Ainda ecoa em meus ouvidos o despertar dos pássaros na planura flamenga. Encerrávamos as gravações, entregando os sons que ecoaram durante três mágicas madrugadas àqueles pássaros que pertencem à longa dinastia atemporal que ainda hoje nos faz ter esperanças.

Um fabuloso piano Fazioli esteve à disposição da transmissão de minhas mensagens. Tornamo-nos cúmplices sob a égide do sagrado. Müllem e sua Capela Sint Hilarius! Comunhão absoluta com o intérprete de passagem. Graças à competência sem fronteiras desse imenso mestre dos sons, Johan Kennivé, uma paz interior corrobora a transmissão. Ele e eu acreditamos nessa transcendência Musical.

É em Müllem que tudo acontece.

(clique no vídeo abaixo para assistir JEM em gravação realizada em Mullem, na Bélgica.)

Gent me surpreende sempre. Amigos fidelíssimos, decantados como bom vinho nesses vinte anos de relações. As palavras pouco dizem dessa integração!

Após o recital, pausa de um dia para confraternizações sinceras com aqueles que apreendi a admirar. Houve tantas lembranças sobrevoando os ares primaveris em Gent!!!

A descontração da corrida – 400 participantes – em Ninove, perto de Gent, foi motivo de conversas. A esposa de Kennivé, Tineke, e eu corremos sob chuva, frio e vento intenso, quilômetros de entendimento!

 

Um Regresso Amoroso

A noção da composição não pode ser isolada da execução,
a qual comporta evidentemente uma parte do autor e uma do intérprete.
Essa colaboração é mais ou menos estreita e se estabelece numa larga escala.

André Souris (1899-1970) compositor belga

Houve tempo em que, ao citar um fato de blog anterior, citava-o, assinalando a data. Oito anos passados de blogs ininterruptos fazem-me menos preciso quanto à localização de determinada abordagem. É humano, mormente quando os anos vão se acumulando.

Já devo ter mencionado que, após recital em Gent na década passada, um representante de um dos selos mais conhecidos do planeta teve uma conversa amistosa e convidou-me a dialogar com seus superiores no sentido de gravar para a prestigiada casa. As minhas três perguntas: poderia escolher repertório, gravar na Capela de Sint-Hilarius, escrever os textos de meus CDs, que sempre pertencem a uma temática específica? A resposta foi peremptória, a não deixar dúvidas, não. Nessa grande organização, tudo é cuidadosamente planejado, tanto na escolha do que deve ser gravado, local que pode ser Cingapura, Estocolmo, Toronto… e escritos dos encartes a critério da empresa. Enfatizou que, sob contrato, meu nome teria boa divulgação, pois a tiragem desse selo era imensamente superior à da De Rode Pomp. André Posman, diretor do selo belga, passava exatamente naquele momento. Beijei-lhe o rosto e disse-lhe que continuaríamos nossa trajetória, para desaponto do representante. O silêncio que se seguiu após minha observação mostra bem que grandes organizações nunca compreendem a recusa, pois propostas para eles são irrecusáveis. A frase antológica de Saint-Exupéry tem seu sentido: “A vaidade não é um vício, é uma doença”. Sob outra égide, o convite pressupõe mérito, e aqueles que o aceitam estão plenamente cônscios de que a possível porta aberta para a carreira, a divulgação maior, o número maior de apresentações  evidencia a realização sonhada. Rigorosamente não tenho nada contra essa atitude natural do homem.

Entendo que o local eleito para gravação,  o engenheiro de som Johan Kennivé – mestre absoluto do som – e o entorno flamengo fazem parte de meu de profundis. Nossa curta passagem pela Terra pode tornar-nos seletivos, mesmo que notoriedade e divulgação fiquem sacrificadas. Sendo Gent-Mullem tebaidas inefáveis, nada me seduz a mudar. Há inclusive, nesses quase 20 anos de gravações, uma rotina prazerosa que atenua a concentração absoluta que acontece durante o ato da gravação. Nos poucos momentos livres há museus que expõem magníficas coleções dos grandes pintores da Escola Flamenga e da Arte contemporânea, há monumentos por toda parte no centro da cidade e é só ter o tempo necessário para visitá-los. Raramente deixo de visitar a Catedral de Saint-Bavon, cuja menção mais antiga remonta ao século X. A Catedral abriga tesouros da arte sacra e, como obra a preponderar, há o políptico “O Cordeiro Místico”, dos irmãos Hubert e Jan van Eyck, uma das mais importantes criações da arte pictórica de todos os tempos. Extasio-me diante dessa obra-prima. Nessa atmosfera gantoise, que nos envolve e seduz, a mente prepara-se para as gravações. Impossível não sentir os eflúvios, pois Gent é História e a evolução da arquitetura em seus estilos através dos tempos  (romano-poucos vestígios-, gótico, renascentista, barroco, rococó, clássico e os que surgiram nos séculos XIX e XX), dá-nos a possibilidade de apreender as várias etapas artístico-construtivas da esplêndida cidade.

Andar pela Gent medieval tem seu charme, pois há canais, típicas construções, gaivotas com seus “cantos” estridentes, jovens e adultos rodando em bicicletas com a mais extrema segurança, pois não só os Países Baixos são planos, como a educação do povo hors série. Nada foi imposto. Chegaram sem alardes a esse transporte e, como já observava La Rochefoucauld, “tudo acontece naturalmente”. A dimensionar minha relação amorosa com a cidade, as amizades profundas, dádiva absoluta.

