Gesto Relevante que não Pode Ser Esquecido

Pensarem Brasil e Portugal como uma imensa possibilidade
de formação, investigação e intercâmbio artísticos.
Pensarem-se também como parte integrante do mundo lusófono e íbero-americano,
que continua a esperar em vão pelo “evento” que tarda
(“evento” entendido como estratégia ou atitude essencialmente cultural).
Há que soltar a “jangada de pedra” das amarras da sua condição periférica
e trazê-la de volta carregada de potencial contra-hegemónico.
Mário Vieira de Carvalho (26/02/2011)

Em um café de minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, que apresenta ultimamente sinais de degradação mercê do descaso público, estava a conversar com amigo bem articulado em sua ligação com o meio que cultua no Brasil música erudita, de concerto ou clássica. Esse encontro se deu há alguns anos. Eu acabara de retornar de digressão anual às terras lusíadas. Perguntei-lhe sobre o que pensava da música portuguesa. Respondeu-me que dela conhecia apenas respeitada pianista nascida em Portugal, que nos visita sempre atendendo a convites das sociedades de concerto de São Paulo. Insisti: “sobre a música portuguesa”. Finalizou: “creio já lhe ter respondido”. Comentei que ter nascido em Portugal, mas a perpetrar unicamente obras sacralizadas de alhures, não significa ter relação com a música portuguesa. A presença física do intérprete cosmopolita torna-o – seja qual for a dimensão de seu valor – apenas mais um cosmopolita, mormente se ignora por completo suas raízes. Pode-se ser cosmopolita, mas a relação sanguínea fá-lo divulgar o plasma criativo que percorreu e está sempre a deslizar pelo território que o viu nascer. Divulgar a essência essencial da criação de seu torrão natal e espalhar esse constante pulsar dimensiona a estatura sociocultural de um intérprete, sua verdadeira aspiração, seu objetivo, seu distanciamento da vaidade, palavra esta que, ao ver de Saint-Exupéry não é um vício, mas uma doença. Infelizmente, não se trata de caso isolado. Sem precisar aprofundamento maior, verificamos o ardor com que intérpretes russos, franceses, italianos, alemães, espanhóis, húngaros, brasileiros e de tantas outras latitudes e longitudes divulgam com reverência o repertório sacrossanto internacional, mas igualmente aquele de seus respectivos países.

Décadas têm passado e o desconhecimento no Brasil da qualitativa música produzida em Portugal, através dos séculos, caracteriza descaso e despreparo cultural de nossas organizações de concerto. Muitos dos intérpretes que nos visitam, vindos do hemisfério norte, retornam duas, três ou tantas mais vezes. Motivos insondáveis excluem sistematicamente o músico português. Raríssimas exceções. Tantos há de grande valor que poderiam apresentar-se anualmente no Brasil. Interpretam o acervo composicional estrangeiro, mas tocam e gravam o repertório português. Se, de um lado, há desinteresse das organizações, sob outra égide portugueses e luso-descendentes, que integram as inúmeras associações “culturais” portuguesas em São Paulo, não apenas desconhecem, como não se interessam minimamente pela música de concerto composta em Portugal ou alhures. Isso é um fato real. As pouquíssimas ações realizadas não tiveram a menor sequência, o que é uma lástima.  Após mais de cinquenta anos a divulgar repertórios de nossos dois países, posso afirmar que o qualitativo composicional português dialoga tantas vezes com o que de melhor se tem em países tradicionalmente detentores de programações de seus autores consagrados. E não seria por falta de edições. Elas existem em Portugal, país tão menor que o Brasil, e obras do século XVI ao atual continuam a ser editadas. Recentemente escrevi sobre o “Passionário Polifônico de Guimarães” (vide post 23/11/2013), uma obra prima de editoração sob os cuidados do ilustre musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso.  Os mais relevantes compositores portugueses continuam a ser editados, mas nós, brasileiros, desconhecemos e evitamos interpretá-los, pois não pertencem à  “tropa de elite” constituída pelos autores superventilados, fora do sofrido “eixo cultural”  Portugal-Brasil voltado à música. Nossos intérpretes não ousam frequentá-los e, se exceções meritórias existem, não conseguem romper a barreira estabelecida. Enumerar os excelentes compositores portugueses e o valor intrínseco de suas criações seria tarefa para muitos outros posts, a somar os que já escrevi a respeito. Pregar no deserto ou na aridez de nossa cidade têm a mesma dimensão do vazio ou do desconhecimento, tout court. Na ausência de convites para que músicos de terras lusíadas realmente envolvidos com a difusão da Música Portuguesa aqui se apresentem, situação constrangedora de indigência cultural se afigura entre nós. Não sendo convidados, menor ainda a oportunidade de conhecermos o repertório português e os músicos lusíadas que o reverenciam. E estamos a falar de Brasil e Portugal, em que a relação deveria ser de amálgama pleno. Triste ilusão.

