Navegando Posts em Cotidiano

Trabalho extenuante realizado com dedicação

Escuta, escuta, tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém – mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?

Eugénio de Andrade, notável poeta português (1923-2005)

Desde o início da publicação dos blogs, vários posts foram dedicados àqueles que ou ficaram à deriva na sociedade ou em atividades laboriosas exaustivas. Uma das mais importantes funções na organização das cidades, a coleta de resíduos, não merece por parte dos governos a atenção desejável. Trata-se de um serviço público, contudo majoritariamente é realizada por empresas terceirizadas, logicamente contratadas pelas prefeituras. Os salários daqueles responsáveis pela coleta são baixos, mas eles são figuras fulcrais na manutenção da limpeza das cidades, pois têm de manter para a difícil atividade, em acréscimo, preparo físico, disposição para a função e redobrada atenção com o material coletado, inclusive com a possibilidade de contaminação. Na realidade, são eles os responsáveis para que inúmeras pragas sejam minimizadas, que produtos químicos, material descartado de hospitais e outros mais sejam retirados, assim como corroboram para a limpeza das áreas públicas, dando finalmente destino ao imenso material coletado.

Estou a me lembrar da infância vivida na Vila Mariana. Coletores de resíduos recolhiam os dejetos das casas deixados nas calçadas em caixas de papelão ou latões grandes com tampas, estes não descartáveis. Os catadores jogavam esse material nas caçambas grandes de um carroção puxado por dois cavalos ou burros e devolviam o recipiente. Nossa mãe por vezes distribuía café com pãezinhos aos trabalhadores. Após décadas morando em uma casa no Brooklin, por vezes igualmente interagi rapidamente com os coletores de detritos, pois o contato com esses profissionais nesse tipo de moradia torna-se mais direto e frequente. Quantas não foram as vezes em que, ao esquecer de colocar os sacos de resíduos na calçada, após ouvir o ruido do caminhão e as vozes dos coletores corria até o portão, chamava-os e sempre, cordialmente, eles voltavam e retiravam os sacos. Em outras oportunidades, ao lhes oferecer uma garrafa de refrigerante e um pacote de biscoitos, comovente era a recepção desses verdadeiros especialistas. Ao longo, sabia o nome de diversos.

Recentemente tivemos de mudar da casa para um apartamento – fato inserido em blogs no início de 2025 – devido à sanha avassaladora das construtoras, que estão a demolir determinados bairros para a edificação de prédios, Brooklin e Campo Belo numa lista prioritária. A minha percepção da atividade dos coletores de resíduos teve um outro approach que, na realidade, só ampliou a minha admiração pelos laboriosos cidadãos. Vejo-os do apartamento, no início da noite, em posição logicamente distinta daquela visão tão próxima quando na residência anterior. Funcionários dos prédios colocam os enormes sacos de resíduos nas calçadas ou em pequenos recintos nas laterais das edificações. Os caminhões param por pouquíssimo tempo, o necessário para esses coletores, numa rapidez que impressiona, segurarem um ou dois sacos pesados, arremessando-os com precisão na caçamba do veículo. Este, finda a coleta do volumoso material, roda os metros necessários para a continuação da saga. Certamente são centenas de sacos arremessados e os dois ou três coletores incumbidos da tarefa ainda têm de dar pequenas corridas a fim de acompanhar o caminhão de recolha. Faça frio ou calor, chuvisco ou chuva forte, esses coletores desempenham exemplarmente a função. Infelizmente, eles têm de ouvir buzinadas de motoristas de carros impacientes, que sequer entendem que o sacrifício evidente dessa atividade fulcral na sociedade mereceria acima de tudo o respeito.

Num país onde os absurdos proliferam, a função desses coletores de resíduos, figurantes basicamente inexistentes no cotidiano das narrativas, sofre com a omissão da sociedade e o termo abjeto, lixeiro, é habitualmente propalado. Sob outra égide, há a perplexidade do cidadão cumpridor de seu labor diário, seja nas mais diversas atividades, seja na vida familiar, ao se deparar com a discussão sobre tema que deveria ter sido abortado sumariamente na origem, o penduricalho, algo que persiste e se avoluma nos três poderes e nas inúmeras instituições estatais. Esses membros dos três poderes teriam a devida atenção a determinadas profissões “subalternas”, mas que, sob outra égide, são igualmente essenciais para a sociedade? Com baixíssimos salários, os coletores de toda espécie de detritos estão a mostrar diuturnamente que, sem eles, no passar de poucos dias as cidades estariam expostas ao caos absoluto.

