Navegando Posts em Cotidiano

Triste Realidade

Não julgues que pensas melhor
do que todos os que te precederam:
o mais provável é que penses pior;
principalmente quando tudo te parece mais certo.
Agostinho da Silva
(“Espólio”)

Como se não bastassem as incorreções gramaticais crônicas praticadas pelo último ex-presidente e pela atual mandatária, sem contar os deslizes diários – verdadeiros atentados à língua portuguesa – perpetrados diariamente no Planalto e no Congresso, “educadores”, engajados na elaboração da nova Base Nacional Curricular Comum (BNCC), estariam prevendo para Junho a implementação de novos currículos. Após veementes protestos iniciados pelo historiador Marco Antônio Villa através da Rádio Jovem Pan e da TV Cultura, um tsunami de cerca de 10 milhões de mensagens com sugestões invadiu o site do Ministério de Educação, que doravante estaria a estudar alterações no programa educacional.

Recebi de minha amiga e colega uspiana, Profª Maria Stella Orsini, matéria publicada no “Diário de Notícias” de Lisboa no dia 20 de Fevereiro último, sob o título “Literatura Portuguesa deixa de ser obrigatória no Brasil”, com assinatura de João Almeida Moreira.

Com a mais justa razão o colunista aponta o que está a acontecer com essa proposta para alteração curricular. Se a disciplina História estava a ser mutilada de suas essencialidades, como Grécia Antiga, Império Romano, Idade Média, Renascença, Revolução Francesa, Revolução Industrial entre tantas outras, em benefício das ideologias totalitárias que se instalaram a partir da metade do século XX na América Latina e na África, há que se verificar que, desde a base escolar, as novas gerações estariam acéfalas no que diz respeito ao desenrolar da História através dos séculos.

Deve-se sempre buscar exemplos que corroborem o aprimoramento. No que se refere à literatura, seriam os expoentes máximos da língua portuguesa, como Luís Vaz de Camões, Gil Vicente, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa e inúmeros escritores enriquecedores das letras, que têm contribuído, através dos tempos, com o escrever bem, o cuidado com o estilo, o aprimoramento cultural. A não obrigatoriedade da literatura portuguesa, essencial para a formação do homem como um todo, tornar-se-ia crime educacional irreparável.

O articulista do “Diário de Notícias” historia: ” A BNCC foi criada no ano passado, na gestão do ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, entretanto substituído por Aloizio Mercadante, para estabelecer um grupo de conhecimentos e habilidades de que todos os estudantes brasileiros devem dispor na educação básica. Logo que foi conhecida do público gerou controvérsias: inicialmente, não tanto por causa da literatura portuguesa, mas sim por questões ligadas à História e à Gramática. As críticas surgiram em virtude da pouca relevância dada à história mundial, ignorando pontos considerados por educadores como de conhecimento básico, para dar ênfase às histórias indígena e africana. Outra área que mereceu reparos foi a da ausência da gramática no ensino geral de linguística”. A se considerar o DN, o Ministério da Educação já teria revisto alguns pontos críticos, mas estaria a receber sugestões via site.

A matéria publicada no DN sublinha ainda algo que deve ter chocado até os leitores minimamente cultos: “O governo do Partido dos Trabalhadores, de centro-esquerda, é acusado de populismo e de agir de forma ideológica, ao querer privilegiar a cultura indígena e ao ser mais permissivo em relação a questões gramaticais já desde 2011, quando causou choque na classe educadora que, num manual escolar distribuído pelo MEC, fosse considerada ‘inadequada e passível de preconceito mas não errada’ a expressão, sem concordância, ‘nós pega o peixe’ “.

Sempre é bom lembrar a polêmica em torno do livro “Por uma vida melhor”, de Heloísa Ramos, publicado em 2011 e que teria sido adotado pelo MEC, no qual é apresentada a alternativa da norma popular vinda na contramão da norma culta. Como afirmou a autora em entrevista à Naiara Leão: “Não queremos ensinar errado, mas deixar claro que cada linguagem é adequada para cada situação” (“Não somos irresponsáveis”, diz autora do livro com “nós pega”. Artigo de Naiara Leão, IG Brasília, Último segundo – Educação, 12/05/2011). A articulista comenta outra afirmação da autora do livro: ” Ela acredita que, ao deixar claro que é tolerado todo tipo de linguagem, a escola contribui para a socialização e melhor aprendizado do estudante. ‘Quem está fora da escola há muito tempo é quieto, calado e tem medo de falar errado. Então colocamos essa passagem para que ele possa sair da escola com competência ampliada’, diz”. Nessa visão, a corromper por completo a norma culta, outro exemplo pareceria evidente: “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. A autora explica o porquê dessa forma linguística: ” Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar os livro?’. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico (negrito da articulista). Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção para todas as formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião”.

