Sylvain Tesson e a Síntese da Observação

O aforismo permite ganhar tempo economizando espaço.
Um aforismo vinga desde que não haja nada a acrescentar
a alguma coisa da qual se teria muito a dizer.
Sylvain Tesson

Nós não confessamos os pequenos defeitos
para persuadir-nos que não temos os grandes.
La Rochefoucauld

Ao longo da História, o gênero aforismo tem sido utilizado, entre tantas outras categorias literárias, por pensadores, filósofos, artistas, juristas, literatos… Pretende, em pouquíssimas palavras, deixar registrado um pensamento, um princípio, uma observação ou uma sentença. Incontáveis os autores que se perpetuaram no imaginário do leitor através de seus aforismos. Estes são repetidos pela sucessão de gerações. Caracteriza o aforismo essa singularidade da síntese da síntese. Provocador, o aforismo abre campo para uma série de outras constatações. Tem a independência que o coloca isolado em texto de um autor. Pinçado, por vezes. Apesar de semelhança, não deve ser confundido com máxima, provérbio ou adágio (vide “Açores – O Povo Eternizado, Adagiário Açoriano”, 26/03/2011), formas mais penetrantes e “doutrinárias”. O aforismo, síntese da síntese literária, tem a qualidade de apreender a observação aguda de quem pratica o gênero. A liberdade dessa forma literária confere-lhe conteúdo descritivo, humorístico e espiritual. Pode encerrar um princípio teórico, igualmente. Encontramo-lo com várias vestimentas: aforismo de ordem poética, moral, geral e tantas outras.

Estou a me lembrar de que meu saudoso pai, admirador confesso da literatura francesa, gostava de ler para os quatro filhos “Les Maximes”, de La Rochefoucauld (1613-1680). Mencionaria dois exemplos outros: Honoré de Balzac (1799-1950), em “Physiologie du mariage ou méditations de philosophie écletique, sur le bonheur et le malheur conjugal” (1829), cultua a forma em segmento por ele denominado “Aphorisme”. Por sua vez, Friedrich Nietzsche (1844-1900), admirador do gênero, considera ser necessária a “leitura lenta” e uma “ruminação” dessa forma tão difundida.

Sylvain Tesson, em suas caminhadas pelo mundo a pé, de bicicleta ou sobre um cavalo, narra a natureza, costumes das etnias e tece reflexões sobre a condição humana. Arguto, olhar de lince, Tesson fixa em seu carnê de viagem conceitos curtos em forma de aforismos. Para quem leu sua já vasta obra literária, essa síntese da síntese traduz verdades transparentes. O pensamento de Tesson por vezes é cáustico, se não sarcástico. Há humor fino ou direto, mas também crítica à incúria humana. Metáforas são permanentes nos aforismos de Tesson. O caminhar, preferencialmente solitário, tem sua síntese. “Solidão: companhia que não fugirá jamais” ou “O amor dá-se quando convidamos o outro à mesa da solidão”. Paradoxal para o “eremita caminhante”, mas compreensível em sua admiração ilimitada pelo desconhecido. Desacertos e incúrias provocados pelo homem em tantas latitudes e longitudes não o deixariam indiferente. Se a árvore é recorrente, lembre-se dos inúmeros bivaques realizados por Tesson no alto das mais frondosas. A admiração pela fauna é onipresente, assim como a metamorfose das estações, as águas estáticas, deslizantes ou marítimas, a geografia do andarilho e seu convívio efêmero, mas intenso, com o outro. Natureza a preponderar, vida animal, o homem a caminhar pela história…

Do livro de Sylvain Tesson, “Aphorismes sous la Lune et autres pensées sauvages” (France, Équateurs-Parallèles, Illustrations de Bertrand de Miollis, 2008), selecionei alguns aforismos,  buscando agrupá-los tematicamente.

