Navegando Posts em Cotidiano

Desalento e Esperanças

Como nada entenderam do passado,
nada podem sonhar para o futuro.
Agostinho da Silva
(“Espólio”)

Se 2015 foi ano atribulado pelo mundo afora, há que se destacar a deterioração de tantos valores morais e culturais no Exterior e mormente em nosso país. Nem insiro a palavra ética, pois esta tem sido utilizada por todas as correntes, banalizou-se, prostituiu-se, retiraram-lhe o significado essencial. Estou a me lembrar de série de programas sobre Ética em canal estatal, faz um bom tempo. A intelligentsia de sempre, tupiniquim, discutiu durante semanas, em linguajar ex cathedra, pomposo, acadêmico e ininteligível para o leigo, os valores da ética. Alisou egos dos convidados e os efeitos, como esperados, foram nulos, pois o telespectador ficou desinformado.

O PT, ao reivindicar posições, desde sua fundação erigiu a ética como fundamento. Desnecessário estender-se sobre o tema. Desgovernos, mensalão, petrolão e tantos outros escândalos e indiciamentos aí estão para dimensionar o desvio absoluto por que prima o partido, desde 2003, quanto ao desrespeito dessa nobre palavra, ética, hoje tão aviltada. Lembremo-nos de que o lema apregoado pela presidente de plantão em seu desastroso segundo mandato foi “Pátria Educadora”. Seu criador, em recente pronunciamento na Espanha, culpa a colonização portuguesa pelo atraso da Educação no Brasil e menciona dados históricos falhos (sic). Com absoluta clareza a imprensa portuguesa revoltou-se contra essa verborragia. Teria o ex a coragem de proferir o descalabro quando do recebimento do título Doctor Honoris Causa conferido pela Universidade de Coimbra, anos atrás? Desrespeito para com a verdade, ignorância e absoluto desconhecimento do rito diplomático. Recebi mensagem de minha amiga portuguesa Idalete Giga, em que deputado europeu, indignado com a fala do ex presidente, assim teria se pronunciado: “Fazer da ignorância um exercício de erudição, é em si mesmo um paradoxo. Discorreu sobre temas que implicam estudo, com a facilidade com que trautearia um forró. E o disparate aconteceu”.

2016 aponta no horizonte. Será um ano basicamente perdido, mercê de todo o processo de impeachment que se deverá prolongar. As mais vis porfias serão travadas em Brasília entre o executivo e o legislativo, sob o olhar de um judiciário complexo no que tange às nomeações de seus integrantes, por vezes ideológicas. Após a trágica sessão do Supremo Tribunal Federal em que a Corte decidiu barrar o processo de impeachment (17/11), estabelecido pelo presidente da Câmara dos Deputados, contra a presidente atual, assim se pronunciou o ilustre Ministro do STF, Gilmar Mendes: “Existe um projeto de bolivarização da Corte. Assim como se opera em outros ramos do Estado, também se pretende fazer isso no tribunal, e, infelizmente, ontem tivemos mostras disso” (Fonte: Brasil 247, 19/12/2015). Economia, inflação, desemprego galopante, insegurança, saúde, educação, saneamento básico assustam o brasileiro. O descaso do governo pelo elementar saneamento é fator primordial da aceleração dos surtos causados pelo mosquito aedes aegypti, transmissor de outras mais pragas que não a dengue. Temos que acreditar e arregimentar cidadãos que compartilhem princípios morais, que anatematizem essa chaga que se tornou endêmica e que se alastrou, sobretudo desde 2003, a corrupção. O sistemático desvio de dinheiro nas grandes e pequenas obras, o inchaço da máquina administrativa a continuar o aparelhamento do Estado e a contagiar o orçamento pátrio, a prática vexatória do popularmente “toma cá, dá lá”, são temas do cotidiano, hélas. Há o Lava-Jato, benfazejo processo que está a desmoronar redutos e a chegar à fonte primeira do desvio de somas fabulosas. O cidadão de bem acredita nesse processo, salvaguarda ainda de nossa pobre sociedade brasileira. Oxalá permitam!!! Ano difícil está por vir.

