Elas continuarão neste 2017

Os pensamentos que me ocorrem
quando estou correndo são como nuvens no céu.
Nuvens de tamanhos diferentes.
Elas vêm e vão, enquanto o céu continua o mesmo de sempre.
As nuvens são meras convidadas que passam e vão embora,
deixando o céu para trás.
O céu existe ao mesmo tempo que não existe.
Possui substância e ao mesmo tempo não.
E nós meramente acolhemos essa vasta expansão
e nos deixamos embriagar.
Haruki Murakami
(“Do que eu falo quando eu falo de corridas”)

“E as corridas de rua. Você as abandonou?”. Marcelo é amigo e morador na minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo. Encontramo-nos várias vezes na feira livre aos sábados e nos vários supermercados das cercanias. Respondi que continuo a treinar e a participar das inúmeras corridas de rua que hoje proliferam em São Paulo e cidades vizinhas, sempre com enorme prazer. Disse-lhe que a sua pergunta era provocativa e que não ficaria indiferente ao tema.

Realmente continuo a participar das corridas de rua. No ano que passou foram 20. Se considerarmos que a inscrição para as provas pressupõe preparação, diria que, num ano de 50 e tais semanas, as participações até que foram expressivas. Atendo-se aos três treinos semanais – dois quando há corridas -, temos cerca de 150 percursos de 8 a 12km durante o ano, individuais ou junto à multidão de adeptos. Mesmo em turnê pela Europa não deixo de treinar, até quando as temperaturas estão lá embaixo. Em 2015 cheguei a correr em prova de 10k na cidade de Ninove, na Bélgica.

Escrevi em anos anteriores que jamais vi um rosto contraído ou mal humorado antes e depois das provas de rua, exceção ao pelotão que sai à frente e que busca superar tempos e ganhar troféus. Diria, quem compete tem a adrenalina em índices altos e vê o corredor ao lado como alguém a ser superado.

Faço galhardamente parte da turba que está a correr despreocupada, buscando a ratificação de princípios que regem a qualidade de vida. Todos se sentem “companheiros” no percurso a ser vencido. Um exemplo pode ser presenciado habitualmente quando um corredor cai ou sente qualquer desconforto. Há sempre os bons samaritanos que abdicam de seus tempos para acudir o infortunado. Já fui mais de uma vez socorrista nessas ocasiões. Não sei se o pelotão de atletas profissionais ou semi profissionais age dessa maneira, pois não apenas não estou lá na frente para comprovar, como também esses corredores pensam nos prêmios e nos troféus, o que é lógico.

Acumulo alguns troféus, não pelo desempenho, mas graças à idade. Numa corrida de rua na aprazível cidade de Louveira (72km de São Paulo) estava para retornar à nossa cidade juntamente com meus companheiros nessas provas, Batoré e Peninha, quando, por megafone, anunciaram meu nome. E veio o troféu do mais idoso!!! Nas organizadíssimas corridas do Circuito da Longevidade, patrocinadas pela Bradesco Saúde, já foram vários troféus relativos à classificação na faixa etária e como um dos três mais longevos. Não deixa de trazer grande alegria.

Desde 1952, tenho muitos álbuns contendo recortes de jornais, críticas e programas musicais que contam o longo caminho que ainda não findou. Igualmente guardo álbuns das corridas desde 2008. Já são cinco preenchidos. De cada corrida arquivo o número de peito, foto comprada das inúmeras empresas que colhem milhares de imagens dos corredores e o tempo final. Num desses dias revi-os e pude observar o paulatino aumento dos tempos para percursos como os 10k. “O tempo insubornável”, de que nos fala Guerra Junqueiro, testemunha por escrito esse declínio, que não me incomoda. Continuo a chegar entre os corredores do último terço de inscritos, mas curiosamente à frente de algumas centenas ou, em determinados casos de quantidade expressiva de corredores, de milhares. Isso não importa. Satisfaz-me a alegria contagiante que emana desse clima mágico representado por essa atividade esportiva que cresce de maneira geométrica no Brasil e no mundo.

