Viver a Vida, Solidão, Vazio, Viagem…

Senhor, se o viajante perdido no deserto
tem uma casa habitada
mesmo que nos confins do mundo,
alegra-se.
Nenhuma distância o impede de estar alimentado,
e, se ele morrer, morre no amor…
Antoine de Saint-Exupéry
(Citadelle, cap CXXIV)

Reflexões de interesse transmitidas por François Servenière a partir dos dois últimos blogs fizeram-me considerar o tema relacionado à solidão, que pode ensejar a vontade da vida mais curta. Admirador confesso das realizações e livros do aventureiro francês Sylvain Tesson, Servenière considera, contudo, que o grave e prosaico acidente que sofreu em 2014, que o levou ao coma e à paralisação parcial dos movimentos da face direita, tenha recrudescido esse desejo de existência breve e fim abrupto.

Entendo que em todas as atividades há “normas” que influenciam a trajetória humana. A vida contemplativa tem suas regras; a atividade artística em cada área caracteriza-se por determinada maneira de atuação, de proceder, de vestir-se, de viver “livremente”; o mundo corporativo tem, inclusive, atitudes frente à necessidade de evidenciar status no cotidiano, e a posse de bens materiais determina parte essencial da aceitação entre os pares; figuras mediáticas, em todas as funções possíveis, agem a pensar diuturnamente no holofote, “aparência” da verdade; personagens mundanas e frívolas só gravitam na superficialidade; o acadêmico na universidade sofre pressão constante vinda majoritariamente de carreiristas, geralmente com estreiteza de pensamento; políticos, com raríssimas exceções, pensam em suas trajetórias pessoais. O aventureiro, seja alpinista, navegador, andarilho ou a utilizar não importa qual meio de locomoção, conhece os riscos diários que podem levar ao fim da existência. Uma outra concepção se instaura em sua mente, que se pode traduzir em solilóquio, no vasto espaço da solidão e na antevisão da morte.

Essa atração pelo isolamento voluntário, expressa por Tesson na entrevista a Carine Marret e que o faz mergulhar no mundo interior, não diverge do que pensa Henry de Montherlant (1895-1972): “O importante não é ser diferente dos outros, mas diferente de si mesmo”. Seria Montherland a escrever que “aquele que viveu intensamente em parte venceu a morte”, frase de sua narrativa Un voyageur solitaire est un diable. Frise-se que Montherlant se suicidaria em 1972.

Servenière observa:

“Não fiz nenhum comentário a respeito de seu artigo sobre Sylvain Tesson, pois não sabia o que dizer e você disse tudo. Ademais, o vídeo é tão esclarecedor quanto à trajetória de nosso aventureiro! A respeito do discurso tessoniano ‘viver a vida em plena velocidade desde que ela seja curta’, sinto a frase como uma forma de testamento daquele que escapou da morte por milagre… Sente-se Sylvain em estado de urgência, apesar de mostrar-se calmo e realizado após suas explorações pelo mundo e sua vida e seus escritos plenos de sucesso. O vídeo, ao qual assisti por duas vezes, é magnífico.

Estou a ler presentemente ‘S’abandonner à vivre’, de Tesson (vide blog de 06/06/2015). Gosto muito, apesar de não aderir ao posicionamento ‘última solução’ do autor. Explico-me: última folha pelo fato de que se trata de uma ‘alegria sine qua non e, após, o dilúvio’. Para Sylvain Tesson, ‘estar vivo’ significa ‘viver velozmente sua vida’, ‘aproveitar o mais rapidamente a vida e tudo que ela nos oferece’… ‘mesmo que tenhamos de morrer jovens’. Para mim, viver não é simplesmente fazê-lo com intensidade, mas viver todos os períodos para melhor compreendê-los e também saber-se partícipe do contexto da vida, prolongando-a para nossas crianças e criações.

Não ter filhos, por escolha, impossibilidade ou egoísmo, poderia representar alienação frente à vida, à maneira de interpretá-la. Seria como um pintor falar de pintura sem nunca ter pego um pincel. Ter filhos, sem entrar no juízo de valor, nos conduz a um outro mundo, desde a intenção de tê-los.