Num aspecto mais amplo, de possível transição para períodos menos desfavoráveis, há a hipótese remotíssima, frise-se, do pronunciamento, por parte da presidente, de uma palavra apenas: renúncia. Completamente despreparada para a função que ocupa, sua fala, quando improvisada, apenas aumenta o anedotário pátrio; seus desvios sistemáticos da verdade estão acelerando seu descrédito; sua “inanição” frente à economia e ao desemprego no país; suas articulações políticas diárias para se manter no Poder a qualquer custo, tudo está a conduzi-la ao fundo do abismo, reduzindo sua aprovação pública a nível constrangedor. Saint-Exupéry, em frase notável, dizia que a vaidade não é um vício, é uma doença. Criador e a pobre criatura sofrem desse ego superdimensionado, que inviabiliza a leitura do Brasil como país de todos e não de um grupo. O projeto de não alternância do poder impede o olhar a miséria do povo, que deveria ser extinta pela ação educadora. Entregam o peixe simplesmente, em detrimento da vara, do anzol, da isca e dos mares, rios e lagoas tratados… E bastaria uma só palavra que revelaria, nessa conturbada pátria, grandeza a atenuar o descompasso da presidente. Renúncia, termo que os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado também deveriam pronunciar. Acrescentaria que a arrogância, a empáfia e a teimosia também são doenças, alargando o preceito de Saint-Exupéry. “Poderosos” desprovidos de preceitos fundamentais. Nesse tópico relativo à política à deriva no país, mencionaria recente (26/11/15) sexteto (XXVI) de meu irmão Ives Gandra, notável jurista:

“O Brasil em polvorosa
Vê política horrorosa
Em Brasília praticada.
Há muito qu’este país
Deixou o povo infeliz
À mercê da canalhada”.

2016 sinaliza as Olimpíadas no Rio de Janeiro. A organização preparou devidamente nossos atletas para o maior evento esportivo do planeta? A ouvir-se esportistas que não tiveram o acompanhamento necessário, a resposta é, decididamente, não. Assim como no futebol, devastado pela corrupção aqui e alhures de maneira vergonhosa, mercê, entre outras mazelas, de mandatos “perpétuos” de seus dirigentes. Sob a égide de permanência no cargo, há quantas décadas está na presidência do COB o mesmo cidadão? No caso, também, não há renovação e ideias arejadas não conseguem penetrar as mentes dos dirigentes. Se nas Olimpíadas, que distribuem aos vencedores das muitas categorias centenas de medalhas, as minguadas láureas que o país de 204.000.000 de habitantes receberá serão motivos de palavras plenas de lisonjas pelos mandatários, que também não têm a grandeza da renúncia. Veremos. Nem menciono super-faturamentos que virão à tona após competições, mas que já começam a pulular. Voltarei ao tema após as Olimpíadas para, infelizmente, ratificar o que acabo de escrever.

2016 deverá persistir, sempre em movimento de ascensão, na continuação do óbvio. Na música erudita, os mesmos de sempre, com raras exceções, visitarão o país. Ouviremos, com algumas ressalvas, as repetidas obras do repertório para orquestra, de câmara e solista, as óperas rotineiras. Toda uma programação que completa geralmente o círculo após, no máximo, cinco anos. A roda a fazer seu giro e a prosseguir o movimento circular. Na televisão, há canais a cabo com programas interessantes, pois a TV aberta não merece comentários, salvo, diga-se, alguns raros programas de entrevistas e de documentários. O ano vindouro deverá assistir à avassaladora avalanche dos mega-shows que chegam do Exterior com o som às alturas, entradas a preço de ouro,  e a massa informe de frequentadores erguendo os braços, agitando-os, à maneira da juventude nazista. E a cultura?

No hemisfério norte, a problemática da imigração descontrolada de muçulmanos, preferencialmente, conduz aos continentes a incerteza, o temor e a islamofobia generalizada. Períodos difíceis e assustadores estão por vir. Veremos também.

Apesar de todas as mazelas, dificuldades de toda sorte por que passa o planeta, há valores que têm de ser preservados, e a família continua a ser o epicentro que leva ao equilíbrio das mentes.

Desejo a todos os leitores que prestigiam meu blog um ano de 2016 que ao menos traga certa tranquilidade e menos incertezas. O convívio familiar e os amigos serão os bálsamos que ajudarão a todos nessa transição que custa a passar, mas passará.