Resenhei dois livros sobre corridas de rua, um do grande escritor japonês Haruki Murakami (vide blog de 19/02/2011) e outro do médico Drauzio Varella (vide blog de 03/10/2015). Li com grande prazer as duas obras, pois pormenorizam toda a evolução que os levou a percorrer maratonas. Já escrevi anteriormente que a maratona (42.2k) continua a ser desafio a ser vencido por quantidade expressiva de corredores de rua, sendo a meia maratona (21.1km) a etapa necessária de aprimoramento. Logicamente, pormenorizar-se nessas distância significaria ainda atingir o Nirvana. Todavia, a insaciabilidade humana já aumentou limites quilométricos, e provas de 100k ou até 180k já estão se tornando alvo para adeptos especiais, os ultramaratonistas. Essa assertiva leva à conclusão de que a temática futura buscará distâncias sempre acentuadas e literatura afim será produzida para interesse de leitores ávidos no algo a mais. Porém, metas em ascensão não trazem benefícios à saúde. Isso é comprovado. Um bom companheiro de corridas, que participava de provas de 10 a 100k, sofreu infarto do miocárdio ao final de um longo percurso e quase se foi. Meses após, retornou às corridas de apenas 10k e com “orgulho” exibiu a enorme avenida traçada em seu peito! A maratona já é, a meu ver, desde a intensa preparação, um exagero para o humano.

No dia seguinte ao nosso encontro, Marcelo entrega-me recente artigo intitulado “Feliz 2017″ (Folha de São Paulo, 24/12/16), de Drauzio Varella. O famoso médico estranhamente desconstrói a essência de seu livro “Correr” e o título da crônica em apreço. Emana conceitos desestimuladores. Escreve: “Corro maratonas há 23 anos. Acordar mal-humorado às 5h, vestir calção e calçar tênis, resignado, é parte de minha rotina, como examinar doentes ou tomar banho”. Alguns parágrafos abaixo prossegue: “Quando você, leitor, ouvir alguém que se gaba de acordar louco para fazer exercícios, não fique complexado: é mentira. Como eu sei? Se existisse tal disposição eu a teria sentido pelo menos uma vez nos últimos 23 anos. Para mim, levantar da cama e começar a correr sempre foi sacrifício; todas as vezes, sem uma exceção sequer” (sic). Algumas considerações: Varella generaliza uma experiência particular. Utilizando-me do mesmo raciocínio, em sentido inverso, diria que todos os corredores que conheço – alguns maratonistas e ranqueados – praticam a atividade com prazer. De minha parte, jamais acordei mal-humorado, por vezes às 4h, nas 130 corridas desde 2008, portanto iniciadas aos 70 anos, após um câncer que quase me levou aos anjinhos. Todas as manhãs, mesmo em dia de corridas, realizo com prazer meus 20 minutos de ginástica, assim como meu saudoso pai, que se sentia rejuvenescido ao praticar seus exercícios matinais até pouco antes de sua morte aos 102 anos. Jamais correr foi sacrifício para mim e para os que eu conheço. Quando, às 5 ou 5:30h, meu companheiro de corridas, Carlos ou Batoré, chega à minha porta vindo de bairro distante e estampa um grande sorriso pleno de alegria, ouço sua frase em voz alta, “mais uma professor!!!”. Seguimos energizados para as provas em São Paulo ou cidades próximas. A testemunhar esse prazer enorme do avô, minha querida neta Ana Clara escreveu mensagem quando da centésima corrida. Inserida no post de 28/08/2015, publico-a novamente, pois comove-me sempre:

“Vovô querido, muito me orgulha ver estas fotos e ser testemunha desta conquista que vai além da primeira corrida com três dígitos. Não são somente 100 corridas. São 100 vezes que você acordou antes do sol nascer. São 100 vezes que você se inscreveu com vontade de superar mais um obstáculo. São 100 vezes que você foi dormir pensando que uma nova história te esperava no dia seguinte. São 100 vezes que você se preparou no dia anterior (com os alfinetes na camiseta, com a garrafa d’água, a toalha e a camiseta extra). São 100 vezes que você alcançou a chegada. São 100 vezes que você foi admirado pelos demais corredores pela sua idade e perseverança. São 100 vezes que você chegou em casa satisfeito por mais uma missão cumprida. São 100 vezes que o ‘talento’ percebeu que não estava tão lento assim. São 100 vezes que você se orgulhou da escolha de começar a correr. São 100 vezes que você salvou fotos, as imprimiu, e colou juntamente com o número da corrida no álbum. São 100 medalhas. São 100 corridas SEM desculpas ou desistências. São 100 vezes que você acordou determinado a lutar pela vida. Não pude estar presente nestas 100 corridas, tendo participado de duas delas, mas tenha certeza que você recebeu 100 aplausos, 100 sorrisos e 100 momentos de orgulho da sua querida neta. Esta foi minha singela homenagem ao meu queridíssimo avô! Te amo! Parabéns de novo!”. Confesso que, se sentisse, sequer uma vez, sacrifício ou enfado, não correria, como também não me dedicaria horas a meu estudos pianísticos.