Coube a um grupo de jovens idealistas, e até visionários, ousar trazer ao Brasil uma série de apresentações com repertório de Portugal. Antes dessa atitude tiveram a ousadia de sacudir, de maneira por vezes incisiva, o meio musical português, ao propor uma revista sobre música portuguesa, Glosas, não tendo basicamente apoios financeiros. Formaram o “Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa” (MPMP) e foram à luta. Comandados por Edward Luiz Ayres de Abreu, jovem compositor e musicólogo, lançaram-se numa aventura plena de desafios e incertezas. Guardando-se todas as devidas proporções, os navegadores dos séculos XV e XVI também não o fizeram? Está no sangue lusíada ser intrépido. Criaram a Revista Glosas e, ao longo de vários posts, externei o meu entusiasmo pela publicação que não encontra paralelo qualitativo no Brasil. Conseguiram chegar ao número 11, sempre nessa batalha insegura em nossos dias, a qualidade sem concessão. Como é difícil, lá como cá, não sucumbir aos apelos desse mal concessivo em detrimento da qualidade!!! A certa altura Edward Luiz e sua equipe buscaram singrar os mares em busca de uma identidade lusíada espalhada pelo mundo. O idealismo tem seu tributo a pagar e o grupo do MPMP bem sabe dessa barreira, mas, de maneira altaneira, está a conseguir com imensas dificuldades seus intentos. Vários núcleos foram criados, formados por especialistas do Brasil, da África e da Ásia. O grupo português já estava consolidado, integrado pelos jovens idealistas. Consultado por Ayres de Abreu, este músico, nos seus 75 anos, teve o prazer de indicar os nomes do núcleo brasileiro. Foi-me confiada uma coluna para cada número, “Ecos d’Além Mar”, sempre a tratar de tema relacionado, de alguma forma, à música portuguesa, permeando-a também, quando se faz necessário, por elementos importantes a envolver a música brasileira. Essa integração provocou acontecimento inédito, diria, pois artigos sobre compositores brasileiros e concernentes ao nosso passado e contemporaneidade foram publicados, redigidos por especialistas pátrios. Constância antes impensável. Um número (9) teve na capa o compositor romântico brasileiro Henrique Oswald e vários textos sobre o músico. No lançamento, em Setembro último, juntamente com dois também jovens talentosos músicos portugueses (Nuno Cardoso, violoncelo e Rita Morão Tavares, soprano), apresentamos récita na belíssima sala dos espelhos do Palácio Foz em Lisboa, unicamente com as obras camerísticas de Henrique Oswald. Entusiasmo e sala repleta, friso, e o leitor saberá as razões da ênfase. Lorenzo Fernandes, Guerra Peixe, Almeida Prado, Ricardo Tacuchian e outros mais já penetraram as mentes dos leitores portugueses através de textos brasileiros sobre suas obras e atuações publicados na revista Glosas. Infelizmente, está a me parecer, mão única.

Após uma longa busca relativa a apoios, enfim obtidos, Edward Luiz e seus colaboradores resolveram atravessar o Atlântico para aqui se apresentar, trazendo na bagagem obras relevantes de vários compositores portugueses do passado à contemporaneidade e realizando palestras. Tiveram guarida em várias capitais brasileiras: Rio de Janeiro, Salvador, Brasília, Goiânia, Belo Horizonte e São Paulo. O grupo se espalhou e, em cada uma das cidades, recitais foram apresentados com repertório camerístico (quarteto de cordas), canto e piano, piano a quatro mãos e piano solo.

