Leitura a Decifrar Intenções

Presépio peruano. Arte popular, madeira, 15cm. Clique para ampliar.

Natal em casa,
Páscoa na praça.
Natal na praça,
Páscoa em casa*.

Adágio açoriano
(*Quando faz mau tempo no Natal, faz bom tempo na Páscoa).

O espírito do Natal mereceria sempre ser o princípio básico, único e indissolúvel. Não há data da cristandade que melhor dignifique o espírito de solidariedade, pois a atingir todas as faixas etárias. A Páscoa, em que se comemora a ressurreição do Cristo, outra efeméride maiúscula, é preparada, como exemplo, durante um ano em certas aldeias gregas, e a frase “Cristo ressuscitou” será o cumprimento entre os habitantes para comemorar a data. O adágio popular da Ilha Terceira do Arquipélago dos Açores dá bem a medida das duas festividades, intrinsecamente ligadas na transcendência. A magia da Páscoa, entretanto, não chegaria ao âmago de uma criança, pois a antecedê-la há a morte na cruz, fato não comumente assimilado pela mente de um miúdo. E se o Ovo contém outra transcendência, passou-se para a criança interpretação e materialização outras. Todavia, o Natal traz a chama do nascimento e é compreendido por todas as idades.

Clique para ouvir com o Coro Capela Gregoriana Laus Deo, sob a direção de Idalete Giga: “Christus Natus Est”

Em posts anteriores comentava essa total dicotomia entre a essência essencial, representada pelo fato em si, e a transgressão que se dá, em muitos segmentos da sociedade, ao não apreender um mínimo gesto concentrado, reflexivo. Nos lares onde se vive a intensidade do nascimento do Cristo há toda uma preparação, que vai da leitura, a levar a compreensão ao clã, até, em certas comunidades, o desvelamento progressivo das figuras de um presépio. Ato comovente é verificar a montagem de uma árvore de Natal, quando o espírito natalino existe. Cada peça colocada amorosamente, na comunhão da fraternidade intensa. A tal ponto que a noite de 24 de Dezembro marcará a revelação por inteiro. Cantos de Natal criados em todo o mundo cristão, populares ou não, e geralmente interpretados por corais, trazem um conteúdo especial à efeméride. Todos esses valores, preservados ainda nos atos e no coração de quem vive a data plena de misticismo e mistério, podem possibilitar a abertura dos espíritos e tornar o cidadão mais solidário, generoso, voltado para o bem.

Presépio peruano. Arte popular, terracota, 10cm. Clique para ampliar.