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Finalizava o post quando recebo e-mails de Idalete Giga e de François Servenière, comentando o texto da semana que passou, dedicado ao Natal e tendo como epicentro bela narrativa de Saint-Exupéry. Insiro segmento da mensagem da ilustre gregorianista portuguesa e do notável compositor francês. Escreve Idalete:

“O texto de Natal que extraiu do cap. 122 da sua obra Citadelle está escrito numa linguagem metafórica que pode, na realidade, ter várias interpretações. O soldado que queria morrer pode ser cada um de nós. As imagens são constantes na linguagem que usa. Este é um dos aspectos mais deslumbrantes da Citadelle. Também concordo que esta obra foi a ‘Bíblia’ do século XX e continuará a ser neste século. Mas podemos perguntar: quem a compreende verdadeiramente na sua dimensão ao mesmo tempo humana, metafórica e espiritual?

O José Eduardo foi um privilegiado ao conhecer e ouvir pela 1ª vez, textos desta obra impar lidos pela irmã do escritor-piloto, Simone de Saint-Exupéry. E chegou a ouvir alguma gravação do próprio Exupéry?” Sim, semanalmente, naquele ano e meio a que me refiro no e-mail anterior, a irmã do piloto-escritor lia e fazia-nos ouvir gravações de Saint-Exupéry. Continua Idalete “Citadelle não é obra para ler e guardar. É um universo a descobrir constantemente. Cada vez que abrimos o livro, seja em que capítulo for, descobrimos sempre novas revelações, novas imagens, novos mundos que, por vezes, se nos deparam quase inatingíveis. E voltamos a ler e a reler até descobrirmos o sentido das metáforas”.

Servenière envia verdadeiro hino à nossa atividade de músico.

“Espírito do Pequeno Príncipe, estás lá?
Espírito da infância, onde estás?
Porque tantas mortes, concessões à ignomínia e ao inominável?
O caos das estrelas?
Olhas como elas nos iluminam desde as origens.
Uma esperança ancestral?
Não, um permanente anseio.
Olhas o céu e serás levado ao divino.
Se apenas olhares o solo serás levado ao sepulcro.
Nossa música como testemunho de um dom.
Não deixemos as trevas invadirem nossas vidas e nossas artes”

New Year and the reflections it gives rise to: political unrest and corruption in Brazil, violence, vandalism, poor quality of education and health, infrastructure deficiencies, tax burdens. In the Northern hemisphere, intolerance and invasions of illegal immigrants. Hoping that family values will not be wasted in face of the tough times ahead of us, I can only wish you all a New Year filled with some promises of a brighter tomorrow.

 

 

 

 


Dualidade Perigosa

Pelos caminhos do mundo,
nenhum destino se perde:
Há os grandes sonhos dos homens,
e a surda força dos vermes.
Cecília Meirelles

Os terríveis acontecimentos ocorridos em Paris na noite de 13 de Novembro aterrorizaram um país que poderia até acreditar que os atos terroristas contra o jornal satírico francês Charlie Hebdo, aos 7 de Janeiro deste ano, pudessem ser apenas consequência de charges ofensivas ao profeta Maomé. A ação contra o semanário estava longamente urdida e o lamentável episódio já deveria ser entendido pelos mentores da tragédia como um extraordinário meio de divulgação. E o foi.  Houve comoção mundial e os milhões que acorreram às ruas testemunharam solidariedade com o povo francês. Contudo, os derradeiros passos do terror seguem uma estratégia nítida, calculada, pragmática, radical, a ter como desiderato a submissão e destruição da cultura ocidental. Deveras é o terrorismo islâmico uma ação basicamente voltada à França? É-o, na medida que o país abriga hoje vários milhões de muçulmanos e, com a imigração desenfreada que ocorre, logicamente terá essa quantidade aumentada; e é-o, se considerado for que há um número desconhecido de terroristas infiltrados em solo francês, nascidos em França, pertencentes à comunidade islâmica laboriosa e confundindo o cotidiano parisiense nos recentes casos. Inimigos ocultos provocando a catástrofe.