A exemplificação, através do livro mencionado de 2011, apenas evidencia que se urde um desmonte progressivo da norma culta e, logicamente, com o entendimento do MEC. Tem-se um projeto absurdamente nocivo à elevação cultural de um povo. Quando se deveria buscar o aprimoramento do falar e do escrever, corrompe-se o conceito, destrói-se o passado que impulsiona o presente, rebaixa-se ainda mais a educação de um povo que estaria ávido pelo conhecimento que não lhe chega nunca, a fazer com que a “Pátria Educadora” seja até escárnio, quando deveria ser redenção.

Retirar a obrigatoriedade da literatura portuguesa dos currículos escolares antolha-se-me como uma confissão do descaso cultural, da visão ideologicamente organizada desde bancos universitários em áreas como história, filosofia e literatura. É basicamente consensual que parte expressiva dos egressos das universidades estatais, nesses segmentos apontados, busquem atuar nessa “preparação das mentes”, como bem dizia um saudoso colega da área do Direito. O projeto nas áreas da História e da Literatura apontam, num sentido claro, para a “incipiência” ou voluntária visão do nivelamento por baixo dos que a ele se atêm. Preferem ocultar o passado, única razão a explicar presente e futuro, em torno de um projeto que é propagado pelo último ex-presidente, em suas múltiplas verborragias, de que o Brasil “só″ existiria após a sua unção ao posto máximo deste país.

Numa mesma direção da esquerda obliterada pela ideologia não estaria a França socialista de François Hollande a buscar fórmula bem semelhante, ao tentar excluir dos currículos de História parte do passado que fundamenta o conhecimento,  introduzindo intensamente a cultura árabe? Estudá-la é fato, num país com milhões de muçulmanos, mas suprimir o passado!!!

No que tange à literatura portuguesa, após as 10 milhões de mensagens endereçadas ao site do MEC, segundo o DN, do Ministério sairia uma lacônica nota mencionada pelo jornal português: “No mesmo documento lê-se ainda que serão introduzidos tópicos de análise linguística em todas as etapas de escolarização – mas não há referência à reintrodução, ou não, da obrigatoriedade da literatura portuguesa”.

Mais do que um viés político e ideológico, característico dos movimentos de esquerda extremados, nos quais a Nova Ordem busca o abafamento ou a eliminação do passado, haveria um dado que me parece fundamental. O único verdadeiro líder do PT foi e continua a ser o último ex-presidente. Ungi-lo é o que faz diariamente a cúpula do Partido dos Trabalhadores a influenciar, à maneira nazista, o séquito da militância, apesar de tudo o que está a ocorrer com os desdobramentos do Lava-Jato desvelando a corrupção ilimitada. Isso é fato inconteste. Houve, há e, tudo indica, continuará a existir a permanente citação nominal ou entrelinhas por parte do  PT e do ex ao antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Também fato inconteste. A insistência ad nauseam do sr. Lula às suas próprias origens humildes, iletradas, geralmente seguidas à crítica aos que tiveram a oportunidade de estudar, “as elite”, vai ao encontro da camada que também não teve acesso aos estudos, nesses últimos governos petistas como no passado. Vídeo bem antigo revela fala do sr. Luís Inácio: “Sou muito preguiçoso, até pra ler eu sou preguiçoso. Eu não gosto de ler, eu tenho preguiça de ler” (sic). Sob outro olhar, a militância petista fidelíssima, que tem em seus quadros sindicalistas, os inúmeros integrantes dos movimentos MS…, assim como egressos das universidades e de outras camadas da sociedade, encontra nas palavras do “demiurgo” as “profecias” para incentivá-la. A repetição confere a sedimentação ideológica, e todo o conteúdo a ele agregado apenas substancia um caldo grosso de fácil de interpretação, pois messiânico, perigoso em suas intenções beligerantes – luta de classes -, tantas vezes apregoadas em mensagens que estabelecem “o” modelo “linguístico”, no caso. E qual é esse? O líder carismático inconteste, mas apedeuta contumaz, tem claudicado ainda mais em suas falas, a cometer incorreções gramaticais incontáveis, a empregar a “norma popular” – a que conhece -, aproximando-o, com intentos que pareceriam evidentes, daqueles que a utilizam. Não estaria a haver um voluntário desejo de desmonte da apregoada “Pátria Educadora”? Quantas não foram as vezes que o último ex não pronunciou palavras chulas ou de baixo calão em pronunciamentos? No domingo (6 de Março), em frente à Globo, a filha do apedeuta não fez gesto obsceno ao levantar um determinado dedo? A mesma atitude teve a neta do último ex. Transmissão através das gerações. Para alguém que esteve durante oito anos a presidir o país, palavras e gestos inadequados ferem a dignidade que deve ser mantida, mesmo após o findar do mandato público. Creio que o senhor em questão força ainda mais o equivocado recrudescimento do linguajar e, sua prole, do gesto. A  atitude do líder contamina os militantes mais acirrados que aparelham o governo. A desestruturação curricular nas áreas apontadas pelo DN é consequência dessa necessidade mimética. Daí a frase acima citada pelo jornal: “inadequada e passível de preconceito mas não errada a expressão, sem concordância, ‘nós pega o peixe’ ser interpretada pelo MEC”, hoje a ter como Ministro um ex-professor universitário (sic). Essa distorção não estaria como provocação ao letrado Fernando Henrique Cardoso, jamais esquecido pelo sr. Lula, apesar dos mais de 13 anos de seu partido no poder? FHC seria o patamar que jamais o último ex alcançaria. A insistência em mencioná-lo, sempre, é prova cabal.