Considero-os verdadeiros heróis. Nem as homenagens a eles consagradas sensibilizam os poderosos: 1º de Março – Dia Mundial dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis; 7 de Junho – Dia Nacional de Luta dos Catadores de Materiais Recicláveis; 21 de Outubro – Dia Nacional do Coletor de Lixo, 22 de Novembro – Dia do Reciclador e da Reciclagem do Lixo.

The work of waste pickers – also pejoratively referred to as ‘scavengers’ – is just critical for a city. They are true environmental workers, playing a vital role in maintaining urban cleanliness.

Da permanência ao efêmero, um caminho sem volta?

Um mundo arrumado é apenas o palco para o grande espetáculo,
de que até hoje tivemos apenas um ou outro raro exemplo,
da plena criação em todos os domínios,
arte, ciência, filosofia, porventura vida também.
Agostinho da Silva (1906-1994)
“Só Ajustamentos”

Ao longo das décadas realizei a leitura parcial da atividade epistolar de alguns dos mais conceituados compositores, apreendendo essencialidades que vão além da própria composição, abrangendo igualmente o cotidiano, os afetos e as dificuldades frente à vida e seus desdobramentos, saúde, finanças, esperanças ou desalento. Graças à carta manuscrita, preservou-se o pensar do compositor, essa interioridade não revelada em escritos teóricos no caso específico de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), compositor e teórico, magistral nas duas atividades.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, “Air pour Borée et la Rose”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=kYHMbUAw8sUA

O vastíssimo patrimônio da música com várias designações, clássica, erudita ou de concerto, permanece através dos séculos, é executado pelas gerações de intérpretes e integra o vasto universo da Cultura Humanística. Tardiamente penetrou no Extremo-Oriente e hoje alguns dos mais relevantes pianistas são oriundos dos Conservatórios do Japão, China, Coréia do Sul…, evidência clara, apesar de culturas distantes das ocidentais sob tantos aspectos, da aceitação da música clássica em seus múltiplos modelos. No 19º Concurso Internacional Frederic Chopin (2025), em Varsóvia, os três primeiros  colocados eram orientais ou descendentes e os dois outros prêmios foram outorgados ex-aequo (empatados), tendo igualmente orientais.

Mormente neste século, de maneira mais acentuada verifica-se uma diminuição sensível da divulgação mais exequível da atividade musical erudita em nossas terras. Observei em blogs, anos atrás, o papel da imprensa relacionada à música de concerto. Rememoro que São Paulo, na década de 1950, tinha uma população de aproximadamente 3 milhões de habitantes. Os concertos nos vários teatros, máxime o Teatro Municipal, tinham frequência quase sempre plena.  Quando nos visitavam nomes referenciais do piano, violino, violoncelo ou canto, filas de jovens aguardavam a abertura das galerias – preços irrisórios – para não perderem os eventos. Após uma determinada apresentação, leitores tomavam conhecimento de críticas em vários jornais. Mencionaria O Estado de São Paulo, Folha da Manhã, Folha da Tarde, Folha da Noite, Diário de São Paulo, Diário da Noite, A Gazeta, O Tempo, Correio Paulistano, Jornal Alemão, Fanfulla, Giornali degli italiani, Shopping News. Todos esses periódicos tinham críticos, a maioria deles com pleno conhecimento musical.

Apesar das muitas diferenças entre a música clássica e a música não compromissada com a forma e destinada às multidões, máxime na atualidade, considerações podem ser feitas a partir da efemeridade da música voltada aos shows e pertencente a várias modalidades, megashows vindos do Exterior, eventos outros no Brasil direcionados ao axé, funk e ao sertanejo, totalmente descaracterizado se comparado às duplas que se apresentavam muitas décadas atrás – Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana e alguns outros, sem esquecer Inezita Barroso -, que buscavam traduzir autênticos sentimentos e anseios do homem do campo. Mercê do marketing bem estruturado, hodiernamente não mais é a qualidade que importa, mas a popularidade dos eleitos por n razões.

Menções da imprensa testemunham somas rigorosamente elevadas repassadas pelos governos a personagens bem conhecidos da denominada música de cunho popular. É um fato que se repete nas várias esferas oficiais, do poder central às prefeituras de cidades pequenas, que inúmeras vezes dão maior atenção à essas apresentações do que àquela destinada aos serviços básicos das cidades ou, então, à segurança e à educação. Mormente nos megashows, a mudança de repertório se dá virtualmente a cada temporada e as músicas antes apresentadas estiolam-se em pouco tempo, basicamente esquecidas para sempre nas turnês vindouras. Os meios de comunicação, quase como um todo, divulgam ad extremum essas apresentações, amparadas por publicidade de peso.

