Navegando Posts publicados em novembro, 2020

Opiniões que levam à reflexão

Na realidade, o passado se conserva por si mesmo, automaticamente.
Por inteiro, sem dúvida, ele nos segue a cada instante.
Henri Bergson

Foram muitas as mensagens sobre o notável pianista Benno Moiseiwitsch. Alguns desconheciam completamente o músico. Outros saudaram a lembrança e apontaram para um caminho que se apresenta como sem retorno tornando a música clássica ou de concerto produzida por poderosas organizações musicais pelo mundo um grande espetáculo multimídia.

Sem questionarem as qualidades inerentes de determinados intérpretes possuidores do domínio pleno do teclado – musicalmente nem sempre – pertencentes à categoria mediática, chamaria maior atenção a forma como realizam as suas performances e a indumentária chamativa a evidenciar que o espetáculo tem de ser totalizante, teatral.

O gestual econômico dos grandes pianistas do passado focalizados neste espaço é evidência nítida de que a grande preocupação daqueles artistas estava direcionada à realização musical essencialmente e que a virtuosidade, quando presente, era apenas o meio para o desempenho o mais correto de determinados segmentos, jamais o fim como desiderato. Essa assertiva ficaria evidente no último exemplo inserido no post anterior sobre o ilustre Benno Moiseiwitsch. Após a plena virtuosidade a enriquecer uma sensível condução das frases musicais em obra de extrema dificuldade, a transcrição de Liszt-Moiseiwitsch da abertura de Tannhaüser de Wagner, o notável pianista com a mais absoluta naturalidade retira um lenço do bolso da lapela, serenamente passa na parte superior dos lábios, volta-se para a câmera e diz sem qualquer fadiga Good Night e Bonsoir.

O professor titular da FFLCH-USP, Gildo Magalhães, escreve: “Delicado – sutil; contido – preciso; emotivo – sublime. Totalmente imperdível!!! Muito obrigado, mais esta vez”.

O ilustre compositor português Eurico Carrapatoso escreveu: “Ao ler o teu escrito ocorreu-me logo o exemplo desta artista, Lola Astanova, nos antípodas do excelso Benno Moiseiwitsch, que não tem qualquer inibição em exibir seus dotes. Ela daria uma excelente actriz de produções do cinema saloio encarnando personagens espúrias do universo Marvel de 2ª categoria, do género Vulva-Woman. O exibicionismo campeia nos corredores da produção de espectáculos, e agora cada vez mais na área da Música Clássica: artistas que são, digamos, escolhidas a dedo”.

Assiste-se presentemente, de maneira sempre crescente, a busca de elementos extramusicais por parte de intérpretes mais jovens para gáudio de um público que une a mensagem musical à teatralidade do executante. À frase do respeitado músico belga André Souris (1899-1970): “O público se preocupa pouco com as intenções do compositor e mais com aquilo que ele ouve”, inserida como epígrafe no post anterior, acrescentaria eu “e com aquilo que ele vê”, a refletir bem a célere despreocupação por parte de intérpretes super mediáticos das novas gerações com o sagrado contido na música clássica, de concerto ou erudita. O amparo das associações promotoras e da mídia é plena a este cenário que sempre objetiva a legião de adeptos e o lucro.

Entre as pianistas mulheres há muitas relativamente jovens e extremamente hábeis, oriundas basicamente do Extremo Oriente e da Europa do Leste, conhecidas mundialmente a se ver, inclusive, no indicador de acessos dos aplicativos mais ventilados. Atingem milhões de buscas em pouquíssimo tempo. Gestual in extremis, sumárias vestes, toda uma produção fixada pelas câmeras e para esse novo público já seduzido pelo espetáculo teatral. Diria que em tantos casos, a música vira um pormenor necessário. Para que o leitor se inteire, o Noturno de Chopin em mi menor op. 72 nº 1 interpretado de maneira inefável por Moiseiwitsch inserido no blog anterior está no Youtube desde Janeiro de 2010 com pouco mais de 5.000 acessos!!! Vídeos da intérprete mencionada por Carrapatoso em 2018 chegam a 8.800.000!!! Dotada de dons técnico-pianísticos evidentes tanto para a desenvoltura da música clássica como da música pop testemunhados por vídeos expondo verdadeiros malabarismos dignos do Cirque de Soleil, mercê igualmente de atributos físicos inquestionáveis da pianista-show, emprega-os servindo-se da Música Clássica em cenários rebuscados. Em um deles executa uma obra sacralizada do repertório “vestida” unicamente com peças “super” íntimas amparadas por asas angelicais!!! A disparidade estratosférica dos acessos ratifica a mudança acentuada do gosto musical, palavras decantadas há séculos. Outra pianista conhecida mundialmente soma-se a essa civilização do espetáculo que busca superar-se, apresentando-se em vídeo com uma das obras mais populares de Franz Schubert a ter no início da exibição sua figura deitada em um pequeno lago e com ramalhete no peito, imitação – a beirar o grotesco – da pintura do pré-rafaelita inglês John Everett Millais (1829-1896), Ofélia. Antolha-se-me que todos esses vídeos visitados por milhões estariam a endereçar repertório clássico em direção ao simulacro. Distrair a escuta é uma forma de desvirtuá-la.