Lembraria ainda, como adendo a este post, que na juventude meu saudoso pai nos fez ler, a estimular a leitura aos quatro filhos – Ives, José Paulo, JE e João Carlos – obras referenciais de Camões, Gil Vicente, Sá de Miranda, Padre António Vieira, Alexandre Herculano, Almeida Garret, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão e tantos outros escritores e poetas portugueses para que aprendêssemos os fundamentos da extraordinária língua portuguesa, não desprezando contudo os grandes romancistas e poetas brasileiros. Sou-lhe tributário ad aeternum pelo encaminhamento literário que nos proporcionou. Aliás, como bem lembrava meu pai: “O Homem é ou não é”.

On the deliberate efforts of the Workers’ Party government to ruin the Brazilian cultural heritage in favor of ideologies that flourished from the mid-twentieth century in Latin America and Africa.

 

 

 

Exemplos Dignificantes

O essencial na vida não é convencer ninguém,
nem talvez isso seja possível;
o que é preciso é que eles sejam nossos amigos;
para tal, seremos nós amigos deles;
que forças hão-de trabalhar o mundo,
se pusermos de lado a amizade?
Agostinho da Silva
(Sete Cartas a um Jovem Filósofo)

Farta literatura, que remonta à Grécia antiga, aos textos bíblicos e a tantos outros ligados à morte, jamais deixou de causar perplexidade. A inexorabilidade do fim receberia interpretações as mais diversas nos vários campos do conhecimento: literatura, poesia, música, artes, religião e ciências. Mors certa, hora incerta é fato inconteste e a grande salvaguarda do homem para que continue a viver “descontraído”. Soubéssemos precisamente o instante do acontecido nossas existências seriam rigorosamente diferentes.

Três amigos queridos partiram. No dia 1º de Janeiro, Gilberto Mendes (1922), que nos deixou serenamente nos braços de sua dedicada esposa Eliane. Escrevi post a respeito do compositor (vide “Gilberto Mendes – In Memoriam” – 09/01/16), um dos maiores músicos brasileiros de música clássica ou de concerto em toda sua história. Brevemente escreverei outro post sobre Gilberto Mendes, pois a revista Glosas, de Portugal, dedicou o núcleo temático de seu último número  a essa personalidade singular e amigo extremo.

Do pranteado amigo Roberto Penteado (1934) necessitaria indicar alguns de seus múltiplos talentos. Engenheiro químico, trabalhou durante mais de 33 anos nas célebres Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo que, por muitas décadas, foi uma das mais importantes do país, um verdadeiro império. Roberto exerceria a função de diretor de várias unidades, como sabonetes, pastifício, celulose, biscoitos… Estou a me lembrar de que, já no final dos anos 1960, Roberto desenvolvera biscoito integral à base de fibras, enaltecendo vivamente suas propriedades, hoje consagradas. Pioneiro. Percorreu pela empresa e técnicos da Embrapa quase todo o Brasil. Dirigiria ainda em Curaçao uma fábrica de café solúvel. Em sociedade com firma japonesa, desenvolveu projeto de pesca em alto mar. Um dos homens mais criativos que conheci, muito adiante de seu tempo!

