorosamente humanas: família, Nação, lei, amor, respeito, ordem virtude, igualdade, liberdade e fraternidade”. (tradução: J.E.M.)

Once again I publish reflections of the French composer François Servenière after reading the post “Berezina”, this time addressing issues such as weakness and corruption of decision makers, the seeds of dictatorial governments spreading around the globe, youth alienation, the dangers of ignoring the lessons of History and the links between past and present.

 

(clique na imagem para a leitura do programa)

Recital de encerramento

As agências internacionais de concertos
apoderaram-se inteiramente da nossa vida musical,
onde colocam (por vezes a peso de ouro) o êxito acumulado do “centro”.
E nem sequer passa pela cabeça das instituições e dos seus “programadores”
que Brasil e Portugal, juntos,
bem podiam criar uma nova dinâmica
de efectivo intercâmbio que se projectasse
não só no espaço cultural luso-brasileiro, mas também para fora dele.
Mário Vieira de Carvalho
(Professor Catedrático de Sociologia da Música na Universidade Nova de Lisboa)

A última vez que me apresentei como recitalista de piano no Theatro Municipal de São Paulo foi aos 17 de Junho de 1963, com programa dedicado a J.S.Bach.  A progressiva destinação do Theatro Municipal às temporadas líricas, ao ballet e aos concertos orquestrais possivelmente retirou do mais tradicional teatro paulistano muitas das apresentações solo, que foram deslocadas para outras salas da cidade. Estou a me lembrar de que, na minha juventude, o Theatro Municipal abrigou apresentações de muitos dos maiores intérpretes solistas da história: Arthur Rubinstein, Claudio Arrau, Walther Gieseking, Zino Francescatti, Ruggiero Ricci, Christian Ferraz, Alexander Brailowsky, Leonid Kogan, Pierre Fournier, Guiomar Novaes, Magda Tagliaferro, Gérard Sousay e tantos mais. Minha primeira ida ao Theatro Municipal foi para assistir ao pianista Alexander Uninsky. Tinha eu pouco mais de dez anos e o espetáculo  maravilhou-me. A todas as apresentações dos intérpretes mencionados meu irmão João Carlos e eu assistíamos entusiasmados! Quando crianças, sempre acompanhados de nossos pais.

Quanto ao Theatro Municipal, o atual prefeito João Dória realizou para a cidade um benefício cultural a ser elogiado, pois o teatro ficou em passado recente à mercê de algumas figuras hoje envolvidas com a Justiça. Propiciou o alcaide uma democratização dessa sala de espetáculos centenária. Foi pois com alegria que recebi do Senhor Cônsul Geral de Portugal em São Paulo, Dr. Paulo Lourenço, convite para encerrar a programação “Experimenta Portugal’17″ que, durante todo o mês de Junho, mostrou à cidade eventos diversificados em vários locais, numa promoção relevante. Junho tem significado especial para Portugal, pois o dia 10 (dias de Camões) é a data nacional do país. O recital se enquadra na programação do Theatro Municipal, que às quartas-feiras, às 20:00hs, tem realizado espetáculos solistas ou camerísticos com boa aceitação pública. Está pois meu recital marcado para o dia 28 deste mês.

Para tanto, apresentarei programa luso-brasileiro que se estende do barroco à contemporaneidade. O ouvinte poderá “viajar” sonoramente através de propostas de compositores de grande valor com linguagens rigorosamente distintas. Diria, não há no programa elaborado dois estilos que se poderiam assemelhar. Aos 79 anos, poderia afirmar que, entre minhas escolhas durante a trajetória, a música de Portugal e do Brasil faz parte atuante de meu repertório, sem distinção, repartida de maneira bem equânime, inclusive em número de CDs gravados, seis brasileiros e outros seis com obras portuguesas significativas.

No programa apresentarei obras de oito autores, também selecionados equilibradamente. Inicio com duas Sonatas do compositor barroco nascido em Coimbra, Carlos Seixas (1704-1742). Seixas, falecido precocemente, legou importante criação distribuída em vários gêneros. Gozou da amizade de Domenico Scarlatti (1685-1757), que teceria elogios ao colega coimbrão, 19 anos mais jovem. Carlos Seixas compôs mais de 100 Sonatas para teclado. Na Bélgica gravei 23 Sonatas para o selo De Rode Pomp. As duas escolhidas são contrastantes, sendo a Sonata em  lá menor (71) plena de poesia e a em dó menor (16) jocosa e virtuosística, com determinadas ornamentações, recorrentes durante a obra, que fazem lembrar a técnica da guitarra.

Também pelo selo De Rode Pomp gravei as “Trente Six Histoires pour amuser les enfants d’un artiste” (1999), obra basilar de Francisco de Lacerda (1869-1934). Apresentei-a mais de uma vez em várias cidades portuguesas. Quando do lançamento de meu livro “Impressões sobre a Musica Portuguesa” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011), apresentei na legendária cidade universitária não apenas muitas dessas pequenas peças, como também duas homenagens a Francisco de Lacerda. O compositor francês François Servenière (1961- ) comporia “Trois musiques pour endormir les enfants d’un compositeur” e o compositor português Eurico Carrapatoso (1962- ), as “Six histoires d’enfants pour amuser un artiste”,  inspiradas nos poemas da poetisa portuguesa Violeta Figueiredo. Pede o compositor que o intérprete leia os curtos e sugestivos poemas antes da apresentação de cada uma das peças da coletânea.

