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João Gouveia Monteiro diante de relevante programação

Ignorar as vidas dos homens mais ilustres da antiguidade
é continuar sempre na infância.
Plutarco (46 d.C. – 120 d.C.)
Recebi do meu dileto amigo João Gouveia Monteiro, professor Catedrático Jubilado da Universidade de Coimbra e um dos maiores especialistas em História Medieval, a comunicação alvissareira de uma série de podcasts voltados a personagens do mundo antigo. Gouveia Monteiro tem nesse belo projeto a colaboração do jornalista Ricardo Venâncio.
Bem anteriormente, a produção histórico-literária de Gouveia Monteira já me despertava vivo interesse. Vários foram os blogs sobre a sua obra individual, máxime “Crónicas da História, Cultura e Cidadania” (23/12/2011) e “Nuno Álvares Pereira – Guerreiro, Senhor Feudal, Santo Os três rostos do Condestável” (05 e 12/11/, 2022), assim como sobre livros em que foi um dos coordenadores, sempre a focalizar a sua área de atuação.
Gouveia Monteiro, em “Vidas em Paralelo”, presta homenagem a Plutarco, referencial historiador, pensador e biógrafo grego. Entre suas obras, destaca-se “Vidas Paralelas”, na qual, nos 23 pares biográficos, rende preito às figuras notáveis da Grécia e Roma Antigas. Estou a me lembrar de que nosso Pai conservava um volumoso “Vidas Paralelas” e os quatro filhos tiveram o prazer de ler na juventude algumas dessas duplas biografias.
No plano inicial, dele a constar 10 podcasts, estão assinalados os já disponíveis. Em alguns participa a historiadora Leonor Pontes. João Gouveia Monteiro, por vezes, é questionado pelo jornalista Ricardo Venâncio, momento em que cada intervenção poderia certamente ser a de um ouvinte da série. Essas criteriosas perguntas, prontamente respondidos por Gouveia Monteiro, tornam-se relevantes, ressaltando outros pormenores acrescidos à exposição planejada.
1. Alexandre Magno e Júlio César. (já disponível, Partes I e II). 2. Buda e Confúcio. (já disponível, Partes I e II). 3. D. João I e Nuno Álvares Pereira. (já disponível, Partes I, II e III). 4. Leonor Teles e Filipa de Lencastre (com Leonor Pontes). (já disponível, Partes I e II). 5. Jesus e Maomé. (já disponível, Partes I e II). 6. Fernão Lopes e Pero López de Ayala. 7. Justiniano e Carlos Magno. 8. Cristina de Pisano e Joana d’Arc. 9. D. Dinis e a Rainha Santa (com Leonor Pontes). 10. Carlos Seixas e Beethoven (com Paulo da Nazaré Santos).

https://podcasts.apple.com/us/podcast/vidas-em-paralelo-um-podcast-com-hist%C3%B3ria/id1843058148

Acessado o link, o leitor poderá ouvir a apresentação do tema escolhido. Dois aspectos se me afiguram como fundamentais, a competência insofismável de Gouveia Monteiro traduzida pela serenidade da sua narração, assim como o método empregado para a trama expositiva, tornando o todo do podcast selecionado extremamente agradável e instrutivo.

Divulgá-los no Brasil adquire importância, pois os temas, com exceções, são pouco estudados e, por consequência, minimamente ventilados no país. Paulatinamente estou a ouvir os podcasts, entre eles um dos programas dedicados a D. João I e Nuno Álvares Pereira e o primeiro a focalizar Jesus e Maomé. Após as leituras, no segundo lustro dos anos 1950, de dois livros referenciais sobre Nuno Álvares Pereira de autoria de J.P. Oliveira Martins, e o já mencionado livro de Gouveia Monteiro, a narrativa deste nessa programação indispensável traduz de maneira clara e sucinta duas das mais relevantes figuras da História em Portugal. Poder-se-ia afirmar que, no espaço de aproximadamente uma hora fixado para cada programa, tem-se outros fatos essenciais de figuras marcantes de um heroico passado histórico de Portugal. Quanto aos dois podcasts referentes a Jesus e Maomé, eles adquirem uma complexa, mas vital importância na atualidade, pois abordam as duas religiões mais professadas no mundo. No que concerne a este último tema, assim como Buda e Confúcio, podcast que visitarei brevemente, Gouveia Monteiro já coordenara a fundamental edição “História Concisa das Grandes Religiões” (Lisboa, Manuscrito, 2022).
Próximo do milésimo post (998), incontáveis vezes salientei a triste derrocada da Cultura Humanística, no Brasil de maneira avassaladora. Mario Vargas Llosa (1936-2025), em “La Civilización del espetáculo”, já apregoava essa decadência em termos mundiais. Personagens em nosso país, sem a estrutura cultural ao menos envernizada, proliferam nos meios de comunicação como influencers, o infeliz termo da moda, e o resultado está a ser notado na formação das novas gerações. “Notabilizados”, esses influencers ocupam espaços avantajados na mídia, e temas culturais relevantes tornaram-se escassos. Preocupação maior desses meios é a divulgação dos que vivem sob os holofotes, e a Cultura Humanística, não tendo interesse para a grande “clientela” devido a tantos entraves, oficiais ou não, por que com ela se importar?
Convido meus leitores, muitos deles me acompanhando desde 2 de Março de 2007, a paulatinamente ouvirem os podcasts. Uma bela viagem pela História.
‘Vidas em Paralelo’ (Parallel Lives), divided into 10 podcasts, is a programme dedicated to illustrious figures in human history. Presented by João Gouveia Monteiro, retired professor of the University of Coimbra, the series features the collaboration of journalist Ricardo Venâncio.