Amante da natureza, com ele conversávamos sobre uma de nossas paixões, o canto dos pássaros brasileiros, pois também tinha um enorme repertório guardado em sua mente. Contudo, foi mais longe, pois conhecia a fauna aquática pátria e identificava com presteza nossas árvores, nomeando-as e evidenciando suas propriedades. Fotógrafo amador, revelava as fotos sempre em branco e preto no mini laboratório improvisado em sua casa. Adorava cutelaria, tendo uma coleção de facas de todo o planeta e com arte fazia cabos para algumas. Amava jazz e, por seu intermédio, passei a apreciar a criatividade de Oscar Peterson, Thelonius Monk, Art Tatum, Erroll Garner, Fats Weller, Count Basie e tantos outros.

Sua esposa, Júlia, é dileta amiga de Regina desde a infância na então aprazível Campinas, tendo estudado piano durante anos com minha sogra, a ilustre e saudosa professora Olga Normanha. Várias vezes o casal e filhos passaram a festa de fim de ano no apartamento de meus pais, quando o congraçamento se dava. Amizade sólida.

Nunca me esqueço de seus relatos da adolescência e um, particularmente, causou-me impacto, pois o pesquisador vocacionado mantinha, no quintal de sua casa em Campinas, serpentes peçonhentas, soltando-as periodicamente para observar suas reações a anteceder o bote certeiro. A uma pergunta sobre o perigo, respondeu-me calmamente que a cobra jamais dá o bote maior do que a extensão de seu corpo. Jogava ao chão um velho chapéu e assistia a reação fulminante do réptil. A lição serviu-me, pois durante mais de dez anos (1970-80), em minhas viagens ao Vale do Paraíba aos sábados para pesquisar arte sacra popular dos séculos passados, não poucas vezes meu saudoso amigo Carlindo Pavan e eu nos deparamos com ofídios venenosos. A imediata visão do comprimento dos répteis trazia-me certezas. Enfim, Roberto era um estudioso. Suas respostas às questões formuladas vinham sempre acompanhadas da explicação científica. Após longa enfermidade, sob os cuidados da carinhosa esposa Júlia, de seus dois filhos, Gustavo e Juliana e dos netos, Roberto Penteado também nos deixou no último dia 22.

O terceiro a partir foi Walter Maria Flesch (1928), nosso vizinho desde 1971. Desenlace no dia 25. Consideremos que vizinho não escolhemos, ele acontece quase sempre pelo acaso. Razões múltiplas impulsionam determinadas pessoas a encontrar um lugar para o prolongamento da existência em novo lar. Já morávamos em nossa casa desde 1965 e o entendimento com a família Flesch, desde o primeiro dia até o falecimento do patriarca Walter, sempre esteve sob a aura da pura amizade.

Natural de Blumenau, Santa Catarina, conheceu Eneida Landsmann Jungers durante o curso de odontologia na Universidade de São Paulo. Casaram e tiveram quatro talentosos filhos, Fernando (engenheiro), Maria Cláudia (jornalista), Maria Elisa (professora) e Maria Helena (médica) e onze netos em plenas realizações. Assistimos mutuamente ao crescimento de nossos filhos e as realizações que advieram em suas trajetórias eram motivos de júbilo confesso de parte a parte. Walter e Eneida, casal de dentistas, impecáveis na educação de seus filhos, viveram amorosamente a expansão familiar.

Naqueles primeiros tempos, apenas casas existiam em nossos quarteirões. Hoje são elas raridades. Portões baixos, ausência de grades nas janelas e portas. Outra realidade. Por vezes Flesch e eu jogávamos pingue-pongue em casa do vizinho da frente, o sempre lembrado seu Chico, prática essa realizada a poucos metros do portão sempre aberto que dava para a rua! E essa diversão se dava à noite! Outros tempos. Pairava a descontração, a violência era algo raríssimo. Presenciamos o crescimento desmesurado de nossa cidade bairro, Brooklin-Campo Belo. Espigões se ergueram e personagens surgiram já sem laços com essa tradição que se esvaíra, pois a maioria não se enraíza, permanecendo no anonimato.

