A Dignidade como Respiração

Toda ascensão é dolorosa. Toda mudança traz sofrimento.
Eu não atinjo o cerne dessa música se não tiver sofrido.
Ela é fruto de meu sofrimento e não creio naqueles
que se vangloriam das provisões colhidas por outrem.
Não acredito que seja suficiente mergulhar os filhos dos homens
no concerto, no poema e no discurso
para lhes proporcionar a beatitude e o delírio do amor.
O homem é resultado do amor, mas também do sofrimento.
Antoine de Saint-Exupéry
(Citadelle, cap. XXXV)

O homem é ou não é, dizia meu saudoso pai. Na essência, não há meio termo, pois impossível tergiversar quando se é. Ao longo da existência, quão poucas vezes temos o privilégio de cruzar o caminho de homem íntegro na acepção! Neste Brasil tão conturbado, onde o desvio da verdade e a chaga da corrupção se expandem sem esperanças de estancamento, ainda mais raramente encontramos essas figuras abençoadas, diria, que semeiam o bem, vivem a generosidade, esquecem-se de suas privações sabendo que o próximo pode ter sua chance na vida, assimilam como penitência o mal físico inflexível que pode estar agregado desde a infância, sabem distribuir, são generosas e têm o olhar que não esconde intenções. Tudo é claro, translúcido, sem a menor possibilidade da névoa que encobre simulações.

Sígrido Levental  é esse homem, entre pouquíssimos. Nascido em Santos em 1941, cedo inicia seus estudos pianísticos, realizando seu primeiro recital no Clube XV da cidade aos 15 de Novembro de 1954. Em sua apresentação aos 6 de Setembro de 1957, Sígrido apresenta recital corajoso na Rádio Clube de Santos. No programa encontram-se, entre muitas obras, a Sonata op. 57 de Beethoven (Appassionata) e a Balada nº 1 em sol menor de Chopin. Dados curriculares no convite faziam antever promissora carreira “O jovem recitalista iniciou seus estudos musicais com a professora Luísa Gelli Jacoponi. Em 1953 entrou para a Escola Musical ‘São José’, na classe de D. Oraída do Amaral Camargo. Em 1955 diplomou-se, sendo-lhe conferida a Medalha de ‘MÉRITO ARTÍSTICO’ por uma banca julgadora presidida pela insigne pianista Ana Stella Schic. Iniciou, então, um curso de aperfeiçoamento com o renomado mestre José de Souza Lima, com quem vem estudando atualmente”.  Torna-se necessário esse histórico da formação de Sígrido, pois suas atividades futuras ligadas à música tiveram raízes sólidas que determinariam, em seu caso singular, decisões ponderadas, corajosas e que estimularam gerações no caminho da música.

As sendas da Música são incontáveis. Sígrido abraçaria sua missão maior, a de dirigente de estabelecimento de ensino musical. Foi na década de 1980 que tive o privilégio de conhecer pessoalmente Sígrido Levental, dirigente do Conservatório Musical Brooklin Paulista, inicialmente instalado na rua Álvaro Rodrigues, frente à Paróquia Sagrado Coração de Jesus. Posteriormente o Conservatório mudaria de endereço, transferindo-se para a Rua Roque Petrella, próximo ao anterior. Admirava sua ação pedagógico-diretiva e o ambiente congraçador que formara no estabelecimento de ensino, fatos do conhecimento público. Sob nova direção, o CMBP localiza-se presentemente na Av. Portugal, 1074.

Foram as edições que me levaram ao dirigente. Imediata a empatia. Tornamo-nos amigos sem subterfúgios. Em torno de meu livro “O Som Pianístico de Claude Debussy”, publicado pela Editora Novas Metas sob direção de Sígrido em 1982, e de quatro obras de Henrique Oswald editadas no mesmo ano, contatos diários eram mantidos e aprendi, dia a dia, a admirar a altivez, a solidariedade e o despojamento do amigo, qualidades agregadas à determinação, concentração e capacidade invulgar quando tarefa lhe era apresentada. Saliente-se que Sígrido foi pioneiro ao editar compositores das mais diversas tendências abrindo-lhes caminhos seguros.

