O Perigo do Circunstancial Endêmico

Le trop grand empressement qu’on a
de s’acquitter d’une obligation
est une espèce d’ingratitude.

La Rochefoucauld

Elegemos nossos temas de vida. - Foto J.E.M.

Voltava de minha caminhada habitual pelas ruas do Brooklin, quando encontro um ex-aluno de curso que ofereci em um dos programas de pós-graduação na Universidade de São Paulo. Convidei-o para um café. Instalados, perguntei-lhe a respeito da conclusão de seu mestrado e dos caminhos trilhados nesses últimos dois ou três anos. Disse-me que fora aprovado como mestre e que tentava, presentemente, o doutorado, a fim de obter uma bolsa junto a um dos Institutos de Fomento existentes para continuar a viver, já que não tinha emprego, apenas dava algumas aulas particulares. Indaguei-lhe se continuaria com o tema que desenvolvera para o mestrado. Respondeu-me prontamente que de forma alguma voltaria àquela temática que o cansara tanto. Pretendia um outro “assunto”, que lhe desse tranqüilidade. Insisti. Nem tenho idéia, respondeu. Tomamos o café, despedimo-nos e cada qual continuou seu caminho. Fiquei a pensar que a cena se repete. Alguns outros, a quem fiz idêntica pergunta no campus universitário nesses últimos anos, deram-me rápido a mesma resposta, como um verdadeiro leitmotiv.
Sem ser regra, pois há uma grande diversidade de áreas na Universidade, antolha-se-me contudo preocupante a repetição de tais casos. Em algumas das especificidades das Humanas, a pequena possibilidade de absorção pelo mercado de trabalho torna imperiosa a busca pela sobrevivência. Os que se enquadram no perfil mencionado, a buscarem a bolsa, correm em direção ao título e que venha ele o mais rápido possível. O tema de Dissertação de Mestrado, ou Tese de Doutorado, pareceria um “mal necessário” aos desideratos reais. Frise-se, há constante preocupação das instâncias superiores, a almejarem duração menor dos cursos que levam à conclusão de Dissertações e Teses.
Deparei-me, ao logo de minha vida acadêmica, com outra situação, não distante do princípio da primeira: o pós-graduando que se dirige sequioso aos Congressos, Seminários ou Colóquios, com o objetivo precípuo de ler um paper e vê-lo publicado. A questionamentos que faço, a resposta vem direta: “Professor, conta pontos junto aos Institutos de Fomento”. Se aceito pelas organizações dessas Reuniões, a pontuação estará garantida. Destaque-se que muitas vezes esses Encontros têm necessidade de determinado volume de trabalhos, o que significa “importância e respeitabilidade”, a resultar em captação de verbas públicas. Neste caso específico, paper aceito, o candidato à bolsa estará a evidenciar desempenho.
A Rádio Jovem Pan tem apresentado um segmento exemplar: Educação, Semente do Amanhã, Alicerce da Pátria. O competente Joseval Peixoto apresentou o depoimento de dezenas de crianças que cursavam a Escola Pública e nada sabiam após alguns anos. Numa segunda etapa, professores estão sendo ouvidos e a situação mostra o desmoronamento educacional neste país de tantos desvios. Em todos os níveis, pois as mais diferentes categorias de docentes estão a ser ouvidas.
Creio que as nuvens plúmbeas aproximam-se igualmente da Universidade Pública no Brasil, inclusive na pós-graduação. Estou a me lembrar de teses defendidas em décadas anteriores, quando o número de candidatos ao mestrado e ao doutorado era bem inferior. Havia, preferencialmente, o gosto pela investigação. Temas de mestrado continuavam seu percurso no doutorado, tornando-se roteiros de vida. Um, dois ou mais objetos de estudo acompanhavam a trajetória acadêmica daquele estudioso. Mostrar-se-ia inequívoco o resultado, a dar subsídios valiosos à ainda precária bibliografia brasileira em tantas áreas.