Tive o prazer de assistir, no último dia 25 de Março, ao magnífico recital do jovem e promissor pianista português Philippe Manuel Vicente Marques (22 anos) em repertório maiúsculo, pois foram ouvidas obras de Antônio Fragoso (1897-1918), João Domingos Bomtempo (1775-1842) e Fernando Lopes-Graça (1906-1994). Infelizmente, a sala do Centro Cultural São Paulo era imprópria para abrigar repertório inédito de envergadura. Piano sofrível, cadeiras a ranger, ruídos constantes do metrô!!! Primeiramente, expresso a minha alegria ao ouvir o talentoso pianista interpretando criações importantes que um executante em sua idade busca evitar, pois este estará muitíssimo mais preocupado com repertórios sacralizados, a atender a programação dos concursos internacionais e das sociedades de concerto, que mantêm a hegemonia repertorial. São tantos os interesses para que essa programação se  perenize!!! E é nessa fase que tantos valores se integram de corpo e alma às obras que serão repetidas ad nauseam durante toda a vida. Isso é fato comprovado e as temporadas oficiais apenas ratificam a situação, hélas, vigente.

O belo Noturno em ré bemol maior do promissor e infortunado António Fragoso, falecido aos 21 anos atingido pela gripe espanhola, teve interpretação a valorizar os tantos segmentos que se apresentam. Romântica, a obra enriqueceu-se pela variedade de timbres, emprego da dinâmica e da agógica, que demonstraram a maturidade do pianista. Duas sonatas de Domingos Bomtempo foram interpretadas. O compositor, basicamente desconhecido entre nós, tem criações relevantes. Suas mais de uma dezena de Sonatas são muitíssimo bem escritas (Obras para piano – edição facsimilada. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1980) e, não raras vezes, nos fazem lembrar Muzio Clementi (1752-1832) ou J.B. Cramer (1771-1958). Salientaria a Grande Sonata em mi bemol op. 9 nº 1. Bomtempo exibe clareza na construção, virtuosidade característica do período e contido lirismo no movimento central. Philippe Manuel esteve sempre a revelar com segurança e inspiração conteúdos intrínsecos da Grande Sonata, valorizando-os e provocando os ouvintes que, pasmos, ouviam obra inédita qualitativa entre nós!!! O diminuto público conheceu igualmente a Sonata op 15nº 2.

De Fernando Lopes-Graça ouvimos Variações sobre um tema popular português (1927), primeira obra de seu imenso catálogo para piano, em que o compositor já apresenta suas impressões digitais, e o culto reinterpretado do cantar e da rítmica populares portugueses já se fazem presentes, assim com um tratamento timbrístico singular. Philippe Manuel soube diferenciar as 12 variações de maneira convincente. Das seis sonatas para piano de Lopes-Graça, a Sonata nº 2 (1939) caracteriza-se por intensos contrastes, a partir dos acordes dissonantes incisivos e repetitivos iniciais, sempre recorrentes durante o discurso do Allegro giusto. O pianista captou intensamente a mensagem do Andante. Sob outra atmosfera, o hispanismo contido no  Allegro non tanto, uma das páginas que mais revelam a apreensão ibérica, fez valorizar o domínio técnico-pianístico de Philippe Manuel, que apreendeu inteligentemente a magia da flutuação de  andamentos nessa obra singular.

