Navegando Posts publicados em dezembro, 2015

Desalento e Esperanças

Como nada entenderam do passado,
nada podem sonhar para o futuro.
Agostinho da Silva
(“Espólio”)

Se 2015 foi ano atribulado pelo mundo afora, há que se destacar a deterioração de tantos valores morais e culturais no Exterior e mormente em nosso país. Nem insiro a palavra ética, pois esta tem sido utilizada por todas as correntes, banalizou-se, prostituiu-se, retiraram-lhe o significado essencial. Estou a me lembrar de série de programas sobre Ética em canal estatal, faz um bom tempo. A intelligentsia de sempre, tupiniquim, discutiu durante semanas, em linguajar ex cathedra, pomposo, acadêmico e ininteligível para o leigo, os valores da ética. Alisou egos dos convidados e os efeitos, como esperados, foram nulos, pois o telespectador ficou desinformado.

O PT, ao reivindicar posições, desde sua fundação erigiu a ética como fundamento. Desnecessário estender-se sobre o tema. Desgovernos, mensalão, petrolão e tantos outros escândalos e indiciamentos aí estão para dimensionar o desvio absoluto por que prima o partido, desde 2003, quanto ao desrespeito dessa nobre palavra, ética, hoje tão aviltada. Lembremo-nos de que o lema apregoado pela presidente de plantão em seu desastroso segundo mandato foi “Pátria Educadora”. Seu criador, em recente pronunciamento na Espanha, culpa a colonização portuguesa pelo atraso da Educação no Brasil e menciona dados históricos falhos (sic). Com absoluta clareza a imprensa portuguesa revoltou-se contra essa verborragia. Teria o ex a coragem de proferir o descalabro quando do recebimento do título Doctor Honoris Causa conferido pela Universidade de Coimbra, anos atrás? Desrespeito para com a verdade, ignorância e absoluto desconhecimento do rito diplomático. Recebi mensagem de minha amiga portuguesa Idalete Giga, em que deputado europeu, indignado com a fala do ex presidente, assim teria se pronunciado: “Fazer da ignorância um exercício de erudição, é em si mesmo um paradoxo. Discorreu sobre temas que implicam estudo, com a facilidade com que trautearia um forró. E o disparate aconteceu”.

2016 aponta no horizonte. Será um ano basicamente perdido, mercê de todo o processo de impeachment que se deverá prolongar. As mais vis porfias serão travadas em Brasília entre o executivo e o legislativo, sob o olhar de um judiciário complexo no que tange às nomeações de seus integrantes, por vezes ideológicas. Após a trágica sessão do Supremo Tribunal Federal em que a Corte decidiu barrar o processo de impeachment (17/11), estabelecido pelo presidente da Câmara dos Deputados, contra a presidente atual, assim se pronunciou o ilustre Ministro do STF, Gilmar Mendes: “Existe um projeto de bolivarização da Corte. Assim como se opera em outros ramos do Estado, também se pretende fazer isso no tribunal, e, infelizmente, ontem tivemos mostras disso” (Fonte: Brasil 247, 19/12/2015). Economia, inflação, desemprego galopante, insegurança, saúde, educação, saneamento básico assustam o brasileiro. O descaso do governo pelo elementar saneamento é fator primordial da aceleração dos surtos causados pelo mosquito aedes aegypti, transmissor de outras mais pragas que não a dengue. Temos que acreditar e arregimentar cidadãos que compartilhem princípios morais, que anatematizem essa chaga que se tornou endêmica e que se alastrou, sobretudo desde 2003, a corrupção. O sistemático desvio de dinheiro nas grandes e pequenas obras, o inchaço da máquina administrativa a continuar o aparelhamento do Estado e a contagiar o orçamento pátrio, a prática vexatória do popularmente “toma cá, dá lá”, são temas do cotidiano, hélas. Há o Lava-Jato, benfazejo processo que está a desmoronar redutos e a chegar à fonte primeira do desvio de somas fabulosas. O cidadão de bem acredita nesse processo, salvaguarda ainda de nossa pobre sociedade brasileira. Oxalá permitam!!! Ano difícil está por vir.

