Navegando Posts em Cotidiano

Sem luz no fim do túnel?

Sou especialista da curiosidade não especializada.
Agostinho da Silva (1906-1994)
(“Espólio”)

Deixei passar algumas semanas para tecer observações que tiveram comprovação transparente no que concerne aos jogadores da nossa seleção frente aos desafios da Copa tão almejada pelo povo brasileiro. Ficou evidente o desempenho pífio da seleção em todos os cinco jogos que a levaram à melancólica eliminação. Contrariando a maioria dos meus próximos, não tinha nenhuma esperança nessa seleção sem brio. Desconhecia a maioria dos jogadores, um dos fatos que me encaminhou para a incógnita. O anúncio da convocação, em festividade desproporcional a um ato de rotina, normalmente realizado de maneira protocolar mundo afora, já era um indicativo de interesses outros a se acoplarem à essência do futebol.

Recordo-me dos anos a estudar piano em Paris com mestres extraordinários (fins de 1958-1961), sem ter retornado ao Brasil nesse período. Ao regressar e após recital em São Paulo, fui entrevistado pela renomada atriz Bibi Ferreira (1922-2019) em um programa televisivo. A certa altura, ela observou que eu mantinha um sotaque afrancesado. A ponderação de Bibi Ferreira calou-me fundo durante um certo tempo. Confesso que no regresso, durante um período razoável, meus pensamentos estavam voltados à cultura e ao modus vivendi europeu: repertório pianístico alargado, apresentações e concursos internacionais, intensa leitura dos grandes escritores, amizades preferencialmente ligadas à cultura musical e literária da França, conjunto que me foi fundamental durante o passar dos anos. Sempre a conservar uma admiração plena pela cultura europeia, passei a admirar progressivamente nossos valores culturais e, à minha dedicação contínua ao maiúsculo repertório europeu, agregaram-se paulatinamente criações de compositores brasileiros, que estariam intensamente presentes doravante entre os meus eleitos.

Esse prólogo se faz necessário para que as deduções sobre o desempenho do futebol brasileiro nestes últimos lustros tenham alguma racionalidade, frise-se, totalmente desprovida de quaisquer outras intenções neste espaço.

Se pensarmos em alguns dos maiores ídolos do futebol brasileiro que se transferiram para o futebol europeu, como Julinho (Júlio Botelho – 1929-2003) e Careca (Antônio de Oliveira Filho – 1960), suas mudanças deram-se tardiamente, em 1955 e 1987, respectivamente, ou seja, após os 25 anos de idade.  Roberto Carlos (1973), após brilhar no Palmeiras, transferiu-se para a Europa aos 22 anos para jogar na Internazionale e no Real Madrid. Pelé (Edson Arantes do Nascimento (1940-2022), o atleta do século pelo Comité Olímpico Internacional (2000), só se transferiu para o New York Kosmos em 1975, um ano após se aposentar do seu time eleito, o Santos. Qualidades inalienáveis que estavam nas raízes do futebol brasileiro, como o drible, as improvisações desconcertantes e a alegria de jogar corroboraram essas contratações. Retornaram ao país de origem e vários prosseguiram suas brilhantes carreiras. O passar dos anos afunilou a precocidade das transferências. Romário (1966-), Ronaldo “Fenômeno” (1976-), Ronaldinho Gaúcho (1980-) e Adriano “Imperador” (1982-), nas fronteiras dos 20 anos, firmaram contratos com times da Europa e o retorno ao país se deu a fim de encerrarem suas atividades.

Considere-se que as transações eram imensamente menos custosas para os times compradores. Naquela época dizia-se “prata da casa”. As somas vultosas atuais poderiam alterar a designação para “diamantes da casa”, máxime para determinadas contratações a preços estratosféricos.

Presentemente, há casos em que, ainda imberbes, jogadores talentosos assinam pré-contratos a partir da idade mínima permitida na Europa para essas transações, documentos baseados na esperança do vir a ser do atleta saído da adolescência. Partem, majoritariamente sem um nível educacional sedimentado, para centros futebolísticos avançados, resultando no deslumbramento ou na decepção.