Para as novíssimas gerações, impossível entender a edição de um livro com exemplos musicais nesse início dos anos 1980. Sígrido digitou-o inteiramente em uma máquina de escrever elétrica com esferas da IBM, dernier cri para o momento brasileiro. Revisões e revisões. Quanto aos exemplos, hoje tão fáceis de serem realizados, Sígrido tinha páginas com notas set que vinham ligeiramente fixadas em folha transparente. Com uma pinça, o amigo colava nota após nota e todas as indicações contidas na partitura. Verdadeiro artesão!!! Realizava esse trabalho, mas conjuntamente resolvia os problemas do Conservatório e da Editora, assim como atendia alunos e seus pais, professores e visitantes. A dificuldade enorme de locomoção fazia-o ficar sentado durante a jornada que se estendia, por vezes, até bem tarde, sem reclamar, bebendo sua água e, hélas, fumando muito, mas abnegado a saber seu desiderato maior. Conto nos dedos de uma só mão os batalhadores de tal estirpe.

Finalizado “O Som Pianístico…”, houve lançamento concorrido e precedido por recital Debussy no então recém inaugurado Centro Cultural de São Paulo, já àquela altura pleno de insolúveis problemas estruturais. Uma curiosa situação deu-se dias após. Ao me encontrar com Ruy Yamanishi, médico e dileto amigo que estivera no lançamento, este estava a ler o livro. Abriu na página em que há uma das ilustrações do inspirado artista Johan Howard e questionou-me com a sabedoria oriental que lhe é peculiar: “Neste desenho ‘Et la lune descend sur le temple qui fut’, onde está a lua?”. A resposta veio imediata: “Possivelmente escondeu-se atrás da torre do templo”. Procurei Sígrido e lhe disse que no desenho original havia a lua. Imediatamente liga ao seu amigo Guariglia, que imprimira o livro, questionando-o. Alguns momentos de espera e veio a resposta: “o gráfico pensou que fosse uma sujeira, daí suprimi-la”. Lembro-me do sorriso contagiante de Sígrido pelo equívoco tão inusitado. Momento a não ser esquecido.

Quando Sígrido, pleno de esperanças, criou a orquestra do Conservatório formada por jovens músicos, por duas vezes me apresentei apoiando a bela iniciativa, sendo que na segunda oportunidade, sob a direção do saudoso amigo e maestro português Manuel Ivo Cruz. Essa iniciativa e tantas outras eram a razão do respirar de Sígrido Levental, que assistia às apresentações por ele imaginadas, sempre à distância, em lugar escondido das salas. A modéstia e o recato eram-lhe familiares.

Os anos se passaram. Estivemos juntos algumas vezes no segundo endereço na Rua Roque Petrella. Bem mais tarde visitei-o em seu apartamento. Se nossos contatos ficaram escassos, jamais deixei de ter pelo grande amigo e incentivador das artes um carinho especial. Quando o homem é, o exemplo se propaga, as atitudes servem de norte para tantas ações individuais que surgiriam, a ter Sígrido Levental como inspiração.

A homenagem que lhe foi prestada neste último dia 12 de Dezembro é justíssima. Comovente todo o evento realizado no Auditório Ibirapuera. Apresentou-se a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, sob as regências competentes de Marcos Sadao Shirakawa e Mônica Giardini.  O respeitado saxofonista Roberto Sion foi solista de várias peças. A Banda Sinfônica, o Coral Infanto-juvenil da Escola de Música de São Paulo (Regina Kinjo, regente de coro) e cantores convidados apresentaram o musical “Os Saltimbancos” de Luiz Henriques, com adaptação de Chico Buarque de Holanda e arranjos de Júlio Cesar de Figueiredo. O espetáculo todo esteve sob a égide amorosa. A professora e pianista Aida Machado e o compositor e maestro Aylton Escobar fizeram depoimentos pungentes. O público que lotou o auditório viveu momento de intensa emoção quando anunciaram a presença de Sígrido que acabara de chegar em uma cadeira hospitalar. Deram-lhe a permissão no hospital para que presenciasse a homenagem que tantos alunos, amigos e admiradores lhe tributavam.

A portuguesa Leonor Alvim Brasão e as dedicadas filhas do homenageado, Cláudia e Rosana, tiveram a iniciativa do “Obrigado Sígrido”. Há tempos radicada nos Estados Unidos, Leonor ainda jovenzinha, viveu  a transição das décadas de 1970/80 com seus irmãos e sua mãe, a saudosa artista plástica e pianista Leonor Alvim, num convívio intenso com o CMBP.  Outros admiradores juntaram-se ao projeto.

“Obrigado Sígrido” só acontece graças à imensidão de uma figura exemplar que tem marcado sua existência pela singularidade de estar sempre com a mão estendida para o apoio, para a música, para o amor.