Fauna:

O tiro do fusil parte. O pássaro cai, mas o caçador está moralmente abaixo.
Caça à perdiz: o céu dá pérolas aos porcos.
Pã! A mesma sílaba para o deus da Natureza e o tiro de fusil que a fere.
Caçador: vândalo que destrói as obras de Pã.
O chilreio dos pássaros intima e ordena o dia a despertar.
Cada pássaro escolhe o galho na universidade das árvores.
Os passarinhos cantam pelo fato de serem felizes.
Pássaro engaiolado: teríamos ideia de denominar homens de estimação os presidiários?
Voo do urubu: auréola dos cadáveres.
Cada dia a aranha redesenha o mapa da Rota da Seda.
A mosca na teia da aranha tem como consolo morrer na seda.
Um urso insone muito estressado durante seis meses do ano.
Joaninha: um pequeno tanque de guerra vestido de palhaço.
As serpentes praticam a dança do ventre.
Quando penso na vaca, o vermelho da carne sobe-me à cabeça.
Vespas: a Luftwaffe dos campos.
Se o homem fosse um lobo para o homem, ele deixaria o lobo tranquilo.


Mundo vegetal:

Uma velha árvore inclinada sob o peso dos segredos que os pássaros lhe confiaram.
Uma árvore sozinha no meio campo: monumento comemorativo de uma floresta desaparecida.
Conversação das folhas nas árvores: elas falam do vento, tema que as agita.
Vistam-se!!! Ordena a primavera para as árvores.
No Music-hall da Natureza, a cada ano há o strip-tease do outono antes que desça a cortina do inverno.
Não é cortando que tornaremos melhores as ervas daninhas.
O campo de flor é o tapete de oração do jardineiro.

Montanhas:

A erosão pune a montanha que quis se erguer em direção ao céu.
O Himalaia continua a crescer. O que mais quer além das neves eternas?
Lago de Como: Os Alpes nevados se veem envelhecidos no espelho das águas.
Colocar uma cruz no alto da montanha é acreditar que ela não se basta por si só.

Falésias:

Falésia: o mar encostado ao muro.
A Terra, com pressa de se jogar ao mar, hesita e a falésia se forma.
O oceano baba de raiva por não poder abater a falésia.
Ir avante é viver, salvo na beirada de uma falésia.

Águas:

O  mar: coração que bate entre dois litorais.
Chuva: volta à terra daquilo que o céu tirou do mar.
Uma cascata chorava num vale de lágrimas.
Uma pedra que cai na água não erra jamais o centro do alvo.
O oceano é um cinemascópio: ele não conhece senão a nouvelle vague.
Rios: hemorragia das montanhas.
A queda faz a chuva sofrer?
Seria pelo fato de ter olhado para o interior das casas que as lágrimas da chuva escorrem pelas janelas?
Habitantes das margens do Aral: órfãos de seu mar.

Universo:

Para qual alvo estão apontadas as flechas das catedrais?
Sentindo-se observada, uma estrela foge velozmente.
O dia é o véu que as estrelas nos jogam, aborrecidas de serem tão observadas.
A lua, grávida da luz, amamenta a noite.
Relâmpago: a tempestade teve uma ideia.
A coragem não existe: mesmo o sol se deita.

Geografia:

A Terra talvez seja azul, mas como uma laranja podre.
Praias do Mediterrâneo: campos de batalha cobertos de corpos mortos de calor.
O Equador é a cintura de um ventre que nunca engorda.
Chile: um cigarro de quatro mil quilômetros cuja ponta incandescente chama-se Terra do Fogo.
Se o Tibete é o teto do mundo, o Nepal é a goteira.
O Tirol é um vaso de gerânios colados no balcão da Áustria.

Comboios:

Transiberiana: um zipper do manteau de taigas
Amo os trens: eles seguem um caminho de ferro.
Escritura: as palavras são vagões, as frases comboios e as páginas, estepes percorridas pelo trem.

Vinho:

Os enólogos são pessoas às quais o vinho torna falantes. Os bêbados, pessoas que falam após embebedarem-se.
Vinho: o fruto está na taça.