Transferência realizada, esses jovens jogadores recebem altos salários, inimagináveis em termos brasileiros se considerarmos os correspondentes décadas atrás. Sim, há uma plêiade de ótimos jogadores pátrios atuando, máxime na Europa. Permanecerão, tudo leva a crer, muitos anos no Exterior e, por vezes, serão transferidos para outros clubes igualmente qualificados. Esse é um processo bem natural, os ganhos continuarão elevados e os que, ao longo dos contratos, não corresponderem ao que deles se esperava, normalmente retornarão ao futebol pátrio ou serão transferidos para clubes menores da Europa ou da Ásia.

Acredito que esse grupo de jogadores atuando no Exterior perde, com o tempo e o sucesso, aquilo que sobejamente sobra nos atletas argentinos, a garra, atributo este que faltou na decisão contra a Espanha devido, é possível, ao cansaço pelas prorrogações anteriores, mas certamente pela enorme qualidade técnica e tática superior da seleção espanhola. Aquele apego ao Brasil, tão presente nas seleções vencedoras em 1958, 1962, 1970, 1994, 2002, esvaiu-se. Tive a sensação plena do não comprometimento dos nossos badalados jogadores, inicialmente nos quatro jogos iniciais e, a seguir, na contenda em que o Brasil foi derrotado pela Noruega. A seleção evidenciou nitidamente o não comprometimento pleno. Perdíamos por um gol, os atletas noruegueses ficavam a trocar bolas no centro do campo e os nossos jogadores não lhe davam combate. Excepcionalmente, diante de uma seleção historicamente inferior, mas que lutou bravamente, a Noruega teve 66% de posse de bola e o Brasil, 34%. Foi a menor porcentagem de posse de bola desde 1966 ao longo das Copas. Contrariamente, a seleção da Argentina, ao sofrer os gols do Egito e da Inglaterra, não mais deixou os oponentes respirarem. A todo instante um jogador argentino dava combate àquele adversário que estava com a bola.

A ratificar o apreço menor ao país, após a derrota diante da brava Noruega, o avião fretado para a delegação brasileira retornou ao país com apenas um jogador. Uns foram paras suas moradas na Europa, outros mais para gozarem as férias, e aquele proclamado anos antes como o salvador da pátria, um ex-jogador em atividade, segundo jornalistas não comprometidos, poucos dias após o fracasso estava em torneio de carteado em um cassino dos Estados Unidos. Esses distanciamentos não são a evidência cabal do não comprometimento? Sob outra égide, o treinador preferiu se refugiar em sua propriedade no Canadá ao invés de, ao menos, regressar ao Brasil e se pronunciar. Acúmulo de erros, desinteresse transparente da maioria dos jogadores, evitando explicações em entrevistas, silêncio da CBF…

Não mais acredito em uma verdadeira seleção imbuída dos valores nacionais, com “o sangue nos olhos”, como o jargão professa. Uma CBF plena de interesses, patrocinadores poderosos e influentes gerindo paulatinamente os clubes nacionais e a consequente perda da identidade dos nossos jogadores, que passam a ser, apenas, mercadoria valiosa nas mãos de dirigentes e empresários. A alegria, a espontaneidade, o drible, marca registrada dos atletas de antanho, como os de Pelé, Garrincha, Ronaldo e Ronaldinho, ficaram na memória daqueles que tiveram o privilégio de vê-los atuando.

Sob outro aspecto, já não somos há tempos o país do futebol. Ásia e África evoluíram muito no que tange ao esporte bretão. Marrocos, Cabo Verde, Costa do Marfim, Egito e Japão evidenciaram progressos expressivos, mormente planejamento. A Europa recebe anualmente a talentosa “safra” de jogadores bem jovens da América do Sul e da África como um todo. Em termos sul-americanos, a Argentina demonstrou, na Copa anterior ao se sagrar campeã e, de maneira implacável na última eliminatória para o maiúsculo certame, uma superioridade enorme comparada à nossa desorganizada e sem anima seleção.

No presente só exportamos jovens saídos da puberdade. Essa atitude, mais a consequente perda de identidade desses talentos promissores, só levarão nossas aspirações em termos de Copa do Mundo ao impasse. Não será em quatro anos, até a próxima Copa, que se estruturará uma seleção, partindo hoje da estaca zero, pois é desta situação que teremos de partir, ainda mais sob a direção de um técnico estrangeiro com contrato firmado até 2030, extraordinário treinador em clubes expressivos europeus, mas que tomou decisões equivocadas não apenas na convocação dos jogadores, como também na escalação para os jogos. Tem histórico comprovado para realizar uma restruturação total da nossa seleção.