Num aspecto mais amplo, de possível transição para períodos menos desfavoráveis, há a hipótese remotíssima, frise-se, do pronunciamento, por parte da presidente, de uma palavra apenas: renúncia. Completamente despreparada para a função que ocupa, sua fala, quando improvisada, apenas aumenta o anedotário pátrio; seus desvios sistemáticos da verdade estão acelerando seu descrédito; sua “inanição” frente à economia e ao desemprego no país; suas articulações políticas diárias para se manter no Poder a qualquer custo, tudo está a conduzi-la ao fundo do abismo, reduzindo sua aprovação pública a nível constrangedor. Saint-Exupéry, em frase notável, dizia que a vaidade não é um vício, é uma doença. Criador e a pobre criatura sofrem desse ego superdimensionado, que inviabiliza a leitura do Brasil como país de todos e não de um grupo. O projeto de não alternância do poder impede o olhar a miséria do povo, que deveria ser extinta pela ação educadora. Entregam o peixe simplesmente, em detrimento da vara, do anzol, da isca e dos mares, rios e lagoas tratados… E bastaria uma só palavra que revelaria, nessa conturbada pátria, grandeza a atenuar o descompasso da presidente. Renúncia, termo que os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado também deveriam pronunciar. Acrescentaria que a arrogância, a empáfia e a teimosia também são doenças, alargando o preceito de Saint-Exupéry. “Poderosos” desprovidos de preceitos fundamentais. Nesse tópico relativo à política à deriva no país, mencionaria recente (26/11/15) sexteto (XXVI) de meu irmão Ives Gandra, notável jurista:

“O Brasil em polvorosa
Vê política horrorosa
Em Brasília praticada.
Há muito qu’este país
Deixou o povo infeliz
À mercê da canalhada”.

2016 sinaliza as Olimpíadas no Rio de Janeiro. A organização preparou devidamente nossos atletas para o maior evento esportivo do planeta? A ouvir-se esportistas que não tiveram o acompanhamento necessário, a resposta é, decididamente, não. Assim como no futebol, devastado pela corrupção aqui e alhures de maneira vergonhosa, mercê, entre outras mazelas, de mandatos “perpétuos” de seus dirigentes. Sob a égide de permanência no cargo, há quantas décadas está na presidência do COB o mesmo cidadão? No caso, também, não há renovação e ideias arejadas não conseguem penetrar as mentes dos dirigentes. Se nas Olimpíadas, que distribuem aos vencedores das muitas categorias centenas de medalhas, as minguadas láureas que o país de 204.000.000 de habitantes receberá serão motivos de palavras plenas de lisonjas pelos mandatários, que também não têm a grandeza da renúncia. Veremos. Nem menciono super-faturamentos que virão à tona após competições, mas que já começam a pulular. Voltarei ao tema após as Olimpíadas para, infelizmente, ratificar o que acabo de escrever.

2016 deverá persistir, sempre em movimento de ascensão, na continuação do óbvio. Na música erudita, os mesmos de sempre, com raras exceções, visitarão o país. Ouviremos, com algumas ressalvas, as repetidas obras do repertório para orquestra, de câmara e solista, as óperas rotineiras. Toda uma programação que completa geralmente o círculo após, no máximo, cinco anos. A roda a fazer seu giro e a prosseguir o movimento circular. Na televisão, há canais a cabo com programas interessantes, pois a TV aberta não merece comentários, salvo, diga-se, alguns raros programas de entrevistas e de documentários. O ano vindouro deverá assistir à avassaladora avalanche dos mega-shows que chegam do Exterior com o som às alturas, entradas a preço de ouro,  e a massa informe de frequentadores erguendo os braços, agitando-os, à maneira da juventude nazista. E a cultura?