Sem ter os requintes e a pujança dos monumentos de Gent, a pequena capela Sint-Hilarius, em Mullem, é meu porto seguro sonoro. Distante uns 30km de Gent, perdida na planura flamenga, Mullem abriga cerca de 300 habitantes. Sei que as paredes da Capela, que remontam ao século XI e que presenciaram e ouviram tantas sonoridades ao vivo, são acolhedoras. O piano fica posicionado abaixo da torre, quase junto ao altar. Johan Kennivé sabe como poucos encontrar o equilíbrio de sua aparelhagem para a melhor recepção de minha interpretação. Amálgama.

 

 

A Capela de Sint-Hilarius em Mullem, na Planura Flamenga

Devemos o que temos a duas espécies de homens:
os que trabalham por gosto,
embora na maior parte das vezes o gosto lhes fosse turvado por outros homens,
e os que sem gosto tiveram de trabalhar nas tarefas impostas.
Agostinho da Silva

Desde 2010 não gravava na Bélgica. A partir de 1995, anualmente visitava o país para gravações e recitais; mas com a interrupção das atividades da De Rode Pomp, excepcional organização que realizava a cada ano cerca de 130 recitais, concertos, gravações e palestras na cidade de Gent, houve um espaçamento. Foram 22 viagens durante esse período! O retorno à cidade que aprendi a amar por todas as oportunidades que lá tive, entre as quais os numerosos CDs gravados e lançados pela De Rode Pomp, traz-me uma alegria profunda. Rever amigos diletos, conviver com músicos e pensadores íntegros e competentes é motivo dessa feliz ansiedade.

Ivan, um bom amigo, questionou-me, poucos dias antes da viagem para Gent, qual a razão da Europa se resumir, hoje, a apenas três países em minha agenda, d’après meus blogs. Respondi-lhe que três aspectos são essenciais. Primeiramente, minha atividade pianística sempre foi, de maneira voluntária, low-profile e essa situação jamais me incomodou, pois adequada ao meu modo de ser. De certo modo, a categoria low profile tem de ser impulso natural e não impositiva ou resultado de traumas ou desilusões. O ato voluntário de escolha deve pressupor harmonia com a existência, um estado de espírito e de ação.  Em segundo lugar, os 76 anos fazem-me pensar no período da síntese e, se tantos países foram visitados para apresentações ao longo, concentrar-me nestes últimos anos na Bélgica, França e Portugal reconforta-me. Finalmente, nesse terço final do existir, a escolha tem razões musicais e afetivas e essas contam, e muito. Bélgica-Gent-Mullem fazem parte do registro da memória e, como dizia meu dileto amigo gantois André Posman, “é aqui que sua herança musical está sendo fixada através das gravações”. A França, por um passado que remonta a 1958 e que me ligou decididamente à música francesa. Portugal, pela paternidade bracarense e pela infinita admiração por sua música do barroco aos nossos dias. São meus países de afeto, pois amizades estão profundamente enraizadas.

No repertório que fará parte dos dois CDs que gravarei, obras rigorosamente contrastantes. Se o primeiro será inteiramente dedicado aos “Estudos Contemporâneos” para piano, fechando um longo ciclo de 30 anos de convites a compositores meritosos, sem contar contribuições espontâneas de vários outros, um segundo CD terá como fulcro obras de nosso romântico maior, Henrique Oswald (1852-1931). Verdadeiras joias musicais serão gravadas e entre elas várias inéditas da lavra oswaldiana. Se o CD dos “Estudos Contemporâneos” já teve longos comentários em blogs imediatamente anteriores, o dedicado a Oswald se caracteriza pela excelsa qualidade das criações. Folga-me verificar que perpassa em tantas das peças, a grande maioria com titulação francesa, essa atmosfera nonchalante do fim do século XIX. Oswald foi um melodista da cepa, extraordinário. A sua escrita pianística é clara, mas a interpretação de suas obras merece um cuidado extremo em quesitos essenciais: dinâmica, articulação e agógica. Busco sempre, ao tocar criações de Oswald, encontrar a flexibilização a mais fluida, pois qualquer tratamento menos envolvente torna sua obra engessada, sem respiração.

Quantos não foram os motivos para me lembrar da Capela Sint-Hilarius, em Mullem. Se fatos variavam, a essência essencial para que as pegadas através das gravações ficassem registradas sempre foi a mesma. Johan Kennivé, mestre irretocável como engenheiro de som, este pianista e as paredes milenares e cúmplices da Capela abrigando as sonoridades que ecoam pelos espaços. Há mística em Sint-Hilarius, razão primeira para preferenciá-la desde a década de 1990. Creio igualmente que a personalidade tranquila de Kennivé promove o amálgama. Paradoxalmente, inexiste o relógio do tempo da gravação, que se pode prolongar até que este intérprete entenda necessária a interrupção. Psiquiatra de formação, antimercantilista por vocação, Johan registra os sons, aconselha seus microfones e a parafernália eletrônica, interrompe-me ao sentir que uma xícara de chocolate quente e fatia de torta de maçã, cuidadosamente preparada por sua mulher Tineke, far-me-ão bem. Como não estar na mais profunda harmonia com essa atmosfera criada? A música agradece. Sei que essa será a rotina prazerosa de intensa dedicação, pois os aspectos mencionados deverão se repetir, assim espero. O repertório é sempre renovado, diria, basicamente inédito, mas a compreensão das obras em questão dá-me a certeza de que estamos diante de criações excepcionais. Na medida em que desdobramentos da estadia na Bélgica e em Portugal forem acontecendo, transmitirei ao leitor, que, em meu primeiro post de 2 de Março de 2007, foi convidado a ser partícipe e cúmplice de meus blogs. Continuemos.

E seguimos rumo a Gent…

This post addresses my forthcoming trip to Belgium to record two CDs: one with contemporary Etudes and another entirely dedicated to works by the Brazilian composer Henrique Oswald. I’m looking forward to meeting old friends and the magic scenario of St. Hilarius chapel, in Müllem.