Poderia parecer absurdo, mas creio que, neste imenso país com tantos times relevantes, uma seleção apenas com os que estão a disputar jogos no Brasil não poderia ser uma solução? O amor à camisa canarinho não estaria preservado? CBF, patrocinadores e empresários permitiriam?

Comentei a temática do post com o dileto amigo Dorinho Bastos, renomado cartunista e professor doutor da ECA-USP. Dias após, Dorinho me enviou o sugestivo cartoon que ilustra o blog.

My belated reflections on our national team’s dismal performance in the World Cup and the loss of a sense of national identity among our players, who almost always leave Brazil as soon as they reach puberty, moving to European teams with astronomical salaries. Sponsors, agents, and the governing body of Brazilian soccer itself, the CBF, have a lot to explain regarding the causes of such a disjointed national team

 

 

Quatro mensagens significativas

Seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau;
mas é nessa mesma maldade que devemos procurar
o apoio em que nos firmamos
para sermos nós próprios melhores
e, como tal, melhorarmos os outros.
Agostinho da Silva (1906-1994)

Tardiamente insiro no blog hebdomadário quatro dentre as diversas mensagens recebidas sobre os coletores de resíduos, orgânicos ou não. Elas apreendem o âmago da árdua profissão, fundamental em todas as cidades, independentemente do tamanho. Transcrevo-as, pois não apenas captam a função do coletor como expandem o tema para os não oficiais, representados pelos catadores que, puxando suas pequenas carroças ou em velhos veículos motorizados, recolhem igualmente caixotes, garrafas e outros descartáveis.

Maria Stella Orsini, professora titular jubilada da Eca-USP, escreve: “Confesso que tenho grande preocupação com o lixo que se acumula na nossa cidade. Quando estudante, eu e minhas colegas da Caetano de Campos fazíamos longas caminhadas pela famosa rua Barão de Itapetininga. Hoje, além de muito suja, essa rua tem cheiro insuportável. Tenho o hábito de doar o material que pode ser aproveitado para os que empurram esses carrinhos superpesados. Frequento um supermercado que tem ótimas embalagens. Não uso mais plásticos, mas eles podem ser aproveitados pelos que não possuem nenhuma embalagem. Ainda coloco um pacotinho de Miojo. Não gosto e nem como, mas para eles o sal desse alimento pode ser o único que estão comendo nesse dia. Felizmente o curso de Ciências Sociais permitiu que eu e meus colegas recebêssemos uma ótima formação em Política. Na verdade, nosso país é muito mal administrado. Presenciei em inúmeras cidades europeias a lavagem das cidades, ao raiar o dia. Como as cidades japonesas são impecavelmente limpas?”

Marisa de Jesus Martins da Costa envia-me um poema inserido em seu livro “A menina que consertava o mundo”:

O carroceiro

- Bom dia, senhor carroceiro!
- Bom dia, menina bonita!
- O que carrega aí?
- Carrego reciclável.
- O que é reciclável?
- É latinha, papelão, madeira, vidro…
- O que vai fazer com isso?
- Vou vender! Comprar comida pra distrair o estômago.
- Cadê o cavalo?
- Não necessito, não! Tenho pernas e braços fortes e Deus na cabeça.
- Minha mãe mistura tudo. Comida com o tal reciclável.
- Ensina pra ela, então! – Outro dia achei um livro no lixo.
- Livro não se joga no lixo, não!
- Quem faz isso?
- É o homem que não gosta das letras.
- Eu sei ler e escrever. Escrevo pra minha família em Massarandupió.
- Massarandupió? Onde fica?
- É longe. Fica atrás do mapa. Um dia volto pra lá.
- Vou perder meu amigo carroceiro?
- Perde, não! Amigo é para sempre. Esteja onde estiver”.