No hemisfério norte, a problemática da imigração descontrolada de muçulmanos, preferencialmente, conduz aos continentes a incerteza, o temor e a islamofobia generalizada. Períodos difíceis e assustadores estão por vir. Veremos também.

Apesar de todas as mazelas, dificuldades de toda sorte por que passa o planeta, há valores que têm de ser preservados, e a família continua a ser o epicentro que leva ao equilíbrio das mentes.

Desejo a todos os leitores que prestigiam meu blog um ano de 2016 que ao menos traga certa tranquilidade e menos incertezas. O convívio familiar e os amigos serão os bálsamos que ajudarão a todos nessa transição que custa a passar, mas passará.

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Finalizava o post quando recebo e-mails de Idalete Giga e de François Servenière, comentando o texto da semana que passou, dedicado ao Natal e tendo como epicentro bela narrativa de Saint-Exupéry. Insiro segmento da mensagem da ilustre gregorianista portuguesa e do notável compositor francês. Escreve Idalete:

“O texto de Natal que extraiu do cap. 122 da sua obra Citadelle está escrito numa linguagem metafórica que pode, na realidade, ter várias interpretações. O soldado que queria morrer pode ser cada um de nós. As imagens são constantes na linguagem que usa. Este é um dos aspectos mais deslumbrantes da Citadelle. Também concordo que esta obra foi a ‘Bíblia’ do século XX e continuará a ser neste século. Mas podemos perguntar: quem a compreende verdadeiramente na sua dimensão ao mesmo tempo humana, metafórica e espiritual?

O José Eduardo foi um privilegiado ao conhecer e ouvir pela 1ª vez, textos desta obra impar lidos pela irmã do escritor-piloto, Simone de Saint-Exupéry. E chegou a ouvir alguma gravação do próprio Exupéry?” Sim, semanalmente, naquele ano e meio a que me refiro no e-mail anterior, a irmã do piloto-escritor lia e fazia-nos ouvir gravações de Saint-Exupéry. Continua Idalete “Citadelle não é obra para ler e guardar. É um universo a descobrir constantemente. Cada vez que abrimos o livro, seja em que capítulo for, descobrimos sempre novas revelações, novas imagens, novos mundos que, por vezes, se nos deparam quase inatingíveis. E voltamos a ler e a reler até descobrirmos o sentido das metáforas”.

Servenière envia verdadeiro hino à nossa atividade de músico.

“Espírito do Pequeno Príncipe, estás lá?
Espírito da infância, onde estás?
Porque tantas mortes, concessões à ignomínia e ao inominável?
O caos das estrelas?
Olhas como elas nos iluminam desde as origens.
Uma esperança ancestral?
Não, um permanente anseio.
Olhas o céu e serás levado ao divino.
Se apenas olhares o solo serás levado ao sepulcro.
Nossa música como testemunho de um dom.
Não deixemos as trevas invadirem nossas vidas e nossas artes”

New Year and the reflections it gives rise to: political unrest and corruption in Brazil, violence, vandalism, poor quality of education and health, infrastructure deficiencies, tax burdens. In the Northern hemisphere, intolerance and invasions of illegal immigrants. Hoping that family values will not be wasted in face of the tough times ahead of us, I can only wish you all a New Year filled with some promises of a brighter tomorrow.

 

 

 

 


Tem-se que Preservar o Espírito de Congraçamento

E agora, no coração da noite como um vigia,
ele descobre que ela mostra o homem:
apelos, luzes, inquietude.
Essa simples estrela na sombra:
o isolamento de uma casa. Uma luz se apaga:
o lar se fecha sobre seu amor.
Antoine de Saint-Exupéry
(Vol de Nuit)

Dá-me prazer inserir no blog um conto de Natal nesse período onde almejamos a paz, a reunião de parentes e amigos no lar aconchegante, o destino mais ameno dos infortunados, o fim do pesadelo político que nos assola. Como bálsamo para a cristandade, o Natal é a mais bela das datas, pois evoca o nascimento de Cristo. Contos de D. Henrique Golland Trindade, arcebispo de Botucatu, e de Idalete Giga, especialmente para o blog, enriqueceram posts natalinos anteriores.