Não sei se Sylvain Tesson tem ou não filhos. Sua vida é bela e seus livros e suas aventuras são incríveis, mas sente-se algo incompleto, talvez  correndo sem cessar atrás de espectro invisível. Não obstante, como podemos julgar que existe um homem completo? Complexa questão a que nos propomos constantemente. Não temos nós todos falhas, equívocos, desequilíbrios? Fizemos escolhas, especializamo-nos nos domínios por nós eleitos, o que nos limita o conhecimento de domínios estranhos… É isso. A completude da vida se faz pela assembleia dos humanos e todas as particularidades que formam o conjunto de um só corpus de experiências e de conhecimentos. Impossível conhecer tudo, verdadeira pretensão do homem!!!

Sobre o seu artigo no blog, diria que é necessário ver a literatura de Sylvain Tesson  como a de um antropólogo, cuja curiosidade sem trégua jamais será resolvida. Os viajantes são assim. Há os viajantes de salão, que surfam sobre seus sonhos e criam mundos extraordinários. Existem outros que passam em revista a Terra para preencher seus cadernos substanciosos, observando o planeta real e criando realidades mais belas do que o próprio real, pois apenas eles saberiam colocar palavras talentosas sobre o que observam, ressentem e entendem. Sylvain Tesson é um desses poetas esclarecidos. Fascinava-me a dicotomia entre meu amigo eslovaco Josef Baàn e meu posicionamento intelectual. Ele buscava na etnomusicologia as razões de ser de sua música, pois buscava, para a inspiração musical, conhecer cientificamente as raízes da música junto aos povos primitivos. De minha parte, compunha a partir de meu espírito, com ciência e memória, talvez, mas, antes de quaisquer outras razões, pela introspecção profunda. Inerente, adquirida?

Eu amo viajar. Não saberia dizer se amo a atração da viagem mais do que a própria viagem. Amo ser viajante, mais do que encontrar um desiderato para a viagem, uma destinação, seja intelectual ou física. Sou um viajante mental, pois meu espírito viaja a cada dia em torno da Terra. Todavia, creia-me, não realizei nada comparável a Sylvain Tesson. Lê-lo permite-nos viajar por procuração, mesmo que a situação seja insuficiente. Você bem sabe que não é fácil para um músico profissional viajar, sobretudo quando o piano é o instrumento. Flautista e violonista têm maiores possibilidades”. (tradução: JEM).

Debate sem limites. A mente humana sempre a viajar para locais palpáveis ou para o de profundis, sempre insondável.

In this post I transcribe message received from the French composer François Servenière, with his comments on Tesson’s worldview, as expressed in the book “On a roulé sur la Terre”.

 

 

 


Sylvain Tesson e Alexandre Poussin em aventura inédita

Ainsi nous allons mourir,
et nous n’aurons pas tué le vent.
Henry de Montherlant

Desde 2011 tenho resenhado livros do geógrafo, aventureiro e escritor Sylvain Tesson (1972- ). Em “On a roulé sur la Terre” (Paris: Robert Laffont, 1996), o autor realiza a volta ao mundo de bicicleta juntamente com seu amigo, aventureiro e escritor igualmente, André Poussin (1970- ). Bem posteriormente empreenderiam uma segunda grande viagem, “La Marche au Ciel -  5.000 km à pied à travers l’Himalaia” (vide blog: 25/02/12).

“On a roulé sur la Terre” é o primeiro livro dos dois autores, pois posteriormente realizariam viagens separadamente, exceção àquela na cadeia do Himalaia. Após o casamento com Sonia, Poussin empreenderia a travessia da África com a esposa e outras mais viagens.

Impressiona o destemor dos então jovens e intrépidos aventureiros. Companheiros de escaladas de monumentos como catedrais, prédios públicos, paredões e montanhas, os amigos, com pouco mais de 20 anos de idade, resolveram percorrer o mundo pedalando.

