O Bom Debate

Uma pedra atirada na água jamais erra o centro do alvo.
Sylvain Tesson
(Aphorismes sous la Lune…)

De meu dileto amigo e frequentador dos blogs, o compositor e pensador francês François Servenière, recebi aos 18 de Janeiro último link concernente à abertura da Filarmônica de Paris. O acontecimento comoveu a cidade e dois pianistas, entre os mais mediáticos do planeta, Hélène Grimaud e Lang Lang, apresentaram-se, respectivamente, sob a direção de Paavo Järvi, em dois dos concertos para piano e orquestra mais festejados do repertório pianístico: em sol de Maurice Ravel e em si bemol menor de Tchaikowsky. Servenière, ao me enviar o link, fez comentários, a louvar intensamente o evento, a expressiva apresentação dos dois intérpretes, mormente a do artista chinês Lang Lang, assim como a recepção pública calorosa.

Pela primeira vez neste espaço insiro e-mails que trocamos semanalmente, François Servenière e eu. Nossa correspondência iniciada em 2008 acentuou-se nestes últimos três anos e já deve beirar as 1.500 páginas. O posicionamento do excelente músico a respeito do concerto levou-me a responder-lhe, após ouvir via internet a apresentação integral. Realmente, um concerto memorável. Estilos diferentes frente à interpretação, confrontos entre a tradição e a modernidade. Escrevi-lhe:

“Ouvi o célebre Concerto de Tchaikowsky. Assim como a amigo, que conhece tão bem a partitura par coeur, trabalhei muito essa obra com Jean Doyen e Marie Thérèze Fourneau em Paris, a visar ao Concurso Tchaikovsky em Moscou (1962). Gosto imenso dessa composição. Lang Lang é um pianista de grande virtuosidade e incríveis malabarismos no teclado. Sua interpretação é envolvente. Contudo, duas atitudes de Lang Lang me incomodam, uma musical e outra gestual, esta última talvez devido à minha faixa etária e minha formação construída na tradição. Meu posicionamento é absolutamente pessoal.

A execução desse magnífico concerto de Tchaikovsky foi estabelecida desde o século XIX a partir de rigorosa tradição, que não impede nulamente a liberdade e a criatividade do intérprete. O que me incomoda na interpretação de Lang Lang é a ‘invenção’ de acentuações não nomeadas pelo autor, assim como a agógica onde a arbitrariedade, em não raras oportunidades, fica evidente. Essas atitudes se dão também em obras de outros autores por ele executadas. Inúmeras vezes, na magnífica performance do pianista, friso, performance, Lang Lang se desvia desses fundamentos tão profundos concernentes ao que o compositor realmente deixou grafado na partitura. O grande mestre e pianista francês Jacques Février escreveu que há mil e uma maneiras de se tocar Debussy e que uma apenas é equivocada, a de trair seu estilo. Mesmo considerando a performance de Lang Lang sob o aspecto pianístico, reitero, esse desvio de pilares da escritura de uma obra me incomoda. Continuo a preferir algumas interpretações desse concerto mais voltadas à grande tradição, mas entendo lindamente o seu entusiasmo verdadeiro e sincero pela performance de Lang Lang. Sob aspecto outro, Claudio Arrau confessava a Joseph Horowitz que, a partir de uma certa idade (cerca dos 50 anos), teve série crise. Era necessário decidir: agradar ao público ou transmitir a mensagem musical. Decidiu pela economia dos gestos, reduzindo sensivelmente o exagero. A gestualidade de Lang Lang empolga o grande público, graças também à enorme virtuosidade e a uma musicalidade estereotipada. Contudo, se nos ativermos unicamente ao som, há lacunas quanto ao rigor de que nos lembra Février. Será que no gesto exagerado encontraríamos o essencial da música? A teatralidade não atingiria o cerne da mensagem musical, “alterando-a”? Pianistas do passado e tantos do presente transmitiram e transmitem música sob o mais absoluto controle físico e espiritual. Hoje, hélas, alguns intérpretes utilizam-se do gesto destinado às câmaras – cada vez mais presentes – ou ao público delirante”.