This week a concert in honor of Sígrido Levental was held in São Paulo. This post is my personal tribute of respect to this great man, former Principal of Brooklyn Music Conservatory and editor (he supervised the publication of my book on Debussy and Henrique Oswald’s scores), an example of willpower, fight and love of art whom I was lucky to have met.

 

 

 

A Lembrança dos Vinte Anos de sua Morte

No entanto, antolha-se-me que todos os escritos
são mais ou menos solidários numa preocupação:
a de conceber a música para o homem,
a de tornar este o centro da arte dos sons,
que não é apenas uma demonstração acústica,
não é apenas uma pura construção intelectual,
não é apenas um ofício e uma técnica,
mas sim também,
e acaso para além de tudo isso,
um alimento espiritual, uma presença e uma mensagem vivas.
Fernando Lopes-Graça
(Proémio de “Nossa Companheira Música”)
Lisboa, Março de 1964

Sabia da efeméride (27 de Novembro), pois impossível esquecer a carta de Dezembro de 1994 de meu saudoso amigo e também notável compositor, Jorge Peixinho (1940-1995), anunciando a morte de “nosso queridíssimo amigo Lopes-Graça”, segundo suas pungentes e sofridas palavras a mim enviadas. Meses após, seria Peixinho que sofreria ataque fulminante. Dupla tragédia para a Música em tão breve espaço de tempo!

Nesses últimos dias fui contatado por duas instituições portuguesas, a Rádio TSF (Rádio Notícias), através da jornalista Rita Costa, para entrevista sobre Lopes-Graça em torno das homenagens que estão sendo tributadas ao insigne compositor. No instante preciso fixado ligaram-me por telefone, e iniciei a longa entrevista que foi concedida à também jornalista Cristina Santos. Lembranças de meus encontros com o grande músico, assim como projetos realizados em torno de sua obra magistral foram objeto de comentários vários. Falar sobre Lopes-Graça sempre me agrada muito, pois independentemente do privilégio de tê-lo conhecido, o notável compositor português é um de meus eleitos há décadas. Desde 1959, nossos encontros se davam em seu Templo Sagrado, a Academia de Amadores de Música, espaço que continuo a frequentar desde sua morte, realizando anualmente recitais quando de viagens à Europa. A Associação Lopes-Graça, por sua vez, solicitou-me um breve relato sobre o homenageado para integrar um dos painéis que serão montados no Salão Nobre da Câmara de Matosinhos (inauguração da exposição, 20 de Dezembro) e no Museu da Música Portuguesa na Casa Verdades de Faria (2015).

Poderia acrescentar que toda a sua produção composicional ou literária me entusiasma. Foi um dos raríssimos que, dedicando-se à composição, regência coral, piano e magistério, legou-nos, paralelamente, um extraordinário acervo como arguto pensador. Se ideologicamente esteve ligado às esquerdas, o que lhe granjeou dissabores enormes durante sua trajetória em pleno salazarismo, foi um puro. Tinha convicções firmes, não buscando proveito próprio. A música era sua respiração, assim como a manifestação popular simples, autêntica o era, também sem quaisquer alardes que pudessem levar à autopromoção. O Coro da Academia de Amadores de Música, laboratório perfeito para o extravasamento de tantas aspirações…

Em Portugal, significativo levantamento tem sido feito, mormente nestes últimos lustros.  Inúmeras gravações realizadas em terras lusíadas são lançadas, a difundir mais acentuadamente obras ainda inéditas. Louve-se a dedicação de tantos intérpretes portugueses nessa tarefa exemplar. Livros e artigos estão constantemente a surgir, o que demonstra que, por parte dos que fazem música e que escrevem sobre ela, não há esmorecimento. Está a faltar a inserção definitiva além-fronteiras, sempre merecida, mas que tarda.