Tendo adquirido terreno em condomínio em Ibiúna, levamos certo dia nosso amigo para visitá-lo. Fizemos piquenique e a foto registra a descontração. Creio que foi em 1975. Não tendo vocação para casa de campo ou praia, vendi anos após o referido terreno.

Lembro-me de episódio que nos marcou muito. Nos anos 1970, Flesch e eu fomos convidados a visitar um loteamento no Mato Grosso do Sul. Saímos do aeroporto de Congonhas e faríamos escalas em Bauru e Três Lagoas. O avião de dois motores turboélice, ao sobrevoar Bauru, teve de abortar a descida e regressar a São Paulo, pois detectaram um problema que só poderia ser solucionado na capital. Após algumas horas reiniciamos a viagem com aterrissagem em Bauru e continuação do voo até Três Lagoas. Lá chegando, já a nossa espera estava piloto de pequena aeronave monomotor. Mostrava-se ansiosíssimo, pois com o atraso e já no final da tarde o avião teria de partir imediatamente, já que não dispunha de instrumental para voo noturno. Chegamos com certa tensão nas fronteiras da escuridão. Dormimos numa tosca construção de alvenaria e permanentemente o telhado era irrigado pelas águas de um afluente do rio Sucuruí, devido ao calor sufocante. No dia seguinte, num jipe, percorremos o empreendimento e vimos emas, pássaros tantos e até uma imensa jiboia que, assustada, mostrou-se bem ágil na fuga. Às refeições, pescado fluvial, carne de caça e ingredientes mais. Regressamos à tarde. Ficou como lembrança, nesse breve convívio, o espírito curioso de Flesch, que queria tudo saber, assim como sua proverbial tranquilidade e senso de fino humor. Ao longo das décadas, não poucas vezes lembramos com prazer essa breve, mas inesquecível, “aventura”.

Longe de serem diários nossos contatos, quando se realizavam jamais deixaram de ter o dom do congraçamento. Nossos olhares traduziam o prazer do encontro. Sabíamos separados por um muro, mas entendíamos que, se necessário fosse, o atendimento mútuo seria imediato. Jamais houve uma rusga sequer entre nós. Particularmente, meu contato com Flesch dava-se sob vários aspectos. Adorava música – pianista amador – e esse fato fez com que nossos estudos pianísticos, os de Regina e os meus, fosse qual fosse o repertório, jamais provocassem uma reclamação sequer. Logicamente, à noite estudava com o pedal abafador acionado para minimizar sonoridades.

Exatamente dez anos menos jovens do que Regina e eu, o casal sempre mostrou-se ativo, discreto e cordial. Aos domingos, Flesch, sem camisa, mesmo em dias mais frios, cuidava de seu jardim com desvelo. Domingo é dia de futebol e conversávamos sobre o esporte bretão, ele palmeirense fervoroso e eu então torcedor de um time que existiu no passado, Portuguesa.

Sinto ter perdido três referências que me eram caras. A amizade é uma dádiva preciosa e, não por outro motivo, Amigo na acepção escreve-se com A maiúsculo em Portugal. Gilberto, Roberto e Walter permanecem em nossos corações, indelevelmente.

Last January I lost three dear friends: Gilberto Mendes, Roberto Penteado and Walter Maria Flesch. Friendship is a precious gift. Writing this post recalling their full, meaningful lives and the fond moments we have shared together is a way to keep their memories alive. Though the pain has simply to be endured, they will live on through such recollections.

 

 

 

O autor se pronuncia após resenha

Le premier qui dit la vérité doit être exécuté.
Guy Béart (1930-2015)
(Canção ‘La vérité’)

Depois da minha resenha de “Bien Faire et Laisser Blaire”, de François Servenière, recebi mensagem do autor que tem muito interesse, pois algumas outras interpretações de seu livro enriquecem o conteúdo já explicitado.

Escreve Servenière:

“Qual a razão de ter apreciado a crítica que o amigo fez de meu livro em seu blog? Pelo fato de que traduz a realidade de meu texto. Sim, meu livro tem segmentos extremos, mas nossa realidade mundial, europeia e humana atual é também extrema. Busquei apenas as causas, sem preocupação em tornar a publicação uma enciclopédia ou uma tese. Tão somente uma reflexão global, que se apoia sobre o real nessa minha faixa etária após o cinquentenário.