Nós elegemos nossos autores e, à medida que o acúmulo dos anos nos dá a possibilidade do conhecimento de tantas obras do passado e recentes, a aventura extraordinária da leitura mostra-se uma das mais apaixonantes de nossas vidas. Ler e reter para sempre a essência dos livros escolhidos. Das muitas centenas de livros percorridos intensa e inteiramente pelo olhar e assimilados pela mente, um número determinado de compêndios constitui nossa biblioteca essencial.

Ao longo dos anos, quantos não foram os blogs nos quais a obra de Saint-Exupéry (1900-1944) foi mencionada, tanto na interpretação de segmentos como no empréstimo de sábias epígrafes extraídas da monumental Citadelle, um dos livros referenciais de minha vida? Tenho-o à minha cabeceira, pois o fervor está presente em toda a obra, os caminhos que conduzem o homem a Deus e os valores essenciais do viver, como família, relação humana, atividade profissional e, a pairar sobre tópicos fundamentais, a responsabilidade. Não são poucos os que consideram Citadelle como a bíblia do século XX.

Saint-Exupéry em seus escritos busca menos a contundência literária e mais o aprofundamento no anseio moral. Literatura como instrumento para aperfeiçoar a civilização. Preferencia personagens atemporais. Preocupa-o o destino humano e o condicionamento do homem, como bem pondera sua irmã, Simone de Saint-Exupéry. Tive o maior privilégio de, ao correr de ano e meio, durante meus estudos em Paris, tê-la ouvido na leitura dos textos esparsos de Citadelle, que Simone organizara com outros especialistas. No apartamento de seu primo-irmão, o Baron André de Fonscolombe, todas as quartas-feiras à noite, Simone apresentava gravações feitas pelo irmão e que seriam datilografadas pela secretária do escritor-piloto nos dias subsequentes. Foram cerca de 1.000 páginas reestudadas, que deveriam compor Citadelle, que viria a público em edição primorosa (1959) após a primeira, de 1948. Trabalho hercúleo dos organizadores das oeuvres de Saint-Exupéry.

Na narrativa, constante do capítulo CXXII de Citadelle, o Natal é evocado. A pena sensível, lírica e onírica do autor capta a essência essencial da noite mágica. Há muito da parábola nas narrativas de Saint-Exupéry.  No breve e profundo relato da noite de maravilhamento que a cristandade cultua, o autor penetra num universo metafórico que lhe é sempre caro. Como mestre de um Império atemporal, herança de seu pai, Saint-Exupéry, pela voz do herdeiro imperial, escreve sobre um de seus soldados, a buscar motivação para morrer.

Eis o pungente segmento  referente ao Natal, encontrável no capítulo mencionado:

“Estou a me lembrar do soldado que desejava morrer, pois apreendera, através do canto de uma lenda nórdica que lhe vinha vagamente à memória, que em determinada noite do ano os habitantes caminham sobre a neve fofa, sob o céu pleno de estrelas, em direção às casas de madeira iluminadas. E se, após o percurso, entrares em uma sala plena de luz e colares o rosto nos vidros das janelas, saberás que a claridade vem de uma árvore. E te dirão que é uma noite que tem o gosto de brinquedos de madeira envernizada e o aroma de vela acesa. Dir-te-ão, igualmente, que os semblantes dessa noite são extraordinários. Todos esses rostos estão à espera de um milagre. E verás que todos os velhos, que retêm a respiração e fixam os olhos nas crianças, estão sujeitos ao acelerar do coração. Algo intangível e de valor inestimável percebe-se no olhar dessas crianças. Porque durante todo o ano tu edificaste sonhos, através da espera e mais, pelas narrativas e promessas, mormente tuas árias ouvidas e tuas alusões secretas e a imensidão de teu amor. E agora, tu vais retirar da árvore um objeto simples qualquer de madeira envernizada e dá-lo ao pequenino, segundo a tradição de teu cerimonial. E eis que o instante chega. Respiração suspensa de todos. E a criança tem as pálpebras semi fechadas, pois foi acordada abruptamente para o evento. E ela está lá, sobre teus joelhos com aquele odor típico de criança que acaba de ser acordada, mas que, ao te abraçar, emana algo que é fonte para o coração e sacia a tua sede. (O maior tédio das crianças é verem-se despojadas de uma fonte que lhes é inerente, mas para elas desconhecida, embora todos os que envelheceram no coração nela venham beber, a fim de reconquistar a mocidade perdida). Há uma pausa para os beijos trocados. A criança olha a árvore e tu fixas o olhar nesse seu gesto. Porque se trata de colher uma surpresa encantada, como uma flor rara que nascesse uma vez ao ano na neve.

