A Morte e o Retorno às Mãos do Senhor

Almeida Prado (1943-2010). Clique para ampliar.

“Levantando de novo os olhos,
olhei e vi quatro carros que saíam dentre duas Montanhas:
estas eram montanhas de bronze”.

Zacarias 6,1
(Versículo inserido na Profecia em forma de Estudo nº 1 de Almeida Prado)

A salvaguarda do homem frente à existência é não saber o instante do acontecido, a inexorabilidade da visita da morte. O momento chega para todos e a maneira como nos preparamos durante a vida será determinante para a nossa partida. Se houve serenidade, se o homem pregou o bem e espalhou generosidade, todos os que o cercam, mormente os familiares, captarão essa transferência vida-morte com a naturalidade possível. Deslizes não terão importância, pois o que ficará na memória e no coração será aquilo que o ente que partiu deixou semeado através de seu amor e exemplos. Se, entre outras virtudes, ele transcendeu na Arte, sua obra poderá tornar-se imorredoura.
Na noite de 10 de Novembro último, uma quarta-feira, comunicava a Almeida Prado, um de nossos maiores compositores, que brevemente receberíamos as passagens aéreas para uma viagem a Paris, onde nós ambos faríamos parte do júri encarregado de julgar duas teses de doutorado na Universidade Sorbonne. Uma das teses aborda sua música religiosa para piano. Conversamos longamente por telefone e era notória a enorme felicidade do amigo ao ter sua criação reconhecida numa tão respeitada Universidade. Confessou-me que sentia ser um dos grandes momentos de sua trajetória musical.
No dia seguinte, mercê dos efeitos da diabetes adiantada e de complicações outras, o compositor é hospitalizado, sofre parada cardiorrespiratória prolongada e permaneceria em coma induzido até a manhã do dia 21, quando a morte veio visitá-lo, e essa figura humana transcendente nos deixou.
José Antônio Rezende de Almeida Prado nasceu em Santos e teve no Brasil três professores fundamentais: Dinorah de Carvalho – piano, Osvaldo Lacerda – harmonia e Camargo Guarnieri – composição. Se as bases pianísticas foram sólidas, as composicionais, sob a tutela de Guarnieri, ficariam indeléveis. Contudo, no convívio frequente com seu conterrâneo Gilberto Mendes (1922- ), uma das glórias de nossa música, o então jovem José Antônio entendeu que deveria buscar novos caminhos. Paris em longo aprofundamento e a passagem por Darmstadt surgiram naturalmente dessas conversas em Santos, terra natal de nossos dois grandes compositores. Esse debruçar maior em França deu-se sob a orientação de Nadia Boulanger e de Oliver Messiaem, dois ícones na música no século XX. Em Darmstadt soube apreender conteúdos de György Ligeti e Lukas Foss. Seria todavia Messiaen o compositor que mais fortemente marcaria a escrita de Almeida Prado, assim como acentuaria no músico santista o olhar místico, pois parte considerável da obra de nosso pranteado autor tem forte conotação religiosa. A inclinação ao sagrado está traduzida nos vários gêneros musicais, orquestra e câmara. Seria entretanto nas criações para coro e sobretudo na vasta produção para piano – seu instrumento eleito – que Almeida Prado revelaria por inteiro esse olhar místico, que perduraria durante décadas até os dias finais.
Como professor, Almeida Prado atuou junto ao Conservatório Municipal de Cubatão e principalmente na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Suas aulas acadêmicas eram concorridas, mormente pela ampla visão cultural que emanava de seus ensinamentos. Aposentado-se em 2000, continuou a ministrar cursos de estética musical, quando, com extrema maestria, comentava grandes criações do passado, exemplificando-as ao piano.
A produção de Almeida Prado é bem extensa a chegar a centenas de criações. Suas obras têm frequentado salas de concerto do Brasil e do Exterior, o que o deixava mais estimulado a produzir. Era membro efetivo da Academia Brasileira de Música, a convite do insigne compositor Francisco Mignone (1897-1986), como me confessaria na última conversa telefônica que mantivemos horas antes de sua hospitalização.
Tratando-se de uma singela homenagem a esse grande músico, que permanecerá pela qualidade, não me poderia furtar de revelar ao prezado leitor a interação plena entre o compositor (maratonista a correr uma prova sem fim) e o executante (atleta apto às corridas de estafetas). O intérprete, ao morrer, terá seu sucedâneo imediato. Contudo, um amálgama pode realizar-se quando compositor e executante interagem, este a propor ideias ou simples sugestões, aquele acatando-as ou metamorfoseando-as à sa manière. A integração absoluta tem resultado em criações extraordinárias por parte dos compositores e, discretamente, o intérprete recebe a decorrência de expressivas e brilhantes inteligências, a ter como consequência, tantas vezes, o maravilhamento. Assim foi com Almeida Prado. Entre 1987-1999 desceram da mente privilegiada do compositor para o papel pautado obras contundentes, pianísticas, sensíveis, totalizantes. O estímulo que discretamente buscava transmitir a Almeida Prado, para que compusesse determinadas(s) obra(s) para efeméride ou apresentação especial, jamais deixou de ter guarida por parte do amigo. Todas as suas criações, a partir desse desiderato, apresentei em primeira audição no Brasil ou no Exterior. Ao todo 12 obras, que enriquecem o repertório pianístico brasileiro e que foram a mim dedicadas. Motivo de intensa alegria.