O Professor titular jubilado da FFLECH-USP, Gildo Magalhães, presente em tantos posts, o que muito me alegra, envia a mensagem:

“Ainda sob o impacto agradável da sua execução brilhante de música russa, concordo integralmente com suas observações sobre os trabalhadores da coleta de lixo. Quando vivi na Alemanha, na década de 1980, só os imigrantes se sujeitavam a esse trabalho árduo e ao salário,  mas com uma atenuante: era facilitado pela mecanização, que obrigava todos a usarem o mesmo modelo de lata de lixo, que era pega por braços mecânicos, despejada e devolvida automaticamente. Idem para a varrição de ruas, completamente mecanizada. Enfim, coisas de sociedade mais desenvolvida…”

Em um outro contexto, diria “oficial”, recebi mensagem substanciosa e esclarecedora da minha dileta sobrinha Ângela Gandra Martins, advogada, jurista, com Doutorado e Pós-Doutorado em Filosofia do Direito pelas Universidade Presbiteriana Mackenzie e Universidade Federal do Rio Grande do Sul, respectivamente, sendo hoje Secretária de Assuntos Internacionais da Prefeitura de São Paulo, possivelmente convidada, in addendum, por dominar sete idiomas.

“A cidade de São Paulo possui uma das maiores estruturas públicas de gestão de resíduos sólidos da América Latina, combinando coleta seletiva, infraestrutura urbana e inclusão produtiva de cooperativas de catadores. Nos últimos anos, a Prefeitura ampliou significativamente a cobertura da coleta seletiva porta a porta, alcançando atendimento em todos os 96 distritos da capital. Atualmente, são recolhidas diariamente cerca de 324 toneladas de materiais recicláveis, encaminhadas para uma rede de 29 cooperativas habilitadas pelo município, envolvendo mais de 1.500 cooperados diretamente vinculados ao sistema público de reciclagem. Além disso, a cidade opera duas modernas centrais mecanizadas de triagem – Carolina Maria de Jesus e Ponte Pequena – com capacidade conjunta para processar aproximadamente 500 toneladas de resíduos recicláveis por dia, consolidando São Paulo como referência em infraestrutura de reciclagem urbana na América do Sul.

Outro eixo estratégico da política municipal é a ampliação dos equipamentos de descarte voluntário e logística reversa. A cidade conta com mais de 100 ecopontos distribuídos pelo território, além de milhares de Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), contêineres verdes e equipamentos específicos para vidro, óleo e resíduos recicláveis. Esses espaços permitem que a população descarte corretamente resíduos da construção civil, móveis, eletrodomésticos, recicláveis secos e outros materiais que normalmente acabariam em vias públicas, córregos ou áreas ambientalmente vulneráveis. Paralelamente, programas de compostagem e aproveitamento de resíduos orgânicos de feiras livres vêm sendo utilizados para transformar resíduos alimentares em adubo, reduzindo a pressão sobre os aterros sanitários e incentivando práticas alinhadas à economia circular e à mitigação das mudanças climáticas.

No campo da inclusão produtiva, a Prefeitura também, vem fortalecendo programas voltados ao cooperativismo e à profissionalização dos catadores. Por meio do programa SO Coopera, coordenado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, o município promove oficinas, capacitações, mapeamento de cooperativas e articulação com parceiros públicos e privados para ampliar oportunidades econômicas no setor de reciclagem. Outro destaque é o programa “Reciclar para capacitar”, que já profissionalizou mais de mil catadores na cidade, oferecendo cursos, apoio operacional e incentivo à organização produtiva das cooperativas. Além das políticas estruturantes, ações temporárias como o ‘Bloco de Reciclagem’, realizado durante o carnaval paulistano, demonstram o impacto econômico e ambiental da atuação dos catadores: somente na edição de 2026 foram recuperadas mais de 32 toneladas de recicláveis, movimentando cerca de R$120 mil em renda para cooperativas participantes. Essas iniciativas reforçam como a política de resíduos sólidos de São Paulo vai além da limpeza urbana, atuando também como ferramenta de geração de renda, redução das desigualdades e promoção da sustentabilidade nas cidades”.

I have selected four messages among many received about the blog dedicated to the so-called refuse collectors, indispensable figures who are sorely undervalued.

Trabalho extenuante realizado com dedicação

Escuta, escuta, tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém – mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?

Eugénio de Andrade, notável poeta português (1923-2005)

Desde o início da publicação dos blogs, vários posts foram dedicados àqueles que ou ficaram à deriva na sociedade ou em atividades laboriosas exaustivas. Uma das mais importantes funções na organização das cidades, a coleta de resíduos, não merece por parte dos governos a atenção desejável. Trata-se de um serviço público, contudo majoritariamente é realizada por empresas terceirizadas, logicamente contratadas pelas prefeituras. Os salários daqueles responsáveis pela coleta são baixos, mas eles são figuras fulcrais na manutenção da limpeza das cidades, pois têm de manter para a difícil atividade, em acréscimo, preparo físico, disposição para a função e redobrada atenção com o material coletado, inclusive com a possibilidade de contaminação. Na realidade, são eles os responsáveis para que inúmeras pragas sejam minimizadas, que produtos químicos, material descartado de hospitais e outros mais sejam retirados, assim como corroboram para a limpeza das áreas públicas, dando finalmente destino ao imenso material coletado.