No mapa que apresentam, a título de orientação para o leitor, tem-se o périplo incrível dos dois corajosos viajantes. Só os oceanos determinariam as intermediações terrestres. Ao todo foram 364 dias e 23.962 km rodados sobre duas rodas, atravessando 31 países!!!

Para quem já percorreu com grande prazer onze livros posteriores de Sylvain Tesson, fica nítido o embrião de percursos outros de bicicleta, a cavalo ou… a pé. Em “On a roulé sur la Terre” há puerilidade em algumas situações, diria, familiares. A mãe de Tesson encontrar-se-ia com a dupla em Lhasa, no Tibet, pois, médica, realizava atividade concernente à sua profissão. Em Teerã, novo encontro, desta vez providencial, pois a progenitora determinaria o diagnóstico de uma hepatite E, que debilitara totalmente Alexandre Poussin nos últimos dias de pedaladas até a capital iraniana. Convidados para jantar em casa do governador de Kerman, este se recusa a apertar a mão da médica – “minha religião não permite” – e Alexandre comenta: “Apesar de ter feito seus estudos em Oxford, gelamos com essa atitude. Ele possui o olhar fixo e iluminado que percebemos num dependente de ópio ou naqueles devotados à morte por uma ideologia da negação”. Durante todo o longo caminho pelo planeta, há por vezes o bálsamo que estimula, visitas de outros parentes e amigos de um ou de outro, como o caso da amiga Sonia, “a prometida” de Alexandre, segundo Sylvain, que com eles se encontraria em Mendoza e, mais tarde, seria a companheira de Poussin em aventuras extraordinárias do marido. De Mendoza, Sylvain e Alexandre teriam a companhia até Valparaizo, no Chile, dos amigos Eric e Natasha e da “prometida”. Despedem-se nessa cidade e os dois partem de avião para a ilha da Páscoa. Sylvain comenta: “Voltamos a comer com os dedos e a enfiá-los no nariz e a tomar banho se oportunidade houver”. Há também a recepção por parte de conhecidos previamente anotados e o maravilhamento do anônimo, ser cordial que os receberia em quaisquer circunstâncias, seja num humilde abrigo ou então em belas moradas.

No espaço que reservo aos blogs dificilmente poderia comentar sequer parte do longo percurso. Digna de consideração a narração alternada de Sylvain e Alexandre, o que torna a leitura muito agradável, ao mesmo tempo em que os textos descortinam situações humanas ou de natureza geográfica de muito interesse. Diria que Alexandre Poussin mostra-se mais lírico e as descrições daquilo que observa, por vezes, fariam bem perceber leituras prévias das aventuras de Saint-Exupéry, como “Terre des Hommes”. Pormenoriza a transformação contínua da natureza planetária, sem contudo desprezar o semelhante. Tece reflexões, como no caso da região himalaia. “Durante todo o dia somos confrontados com o esforço depreendido nessa região: é a valsa das vestimentas, valsa-hesitação, valsa-insatisfação”, referindo-se à constante mutação climática e à “altitude, que resolve as hesitações da chuva transformando-a em neve”. Quando no Irã, sob as tendas em noite brumosa, escreve: “Seria necessário captar o silêncio em foto, o silêncio é tão extremo”. Sylvain, nos seus 22 anos, mostra-se atento ao que vê e sente, mas já dá a perceber certo pragmatismo, tão presente nos seus magníficos relatos futuros.

Os dois não deixam de criticar com agudeza certas situações que encontram ao atravessar 31 países. Não se trata de fortuitamente conhecerem os locais. No curso das pedaladas, o olhar atento vai fixando o que causa impacto. Quando param, têm a possibilidade do contato humano. Não raras vezes são convidados para dormir no interior das moradias espalhadas pelo mundo, o que lhes dá prazer, mormente porque, na maioria das noites, são forçados a dormir em suas tendas.