O Governo alardeia o aumento de mestrados e doutorados no país, como se a quantidade fosse o fulcro da questão. Político sim, mas qualitativamente uma tragédia que se anuncia. Há um guarda-chuva imenso a cobrir a pós-graduação neste país. O sinônimo é pesquisa. Todos são pesquisadores, bons e maus, ótimos e péssimos. Joio e trigo freqüentam os mesmos bancos da pós-graduação. Curso findo, temas são abandonados abruptamente, a interromper um estudo mais pormenorizado, o que constitui um prejuízo irrecuperável, pois bolsas foram concedidas e trabalhos arquivados após a aprovação dos novos mestres ou doutores. Contudo, não se dá o mesmo em tantas construções públicas dispendiosas abandonadas pelo Brasil? A analogia faz-se lembrada. Ressalvem-se dissertações e teses meritórias, que tendem à publicação em revistas arbitradas ou tornam-se livros de referência.
Não obstante a presença de tantos estudiosos de respeito, jovens que eventualmente trocam de temática após o mestrado, apenas para recuperá-la mais tarde, quando outro for o embasamento, observam-se exemplos em que a mudança do objeto de estudo pode estar a acontecer aleatoriamente. Se houver princípio de interdisciplinaridade nesse novo projeto, ou se ele tiver uma força abrangente a enriquecer o todo de um pós-graduando, que seja bem-vindo. Dificilmente um bom orientador deixará de compreender as nuances da escolha de um candidato na apresentação de um projeto de dissertação ou tese. Um mau orientador sempre abrigará qualquer projeto. Neste caso, acentua-se o caminho da fatalidade, peristilo da tragédia, a pós-graduação circunstancial, hoje endêmica. A corroborar tal situação, verifica-se que muitos mestres ou doutores chegam às conclusões de dissertações e teses, respectivamente, sem biblioteca doméstica. Quando perguntei àquele ex-aluno sobre o seu acervo livresco, respondeu-me que na verdade tinha em casa algumas poucas publicações não específicas. A modernidade, a apresentar o “benefício” das fotocópias ou a busca via internet – importantes veículos para o conhecimento -, ceifou o gosto pelo livro, companheiro de vida. Não seria este brusco corte, igualmente, um foco do desinteresse pelo aprofundamento? Perde-se o norte. A afeição pelo livro, necessária a todo desenvolvimento intelectual, não chega sequer a abortar, pois não foi gerada.
O regresso ao verdadeiro sentido vocacional pleno pareceria uma miragem. Realmente, é o auxílio através da bolsa de pós-graduação um empecilho ao desenvolvimento acadêmico? É-o, na medida em que, mutatis mutandis, assemelha-se, em tantos casos, à bolsa-família meramente assistencialista do governo federal; é-o, a evidenciar ao pós-graduando que as vagas docente-universitárias estão basicamente preenchidas, restando a ele a bolsa como salvação temporária, a prejudicar o real sentido do aprofundamento; e é-o, quando, em certos casos, dá origem ao pós-graduando bolsista “profissional”. E todo o mal estará feito.
Solução haveria? Acredito que um maior rigor na concessão dessas bolsas seja imperioso, sem generosidade excessiva por parte dos Institutos de Fomento, que tendem a mostrar índices quantitativos. Felizmente, ainda são muitos os verdadeiros vocacionados, para os quais a verba da bolsa retorna à comunidade brasileira através de profissionais preparados, que souberam extrair de cada centavo, semente do amanhã, o conhecimento abrangente. A austeridade permitiria um estudo do verdadeiro “DNA” do candidato, suas origens educacionais, seu desempenho, sua dedicação, e seu desiderato final. Se isso ocorresse, enriqueceria o país com o “fim” do desperdício, aumentaria o número dos verdadeiros estudiosos, a grande Bibliografia Brasileira em todas as áreas tornar-se-ia uma certeza e a Comunidade Brasileira receberia realmente os profissionais de maior competência.

