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Exemplos Dignificantes

O essencial na vida não é convencer ninguém,
nem talvez isso seja possível;
o que é preciso é que eles sejam nossos amigos;
para tal, seremos nós amigos deles;
que forças hão-de trabalhar o mundo,
se pusermos de lado a amizade?
Agostinho da Silva
(Sete Cartas a um Jovem Filósofo)

Farta literatura, que remonta à Grécia antiga, aos textos bíblicos e a tantos outros ligados à morte, jamais deixou de causar perplexidade. A inexorabilidade do fim receberia interpretações as mais diversas nos vários campos do conhecimento: literatura, poesia, música, artes, religião e ciências. Mors certa, hora incerta é fato inconteste e a grande salvaguarda do homem para que continue a viver “descontraído”. Soubéssemos precisamente o instante do acontecido nossas existências seriam rigorosamente diferentes.

Três amigos queridos partiram. No dia 1º de Janeiro, Gilberto Mendes (1922), que nos deixou serenamente nos braços de sua dedicada esposa Eliane. Escrevi post a respeito do compositor (vide “Gilberto Mendes – In Memoriam” – 09/01/16), um dos maiores músicos brasileiros de música clássica ou de concerto em toda sua história. Brevemente escreverei outro post sobre Gilberto Mendes, pois a revista Glosas, de Portugal, dedicou o núcleo temático de seu último número  a essa personalidade singular e amigo extremo.

Do pranteado amigo Roberto Penteado (1934) necessitaria indicar alguns de seus múltiplos talentos. Engenheiro químico, trabalhou durante mais de 33 anos nas célebres Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo que, por muitas décadas, foi uma das mais importantes do país, um verdadeiro império. Roberto exerceria a função de diretor de várias unidades, como sabonetes, pastifício, celulose, biscoitos… Estou a me lembrar de que, já no final dos anos 1960, Roberto desenvolvera biscoito integral à base de fibras, enaltecendo vivamente suas propriedades, hoje consagradas. Pioneiro. Percorreu pela empresa e técnicos da Embrapa quase todo o Brasil. Dirigiria ainda em Curaçao uma fábrica de café solúvel. Em sociedade com firma japonesa, desenvolveu projeto de pesca em alto mar. Um dos homens mais criativos que conheci, muito adiante de seu tempo!

Amante da natureza, com ele conversávamos sobre uma de nossas paixões, o canto dos pássaros brasileiros, pois também tinha um enorme repertório guardado em sua mente. Contudo, foi mais longe, pois conhecia a fauna aquática pátria e identificava com presteza nossas árvores, nomeando-as e evidenciando suas propriedades. Fotógrafo amador, revelava as fotos sempre em branco e preto no mini laboratório improvisado em sua casa. Adorava cutelaria, tendo uma coleção de facas de todo o planeta e com arte fazia cabos para algumas. Amava jazz e, por seu intermédio, passei a apreciar a criatividade de Oscar Peterson, Thelonius Monk, Art Tatum, Erroll Garner, Fats Weller, Count Basie e tantos outros.

Sua esposa, Júlia, é dileta amiga de Regina desde a infância na então aprazível Campinas, tendo estudado piano durante anos com minha sogra, a ilustre e saudosa professora Olga Normanha. Várias vezes o casal e filhos passaram a festa de fim de ano no apartamento de meus pais, quando o congraçamento se dava. Amizade sólida.

Nunca me esqueço de seus relatos da adolescência e um, particularmente, causou-me impacto, pois o pesquisador vocacionado mantinha, no quintal de sua casa em Campinas, serpentes peçonhentas, soltando-as periodicamente para observar suas reações a anteceder o bote certeiro. A uma pergunta sobre o perigo, respondeu-me calmamente que a cobra jamais dá o bote maior do que a extensão de seu corpo. Jogava ao chão um velho chapéu e assistia a reação fulminante do réptil. A lição serviu-me, pois durante mais de dez anos (1970-80), em minhas viagens ao Vale do Paraíba aos sábados para pesquisar arte sacra popular dos séculos passados, não poucas vezes meu saudoso amigo Carlindo Pavan e eu nos deparamos com ofídios venenosos. A imediata visão do comprimento dos répteis trazia-me certezas. Enfim, Roberto era um estudioso. Suas respostas às questões formuladas vinham sempre acompanhadas da explicação científica. Após longa enfermidade, sob os cuidados da carinhosa esposa Júlia, de seus dois filhos, Gustavo e Juliana e dos netos, Roberto Penteado também nos deixou no último dia 22.