Temas Diversos:

A Música é a ciência do tempo sob controle; o nomadismo, a ciência do espaço conquistado.
O homem se interessa pela meteorologia para fazer passar o tempo.
Televisão: ligamos e o mundo se fecha.
Desde a noite dos tempos há o efêmero.
Quem me ama me segue, dizia o vento.
Mesmo o pensamento de Darwin conheceu uma espécie de evolução.
Bandeiras na janela: roupa suja dos Estados.
Uma vez rico, o faquir decide dormir sobre a palha.
Gostaríamos de cumprimentar os suicidas pela coragem do ato.
Há influências intelectuais semelhantes às medusas: corpo mole mas longos tentáculos.
Desde que se faça da imensidão o seu deus, caminhar torna-se liturgia.
A poluição é a sombra do progresso.
Neve: partículas nos olhos do inverno.
Trancar um nômade entre quatro paredes é o mesmo que enlatar o vento.
O que fazem certos livros para ficar tranquilos, mercê de seus conteúdos?
O frio é um ser sutil; ele morde, corta, penetra e agulha. O calor é um bruto que se contenta em nocautear.
A nostalgia é estar indignado com o tempo que ousa passar sem nós.
A fé é a vaidade de se acreditar criado à imagem de Deus.
Conseguir caminhar levemente sobre a corda esticada da existência.
No momento de minha morte, minhas últimas palavras: “Um a menos”.
(tradução: J.E.M.)

The French explorer and writer Sylvain Tesson, in his adventures in remote areas of the globe, observes nature and humans, summing up his life experience in witty, sarcastic, good humored or poetic aphorisms that wrestle with the big questions of life. This post is a selection of aphorisms taken from Tesson’s book “Aphorismes sous la lune et autres pensées sauvages”.

 

 

 

 

O Texto como Respiração

Todo o homem é diferente de mim e único no Universo;
não sou eu, por conseguinte, que tem de reflectir por ele,
não sou eu quem sabe o que é melhor para ele,
não sou eu quem tem de traçar o caminho;
com ele só tenho o direito, que é ao mesmo tempo um dever:
o de ajudar a ser ele próprio;
como o dever essencial que tenho comigo é o de ser o que sou,
por muito incómodo que tal seja, e tem sido, para mim mesmo e para os outros.
Agostinho da Silva

Aos dois de Março de 2007 nascia o primeiro post publicado no blog. Já comentei anteriormente que nada teria acontecido não fosse uma observação de meu ex-aluno Magnus Bardela. No final de Fevereiro daquele ano, após conversa amistosa a rememorar fatos,  ele – que frequentou durante quatro anos minha classe de piano na USP, formando-se brilhantemente -, propôs-me a construção de um blog. Hesitei instantaneamente, mas a argumentação de Magnus foi convincente e dias após, sem que eu soubesse, durante conselhos que me dava sobre internet, construiu o blog, dizendo-me: “Está pronto, é só inserir seus textos”. Atônito, ainda hesitei, mas aos 2 de Março “Praeambulum” dava início ao caminhar com os leitores.

Mencionei várias vezes que a não interrupção desde 2007 jamais foi um problema. Certo dia o amigo Daniel Marcos me questionou “Você não se dá férias, ao menos um mês?”. A resposta foi imediata: “Nunca dei férias para minha respiração”. O ato de escrever, de  estudar piano ou de correr faz parte desse respirar, cotidiano ativo. Quanto aos blogs, a não interrupção uma semana sequer (o post entra aos sábados às 00h05min) durante esses oito anos é fruto do pensar enquanto realizo treinamentos a correr pelas ruas de minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, já mencionado em tantos blogs anteriores. A aceleração cardíaca age sobre os neurônios e as ideias fluem com naturalidade. Focalizado um tema, é só desenvolvê-lo na primeira madrugada e o texto desliza, corrente. Problemas técnicos adiaram por um ou dois dias uns poucos textos.

A pressão de ter de escrever tantos caracteres para a uma determinada publicação em tempo previamente fixado não daria resultado em meu caso particular. Essa liberdade não me impõe restrições quanto à dimensão, quiçá conteúdo. Observando os pássaros, dificilmente eles obedecem a roteiros, salvo os pombos – mormente o pombo correio ou as aves migratórias. A temática simplesmente acontece e tem acontecido sem interrupção. Música, sempre, cotidiano e suas surpresas, resenhas de livros que me atraem, impressões colhidas durante viagens e que se processam no de profundis, tardiamente quantas vezes. Diria que a observação “viajar é olhar”, da grande poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen pode ser interior. Todos os impactos que diariamente vivemos se acumulam e ficam numa espécie de álbum interior, pleno de figuras e observações. Basta um impulso, sugestão que seja, e aquela determinada página escondida no álbum interior ressurge por inteiro. “Viajar é olhar”, seja externa ou internamente. Meu celular é daqueles jurássicos, só recebe ou transmite ligações. Nada mais. Certa vez em que minhas netas se divertiam tirando fotos e selfies com aparelhos sofisticados, disse à Emanuela, a menor, que iria tirar uma foto mental simulando uma foto com tão antigo celular. Pôs-se a rir. Horas após, enviei-lhe e-mail com a imagem de meu celular e escrevi: “feche os olhos e lembre-se daquele momento, pois ele está gravado em sua mente”. Valeu como descontração, mas Emanuela guardou o episódio.