The drama of the postgraduate courses:
Funding agencies and the problem of allocation of funds for scholarships for postgraduate students.
Circumstantial projects versus thoughtful research projects with personal and social relevance.

Breves II
Cabo de São Vicente, Algarve. Foto J.E.M.

Firmino é um homem do mar. Pescador durante 60 anos, só bem recentemente vendeu seu barco. Septuagenário, vê as águas marítimas com amor e saudades do ondular da embarcação. Sente quaisquer alterações que interfiram no mar: fases da lua, ventos, aguaceiros, mudanças de temperatura. Firmino é uma enciclopédia do oceano algarvio. É, contudo, ao falar das pescarias vividas durante decênios que sua voz se altera e seus olhos brilham. Não há exageros. Sua competência, mercê de longa experiência, impede a empáfia, tipicidade do amador. Quando a noite descia, Firmino buscava o mar, só regressando pela manhã, aquinhoado ou não.
Conheci Firmino em Lagos, ao sul do Algarve. Em um fim de semana livre, aceitei o convite do colega e amigo, professor da Universidade de Coimbra, José Maria Pedrosa Cardoso. Firmino é pai de Maria Manuela, esposa do amigo musicólogo. Em casa dos sogros lacobrigenses ficamos hospedados. Igualmente mestre na culinária pesqueira, Firmino apreendeu o momento exato da perfeição ao assar sardinhas, carapaus, peixes-espada, cavalas. Algo inesquecível apreciar o que o velho homem das noites marítimas prepara. Há ciência, da escolha dos peixes à exatidão do ponto em que devem estar prontos.
Fiz-lhe muitas perguntas. A todas respondia com serenidade, mas amorosamente. Algumas poucas vezes sua vida esteve em risco, pois amalgamou-se ao mar e a intimidade se fez. Quando estivemos no Cabo de São Vicente, ponto referencial do ciclo das navegações em Portugal, falou-me do medo. Sim, nas primeiras viagens entre Sagres e o Cabo, a fim de pescar sardinhas, não decifrara ainda as correntes desse oceano que encontra em terra as grandes falésias. Insisti, e depois? Tornamo-nos íntimos, respondeu tranqüilamente. O que você encontrou durante aqueles sessenta anos passados diariamente nessas águas tantas vezes bravias? Qual o segredo do mar? Firmino olha-me e responde com sabedoria: O segredo do mar é o vento.

Na austera Igreja de Santa Maria, em Lagos, José Maria e eu ouvimos um belo concerto em que foi apresentado o Magnificat em Talha Dourada op. 17, de Eurico Carrapatoso. Dois corais, soprano, orquestra de cordas e cravo deram à obra uma interpretação entusiasmada. O Magnificat visita formas antigas, alternando-as com a modernidade. Esta associação proporciona um rico interesse. Carrapatoso é um dos compositores de destaque em Portugal. Quanto à Igreja de Santa Maria, foi construída no século XVI, tendo havido intervenções posteriores.

José Maria e eu, com as nossas respectivas esposas, não retornamos a Lisboa pela auto-estrada. Fomos serpenteando até bem além do Alentejo, para depois atingirmos novamente a rodovia principal. Ele quis que conhecêssemos duas das cidades que constam das Viagens na Minha Terra, de Lopes-Graça, coletânea de 19 peças por mim gravadas em CD pelo selo Portugaler. Silves, com sua cruz medieval trabalhada em pedra logo à entrada da cidade e sua bela Igreja ao alto, fez-nos lembrar de Em Silves já não há moiras encantadas. Ao visitar a lendária Ourique, veio-nos à mente Em Ourique do Alentejo , durante o S.João. Quanto a José Maria Pedrosa Cardoso, ele está presente em vários de meus textos. Inteligência rara, competência impecável no conhecimento da música do século XVI ao XVIII em Portugal e latinista profundo. Em Coimbra, fez os comentários de meu recital e apresentou um data show referente às Sonatas Bíblicas programáticas de Johann Kuhnau.