Maria Fernanda e quatro décadas a me seguir com desenhos

Ninguém pensa que pintar,
modelar ou gravar seja patrimônio comum da natureza de homem;
e que o sejam igualmente a poesia ou a dança:
acha-se que são um dom, uma genialidade, e além de tudo raros.
Agostinho da Silva
(“Só ajustamentos”)

Após a apresentação de inúmeros desenhos e pinturas que tive o privilégio de receber de artistas que compareceram aos recitais no Brasil e no Exterior, dedico este último blog sobre o tema aos desenhos que nossa filha Maria Fernanda (1968-) realizou durante quase cinco décadas seguindo  minha trajetória pianística e acadêmica.

Acredito muito na realidade dos dons individuais. Se nos esportes, desde a tenra idade, é possível detectar o talento, um exemplo nítido pode ser aferido entre os atletas de corrida. Uns têm o físico moldado para a velocidade, outros para as maratonas. Há aqueles que desde a infância apresentam inclinações para as artes, a música, a ciência… Maria Fernanda (1968-) é formada em Psicologia, Artes Plásticas e pós-graduada em Gerontologia. Sua irmã Maria Beatriz (1965-) tem atração pela cultura humanística. Formada em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco, competente, foi procuradora do Estado. Aposentada, volta-se mais intensamente às culturas humanística e espiritual. Regina, Maria Beatriz e eu não temos minimamente o dom para as artes plásticas, apesar de apreciarmos intensamente os múltiplos direcionamentos artísticos.

O primeiro desenho espontâneo, Maria Fernanda realizou aos dez anos. Vê-se a ausência da perspectiva e o teclado do piano em posição vertical testemunha a indecisão.

Dois anos após, um segundo desenho. Sobre o piano, compositores que o pai interpretava.

Estava a escrever o livro “O som pianístico de Claude Debussy” (1981) e Maria Fernanda não deixou de registrar.

Quando da tese de doutorado sobre nosso grande compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931), na FFLECH-USP (1988), Maria Fernanda fez um desenho.

Clique para ouvir, de Henrique Oswald, “Polonaise”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=fY8suJqIHW0

Em 1989, ano do sesquicentenário do nascimento do notável compositor russo Modest Moussorgsky (1839-1981), apresentei a integral do Mestre no Brasil, sendo que na antiga DDR, Alemanha Oriental, unicamente as peças avulsas do autor dos extraordinários “Quadros de uma Exposição”. Estava a cochilar e Maria Fernanda fez uma montagem com frase a se revelar assertiva.

Clique para ouvir, de Moussorgsky, “Cena da Coroação” da ópera Boris Goudonov, na interpretação de J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=GFiQhAHtovE&t=4s

Na tese de Livre Docência na USP, “O idiomático técnico-pianístico de Claude Debussy” (1990), Maria Fernanda insere no seu desenho uma frase com humor.

Clique para ouvir de Claude Debussy, Étude pour les arpèges composés, na interpretação de J.E.M:

Claude Debussy – Etude Pour les arpèges composés – José Eduardo Martins – piano

Depois de uma conversa, Maria Fernanda registrou o encontro (1999).

Após uma intervenção cirúrgica, lá estava Maria Fernanda com sua caneta a documentar (2004).

Fixou o pai a pensar.

Dissera a Maria Fernanda que daria a última aula na USP antes da aposentadoria. Compareceu e, como sempre, registrou um momento preciso.