Seguir a narrativa é conhecer hábitos e costumes de povos que nos são distantes e a entender determinadas precauções que devem ser tomadas em travessia desse porte. Do deserto do Saara ocidental guardam uma premissa essencial quanto aos poços: “se perdermos um só, tudo estará comprometido”. De Buenos Aires, Alexandre deduz: “pequena Europa concentrada, mescla de Barcelona e Paris, com pinceladas de Berlin revisitada por Milão e Nápoles”. Sylvain comenta o início das pedaladas na ascensão dos Andes: “O muro dos Andes se apresenta, como se os pampas morressem ao se confrontar com a cordilheira”. Sobre as longas avenidas de Santiago: “as avenidas são muito longas, parecem o mapa do Chile”. Comentários outros florescem a toda página e nos apresentam Bangkok e a sujeira que impera; a China como uma grande “escarradeira”, pois todos eliminam esses dejetos sem nenhum pudor, em todos os lugares públicos ou privados; criticam a imundície dos hospitais públicos do grande país asiático: ” A última coisa a fazer é ficar doente na China popular”. É que a dupla não passou pelo Brasil, pois de Dakar foram diretos a Buenos Aires. Senão… O sonho de chegar a Lhasa se realiza e sentem o impacto da história milenar do local sagrado, infelizmente anexado violentamente pelos chineses.

Uma cena hilariante valeria transmitir ao leitor. Na descida de Lhasa em direção à Índia deixam as desgastadas bicicletas deslizarem com rapidez. Em trecho sem habitações próximas, percebem que um grande cão desce velozmente também. Pelo retrovisor notam ser um dog tibetano, cão de guarda enorme e pouco sociável. A situação leva-os à queda e imediatamente fazem da bicicleta escudo contra a iminente investida. Esse animal, quando irado, eriça os pelos da enorme cabeça. No instante do ataque, os dois soltaram um grande grito, única defesa possível. O dog abaixa a juba, vira-se e retoma o caminho de volta. Tem graça o relato. Cito este fato pois, na década de 1970, situação semelhante vivi quando realizava pesquisa sobre arte sacra popular no Vale do Paraíba. Vendo uma casa de caboclo com cerca em volta e frágil portinhola, bati palmas e entrei pelo terreno. Repentinamente, um avantajado pastor alemão, provavelmente mestiço, saiu da morada bem simples, veloz e a latir. Apavorei-me inicialmente, pois impossível retornar correndo. Aguardei o pior. Aproximou-se a uma distância de cerca de dois metros, parou, rangeu os dentes, adiantou as patas dianteiras para o salto e preparava-se para me morder com certeza quando abri os braços e dei um berro a plenos pulmões. O cão abaixou o rabo e retornou à casa correndo e eu, também a correr rumo ao portão. Meu saudoso amigo Carlindo Pavan, que permanecera no carro, gargalhava.

Retornando ao livro “On a roulé sur la Terre”, mais de uma vez ficam detidos por longas horas nas inúmeras fronteiras atravessadas. Quase sempre as autoridades mostram a prerrogativa que as torna inquestionáveis. Seria basicamente improvável numa viagem por países por vezes inóspitos, a ausência da agressão e em duas oportunidades são agredidos por militares em países asiáticos. Aprendem com o tempo a lidar com as situações complexas. O fato de os dois terem habilidades musicais e de representação cênica serviu para atenuar momentos críticos. Quando a realidade mostrava-se favorável, tocavam flauta e dançavam diante das crianças e adultos espalhados pelo mundo.

Se as narrativas da natureza são, em determinadas circunstâncias, bem líricas, mormente se os dois sentem-se descontraídos e felizes nessas pedaladas, não raramente há relatos mais cáusticos ou até sombrios, sobretudo quando um deles adoece.

À medida que se aproximam do lar, ainda na Crimeia, o discurso se torna mais esperançoso, apesar de uma das travessias de fronteira ter sido feita clandestinamente. Armênia, Crimeia, Ucrânia vão sendo ultrapassadas, Romênia até Cluj-Napoca (dei recital nessa bela cidade) e de lá à Hungria, Áustria, Alemanha, Suíça e França.