Ao conhecer, em 2004, João Gouveia Monteiro, Professor Associado da Universidade de Coimbra, pertencia o amigo à equipe reitoral da Universidade, como Pró-Reitor para a Cultura. Absolutamente ímpar na organização do Colóquio Carlos Seixas, que teve lugar nos próprios da Universidade, quando tive o privilégio de dar um recital na Biblioteca Joanina e uma conferência. Especialista em Estudos Militares, mais precisamente da História Medieval, Gouveia Monteiro é freqüência obrigatória nas mais importantes universidades, dentro e fora de Portugal. Entre suas numerosas publicações, salientem-se A Guerra em Portugal nos finais da Idade Média (Lisboa, 1988) e Aljubarrota, A Batalha Real (Lisboa, 2003). Sereno, com ampla visão da Universidade – senti bem essa qualidade quando até este ano esteve à frente da Pró-Reitoria – João Gouveia Monteiro é um estudioso vocacionado, voltado ao conhecimento profundo de sua área e conversar com o amigo é enriquecedor.

No dia do recital em Évora tive duas grandes alegrias. Almoçava com a dileta e competente amiga Idalete Giga, Diretora do Centro Ward Júlia D’Almendra em Lisboa e Professora da Universidade de Évora, quando, em dado momento, chegou o jornalista e historiador Joaquim Palminha Silva. Polêmico, é um apaixonado pela história de Évora. Li com profundo interesse seu livro Évora – Cidade Esotérica e Misteriosa (Lisboa, Europress, 2005, 270 págs.). Ofereceu-mo com bela dedicatória durante nosso encontro. Ouvi-lo contar as epopéias eborenses milenares é uma aula. Quanto à Idalete, foi em torno da saudosa gregorianista Júlia de Almendra, em cuja morada em Lisboa, à Rua d’Alegria,nº 25, hospedei-me diversas vezes na década de 80, que uma amizade se fez com a fidelíssima discípula da grande Mestra. Em todos os retornos à Lisboa, reencontro Idalete e sigo sua bela trajetória como educadora musical e gregorianista.

No recital no Convento dos Remédios estiveram presentes os amigos e professores da Universidade de Évora: João Vaz, organista, que está a realizar uma carreira consistente, e Manuel Moraes, Diretor e Regente do consagrado Segréis de Lisboa. Moraes ofereceu-me Gil Vicente e Évora – nos alvores de Quinhentos (Casal de Cambra, Caleidoscópio, 2005, 121 págs.), importante coletânea de textos. Moraes contribuiu com o estudo Música para as peças de Gil Vicente estreadas em Évora e um CD, encarte do livro, com as obras mencionadas no texto interpretadas pelo conjunto por ele dirigido.

Rui Vieira Nery é figura exemplar na cultura musical portuguesa nos dias de hoje. Solicitado pelo mundo, percorre a Europa e as Américas proferindo palestras e conferências em Congressos, Seminários e Colóquios. Professor da Universidade de Évora, é Diretor Adjunto da Secção de Música da prestigiosa Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa. Com a mesma facilidade, escreve sobre a música dos primórdios de Portugal ao Fado, essa expressão tão genuína do país. Ainda estou a ler o seu livro fundamental, Para uma História do Fado ( Lisboa, Público, Corda Seca, 2004, 301 págs.), onde está depositado um profundo conhecimento, atávico certamente, pois seu pai, Raul Nery, teve belíssima carreira de guitarrista de fado. Estivemos juntos, desta vez, em três oportunidades e sempre com uma alegria mútua. Disso tenho certeza.