Bem e mal. Posições antagônicas, desprezadas por muitos direcionados à dissolução de barreiras que impossibilitem ao homem juízos de valor. O desvio como elemento provocado pela sociedade, o bem como acomodamento até hipócrita. Seria essa mentalidade a levar a tantas distorções. O mal banalizou-se, o bem não é divulgado. Noticiários de todos os meios de comunicação anunciam o erro, minimamente a ação que resulta na edificação do caráter.
É pois decisivo para quem cultua o espírito de Natal apreender os ensinamentos que estão au delà da manjedoura. Na distorção da atualidade, preservar esse espírito será uma flama a mostrar à humanidade que nem tudo se perdeu. Há esperanças, tênues, mas há.
Essas mínimas reflexões têm a ver com as mensagens de Natal que todos os anos recebemos. Décadas se passaram e pouco a pouco esses cartões festivos foram se estiolando.Traziam mensagens voltadas à paz entre os homens de boa vontade e redigidos pelos remetentes. Algumas figuras relacionadas ao Natal compunham o todo harmonioso. Aqueles que recebemos contendo mensagens expressivas redigidas à mão, guardamo-los. Como exemplo sensível, menciono os enviados anualmente pelo dileto amigo Ruy Yamanischi, sempre a apresentar um pequeno conto de sua lavra relativo à efeméride, acompanhado de pequena aquarela original. Infelizmente, prática que desaparece pouco a pouco. A internet teria sido uma das responsáveis por essa diminuição. Se essas mensagens afetivas e sinceras ainda permanecem, nem os meios eletrônicos conseguiram alterar o envio de outros cartões desprovidos do espírito de Natal. Empresas as mais diversas remetem quantidade de envelopes contendo em seus interiores frases feitas, padronizadas, nas quais uma rubrica de gerente, diretor ou presidente da entidade atesta que uma tarefa foi cumprida. Mais ainda se torna fria a mensagem, seja qual for o tipo de veículo impresso, quando essa assinatura ou rubrica for através de carimbo ou impressão. Saint-Exupéry já não escrevera em Citadelle que, para quem recebe uma mensagem de amor, o que menos importa é a qualidade do papel ? Não seria essa verdade que se mostraria totalmente olvidada quando da emissão desses cartões onde tudo está escrito, mas nada entendido, pois não houve o viver o Natal ? Diria, uma maneira de desincumbir-se de uma obrigação. Para a entidade que envia, há sempre a “certeza” de que o cidadão que recebe o cartão lembrar-se-á do “ato espontâneo e generoso” do remetente. Junto a outras mensagens, em lar que cultua o Natal estarão a representar a aparência do amor. E essa mistura, que jamais será amálgama, entre o cartão sincero e essa outra espécie de comunicação, evidenciaria apenas o equívoco, não motivado pela mensagem amorosa que visa à união de mentes e corações, mas pelo outro, meramente um cartão.

Clique para ouvir com o Coro Capela Gregoriana Laus Deo, sob a direção de Idalete Giga: “Natal”

Data máxima. Confraternização. Crianças e adultos nessa comunhão. Que não sejam esquecidos os mais infortunados que nada têm, abandonados que estão à própria sorte. Sisuphos de vários posts ainda teima em existir, pragmaticamente em sua sina implacável. Pedro, o andarilho, deve ter partido… Nunca mais o vi após um mal que se alastrava em seu corpo. Outros com menores agruras, organizados, mas sem recursos, gostariam de um alento. Outros mais, trabalhadores, operários, funcionários, camponeses que labutam com coragem para sobreviver com seus salários achatados e proles para criar, mas esquecidos pelos homens públicos, que deles se lembrarão em período preciso. Neste santo período, despudoradamente, os governantes do país se preocupam com reajustes de seus salários. Os deles, incomensuravelmente bem acima da inflação. E só. Aviltantes. Governantes e legisladores passam ao largo do Espírito de Natal. Vendilhões do Templo. Jesus menino, mas já enrubescido em sua manjedoura, a ver essa única preocupação com o quantitativo do vil metal. Sabe que não pode haver paz entre esses homens de má vontade. Se assim não fosse, a fraternidade seria constante.
Vivamos o Espírito de Natal ! Que a centelha permaneça ! No coração daqueles que realmente mantêm a chama intensa durante todo o ano.
Meus agradecimentos à dileta amiga Idalete Giga, Diretora do Coro Capela Gregoriana LAUS DEO. Sob sua expressiva condução fluem os três expressivos cantos, do gregoriano às canções portuguesas tradicionais de Natal.
Magia do Natal ! Finalizava o presente post, quando recebo via e-mail, no instante preciso, três quadras sobre a data máxima da cristandade, justamente de Idalete Giga. Brinda-nos pois duplamente a querida colega portuguesa, através das emotivas interpretações e da pureza dos versos.

LUX MUNDI
I
O nascimento de Cristo
veio trazer a Luz ao mundo
Que toda a Humanidade
Sinta o Seu Amor profundo

II
Todo o Universo cantou
um canto celestial
e toda a Terra vibrou
com a Luz Pura do Natal

III

Deus de Infinita Beleza
Deus de Paz, Deus de Harmonia
Que a nossa Mãe-Natureza
encha a Terra de Alegria

Clique para ouvir com o Coro Capela Gregoriana Laus Deo, sob a direção de Idalete Giga: “Natal em Évora”

On Christmas season, greeting cards, the decline of personal Xmas cards and the increase of commercial ones, sent to people on customers’ list just to help reinforce brand awareness.