O terceiro a partir foi Walter Maria Flesch (1928), nosso vizinho desde 1971. Desenlace no dia 25. Consideremos que vizinho não escolhemos, ele acontece quase sempre pelo acaso. Razões múltiplas impulsionam determinadas pessoas a encontrar um lugar para o prolongamento da existência em novo lar. Já morávamos em nossa casa desde 1965 e o entendimento com a família Flesch, desde o primeiro dia até o falecimento do patriarca Walter, sempre esteve sob a aura da pura amizade.

Natural de Blumenau, Santa Catarina, conheceu Eneida Landsmann Jungers durante o curso de odontologia na Universidade de São Paulo. Casaram e tiveram quatro talentosos filhos, Fernando (engenheiro), Maria Cláudia (jornalista), Maria Elisa (professora) e Maria Helena (médica) e onze netos em plenas realizações. Assistimos mutuamente ao crescimento de nossos filhos e as realizações que advieram em suas trajetórias eram motivos de júbilo confesso de parte a parte. Walter e Eneida, casal de dentistas, impecáveis na educação de seus filhos, viveram amorosamente a expansão familiar.

Naqueles primeiros tempos, apenas casas existiam em nossos quarteirões. Hoje são elas raridades. Portões baixos, ausência de grades nas janelas e portas. Outra realidade. Por vezes Flesch e eu jogávamos pingue-pongue em casa do vizinho da frente, o sempre lembrado seu Chico, prática essa realizada a poucos metros do portão sempre aberto que dava para a rua! E essa diversão se dava à noite! Outros tempos. Pairava a descontração, a violência era algo raríssimo. Presenciamos o crescimento desmesurado de nossa cidade bairro, Brooklin-Campo Belo. Espigões se ergueram e personagens surgiram já sem laços com essa tradição que se esvaíra, pois a maioria não se enraíza, permanecendo no anonimato.

Tendo adquirido terreno em condomínio em Ibiúna, levamos certo dia nosso amigo para visitá-lo. Fizemos piquenique e a foto registra a descontração. Creio que foi em 1975. Não tendo vocação para casa de campo ou praia, vendi anos após o referido terreno.

Lembro-me de episódio que nos marcou muito. Nos anos 1970, Flesch e eu fomos convidados a visitar um loteamento no Mato Grosso do Sul. Saímos do aeroporto de Congonhas e faríamos escalas em Bauru e Três Lagoas. O avião de dois motores turboélice, ao sobrevoar Bauru, teve de abortar a descida e regressar a São Paulo, pois detectaram um problema que só poderia ser solucionado na capital. Após algumas horas reiniciamos a viagem com aterrissagem em Bauru e continuação do voo até Três Lagoas. Lá chegando, já a nossa espera estava piloto de pequena aeronave monomotor. Mostrava-se ansiosíssimo, pois com o atraso e já no final da tarde o avião teria de partir imediatamente, já que não dispunha de instrumental para voo noturno. Chegamos com certa tensão nas fronteiras da escuridão. Dormimos numa tosca construção de alvenaria e permanentemente o telhado era irrigado pelas águas de um afluente do rio Sucuruí, devido ao calor sufocante. No dia seguinte, num jipe, percorremos o empreendimento e vimos emas, pássaros tantos e até uma imensa jiboia que, assustada, mostrou-se bem ágil na fuga. Às refeições, pescado fluvial, carne de caça e ingredientes mais. Regressamos à tarde. Ficou como lembrança, nesse breve convívio, o espírito curioso de Flesch, que queria tudo saber, assim como sua proverbial tranquilidade e senso de fino humor. Ao longo das décadas, não poucas vezes lembramos com prazer essa breve, mas inesquecível, “aventura”.

Longe de serem diários nossos contatos, quando se realizavam jamais deixaram de ter o dom do congraçamento. Nossos olhares traduziam o prazer do encontro. Sabíamos separados por um muro, mas entendíamos que, se necessário fosse, o atendimento mútuo seria imediato. Jamais houve uma rusga sequer entre nós. Particularmente, meu contato com Flesch dava-se sob vários aspectos. Adorava música – pianista amador – e esse fato fez com que nossos estudos pianísticos, os de Regina e os meus, fosse qual fosse o repertório, jamais provocassem uma reclamação sequer. Logicamente, à noite estudava com o pedal abafador acionado para minimizar sonoridades.