Portanto, prezados leitores, continuarei a percorrer distâncias compatíveis com minha idade (78). De 10 a 15km, acho plausível. Se chegar aos 80 anos, espero ter escrito um livro sobre a experiência saudável nessas distâncias e relatar algumas figuras que me são essenciais como exemplos, estímulos e amizade. Pormenorizar-me-ei em Elson Otake, o maratonista, responsável pela introdução no YouTube de cerca de 80 gravações que realizei no Exterior e conselheiro impecável quanto às corridas; Nicola, que, aos 82 anos, foi meu primeiro guru, e que realiza semanalmente treinos de 20 a 30km nas serras perto de Campos do Jordão; Antônio Lopes, fenômeno físico, que aos 89 anos participou de maratonas e ainda completa as meia maratonas. Soma em seu currículo mais de 700 corridas de rua!!! Encontro-o em quase todas as provas de 10 ou 15km!!! Escreverei sobre Edgar Barbosa Correa, excelente personal trainer que me orientou durante ano decisivo e que hoje mora definitivamente, com sua esposa Melina, igualmente personal, nos Estados Unidos Por fim, terei capítulo sobre Carlos, vulgo Batoré, amigo e companheiro de todas as corridas.

Marcelo ainda perguntou o que eu considero o benefício maior. Respondi-lhe que o bem estar é resultado fulcral, inclusive para meu estudo de piano; que durante os treinos solitários ligo o automático e passadas e respiração se amalgamam, deixando para a mente a elaboração dos quase 530 posts já publicados no blog. “Eles” se organizam na mente e, de madrugada, no silêncio possível, descem serenamente para o teclado do computador. É isso, meu caro Marcelo.

This post explains why I love running: the benefits for body and mind: the interaction  with other runners – everybody has an advice to give, a race story to unfold -, the rush of hormones that relieve stress and make your happier. Running has never been a burden: on the contrary, it is something I always do with pleasure, even if it includes solo practices three times a week alone with my thoughts, getting up at dawn rain or shine on runnings days – occasionally travelling long distances -, taking care of my form, breathing, and pace. But I love the camaraderie of my teammates and of other runners, checking how I have done in my age division and, as a fringe benefit, the increased energy brought by regular exercise.

 

Tenhamos ainda esperanças!

Cada um de nós emergirá ao fim do Ano Novo, ou maior ou menor;
ou então, absolutamente não teremos crescido,
permanecendo em completa inércia,
exatamente aquilo que agora somos.
Porém, para aqueles dentre nós que sentem ardor,
qual o significado de um Ano Novo?
Somos semelhantes a viajantes, penetrando,
em nossa longa jornada, por um país novo e desconhecido,
onde fados estranhos e estranhas aventuras nos esperam.
Nesta terra,
à medida que o peregrino observador a percorre,
oportunidades se acumulam sob seus passos.
Entretanto, para os utilizar, necessita ser sábio e estar alerta.
Pois de uma coisa deve lembrar-se,
que é um viajante e que o que lhe compete é,
não deter-se, mas passar adiante.
Jiddu Krishnamurti (1895-1986)

O acúmulo de situações estressantes durante 2016 não traduz panorâmica risonha. Pelo mundo e em nosso país, assistimos, tantas vezes atônitos, aos mais díspares acontecimentos, preponderando sempre o drama e o trágico. A mídia a cada ano evidencia de maneira mais cruenta uma visão sádica do mundo em que coabitamos. Qual o jornal televisivo que se sustentaria sem priorizar o crime, o banditismo, a perversidade e a corrupção, esta com seus adoradores pertencentes ao círculo dos políticos, empreiteiros e daqueles que pululam nesse lamacento meio, a deixar o Estado desprovido de estruturas sólidas. Manchetes de jornais (veículo em franco declínio) e capas de revistas conseguem leitores ávidos em conhecer o que não deu certo, qual a desgraça do dia anterior, o nome dos mencionados nas delações premiadas, os Poderes infectados.