O último relato é de Alexandre. Vale a pena a leitura “Nós deliramos. Trezentos e sessenta graus, revolução em nossos corações, voltamo-nos a nós mesmos”. Menciona as avenidas parisienses, que assistiram às últimas pedaladas: “Hoche, Carnot, Foch, Hugo rendem-nos as derradeiras homenagens; tudo passa, tudo foge, elas estão lá, em frente, tudo para, tudo apaga, uma senhora de vermelho agita um lenço amarelo, minhas pernas fraquejam, titubeio, voz embargada, cego pelo sol da emoção: Mamãe! Ela não está mais lá! Ela está nos meus braços! Levanto-a, tudo apaga. Parecia estar a caminhar como um autômato através da praça, no meio dos carros…”.

My appreciation of the book “On a roulé sur la Terre”, a four-hand work in which Sylvain Tesson and André Poussin, both then in their early twenties, give an account of a year spent cycling around the planet, crossing 31 countries and covering 23.962 km. First book of the two friends (they would write one more together), it describes countries they visited, people they met, varied geography and living conditions, funny or scaring encounters in exotic far-away lands. An enthralling book and an epic adventure one devours with pleasure.

 

 

 

 

Sylvain Tesson em entrevista de síntese

Somos influenciados pelas ideias magníficas,
apresentando verdes prados e a vida eterna.
Prefiro pensar em outra,
também alegre e otimista, de uma vida curta
e que nos conduza a viver com muito apetite,
pois ela acabará rapidamente contra um muro chamado vazio.
Sylvain Tesson

O leitor que me tem acompanhado ao longo de mais de nove anos ininterruptos de blogs, publicados sempre aos sábados, teria observado a  constância que dedico à leitura das narrativas de viagens do geógrafo, jornalista e escritor francês Sylvain Tesson. Meu amigo, compositor e pensador François Servenière, na Normandia, partilha dessa admiração .

Dizia meu saudoso amigo Eduardo Etzel, psicanalista que seguiu minhas revelações íntimas durante dez anos, que todos nós temos um paraíso ideal. Nele nos refugiamos quando se faz necessário. Essa idealização permite atenuar agruras, desencantos, depressões e renova forças para o enfrentamento cotidiano. A leitura fornece-nos essa possibilidade.

Sempre me encantaram as narrativas de aventureiros. Ainda jovem percorria avidamente autores intrépidos, que realizaram viagens inacreditáveis. As conquistas dos polos, os picos vencidos por alpinistas destemidos, as travessias oceânicas em condições impensáveis. O maior poeta da língua portuguesa de todos os tempos, Luís Vaz de Camões, não foi um deles e a obra “Os Lusíadas” não seria narrativa plena de elementos míticos se mesclando com o presencial? Pena que o MEC tende a desobrigar Camões de nossos currículos. Pequenez de uma governança rigorosamente inculta.

Tesson não é um narrador tout court. Introduz o leitor no mundo mágico da interioridade, e seus relatos pormenorizados captam o exterior que o impacta, sem contudo esquecer-se de enriquecê-lo, seja pelas experiências vividas, guardadas na mente, seja pela interpretação do inusitado.

Assisti a um vídeo que apresenta entrevista de Sylvain Tesson concedida a Carine Marret, durante ciclo de conferências CUM, aos 9 de Dezembro, evento que se deu em Nice, no sul da França. Alvissareira e longa comunicação que se dá após o gravíssimo e prosaico acidente que o escritor sofreu ao cair da fachada da casa de um amigo em Chamonix, em Agosto de 2014. Dez metros de altura que poderiam levá-lo à morte. Safou-se com vértebras quebradas e fraturas no crânio, após 10 dias em coma. Paradoxal destino para um aventureiro que percorreu o mundo de bicicleta, galgou montanhas, atravessou desertos e estepes e passou por perigos incontáveis. Sequelas permanecem em sua face e, do período  comatoso, lembrar-se-ia em entrevista bem anterior: “Encaminho-me para o outro lado, outra margem do rio e, como desconfiava, não havia ninguém. Nenhuma mão estendida, nem anjo, nem virgem”.