Exatamente dez anos menos jovens do que Regina e eu, o casal sempre mostrou-se ativo, discreto e cordial. Aos domingos, Flesch, sem camisa, mesmo em dias mais frios, cuidava de seu jardim com desvelo. Domingo é dia de futebol e conversávamos sobre o esporte bretão, ele palmeirense fervoroso e eu então torcedor de um time que existiu no passado, Portuguesa.

Sinto ter perdido três referências que me eram caras. A amizade é uma dádiva preciosa e, não por outro motivo, Amigo na acepção escreve-se com A maiúsculo em Portugal. Gilberto, Roberto e Walter permanecem em nossos corações, indelevelmente.

Last January I lost three dear friends: Gilberto Mendes, Roberto Penteado and Walter Maria Flesch. Friendship is a precious gift. Writing this post recalling their full, meaningful lives and the fond moments we have shared together is a way to keep their memories alive. Though the pain has simply to be endured, they will live on through such recollections.

 

 

 

O autor se pronuncia após resenha

Le premier qui dit la vérité doit être exécuté.
Guy Béart (1930-2015)
(Canção ‘La vérité’)

Depois da minha resenha de “Bien Faire et Laisser Blaire”, de François Servenière, recebi mensagem do autor que tem muito interesse, pois algumas outras interpretações de seu livro enriquecem o conteúdo já explicitado.

Escreve Servenière:

“Qual a razão de ter apreciado a crítica que o amigo fez de meu livro em seu blog? Pelo fato de que traduz a realidade de meu texto. Sim, meu livro tem segmentos extremos, mas nossa realidade mundial, europeia e humana atual é também extrema. Busquei apenas as causas, sem preocupação em tornar a publicação uma enciclopédia ou uma tese. Tão somente uma reflexão global, que se apoia sobre o real nessa minha faixa etária após o cinquentenário.

Não se trata de uma análise dos últimos quinze dias, mas sim uma reflexão que começou a ser delineada há 15 anos, a partir de um acervo de informações e debruçamentos acumulados em 30 anos. Meu texto pode desagradar e cada um fará seu julgamento. Quando eu falo da idiotice, não tenho ilusões, pois poderei ser alvo de críticas, como todo mundo, aliás.

A sua resenha de ‘Bien Faire Laisser Braire’ (‘Fazer bem feito e deixar ladrar ou zurrar’) está universitariamente exata. Você soube extrair as paixões existentes no livro. Qual a razão de entendermos formidáveis os livros dos grandes autores do passado, Shakespeare, Voltaire, La Fontaine, Goethe, Kant, Cervantes… (lista imensa). Por uma razão apenas: eles não mentiram sobre suas épocas. São analistas lúcidos e cruéis. E Deus sabe que correram risco de morrer graças aos seus testemunhos – ‘E sei que ela gira’ (Galileu) -. A verdade contida em suas revelações nunca agradaram a monarcas e senhores feudais, às ideologias e às circunstâncias momentâneas, aos interesses e aos lobbies, friso, nunca. Nada de novo sob o sol: no Brasil e na França, ainda vivemos esse drama, malgrado a imprensa dita ‘livre’ (hum, hum)!!! Hoje, os monarcas não matam pela verdade estampada que os desagrada, mas mantêm associações e editam leis para impedir que a verdade chegue ao firmamento.

A sua crítica é formidável, pois você vê meu livro como ele é. Na forma bruta, sem concessão, no limite, sobre a corda esticada, como afirma, se comparado às novas normas do pensamento único, que encolhe o debate à velocidade da luz. Estou a me lembrar da história do repórter ou fotógrafo de guerra. O fotógrafo de guerra tira as fotos, majoritariamente horríveis: massacres, fome, execuções sumárias… Ao voltar para casa, colocas as imagens no computador sobre photoshop para os profissionais contemporâneos. Que pensaríamos nós se essas fotos fossem retocadas para serem adaptadas para o público, para o editor, etc…, pelo dinheiro tão somente? Diríamos que ele não teria feito seu trabalho. Sinto que fiz meu trabalho.