XVIº Concurso Internacional de Piano
Frédéric Chopin – Varsóvia

Frédéric Chopin por Eugène Delacroix. Óleo sobre madeira. 1838. Clique para ampliar.

Há almas que amam os sons.
Franz Liszt

Em vários posts teci considerações a respeito de concursos, sejam eles acadêmicos ou de piano. Se tantos obedecem a critérios de absoluta lisura, a não faltar o descompromisso de jurados com concorrentes, tantas mais vezes vícios se apresentam, e o público manifesta-se, apoiando ou não os resultados. O júri, não poucas vezes, ignora a possibilidade futura do concursado, interessando-lhe sim, hélas, em também não raras oportunidades, o imediatismo.
Meu prezado amigo António Menéres, de Matosinhos, em Portugal, enviou-me todo o precioso material referente ao XVIº Concurso Internacional Frédéric Chopin, realizado recentemente em Varsóvia. Os recursos tecnológicos existentes hoje não permitem desvios, e os ínfimos pormenores das execuções dos finalistas não passaram ao largo. São apreendidos para quem quiser ver e ouvir. As imagens sonoras vieram acompanhadas da recepção pública e crítica, e algumas não pouparam comentários sobre preferências que não privilegiavam a primeira colocada no concurso, a pianista russa, também excelente, Julianna Avdeeva, de 25 anos. Faz parte o debate de ideias e ele existiu, acaloradamente. Todavia, o fato de lá não estar impede-me de qualquer juízo relacionado às controvérsias.
Se os vários links me fizeram ouvir seis candidatos, a vencedora e dois outros que obtiveram, empatados (ex equo), o segundo lugar, e mais os terceiro, quarto e quinto colocados, há considerações que me parecem pertinentes, mercê da enorme diferença de temperamento dos concorrentes. Centrado em Frédéric Chopin (1810-1849), houve expectativa acima da habitual devido ao segundo centenário de nascimento do compositor. Julianna Avdeeva, Lukas Geniusas (Rússia/Lituânia-1990) e Ingolf Wunder (Áustria-1985) realizaram provas que apenas comprovariam o altíssimo nível desses candidatos. Entretanto, nada lembrou identidade. Das obras interpretadas, sim. Porém, as concepções diferenciadas dos três poderiam dirigir as preferências do público para várias direções.
Ouvir os três pianistas mencionados é ter a percepção clara de características rigorosamente distintas do entendimento da interpretação musical, da apreensão da estrutura, da forma e do gênero musical, assim como da captação de temperamentos diversos. Julianna Avdeeva mostrou que o trabalho intenso pode fluir na execução impecável, mas onde o esforço para a realização ficaria transparente através não apenas da postura ao piano, mas sobretudo na compreensão do técnico-pianístico tão bem realizado, mas a clarear ao ouvinte o imenso trabalho para que a consecução atingisse alto nível. Diria que a própria interiorização, ao se externar, faria perceber a labuta intensa. Minimiza a pianista ? Absolutamente não, pois a música flui impecável através de seus dedos, o que provoca ainda maior admiração.
Ingolf Wunder é apolíneo. Impetuoso, senhor de um domínio técnico-pianístico absoluto, no qual transparece o imenso prazer em tocar. Exagera nos efeitos, nos tempi, a causar forte impacto. O terceiro andamento do Concerto nº 1 em mi menor op. 11 demonstraria essa naturalidade e a alegria na interpretação. Tudo flui sem o mínimo esforço. Aos 25 anos, suas performances preferenciaram as obras de intensa virtuosidade. Saliente-se a execução fantástica, preferencialmente sob o aspecto técnico-pianístico, dos Estudos op. 10 nº 5 e op. 25 nº 6 (terças). Deste último, realiza a sorrir a dificuldade tipificada. Vladimir Horowitz (1903-1989), essa lenda maior do piano no século XX e possuidor de técnica e musicalidade descomunais, já asseveraria o implacável desafio contido nesse Estudo. Pois a interpretação do jovem austríaco tem esse apetite, que faz descartar os obstáculos inerentes que se lhe apresentam.