Tenho acompanhado diversos artigos publicados, sobretudo em França e na Inglaterra, e conversado com amigos nativos que vivem na Europa. Opiniões contrastam ao considerar o contingente oriundo da África do Norte e do Médio Oriente como pacífico. Foge das atrocidades que pululam em várias regiões, contudo não se refugiam em países muçulmanos, e há dezenas deles. Razões existem, e a primordial é a total ausência de democracia nesses países, todos sujeitos aos regimes ditatoriais. Um vídeo húngaro recente focaliza imigrantes das regiões assoladas por guerras e desajustes, fora de um comboio, todos homens da juventude madura, não aceitando garrafas de água para os passageiros, chutando-as ou jogando-as diretamente nos trilhos. Razão, continham no rótulo a Cruz Vermelha da organização humanitária. Preocupante presságio, pois demonstram a total intolerância com o símbolo do cristianismo, religião dominante na Hungria, país que os estava recebendo, ao menos de passagem. O precioso líquido não chegou às crianças, mulheres e idosos. É fato que o agigantar terrorista acentuou-se durante e após as ações desastrosas dos ex-presidentes Bush (pai e filho) e da presente e pusilânime gestão Obama. Recrudesce a tensão, acirra-se a intolerância de muitos jovens nascidos na Europa, mas muçulmanos, e de outros tantos que estão a chegar em ondas contínuas. A aceleração, sem possibilidade de estancamento a médio prazo, dessa inédita “invasão” e o recrutamento (lavagem cerebral) de milhares de crianças e jovens para atividades insanas, tanto in loco como em França e na Bélgica desnortearam o Ocidente. E o que dizer dos “estagiários” que se dirigem à Síria e ao Iraque para se juntarem aos fundamentalistas do EI. Tenho amigos diletos marroquinos e descendentes que vivem na Bélgica e se integraram muitíssimo bem ao país que os abrigou. Contudo, há os intolerantes, e a mais absoluta preocupação está a se instalar nas populações da Bélgica, da França e de outros países da Europa, como também dos Estados Unidos.

Voltando-se ao autoproclamado Grupo Estado Islâmico, está ele disperso e muitos são os aglomerados terroristas espalhados pelo norte da África e pelo Médio Oriente, o que torna bem mais difícil uma incursão terrestre. Teriam de ser muitas frentes de infantaria. A derrocada dos USA na Guerra do Vietnã (1955-1975) não foi também pelo fato de que os “inimigos” surgiam de todos os lados, inclusive cavando túneis? É só lembrarmos da grande base norte-americana de Da Nang e das incursões subterrâneas dos vietcongs, mormente à noite. Mas, no caso do EI deve haver um cérebro, um líder a difundir decisões, tanto nos extermínios de inimaginável barbárie, in loco, dos “prisioneiros” que professam outras crenças, como no doutrinamento de crianças e na “escravidão” das mulheres. Espalhar o terror faz parte dessa engrenagem que revive os períodos mais obscurantistas da história. O Boko Haram na Nigéria declarou lealdade ao EI, outros grupos que espalham o terror na Somália, no Iêmen e outras terras devem ter já professado “obediência”, o que induz a pensar nesse “cérebro” que comanda atos terroristas. Seria possível acreditar num líder com colegiado rigorosamente amestrado. Ele deve existir, tem nome. Ratificando, quantos já não são os militantes infiltrados nessa leva que “invade” a Europa, impulsionados por essas lideranças ocultas?

Em França, o lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” tem sua origem no primeiro artigo da “Déclaration des Droits de l’Homme et du Citoyen”, de 1789, ano da Revolução Francesa. Explicitado bem posteriormente na “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, de 1948, também em seu primeiro artigo. Nenhum país ocidental apreendeu de maneira mais ampla o tríptico do que a própria França, que o criou. Seria possível entender que esse extraordinário lema, orgulho do povo francês, esteja hoje, devido à abertura que é característica da França, sendo uma das causas do acúmulo de atentados. As três palavras sacralizadas jamais serão captadas em sua essência essencial por fanáticos que, nascidos em solo francês, dirigiram-se às tendências aniquiladoras. A lavagem cerebral existe desde a antiguidade e, para aqueles que a ela são submetidos, ignorar quaisquer princípios humanitários e de liberdade é “lei”.