Procurei, logicamente através de meu prisma, traduzir tudo aquilo que senti e vivi desde minhas origens. Tentei destruir nessas crônicas tudo que pudesse – programações mentais de educação e do meio social de origem cristã, da direita e da esquerda de um cristianismo por vezes comunista, rural, comercial, artístico, universitário e também voltado à medicina – alterar a crua visão da verdade e a leitura de nossa conjuntura. Reli o texto ao menos 300 vezes. Consegui, a partir de uma análise de vários anos, liberta-me daquilo que pudesse sugerir a subjetividade em detrimento do essencial, a resultar portanto a transparência da objetividade. Daí ter inserido cifras, fatos e consequências múltiplas em tantas áreas (capítulos X, XI, XV, XX). Busquei sempre colocar-me na posição de um extraterrestre que, ao chegar à Terra, descobrisse a civilização humana, a criticá-la sem piedade nem afeto, sem conluio de qualquer espécie e respeito pelas suscetibilidades individuais e coletivas. Quis sempre guardar esse olhar e afrontar o horror, mesmo que essa atitude pudesse desagradar minha genealogia, meus antepassados, pois não deixo de ser devedor de toda a herança que me legaram, sob múltiplas formas. Procurei ver sob essa casca humana protetora que constitui a cultura, o bom, o belo, o justo, deixando de lado toda programação geográfica e histórica. Eis o meu propósito, pois.

Muitas vezes ou sempre, pelo menos assim deveria ser, a bondade se encontra no de profundis de cada um de nós. Vê-se que estamos diante de uma busca incessante sem fronteiras. Meu livro, na realidade, está sempre a transmitir essas ideias. Abandonai vossas barreiras mentais!  Guardai vossas fronteiras e vossas leis para proteger vosso microcosmos como se protege um jardim, que nada mais é do que fruto de um trabalho. Todavia, abri vossos corações à alteridade, viajai! Era um pouco a filosofia do grande Maurice Ravel: “Sou um internacionalista por filosofia, mas nacionalista em arte”.

A realidade que escrevo, vivia-a, mensurei-a, tive pesadelos e noites brancas para chegar a esses mecanismos. Por vezes relâmpagos de lucidez surgiam-me em plena noite, nada de excepcional, aliás, pois ocorre a todo pensador ao refletir sobre seu mundo, sem cessar. Adquiri o hábito há anos de ter meu laptop ao lado de minha cama para apreender ao vivo a reflexão. A construção do livro foi fruto de dezenas de horas de debruçamento, a fim de compreender um mecanismo ou outro, em todos os domínios de minhas fronteiras mentais: filosofia, música, barco, navegação, montanha, ciência, etc… Como na música, foi necessário, sobretudo, não perder o fio condutor da construção mental. Criadores, autores, artistas e tantos outros, que têm a mente em ebulição, conhecem esse fulgor. Pode ocorrer no carro, sob uma ducha, correndo, sobre uma bike elíptica, no sonho, ou, in extremis, na conjunção de tantos fatores. Um espírito em vigília, um espírito que trabalha, fá-lo do primeiro ao último dia, sem cessar… A fadiga nessa busca permanente percebe-se no olhar, nos traços. O repouso basicamente não existe.

Agradeço-lhe pela crítica, longa, pensada, sem derivativos, a afrontar e a descrever meu texto na sua mais profunda autenticidade. Já previa que determinadas passagens pudessem desagradá-lo, você, cristão e humanista. Sabia contudo de sua abertura intelectual maior. Soube você extrair de seu paradigma mental razões para resenhar meu livro em seu aspecto real. Você fala das polêmicas! Bem entendido, tudo é polêmico, do grego antigo πόλεμος, pólemos (guerra). Estamos em guerra contra o obscurantismo e o totalitarismo. E, como descrevi, essa guerra é multiforme, multipolar, a encontrar sua essência nos mesmos erros e nas ideologias que quiseram pela força criar o ‘novo homem’ ou ‘nova humanidade’, os socialismo, comunismo, nacional-socialismo, islam e uma parte das tradições talmúdicas e bíblicas que não foram verdadeiramente pensamentos humanistas na origem. O fundamentalismo e seus efeitos monstruosos têm origem nesses textos. É fato e de fácil comprovação. A guerra evidentemente, contra a civilização no sentido da civilidade. Não entre as civilizações. Guerra entre bárbaros e os civilizados. É tudo.

Nós dois almejamos um só caminho, o da verdade, e ela faz mal. Não seguimos a verdade conjuntural, geográfica ou cultural, religiosa ou doutrinária, mas a verdade humana naquilo que ela tem de mais ontológico, aquela que emana das profundidades do DNA. E a música, nesse sentido amplo, não pode mentir. Ela está fora do campo ideológico, pois a música é ‘DNAdística’, mediúnica. Aqueles que pretenderam colocá-la no campo ideológico no século XX deram-se mal. Recebem no rosto o boomerang (analogia política/música).