Os “Estudos Transcendentais” de Francisco Mignone (1897-1986), compostos em 1931, pertencem definitivamente ao repertório mais significativo de nossa criação musical para piano. Neles, Mignone emprega processos arrojados, mormente sob o aspecto da busca de resultados sonoros.

Em 1979 solicitei a Francisco Mignone uma obra para comemorar 20 anos de minha primeira apresentação em Lisboa. Surgiu “Adamastor – O Gigante das Tempestades”, inspirado em “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões.

O longo convívio com Gilberto Mendes (1922-2016) na Universidade de São Paulo aprofundou laços de amizade. Ele me honraria com muitas obras que apresentei no Brasil e em vários países europeus. Entre essas: “Viva Villa”, “Il Neige Encore”, Sete “Estudos”, “Sonatina” e mais algumas. Muitas delas têm sido apresentadas no Exterior por pianistas de diversas nacionalidades, o que vem demonstrar que, contemporâneo, Mendes nunca foi compositor de uma única apresentação, fato rigorosamente comum entre seus pares. Para os meus 70 anos, que também seriam lembrados em Portugal, Gilberto Mendes compôs “Largo do Chiado” (2008). A curta peça evoca o fado preferido por Gilberto, “A Severa”, canção que sabia de memória desde o filme português de José Leitão de Barros datado de 1930 e primeira película sonora realizada em terras lusíadas.

De Fernando Lopes-Graça (1906-1994), compositor que tive o privilégio de conhecer e de cuja amizade privei desde 1958, gravei três CDs, a maioria com obras em primeira audição. Apresentarei “Morto, José Gomes Ferreira vais ao nosso lado”, pertencente às nove “Músicas Fúnebres”, nas quais Lopes-Graça homenageia amigos que partilhavam ideologia e conceitos artísticos e literários. Como a peça apresenta várias vezes o tema de “Jornada”, uma das canções de Lopes-Graça  sobre versos do poeta José Gomes Ferreira e pertencente às “Canções Heróicas”, antes da interpretação da composição tocarei a canção precedida da leitura dos versos do ilustre poeta português.

Júlio Medaglia (1938- ), um dos músicos mais versáteis do país, compôs uma peça para CD de Estudos Brasileiros que gravei na Bélgica e lançado pela Academia Brasileira de Música. “Zé Eduardo arpeggiando do choro” nasceu após solicitar ao amigo um choro para piano, mercê de ter ouvido uma outra composição sua do gênero dedicada ao quinteto de metais da Orquestra Sinfônica de Berlim. Um primor que continua a granjear ótima recepção.

Mantive com Jorge Peixinho (1940-1994) uma amizade que me estimulou muito no sentido de entender melhor a escrita decorrente do pensamento da Escola de Darmstadt, com a qual Peixinho tanto se identificou. Gravei duas obras do notável músico, “Villalbarosa” para o selo Labor dos Estados Unidos (2001) e, mais recentemente, o “Étude V Die Reihe – Courante” (1992) para o selo Francês ESOLEM (2017), criação que explora de maneira notável a “série” (técnica de composição baseada na disposição de 12 sons sequencialmente diferentes – total cromático da oitava) e que veio enriquecer a coletânea de Estudos para piano que iniciei em 1985 e que teria a duração de 30 anos, findando pois em 2015. Em blogs anteriores escrevi a respeito do projeto, criado com data marcada para ser finalizado. Tem-se uma panorâmica do gênero Estudo na passagem do milênio. Recebi cerca de 80 Estudos vindos de inúmeros países.

Finalizarei o programa com uma obra de nosso grande compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931), músico que tive o privilégio de redescobrir e dele gravar cinco LPs no Brasil e três CDs na Bélgica, sendo que um quarto deverá ser lançado no próximo ano. A “Valse-Caprice” op. 11 nº 1 é simplesmente extraordinária em sua condução e apresenta temas contagiantes. Na realidade, uma grande Valsa.

Mesclar obras brasileiras e portuguesas é motivo de alegria. Todavia, vergonhosamente em nosso país não se toca música erudita ou de concerto composta em Portugal. Continuamos a reverenciar os mesmos compositores consagrados europeus, os de sempre. Por motivos que poderiam ter explicação numa análise mais profunda, passando pela colonização, teimamos em dar as costas à excelente criação musical erudita, clássica ou de concerto portuguesa. Exceções das exceções existem e ficam nessa categoria.

Convido os leitores que me têm prestigiado desde Março de 2007 através do blog a assistir um programa diversificado, que bem posiciona criações relevantes oriundas de nossos países, que deveriam ser sempre irmãos em todos os aspectos. Preservemos esse amálgama que existe a partir de tantos elos insubornáveis, eternos.

On my forthcoming recital on 28 June at the Theatro Municipal, part of the agenda of “Experimenta Portugal 17”, event promoted by the  General Consulate of Portugal in São Paulo. The recital will be entirely dedicated to Luso-Brazilian composers: Carlos Seixas, Eurico Carrapatoso, Francisco Mignone, Gilberto Mendes, Fernando Lopes-Graça, Júlio Medaglia, Jorge Peixinho and Henrique Oswald. A richly varied programme ranging from the Baroque to the present, with extraordinary works from Portugal and Brazil, “sister nations” that should be always united by genuine ties of friendship.