Amizades mais recentes formaram-se a partir da Academia de Amadores de Música. Antônio Ferreirinho, professor de guitarra – violão, no Brasil – tem feito um belo trabalho visando à divulgação de Lopes-Graça e da música específica para guitarra em Portugal. No ano passado, fez-me conhecer parte da obra do excelente poeta José Gomes Ferreira, autor de poemas musicados por Lopes-Graça. Ferreirinho tem uma profunda admiração pela arte violonística do nosso Edelton Gloeden. Alexandre Branco Weffort, professor de flauta no Conservatório Nacional, desenvolve paralelamente um substancioso trabalho de recuperação da obra de Lopes-Graça (vide texto sobre Lisboa). José Carlos Florentino é entusiasta sereno do grande mestre nascido em Tomar. Generoso, sempre tem algo para mim. Desta vez, ofereceu-me o livro Olga Prats – Um Piano Singular, conversas com Sérgio Azevedo (Lisboa, Bizâncio, 2007, 369 págs.). Olga Prats divulga há décadas, com plena dedicação, as obras de Lopes-Graça e de outros importantes compositores contemporâneos portugueses.

Maria José de Souza Guedes e Luís Meireles formam um duo singular. Professores do Conservatório do Porto, a pianista e o flautista realizam uma carreira de mérito e já gravaram CDs referenciais, privilegiando a música contemporânea portuguesa. A atuação do casal estende-se a muitos países da Europa, mormente no Leste Europeu. Em todas as visitas ao Porto com eles me encontro e os temas interpretativos e didáticos dominam nossas conversas.

Através do amigo e arquiteto Benedito Lima de Toledo, conheci na cidade portuense seu colega António Menéres, Professor convidado da Universidade Lusíada do Porto. Figura de imensa cultura, apesar de não ser músico, tem prestado um contributo especial à música portuguesa na divulgação da obra de Óscar da Silva (1870-1958), compositor que pertenceu ao saudosismo - corrente estimulada pelo poeta Teixeira de Pascoais – e cuja obra é muito bem escrita. Menéres conheceu pessoalmente Óscar da Silva, tendo concebido o túmulo definitivo em Leça da Palmeira, homenagem ao ilustre compositor. A Sonata Saudade para violino e piano, de Óscar da Silva, tem essa atmosfera decorrente do prolongamento romântico tão característico também em obras do nosso Henrique Oswald (1852-1931). Versátil, Menéres escreveu Crónicas Contra o Esquecimento (Matosinhos, Edium, 2006, 238 págs.). Lerei com prazer.

José Abel Carriço, Professor da Escola de Música da Póvoa de Varzim, atendendo a um apelo de Pedrosa Cardoso, apresentou-me a Igreja Românica de São Pedro de Rates na Vila de Rates, berço do Primeiro Governador Geral do Brasil, Thomé de Souza. Há décadas pretendia visitá-la. Pormenorizou a construção, exterior e interior, e suas múltiplas particularidades. Saí absolutamente encantado. Tendo recebido uma rica bibliografia, penso um dia escrever um texto sobre esse maravilhamento.

Em meu programa Idéia, Criação e Interpretação, apresentado todas as terças-feiras, das 22 às 23 horas, na Rádio USP-FM 93.7, divulgarei apenas CDs inéditos de música portuguesa que recebi nessa viagem. Destaco In Memoriam Béla Bartók, suítes de Fernando Lopes-Graça para piano, na excelente interpretação de António Rosado; Polifonistas da Sé de Évora dos séculos XVI e XVII, na versão do Coro Eborae Musica, assim como, Música para o Teatro de Gil Vicente na interpretação dos Segréis de Lisboa.

Breves I

Teclado Mudo, início Séc XX

De regresso ao Brooklin, minha cidade-bairro em São Paulo, rememoro alguns momentos especiais vividos com amigos antigos e novos, assim como cenas do cotidiano, flashes do acontecido. O leitor seguirá comigo esse percurso humano enriquecedor. Figuras de atividades tão diferenciadas, mas plenas de idéias. Amálgama das gentes, extratos que fazem entender preferências.