Neste espaço desde 2007 tenho denunciado o caminho que acredito sem volta. Contudo chamou-me a atenção mensagem de um leitor a contestar meu posicionamento e que me pediu anonimato (cito apenas as duas primeiras iniciais JA). Escreve que as gravações dos pianistas do passado eram feitas em condições insatisfatórias para os padrões atuais e que não seria ele um “visitante de museus” – palavras suas -, pois ouve sempre os artistas da nova geração gravados na excelência e quando filmados, “o espetáculo é total” (palavras de JA). Escrevi-lhe a dizer que minha resposta estaria externada no presente post.

Ao longo desses anos tenho salientado a qualidade inefável de pianistas de antanho. Diferentemente de uma obra literária ou de uma pintura ou escultura que fixadas permanecem, a composição sem a presença do intérprete, personagem indispensável, permanecerá, mas apenas como partitura em determinado arquivo. A execução musical só teve registros sonoros a partir dos primórdios do século XX. Os avanços tecnológicos estabeleceram para a gravação avanços incomensuráveis. Dos discos de 78 rotações (78 rpm) à atualidade, passos gigantescos foram empreendidos. Com o surgimento do vinil, (Long Play – LP) nas fronteiras da segunda metade do século XX, mais leve e podendo conter minutagem bem superior, estiola-se a produção dos discos 78 rpm. Mencionei tempos atrás que minha primeira gravação para um Long Play (LP) em 1979 teve a edição realizada pelo técnico ao meu lado com instrumental hoje jurássico, pois editava cortando a fita magnética com uma lâmina de barbear!!! Os veículos de divulgação a partir da aparição do CD em 1990 expandiram-se. Maiores e menores empresas, estas mais seletivas no geral, democratizaram a gravação possibilitando a aparição de milhares de músicos antes sem acesso às grandes gravadoras. Sob outro aspecto a técnica de gravação deu saltos gigantescos. Se a agulha que percorria o vinil era “sinônimo” de atrito, a encobrir um “som puro”, a gravação digital foi um avanço e a aparição do compact disc realidade que ainda perdura. Outros tantos passos têm sido dados de maneira célere. Esses avanços contínuos não inviabilizaram a atenção para com os processos antigos e hoje já são recuperadas gravações de discos 78 rpm e LPs, através de leituras a laser sobre os sulcos antes percorridos pela agulha que têm trazido resultados a beirar a perfeição.

Acredito que temos de ouvir as gravações do passado abstraindo-se da qualidade dos registros, atentando-se apenas à transmissão da mensagem musical. Assim fazendo, podemos compreender a diferença da abordagem, antes significativamente musical, hoje, mesmo a se ter em conta o técnico-pianístico absoluto de tantos pianistas das novas gerações, a atender tantos outros desideratos distantes da essência essencial da mensagem musical e mais ligados ao espetáculo ávido pelo espetáculo. Contudo, também creio que deve o intérprete gravar a partir das condições tecnológicas mais hodiernas, pois a história registrou aqueles excelsos artistas nessas possibilidades extremas da perfeição do momento. Somente através desse acompanhamento ditado pelo avanço constante da parafernália de aparelhos eletrônicos que nos proporciona gravações atuais próximas ao ideal sonoro, podemos avaliar e apreciar com “ouvidos históricos” os grandes mestres de antanho que se utilizavam da “perfeição” que lhes era proporcionada.