François Couperin (1668-1733) preferia voltar-se à interpretação que o sensibilizava, em detrimento daquela que lhe causava espanto”. O pianista da Rússia/Lituânia, Lukas Geniusas, foi o que mais me impressionou. Sem a exuberância que caracteriza Ingolf Wunder, mas possuidor de técnica apuradíssima, suas interpretações têm a chama integral da música. A maneira como cuida da frase musical, os sentidos profundos da agógica e da dinâmica, o equilíbrio com que sabe dosar as características rítmicas das magistrais e distintas três Mazurkas op. 59 em suas sutis flexões, são de um artista completo, sans reproche. Como entender a essência da Mazurka sem o mais apurado senso do rubato? Geniusas atinge esse pleno desiderato. Nas tantas obras apresentadas nas várias fases do concurso, as linhas que compõem a estrutura de uma obra ganham absoluta independência e… sequência, o que é básico. Têm elas intensidades diferenciadas na permanência, o que é raro entre os pianistas. Sua presença física se contrapõe à dos dois precedentes, pois, à maneira do notável Cláudio Arrau (1903-1991), nenhum gesto é feito no sentido de causar impacto, como no caso específico de Wunder. Ao escolher, entre os Estudos, o mais introspectivo deles, o op. 25 nº 7, já não estaria a demonstrar que causar impressão frente ao público não é sua senda? Magnífica sua performance. Sob outra égide, não atenderia sua interpretação dessa obra à visão romântica do insigne pianista Alfred Cortot (1877-1962): “Uma interpretação verdadeiramente musical dessas admiráveis páginas exige que, acima do lamento doloroso da mão esquerda, sob o peso das paixões e do desalento, como devorada por dramático e inconsolável amor, plane, distante, mas penetrante e perfeitamente distinta, a voz ferida, triste e tenra da mão direita”? Lukas Geniusas é um grande pianista, já aos 20 anos de idade. Deverá percorrer o mundo a encantar – não a deixar atônitas – as gerações que o ouvirão.
Foi-nos possível assistir as performances de três outros candidatos. O terceiro colocado, o russo Daniil Trifonov, de apenas 19 anos, é já um mestre em tratar a frase musical. Rara musicalidade. A sua interpretação do Estudo das Terças já mencionado, diametralmente oposta à de Ingolf Wunder, não deixa de ser extraordinária. Prefiro-a. Fá-lo mais interiorizado, a conservar uma dinâmica mais voltada às menores intensidades, realizando com sensível expressividade os desenhos da mão esquerda, tantas vezes minimizados pelos intérpretes que visitam esse complexo Estudo, mas que visam unicamente ao impacto que o desfilar das terças produz junto ao público. Quanto ao quarto colocado, o búlgaro Eugeni Bozhanov, suas interpretações têm muita criatividade. Sabe dosar muitíssimo bem o discurso musical, sobretudo quando direcionado às baixas intensidades. Belas execuções. Tem 26 anos. O quinto colocado, o francês François Dumont, apesar de boa performance, pareceu-me mais contido. Como dois outros laureados, está com 25 anos.
A história da interpretação pianística segue sua trajetória. É possível verificar uma maior proximidade no quesito aperfeiçoamento técnico-pianístico entre os vários candidatos. Assim como no esporte, onde recordes são batidos, por vezes para causar impacto, os jovens concorrentes buscam ultrapassar barreiras. Faz parte da juventude. É salutar, desde que não se torne princípio incorporado. A música tem que fluir. E fluiu excelentemente entre os seis pianistas aqui mencionados. Algo, contudo, levou-me à reflexão. Um fundamento, que era básico nas escolas européias em meados do século passado, tem sido praticamente “descartado” pelas gerações atuais: a técnica da substituição dos dedos – questão de dedilhado -, tão imperativa, mormente nos andamentos lentos. Graças às câmaras que tudo focalizam, verifica-se que esses jovens tantas vezes desprezaram o emprego da substituição, realizando “ligações diretas”, seja na repetição de um mesmo dedo sobre a mesma tecla, ou, em frase expressiva, empregando o mesmo dedo em notas diferentes sequenciais. Compensaram bem essa “ausência” de um recurso da tradição através de discreta pedalização. Apenas uma constatação, mas questão fulcral que percorreu do romantismo até, pelo visto, bem recentemente. Inúmeros tratados sobre técnica pianística escritos por eminentes mestres pormenorizaram o processo que se direciona fundamentalmente ao denominado legato.
Quanto ao júri, ou num sentido mais amplo, júris, será que décadas se somarão a outras e bancas examinadoras continuarão a ter prioritariamente as mesmas figuras? Mesmo que relevantes, há quantidade bem grande de também ótimos músicos que circulam habitualmente pelos centros mais festejados do planeta. Qual a razão de serem chamados, não apenas em Varsóvia, mas em outros lugares do mundo e, bem particularmente, neste imenso Brasil, basicamente os mesmos examinadores? Se essa juventude particularizada em Varsóvia dá mostras de enorme renovação, qual a razão de novos ventos não atingirem os organizadores? Banca vivificada seria exemplo de tendências menos repetitivas que podem conter, no âmago, conceitos sedimentados ou estranhos. Não valeria a pena a tentativa? A Música agradeceria, e muito.