Enfim, ontologicamente, essencialmente: por que, qual a razão de aqui estarmos, para qual propósito? Kant, Spinoza, Shakespeare, a Bíblia, o Torá, o Talmud… certamente propõem as chaves. Qual a razão para agirmos assim? Por que fazemos a guerra e a paz e, após 30 anos, refazermos ainda conflitos exterminadores, sempre invocando razões bem próximas, como exponho no subtítulo de meu livro ‘Crônica da água que corre sob as pontes sem jamais retornar acima, exceção graças à evaporação’ (a vida é um ciclo)? Sempre, sempre, malgrado a relatividade de Einstein, as mesmas causas produzem desgraçadamente os mesmos efeitos. O século XX sofreu com a sua descoberta e com sua consequência filosófica, o relativismo. Tudo passaria doravante a ser relativo e nada mais teria o valor real, diria, batalha de cínicos! Tentei provar que todas essas controvérsias eram falsas, apesar da justeza teórica sobre pontos precisos. Vivemos, mesmo que seja em forma de ondas ou de influências macro/microscópicas ou nanoscópicas, realidades. Os músicos integram essa certeza desde o nascimento da música” (tradução: JEM).

Servenière finaliza a enviar-me inúmeros aforismos pertinentes à desavença, à guerra, à discórdia, à leitura preconceituosa. Mencionaria o primeiro, bem apropriado ao conteúdo de seu livro e determinadas interpretações que dele deverão advir: “Quando o sábio aponta para a lua, o idiota olha seu dedo” (provérbio chinês).

In last week’s post I published an appreciation of François Servenière’s book “Bien Faire et Laisser Blaire”. Today I publish the author’s comments on my review, suggesting other interpretations that only enrich the understanding of his book.

 

 

 

Livro recém lançado de François Servenière

Mais o mal existe no mundo,
mais há razões para fazer o belo.
É mais difícil, sem dúvida, mas também mais necessário.
Andreï Tarkovsky

Inúmeras vezes tive o prazer de inserir em meus Ecos, posts imediatos que testemunham apreciações de leitores ao precedente, considerações do compositor e pensador francês François Servenière. A guarida aos seus textos tem sido entusiasmante, pois propicia, aos que  generosamente seguem os blogs semanais, apreenderem parcela essencial de seu pensamento multidirecionado e competente.

“Bien Faire et Laisser Braire” (Blangy-le Chatêau: Esolem, 2015) desperta curiosidade a partir do título e também do subtítulo, “Crônica da água que corre sob as pontes sem jamais retornar rio acima, exceção à nascente mercê da evaporação”. Em tradução, poder-se-ia ter “Fazer bem feito e deixar zurrar ou ladrar” ou simplesmente “Os cães ladram e a caravana passa”. Somos conduzidos de muitos temas diversificados à polêmica que enriquece, aos conceitos originais, à convicção sem arrependimento de Servenière, à qualidade singular de seu pensamento que, corajoso, não hesita em buscar uma verdade na qual ele acredita. O autor reuniu uma série de crônicas que se estendem de 2000 ao presente. Publicados em seu blog, ou especialmente já a pensar na edição do livro. O universo  literário “politicamente correto”, em que tantos se abrigam a fim de evitar interpretações que possam ferir a aceitação mediática e, consequentemente, pública, inexiste para Servenière. Será possível entender que alguns capítulos atinjam o limite da corda esticada, tão veementemente o autor se empenha em expor seu pensamento. Não há condicional, e as ideias são expostas sem meio termo. Acredito que estar distante de Paris, centro em que fez sua formação musical e do pensar, mas que voluntariamente foi descartado para um “refúgio” na Normandia, tenha conduzido Servenière à liberdade de expressão, sem amarras que pudessem interferir. A postura independente não significa alienação. O autor está diariamente conectado com o mundo, e posso testemunhar a quantidade de informações que Servenière me envia sobre temas que nos são caros, a preponderar a Música e seus caminhos, que devem ser compreendidos, tantas vezes, sans issue.