A apreciação deste lado sul do Atlântico leva-me a considerar um fato irresponsável e, sobretudo, a revelar desprezo pleno pela cultura tradicional. Após os atentados de 13 de Novembro, o jornal satírico Charlie Hebdo tem publicado charges com dizeres atestando diferenças conceituais profundas, mas provocativas, pois nestes divulgam  que, enquanto o EI tem armas, a França tem Champanhe e mulheres fáceis. Numa das secções do hebdomadário, “En Kiosque”, (18/11), há uma charge “Paris, capitale de la perversion. Faites la perversion, pas la guerre”. A charge apresenta um casal despido a sorrir e o homem a salientar o dedo médio em posição ofensiva. Não tem o semanário a procuração de notáveis franceses que forjaram a cultura do país através dos séculos, como Ronsard, Descartes, Molière, Corneille, Racine, La Fontaine, Voltaire, Couperin, Rameau, Berlioz, Delacroix, Victor Hugo, Balzac, Monet, Gaughin, Cézanne, Rodin, Matisse, Eiffel, Pasteur, Pierre Curie, Fauré, Debussy, Ravel, Verlaine, Mallarmé, Saint-Exupéry, Bernanos, Malraux, Jankélévitch e uma infinidade, friso, infinidade de grandes vultos, testemunhando que os valores essenciais franceses são outros, humanistas, artísticos e científicos e que colocam a França num patamar criativo rigorosamente singular. Sim, a mulher fácil, a perversão e a libertinagem existem em França e em todos os recantos do planeta; e o Champagne (em charge recente) é delicioso produto, mas produto. Demonstra o semanário leviandade a desprezar consequências fatais. Pseudo-humor, de mau gosto, inoportuno e reducionista. Não seriam esses os elementos fulcrais para a realização dos atos insanos terroristas, mas sem dúvida são provocativos. Estariam a evidenciar que o semanário teria perdido o rumo.

Infelizmente a França estará sujeita a futuros atos atrozes, hélas. As células cancerosas se expandem em metástase, pois no interior do país. Não há consenso quanto ao tratamento, mas ele tem de ser imediato e sem tréguas. A França sempre soube reagir, seu povo preza valores culturais, ora ameaçados. Esperemos que a presidente do Brasil, que há pouco mais de um ano, na abertura das sessões da ONU, propunha um “diálogo” com os terroristas do EI, tenha uma outra postura e se coloque à disposição, juntamente com importantes líderes de países do hemisfério norte que já se pronunciaram, para a ação conjunta, diplomática que seja. Esperemos…

The reflections of someone living on the other side of the Atlantic on the terrorist attacks last 13 November in Paris, something the press has been describing as a clash between religious extremism and free speech – a threat to the entire world, not only to France – and the deplorable provocations staged by the satirical newspaper Charlie Hebdo.

 


Desdobramentos

Sou como bandeira de longe agitada.
Pressinto os ventos a vir, e devo dar-lhes vida.
Enquanto embaixo nada se mexe ainda:
As portas se cerram, suaves e nas chaminés há calma:
As janelas sequer tremem e a poeira ainda assenta.

Então súbito percebo as tormentas e como o mar me excito,
Me estendo e me enrolo pendente,
Lanço-me e estou só totalmente
Na grande tormenta
.
Rainer Maria Rilke

O post precedente teve competente recepção, a partir da epígrafe de Rainer Maria Rilke (1875-1926), que me foi enviada pelo professor de Ciência da Comunicação da USP, Gildo Magalhães. O poema, adequado ao post anterior, é-o também para o presente. Magalhães traduziu-o.

O momento único por que estamos a passar, com  o último ex-presidente muito mais altissonante do que a atual detentora do poder, é prova inconteste da nau sem rumo. A presidente, a acatar nos bastidores sucessivos aconselhamentos que emanam de seu criador, evidencia com clareza que não é líder, trazendo ao cidadão comum – esse que tenho auscultado – a nítida certeza de fraqueza que se traduz, obviamente, num governo acéfalo. O semblante da senhora mandatária tem-se mostrado mais do que nunca cerrado e sombrio. As imagens televisivas e as fotos não mentem. Quanto ao último ex, tornam-se patéticas e desesperantes suas manobras para não naufragar.

São de François Servenière, sempre atento pensador e compositor de mérito, observações argutas que perpassam o tema, mas se aprofundam na interpretação do termo pofiguismo, trazido das entranhas da Sibéria para o Ocidente  por Sylvain Tesson em seus livros. Interpretei o termo, associando-o à nossa realidade, após observar e arguir inúmeros cidadãos comuns de todas as camadas sociais. Entendi como oportuna a inserção das considerações do notável músico, que me tem honrado com seus comentários hebdomadários.

“Sou como você, adoro Dostoïevsky e pelas mesmas razões. Os títulos que me marcaram mais foram O Idiota, leitura universal, e Crime e Castigo. Nos anos 1980 li Soljenitsyne e confesso-lhe que sou naturalmente mais atraído pela literatura e a música russa do que pela francesa.