François Servenière me respondeu enviando longa mensagem. Sua posição reflete a mais absoluta atualidade. Os meios eletrônicos voltados à imagem, a proliferação de vídeos que registram os pormenores antes desprezados, a concorrência, o público, que foi pouco a pouco se habituando com o espetáculo mais interativo, impulsionam a participação mais “arrojada” de certos intérpretes, que sabem estar sendo focalizados in totum. Voltarei a esse quesito no próximo blog.

Segue a mensagem do músico completo, François Servenière:
“Sem dúvida estou entusiasmado pela virtuosidade teatral transmitida pelas câmaras. Não há qualquer dúvida a esse respeito, tenho de ser honesto comigo mesmo. Como espectador, fiquei impactado pela imagem e pelo som. Acredito que o caminho futuro para a transmissão da mensagem renovada – ‘despoeirada’, dirão alguns! – da música clássica deve passar pelos gênios modernos da interpretação como Lang Lang (1982- ), que sabem se utilizar das mídias modernas, comparativamente aos mais antigos, que ficavam fieis à tradição do gesto puro. Essa interpretação  causaria enfado talvez – mercê das novas técnicas de mediação universal – aos espectadores do século XXI, habituados à instantaneidade trepidante da web. Herbert von Karajan (1908-1989) compreendeu o novo paradigma. Tinha um estúdio privado e uma equipe audiovisual que o seguia sempre. Seu sucesso incrível dependia unicamente dessa capacidade de se adaptar ao seu tempo, sempre na frente quanto ao universo musical como sobre as técnicas audiovisuais, carros, aviões, iates, todo um esplendoroso sucesso graças ao seu talento imenso como regente, mas que não teria alcançado a glória sem a personalidade carismática, tão ‘magnificente’ mercê da imagem. Na verdade, podemos admirar suas interpretações sonoras por muitas razões que não encontrariam espaço nessa mensagem; mas sem a sua imagem, teríamos dúvidas se suas interpretações seriam aceitas como superiores às de seus colegas contemporâneos, que possuíam igualmente ‘provas acústicas’ irrefutáveis de seus talentos”. Lembraria que Mario Vargas Llosa, em “La Civilización del espectáculo”, já observaria que, na atualidade mediática, a não promoção individual de reais talentos leva ao desconhecimento público e ao fatal olvido.

Prossegue Servenière: “Na realidade, sua análise refere-se à essência da música, à verdade verdadeira da arte. Concordo sem nenhuma dificuldade. Não obstante, está em jogo a cruel necessidade da teatralização revisitada pela internet e a comunicação visual para a transmissão da mensagem da música clássica nos nossos dias, que condiciona sua sobrevida. Você tem 100.000 razões ao ficar maravilhado diante da tradição de Horowitz (1903-1989) e de Arrau (1903-1991) – o testemunho de Arrau é magnífico e autenticamente puro. Conheço muitas de suas interpretações. Acredito que a tradição se estabelece a partir dessas interpretações, a fim de ser transmitida no futuro como pérolas de referências e padrão que varrerão todas as execuções ‘acessórias’ e mal digeridas. Admiro o seu saber imenso que, à la manière dos seguranças do templo, digo, no aspecto positivo, deve manter a excelência do conhecimento acumulada através de séculos.

Admiro também a capacidade de transmissão de Lang Lang, pois é ele da geração dos 30 anos, pessoas focadas na internet e nos costumes mais recentes da comunicação eletrônica instantânea desde os tempos da mamadeira. Trata-se de ‘nova tradição’ que, revoluciona a nossa: a sua, que é defensor da agógica de Horowitz, a minha, que me entendo como mediador entre as duas gerações, tendo absorvido uma e outra, o que me faz ‘sentar em duas cadeiras’, numa alusão jocosa.  Parece-me desconfortável, aliás, estar entre gerações tão distintas em suas preocupações. Mas todas a gerações assim procederam e fizeram a intermediação entre o antigo e o moderno.