No longo depoimento concedido a Carine Marret, Sylvain Tesson realiza a síntese de sua vida voltada à aventura, como caminhante pelo planeta ou estático em uma cabana às margens do lago Baikal, na Sibéria. Durante todo o longo depoimento, Tesson desfila um sem número de autores, muitos deles aventureiros narradores, e esse acervo, constituído pela experiência e farta leitura, contribuiu para a construção de suas narrativas enriquecedoras.

A primeira pergunta de Carine Marret remete às origens das viagens tessonianas, e a resposta inicial não deixa dúvidas: “partimos em viagem porque muitas vezes não queremos saber o que se passa no interior de nós mesmos”. Tesson esclarece que a viagem substituiu o possível divã, pois sua primeira aventura, ainda bem jovem, já apontava para um longo caminho, a volta ao mundo de bicicleta. Existiria uma profunda alegria, verdadeira festa relacionada ao esforço físico e, à medida que essa primeira grande aventura acontecia, outras tantas já povoavam sua mente. Menciona George Mallory (1886-1924), famoso montanhista que desapareceria juntamente com seu companheiro de escalada, Andrew Irvine (1902-1924), no Himalaia, ao tentar a conquista do Everest. A uma pergunta sobre o porquê de sua vontade de subir montanhas, Mallory responderia “porque elas estão lá”, e Tesson comenta que a vida, sendo curta, precipitamo-nos a conhecer novos horizontes.

O entrevistado salienta bem que o viajante literato apreende o que o cotidiano lhe fornece, e o diário íntimo tem de conter consciência do relato e concentração. Para tanto, em suas viagens leva muitas obras, mormente as de aventureiros, pois são eles “restauradores da realidade e não seres a dar asas à imaginação”.  Tesson não tem interesse em escrever romance e criar personagens, pois os seus figurantes  frequentam o cotidiano de suas passadas pelo planeta. Se, nos vários contos que escreveu, figuras humanas imaginadas surgem, entendo que não sejam as de maior interesse. O personagem vivo de todos os quadrantes da Terra, este sim, adquire em suas narrativas dignidade e realismo. Sob outra égide, Tesson observa que a viagem longa a que sempre se propõe é uma espécie de aceleração da existência e que o alpinista, um outro aventureiro em confronto permanente com a queda, tem a impressão de estar a conviver a todo instante com a morte no ato da prática. Menciona neste caso um alpinista que comandava um grupo que atingiria o cume, não sem antes ter assistido à morte de alguns. Montanhista escritor, narraria que, ao chegar ao topo, apertou a mão dos que conseguiram a proeza. Tesson explana que o relato da aventura pode  revestir-se de frieza e que é essencial para o aventureiro escritor saber lidar com a abundância de fatos e a clareza.

A uma pergunta de Carine Marret, mencionando frase de Dostoievsky a considerar que o homem, estando em movimento, dá um objetivo a esse ato, recebe resposta pertinente de Tesson. O viajante escritor entende que, se a viagem for longa, deve-se subdividi-la em etapas, dando-lhe o sentido e o objetivo dostoievskiano. Pensar as etapas reduziria o stress, pois os destinos abreviam-se. Vencida uma, parte-se para outra. Para um viajante como Tesson, que empreende caminhadas que demandam muitos meses e levam ao sofrimento, esses compartimentos previsíveis têm significado. Menciona a antítese, o político que busca atingir a cumeeira rapidamente, ao contrário do montanhista que subdivide a escalada em etapas predeterminadas. Lembro ao leitor que um corredor de longa distância também fatia o percurso, precisando marcos definidos.

Sylvain Tesson elabora uma série de pensamentos voltados à viagem de aventura. Uns a realizam como fuga, outros para desvendar novos horizontes – curiosidade? -, outros mais buscam o autoconhecimento, viagem interior. As várias categorias impulsionam o viajante. Quanto à fuga, haveria o horror do domicílio, da rotina cotidiana, pois tantos não suportam o imobilismo da vida. Para aquele que viaja e que busca o desvelamento de tudo o que vê ou fotografa, a viagem tem objetivo preciso e pode, inclusive, significar a procura do outro, da solidariedade humana. Existiria a satisfação da descoberta diária de algo que possibilita até mesmo o desequilíbrio. Quanto à viagem interior, a introspecção se dá e pode haver transformação psíquica, metafísica, intelectual, caso específico de seu estado de eremita durante o longo inverno em uma cabana às margens do lago Baikal, na Sibéria. Num outro compartimento, Tesson situa o sedentário escritor pleno de imaginação e que, sem sair de seu aposento, cria obras que podem perdurar. Flaubert é citado, pois apesar de ter viajado ao Egito, era epilético, sedentário e escrevia em sua moradia às margens do Sena.