O brilhante recital que, anunciado, deveria merecer público numeroso, contou com cerca de 40 ouvintes privilegiados. Para este intérprete, que está a batalhar há tanto tempo no sentido de revelar a música portuguesa no Brasil, mormente Lopes-Graça, é triste verificar que os músicos de São Paulo não compareceram para ouvir um recital tão significativo. Reiteradas vezes afirmei que a história ainda estará a evidenciar que Lopes-Graça está no patamar maior da composição do século XX. Compositor a dialogar na dimensão exata com os seus grandes contemporâneos europeus e, em termos brasileiros, com Villa-Lobos. Friso, dimensão idêntica. Sem contar o grande pensador que foi, pois deixou vasta literatura sobre música da maior valia. O nosso público se interessou pelo programa? Os nossos intérpretes visitam obras de Lopes-Graça e de outras figuras referenciais portuguesas? Perdida ótima oportunidade. Contudo, nesta nossa cidade imensa, há salas perpetrando a rotina. E para esses auditórios, certamente o público acorrerá. Nada, mas nada a fazer, a não ser lamentar.

No dia 24, Edward Luiz e eu nos deslocamos a Santos, pois o dirigente do MPMP queria entrevistar o notável compositor Gilberto Mendes para publicação posterior em Glosas. Aos 91 anos, Gilberto, sempre arguto, lembrou aspectos da trajetória e sua amizade fraterna com o grande compositor português Jorge Peixinho (1940-1994). Horas de congraçamento sob a égide da música.

Many times in this post I have mentioned Glosas, the magazine that covers the world of classical music in Portugal. Visionary and bold, the group of young musicians responsible for the magazine embarked on a tour in Brazil to promote Portuguese composers, performing in some capital cities. In São Paulo, I had the privilege of listening to the exceptional performance of the young (22) and promising pianist Philippe Manuel Vicente Marques and his daring recital programme: Antonio Fragoso, João Domingos Bomtempo and Fernando Lopes-Graça. Unfortunately, the city lethargic musical milieu did not attend the recital. As I insist in saying, concert-going public and promoters prefer the obvious show pieces, fearing new and untraveled paths. It is the standard repertoire that sells tickets. More-of-the-same is safer and perpetuates the huge mistake of presuming that what’s new is not good.

 

 

Escândalos se Sucedem – Leitores Entendendo Mensagens de um Observador

Não basta, porém, para ser livre,
que se tenha liberdade política.
A liberdade política é perfeitamente ilusória
enquanto se não tem liberdade económica,
pela coacção exercida por quem dispõe de meios
de produção, de transportes e de crédito,
pela fácil corrupção do voto,
porque os meios de difusão têm sempre proprietários e custam dinheiro,
e porque a miséria nem pensar pode.
Agostinho da Silva (Dispersos)

Reiteradamente tenho comentado que a temática a envolver mazelas de nosso Governo Federal e outras mais de diversas procedências não são preferências de minha pena. Sentir a deterioração flagrante de estruturas básicas da nação, como Cultura, Ética, Moral, não apenas constrange como “envenena” a mente. Sob outra égide, noticiários televisivos enfatizam ad nauseam resultados da extrema violência e desvios de conduta da classe política, a abranger todos os partidos, uns mais outros menos, mormente o planaltino. Sob outro aspecto, existe o lobista, essa figura sombria quando a visar o lucro abusivo, mensageiro humano que, à la manière da ave de rapina, sobrevoa os poderes públicos sempre em busca da famigerada vantagem para organizações privadas de toda ordem.