Nada está perdido! Temos de acreditar na capacidade dos jovens em compreender a mensagem dos séculos transmitida pelos antigos. Trata-se de confiança no futuro. Acredito que estarão à altura dos desafios que virão. Certamente com a ajuda de métodos modernos da divulgação do conhecimento, entendendo-se, contudo, que haja uma perda residual nesse transmitir. Nada a fazer! Observe todavia a magia da Wikipedia! Poderíamos supor em 1970 uma tal profusão informativa, mesmo que a sua utilização atual seja caótica, como na verdade acontece com todas mídias revolucionárias!

Posso afirmar que você é o sábio sentado no fundo do templo e que conhece as imensas colunas do saber que faltam a tantos incultos e fundamentalistas! Você observa jovens eleitos talentosos e inteligentes, avançarem com a arrogância da juventude… Você mostra-lhes os caminhos necessários como as sendas da escalada em direção ao cume que eles deverão percorrer para chegar à  sabedoria que apenas o acúmulo dos anos possibilita, à cumeeira da arte… e da vida, por extensão. Os dois movimentos da vida não são incompatíveis e todos nós passamos, você, eu e outrem, de maneiras diferentes, por essa arrogância de supremacia própria da juventude – ‘se a juventude soubesse, se a velhice pudesse’ – que nos fez cometer tantos ‘pecados da juventude’, frutos da somatória de nosso entusiasmo e nosso formidável apetite de vida.

Estando no meio das faixas etárias sua e de Lang Lang, entusiasmo-me tanto pelo seu saber, como tesouro adquirido ao longo das décadas de muito estudo, como pela juventude conquistadora e inteligente de Lang Lang, assim como admiro Usain Bolt de joelhos em seu posto de arranque, mas também os heróis do Olimpo com o olhar perpetrado pelas lendas transmitidas através dos séculos. É tão difícil analisar em tempo real a época que estamos a viver! Obrigado à história” (tradução – J.E.M.).

No próximo blog publicarei a continuação da mensagem de François Servenière. O gesto na interpretação estará em causa, assim como a tradição. Sugerirei ao leitor links que podem servir de comparação. Comentarei o comprometimento do intérprete com o ato musical em sua essência essencial, mas também o gestual voltado à transmissão da mensagem musical na modernidade como expressão “necessária” frente às câmaras, ao marketing, ao público. Tendências distintas.

In this post I transcribe e-mail messages exchanged between the French composer François Servenière and myself, addressing pianists choreographing their playing and the differences between old-school performers and contemporary ones, who belong to the internet era and know the value of drama, instant effect and excess to win public acclaim.

 

 


Subtítulo do Livro: “L’Aventure Continue”

A rosa imagina, talvez,
que seu perfume a absolva de seus espinhos.
Sylvain Tesson

A constante presença das mensagens transmitidas pelo excelente compositor e pensador francês François Servenière tem suas razões. Aos sábados pela manhã, ao abrir meu computador, já lá está o e-mail do dileto amigo a comentar e enriquecer o conteúdo do blog. As horas de defasagem Brasil-França explicam parte dessa presteza. Soma-se a cultura abrangente de Servenière, que lhe possibilita inserir  novo olhar, pleno de clareza, a subsidiar comentários argutos e pertinentes. Ambos somos profundos admiradores da magnífica obra de Sylvain Tesson que, nos percursos pelo planeta, sabe filtrar essencialidades. Portanto, é com prazer que partilho com meus leitores as reflexões argutas de François Servenière.

