Alexandre Borodine (1833-1887) compositor, médico e químico

A minha paixão pela música é puramente russa.
Tem origem no meu amor pela Igreja
e nas minhas memórias da música militar
e das canções das ruas da minha infância.
Alexandre Borodine

Leitores atentos sugeriram a ampliação do tema sobre o assim denominado Grupo dos Cinco, referente aos cinco compositores russos que, num espaço aproximado de dez anos, a partir de 1862, mantiveram relações amistosas e musicais. O crítico e musicólogo Vladimir Stassov (1824-1906), várias vezes mencionado no blog dedicado a Mussorgsky (1839-1881), após um concerto dirigido por Mily Balakirev (1837-1910) em 1867 e dedicado a anfitriões eslavos, escreveu: “Que Deus faça com que os nossos anfitriões eslavos nunca se esqueçam deste evento e que se lembrem sempre da inspiração, da poesia, do talento e da maestria demonstrados por um pequeno grupo de músicos russos, um grupo reduzido, mas já tão poderoso”! Esse grupo teve outros músicos transitórios e, nos estertores dessa “união” dos cinco, Mussorgsky escreve: “«O nosso pequeno e poderoso grupo não passa agora de um bando de lacaios sem alma!»
Dos cinco compositores componentes do núcleo fundamental, Rimsky-Korsakov (1844-1908), Mussorgsky, Borodine, Balakirev e Cesar Cui (1835-1918), focalizarei presentemente a figura de Alexandre Borodine, que foi um dos compositores homenageados no Oitavo Encontro Musical Privado, através da Petite Suite para piano, belíssima composição que interpretei no Encontro. Incluí no blog do dia 9 de Maio a excelsa gravação dessa criação de Borodine, executada pela ilustre pianista russa Tatiana Nikolaieva.
Alexandre Porfirévitch Borodine nasceu em São Petersburgo e, ainda criança, estudou flauta, piano, violoncelo e oboé. Adolescente, já falava várias línguas: russa, alemã, francesa e inglesa. Obteria o diploma da Academia médico-cirúrgica e posteriormente, junto à Academia de Ciências, com seu trabalho acadêmico “Pesquisas sobre a constituição química da hydrobenzamida e da amarina”, receberia o título de Doutor em Ciências, tornando-se professor de química na Escola de Medicina. Não obstante esses talentos, ao conhecer Mussorgsky dedicar-se-ia prioritariamente à música, não descartando o empenho no tratamento de doentes e assistência a órfãos.
Para melhor entender a versatilidade de Borodine transcrevo um depoimento de seu “colega de armas” no “grupo dos cinco”, o compositor Rimsky-Korsakov – tema do próximo post –, que constata a sua dedicação aos infortunados, apesar de uma desorganização pessoal, mas a não interferir na competente criação musical. Surpreende o depoimento: “O seu apartamento, muito pouco prático, tinha a disposição um corredor: por isso, era-lhe impossível dizer que estava ausente ou mandar embora um visitante. Entravam como num moinho, a qualquer hora do dia, e o bom Borodine levantava-se da mesa antes de terminar de comer, recebia o visitante, ouvia-o, prometia intervir a seu favor ou ajudá-lo. Isso levava-lhe horas. Acrescente-se ainda a isso o fato de sua esposa sofrer de asma, passar noites em claro e levantar-se às onze horas ou ao meio-dia. Alexandre Porfirévitch, que tinha passado sem dormir ao seu lado, era obrigado a sair muito cedo e sem ter tomado qualquer refeição. A sua vida doméstica estava, assim, marcada pela mais completa desordem. Certa vez, ao chegar em sua casa às onze da noite, encontrei-os a tomar o pequeno-almoço!… Sem contar os inúmeros órfãos que o casal recolhia em sua morada! O apartamento deles servia de refúgio ou de abrigo noturno para todo o tipo de pessoas, pobres ou de passagem, que ali adoeciam ou enlouqueciam — e Borodine deles cuidava, pedia para que fossem transportados para o hospital e ia visitá-los a seguir. Os quatro quartos da sua casa estavam cheios desses estrangeiros que dormiam nos sofás ou até mesmo no chão. Muitas vezes, era-lhe impossível tocar piano: havia alguém a dormir no quarto ao lado!…”. Não seguia Borodine um dos preceitos de Hipócrates (460 a.C -): “Consagrar sua vida a serviço da humanidade”?
Clique para ouvir, de Alexandre Borodine, a canção A Rainha do mar, na interpretação do Barítono Alexander Vedernikov:

https://www.youtube.com/watch?v=z6bwWu7ed78

A versatilidade de Borodine fez-se perene através do legado musical. Para orquestra compôs três sinfonias ― a última inacabada ―; o poema sinfônico Nas estepes da Ásia Central; vasta música de câmara; canções; poucas peças para piano, entre as quais se sobressai a Petite Suite, e diversas outras composições. Contudo, a ópera O Príncipe Igor, uma das grandes obras operísticas russas e mundiais, consagrou-o definitivamente. Foi longa a sua gestação e o compositor escreveria sobre suas intenções: “O Príncipe Igor” é, essencialmente, uma ópera nacional que só pode despertar verdadeiro interesse em nós, russos, que gostamos de reavivar nosso patriotismo nas origens da nossa história e de reviver em cena as origens da nossa nação”. Após sua morte em 1887, Nikolai Rimsky- Korsakof e Alexandre Glazounov (1865-1936) atenderam ao pedido do editor Mitrofan Bélaïév e finalizaram a ópera.
Alexandre Borodine, relativamente pouco frequentado nas salas de concerto, infelizmente, foi um dos mais notáveis compositores russos. Algumas qualidades lhe são inalienáveis: um gerador de melodias contagiantes, cultor de harmonias inusitadas e absoluta criatividade quanto à orquestração.
Clique para ouvir, de Alexandre Borodine, as Danças Polovtianas, extraídas da ópera O Principe Igor. Regente: Valery Gergiev.

https://www.youtube.com/watch?v=FsTVF0Fu5_c

Alexander Borodin was one of the most important members of the famous Group of Five, a prominent circle of Russian composers who, in the second half of the 19th century, made it one of their fundamental goals to honor the basic sources of the Russian music.