Walter Benjamin já observava que o cidadão comum está mais interessado no acidente ocorrido perto de sua morada do que nas tragédias bem alhures. As toneladas de sepultos, consequência das insanas batalhas no Oriente Médio, são vistas de maneira até rotineira!!! É tão verdade e pode ter fácil aferição no cotidiano, pois o crime hediondo, ocorrido no dia anterior nas cercanias, tem maiores possibilidades de ser tema de conversações do que os bombardeios e a dizimação de crianças, mulheres e idosos sírios promovidos pelos ditadores da Síria e da Rússia.

Do conturbado Oriente Médio, da Ásia e da África, levas de imigrantes chegam ao litoral europeu. O historiador Eric Hobsbawm (1917-2012) já preconizava, muitas décadas atrás, que até 2050 o hemisfério norte, Europa e Estados Unidos estariam totalmente invadidos pelas populações mais ao sul. As convulsões mundiais só tendem a acentuar o temor dessa profecia. Parte considerável dos que chegam buscam impor seus costumes e sua religião, não se adaptando às culturas ocidentais sedimentadas através dos milênios. Países que preponderam no cenário mundial preferem o emprego de eufemismos para o não enfrentamento do problema fulcral. Haverá gigantesco tributo a pagar!!!

Comoção absoluta advém quando ato terrorista, geralmente provocado por tresloucados ligados ao EI, abala uma cidade de maneira covarde. O tema prepondera durante alguns dias para descer às profundezas abissais das estatísticas.

Em termos brasileiros, o impeachment da presidente teve desenrolar traumático e durante meses ocupou parte primordial da mídia e das expectativas da população. Após 13 anos, “o projeto criminoso do Poder”, assim denominado pelo Ministro do STF, Celso de Mello, deixava as estruturas do Estado. Espera-se que já no próximo ano avanços nas reformas aconteçam, apesar de embates que certamente serão promovidos por sindicatos e opositores, no caso, propensos ao pior.

A constatação de que o esporte na atualidade tem muito maior apoio do que, hélas, segmento das artes, a música, pode ser sentida. A tragédia a envolver a equipe de futebol da Chapecoense recebeu homenagens fúnebres em todo o mundo, de um Real Madri e Barcelona da Espanha, dos grandes times da Alemanha, França, Inglaterra, Itália e Portugal a time da terceira divisão na China. A comoção mundial foi plena. Neste fim de ano, outra tragédia, a queda do avião russo que levava cantores do Exército – conhecidíssimos outrora como do Exército Vermelho, durante o regime soviético na antiga URSS – e mais dançarinos, músicos e tripulantes. Ao todo, 92 sucumbiram. Se o Exército Vermelho de  tempos outros tem histórico sinistro, o coro masculino encantava o Ocidente com suas melodias, acompanhado de dançarinos em evoluções acrobáticas, perpetuando o folclore russo. Que eu saiba, orquestras espalhadas por tantos países não prestaram homenagens póstumas. Creio que na Rússia devam ter acontecido tributos. O Presidente Putin decretou um dia, friso, um dia apenas de luto oficial!!!  Justamente a arte musical que, em princípio, revela a mais intensa emoção e num país de extraordinária tradição relacionada à música erudita e folclórica. Também sinais dos tempos. Teria havido algum segmento expressivo nos noticiários de nossa lamentável TV aberta? A mortes de David Bowie e George Michael marcaram espaços enormes nos noticiários. Ao menos, como dado cultural, poderiam ter dedicado espaços à história dos ascendentes desse numeroso grupo de músicos, legado de uma tradição fabulosa.

Pesquisa recente apontou para a palavra “indignação” como a mais respondida por questionados sobre o ano que ora finda. Outras palavras citadas não são alvissareiras. Todavia, houve alguém a citar esperança.