Se a Copa do Mundo de Futebol está a revelar, bem antes de seu início, a existência do superfaturamento, essa praga crônica que assola o Brasil, no post do dia oito de Março salientei a derrocada da Petrobrás, antes o grande orgulho nacional e que, desde a ascensão do ex-presidente e mudanças nos escalões superiores, foi sendo aparelhada, para desespero de acionistas, que viram suas ações despencarem e a credibilidade da estatal esvair-se. Dias após meu post, explode de maneira mais contundente, e com todas as letras, o escândalo a envolver a compra de refinaria em Pasadena, em que a Petrobrás pagaria preço inimaginável. No “Estadão” online de 20 de Março lê-se: BRASÍLIA – Documentos até agora inéditos revelam que a presidente Dilma Rousseff votou em 2006 favoravelmente à compra de 50% da polêmica refinaria de Pasadena, no Texas (EUA). A petista era ministra da Casa Civil e comandava o Conselho de Administração da Petrobrás. Ontem, ao justificar a decisão ao Estado, ela disse que só apoiou a medida porque recebeu ‘informações incompletas’ de um parecer ‘técnica e juridicamente falho’. Foi sua primeira manifestação pública sobre o tema”. Os leitores certamente já tiveram conhecimento do noticiário posterior, largamente ventilado pela mídia, no qual  desdobramentos para a compra do restante, a completar 100% da refinaria em Pasadena, elevaram o preço total à estratosfera. Uma pergunta fica no ar: se em empresa privada com Conselho Administrativo, em qualquer dos países do denominado G 20, fato infinitamente menor tivesse ocorrido a dar enorme prejuízo à organização, qual o destino do responsável pela negociação? Possivelmente estaria não apenas fora da empresa, como “banido” do meio empresarial. A paquidérmica estrutura do Estado consegue sempre minimizar ou fazer o cidadão esquecer mazelas tantas vezes descomunais. Contudo, beneficiários da demagógica Bolsa-Família nem saberão o que ocorre. “E porque a miséria nem pensar pode”, como afirma Agostinho da Silva, programas assistencialistas conseguem o que lhes importa, o voto. Enquanto a prioridade mor, a Educação, a anteceder todas as outras, não estiver na mente de nossos governantes, erro, equívoco, distorção dos fatos, desvio de conduta, embuste, demagogia e descompromisso com a verdade serão preponderantes em nosso país à deriva. A ausência voluntária da Educação planejada como única saída para o progresso harmonioso de uma nação, conduz a caminho sem saída. Tivesse o povo acesso à Educação sólida desde a tenra infância conheceria as lamentáveis negociações da Petrobrás e outras, que estão a pipocar, referentes à Estatal. Certamente saberia escolher o governante preparado. Nada a fazer, por enquanto, a não ser protestar, pois a sustentação de bancadas majoritárias coadunando-se com o Planalto são preocupações primeiras do Establishment. Na recentíssima e excelente entrevista que o Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Joaquim Barbosa, concedeu ao jornalista Roberto D’Ávila para a GloboNews (Globo.TV), afirmou: “Se faz muita brincadeira no Brasil no âmbito do Estado, dos três poderes. Muitas decisões são tomadas superficialmente. Não se pensa nas consequências”. Diria ainda: “o Brasil é o país dos conchavos, do tapinha nas costas”.

Muitos leitores manifestaram-se a respeito do post do dia 15 de Março. Flávio Araújo, um dos maiores locutores esportivos do Brasil em todos os tempos e hoje arguto jornalista, inseriu em sua coluna no www.ribeiraopretoonline.com.br (“A Imprensa e sua Missão”, 20,03,2014) parte significativa de meu post, precedido de comentários que anexo ao presente:

“Nem sempre os grandes comentaristas dos fatos que ocorrem pelo mundo afora estão abrigados nas grandes corporações jornalísticas. Com a diversidade da mídia depois da implantação da Internet é comum encontrarmos matérias de grande valor inseridas em sites ou mesmo em blogs avulsos. Também é preciso esclarecer que, com essa possibilidade de todo mundo poder manifestar sua opinião, o que é democrático, nem tudo o que se escreve é digno de ser lido, o que nada tem a ver com liberdade de expressão. Com o tempo e com bom faro vamos selecionando o que há de melhor e, principalmente, buscando opiniões conflitantes, já que nem sempre lermos aquilo que se coaduna com nossas ideias é a melhor das alternativas. Dispensando o material deletério abrigado na web, é possível encontrar matérias de elevada qualidade e opiniões divergentes de cujo confronto sempre extrairemos sábios ensinamentos.

Assim é que procuro ler o que julgo em princípio de boa qualidade literária e, se possível, que esteja projetando também ideias dignas de serem levadas a sério. Não importa se nossos pensamentos caminham em direções paralelas, explico mais uma vez, mas esse não é o caso do que vou agora focalizar, que é a opinião de alguém que, no geral, pensa como eu também tenho pensado na idade provecta que atingi.  Um dos blogs do qual sou leitor assíduo é aquele assinado por José Eduardo Martins, grande músico e mestre dos mais respeitados do país. Constantemente em viagens ao exterior, onde grava seus preciosos discos, o professor José Eduardo tem uma visão global das coisas que vão ocorrendo no planeta e não se limita a escrever sobre sua especialidade, a música de alta qualidade.