“Bien Faire et Laisser Braire” divide-se em XXI capítulos em que não poucas vezes conceitos anteriormente apresentados ressurgem metamorforseados, mas que evidenciam não apenas o estilo de Servenière, mas sua necessidade de reforçar ou alargar temas que o interessam. Ajustam-se essas considerações aos capítulos que desfilam. Arte, política, música como essencialidade, religião e fanatismo, ciência, comentários de artigos ou resposta a um e-mail curto e desairoso recebido compõem o livro em questão.

Após breve narração das origens da família, da infância como observador atento, já no segundo capítulo Servenière apresenta uma espécie de “confissão”, portal que abre seu entendimento da música. Expô-lo torna-se necessário para a compreensão do todo:

“No meu trabalho como compositor destruo e reciclo. Mas, sobretudo, eu quero reconstruir, reassociar, mostrar de novo o contraste e a diversidade. Simplesmente pelo fato de que correspondem à realidade. Abandonando – evitando – as ‘igrejinhas’, as posições e o estatuário ideológico, fontes de bloqueios e retenções que produzem, salvo raras exceções, obras fechadas, estanques e indigestas, encontro-me no meio e não sou senão um filtro, um caminhante… testemunha que vibra no uníssono de todas as ondas. Essa atitude mental é não apenas uma necessidade psicológica, fisiológica, mas igualmente filosófica.

Tive a chance de encontrar na música o ferramental através do qual minha vida expressaria melhor essa simplicidade. Senti-me desde logo como o peixe no seu habitat. Descobri o significado de minha vida”.

As posições de Servenière são claras e polêmicas. Ele, que conheceu e dominou vários processos técnicos da música contemporânea e está a par das tendências multi direcionadas, não apenas da música instrumental, mas também da eletrônica, perceberia a tempo o impasse da criação ou, ao menos, a aparência da inventiva. Distanciou-se, como outrora fizera o primeiro compositor francês a compor música dodecafônica em França, Sérgio Nigg (1924-2008). Servenière teria chegado ao impasse: compor para estar no “modismo” ou escrever música a seguir seu de profundis? Optou por este caminho. Sua obra bem vasta, a abranger tantos gêneros, é testemunha de uma escrita precisa e de comunicabilidade singular. Teve tributo a pagar e disso tem plena consciência. Longe das “panelinhas” contemporâneas, Servenière revisitou formas e gêneros do passado como ferramentas para sua criação. O desprezo que “capitães” da música contemporânea de laboratório teriam pelas suas criações foi uma das causas de retirar-se para a Normandia e continuar a criar música a fazer sentido e que chega às mentes sensíveis e ao coração. Uma sua frase é incisiva: “A música contemporânea detesta a vida, é uma triste realidade”. Não se tome à risca a afirmação, pois há música contemporânea e música contemporânea. Aquela a que Servenière se refere seria a pertencente às “igrejinhas”, termo que se poderia entender como grupos fechados, donos da verdade para os quais o não respeito a credos outros determina o anátema definitivo. Menciona jornalista dos anos 1990 que, ao perguntar a músicos do EIC (Ensemble Intercontemporain – IRCAM) “qual a música que eles escutavam à noite de volta à casa ‘para puro prazer’, ouviu respostas unânimes: jazz“. Em outro segmento, expressa posição a mostrar origens precisas: “A música clássica, romântica, moderna – toda a que precede 1945 e continuou sob a forma neo, tudo o que consonante, dissonante, modal, tonal, atonal, desestruturada ou não, mas audível e sobretudo celeiro de emoções, seja ela organizada sobre papel, outro meio qualquer ou computador e interpretada por instrumentistas ou não – é uma linguagem universal que atinge os espíritos e os corações de maneira profunda. Eu continuarei a denominá-la música, aliás como todo mundo”. O posicionamento de Servenière me fez lembrar célebre frase de Arnold Schönberg (1874-1951): “há muita boa música que pode ser escrita em Dó Maior”. Também lembra-me frase de um compositor pátrio na juventude da idade madura que, em entrevista a uma revista especializada, afirmou que suas obras e de outros compositores de sua geração – pertencentes às “igrejinhas” – estavam destinadas a guetos. É Servenière que observa ironicamente “Dancem agora! Esqueci, estou desolado: a música contemporânea não se dança, não se canta, não se escuta, ela se pensa, unicamente”. Entenda-se, no sentido da natural e ampla aceitação.