Lopes-Graça no Brasil. Apesar das ligações do mestre com músicos brasileiros como Arnaldo Estrela, Camargo Guarnieri, Guerra Peixe e outros, pouco ou quase nada se fez para sua divulgação no país. É simplesmente lamentável. O suceder dos decênios não apresenta sinais de que um dos maiores compositores do século XX, em termos mundiais, tenha obras apresentadas entre nós. Um dos tristes exemplos estaria no fato de que meus três CDs gravados e lançados na Bélgica e em Portugal, unicamente com obras de Lopes-Graça, não tiveram merecido sequer guarida no Brasil por parte da mídia em geral. Por puro desconhecimento do compositor!!! Bater-se contra a mesmice que impera nos repertórios apresentados no Brasil, mormente referentes ao piano, é cansativo e infrutífero. Portugal “inexiste” para as “desinformadas” sociedades de concerto brasileiras. Acreditam que ter nascido em Portugal, mas a visitar repertório outro, repetitivo, frise-se, já basta, desde que o personagem venha avalizado por Sociedades de Concerto do Exterior. Sociedades, empresários e intérpretes, que se repetem para a sobrevivência através do número de sócios, lucro e presença nos palcos, respectivamente, não estariam propensos às mudanças de repertório em nossas salas de concerto. Raríssimas vezes, de maneira isolada e até nostálgica, um compositor português é lembrado em nosso país. Triste realidade. Sob outra égide, a Universidade no Brasil basicamente ignora a música portuguesa erudita ou clássica. É fato. Ter-se-ia de mudar mentalidades.

Apresento o pequeno texto que enviei para um dos painéis mencionados em homenagem ao grande músico tomarense:

Fernando Lopes-Graça, Nome Maior da Música Portuguesa

Rendo eterno tributo a Lopes-Graça, mercê de convite para meu primeiro recital em Lisboa, no dia 14 de Julho de 1959 na Academia de Amadores de Música. Nas décadas posteriores, sempre que visitava Portugal para recitais, encontrava-me com o Mestre em seu Templo, a AAM. Empatias existem ou não. O fascínio pela obra de Lopes-Graça vem da juventude e teve curva sempre ascendente. Admirava sua postura firme, inquebrantável quando convicção ideológica ou música estavam em causa. A incorruptibilidade do pensar do Músico de Tomar tornou-se lendária.

Foram as muitas fotocópias de manuscritos, sempre acompanhadas de estimuladoras dedicatórias recebidas das mãos do compositor, que me fizeram percorrer suas partituras, buscar sorvê-las em suas essencialidades e, posteriormente, gravá-las em três CDs  lançados pela Portugaler e pela PortugalSom-Numérica, a maioria das obras em registro inédito. Os livros que por ele me foram ofertados, guardo-os como bens preciosos, consultando-os com assiduidade. As constantes viagens às terras lusíadas fizeram-me completar o corpus literário do compositor.

Acredito firmemente que em breve Lopes-Graça será reconhecido com justo mérito, em termos universais, como um dos maiores mestres do século XX. Já o é, sempre o foi, falta-lhe a divulgação incisiva além-fronteiras. Sua produção enorme e criteriosa, a abordar inúmeros gêneros musicais, seu estilo definido, pois somente os grandes deixam “impressões digitais” sobre a partitura, levarão seu nome aos quatro ventos. Esforços estão sendo feitos em Portugal através de gravações, edições de partituras e consistentes estudos críticos sobre a opera omnia do compositor. Intérpretes portugueses estão a repertoriá-lo sonoramente em terras lusíadas e esse é um aspecto dignificante. Contudo, “navegar é preciso…”. Há a necessidade de o Estado fazer sua parte de maneira a não deixar dúvidas quanto às intenções. Lopes-Graça é joia rara, assim como, num paralelo, Villa-Lobos o é. Representam para Portugal e Brasil, respectivamente, seus nomes maiores.

Clique para ouvir de Fernando Lopes-Graça:

Das “Viagens na Minha Terra”:  “Em Alcobaça dançando um velho fandango”  (piano: J.E.M., selo Portugaler)

Das “Músicas Fúnebres”: “Deploração na morte de Samora Machel” (piano: J.E.M., selo PortugalSom/Numérica)

On the 20th anniversary of Lopes-Graça’s death, Portugal pays respect to the great composer with a series of events. I have been contacted by two Portuguese organizations: TSF Radio for an interview and Associação Lopes-Graça for a brief account of my relationship with him for posters that will be on display at the City Hall of Matosinhos and at the Portuguese Music Museum. I can’t help thinking how shameful it is for us, Brazilians, to ignore the works of this outstanding artist, a rare jewel that deserves to be put on a level with the greatest names of the 20th century.