Não se trata de uma análise dos últimos quinze dias, mas sim uma reflexão que começou a ser delineada há 15 anos, a partir de um acervo de informações e debruçamentos acumulados em 30 anos. Meu texto pode desagradar e cada um fará seu julgamento. Quando eu falo da idiotice, não tenho ilusões, pois poderei ser alvo de críticas, como todo mundo, aliás.

A sua resenha de ‘Bien Faire Laisser Braire’ (‘Fazer bem feito e deixar ladrar ou zurrar’) está universitariamente exata. Você soube extrair as paixões existentes no livro. Qual a razão de entendermos formidáveis os livros dos grandes autores do passado, Shakespeare, Voltaire, La Fontaine, Goethe, Kant, Cervantes… (lista imensa). Por uma razão apenas: eles não mentiram sobre suas épocas. São analistas lúcidos e cruéis. E Deus sabe que correram risco de morrer graças aos seus testemunhos – ‘E sei que ela gira’ (Galileu) -. A verdade contida em suas revelações nunca agradaram a monarcas e senhores feudais, às ideologias e às circunstâncias momentâneas, aos interesses e aos lobbies, friso, nunca. Nada de novo sob o sol: no Brasil e na França, ainda vivemos esse drama, malgrado a imprensa dita ‘livre’ (hum, hum)!!! Hoje, os monarcas não matam pela verdade estampada que os desagrada, mas mantêm associações e editam leis para impedir que a verdade chegue ao firmamento.

A sua crítica é formidável, pois você vê meu livro como ele é. Na forma bruta, sem concessão, no limite, sobre a corda esticada, como afirma, se comparado às novas normas do pensamento único, que encolhe o debate à velocidade da luz. Estou a me lembrar da história do repórter ou fotógrafo de guerra. O fotógrafo de guerra tira as fotos, majoritariamente horríveis: massacres, fome, execuções sumárias… Ao voltar para casa, colocas as imagens no computador sobre photoshop para os profissionais contemporâneos. Que pensaríamos nós se essas fotos fossem retocadas para serem adaptadas para o público, para o editor, etc…, pelo dinheiro tão somente? Diríamos que ele não teria feito seu trabalho. Sinto que fiz meu trabalho.

Procurei, logicamente através de meu prisma, traduzir tudo aquilo que senti e vivi desde minhas origens. Tentei destruir nessas crônicas tudo que pudesse – programações mentais de educação e do meio social de origem cristã, da direita e da esquerda de um cristianismo por vezes comunista, rural, comercial, artístico, universitário e também voltado à medicina – alterar a crua visão da verdade e a leitura de nossa conjuntura. Reli o texto ao menos 300 vezes. Consegui, a partir de uma análise de vários anos, liberta-me daquilo que pudesse sugerir a subjetividade em detrimento do essencial, a resultar portanto a transparência da objetividade. Daí ter inserido cifras, fatos e consequências múltiplas em tantas áreas (capítulos X, XI, XV, XX). Busquei sempre colocar-me na posição de um extraterrestre que, ao chegar à Terra, descobrisse a civilização humana, a criticá-la sem piedade nem afeto, sem conluio de qualquer espécie e respeito pelas suscetibilidades individuais e coletivas. Quis sempre guardar esse olhar e afrontar o horror, mesmo que essa atitude pudesse desagradar minha genealogia, meus antepassados, pois não deixo de ser devedor de toda a herança que me legaram, sob múltiplas formas. Procurei ver sob essa casca humana protetora que constitui a cultura, o bom, o belo, o justo, deixando de lado toda programação geográfica e histórica. Eis o meu propósito, pois.

Muitas vezes ou sempre, pelo menos assim deveria ser, a bondade se encontra no de profundis de cada um de nós. Vê-se que estamos diante de uma busca incessante sem fronteiras. Meu livro, na realidade, está sempre a transmitir essas ideias. Abandonai vossas barreiras mentais!  Guardai vossas fronteiras e vossas leis para proteger vosso microcosmos como se protege um jardim, que nada mais é do que fruto de um trabalho. Todavia, abri vossos corações à alteridade, viajai! Era um pouco a filosofia do grande Maurice Ravel: “Sou um internacionalista por filosofia, mas nacionalista em arte”.