Raramente visito o universo nebuloso da política, mormente nestes últimos anos em que a mentira é vendida como verdade e a corrupção enlameia o cotidiano. Por vezes, sem o desejar, emito considerações. Jornalistas que costumo frequentar pela leitura ou escuta radiofônica têm exercido com competência a denúncia como alerta, o confronto como dialética necessária e saneadora. Há esperanças. O país não se submeterá à primazia que está a fazer sucumbir democracias latinas. Não merece.

Temas fluem e nosso universo depende invariavelmente dos tópicos atrativos. Eles lá estão. Buscamo-los à maneira de um peregrino que, ao caminhar, pormenoriza-se naquilo que já está “pré-moldado” em sua mente. Sim, há o acaso. Não o desprezo, nunca.

Para que a sequência não tenha sofrido uma interrupção sequer ao longo dos tantos sábados, há a necessidade de querer. Meu saudoso e sábio pai nos ensinou básicos princípios que serviram aos quatro filhos: disciplina, perseverança, constância, concentração e fé naquilo em que acreditamos. Esses tópicos foram aplicados diferentemente pelos irmãos de sangue, a depender da visão individual das coisas.

Nada teria acontecido não fosse Magnus ter pressentido a ideia. Continuava a reter textos mentais em ebulição permanente, como sempre, desde meus primeiros anos. A memória tem esse poder mágico de manter o que os olhos viram externa e internamente, amalgamar olhares sem perder a precisão e, quando acionada, revelar por inteiro experiências vividas. O arquivo mental é uma de nossas dádivas maiores.

Este blog não existiria sem colaboradores dedicados que, ao longo destes anos, jamais hesitaram em ajudar-me, ignorante que sou dessa parafernália tecnológica a todo instante renovada. Difícil, nos meus 76 anos, acompanhar essas transições rápidas, sempre em direção a uma outra inovação. Desisti. Conheço o básico do básico e, graças aos amigos diletos, supro a não atualização internética.

Regina Pitta, Magnus Bardela, François Servenière, Elson Otake e Luca Vitali (in memoriam). É um privilégio tê-los a me dar suporte em esferas distintas. Desde o primeiro post, minha dileta amiga e vizinha, Regina Pitta, lê os textos e faz revisão impecável. O compositor romântico Henrique Oswald (1852-1931) escreveria ao seu amigo, Furio Franceschini, que o pior revisor é o autor e, entre esses, era ele o pior. Assertiva. O texto flui  num impulso nas madrugadas e as duas ou três leituras não são suficientes para sanar gralhas (assim os portugueses definem incorreções) que parecem querer se ocultar. E como se escondem!  É humano. Regina passa a lupa, mercê de seu conhecimento de nossa gramática. Quando dúvidas pairam, recorre à Filologia. Sinto-me seguro. Após as devidas correções e sugestões – nem sempre aceitas, mas é bom ter uma outra opinião -, escreve um resumo em inglês, devido aos leitores acima do Equador que me honram com a leitura dos blogs, traduzidos sofrivelmente pelo programa do Google.

Magnus tem sido meu guru internético. Foi ele que me ensinou o que sei, isso em 2003. Só não aprendi mais por total descaso com a aceleração infalível da tecnologia. O básico possibilita-me o convívio com teclado e tela e os acessos que consigo atingir. Quando um impasse surge, é Magnus que me socorre, pois de seu computador pode acessar o meu e sempre, até agora, tudo se resolveu. Mente privilegiada a deste amigo que diariamente envia-me gravações fabulosas que dia a dia têm enriquecido o bom lado do YouTube, a contrastar com o besteirol que infesta esse meio de comunicação.