Listening online to the winners of the 16th Chopin International Competition held in Warsaw in 2010 led me to reflections on the winner’s extraordinary performances and on the jurors’ responsibility. In my view, the jury of piano competitions throughout the world ― though outstanding pianists and musicians ― is a closed club, so that the same people control the circuit. Music would benefit from the introduction of new faces to bring fresh air and vigor to such contests.

De Volta um Seriado que Marcou

Bonanza

O you youths, western youths,
So impatient, full of action, full of manly pride and friendship,
Plain I see you, western youths, see you tramping with the foremost,
Pioneers! O pioneers!

Walt Whitman

As séries televisivas norte-americanas inundaram nossa televisão mais acentuadamente a partir da década de 60. Poder-se-ia dizer que um boom extraordinário se daria e telespectadores de todos os rincões ficaram durante anos fixados na tela, a aguardar o momento do episódio. Estou a me lembrar de séries como Rota 66, Os Invasores, O Fugitivo, Combate, Bonanza, Os Pioneiros, Chaparral e tantas outras. Dois fatores básicos levavam o adepto a assisti-las: a violência moderada – a insana ainda não invadira os noticiários e séries – e o episódio com fim definido, assim como um cunho moral em que o bem prevalecia, diferentemente da novela brasileira, com suas longas histórias arrastando-se durante infindáveis meses. Confesso que deste último gênero jamais assisti a um capítulo sequer, devido à dependência ao desenrolar da trama. Apesar de afluências enormes em todo o país, a novela realmente nunca me interessou.
Numa outra perspectiva, tem-se neste país o costume, enraizado em determinada camada pertencente à inteligentzia, de menosprezar preferências eleitas e não pertencentes ao que é de circulação restrita. A leitura de recente e instigante livro de François Noudelmann (Le Toucher des Philosophes), a abordar duas faces de filósofos renomados que, diante dos seus pares, preferenciavam certos compositores de moda, ditos de vanguarda, mas privadamente cultuavam o que de mais tradicional existia, dá bem a medida de interpretações diferenciadas. Será tema para futuro post.
A adolescência e a juventude deixam marcas indeléveis. Assim, sou da geração dos westerns que encantaram gerações. A pujança do gênero, que declinaria com o passar das décadas, mormente com a avalanche dos spaguettis realizados na Itália – já decorrência da decadência – não retirou dos verdadeiros aficcionados o prazer de assistir a um bom faroeste. Nesses períodos mais difíceis, louve-se Clint Eastwood, com vários excelentes filmes do gênero. Anteriormente, como não lembrar de Randolph Scott, Gary Cooper, John Wayne, Richard Boone, Alan Ladd, Chuck Connors, Gleen Ford e tantos outros. Mocinhos e bandidos que povoaram nossa imaginação e que, ao tombarem vítimas de balas certeiras, morriam majoritariamente no instante, e sequer a câmara com eles se importava. Mortes rigorosamente assépticas, contrariamente àquelas psicopáticas de inúmeros filmes atuais, onde a crueldade no seu limite máximo acompanha o algoz das macabras intenções.