Outro segmento que prende a atenção do leitor está relacionado à polêmica, tão a gosto de pensadores franceses. Servenière não deixa de colocar seu posicionamento quando entende necessário fazê-lo, mesmo que opiniões suas possam causar desavenças. Após a leitura de entrevista do baterista e escritor Marc Cerrone, na qual o compositor diz que a criação não tem tanta necessidade do talento, Servenière pormenoriza a crítica. Cerrone, autor de composições repetitivas, minimalistas, mas que, segundo Servenière, são desprovidas da aura, recebe por parte do autor de “Bien Faire… ” observações argutas. “Adoro a música repetitiva ou cíclica. Compus algumas. Porém, não confundo Marc Cerrone nem um techno, com Steve Reich ou György Ligeti. Desgraçadamente, indigência criativa ou de ideias e comércio fazem hoje um bom casamento. Quando não com a utilização de produtos falsificados”, afirma Servenière.

Ao receber e-mail de um cidadão a dizer “você é um idiota patético! Tente ter mais cultura e consciência política”, em seguida a um seu texto incluso em “Bien Faire… ” sob o título Paroles, Objets et Art Contemporains, Servenière responde ao ora denominado pessoa progressista da música contemporânea, a ratificar seu posicionamento e a dizer que recebeu muitos “falsos e-mails que se aparentavam à ‘Arte da Guerra’ de Sun Tzu, que recomenda desestabilizar e enfraquecer o adversário através do perpétuo assédio moral e físico”. Servenière observa procedimentos da arte contemporânea, música inclusa, praticados pelas esquerdas. É incisivo: “Intelectual de esquerda é redundância! Alguns pretenderiam maliciosamente que a expressão está a caminho de se tornar um paradoxo… Um intelectual é forçosamente de esquerda, vejamos! Deduz-se então, implicitamente, que um homem da direita que pretenda refletir com a sua cabeça não pode racionalmente ser considerado intelectual. Ele teria de utilizar obrigatoriamente um outro órgão… Estamos em França, merde! Aqui, pois, ‘ter uma consciência política’ ou ‘estar politicamente engajado’ significa ‘ser de esquerda’. Ponto final”. Sobre o tema, já a excluir nominalmente o cidadão do e-mail ofensivo, Servenière se detém em outro capítulo “O idiota e seu domínio de competência, a idiotice”.

“Bien Faire et Laisser Blaire” tem vários segmentos a abordar a crise global, mormente a francesa, a problemática imigratória e a impossibilidade de várias etnias já existentes em França “suportarem” o país e a cultura que as abrigaram. É crítico severo às posições do governo socialista, hoje no poder, nele vendo aberturas que poderão levar ao impasse. Nos capítulos “O obscurantismo” e “Como lutar contra o obscurantismo”, seu pensamento não deixa margens a dúvidas quanto à sua coerência, individual, mas também à de milhões de franceses.

No capítulo “Épilogue”, Servenière argumenta sobre várias áreas da cultura, sempre de maneira incondicional. Após breves considerações sobre música e criação, política, ciência, religião e economia, tantas vezes a suscitarem polêmica, finaliza com certa esperança: “É necessário saber que a total liberdade tem um preço, a solidão. Poucos são capazes de assumi-la (…) Malgrado tudo, continuemos a fazer o que é melhor, deixemos ladrar a matilha, caminhemos para vislumbrar além do horizonte, aprendamos, escutemos, viajemos… pois são os únicos meios provados para evitarmos morrer idiotas. Logicamente os cães continuarão a ladrar… Deixemo-los ladrar, mas evitemos beber na mesma fonte”.

O capítulo XII é dedicado a um concerto “Concert à l’Atelier”. Refere-se ao recital que dei aos 29 de Janeiro de 2013 na Salle Godard, em Paris, quando apresentei, extraprograma, o Étude Cosmique Sinergie, de sua autoria. Fico-lhe grato pela inserção.

“Bien Faire et Laisser Braire” pode ser adquirido através do site www.amazon.fr . Recomendo-o vivamente.

This post is an appreciation of the book “Bien Faire et Laisser Braire” (in a totally free translation, “Dogs Bark and the Caravan Moves on”), chronicles written by the French composer François Servenière, in which, after a brief introduction shedding lights on his childhood and family origins, he addresses a myriad of subjects, such as arts, politics, religion, fanaticism, sciences and, most of all, music. Controversial as he may be, sometimes proposing radical solutions, Servenière concludes with at least a thread of hope, stating that, as a lone fighter, one has to go on doing its best whatever the cost.