Nesses posts dedicados às cartas de compositores que se eternizaram através dos séculos, veio-me à mente a perenidade frente ao efêmero. Numa elucubração, se considerarmos compositores que morreram pobres ou com problemas financeiros graves, mas que tiveram suas obras glorificadas, e atentando, sob outra égide, ao que um pop star recebe num único megashow, cantando músicas de valor bem discutível, não estaria distante da realidade afirmar que o cachê desse pop star internacional para uma única apresentação, frise-se, é infinitamente superior ao que compositores sacralizados sequer puderam amealhar durante toda a existência, guardando-se as proporções monetárias históricas. Antônio Vivaldi (1678-1741) morreu pobre, assim como Mozart (1756-1791) e Schubert (1797-1828).

Clique para ouvir, de Franz Schubert, Fantasia em fá menor, na interpretação de Paul Badura-Skoda (1927-2019) e Jörg Demus (1928-2019). Infezimente essa gravação realizada na Sala Gaveau, em Paris, é interrompida no minuto 8:56:

Paul Badura-Skoda et Jörg Demus, pianos | Fantaisie en fa mineur, D.940 de Franz Schubert

Richard Wagner (1813-1883) teria falido não fosse o apoio incondicional de Luís II da Baviera (1845-1886). Modest Mussorgsky (1839-1881) é o exemplo tipificado do compositor que faleceria no completo infortúnio. O robe de chambre que Mussorgsky veste poucos dias antes da morte, na magnífica pintura de Ilia Répine, foi-lhe dado por Rimsky Korsakov (1844-1908) para a famosa tela.  Claude Debussy (1862-1918) morreu em situação financeira difícil, mercê sobretudo causada por câncer que o acometera anos antes. Outros tantos faleceram beirando a pobreza.

Creio que a comparação estabelecida poderia parecer dicotômica quanto aos gêneros. Não obstante, transcende uma simples apreciação. As transformações tecnológicas necessárias, mas, sob outra égide, verdadeiros tsunamis, têm acarretado uma série de desvirtuamentos dos princípios “outrora” consagrados: costumes, moralidade, lhaneza, honestidade, gostos e educação. Inversamente à perenidade mencionada acima, mercê da qualidade insofismável das obras de compositores perenizados, os montantes aferidos nas hodiernas apresentações para multidões, com astros superventilados pela mídia, evidenciam, na área musical, a aparência da verdade, pelo sentido efêmero do que é revelado. Mencionei recentemente que, ao auscultar jovens frequentadores dos megashows com personagens estrangeiros ou nacionais a respeito de músicas apresentadas um ou dois anos antes, não mais se lembravam, mas sim as do último show a que assistiram.

As transformações sociais têm sido avassaladoras. Certamente, dentro de algumas décadas os compositores mencionados acima estarão presentes nas programações musicais pelo mundo, com público específico, é certo, se comparado aos gêneros outros mencionados. Para estes, a efemeridade é dramática. Quem será lembrado futuramente dessa plêiade de pop stars que são glorificados por multidões? Que músicas ficarão na memória dos que frequentam esses megashows? O legado só acolhe a criação musical qualitativa.

Just some reflections on the legacy left by the great composers of the past, and the overwhelming presence today of mega-concerts that draw crowds to glorify names that are hyped up by the media.

 

 

 

A recepção prazerosa das opiniões dos leitores

Uma ação que tenha o pensamento por origem será sábia e justa
se este pensamento se fundou sobre realidades e não sobre erros.
Curuppumullage Jinarajadasa (1875-1953)

As festividades de fim do ano impediram-me de salientar mensagens que corroboram o estímulo que persiste há quase duas décadas. Da recepção dos inúmeros e-mails e whatsapps à inserção no segmento Ecos tenho de fazer escolhas, pois a maioria dos envios é bem curta, resumindo-se tantas vezes em uma só frase ou uma ou duas palavras. Todas, insisto, são recebidas com enorme prazer. Selecionei algumas mais extensas que recebi desde Dezembro, abordando individualmente os temas publicados.