Elson Otake, não diretamente ligado ao meu blog, tem sido o responsável pela introdução no YouTube de cerca de 80 músicas por mim gravadas no Exterior. Preciosista, tem o dom da concisão e suas montagens são louvadas aqui e alhures. Maratonista, em muitas corridas de rua abdica de sua velocidade para correr ao meu lado. Um estímulo.

François Servenière. Compositor e pensador francês de altíssimo mérito, Servenière privilegia-me com mensagens de extraordinário teor. Nossa correspondência, nascida em 2008, é abastecida semanalmente. Todos os posts têm sua leitura acurada. Se a tradução Google tem tantas falhas, Servenière consegue sempre apreender a essência dos blogs e seus comentários enriquecem meus textos, pois o amigo insere leituras paralelas e reflexões profundas sobre o tema. Tão ricas são suas mensagens que o considero, hoje, um partner de meu blog. O leitor tem acompanhado, através dos Ecos, que ele está sempre presente. Fundamental é a possibilidade de novo olhar de um autêntico intelectual francês. Estimula a comparação, faz-nos apreender aspectos que por vezes nos passam desapercebidos. Privilégio.

Rendo tributo ao meu saudosíssimo amigo e extraordinário artista plástico Luca Vitali (1940-2013). Durante anos, Luca foi colaborador dedicado. Tantas vezes mencionei que o amigo tinha um lápis no cérebro. Ao conhecer um texto, um ou dois dias após enviava-me um desenho alusivo ao tema. Alguns eram charges de humor bem refinado. Faz-me muita falta o convívio semanal que mantinha com Luca. Arte era nosso assunto fulcral. François Servenière, ao ver as ilustrações da magnífica Série Cósmica (acrílico sobre tela) do artista, ficou tão impactado que escreveu sete Études Cosmiques para piano e, após a partida de Luca, mais um Estudo, Outono Cósmico. Em Abril voltarei ao tema, pois deverei gravá-los na Bélgica juntamente com Estudos Contemporâneos de outros compositores.

A família. Sem a harmonia que nos faz unidos indelevelmente, confesso que dificilmente conseguiria empreender trajetórias. Ela me traz a serenidade necessária. Epicentro essencial.

Se já ultrapassamos os 600.000 acessos, devo esse estímulo unicamente aos leitores que têm prestigiado minha coluna. Continuarei. É o que sei fazer.

This week my blog completes eight years of nonstop work, leading me to reflect on the pleasure of posting an entry every week – a flow of ideas that come to me during my street races. In this post I recall the subjects that are dear to me, expressing gratitude for the services of those who, behind the scenes, help me in this endeavor.

 

 


As Várias Manifestações Gestuais

A obra de arte não deveria ser pretexto
para o intérprete expor seus próprios estados de alma.
Tão pouco a exibição de si mesmo, ou seja, a auto-exibição.
É dever sagrado do intérprete comunicar
de maneira intacta o pensamento do compositor,
pois ele não é que intérprete, apenas.
Claudio Arrau

Dividi em duas partes o blog sobre o gesto. Este segundo post coloca-se em dois momentos: apresentar a continuação das considerações de François Servenière sobre o gesto, mormente na modernidade e, depois, tecer reflexões pessoais sobre gestualidade, concentração, mídia, tradição e modernidade, já externadas homeopaticamente em tantos posts anteriores.

Ao regressar ao pianista Lang Lang, nascido na China em 1982, Servenière comenta: “Vejo em sua maneira de interpretar algo muito original, fundamental para a maestria do futuro, mas iconoclasta para a geração mais purista, nascida sob os fundamentos batismais da rádio, onde apenas a audição era importante. Consideravam que a transmissão áudio iria travestir e trair a tradição dos intérpretes mediúnicos, podendo ‘matar’ os poucos intérpretes ungidos num panteão ainda em vida. Eram eles os únicos que poderiam se opor a esse fervilhar multifacetado que surgiu com as novas gerações de pianistas, produzidos em massa pelos conservatórios mundiais. Essa assertiva pode ser constatada através de caminhos percorridos por essa legião de intérpretes.