Pouco antes da minha última apresentação pianística pública, encerrando 70 anos nessa atividade, Maria Fernanda quis desenhar as mãos do seu pai. Ei-las:

Ao ler o blog da semana para a filha Maria Beatriz, o sexto e último sobre os desenhos, lembrou ela de um realizado pelo seu avô, meu saudoso sogro, o notável engenheiro agrônomo, especialista em raízes e tubérculos, Edgard Sant’Anna Normanha (1914-2002), considerado o “Pai da moderna mandiocultura brasileira”.

In this last blog dedicated to the artists in Brazil and Europe who have honored me with drawings and paintings after my presentations, I introduce my daughter Maria Fernanda, a psychologist with an obvious gift for drawing. From the age of 10, she spontaneously drew pictures of her father.

Boris Shapovalov um artista telúrico

Sempre que a arte tiver como objeto as sensações,
encontrar-se-á na presença de leis científicas,
muitas das quais são absolutamente incontestáveis.
Jean-Marie Guyau (1854-1888)

Boris Shapovalov (1952-), natural de São Petersburgo, é um artista efetivamente singular. Conheci-o em Gand, pois quase todos os anos expunha seus trabalhos na galeria La Perseveranza, anexa à De Rode Pomp. Era sempre motivo de alegria nos reencontrarmos e Boris comparecia aos recitais que apresentava no auditório da empresa de concertos e gravações.

Boris Shapovalov tem um currículo invejável, não apenas através de exposições em seu país natal, onde é respeitado por sua arte. Recebeu   calorosa acolhida na Bélgica, granjeando amizades entre os artistas das artes visuais e músicos. Anticonvencional, irreverente, espontâneo e generoso, Boris demonstrava, através de atos, o não comprometimento com o establishment, que elege o que pode ser rentável. Pintava seus trabalhos pelo prazer sem limites de pintar. Artista de uma cultura abrangente, viajou por toda a Rússia, a colher impressões. Sua curiosidade o fez conhecer quantidade enorme de museus nos centros que visitava. Todo esse acervo cultural corroborou a edificação de um estilo definido.

Como expunha quase que anualmente seus trabalhos na La Perseveranza, aguçava-o o grande painel do palco e todo o ano renovava a pintura com formas e cores vibrantes, a despertar no ouvinte dos concertos a sensação do inusitado, pois Boris em cada imensa criação na sala de concertos da De Rode Pomp depositava a aura autêntica.

Havia dado um recital em que apresentei a integral dos Estudos de Debussy.  Após a récita, André Posman nos convidou para um jantar na sede da Rode Pomp e abriu uma garrafa grande de Champagne. Estranhei o fato de, logo após o congraçamento, Boris ter colocado a garrafa vazia sob o braço e se retirar. No dia seguinte me ofereceu a garrafa com sugestiva pintura.

Clique para ouvir, de Claude Debussy, “Étude pour les huit doigts”, na interpretação de J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=D85tz0ibqRk

Estava a ensaiar na sala da De Rode Pomp e sequer vi a presença de Boris. Dias após me ofertou cena que havia captado.

Quando de um recital de música de câmara, noite na qual o excelente Rubio Kwartet e eu apresentamos um concerto inteiramente dedicado à música camerística do nosso maior romântico, Henrique Oswald (1852-1931), Boris presenteou-me com o óleo sobre tela a homenagear o sarau, fixando no verso os créditos com o “autorretrato” tão habitual em seus quadros (21/02/2002).


Após um recital Scriabine na De Rode Pomp (2000), fomos no dia seguinte a um café em Gand. Conversamos sobre a música russa de Moussorgsky a Scriabine. Estava eu a caminhar nas ruas da cidade dias depois quando encontro Boris que, ao me ver, abriu uma sacola, oferecendo a arte que fizera após o aprazível diálogo anterior

Clique para ouvir, de Alexandre Scriabine, “Valse op.38”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=97MoXq2KWig

Acredito que artistas como Boris Shapovalov e os mencionados belgas e holandês do blog anterior têm o precípuo sentido da arte desvinculada do mercado. São mestres autênticos e a generosidade que tiveram para com o intérprete nunca foi olvidada. Guardo com carinho todos os desenhos e pinturas. Dádiva.

No próximo e último post sobre os desenhos e pinturas que tive o privilégio de receber graciosamente de artistas relevantes que se tornaram amigos, focalizarei nossa filha Maria Fernanda, psicóloga, mas com um dom singular para o desenho. De um primeiro aos dez anos, sem noção das proporções, aos inúmeros em que retratou o pai ao longo das décadas, Maria Fernanda demonstra a precisão do traço.

Boris Shapovalov, born in St Petersburg, is an important painter. I met him in Ghent, Belgium, as he often exhibited his works in the Belgian city at the La Perseveranza gallery, which belonged to De Rode Pomp. Our friendship resulted in paintings that he gave me and that I keep as  treasured possessions.