“Sublime livro que eu devorei há 10 anos atrás em apenas um dia, como um doce preferido desde a juventude e com o apetite de um faminto. Sempre preferenciei a geografia à história, contrariando legião de historiadores. Esses pretendiam superioridade interdisciplinar, acreditando que a história domina a geografia desde sempre, que os homens e sua vontade arbitram os elementos… Li numerosas obras sobre geografia, apaixonado como você pelas paisagens, estepes, desertos, mares e civilizações que surgem. Como você, eu descobri Sylvain Tesson, presidente da Sociedade de Exploradores Franceses, Sociedade da qual gostaria de ser membro após realizar projetos em mente. Sei que você leu quase toda a obra de Tesson.

Particularmente gostei do livro em pauta pelo fato de que ele coloca a geografia em primeiro plano, tese que eu sempre defendi, pois ela molda as sociedades humanas bem antes da história. Condiciona os modos de vida, os comportamentos, as regras e, após, as leis. Dizia recentemente que o Islã (não se trata de ser original, mas é bom relembrar) era incompatível na sua forma original com a Europa por uma razão apenas. O Corão, um texto originário do deserto e produzido conforme obrigações necessárias à vida naquelas terras. Seria fácil compreender. Uma sociedade e as leis de países férteis têm pouco a ver com uma sociedade e leis de países desérticos. Não se trata de juízo de valor, pois o caráter e o comportamento dos povos e das pessoas são diferentes. O stress hídrico, o sol, as tempestades de areia e o calor resultam em povos com outros anseios comparados àqueles nascidos sob outra condição climática.

Não sei por que nossos políticos não têm essa inteligência dos exploradores. Fariam melhor se lessem ou escutassem Sylvain Tesson, ao invés de dizerem bobagens a todo instante sobre uma religião que eles não compreendem em sua essência, unicamente para a manutenção do poder e de suas poltronas aquecidas. Que falta de curiosidade, que falta de pertinência, reflexões e decisões; que distanciamento do povo que deveria ser ouvido; que cinismo!!! Os políticos são cegos em todos os rincões e sempre, de maneira voluntária em primeiro lugar e, após, naturalmente. O poder é cego e o político não vê, não ouve e não compreende mais nada. Essa situação tornou-se ontológica na Europa, ligada à burocracia que asfixia tudo, diria, quase letalmente. Sabemos que os povos estão revoltados, em todos os lugares. Isso poderá explodir.

Sylvain Tesson nos dá o recuo do tempo vindo do deserto e da longa estrada. Que inteligência, que pertinência, que lição de história! Comparado com os que vivem nas torres de marfim, nos escritórios ministeriais, mais preocupados com a nova máquina de café ou com o funcionamento do ar condicionado. É isso, meu caro amigo! As fotos tiradas pelos satélites focalizando o Mar de Aral deixam-me entristecido. Como marinheiro, eu teci minhas reflexões. Vi fotos de cargueiros que antes navegavam pelas águas, hoje deitados em leitos de areia, tendo perdido toda a esperança do retorno à suas origens, razão da existência. De singradores dos mares, estendidos presentemente como esqueletos de animais mortos sob o sol do deserto. Cenas que me trazem lágrimas aos olhos. Você sabe o quanto um barco é caro ao espírito do marinheiro, ‘homem livre sempre amará o mar’. O barco é o instrumento de sua liberdade. Matar o instrumento é matar a liberdade. O Mar de Aral era um paraíso antes do desvio criminoso dos rios empreendido pelo poder centralizador, totalitário e imbecil da União Soviética. Verdadeiro crime contra a humanidade. Há muitos outros. Nos Estados Unidos, a barragem Hoover, do Colorado, unicamente para alimentar Las Vegas e sua consumação excessiva de água, é indecente. A biologia do Golfo da Califórnia transformou-se, os pescadores locais passam dificuldades e o Colorado chega ao mar com déficit inferior ao de um rio menor em França. O lago Mead baixou 40 metros em relação ao nível original depois da construção da barragem. Verdadeira calamidade! Certos homens, determinados sistemas são os verdadeiros predadores da natureza. Como pará-los, sobretudo quando têm o poder?”. Há tantas posições divergentes aos projetos da transposição do Rio São Francisco e da Usina de Belomonte no Brasil. Projetos megalômanos não teriam no cerne interesses outros? O tempo, insubornável, dirá.