No seu último post (Pós-Carnaval e Temores Pré e Pós-Copa do Mundo de Futebol) traçou um retrato perfeito da situação que estamos vivendo e, com sua autorização, estamos reproduzindo aqui uma pequena amostra, quando escreve de passagem sobre o mundial de futebol do qual estamos tão próximos”. A íntegra de sua coluna, “A Imprensa e sua Missão”, pode ser lida ao ser acessado o link abaixo:

Clique para visitar a coluna de Flávio Araújo, em Ribeirão Preto Online

Retornarei aos posts que me trazem prazer e alegria. Desesperançado pelos rumos que o Brasil está a seguir, ao menos tenho, ainda, a possibilidade de, por vezes, expressar desilusões.

Flavio Araújo was one of the greatest sports journalists of the 2nd half of the 20th century in Brazil and presently writes for the Ribeirão Preto Online sports section. Last week he posted excerpts of my last week’s post on the current social and political situation in Brazil, while giving his views on how to sort the wheat from the chaff on the web. I transcribe his words here, since they are worth reading.

 

Da Narrativa ao Conto

… os heróis desses quinze contos não deveriam jamais esquecer
que as leis do destino e as forças da natureza
são mais pujantes do que desejos e esperanças.
Não adianta o homem se agitar na luta pela existência,
pois a vida, mesmo quando não tem bom início,
termina sempre mal. Lembre-se,
uma lamentável queda vale mais do que um fim insignificante.
Sylvain Tesson

Uma das condições essenciais do conto é a brevidade e o espírito de síntese. Gênero específico da literatura, ao longo dos séculos escritores se notabilizaram no mister. Sob outra égide, o conto pode apresentar várias fontes de ideias. Entre essas poder-se-ia mencionar a criação “abstrata”, quando toda a trama do conto, personagens e situações vêm à mente do autor de maneira inédita, sem “contágios” imediatos. Uma outra temática pode advir de fato real que se passou na vida do contista, mas inédito, ou seja, não transmitido a um interlocutor. Uma terceira, entre tantas, refere-se ao outro, aquele que está a passar por momento hilariante ou trágico e que, retido na mente do contador, dimensiona-se através da pena. Nessa metamorfose, as situações observadas recebem tintas novas e a imaginação do contista dá a pintura final ao quadro.

Reunidos, contos podem ser ingeridos pelo leitor de maneira homeopática. Curtos e sem sequência, a leitura rápida pode ser feita no espaço temporal exato, a propiciar ao amante da leitura a possibilidade de que o cronômetro mental seja acionado em situações precisas: espera de consulta médica ou exames laboratoriais, viagens curtas, o aguardo em oficina mecânica, a proverbial paciência para atendimento em repartição pública, seja ela qual for. Nessas situações em que o tempo se nos afigura estanque, o conto é precioso companheiro e pode ser degustado sem pressa.

Foram muitos os livros de narrativas de Sylvain Tesson que resenhei ou comentei desde Maio de 2011. Andarilho na grande maioria das obras e “eremita” nas florestas da Sibéria, às margens do lago Baikal, Tesson revelar-se-ia pensador brilhante sobre as experiências vividas diuturnamente.

Em Une Vie à Coucher Dehors (France, Gallimard, 2009) Sylvain Tesson é contista. Obteve o festejado Prêmio Goncourt, categoria contos, em 2009. Nesse ano, Gallimard faria a edição econômica, selecionando cinco dos quinze contos do livro premiado, L’Éternel Retour.

Une Vie à Coucher Dehors foi lido ao longo de certo tempo, de maneira homeopática, entremeado a outros livros percorridos alopaticamente. Os interregnos serviram para melhor compreender as intenções do narrador, doublé de contista, nesse intrigante livro.