Nessas incertezas em que nosso mundo mergulhou, ainda mais com a eleição do verborrágico e intempestivo presidente norte-americano, ainda é possível acreditar. O marco essencial continua a ser a família, insistentemente solapada por tantos. É salvaguarda, assim como amizades profundas. Apesar de atingida em seus flancos pela total desorganização social, pelo avanço dessa praga, a droga, e pela violência vista como rotina, só no âmbito da família algo de iluminado poderá advir, pois a Escola, que deveria ser a sequência do aprendizado e o caminho que levaria o homem à sua trajetória íntegra, está contaminada nas entranhas e alunos manipulados têm hoje maior autoridade do que o mestre em nosso país!!!

Apesar de um post sombrio, tenho esperanças de um mundo melhor. Seria utopia assim pensar? Ilustração e epígrafe apontam para uma mesma senda: somos todos peregrinos. Um Ano Novo melhor é o que eu desejo aos prezados leitores e a seus familiares e amigos.

New Year and the reflections it gives rise to: political unrest and corruption in Brazil, violence, poor education, schools that are failing our children and our society. In the Northern hemisphere, invasions of illegal immigrants, intolerance, terrorist attacks. Hoping that family values will not be wasted in face of the dark perspectives ahead of us, I can only wish you all a New Year filled with promises of a brighter tomorrow.

 

 

 

 

A realização maior de um músico de imenso talento

Que o querer tenha sua origem e seu apoio
em coração aberto à nobreza, à beleza e à justiça;
de outro modo é apenas gume fino e duro de faca;
por isso mesmo frágil,
na sua aparente penetração e resistência.
Agostinho da Silva
(“Considerações”)

O Talento é dom singular, a possibilitar contudo incontáveis destinações. Necessário em qualquer atividade, para que objetivos sejam alcançados em alto nível. Na área musical, o talento só resulta plenamente se houver harmonização de vários ingredientes que integram o músico completo. O compositor pode ser hábil ao escrever música, tudo está posto na partitura, mas se lhe faltar a criatividade, perder-se-á na poeira do tempo. O instrumentista pode ser habilíssimo sob a égide técnica, mas se não existir a essencial transmissão do que está a ser executado, faltar-lhe-á algo, ou muito. Há também o talento multidirecionado, raro, integralizado.

Durante minhas décadas como professor na Universidade de São Paulo tive o grato prazer de receber em minha classe de piano vários talentos amplos e quantidade de outros para os quais a música representava, hélas, apenas uma possibilidade de alguma realização profissional. Afirmei em muitos blogs, ao longo de quase dez anos, que não aceitava em minha sala alunos que tivessem como finalidade única participar de concursos pianísticos. Teria que conviver com discípulo com apenas uma fixação em mente, geralmente abstraído da verdadeira missão de um músico e de um aprimoramento humanístico necessário. Interessava-me, sim, formar o músico, não o simples tecladista. Dizia aos alunos que tocar bem é fulcral, mas não deve ser a única meta, pois a formação cultural homogênea possibilita o vislumbre de um norte, in conditio sine qua non. Sem a abertura da mente, lacunas são perceptíveis e podem tornar-se crônicas e irrecuperáveis.

Menos de dois anos antes de minha aposentadoria, em 2008, bateu à porta de minha sala na Universidade um aluno por quem tinha simpatia, mas não convívio. Em mais de uma oportunidade cheguei a ouvi-lo tocar, mercê da deficiência acústica notória existente àquela altura nas salas de aula do Departamento. Não sei se persiste. Sabia-o talentoso e, inclusive, promissor regente coral. Procurou-me por ter sido dispensado pelo professor que me antecedera em sua orientação pianística. Luiz Guilherme Godoy, olhar firme a não permitir tergiversação, cativou-me de imediato. Quis ouvi-lo e, à medida que tocava uma obra complexa e de grande interesse, o “Estudo nº 1″ de Osvaldo Lacerda, percebi de imediato que estava diante de um diamante raro em processo de lapidação. Logo após contou-me sua trajetória, pois, paralelamente ao curso universitário, estudava com o competente professor e pianista da Escola Municipal de Música, Renato Figueiredo. Durante muitos anos Renato foi mestre e, diria, mentor humanístico de Luiz Guilherme, pois ajudou-o a trilhar o longo caminho… O então aluno tem gratidão eterna a Renato e à sua esposa Fabiana, convidando-os, inclusive, para padrinhos de seu casamento, realizado em Viena. Gratidão, princípio fundamental para a harmonização de nosso interior. Externou-a também em relação à minha orientação, comovendo-me. Certamente guarda lembranças edificantes de outros mestres. Um belo caráter.