És tu um privilegiado ao observares uma certa cor de olhos que se tornam sombrios, pois a criança abraça seu tesouro, para toda ela se iluminar no seu interior tão logo o presente é tocado, como as anêmonas- do-mar. E ela fugiria se tu a deixasses partir. E não há qualquer esperança de a alcançar. Não lhe fales, ela não mais ouve.

Essa atitude é passageira e mais leve do que uma nuvem sobre o campo e não venhas tu me dizer que ela não tem peso. Mesmo que ela fosse única recompensa de teu ano e da transpiração de teu trabalho e de tua perna perdida na guerra, e de tuas noites de meditação e afrontas e de sofrimentos suportados, eis que ela te pagaria e te maravilharia, pois tu ganhas com essa troca. Porque não há razão para raciocinar sobre o amor pela propriedade, sobre o silêncio do templo, tampouco sobre este instante incomparável.

O certo é que meu soldado queria morrer. Ele que vivera, que sob o sol e sobre a areia não conhecera qualquer árvore de luz e vagamente sabia a direção do Norte, mas ouvira dizer que determinada conquista em algum lugar pusera em risco um certo aroma de vela e uma certa cor dos olhos e que os poemas lhe chegaram tenuemente, como o vento traz o odor das ilhas. Não conheço uma razão melhor para morrer”. (tradução: JEM).

A tradução livre na segunda pessoa, a mais adequada no caso, teve que apreender “possíveis” intenções do autor, pois não raras vezes há que se prospectar num de profundis pleno de mistérios, onde a metáfora sugere interpretações várias. Se difícil foi quando da primeira edição francesa em 1948, maior aprofundamento teve a edição de 1959 (A. de Saint-Exupéry. Oeuvres. Paris, Bibliothèque de la Pleiade). A edição portuguesa data de 1996 (Cidadela. Lisboa, Editorial Presença. Prefácio e tradução: Ruy Belo).

Finalizando incluo poema recebido nesses dias, de minha dileta amiga e gregorianista portuguesa Idalete Giga. Escreveu após ver na internet foto recente de crianças em “trabalho escravo” na emergente Índia, como afirma.

Presentes de Natal

Quero pegar ao colo estas crianças
e segredar baixinho ao seu ouvido:
não chorem mais meus pequeninos
Venham comigo
Tenho uma Escola-Mágica só para vós
Vamos brincar
à cabra-cega
à macaca
às escondidas
ao pião
Vamos fazer balões coloridos
com espuma de sabão
Depois vamos descobrir
o nome das flores
das árvores
dos pássaros
que estão esperando por nós
Corram, corram, corram
Venham comigo
Não tenham medo
Não chorem mais meus pequeninos
Não chorem mais
Não chorem mais

A todos os leitores que me têm prestado generoso estímulo, desejo um Natal pleno de Paz e congraçamento.

On Christmas season, I publish a story extracted from Citadelle, by Saint-Exupéry, my bedside book. With delicacy, lyricism and dreamlike mood, he captures the magic of Christmas night through metaphors that allow different interpretations. Also included is a poem sent at the very last moment by Idalete Giga ─ a very dear friend, teacher and Gregorianist living in Portugal: simple lines dedicated to children who go through pain and suffering in the world.
To all my readers, I wish a season filled with beautiful moments and cherished memories.