Parte considerável dos contos surge do destilar de incontáveis observações ao longo de dezenas de milhares de quilômetros caminhados. O acúmulo do olhar arguto estaria a demonstrar que o tempo do narrador nem sempre coincide com o hipotético tempo do personagem, real ou imaginado. O caráter dos figurantes deve certamente esbarrar na realidade observada. As asas da imaginação dão sentido e vida aos tantos que penetram os contos. Muitos deles vivendo na geografia que um dia abrigou os passos do narrador de aventuras.

Considere-se que todos os quinze contos têm final trágico ou infeliz, fazendo jus à epígrafe. Esse ceticismo quanto ao relacionamento humano, às distorções de pensares e ambições, ao desinteresse pela condição humana, ao conformismo, à ignorância são temas que perpassam o livro. Tem-se hilariantes histórias de homens do mar em La Chance, que não impedem a morte do anfitrião em queda acidental banal; a relação serena penetrada pelo ciúme e desconfiança afetiva,  levando à tragédia em La Crique; a ignorância de náufragos após tempos em ilha deserta, tornando-os irracionais, em L’île. Os personagens de L’Asphalte e Le Lac devem ter sido criados considerando-se as narrativas reais de Éloge de l’Energie Vagabonde e Dans les Forêts de Sibérie, pois o autor seguiu em bicicleta os caminhos do petróleo e do gás da alta Ásia à Turquia e permaneceu seis meses às margens do lago Baikal, respectivamente. Personagens que povoam l’Asphalte e situações inusitadas, relacionadas à construção de uma estrada de betume acalentada com ardor pela figura central, não deixam traços do desfecho duplamente trágico, pois o que é bom para a comunidade pode ser a desgraça para o idealizador da benfeitoria. Em Le Lac, o temido urso, sempre mantido à distância nas narrativas de Tesson, é o vilão da história que tenderia a final ao menos tranquilo.  Em La Particule, sob outro contexto, há semelhança no desenrolar da história com “A Voz de um livro”, de Edmondo de Amicis (vide post  A voz de um livro.19/02/2010). Se de Amicis escreve na primeira pessoa sobre as tantas mãos pelas quais um livro pode passar ao longo de sua duração, em La Particule Tesson engenhosamente historia, também na primeira pessoa, a “viagem” de uma partícula que sobe aos ares após deixar o corpo de um brâmane que acabara de ser cremado e incorpora-se, progressivamente, a outros seres vivos vegetais ou animais. Ao final, implora: “e eu, miserável partícula, célula anônima, pobre poeira de átomo, eu vos suplico, ó Deus do céu, de me dar repouso, de me libertar do ciclo e de me deixar ganhar o vazio…”.

Seria possível entender que ao criar figurantes, Tesson tenha se desviado de uma escrita espontânea, que brota do dia a dia da narrativa. O estar vivendo o instante do acontecido, como afirmava Vladimir Jankélèvitch, dá ao narrador, inclusive, o timing da pulsação. Preciso em suas anotações – pois Tesson tudo assinala em suas viagens – o fixado pelos sentidos e, por vezes, metaforizado em belas imagens, ganha uma naturalidade ocasionalmente perdida na  redação dos contos. Em outro contexto, o conto de Tesson adquire uma imaginária “veracidade”, pois o autor, em tantos textos desse gênero literário, conheceu lugares, costumes e pessoas as mais diversas. Sente-se, em alguns momentos, o amálgama ficção-realidade

A leitura de Une Vie à Coucher Dehors tem interesse. A configuração dos enredos, a descrição minuciosa dos personagens de culturas tão díspares e a brilhante redação teriam sido primordiais para o recebimento de uma das láureas mais cobiçadas em França, acima mencionada. O autor fez jus.

I have already reviewed many non-fiction books by the French explorer and writer Sylvain Tesson, describing his adventures in remote areas of the globe. This time I’ve read Une Vie à Coucher Dehors (translated into English as “A Life of a Mouthful”), winner of the Goncourt Prize for short story books in 2009. His stories, both good humored and pessimistic, wrestle with the big questions of life and, though fictional, it’s possible to say that Tesson brings to them many of the memories and experiences of his time spent in the wilderness.