Aquarela, pagina de rosto de Linha Melódica de Almeida Prado. Clique para ampliar.

Quando do centenário de nascimento de Heitor Villa-Lobos, coordenei caderno publicado pela Universidade de São Paulo. Das 10 composições de músicos convidados do Brasil e do Exterior, Noturnas Saudades do Rio Solimões (04/06/87) evoca, sob outra égide, o Chôro nº 5 – Alma Brasileira, do homenageado. Gravei-a em 1996 em Sófia, fazendo parte do CD Music of Tribute – Villa Lobos, lançado pelo selo Labor (U.S.A.) em 2001. Obras de Villa-Lobos e outras homenagens constantes da coletânea figuram no CD em apreço.

Primeira página de Homenagem a Camargo Guarnieri de Almeida Prado. Clique para ampliar.

Para o caderno em Homenagem a Camargo Guarnieri, igualmente publicado pela USP, Almeida Prado compõe interessante obra (06-10/10/87), a empregar, através da notação anglo-germânica, tema em que cada nota corresponderia a determinada letra dos nomes Camargo Guarnieri (C-dó, a a-lá lá, g g-sol sol, a-lá, e-mi). Para recitais que daria na antiga Alemanha Oriental, Potsdam e Berlim em Maio-Junho de 1989, meses antes da queda do muro, Almeida Prado comporia, entre 23 de Setembro e 10 de Outubro de 1988, as magníficas Três Profecias em Forma de Estudo, verdadeiras obras-primas. Gravei-as na Bélgica em 2004 e fazem parte do CD Estudos Brasileiros lançados pela Academia Brasileira de Música em 2007.

Clique para ouvir, com J.E.M. ao piano, a 1a Profecia em forma de Estudo (1988) de Almeida Prado