 

 

 


Estímulo para Nova Categoria

Não force a arte, não force a vida,
nem o amor, nem a morte.
Deixe que tudo suceda como um fruto maduro
que se abre e lança no solo as sementes fecundas.
Que não haja em si, no anseio de viver,
nenhum gesto que lhe perturbe a vida.
Agostinho da Silva

É fato claro que determinada decisão somente surja após estímulo.  Seria possível entender que resoluções amadurecem a partir de simples sugestão ou até pelo acaso. Incontáveis as obras criadas através da história depois de impulso estimulante. É este incentivo que teria faltado a tantas criações que, estioladas, não chegaram à luz.

Fiquei surpreso com o número de e-mails recebidos, particularizando as apreciações que escrevi ultimamente sobre gravações. Até então não o fizera, a observar uma postura ética como intérprete frente às gravações de outros pianistas. Assim como abstive-me de escrever certas resenhas de livros que chegavam às minhas mãos enviados pelo saudoso Nilo Scalzo, e que teriam como destino o extinto suplemento Cultura de “O Estado de São Paulo”, assim também evito escrever em meu blog sobre livros recomendados que, às primeiras páginas, levam-me à desistência ou, então, sobre outras manifestações artísticas que não me atraem. O meu blog, ininterrupto há mais de oito anos e meio, sem qualquer apoio ou propaganda, dá-me as asas da não concessão que conduz às minhas próprias escolhas. Continuo a acreditar que a independência é sempre salvaguarda maior da consciência. Se a atitude é certa ou não, ela é pessoal e não sofre pressão alguma, sujeita unicamente à minha consciência. A lista de livros resenhados neste espaço é longa e o leitor tem acesso através do menu, no item “Livros – Resenhas e Comentários (lista)” . Todas as obras lidas pelo único motivo de querer lê-las. Nenhum outro.

Brevemente abrirei item novo, pois a guarida dos leitores a três recentes comentários de CDs entusiasma-me. Contudo, confesso, só escreverei se realmente entender tal registro fonográfico realmente inusitado quanto à interpretação, ao repertório e ao propósito ao qual se destina, entenda-se, qualitativo, sempre.

Quanto à periodização dos posts específicos e críticos relativos às gravações, tenciono escrevê-los com certa frequência, sem fixá-los no calendário, e a abranger, preferencialmente no momento atual, gravações que para mim tiveram a chama da revelação interpretativa. Refiro-me aos intérpretes do passado que mais e mais estão sendo lembrados em ótimos lançamentos e que revelam a tradição mantida em seu nível mais elevado. Se a gravação recente for de meu inteiro agrado, certamente escreverei, como o fiz para os CDs de Sérgio Monteiro, Sebastian Benda e António Rosado.

Os comentários estimulantes sobre críticas e observações recentes que escrevi sobre gravações e que chegaram à minha caixa de e-mails majoritariamente são curtos,  trazendo-me o prazer da descoberta por parte do leitor e votos de continuidade. A todos fica meu profundo agradecimento. Igualmente, minha gratidão ao dileto amigo Magnus Bardela, que há anos apontava o direcionamento a que me proponho doravante.

O CD Oswald, gravado pelo pianista Sérgio Monteiro (vide: Obras para piano de Henrique Oswald, 07/11/2015), mereceu, entre outros comentários, os de dois bisnetos de Henrique Oswald.

Escreve Thomaz Oswald:

“Temos a satisfação de fazê-lo saber de que o CD, que recebemos do Sérgio Monteiro, já foi incluído na relação (incompleta) de gravações H.Oswald, no site da família. Belíssima apreciação (blog). Obrigado. Também gostei muito do CD e dois movimentos do op. 3 estão disponíveis para audição: um no próprio site (www.oswald.com.br) e outro no mini-site do CD (através do link). A propósito, o quadro de Henrique Oswald (que está comigo) e que está no livreto interno do CD (e foi colocado por você no blog) foi por mim enviado ao Sérgio. Também gostei muito da qualidade da gravação e do resultado final do CD, assim como do virtuosismo que o Sergio imprimiu em certas passagens – principalmente no op. 3. Concordo com você em tudo”.