A realidade que escrevo, vivia-a, mensurei-a, tive pesadelos e noites brancas para chegar a esses mecanismos. Por vezes relâmpagos de lucidez surgiam-me em plena noite, nada de excepcional, aliás, pois ocorre a todo pensador ao refletir sobre seu mundo, sem cessar. Adquiri o hábito há anos de ter meu laptop ao lado de minha cama para apreender ao vivo a reflexão. A construção do livro foi fruto de dezenas de horas de debruçamento, a fim de compreender um mecanismo ou outro, em todos os domínios de minhas fronteiras mentais: filosofia, música, barco, navegação, montanha, ciência, etc… Como na música, foi necessário, sobretudo, não perder o fio condutor da construção mental. Criadores, autores, artistas e tantos outros, que têm a mente em ebulição, conhecem esse fulgor. Pode ocorrer no carro, sob uma ducha, correndo, sobre uma bike elíptica, no sonho, ou, in extremis, na conjunção de tantos fatores. Um espírito em vigília, um espírito que trabalha, fá-lo do primeiro ao último dia, sem cessar… A fadiga nessa busca permanente percebe-se no olhar, nos traços. O repouso basicamente não existe.

Agradeço-lhe pela crítica, longa, pensada, sem derivativos, a afrontar e a descrever meu texto na sua mais profunda autenticidade. Já previa que determinadas passagens pudessem desagradá-lo, você, cristão e humanista. Sabia contudo de sua abertura intelectual maior. Soube você extrair de seu paradigma mental razões para resenhar meu livro em seu aspecto real. Você fala das polêmicas! Bem entendido, tudo é polêmico, do grego antigo πόλεμος, pólemos (guerra). Estamos em guerra contra o obscurantismo e o totalitarismo. E, como descrevi, essa guerra é multiforme, multipolar, a encontrar sua essência nos mesmos erros e nas ideologias que quiseram pela força criar o ‘novo homem’ ou ‘nova humanidade’, os socialismo, comunismo, nacional-socialismo, islam e uma parte das tradições talmúdicas e bíblicas que não foram verdadeiramente pensamentos humanistas na origem. O fundamentalismo e seus efeitos monstruosos têm origem nesses textos. É fato e de fácil comprovação. A guerra evidentemente, contra a civilização no sentido da civilidade. Não entre as civilizações. Guerra entre bárbaros e os civilizados. É tudo.

Nós dois almejamos um só caminho, o da verdade, e ela faz mal. Não seguimos a verdade conjuntural, geográfica ou cultural, religiosa ou doutrinária, mas a verdade humana naquilo que ela tem de mais ontológico, aquela que emana das profundidades do DNA. E a música, nesse sentido amplo, não pode mentir. Ela está fora do campo ideológico, pois a música é ‘DNAdística’, mediúnica. Aqueles que pretenderam colocá-la no campo ideológico no século XX deram-se mal. Recebem no rosto o boomerang (analogia política/música).

Enfim, ontologicamente, essencialmente: por que, qual a razão de aqui estarmos, para qual propósito? Kant, Spinoza, Shakespeare, a Bíblia, o Torá, o Talmud… certamente propõem as chaves. Qual a razão para agirmos assim? Por que fazemos a guerra e a paz e, após 30 anos, refazermos ainda conflitos exterminadores, sempre invocando razões bem próximas, como exponho no subtítulo de meu livro ‘Crônica da água que corre sob as pontes sem jamais retornar acima, exceção graças à evaporação’ (a vida é um ciclo)? Sempre, sempre, malgrado a relatividade de Einstein, as mesmas causas produzem desgraçadamente os mesmos efeitos. O século XX sofreu com a sua descoberta e com sua consequência filosófica, o relativismo. Tudo passaria doravante a ser relativo e nada mais teria o valor real, diria, batalha de cínicos! Tentei provar que todas essas controvérsias eram falsas, apesar da justeza teórica sobre pontos precisos. Vivemos, mesmo que seja em forma de ondas ou de influências macro/microscópicas ou nanoscópicas, realidades. Os músicos integram essa certeza desde o nascimento da música” (tradução: JEM).

Servenière finaliza a enviar-me inúmeros aforismos pertinentes à desavença, à guerra, à discórdia, à leitura preconceituosa. Mencionaria o primeiro, bem apropriado ao conteúdo de seu livro e determinadas interpretações que dele deverão advir: “Quando o sábio aponta para a lua, o idiota olha seu dedo” (provérbio chinês).

In last week’s post I published an appreciation of François Servenière’s book “Bien Faire et Laisser Blaire”. Today I publish the author’s comments on my review, suggesting other interpretations that only enrich the understanding of his book.