Data maior da cristandade (20/12/2025)

Não só o conceito do Natal está indo embora, como também a perspectiva de um ano novo renovado, pois, como dizia Krishnamurti, estamos aqui na Terra para realizar uma viagem com nós mesmos, em busca do aperfeiçoamento e da evolução interior. Mas como vemos no materialismo crescente, essa missão está cada vez mais distante do ser humano, pois na busca da satisfação do corpo, o espírito é esquecido, empurrando a consciência humana para áreas cada vez mais densas, obscurecidas pela escuridão de uma crescente ignorância. Mas como essa viagem interior é individual e não coletiva, façamos essa viagem com nós mesmos, pois ela se realiza dentro de nós, independente do mundo lá fora.
Eliane Ghigonetto Mendes (Viúva do notável compositor, Gilberto Mendes) – Santos

Um ano que se anuncia preocupante (27/12,2025)

Infelizmente será uma realidade preocupante. A gula, a ambição vampiresca, o ódio e o poder material, alcançado à custa do empobrecimento da grande maioria de quem lhes proporciona a riqueza, irão continuar a fomentar guerras, mortes, feridos e sem abrigo. Obrigada pelos seus contactos musicais e fraternos.
Maria Celestina Leão Gomes (Portugal)

Série “Vidas em paralelo”, Precioso Podcast (03/01/2026)

Querido Amigo,
Muitíssimo obrigado, já vi e está excelente, como sempre. Muito bem construído e apelativo. Adorei re-ouvir a sua sonata de Carlos Seixas! É bom ter esta nossa viagem pela História divulgada no país irmão. Acredito que muitos se interessarão! Consequência ou não do seu blogue, o último podcast arrancou muito bem e já acusa 1,3 mil visionamentos longos, só no Youtube. De novo, agradeço muito a sua gentileza e grande ajuda.
João Gouveia Monteiro, professor catedrático de História Medieval (Universidade de Coimbra)

“O Náufrago” (10/01/2026)

Não li o livro, mas, após sua instigante resenha, gostaria de lê-lo. Bernhard me parece mais um pessimista à Schopenhauer do que um niilista à la Nietzsche. Teve uma vida pessoal e familiar muito negativas, e estudou violino, de onde possivelmente veio sua visão sobre músicos e intérpretes.
Gildo Magalhães, professor titular de História da Ciência, (USP)

Variações Goldberg maravilhosas: iluminaram meu domingo!
Aurora Bernardini, professora titular de literatura (USP).

Professor  querido, ler sua crônica sobre o livro “O Náufrago”, de  Thomas Bernhard, nos leva à dimensão da vida e dos sonhos. Incrível, mas as suas reflexões  sensíveis vão além  da resenha. E quando sugere ouvir seu irmão “João Carlos Martins’ Bach – Variações Goldberg”, o leitor transcende…

Seu blog é  um  espaço de buscas e encontros. Uma lição de vida. E também  de reflexão  sobre o cotidiano, como em “Um ano que se anuncia preocupante”, onde o senhor, quase como um jornalista / repórter,  observa e ouve a dedicada moça  do supermercado, fazendo considerações que tecem com profundidade  e conhecimento  a atual situação política do País.

Professor, o senhor nem pode imaginar como as lições de vida e arte que transmite em seu blog são importantes, ainda mais neste momento conturbado, onde é  difícil ler e ouvir comentários  com sensatez e sem ideologias políticas.
Leila Kyomura, jornalista do Jornal da USP.

1.000 blogs publicados aos sábados, ininterruptamente

Entre as muitas facetas que você mencionou ontem, há uma que poderia ser um subconjunto daquela de “observador”, mas que eu gostaria de realçar: a de cronista. Quando você fez crônicas do bairro e de personagens que nele habitam ou transitam, tenho a convicção de que você foi um ótimo escritor dessa difícil e sutil arte da crônica, com alta qualidade literária e profunda empatia pelo ser humano e aquilo que o cerca. Cada pessoa tem o potencial de ser muitos, e se você já não excelesse na arte do piano, sei que teríamos um literato de vulto.
Gildo Magalhães

Quase citando-te, “eu, leitor, estou convidado a realizar essa viagem. Que sejamos cúmplices. Bem  haja”!
Eurico Carrapatoso, compositor (Portugal)

Que simpática esta mensagem do Gildo para você. É a pura verdade. Está ao lado de meu cronista favorito, Fernando Sabino
Maria Beatriz Martins Lazarini (filha – posição suspeita)

Neste espaço deixo minha profunda gratidão aos leitores seletivos (circa 3.500 semanais). As suas visitas aos blogs, sensibilizam-me profundamente.

I appreciated the numerous messages from readers regarding the latest blogs. Due to space constraints, I have selected only a few, but I am happy to receive comments and suggestions for topics that will certainly be converted into future posts.