Por que fiquei emocionado com a interpretação de Lang Lang do famoso concerto de Tchaikovsky? Ele teria compreendido que a música de tradição, habitualmente denominada clássica ou erudita, muitas vezes com desprezo, necessitará de nova metodologia para poder concorrer com as insípidas presenças na web, que deploramos amargamente, você e eu. Lamentamos a capacidade perdida da música erudita de poder seduzir o espectador frente ao desarranjo infinito que nos é proporcionado por esses espetáculos de vídeos YouTube sem pé nem cabeça, pela apologia insana à pornografia, sem contar sexo, assassinatos e a decadência  mais estereotipada, salvo em Roma antes da queda. Até mensagens bárbaras de fundamentalistas são apresentadas! Lang Lang compreendeu que, para concorrer com a web atual, em batalha aparentemente perdida para o besteirol, seria necessário mostrar movimento, vivacidade, teatralidade, mise-en-scène e qualidade vivificada e renascida, pois a imagem alimenta-se ‘bestamente’ de movimentos e vida. Ação de muitas câmaras e gestos, montagens sofisticadas, pois, mesmo que o purismo o contradiga, evidentemente o progresso passa por uma análise de fundo e de forma! Orquestras e metteurs en scène compreenderam essa tendência. Talvez estejamos nessa fase necessária – mas não o suficiente – da transição, onde intérpretes aprendem uma nova linguagem, justamente essa da cena frente à câmara quando, pouco a pouco e por vezes tateando, compreendem a necessidade atual, vital e irreversível, dessas técnicas inovadoras. Acredito, em contrapartida, que haverá uma volta à verdade da linguagem essencial entendida por você.

Na realidade, a gestualidade de Lang Lang não é tão diferente daquela de músicos clássicos de todas as gerações, que adentravam o palco diferenciando-se da concorrência mostrando personalidades expansivas, diferentes daquilo visto até então. Estive presente em numerosas premières de jovens. A teatralidade mais ou menos excessiva, a depender da personalidade, perturbava-me, como o perturba.Compreendi com o tempo que se tratava de natural inclinação ao inusitado nesse vislumbrar da carreira. Como você demonstra com eloquência, o intérprete regressa naturalmente à tradição mais comedida e sábia de sua arte quando sua personalidade acaba sendo aceita e adubada pelo público. Stravinsky foi radical ao compor ‘A Sagração da Primavera’ e resultou, o mesmo fazendo Pierre Boulez, ainda mais radicalmente! Conheci os primórdios da carreira do pianista François-René Duchâble. Era eu ainda um menino. Extrovertido e expansivo no palco àquela época, Duchâble era de estatura pequena. Quando assisti a um seu concerto – ele deveria ter 50 anos – presenciei o sábio sobre a montanha, já sem a necessidade de fazer acrobacias e gestualidade excessiva para deslumbrar multidões. Duchâble encarnou dois personagens, o gênio precoce e o sábio. A primeira atitude, para se fazer conhecido, a segunda, para transmitir. Toda essa metamorfose em apenas uma personalidade desejosa de imortalizar a verdade da música em lances largos, elegância, profundidade. A verdade estaria nessa transformação. Penso que Lang Lang tem suficiente talento e inteligência para traçar o mesmo caminho percorrido pelos grandes mestres. Os excelsos compositores também não trilharam sendas que se metamorfosearam?  Aí estão Debussy, Mozart, Ravel, Stravinsky, Beethoven, mestres absolutos, para mais não dizer” (tradução: J.E.M.).