 

 

 

Considerações que Vêm a propósito

Se o seu corpo estiver preparado,
a mente o levará a qualquer destino.
Nicola (amigo e maratonista)

No post do dia 15 sobre a introdução no YouTube das seis “Sonatas Bíblicas” de Johann Kuhnau inseri foto em que Elson Oktake e eu estávamos correndo em uma das tantas provas  que se realizam preferencialmente em São Paulo. Elson é um de meus gurus do pedestrianismo. Comentários houve sobre a extraordinária coletânea de Kuhnau, ora no YouTube. Um leitor, ao ver a foto esportiva, sugeriu que escrevesse um texto sobre essa atividade. Respondi-lhe que em anos anteriores já postei vários sobre corridas de rua, mas que num próximo aproveitaria para destacar a qualidade de vida que emana do exercício físico e de práticas saudáveis.

Apraz-me o fato de ter convencido alguns amigos a praticarem corrida de rua. Os que começaram não mais desistiram e engrossam o enorme contingente de atletas amadores que, regularmente, participam das provas. Carlos, ou Batoré para os adeptos da modalidade, é um deles. Trabalhando intensamente em uma sauna há mais de 25 anos, Carlos abandonou o joguinho de futebol semanal e as “bebidas” da confraternização pós-jogo. Hoje é um dos bons nas corridas de rua. Rápido, resistente, acompanha-me em quase todas as provas das quais participo e incentiva muito aquele que o motivou a essa prática salutar. Meu genro Massimo aderiu ultimamente às corridas de rua e está em pleno aprimoramento.

No domingo do dia 16 de Novembro tivemos a 11ª edição da Ayrton Senna Racing Day – Maratona de Revezamento na lendária pista de Interlagos, que ocorre uma semana após a realização das corridas de Fórmula I. Nossa equipe TA LENTOS (em anos anteriores escrevi vários posts a respeito) participaria com os oito titulares, que ficariam gravados no sugestivo desenho de nossas camisas, realizado pelo pranteado amigo Luca Vitali. Um dia antes recebi o telefonema de Shigeo, um dos integrantes da TA LENTOS, a dizer que a mãe de um dos nossos falecera e, portanto, o casal Franco e Cristina teria de ser substituído. Lamentamos o ocorrido, mas urgia pensar em dois outros corredores para completar o octeto. Vieram-me à mente Carlos, o Batoré, e meu genro Massimo. Aceitaram e completaram com galhardia a prova marcada por descidas e duas subidas, mormente a última, bem acentuada. Como dizia um dos corredores da TA LENTOS, Yuji, mais do que a corrida de revezamento, vale o congraçamento entre as pessoas. Observei as centenas de equipes e não vi uma só fisionomia que não revelasse outra reação a não ser a da alegria de lá estar a participar.

Hoje integramos duas equipes, a TA LENTOS e a Corre Brasil, a despontar nesta última nosso dileto amigo, Elson Otake, o maratonista. Os integrantes das duas equipes têm lá seus  desafios, eles em busca da redução dos tempos e eu, à maneira de um Matusalém, a buscar, ao menos, manter meu ritmo. Aos 76 anos, nas 90 provas de rua já percorridas jamais andei, mas o ritmo moderato ma non troppo leva-me sem cansaço a cumprir todas as provas. Lustros a mais, entusiasma-me o convívio com meus colegas corredores das duas equipes, todos pertencentes à juventude da idade madura, entre 40 e 50 e tantos anos.

Da França, o compositor e pensador François Servenière, sempre presente em meus posts, teve intensa atividade na juventude como alpinista, esquiador, ciclista, nadador, corredor, futebolista, velejador, guia de montanha e professor de esqui. Foi uma alegria saber que o retorno à atividade esportiva, após muitos anos, deu-se, em parte, do exemplo deste velho corredor que a cada prova envia a foto de participação para o Espace Professionnel que Servenière mantém em seu site, no qual, entre mensagens – a  grande maioria sobre música -, trocamos fotos e ilustrações. Sob outro contexto, Servenière, que pratica atualmente longas caminhadas pelas praias e montanhas, enviou-me um apanhado de seu atual estado físico, que corrobora a boa performance mental. Ratifica o amálgama mens sana in corpore sano. Ao longo da existência assisti ao majoritário distanciamento da denominada intelligentzia frente ao “banal” aprimoramento físico, como a apontar o sedentarismo como conditio sine qua non para que as musas inspirem o pensar!!! Na Universidade prepondera esse posicionamento. Fato. É pois com alegria que transmito algumas considerações de Servenière extraídas de nossa correspondência, pois evidencia o amigo sua disciplina invejável para a manutenção da forma e, consequentemente, com reflexos na sua qualidade de vida e na criação composicional sempre em ebulição.