Foi com imenso gosto que acompanhei seus estudos até a brilhantíssima conclusão na universidade. Ele formado e eu aposentado, durante muitos meses ainda o assisti em minha casa com alegria e certeza de sua realização futura. Minha mulher Regina e eu conversávamos sobre essa “santa” altivez de Luiz Guilherme. Talento saindo pelos poros, execução firme, consciente, e o olhar sempre direto. Suas interpretações demonstravam a compreensão da obra musical além da partitura. Fiel ao texto, Luiz Guilherme demonstrava a rara qualidade da criatividade. Um pianista com reais méritos que se tornaria um ótimo pianista acompanhador, caminho indispensável para seu trilhar iluminado.

Lutou acirradamente pela subsistência. Orgulhava-se de sua origem. Seu dia era interminável, pois tinha pequenas atividades musicais para conseguir o prosseguimento de seus estudos. Renato Figueiredo e eu, nesse período difícil para Luiz Guilherme, demos esse apoio musical e externávamos plena amizade. Regina e eu tivemos o jovem promissor à nossa mesa em mais de um almoço, sempre nesse entendimento sereno.

Um belo dia, Luiz Guilherme chegou à aula muito sorridente. Obtivera bolsa para a Europa. Alegria plena do velho professor e igualmente de seu mestre Renato.

Luiz Guilherme singrou mares, sempre com o pensamento cônscio do  valor autêntico, mas a guardar qualidades ímpares, a simplicidade e a gratidão. Disciplina, concentração, dedicação extrema fariam com que, pouco a pouco, completasse cursos em Portugal, na Alemanha e na Áustria, aperfeiçoando-se com mestres irretocáveis, um deles brasileiro, o pianista Paulo Álvares.

A ascensão de Luiz Guilherme evidencia bem o talento extraordinário do músico de apenas 28 anos de idade. A base sólida instrumental fê-lo estagiário como pianista preparador da Wiener Singakademie, coro da Konzerthaus de Viena, nas programações do biênio 2013-2014  junto a maestros como Sir Simon Rattle, Valerye Gergiev e Gustavo Dudamel. Logo a seguir, em 2015, teria a indicação para assistente da direção artística da instituição, que o levou a apresentações em centros essenciais da Europa.

O grande talento, possuidor de mente privilegiada, extraordinária formação musical, friso, bom senso e vontade férrea, fez com que atingisse nesse 2016 cumeeira jamais alcançada por músico brasileiro. Após rigorosíssima seleção de nível internacional foi apontado para o cargo de Kapellmeister (mestre de capela) do mais famoso conjunto vocal de meninos do planeta, os “Meninos Cantores de Viena”. A crítica europeia não cessa de elogiá-lo e uma delas destaca sua interpretação “autenticamente vienense”. A agenda de Luiz de Godoy estende-se até 2019 e o jovem brasileiro estará a conduzir o célebre coro em turnês pela Europa, Ásia e América do Norte.

Noite Feliz pelos Meninos Cantores de Viena

Saliente-se que nesses três anos em um dos mais importantes centros musicais do mundo, Viena, Luiz Guilherme já acumula outras funções de extrema responsabilidade que lhe foram confiadas, mercê desse talento hors série que enfatizo sempre: regente na Wiener Songakademie, Konzerthaus e da Chorakademie da Ópera Estatal de Viena.

Em uma de suas últimas mensagens (05/12), respondendo a um e-mail que lhe enviara, escreve: “Ainda não havia respondido por ter ficado o dia todo envolvido com longos ensaios da Missa in Tempore Belli, de Haydn, na companhia agradabilíssima e sob a direção exemplarmente respeitosa de Zubin Mehta. Esse grande maestro trabalhou hoje pela primeira vez com as ‘minhas crianças’ para um concerto que se realizará na semana que vem. Tendo chegado em casa agora, vim direto para o computador para redigir este e-mail”.