Continua Servenière “Adoro também a maneira como viajantes e exploradores têm de redesenhar mapas, realística e sentimentalmente. Um outro componente mágico em ‘La Chevauchée des Steppes’ é a integração de Priscilla Telmon com a medicina etnológica. Ela oferece-nos as chaves da compreensão das primeiras formas médicas, das carências patológicas para a luta contra insetos, bactérias e ácaros, pureza da água e dos alimentos, dados esses tão distantes de nossos hospitais e sociedades tecnologicamente ultramodernas… mas infestados de bactérias e de vírus. Doenças de toda espécie, perda de resistência frente às múltiplas formas virais e bacteriológicas antigas (a história de Sylvain Tesson que você relata no post anterior). Há pouco tive experiência junto a um hospital da Normandia. Visitava um amigo hospitalizado por problemas cardíacos e, ao conversar com o médico, falei-lhe de fato comprovado relacionando lua cheia e maré alta com o aumento de distúrbios humanos, inclusive concernentes à hospitalização. Retrucou o respeitado médico “Eu sou um homem da ciência, senhor” e de bate pronto afirmei que eu também era. Sylvain Tesson e Priscilla Telmon, estou certo, teriam berrado frente à afirmação do cirurgião! Dramas psicosociológicos de nossas sociedades superorganizadas, onde a inteligência não tem mais qualquer contato com a natureza… Esquecimento e ocultação voluntária e construtivista de nossa origens, psicanálise lógica e provável a advir do mundo e de seus indivíduos. Seríamos ainda naturais e teríamos esse direito? Certamente seremos sempre seres biológicos, afeitos ao que gira ao nosso redor!

Magnífico livro! Seu blog reitera brilhantemente a assertiva”. (tradução J.E.M.).

Last week’s post, “La Chevauchée des Steppes”, deserved extensive comments from the French composer François Servenière, like me a great admirer of the adventurer Sylvain Tesson, who travels the world observing different ethnic groups and their customs, man-made environmental disasters and the fate of our natural habitat. Relevant as ever, Servenière’s comments have a strong interest, since they offer a fresh perspective on topics covered by this blog.

 

 

 

 

 

 

Sylvain Tesson e Priscilla Telmon em Travessia a Cavalo pela Ásia Central

Segredo do peregrino:
avançar sem ansiedade, mas sem distração,
passos contados, obstinado ao longo do dia,
para vencer consideráveis distâncias.
A estepe desfila lentamente,
cinco ou seis km por hora,
sem que nada rompa a fantástica uniformidade do deserto.
Sylvain Tesson

Foram muitos os livros de Sylvain Tesson resenhados no blog ao longo destes últimos anos. A lista completa pode ser acessada através do link “Livros – Resenhas e Comentários” do menu do blog. Admiro a intrepidez do aventureiro que percorre o planeta a pé, de bicicleta ou a cavalo, trazendo ao leitor um universo tantas vezes inóspito e, para nós, inacessível. O olhar arguto de Tesson, aprimorado com o passar dos anos, encaminha-nos  sempre para leituras novas das paisagens, dos costumes e dos personagens das mais variadas etnias. Esses, Tesson ausculta, capta desalentos e esperanças, entende o sedentarismo ou nomadismo a depender das circunstâncias, é introduzido nos lares singelos e rústicos e retira eflúvios ancestrais, passados através das gerações.