“Fiz meus quatro quilômetros ontem como o faço a cada domingo nestes últimos três meses. Trata-se de treinamento a trotar entre as praias de Deauville e Blonville, em que sinto a prazerosa sensação já descrita por você referindo-se às ‘distâncias encurtarem’. Readquiro a forma! O mar está frio, mas eu nem me importo, pois a circulação sanguínea está em bom fluxo, assim como minha respiração. Estou em bem melhor forma do que no ano anterior e a musculatura das pernas está rígida, bem mais firme do que há tempos atrás. A cada semana, duas horas de ginástica em casa. O esporte é verdadeiramente uma atividade necessária, sobretudo em nossas atividades sedentárias ligadas aos nossos instrumentos de trabalho (piano, computador). É-nos imperativo ficar sentados horas e horas sobre cadeiras, preferencialmente apropriadas, assim espero.

Trata-se de um retorno ao esportista que fui desde a adolescência. Em 1980 fui campeão francês de futebol em competição escolar júnior. Tínhamos dois jogadores da terceira divisão nacional na equipe de Alençon. Nos jogos do torneio encontramos duas equipes com titulares de nossa idade que já integravam a primeira divisão em Lille e Rennes. Malgrado o fato, nosso coletivo durante todo o ano adquirira um grande espírito de solidariedade, daí o resultado final. Jamais duvidamos de nossa força coletiva”.

E as reflexões continuam: “O Tempo que passa não conta. Esse estado de espírito e minha retomada de forma física nestes últimos meses já estão ligados ao esporte e à descoberta de um segredo de vida para se ter uma saúde cardiovascular perfeita, que eu aprendi, aliás, pela Internet, através de um médico francês cuja teoria simples e gratuita eu aplico quotidianamente desde 1º de Julho: ‘a ducha fria’. Eis, pois, que recarrego baterias através dos raios solares, do mar, do esporte, do trotar pelas praias, da ducha fria pela manhã seja qual for a temperatura exterior. Atributos que me dão a plena forma para atacar as novas composições, desafios permanentes. Wait and see!!!”. Continua Servenière: “Antes de receber minha bike ‘turbinada’ no próximo Natal, sinto-me a cada dia mais em forma e, sobretudo, resistente. Diria, ‘esbanjo’ saúde! Incrível o que a atividade esportiva consegue! Sentia-me em declínio, pesado, cansado, deprimido, adoecendo por qualquer motivo! Neste momento, o frio invade nossa Normandia. É necessário fazer enorme esforço para enfrentar o desafio aquático ao acordar, após  cobertores aquecidos; essa obrigação moral cotidiana é bem maior do que um despertar matinal sonoro. Todavia, pouco a pouco a corrida – assim como a ginástica e a escova de dentes! -, não apenas tornou-se um  hábito, mas, graças às endorfinas reativadas, um prazer indescritível. Meu corpo rejuvenesceu 10 anos e a próxima etapa está relacionada à respiração controlada e à resistência ao esforço. Metas a serem atingidas em dois ou três anos, mas sinto que o foguete está prestes a decolar. O resto é o resto, e o moral está elevado, mercê de tantos projetos em curso e outros no campo das ideias. Sede insaciável pela vida”.

Creio que os depoimentos de François Servenière, pinçados de mensagens espaçadas pelo tempo, dão bem a medida do sentimento que todos os que praticam atividade esportiva experimentam. Daí o fato de ter mencionado que jamais vi um rosto contraído durante as corridas de rua, antes delas e depois das provas. Curiosamente, apenas nos pelotões da elite, formados pelos corredores ranqueados que buscam troféus e prêmios em dinheiro, percebo, por vezes, semblantes severos. A atividade esportiva amorosa, voluntária, descompromissada com o pódio só pode ser exercida em plena harmonia corpo e mente. Quanta verdade contém a frase sempre ironizada atribuída ao Barão de Coubertin (1863-1937), Presidente do Comité Olímpico Internacional entre 1896-1925: “O importante não é vencer, mas competir, e com dignidade”. Esse é o lema que nos satisfaz inteiramente.  As fotos de nossas equipes traduzem tantas realidades individuais e coletivas…

This post is about why I love running: the benefits for body and mind; the interaction with other runners – everybody has an advice to give, a race story to unfold -, the rush of hormones that relieve stress and make you happier. I include passages of e-mail messages received from the French composer François Servenière, who took up running recently and is already an enthusiast of the sport. To prove my point, I also publish pictures of Servenière running on the beaches of Normandy and of myself with teammates in São Paulo. Isn’t it a good way to improve our general well-being?