Ao chegar à estação ferroviária Sint-Pieters em Gent, na Bélgica, caminhava pelo corredor que leva aos táxis, quando uma bela moça me interpela em flamengo. Disse-lhe em francês que não entendia sua língua. Num francês corrente, pergunta-me se não estava a transportar um teclado mudo. Surpreso, respondi que sim, indagando-lhe o porquê da questão. Disse-me que o Museu de Instrumentos de Bruxelas – um dos mais importantes da Europa – tem um semelhante. Sorriu e continuou o seu caminho. Realmente uma surpresa. Quando o repertório é barroco, costumo levar um teclado mudo para a prática durante estadias em hotéis. Esse em questão é francês, das primeiras décadas do século XX, com teclas de marfim, e me foi presenteado pela pianista e professora Nair Medeiros que, nos anos 20, estudou com o célebre pianista Ricardo Viñez em Paris, responsável pelas primeiras audições de obras Debussy, Ravel, De Falla, I. Albéniz e tantos outros.

No recital em Gent foram apresentados dois Études para piano de Raoul de Smet. Excelente compositor da Antuérpia, até o presente compôs seis Études, interpretados ao longo das récitas na Rode Pomp. Smet está sempre a inovar. Há propostas diferenciadas para a pianística atual. Escreverá mais seis que pretendo seguir apresentando.

Daniel Gistelinck esteve no recital e prometeu-me um Estudo para a coleção que, iniciada em 1985, já conta com cerca de 70 criações específicas, escritas por compositores brasileiros e do Exterior. Gistelinck é Professor de Harmonia e Composição no Conservatório de Gent e autor de Résonances, obra que gravei no CD New Belgian Etudes (Gents Muzikaal Archief Vol. 24). A elaboração visando à interpretação dessa obra ímpar é semelhante a de um ourives. Gistelinck penetra nos limites do universo timbrístico. A rítmica é preciosista, plena de curtos motivos e frases que estão sempre, após breves silêncios, impulsionando a obra nessa busca incessante ao timbre diferenciado. Diria que há uma herança vinda do Étude pour les Sonorités opposées de Claude Debussy. Esperemos o Étude desse ótimo músico flamengo.

Em Paris, ficamos hospedados no belo apartamento do casal Emmanuel e Nicole Billy. Ele durante muito tempo esteve ligado ao mundo das finanças; ela uma excelente violinista. Trabalhou durante décadas na Orchestre Nationale e hoje dedica-se à Música de Câmara. Manu é um colecionador refinado. Esculturas do Egito, da Grécia Antiga e do Extremo Oriente convivem com uma selecionada Biblioteca que contém em suas estantes livros cujas edições remontam ao século XVI. Qualquer das obras tem a sua história contada com entusiasmo pelo amigo. Juntos rememoramos a nossa amizade de quase cinqüenta anos e discutimos entusiasmados, assuntos musicais. Nicole e eu temos idéias bem próximas quanto à descaracterização que se tenta imprimir aos andamentos nas obras de Claude Debussy. O compositor francês foi o nosso assunto fulcral, pois o primeiro a tudo assinalar quanto às suas reais vontades interpretativas. Essa tendência hodierna voltada ao virtuosismo é uma ameaça. Com a aceleração, poder-se-ia alterar a dinâmica, ou seja, no caso, a indevida elevação sonora. E pensar-se que a opera omnia de Claude Debussy situa-se entre p e pp (80%), índices que revelam a baixa intensidade.

Conheci Odile Robert em Nápoles em 1959. Primeiro Prêmio do Conservatório de Paris e laureada em concursos internacionais, Odile é a amiga de sempre. Camerista de destaque, está sempre disposta ao conhecimento da Música e dos mais variados assuntos culturais. Atualizamos constantemente nossas conversações sobre Música e Interpretação. A família Robert como um todo “adotou-me” quando de meus estudos em Paris. Antoine, o irmão, fez-me conhecer as principais obras da literatura francesa e, ainda hoje, prazerosamente revisa meus textos quando a publicação é em França. Estar com os Roberts, quando em Paris, é-me extremamente necessário. O recital privé em Paris deu-se no belo apartamento da amiga, cercado de obras artísticas referenciais.