Clique para ouvir, de Franz Liszt, Rêve d’amour, na interpretação de Arthur Rubinstein:

https://www.youtube.com/watch?v=nkXOrkeZyqQ

Clique para ouvir, de Franz Liszt, Rêve d’amour, na interpretação de Lang-Lang:

https://www.youtube.com/watch?v=2FqugGjOkQE

 

O leitor tirará suas conclusões.

Among many of the messages received, three caught my attention. One of them comments on the unique experience of listening to Benno Moiseiwitsch’s recordings; another observes the increasing number of performers who use music for self promotion, a situation that has little to do with the essence of classical music. In a third, the reader confesses his preference for current videos due to their better quality, as compared to those of the past.

Pianista entre os maiores

O ouvinte se preocupa pouco com as intenções do compositor e mais com aquilo que ele ouve.
André Souris (1899-1970)
(“Conditions de la Musique”)

Benno Moiseiwtsch é um dos menos ventilados grandes mestres do piano do passado. Razões existiram. Suas gravações têm chegado ao público com maior frequência nos últimos anos, algo alvissareiro.

Insistentemente tenho mencionado o pouco acesso aos ilustres mestres do passado no YouTube. Em relação a Moiseiwitsch a situação ainda é mais dramática, pois as gerações atuais buscam o novo e as tomadas de imagens a focalizar prioritariamente os trejeitos faciais e as mãos, estas quando voltadas à grande virtuosidade. Dessas constatações, observa-se diferença impressionante entre os acessos aos mestres do século XX e aqueles de uma nova geração de pianistas. A evolução tecnológica torna mais atraentes as gravações atuais, mormente se acompanhadas por vídeos. Contudo, acredito que a essência essencial a encontramos preferencialmente naqueles mestres do passado. Na cinematografia que teve avanços extraordinários sob a égide da tecnologia vê-se que a revisita aos clássicos, tantos deles em branco e preto, continua perene.

Clique para ouvir, na interpretação de Benno Moiseiwitsch, de Chopin, o Noturno em mi menor op. 72 nº 1:

https://www.youtube.com/watch?v=j5FHiiiJKFg

Caracteriza a interpretação de Moiseiwitsch uma liberdade absoluta na condução da frase musical, sem abdicar de um respeito à forma. O repertório extenso de Moiseiwitsch se estenderia basicamente de Beethoven a Ravel, mas a concentração nos românticos é sensível. Das criações de Schumann suas interpretações são maiúsculas. Rachmaninov o considerava seu mais fiel intérprete, num período em que o notável compositor ainda despertava uma certa aversão por parte de puristas.

Clique para ouvir, na interpretação de Benno Moiseiwitsch, de Mendelssohn-Rachmaninov, Scherzo:

https://www.youtube.com/watch?v=RWj7QR1XgCU

Nascido em Odessa, na Rússia imperial, hoje Ucrânia, após estudos preliminares em sua cidade, estudaria em Viena com renomado mestre, Theodor Leschetizky, de 1904 a 1908. Com a família embarca para a Inglaterra e se tornaria cidadão britânico em 1937, país ao qual devotaria afeto intenso. Durante a IIª Grande Guerra daria mais de cem recitais para as tropas inglesas, fato que o levaria a receber a “Order of British Empire” logo após o fim dos conflitos.

Como curiosidade, Winston Churchill o admirava, convidando-o frequentemente para jantar em sua morada, ocasião em que solicitava sempre ao pianista tocar a terceira Balada de Chopin.

As gravações de Moiseiwitsch têm de ser ouvidas com percepção outra. Muitas delas não foram devidamente remasterizadas. Todavia ao escutá-las, depreende-se a qualidade invulgar do intérprete que, segundo escrito de Harold C. Schonberg (The Great Pianists, 1963), crítico do New York Times: “seus recitais afirmaram-no de imediato como um pianista elegante e também ‘natural’, natural no sentido de tocar sem tensão nem esforço, pois o piano era como uma extensão de seus braços e mãos. Moiseiwitsch era sobretudo um intérprete lírico de notável fluidez e sutileza”.

Pertencente a uma era na qual o intérprete se concentrava na obra executada preferencialmente à preocupação com o gestual e o externar emoções através da face, Moiseiwitsch apresentava-se econômico nesses itens e as poucas e desgastadas gravações ao vivo focalizam essa atitude.