Sinto-me lisonjeado com as palavras da filha de minha dileta e saudosa amiga Maria Isabel Oswald Monteiro, neta do compositor. Escreve Maria Clara Porto:

“Vi que você gostou muito do CD gravado pelo Sergio Monteiro…! Parece que é muito bonito, ainda não escutei… ele ficou feliz com sua crítica, pelo que meu primo Thomaz me passou, te nomeia ‘maior sumidade em Henrique Oswald’! E você é!”

Do excelente pianista Sérgio Monteiro recebi o e-mail:

“Obrigado pelo apoio desde o início deste projeto e pelo carinho da recomendação do CD. Espero que este contribua para a divulgação e apreciação da obra de Oswald. Aqui nos EUA, o público vem apreciando imensamente. As pessoas estão ávidas por ouvir obras novas de real beleza, e isso faz com que se abra um espaço grande para os românticos pouco conhecidos”.

Selecionei dois e-mails relativos ao comovente álbum de CDs com gravações do ilustre pianista suíço Sebastian Benda (vide Sebastian Benda – 1926-2003, 21/11/2015).

A dedicada viúva do pianista, Luzia Benda, envia notícias:

“A sua apreciaçāo detalhada sobre a interpretaçāo das obras gravadas demonstra um grande conhecimento, tanto histórico como estilístico, e também uma grande sensibilidade, reconhecendo os valores musicais e humanos inerentes à personalidade de Sebastian”.

Do compositor e pensador francês François Servenière, que frequenta meu blog sempre de maneira arguta, recebi a mensagem:

“Acabo de ler o seu artigo sobre Sebastian Benda, que eu conhecia de nome, mas nada de sua brilhante carreira. Personalidade de forte interesse e de enorme talento. Suas interpretações são magníficas, plenas de virtuosidade e de clareza. Particularmente apreciei a sua concepção agógica em In der Nacht das Fantasiestücke op. 12, de Robert Schumann. Seu domínio e pulsação rítmica na peça de Villa-Lobos, Dança do índio branco, do Ciclo Brasileiro, impressionam (links conduzem à audição dessas obras no blog acima mencionado). Causou-me impacto o percurso musical de Sebastian Benda. Há muitos artistas célebres, sobretudo hoje com a força da mídia e dos mecanismos do show business. Quantos são essenciais, quantos apreendem a fonte milenar, quantos são autênticos em seu caminhar humanístico? Espanta-me sempre a sua capacidade de encontrar e estar em contato com personalidades marcantes de nossa arte e de nossa época contemporânea. Não tenho dúvidas de que, se você tivesse vivido no começo do século XX, teria encontrado Fauré, Debussy e Ravel… Você tem o senso da verdade em arte e essa intuição permite-lhe nunca errar sobre a essência, sobre o objetivo último da música. A idolatria, permanente tentação de traição do essencial, resultado do abusivo incenso sobre artistas stars, mostra-se sempre atual, hélas. É, pois, fundamental o que o amigo faz, lembrar os exemplos dignificantes, a entender que o dinheiro é necessário, mas não pode ser o centro, apenas o meio. Quando ele se torna o eixo, a sociedade se corrompe e os povos acabam mal.

É necessário continuar ardentemente a encorajar a genealogia dos artistas essenciais, nem sempre os mais célebres, mas certamente aqueles que sustentam as principais vertentes das artes. Aquelas de que nossos sucessores continuarão a utilizar-se para aceder à excelência, esse farol potente que ilumina a humanidade” (tradução: JEM).

Sobre o último blog (“Músicas Festivas” de Fernando Lopes-Graça), duas mensagens vindas de Portugal apenas enriquecem o que foi exposto.