Menciona um outro tipo de viajante, o vagabond, característico do século XIX, que percorria geografia limitada de aldeia a aldeia, tinha certa relação com os habitantes e assim vivia sua sina.

À medida que Carine Marret posicionava as questões, Sylvain Tesson “viajava” nas respostas. Interessante sua visão da modernidade e do tempo. Segundo ele, rompemos o pacto com o tempo que passa. Este representa nossa estadia sobre a Terra, que pode ser mais ou menos longa, mas que a única certeza é de que somos incapazes de tudo realizar. As explanações levam Tesson ao que ele denomina blefe tecnológico, que nos faz pensar sermos capazes de obter tudo, como ter a posse de toda a biblioteca da França no bolso, verdadeiro blefe que nos faz perder a noção da duração do tempo. Diz não gostar dessa parafernália tecnológica e que viver a duração do tempo requer paciência. Entende que a leitura das grandes aventuras leva-nos à apreensão da amizade que pode existir entre os participantes nesse entendimento do tempo e de sua duração.

A uma pergunta sobre o acaso, formulada pela diretora da programação, Tesson se estende a partir do pessimismo que, a seu ver, paradoxalmente, esconde uma certa alegria de viver e lucidez. Nada esperar no dia seguinte, não formular ilusões quanto à experiência da humanidade, mas ter relação até amigável com o semelhante. Para ele, uma das maneiras de ser profético é ser pessimista. Quanto ao acaso, entende que o acúmulo dos muitos acasos reunidos bem ou mal resultaria em algo que poderíamos desenhar como sendo destino.

Do público veio pergunta instigante. “O que entenderia como medo?”. Explicou que este reside basicamente no medo das forças da natureza e dos animais selvagens. Essas duas forças são previsíveis: tempestades, avalanches, urso frente a frente. Todavia, o semelhante é imprevisível e sentiu medo no Afeganistão quando foi interceptado por talibãs. Essa última categoria é angustiante e não a compreendemos na realidade.

A uma outra questão vinda da plateia sobre a viagem solitária ou acompanhada, Tesson responderia que na primeira, verdadeiro solilóquio, você tem o caderno para anotações e, na segunda, ouvidos que o escutam e que atenuam o distanciamento do conforto do lar.

Na última intervenção relativa à sua atuação após o grave acidente que deixou marcas inalienáveis, Sylvain Tesson disse que o período de convalescência levou-o à reflexão e que possivelmente se dedicará, como já o fez recentemente em campo de refugiados no Iraque, a ações coletivas humanitárias.

O autor de tantas narrativas de aventura experimentou várias modalidades de viagens. Os 11 livros resenhados até o presente neste espaço estão na seção Livros – resenhas e comentários (lista) – no menu do blog, encontrável na página primeira do blog.

O leitor poderá ter acesso à entrevista completa de Sylvain Tesson acessando o link:

https://www.youtube.com/watch?v=hj97ZuprzPc

No post da próxima semana apresento a resenha de seu primeiro livro: “On a roulé sur la Terre”, viagem que empreende de bicicleta em torno do planeta juntamente com seu companheiro André Poussin.

In interview given in December 2015 in Nice, France, Sylvain Tesson talks about his unconventional life of adventures, discussing the root cause of the need to leave home comforts (evasion, curiosity, self-knowledge?), fear of the forces of nature and of his fellow man, technology and our illusion of mastering time, his life plans after the near-fatal accident he suffered in 2014. A synthesis of Tesson’s thought that I saw fit to comment in my blog, since I am a great admirer of the French writer and geographer, having reviewed so far eleven of his books.