Clique para ouvir, de Robert Schumann, três peças que integram a Fantasiestücke op. 12, na interpretação de Moiseiwitsch: Warum?, Grillen e Traumes-Wirren.

https://www.youtube.com/watch?v=rrCdeBncBu0

Das composições não escritas para o piano ou para ele transcritas figuram a obra para cravo interpretada ao piano e a transcrição de criações originais para órgão ou então para orquestra vertidas para o instrumento. Em ambos os casos houve “policiamento” estético durante décadas. No que tange ao cravo e ao piano, o notável musicólogo François Lesure no final dos anos 1990 já escrevia que a atitude dos puristas, entendendo como heresia a interpretação ao piano desse repertório, não tinha absolutamente mais validade e que “o tempo do Barroco integrista passou, não sendo mais o instrumento a assegurar a priori a autenticidade da obra, mas o estilo do intérprete”. Quanto à transcrição, cultuada por compositores e pianistas como Liszt, Godowsky, Busoni, Rachmaninov, Siloti, Kempff, Friedmann e tantos outros, durante determinadas décadas do século XX foi altamente criticada. Também nesse caso cai por terra o banimento que puristas tentaram fazer valer. Alain Rampech, autor de “Les Grands Pianistes” (Paris, Buchet Chastel, 2012), entende que “o purismo é a ciência dos imbecis”. Mencionaria que durante quase quatro anos entre as décadas 1950-1960, período em que estudei em Paris, jamais mestres e colegas falaram em transcrições. A divulgação pós morte de Benno Moiseiwitsch, intérprete de transcrições de Liszt e Rachmaninov, teria sentido uma inaceitável diminuição por motivos imperantes num período em que o próprio repertório poderia se tornar empecilho. Apesar da imagem comprometida pode-se ouvir Moiseiwitsch executar, já quase no final da existência, a magnífica transcrição da abertura da ópera Tannhaüser de Wagner realizada por Liszt-Moiseiwitsch.

Clique para ouvi-la:

https://www.youtube.com/watch?v=tR2F5J3UFI8

Recebi quantidade de mensagens estimulando-me a prosseguir nessa incursão num passado glorioso não devidamente ventilado o que me leva à agradável seleção de mestres pouco cultuados pelas últimas gerações. Apesar da inerente virtuosidade dos pianistas que têm sido temas de meus posts, essa qualidade para a maior parte desses grandes músicos não se apresentava como primordial, sendo o conteúdo musical o basilar objetivo. E é esse fundamento essencial que deveria ser revisitado sempre pelas novas gerações, sob o risco de que com o passar das décadas a tradição se estiole.

Benno Moiseiwitsch, born in Odessa, Russian Empire, presently Ukraine, was one of the great pianists of the twentieth century. He was particularly known for his interpretations of the Romantic repertoire. Rachmaninoff considered him his most faithful interpreter. His recordings have been widely disseminated over time. He settled in England and took British citizenship in 1937.

Quando referência ao passado se faz necessária

Os idosos gostam de dar bons preceitos,
para consolo de não mais estarem em condições de dar maus exemplos.
La Rochefoucauld (1613-1680)
(Les Maximes)

Foram muitas as mensagens. Todas saudando a sequência de blogs que se prolonga, sobremaneira durante esta pandemia, nos quais grandes intérpretes de antanho são justamente reverenciados. As colocações dos leitores têm de ser devidamente entendidas. Friso sempre sobre o acesso ao YouTube basicamente diminuto quando das interpretações dos grandes mestres do passado. Meus blogs visam prioritariamente salientar segmentos da cultura erudita, clássica e humanista, que presentemente respira ofegante frente a essa civilização do espetáculo a acentuar, sempre de maneira ascendente, vertentes culturais que sem serem populares numa acepção de raiz,  associam-se às correntes  que, ou sopram acima do equador ou aqui nascem, amplamente amparadas pela grande mídia. Admiro profundamente as manifestações culturais genuínas do povo, autênticas, sem máculas, pois tem-se fonte permanente de inspiração a tantos compositores, artistas plásticos, poetas e escritores que perduraram na história.