Em Janeiro de 2014 tive a alegria de estar presente – puro acaso – no lançamento de um de seus livros em livraria de arrondissement em Paris (vide: “Considerações sobre o Desbravar – Buscando Responder a Indagações”, 15,02,2014). Um dedo de prosa, autógrafos e vários outros livros na bagagem de volta. Para um autor que esteve tantas vezes frente à possibilidade de morrer, um fato absolutamente do cotidiano quase levou-o à morte. Aos 20 de Agosto, sofre uma queda em Chamonix ao escalar um prédio. Teve comoção cerebral. Permaneceu em coma induzido durante bom período e, segundo um comunicado da família, meses depois Tesson recupera-se: “Suas capacidades intelectuais estão milagrosamente preservadas mas devido aos muitos traumatismos, haverá necessidade de tempo e repouso”. Assim esperam seu familiares e legião de leitores. No vídeo da entrevista que concede à FR1 (20/01/2015), Sylvain Tesson, pleno de lucidez, apresenta contudo sequelas da lamentável queda (http://www.huffingtonpost.fr/2015/01/20/video-philippe-tesson-defendu-par-sylvain-tesson-propos-musulmans_n_6505336.html ).

Em “La Chevauchée des Steppes” (Paris, Robert Laffont, 2001), o escritor viajante percorre com Priscilla Telmon cerca de 3.000km a cavalo pela Ásia Central. Para tanto, adquirem três equinos no Cazaquistão – Ouroz, Boris e Bucéphale – dedicando-lhes o livro. A bela Priscilla Telmon (1975) é jornalista e escritora, viajante de longas distâncias, fotógrafa. Realizou viagem solitária pelo Himalaia em 2003-2004, seguindo as passadas da aventureira Alexandra David-Néel (vide blog, 07/12/20007), e saltou de paraquedas a 10.000m de altura sobre o Everest em 2011.

“La Chevauchée des Steppes” foi realizada entre 1999 e 2000. Trata-se de um dos primeiros livros de Sylvain Tesson (1972) e, para o leitor que tem acompanhado sua trajetória, pode-se sentir o percurso mental do autor, interessado inicialmente também na narração de fatos históricos à medida que espaços são vencidos. E essas narrativas são muitas, sob olhar arguto, a fazer comparações de toda a região em dois períodos decisivos, antes e logo após o regime soviético.

Os 3.000km abrangem uma vasta região que se estende do Cazaquistão, Quirgstão, Tajdiquistão, Uzbequistão, margeia a fronteira do Turcomenistão, prolonga-se pelos desertos uzbeques até o Mar de Aral. Aventura fantástica não desprovida de perigos, pois por várias vezes quase sucumbiram aos assaltos quando das lentas cavalgadas.

A narrativa, por vezes entremeada por escritos de Priscilla Telmon, testemunha a atração pelo desconhecido, a curiosidade em apreender costumes e retirar das mentes das tantas etnias a sabedoria ancestral. Ficaria claro que a divisão territorial empreendida pela União Soviética, com fins “aparentemente” geográficos, trouxe uma série de problemas fronteiriços e escaramuças permanentes entre os habitantes dessas inóspitas regiões. Em todas as obras do autor, quase sempre foi bem recebido pelos citadinos, nômades ou aldeões. Constante.

As tantas intervenções da antiga União Soviética nos recursos hídricos dos vastos territórios teriam sido desastrosas. Com fins unicamente de retirar as riquezas do solo, represas foram feitas sem o respeito criterioso aos recursos naturais e Tesson e Telmon testemunham o desastre de cidades e as consequências de leitos de rios secos, cidades moribundas e a sensível diminuição das águas do Mar de Aral, um dos quatro maiores lagos do planeta há 50 anos, hoje reduzidíssimo (vide ilustração). Um dos rios que o abastece, o Amou-Daria, que foi fonte de sobrevivência para os países em questão, está em situação calamitosa, diminuído, poluído. Tem interesse o relato de Tesson em terras usbeques ao abordar o interesse da ex União Soviética em transformar as planícies do Uzbequistão em celeiro de algodão: “O Amou-Daria e o Syr-Daria, dois rios tributários do Mar de Aral, converteram-se brutalmente em vulgares tubos de irrigação. Bombeiam-se suas águas míticas. A planície foi estriada por canais feitos a céu aberto, alimentados pelos dois cursos de água. O algodão cresce. As cifras incharam. O Aral agoniza, sacrificado sob o altar das estatísticas de produção”. Catástrofe. Mutatis mutandis, não se tenta no Brasil, nessas últimas gestões planaltinas, a transposição do Rio São Francisco, o rio da integração nacional? Obra faraônica com consequências imprevisíveis. Independentemente das chuvas, já houve a diminuição do fluxo de nosso rio mítico. Sob outra égide, o desmatamento da vasta região amazônica, que deveria ter fiscalização plena, está a recrudescer e parte da falta das chuvas, que chegavam também ao sudeste, é devida a essa verdadeira incúria.