Integrando o livro de Prelúdios, José Antônio dedicou-me o Prelúdio nº 5 em ré menor (12/07/89), tendo na página de rosto do manuscrito uma bela aquarela do compositor. Sabedor do intrigante Estudo Eisler e Webern caminham nos mares do Sul, de Gilberto Mendes, constituído de uma linha melódica apenas, por vezes preenchida por um acorde, Almeida Prado compõe a singela Linha Melódica um Desenho Sonoro (23/04/91), a ter igualmente expressiva aquarela na página de rosto. Em 1995, Almeida Prado honrar-me-ia com os pungentes Quatro Corais para Piano sob versículos da Bíblia: 1º “Aquele que me viu, viu também o Pai” (13/04/95); 2º “Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino !” (05/04/96); “Coral de Glória a Santo Adão e Santa Eva entrando no Paraíso, levados por Jesus, o Cristo Redentor” (06/04/96); “Coral das Santas Mulheres: Santa Maria, Mãe de Jesus-Deus, Santa Maria de Cléofas, Santa Joana, Santa Maria Madalena, Santa Marta, Santa Susana, Santa Salomé, Testemunhas felizes da Ressurreição do Senhor Jesus !” (07/04/96). Tanto a Linha Melódica, como os Quatro Corais, apresentei-os em primeira audição na cidade de Gent, na Flandres. Conversara com Almeida Prado sobre minha gravação da integral dos Estudos de Scriabine para piano, que se realizaria em 2000 na Bélgica para o selo De Rode Pomp. Admirador confesso do extraordinário compositor russo, Almeida Prado compõe o intrigante estudo À la Manière de Alexander Scriabine – Étude de Couleurs en Forme de Pathwork pour le Piano (03/11/99) de 16 páginas ! Em longa carta, Almeida Prado explica a construção do excepcional Estudo, para o qual empregaria seleção de motivos existentes nos Estudos de Scriabine. Finalmente, em duas páginas suplementares, inseriu a Sequência de acordes usados nos desenhos rítmicos, sempre a pensar nos acordes seletivos de Alexander Scriabine. Apresentei-o no recital em que interpretei a integral dos Estudos de Scriabine em Gent, logo após a gravação da monumental obra do compositor russo em Mullem.
Nessa série de magníficas obras mencionadas de Almeida Prado, frisaria as Três Sonatas Barrocas – Scarlattiphonia, Triptico para piano à la Manière de Domenico Scarlatti (12-17/01/07), dedicadas à minha mulher, pianista Regina Normanha Martins. Almeida Prado era confesso admirador de suas interpretações do grande gênio napolitano.
José Antônio de Almeida Prado foi um ser privilegiado. Granjeou a admiração e a amizade de todos os que o conheceram. Estava sempre disposto a discorrer sobre música, pois tinha conceitos bem definidos, sem ser, contudo, intolerante. Se temas extra-musicais surgiam, José Antônio era aquilo que popularmente se entende como o “bom papo”, pois sabia encantar quem dele estava próximo com histórias por vezes hilariantes. Sua facilidade para improvisar ao piano em vários estilos tornou-se conhecida e admirada. Um grande compositor que nos deixa, e também uma enorme figura humana. Certamente está nos braços do Senhor !

Almeida Prado (1943-2010) was one of the greatest Brazilian composers of the 20th century. He died on 21 November in São Paulo, just two months before our trip together to Paris to take part in the jury of two theses defense at the Sorbonne. One of the thesis is about his religious music for piano. Almeida Prado wrote orchestral, choral and solo instrumental music and this legacy will live on forever. He has dedicated 12 of his piano pieces to me, and I premiered them all in Brazil and abroad. With his death, we all lost a great composer, an extraordinary human being and I lost a very dear friend. He will be missed.

Travessia, Sereias e Amarras

Crayon de Carlos Oswald (1882-1971). Clique para ampliar.

A vida é como uma vela
que vai ardendo,
quando chega ao fim
lança uma chama
mais forte antes de
se extinguir.

José Saramago

Muito me reprovo e o aprovo tanto
quanto outrora aprovei o que hoje me reprovo.