Estou a me lembrar da infância vivida na Vila Mariana. Coletores de resíduos recolhiam os dejetos das casas deixados nas calçadas em caixas de papelão ou latões grandes com tampas, estes não descartáveis. Os catadores jogavam esse material nas caçambas grandes de um carroção puxado por dois cavalos ou burros e devolviam o recipiente. Nossa mãe por vezes distribuía café com pãezinhos aos trabalhadores. Após décadas morando em uma casa no Brooklin, por vezes igualmente interagi rapidamente com os coletores de detritos, pois o contato com esses profissionais nesse tipo de moradia torna-se mais direto e frequente. Quantas não foram as vezes em que, ao esquecer de colocar os sacos de resíduos na calçada, após ouvir o ruido do caminhão e as vozes dos coletores corria até o portão, chamava-os e sempre, cordialmente, eles voltavam e retiravam os sacos. Em outras oportunidades, ao lhes oferecer uma garrafa de refrigerante e um pacote de biscoitos, comovente era a recepção desses verdadeiros especialistas. Ao longo, sabia o nome de diversos.

Recentemente tivemos de mudar da casa para um apartamento – fato inserido em blogs no início de 2025 – devido à sanha avassaladora das construtoras, que estão a demolir determinados bairros para a edificação de prédios, Brooklin e Campo Belo numa lista prioritária. A minha percepção da atividade dos coletores de resíduos teve um outro approach que, na realidade, só ampliou a minha admiração pelos laboriosos cidadãos. Vejo-os do apartamento, no início da noite, em posição logicamente distinta daquela visão tão próxima quando na residência anterior. Funcionários dos prédios colocam os enormes sacos de resíduos nas calçadas ou em pequenos recintos nas laterais das edificações. Os caminhões param por pouquíssimo tempo, o necessário para esses coletores, numa rapidez que impressiona, segurarem um ou dois sacos pesados, arremessando-os com precisão na caçamba do veículo. Este, finda a coleta do volumoso material, roda os metros necessários para a continuação da saga. Certamente são centenas de sacos arremessados e os dois ou três coletores incumbidos da tarefa ainda têm de dar pequenas corridas a fim de acompanhar o caminhão de recolha. Faça frio ou calor, chuvisco ou chuva forte, esses coletores desempenham exemplarmente a função. Infelizmente, eles têm de ouvir buzinadas de motoristas de carros impacientes, que sequer entendem que o sacrifício evidente dessa atividade fulcral na sociedade mereceria acima de tudo o respeito.

Num país onde os absurdos proliferam, a função desses coletores de resíduos, figurantes basicamente inexistentes no cotidiano das narrativas, sofre com a omissão da sociedade e o termo abjeto, lixeiro, é habitualmente propalado. Sob outra égide, há a perplexidade do cidadão cumpridor de seu labor diário, seja nas mais diversas atividades, seja na vida familiar, ao se deparar com a discussão sobre tema que deveria ter sido abortado sumariamente na origem, o penduricalho, algo que persiste e se avoluma nos três poderes e nas inúmeras instituições estatais. Esses membros dos três poderes teriam a devida atenção a determinadas profissões “subalternas”, mas que, sob outra égide, são igualmente essenciais para a sociedade? Com baixíssimos salários, os coletores de toda espécie de detritos estão a mostrar diuturnamente que, sem eles, no passar de poucos dias as cidades estariam expostas ao caos absoluto.

Considero-os verdadeiros heróis. Nem as homenagens a eles consagradas sensibilizam os poderosos: 1º de Março – Dia Mundial dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis; 7 de Junho – Dia Nacional de Luta dos Catadores de Materiais Recicláveis; 21 de Outubro – Dia Nacional do Coletor de Lixo, 22 de Novembro – Dia do Reciclador e da Reciclagem do Lixo.

The work of waste pickers – also pejoratively referred to as ‘scavengers’ – is just critical for a city. They are true environmental workers, playing a vital role in maintaining urban cleanliness.