Sílvia Camilo, uma das organizadoras do projeto “Músicas Festivas” para piano, escreve:

“Foi com imensa alegria que recebemos a notícia deste artigo no seu blogue. Muito obrigada! Ficamos muito orgulhosos por merecer essa atenção, claro. Espero não estar enganada quando afirmo que na ‘minha’ música, a nº 2, ‘Para os 3 anos da Sílvia’ está lá, na parte mais melancólica, o ‘Epitáfio para uma donzela’, de 1930. Também acha? Vamos aproveitar para divulgar o seu blogue e website. Mais uma vez obrigada!

Um forte abraço,
A equipa das Músicas Festivas,
Sílvia”.

Quanto à semelhança das “músicas”, seria possível entender certa aproximação, pois estruturas e determinados contornos melódicos integram o idiomático de Lopes-Graça. Reinventa-os constantemente durante a efervescência criativa.

Maria Celestina Leão Gomes, Presidente da Associação Lopes-Graça sediada em Lisboa, assim se pronuncia, a esclarecer, inclusive, um dos temas marciais utilizados pelo compositor, que se encontra no link postado no blog “Para os 70 anos de Vasco Gonçalves”:

“Comentários excelentes os seus. As músicas são celestiais. A inclusão de um excerto de ‘Grândola Vila Morena’ na ‘Música Festiva nº 20′ – ‘Para os 70 anos de Vasco Gonçalves’ marca bem a gratidão de um pelo outro. Dois grandes homens como que a se abraçarem numa despedida transitória e cheia de esperança. Imortalizados deveriam ser os que, com o seu trabalho, saber, talento e amor, entregam-se às coisas e causas que enobrecem as pessoas, as sociedades ou mesmo a Humanidade”.

Sobre o último blog, que abordou as “Músicas Festivas”, de Fernando Lopes-Graça, Servenière tece reflexões, como habitualmente o faz:

“Endosso sua admiração por Lopes-Graça. Evidentemente não é meu universo estético, pois ele corresponde a uma outra época, aquela situada entre 1945 e 1980. As ideias artísticas deviam lutar contra outras forças, no seu caso, o Estado Novo (1933-1974). Os tempos mudaram, mas admiro sua escrita musical, a força de suas ideias e suas articulações. Elas só são possíveis num grande mestre, mesmo que o conjunto de sua obra tenha um viés que eu diria sombrio e torturado, por vezes. Faz-me pensar em alguns pontos encontráveis na produção de Olivier Messiaen. Os dois foram submetidos a pressões que permanecem em suas criações, Lopes-Graça, monitorado durante décadas pelos agentes salazaristas e sofrendo o constrangimento das prisões; Messiaen, prisioneiro em um stalag (1940-1941). Nas situações ditatoriais que vivem certos países no curso da história, a ignomínia ronda de perto os indivíduos, sobretudo aqueles independentes, livres e solitários. A sociedade tem necessidade de encontrar bodes-expiatórios. Creio que Graça e Messiaen jamais puderam, consequência dessas horríveis condições, distanciar-se dessa realidade em suas composições e foram por elas condicionados. Como lutar contra? A arte permite dizer o inefável. Os dois mestres denunciaram os crimes a que foram submetidos através do estilo idôneo, preciso. Nossa geração e aquelas que virão deverão mostrar, até próximos cataclismos que certamente virão, que existe também um caminho iluminado e que tudo não é sombrio na vida, que existe a esperança e que a vida acaba sempre por vencer o niilismo e a morte”.

Ratifico meu agradecimento a todos os que enviaram mensagens alentadoras. Não me esquecerei da preciosa motivação.

My brief overview of music albums in recent blogs got much feedback from readers, serving as an incentive to add a new category to my posts: comments about great masters of the past or high quality present and past repertoires, sometimes forgotten nowadays. Today I transcribe e-mail messages from readers with their own views on the albums addressed in newly published posts.