À medida que nossos aventureiros atravessam desertos, estepes e adentram cidades e aldeias, relatam o presente e reportam-se ao passado. Os habitantes mais velhos lembram-se de tempos mais venturosos do período da piscicultura ancestral. Será Priscilla Telmon a narrar o resultado das pragas e insetos que quase levaram Tesson à septicemia: “Por força de desafiar de manhã à noite as regras de higiene, dividindo as noites com percevejos nos leitos, mosquitos sanguinários durante o dia, pulgas e outros mais insetos, foi vítima de uma infecção nos canais linfáticos. De um minúsculo abscesso situado sob o punho surgiram longas manchas vermelhas, que subiram até os ombros. Os gânglios foram atingidos. Mais alguns dias e teríamos a septicemia. Essa só não chegou graças à dose cavalar de antibióticos, mais violenta do que meses de cavalgada”.

O longo convívio serviu para leitura de um sem número de livros que os dois aventureiros levaram. O cotejamento história-atualidade reveste-se de charme, pois rememoram desde Genghis Khan aos séculos mais recentes e sentem um quase prazer de pisar solo anteriormente frequentado por cavaleiros e guerreiros. Comentam o islamismo, descrevem mesquitas e minaretes. Encantam-se com Samarcanda, a segunda cidade uzbeque. Pormenorizam-na, pois fazia parte da rota da seda entre China e Europa. Extasiam-se com Bukhara, essa cidade murada do século X, sua mesquita mor e seu alto minarete de Kalian (50m). De lá, o khan ordenava a queda dos condenados à morte. Tem certa dose de humor negro o relato de Tesson, que subiu ao topo com Priscilla “Era a última visão que os condenados à morte levavam antes da queda, empurrados pelo carrasco. Derradeira graça concedida pelo khan: oferecia-lhes um último olhar sobre as belezas do mundo”.

Melancólica a chegada ao Mar de Aral. Todo o projeto a visar ao final esse mar que está a morrer. Tesson comenta “Na cabeceira do mar nós choramos, pois o mar está morto e nossa viagem chega ao fim”. Doados ao Museu de Artes Savitsky, em Noukus, Uzbequistão, os fiéis cavalos Boris, Ouroz e Bucéphale ganham a liberdade no dia seguinte, não sem emoção de Sylvain e Priscilla.

Sedimentavam-se em 2.000 tantos outros projetos que levariam Sylvain Tesson a percorrer a pé, a cavalo ou de bicicleta vasta região do planeta, traduzidos em instigantes livros já resenhados. Esperemos que a narrativa do conturbado mundo em que vivemos, lenta e serenamente, sob olhar inusitado, perdure.

This post is an appreciation of the book “La Chevauchée des Steppes”, written by the French geographer and traveler Sylvain Tesson. In 1999-2000, together with the photographer Priscilla Telmon, he crossed the steppes of Asia from Kazakhstan to Uzbekistan, reaching the Aral Sea . He tells us about customs of different ethnic groups, their difficulties and dreams, witnessing the devastation and shrinking of the lake that was formerly one of the four largest lakes in the world.