Agostinho da Silva

A cerimônia que marcou minha admissão como acadêmico honorário na Academia Brasileira de Música, no Rio de Janeiro, teve sensível saudação ao ingressante nessa categoria especial nos quadros da ABM proferida pelo ilustre acadêmico efetivo e notável compositor Ricardo Tacuchian. Seu texto me emocionou muito ao considerar a Arte como sendo uma metáfora da Vida. O tempo nos torna mais sensíveis e a comoção advém como inevitável.
Sinto-me impedido de transcrever o texto na íntegra, não pela qualidade impecável do escrito, mas por não me pensar merecedor. Ao lê-lo, Tacuchian mencionou uma frase que me levaria às reflexões. Não as externei em minha imediata palestra, pela simples razão de que elucubrações já estavam a se formar em minha mente.
A certa altura do texto, Tacuchian comenta: “José Eduardo Martins abriu mão dos holofotes dos repertórios standard para a luz de vela da música brasileira. E quanta luz ele nos revelou com sua corajosa opção !” Desde os anos 1980 tenho-me referido aos holofotes como um dos maiores males para o auto-aprimoramento. Os holofotes inebriam tantas vezes aquele que se submete à sua intensidade. Tratar-se-ia de um processo de submissão. Diria que metaforicamente, têm eles a força de sedução das Sereias, essas figuras marinhas de alta periculosidade e perdidas no tempo. Contra os holofotes deve-se, porém, tomar as precauções outrora asseguradas por Ulisses na Odisséia de Homero, que, aconselhado pela feiticeira Circe, faz-se amarrar ao mastro de seu barco e atravessa o mar povoado pelas Sereias, sem deixar, contudo, de ouvir o canto sedutor. Não cede ao encantamento, mas desfruta o prazer de ouvir. Para o intérprete, esse posicionamento poderia representar a autorepressão: amarrar-se para não sofrer a sedução. Todavia, Ulisses não deixou de ouvir as melodias do encantamento. Seria uma questão de vontade para que um outro tipo de sedução nessa metáfora não conduzisse o intérprete a uma “morte” das intenções. Os holofotes existem, não se pode evitar. Ulisses ouviu o mavioso canto, diferentemente dos remadores do barco que tiveram ou ouvidos tampados com cera para não se jogarem ao mar, seduzidos. Fugir dos holofotes seria escapar da realidade. Submeter-se à sedução constituiria o perigo. Ponderaria, o amarrar-se unicamente visando a essência essencial da música, e não à virtuosidade pela virtuosidade, poderá evitar o entorpecimento mental. E o amarrar com os ouvidos atentos faria o músico realizar a travessia sem traumas, mas enriquecido. Ficariam ao largo, bem distante do barco, a vaidade – uma doença, segundo Saint-Exupéry -, a mesmice repertorial ad aeternum, o gestual acrobático para a platéia e, como tentáculo voraz, a composição entendida como inferior ao ato da execução. O intérprete a vencer as águas povoadas pelas mortíferas Sereias.
Sob outra égide, os holofotes têm ímpar idiossincrasia pelo inusitado. Procuram mesmo desviar o seu foco. São antagônicos. O Sistema abomina o repertório pouco frequentado. Seria este, para o status quo, o anátema de suas pretensões constituídas de agentes, mídia, público conduzido e, a finalizar, o lucro como desiderato maior. Holofote é sinônimo de concessão. Palavras irmanadas que ad nauseam provocam a repetição repertorial como fator único de sobrevivência do Sistema.
A vela tem infindáveis interpretações desde a antiguidade. Chama que mantém a vida e que, pouco a pouco, ao se extinguir, leva à morte; agrupadas, estimulam a devoção coletiva; contempladas, conduziram a pena de compositores, poetas, escritores, teólogos, pensadores…; acesas na união dos amantes, alimentaram a flama da paixão; oscilando nos berços, despertaram a esperança. A aparência de fragilidade da tênue iluminação foi responsável pelo caminhar pensante das civilizações. A luz de uma vela tem como sinônimos meditação, concentração, humildade. Não se coaduna com a superficialidade ou com o desamor. Pressupõe, em suas oscilações motivadas por mínima respiração, a possibilidade da serenidade que virá a seguir, quando a chama retornar ao impassível. A luz de uma vela tem propriedades que sempre entendi surdamente musicais. A chama dança, transfigura-se em suas contorções; enriquece o prisma das cores ao modificar, como em um caleidoscópio, as suas intenções de luz; dimensiona os contrastes da sombra; proporciona-nos a metáfora da dinâmica sem som, pois suas intensidades variam sempre.
Estava ainda a refletir sobre esse binômio antagônico quando encontro meu dileto amigo e colega uspiano Gildo Magalhães, Professor Associado da FFLCH da Universidade de São Paulo e um dos mais requisitados mestres da Academia para participações em congressos e colóquios no Exterior. Retornara de Genebra há dias, onde esteve a coordenar grupo reunindo dezenas de representantes de vários países, que lá estavam a tratar propostas para minimizar dificuldades na vida de deficientes físicos. Mente tranquila, mas ágil e brilhante. Fomos tomar um curto. Cientista, sabe apreender conteúdos técnicos. Disse-lhe que estava a pensar sobre a dialética holofote-vela. Fiquei surpreso. Gildo começou a expor o multum in minimo que a chama de uma vela contém. Disse-lhe que anotaria suas precisões na matéria. Sorriu e continuou: “… a chama da vela transforma o ar em plasma, no qual os elementos constituintes se separam. Isto provoca a dinâmica da forma, das cores e do próprio brilho. O plasma é o quarto estado da matéria, além dos sólidos, líquidos e gases. Só há esse fenômeno visível a olho nu no Sol, pois ele tem toda a dinâmica – manchas solares, protuberâncias representadas pelas explosões. O Sol com o fenômeno da larga irradiação é responsável pelas perturbações na ionosfera terrestre.” Entusiasmava-me o relato espontâneo de Gildo, que continua: “A vela quando queima é também um microscópico Sol, com propriedades tão interessantes que levaram o inglês Michael Faraday (1791-1867) a escrever um dos maiores clássicos da história da ciência, ‘A história química de uma vela’, sem conhecer ainda a teoria moderna do plasma”. Nossa conversa se prolongou e, ao despedir-me do amigo, senti-me enriquecido.
Ricardo Tacuchian proporcionou-me encontrar uma chave que leva ao enigma pessoal. Vela. Enquanto a chama estiver acesa, continuarei a buscar o inusitado e a difundi-lo, repetindo-o nessa tentativa de mostrar a qualidade de autores que permanecem injustamente pouco frequentados, do passado e do presente. A própria vela está a queimar há muitas décadas. Sua chama ainda tem intensidade.
Jean Christophe, músico e personagem central da saga que marcaria gerações de leitores através desse romance notável de Romain Rolland, já a morrer diria sobre a música: “Eu nunca te traí, você jamais me traiu, nós estamos seguros um do outro. Partiremos juntos, minha amiga. Fique comigo, até o fim !” A minha senda continuará a ser trilhada. A musa permanece ao meu lado, pois a chama ainda ilumina. Que assim seja até o fim !