Por intermédio do saudoso François Lesure, então Diretor do Departamento de Música da Bibliothèque Nationale de Paris, conheci Myriam Chiménes nos anos 80. Encontros em torno de Debussy prosseguem até hoje. Presentemente, Myriam é Secretária Geral do Centre de Documentation Claude Debussy. O Presidente, Pierre Boulez. O Centre está muito bem organizado e sediado junto à Bibliothèque Nationale. Myriam é igualmente Diretora de Pesquisa no CNRS (Institut de Recherche sur le Patrimoine Musical em France). Foi ao meu recital e presenteou-me com duas de suas obras recentes. Entre suas últimas produções, ressaltem-se: Francis Poulenc – Correspondance (1910-1963), reunida, escolhida, apresentada e anotada por Chimènes (Paris, Fayard, 2004, 1128 pgs.); La vie Musicale sous Vichy, sob a direção da ilustre amiga (Bruxelles, Complexe, 2001, 420 pgs.); Mécènes et Musiciens – Du Salon au Concert à Paris sous la IIIe République (Paris, Fayard, 2004, 776 pgs).; Marguerite de Saint-Marceaux – Journal (1894-1927); editada sob a direção de Myriam Chimènes (Paris, Fayard, 2007, 1467 pgs.). Desde 1983 colaboro para os Cahiers Debussy, publicação ímpar do Centre de Documentation sobre o grande compositor francês. Um pequeno texto-comentário sobre correspondência específica em torno de Debussy e um longo artigo abordando os Études para piano de 1915, são desafios próximos a me proporcionarem alegria.

Sonia Rubinsky é uma excelente pianista brasileira. Radicada em Paris, tem uma bela trajetória. Esteve em meu recital e apreendi que Sônia acaba de finalizar a gravação da integral para piano de Villa-Lobos para o consagrado selo Naxos. Ter sido escolhida para essa realização já é motivo respeitável. São oito CDs, que se somam a outros muito bem gravados pela pianista nascida em Campinas. Em suas gravações, percebe-se não apenas a sua pianística abrangente, como também uma inteligência acurada. Sônia menciona em todos os programas ter estudado com a minha sogra, a lendária professora Olga Normanha. Gratidão.

José Francisco Bannwart realizou na Universidade de São Paulo, sob minha direção, seu mestrado, versando sobre obras para piano de orientação mística e religiosa do excelente compositor Almeida Prado. Presentemente, em Paris, prepara junto à Sorbonne o seu Doutorado. O tema estende-se às influências recebidas por Almeida Prado de nomes fundamentais do ensino em França na segunda metade do século XX: Olivier Messiaen e Nadia Boulanger. Foram professores do compositor brasileiro. Fundamentais referências. José Francisco tornou-se padre durante o curso visando ao mestrado. É realmente uma figura aplicada, inteligente, curiosa e sensível. Tenho acompanhado o seu desenvolvimento. Impecável.

Proximamente penso escrever textos sobre a obra de um de meus escritores preferidos, Antoine de Saint-Exupéry. Li a sua opera omnia. Busquei traços que pudessem levar-me à memória de um grande e saudoso amigo, a quem sou profundamente grato, Baron André de Fonscolombe. Exerceu, entre tantos outros cargos importantes, o de Cônsul de França em São Paulo. Reencontrei-o muitas vezes nos cursos públicos de Marguerite Long. Freqüentava às quartas-feiras à noite seu apartamento, onde o Baron e sua mulher recebiam Simone de Saint-Exupéry, irmã do grande escritor e prima dos de Fonscolombe. Simone lia trechos de Citadelle, obra que foi até considerada como a Bíblia do século XX. Referencial. Conversei com Benoît de Fonscolombe, primo de André e de Antoine de Saint-Exupéry. Colhi informações fundamentais, a fim de partir das origens de meu conhecimento da obra do autor de Vol de Nuit, Pilote de Guerre, Courrier Sud, Le Petit Prince…