Distanciei-me irremediavelmente de todas as películas em que diretores perturbados “vomitam” nas telas o que de mais escabroso possa existir, voltando-me às películas mais amenas. Essa ascensão não teria tudo a ver com a violência absurda que presenciamos no cotidiano, quando vidas são ceifadas por um nada e tantas vezes de maneira cruel e sádica? A droga, assim como a parafernália sem sentido e descomunalmente assustadora, sob aspecto outro, dos decibéis altíssimos de “gêneros musicais” ridiculamente grosseiros não seriam porventura exemplos de influências que surgem nas telas? Comentaristas não têm insistido no tema da invasão das favelas do Alemão, como conscientização do povo após Tropa de Elite I e II? Amálgama. A violência expressa a fazer o cidadão refletir. Paradoxal, mas fato.
Uma série a que assisti com prazer foi Bonanza, que teve longa duração. A série foi apresentada de 1959 até 1973. Tornou-se, em pouquíssimo tempo, um dos maiores sucessos da TV norte-americana e do mundo, e ainda hoje é tida como aquela que granjeou uma das maiores popularidades em todos os países onde foi exibida. A temática trata sempre da preservação física dos quatro personagens, o viúvo Ben Cartwright (Lorne Greene) e de seus filhos nascidos de mães diferentes: Adam (Pernell Roberts), Hoss (Dan Blocker) e Litle Joe (Michael Landon). Este último faria duas outras série de sucesso, Os Pioneiros e O Homem que Veio do céu. Outro hilariante personagem é o cozinheiro chinês Hop Sing. A depender do episódio, nem sempre todos atuam, pois nesses casos o diretor de filmagens centra em determinado membro da família.
A sensação que me traz Bonanza é a do regresso a momentos descontraídos e felizes em que esperava o dia do seriado, que sempre apresentava história conclusa, o que me parecia salutar. Traz-me nostalgia também. Felizmente o Canal a Cabo TCM está a apresentar toda a série.
Bonanza se passava no Velho Oeste com histórias sempre renovadas, apesar de se poder antecipar o final que era, logicamente, a união dos quatro Cartwrights. Todavia, perpassavam pela série valores hoje minimizados por parte da sociedade. Possuidores de uma vastidão de território – o Rancho Ponderosa – tem Ben Cartwright princípios de honradez em que palavra dada é soberana, assim como senso de justiça e generosidade. Passa essas virtudes aos filhos e o constante desafio em manter indivisível Ponderosa não exclui a cessão de determinados torrões àqueles que, inicialmente arredios, lutam por um pedaço de terra. A violência tem sua medida e jamais extrapola, a não haver tampouco a arbitrariedade movida pela ideologia no sentido de se invadir terras. Há ou ambição de celerados ou súplica de desesperados. Aqueles acabam invariavelmente tendo o que a justiça determina; estes, necessitados que buscam na lisura o chão para a sobrevivência, terminam beneficiados pelos Cartwrights. Foragidos que assaltam bancos, remanescentes dos índios que ainda atacam, comancheros e pistoleiros de plantão completam a lista dos oponentes dos heróis. Sob aspecto outro, há um misto de admiração e inveja por parte dos cidadãos de Virginia City, a cidadezinha mais próxima, em relação ao fazendeiro e seus filhos. Atores que ficariam bem conhecidos mais tarde passaram por Bonanza em determinados episódios: Leonard Nimoy (série Jornada nas Estrelas), Vic Morrow (série Combate), James Coburn, Martin Landau, Ida Lupino…