Assiste-se nessas últimas décadas a um conjunto de formas impactantes nas artes e na música mais acentuadamente.  O surgimento meteórico de um personagem vem acompanhado profusamente por associação de acessórios como efeitos de luzes, imagens, gestos improvisados, ritmos e tentativas de cantos, vestuário “criativo”, não apenas a descaracterizar ainda mais uma espécie de “mensagem musical”, mas possivelmente com outras finalidades. O eleito ídolo pela mídia e por legião de adeptos é seguido em seus cantos e imitado em seus gestuais. Consequência natural.

Chamou-me a atenção entrevista recente de uma cantora pop a uma colunista de veículo de grande circulação em São Paulo. Uma só frase colocada em destaque evidencia a compreensão distinta de valores e que certamente será assimilada como verdade pela legião seguidora da entrevistada, presente em várias áreas. Dizia ela que “o elitismo cultural é cafona”.

A banalização que tende a enroupar a decadência dos costumes e a acentuar a mutação constante do que é aceito no momento para padrões sempre mais ousados, tem tido por parte da mídia a guarida ampla. Fiquei a pensar no “conteúdo” da longa entrevista que revela pensamento a enfatizar distorção a causar impacto.

A palavra cafona a rotular a elite cultural tem como sinônimos, entre outros termos, brega e chinfrim e poderia ser interpretada ainda mais pejorativamente na entrevista, dependendo do próprio conceito de elite assim expresso no Caldas Aulete: “minoria mais apta, ou mais forte, dominante no grupo. (Usado no pl. tem sentido mais genérico e refere-se às minorias culturais políticas ou econômicas em cujas mãos está o governo do Estado)”. Parcela pequena da elite cultural professa o humanismo, as artes, a música erudita e a literatura. Mario Vargas Llosa define a atualidade como “civilização do espetáculo” e aponta para o declínio da cultura erudita.  O ideal seria que a cultura humanística permanecesse perene, divulgada e assimilada pelas várias camadas sociais e fosse preocupação dos detentores de decisões.

Parte considerável da grande mídia ao divulgar e debater temas como política, segurança, saúde, economia, esportes, mergulha em assuntos nada edificantes sobre a vida pessoal dos caracterizados “famosos”, inviabilizando por completo o crescimento cultural, moral e ético da população. Diminui a possibilidade de reflexão pelo excesso de banalidades e os textos sofríveis estão eivados de incorreções que no todo teriam tudo a ver com o valor do que é divulgado.

O desaparecimento da temática cultural, erudita ou clássica das páginas dos portais online empobrece o já minguado conhecimento existente dos valores do passado e do presente. Sem acesso à memória cultural artística pela falta de divulgação, as novas gerações acabam por desconhecer as obras referenciais nos campos das artes e da literatura. Esse desconectar torna quase sempre irreversível a recuperação do saber humanístico e artístico. Parte-se do imediato efêmero, logo transmutado em algo ainda mais superficial. Mesmo que determinadas manifestações e aparições congreguem milhões de adeptos nos múltiplos processos de ampla divulgação, certamente a existência do efêmero se extingue espontaneamente, pois substituído de imediato por outras manifestações à maneira de um tsunami avassalador que passa e destrói, no caso, sem intervalo de tempo.

Ficaria uma pergunta sobre a capacidade de uns poucos redatores diaristas voltados à cultura humanística proporem outras pautas que não a dessa “cultura” que se esvai com tanta rapidez. Teriam força diante dos seus superiores mediáticos, uma das categorias de elite, tantos deles sem a básica cultural humanística? É toda uma engrenagem que envolve poder e lucro. Os “valores” que estão diariamente sendo ventilados estão a despreparar as gerações futuras. Elos foram partidos e a junção dessa corrente antes coesa não é objetivo dos que estão envolvidos, sejam eles dirigentes ou redatores. É todo um conjunto de informações degradantes que homeopaticamente têm influência sobre a conduta humana, pois conhecimentos sedimentados e edificantes estão sendo destruídos. Pareceria que se está a viver na plenitude conceito antigo de que batalhas podem ser ganhas, mas que a guerra estaria definitivamente perdida. Parafraseando o poeta Luiz Guimarães Junior (1844-1898): “Resistir quem há-de?” Uns poucos certamente.

A certain statement, during a widely publicized interview, motivated reflections on the absolute reversal of values and consequent disdain for elitist, erudite or classical culture in the present civilization of spectacle, which increasingly aims towards the ephemeral and the seduction of the masses.