The speech made by the composer Ricardo Tacuchian at the cerimony of my nomination as an honorary member of the Brazilian Academy of Music led me to reflections upon the differences between the spotlight and the candle light and other thoughts.

Surpresa a Ativar a Memória

Apartamento onde morei entre os anos 1958 (final)-1962. Paris, 16, Rue Jacques Bingen, XVIIème. Foto: JEM. Clique para ampliar.

J’ai plus de souvenirs que si j’avais mille ans.
Charles Baudelaire

Comentara em blog recente as opiniões do compositor francês François Servenière a respeito dos impactos que as mãos do pianista podem sofrer com determinadas criações contemporâneas. Ao acessar o site do músico, deparei-me com composições que percorrem o gênero erudito em várias categorias, assim também como um outro patamar mais popular. Foi quando me surpreendeu, entre suas criações, a canção La Rue de Lévis. Fiquei admirado, pois quando estudei em Paris, do final de 1958 a meados de 1962, morei em uma rua a não mais de 200 metros da Rue de Lévis. Trata-se da pequena Rue Jacques Bingen, quase na esquina da Rue Légendre, esta a margear uma diminuta praça irregular de onde nasce uma das extremidades da Rue de Lévis. Percorrendo esta última, igualmente de pequena extensão, mas muito movimentada durante o dia, chega-se à Villiers, onde comércio diferenciado, vias mais largas, cafés, restaurantes e o Metrô caracterizam outra paisagem. Costumava caminhar pela tranquila Rue de Tocqueville, que cruzava a Rue Légendre e me deixava mais próximo de uma das entradas do Metrô Villiers. Está-se em pleno XVIIème arrondissement, maneira distinta como os parisienses nomeiam seus muitos bairros, se assim podemos definir.
Foi no andar superior do nº 16 que permaneci durante esse profícuo período. Do térreo, rez-de-chaussée, tinha-se acesso a um portão central, por onde entravam alguns carros e pelo qual havia interligação de dois prédios, o da Jacques Bingen e o da Rue Légendre, 17bis. Os dois edifícios abrigavam a sede social da firma de essências para perfumaria Roure Bertrand & Justin Dupont, da qual meu pai foi representante no Brasil durante décadas. O andar inteiro era uma espécie de almoxarifado e apenas eu a ocupá-lo. Daí o motivo de lá morar, livre de quaisquer distrações noturnas que caracterizam determinados bairros da bela Paris, pois, após o expediente, todo o entorno mantinha-se bem calmo. Essa paz noturna favorecia meus estudos pianísticos e teóricos, que se estendiam, por vezes, até alta madrugada sem perturbar ninguém, mesmo ao tocar obras de alta intensidade, pois os bons concierges que tomavam conta do prédio moravam no térreo e apreciavam, felizmente, o meu “trabalho artesanal” escutado bem tenuemente, devido à distância. Eu que sofria com as badaladas dos sinos da Église Saint-Charles de Monceau que, a cada meia hora, mesmo noite adentro, não deixavam os cidadãos em paz. Àquela altura havia uma bolinhas de algodão com parafina, denominadas boules quièz, que, colocadas na parte interna da orelha, atenuavam bem os sons.
As lembranças da Rue de Lévis são muitas. Havia e ainda existe uma intensa feira livre durante o dia, o conhecido marché de la Rue de Lévis. Barracas organizadas eram montadas e, na extremidade que dava para Villiers, outras, com roupas a preços populares, eram instaladas. Bem parecidas com as nossas feiras livres (ver Feira Livre – Uma Festa para os Sentidos, 08/08/08). Lá comprava frutas, tomates e queijos, estes difíceis de serem escolhidos, graças à enorme variedade existente em França. Nos primeiros tempos em Paris estranhava o fato de não se poder escolher as frutas, verduras legumes e queijos, como em nossas feiras livres. Era quase uma heresia não deixar essa tarefa para o proprietário da barraca. Os pães encontrava-os numa padaria na praça citada. Na Rue de Lévis também procurava semanalmente carne de cavalo, recomendada pelo médico, mercê de minha baixa pressão e de estudos que preenchiam oito a dez horas de meu tempo. Saliente-se que havia em prédios vizinhos o açougue (boucherie) de carne de boi ou vaca com a cabeça do animal à porta e o de cavalo, igualmente com a cabeça do equino a indicar a precisão da escolha. No inverno colocava a carne de cavalo no lado externo da janela e, no verão, na geladeira dos concierges. Seguindo as recomendações, comia-a crua pela manhã com um pouco de açúcar. Acostumei-me e minha saúde apresentou doravante uma melhora sensível.