Em incontáveis “capítulos” a figura feminina aparece como “miragem”. Cada membro do grupo, com periodicidade proposta pelo roteirista, saberá cortejar a mulher, seja filha de pequeno fazendeiro ou de lojista de Virgina City, seja alguma bela viúva ou mesmo atraente mulher de saloom, ou ainda aventureira bonita recém-chegada. Quando esta última pertence à idade madura, certamente já teve caso com o patriarca Ben Cartwright. Também torna-se lógica a não continuação dos respectivos romances. Seja qual for o desfecho de uma relação afetiva, é fácil a cicatrização.
Recentemente, um episódio chamou-me a atenção. Hoss, vivido por Dan Blocker, o filho grandalhão, talvez o menos esperto, mas o mais generoso e possivelmente o melhor ator do quarteto, faz amizade com outro personagem igualmente forte e enorme, forasteiro absolutamente desprovido de ínfimo raciocínio lógico. Não distingue o bem do mal. Mostrar-se-ia violentíssimo em determinados momentos, sem ter a menor sensação de que assim procedera. Curiosamente, o personagem é extraído por inteiro do célebre romance Ratos e Homens, de John Steinbeck (1902-1968), com variações naturais. No livro, os amigos George e Lennie vivem de trabalhos esporádicos durante a forte recessão econômica dos anos 1930 nos Estados Unidos. Lennie, ingênuo, sem qualquer possibilidade de organizar o mínimo raciocínio, vaza para Bonanza. Os personagens do romance Of Mice and Men e do episódio do faroeste passam por circunstâncias semelhantes e suas mortes têm ainda maior proximidade. O livro de 1937 motivaria, bem depois de Bonanza, o filme com os excelentes atores John Malkovich (Lennie) e Gary Sinise (George). Sinise seria inclusive o diretor de Of Mice and Men (1992). Quanto à Bonanza, seria possível apreender que o produtor David Dortort, igualmente autor do roteiro piloto, buscou inspiração em figuras de tantos outros romances. Em um dos episódios, não colocaria como personagem central Mark Twain (1835-1910), o autor do célebre As Aventuras de Tom Sawyer ? Em torno do festejado tema musical de Jay Livingston e Ray Evans, foram muitos os arranjos bem elaborados que percorrem o seriado, a depender dos contextos. Seria correto asseverar que as tramas, sempre muito bem conduzidas, e essa ausência de violência pela violência, mas sim a seguir uma naturalidade sem provocar choques, tenham conquistado o público de outras gerações. O certo é que, enquanto o seriado estiver sendo apresentado, procurarei assisti-lo, sempre com prazer renovado.

I’ve always been fond of Westerns and actors strongly associated with Wild West movies: Randolph Scott, Gary Cooper, John Wayne, Richard Boone, Alan Ladd, Chuck Connor, Clint Eastwood. In the sixties one of my pleasures was to watch the long-running TV show Bonanza, the story of the widow Ben Cartwright and his three sons living on a ranch called Ponderosa and the troubles they went through: affairs of territory, conflicts with neighbors, natives and wanderers, gunfights, fleeting romances. Whenever possible I still watch reruns of Bonanza on cable TV, admiring with nostalgia its restrained violence, ethical heroes, values of honor and sacrifice, simple morality tales. Pleasant memories revisited…