A tradição obedece à constância, dela é integrante. Porém, fluxos motivados pela passagem do tempo, não a tornam imutável. Impossível seria tratando-se de interpretação. A tradição pressupõe pequenas flexibilizações. Se assim não fosse, estaria embutida, aprisionada. Contudo, a espinha dorsal – mercê da partitura, das fontes, do debruçamento de estudiosos e da oralidade – é salvaguarda para que a continuidade tradicional permaneça. Se a modernidade e a tecnologia sempre in progress avançam para cenário cada vez mais exposto, intérpretes adeptos da tradição no suceder de gerações não têm essa preocupação com o efeito gestual e a transmissão da mensagem musical. Antolha-se-me que o gesto expõe o carimbo rigorosamente individual quando dos excessos nos tempos atuais. Insubstituível, personalíssimo, o gesto mediático exacerbado não encontra imitadores. Ele é efêmero, pois estiola-se com o “criador”. Tem, sim, descobridores de outras “técnicas” de expressão corporal. Seria do mais extremo mau gosto uma réplica de Lang Lang em suas transformações corpóreo-faciais, como beiraria o grotesco a adoção postural excêntrica de Glenn Gould frente ao piano. Os gestuais do virtuosístico e estereotipado Lang Lang e os praticados por Glenn  Gould, artista de raríssima inteligência, não têm e não tiveram, respectivamente, seguidores, mas servem e serviram para autopromoção. Impossível a indiferença ao vermos essas duas personalidades em ação. Não obstante, é fácil entender que há fundamental diferença entre os dois, pois no pianista canadense, apesar das excentricidades, a presença da plena convicção quanto à interpretação meticulosamente planejada torna-se transparente.

Esse debate me fez percorrer vídeos de alguns pianistas, do passado ao presente. Apresento alguns links que poderão ser acessados pelo leitor. Acredito que a economia dos gestos, quase que sine qua non no passado, ajudava a transmissão da mensagem musical nesse respeito absoluto à tradição. Se houve exceções bem anteriores, inclusive a de Franz Liszt (1811-1886), frise-se que o extraordinário pianista e compositor húngaro teria sido o primeiro a apresentar recital sem partitura e parte essencial de suas récitas era constituída de obras de sua lavra. Seu gestual era único, segundo relatos. No meu entender, ratifico, torna-se improvável o não contágio do gesto sobre a transmissão. Interfere na frase musical, nas acentuações, sensivelmente na agógica e no estilo. Certamente o intérprete de gestual exacerbado, que está a “transmitir-se”, preferencialmente à mensagem musical, não deverá ser aquele que carrega a chama olímpica da tradição. Daí minhas observações no e-mail a Servenière, postado no blog anterior. Porém, ele tem razão em suas considerações. Tempos modernos clamam pelo gestual. E não apenas isso. Empresários, que visam obviamente ao lucro, plateias que se empolgam com o virtuose “fenômeno”, que entendem a gestualística como meio fundamental, sociedades de concerto que aceitam ser aquele o “cara” a ser cultuado, pois adorado pelo público que acorrerá numeroso ao evento, mídia “comprometida”. Todo um esquema estaria montado e tende à aceleração. Essa tendência hodierna, regada fartamente pelas câmaras onipresentes, favorece o gesto. Intérpretes se submetem. É a lei do mercado. Todavia, tantos da média e nova geração não são atraídos pelo canto das sereias. A meu ver, felizmente. Questão de estilo.

Os links levam aos vídeos. Intercalo atitudes frente à transmissão da mensagem musical.

Vladimir Horowitz (1903-1989)
Schubert-Liszt / Soirée de Vienne – Valse Caprice nº 6

 

Lang Lang (1982- )
Scriabine / Étude op. 8 nº 12 – Patético

A não compreensão do mood do  Estudo – a sinfonia nº 6 de Tchaikovsky também leva o nome de Patética – é clara. O termo patético, ligado aos afetos, estaria mais próximo do drama ou mesmo da tragédia. O gestual totalmente voltado às câmaras contradiz intenções contidas na palavra.

Arturo Benedetto Michelangeli (1920-1995)
Domenico Scarlatti / Sonata in B minor

 

Mitsuko Uchida (1948- )
Mozart / Concerto in D minor / K466

A interpretação, nitidamente voltada às câmaras traduz, inclusive, paradoxos. A pianista está a reger e sendo amplamente filmada. O gestual exagerado não combina com a atitude dos ótimos músicos, inteiramente voltados à partitura. Praticamente não olham para os gestos de Uchida quando a reger! A regência mostra-se, pois, “virtual” a enfatizar a regente-pianista.

Glenn Gould (1932-1982)
J.S.Bach / Partita nº 4 / Sarabanda

 

Jean  Doyen (1907-1982)
Chopin / Fantaisie-impromptu Op.66

 

In today’s post I resume François Servenière’s views on pianists that act dramatically to dazzle audiences, followed by my own comments on the subject. As illustration, a series of links with videos of pianists of different personalities and styles, so that readers can compare them and draw their own conclusions.