Adeste Fideles pelos Meninos Cantores de Viena

Repasso ao leitor um fato do cotidiano que me foi transmitido pelo dileto amigo Carlos Augusto Souza Lima, que, em recente viagem à Europa, visitou-o em Viena. Luiz Guilherme fê-lo ouvir um ensaio com os Meninos Cantores. Este findo, pediu para que um dos meninos, de apenas 11 anos, permanecesse na sala, a fim de cantar uma música para Carlos Augusto. O miúdo, natural da Albânia, cantou de maneira angelical uma pequena peça, a emocionar o visitante.

Toda essa ascensão de Luiz Guilherme de Godoy teve reconhecimento extraordinário, pois recebeu no dia 10 de Dezembro, em Viena, o Prêmio da Fundação Erwin Ortner, concedido anualmente a uma só personalidade do universo coral europeu. A lista que vem desde 1988 não deixa dúvidas quanto ao mérito insofismável de Luiz de Godoy.

Quanto à Universidade de São Paulo, Luiz Guilherme de Godoy torna-se certamente, entre alguns que lá se formaram com méritos e desenvolvem carreiras brilhantes, o nome maior em sua história na área musical.

Ao bater à minha porta na universidade, Luiz Guilherme deixava ao largo mágoas que poderiam desviá-lo dos altos desígnios que já pululavam em sua  mente privilegiada. Tantos não resistem aos momentos difíceis… Vivendo em Viena de incontáveis tradições exemplares, totalmente diversa de nossa realidade, hélas, escreve Luiz Guilherme (22/12): ” Mesmo num país como a Áustria, onde música é matéria obrigatória nas escolas desde sempre, onde todo professor de ensino infantil tem que tocar um instrumento e cantar – no concurso de admissão! -, onde o ingresso para a ópera custa 3 euros… mesmo aqui há muitas medidas no sentido de tornar a arte ainda mais acessível, para atingir a todos os que possam se beneficiar dela. E a gente, por aí, indo na contramão disso, perdendo orquestras, perdendo festivais. Que tristeza!”. Nosso lamentável cotidiano cultural sem quaisquer perspectivas de melhoras!

Conhecendo o caráter íntegro de Luiz de Godoy, tenho a convicção de que o futuro revelará o sábio semeador das mensagens musicais. O diamante foi lapidado e já pertence aos teatros e salas espalhados pelo mundo. Renato Figueiredo e eu acompanharemos com felicidade interior intensa, essa luminosa carreira que se apresenta.

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Estava a inserir o post no presente blog, quando recebo de meu diletíssimo amigo e grande compositor português, Eurico Carrapatoso, um link que leva à sua criação “Dece do Ceo”, a partir de soneto do vate maior de nossa língua, Luiz Vaz de Camões. A obra foi estreada no último dia 17, no monumental Convento de Mafra, e teve como intérpretes: Joana Seara (soprano), Coro infantil, Coro misto e Coro de Câmara da Academia de Música de Santa Cecília, seis órgãos históricos comandados por Rui Paiva, Direção do maestro António Gonçalves (vide blog “Dece do Ceo” 28/05/16). Tão logo no YouTube indicarei o link aos leitores.

Nesse ambiente natalino insiro outra obra sublime de Eurico Carrapatoso interpretada pelos seguintes músicos: Angélica Neto – Soprano,  António José Carrilho e Sofia Norton – Flautas de Bisel, Jenny Silvestre – Cravo, Coro e Ensemble instrumental Olisipo sob a direção de Armando Possante.

Ó meu Menino (excerto do Magnificat em Talha Dourada)

A todo leitor que me tem acompanhado nessa longa jornada a observar as insólitas transformações por que passa o cotidiano mundial, desejo um Natal de intenso congraçamento em torno da data maior da cristandade.

This post is about the brilliant career of my former student at Universidade de São Paulo, Luiz Guilherme de Godoy. From a humble background, he has had to overcome countless difficulties to pursue his dreams. With unique talent, he got a scholarship to Europe, studying in Portugal, Germany and Austria. Today he is choral conductor of the best known choir in the world, the Vienna Boys’ Choir and has just received the Erwin Ortner Award, given annually for a personality active in the field of collective singing in Europe. Luiz Guilherme is no doubt the greatest name in the history of Universidade de São Paulo in the area of music education and matter of pride for his former mentors, pianist Renato Figueiredo (Municipal School of Music) and me.