Rue Jacques Bingen, hoje. Créditos: Google Maps. Clique para ampliar.

Uma das lembranças que ficou gravada foi a dos aromas que pairavam na Rue de Lévis. A mistura de todos eles dava uma sensação de vida e de pulsação. Essa vibração fazia com que, de domingo à tarde até terça-feira às primeiras horas, pairasse uma certo vazio nessa rua tão especial, pois a feira livre não funcionava. Os pregões, as disputas nas vendas das mercadorias tornavam tudo um encantamento.

Créditos: Google Maps. Clique para ampliar.

Meus amigos da chamada Rive Gauche, onde a inteligentzia se reunia em bares, cafés e restaurantes, frequentavam pequenos cinemas que projetavam filmes da Nouvelle Vague, de Buñuel, de Ingmar Bergman. Por vezes os acompanhava. Contudo, às quartas-feiras meu programa era solitário. Após horas e mais horas de estudo, assistia a dois filmes – era mais barato – em um cinema da Rue de Lévis que hoje, ao que me disseram, deu lugar ao Monoprix, uma das muitas lojas de uma rede do país. Era uma categoria de filme francês, geralmente abominado pela inteligentzia, mas que eu adorava. Comédias com Bourvil, Louis de Funès e outros atores, assim como os de ação com Jean Marais, faroestes americanos – adoro ainda hoje um bom filme do gênero – e, após as duas sessões, regressava para meus estudos. Se comédia, o bom concierge da firma Roure, Robert Orambourg, acompanhava-me e dávamos boas risadas. Rotina que ficou na memória. Quando juntos, finda a sessão íamos tomar uma blonde bem gelada em uma brasserie perto do metrô Villiers. Certa vez interromperam a sessão, pois uma bomba estourara nas imediações. Àquela altura houve um certo número delas em Paris devido aos problemas entre França e Argélia. Ouvi muitas outras durante o período parisiense, mormente nas noites de verão, quando estudava com a janela aberta.

Rue de Lévis. Créditos: Tripadvisor.com . Clique para ampliar.

Rue de Levis

Foi pois com alegria que vi no site de François Servenière a sua canção Rue de Lévis , que pode ser ouvida ao ser clicado o link acima. Jamais poderia imaginar a rua lembrada em música. Fala um pouco do cotidiano dessa via. Ao escrever a Servenière, soube que o excelente músico lá viveu durante anos. Motivo para felizes recordações.

Visiting the French composer François Servenière’s website I saw he wrote a song entitled “La Rue de Lévis”. It was a surprise because I could never have imagined the street celebrated in music (later I knew the composer lived on this street for some time). It reminded me of my years in Paris, living very close to Rue de Lévis, with its street market, fruit and vegetable stands, boucheries, bakeries. It was where I used to buy clothes, bread, cheese, tomatoes and horse meat. A feast of smells, colors, vendors yelling and people chatting with each other that can hardly be forgotten. On Wednesdays I went to the movies to watch comedies and American Westerns. The cinema does not exist anymore, replaced by a Monoprix that sells pretty much everything. Pleasant memories of days gone by…
Click on the link to listen to “La Rue de Lévis” sang by the composer himself, François Servenière.