Também adoro o termo pofiguismo, ‘resignação alegre, desesperada frente ao que virá’, segundo Sylvain Tesson. Creio, contudo, que o termo é ontologicamente eslavo e oriental – Inch’Allah – e encontra sua origem semântica nesses territórios imensos e na impossibilidade para o humano de se projetar em direção a um horizonte controlável. A Terra tem infinitas terras geladas e desertos áridos intransponíveis. Ilustres geógrafos nos ensinam que a mentalidade de um povo estará sempre ligada à ontologia de seu território. As ideologias que dela se inspiram têm as mesmas lógicas, o mesmo DNA. Reconhecemos nessa acepção a fatalidade bem oriental que encontramos no Islã e nos habitantes do Leste. Na Europa Ocidental, avançamos em direção ao oceano, a resultar na vontade de ultrapassar o imaginário e a realidade, desejo inscrito, aliás, em nosso  gene, a decorrer o otimismo na perspectiva de um melhor horizonte. Avançar em direção a uma nova fronteira faz parte do cerne do pensamento do ocidente europeu, que conquistou numerosos territórios graças à mentalidade ligada à geografia de ponta lançada no oceano.

Observe a história e os principais países colonizadores da Terra: Inglaterra, França, Portugal, Espanha… Bem anteriormente, os Homens do Norte, Normandos escandinavos. Mais do que o atrelamento à nossa mentalidade, há nosso pensamento geográfico, que pensa sempre além dos limites dessa linha sobre o mar. Não por acaso terem sido os descendentes desses povos europeus aqueles que tiveram a vontade primeira de se ‘aventurar’ fora da Terra em direção ao espaço, a partir de Jules Verne. Os orientais teriam sido incapazes. Seria bem isso que eles nos condenam hoje, mesmo que inconscientemente. Seria notória sua incapacidade de se projetar fora desse território findo. Sob outra égide, diria que é bem mais simples atravessar o mundo pela via marítima do que por terra. Os nômades aquáticos foram bem mais longe, física e mentalmente, do que os nômades terrestres, pois as terras novas retêm  mais rapidamente seu homem. Sabe-se hoje que, ao longo do Danúbio, o avanço dos povos a pé foi feito na proporção de 25km por geração, não mais… Na vontade insaciável de um mundo melhor, desde que o homem encontrasse uma terra melhor ou mais fértil, ele fincava raízes. A terra emergida impediu-o de avançar rapidamente, por comodidade. Para que ir mais longe se tudo está bem onde me fixei?”. Apenas para lembrar ao ilustre amigo Servenière, não fosse a intrepidez, a volúpia, a coragem, mas também o espírito aventureiro, por vezes com escusos propósitos, das Bandeiras conduzidas pelos bandeirantes rumo ao oeste, não teria o Brasil suas extensas fronteiras.

Continua Servenière: “O mar causou efeito inverso sobre o cérebro humano. O imenso vazio oceânico, apesar de vida intensa em suas águas, levou o homem, mercê do aperfeiçoamento dos meios de navegação, a destinos desconhecidos. O temor e a angústia do soçobrar no vazio não impediram as aventuras. Quanto à Terra, é ela concreta e o mar, abstrato.

Creio que a natureza nos torna o que somos. Você escreve sobre o fatalismo do povo brasileiro frente à corrupção. Tenho lido a respeito e sobre os baixíssimos índices de popularidade da presidente. Você associa esse fatalismo em seu país ao termo  pofiguismo, proposto por Tesson. De meu lado, acredito nessa pujança da natureza que impõe ao homem sua maneira de pensar. Habitantes das estepes siberianas, da Ásia Central e dos desertos gelados ou tórridos teriam o mesmo fatalismo que deva existir naqueles das florestas exuberantes do Brasil. A natureza sempre será superior. Na Europa ocidental sabemos domar a natureza, pois ela é menos pujante, mais dócil, mais maleável às mãos do homem. Penso que essa perspectiva geográfica explica muito as diferenças das mentalidades, tanto terrestres como marítimas. Pelo menos, assim entendo” (tradução: JEM).

Quanto à nossa floresta amazônica, a tragédia está a se abater sobre ela, arrastada atualmente, em tantas áreas, por correntes que chegam a derrubar numa só cartada inúmeras árvores centenárias, sem que essa ação seja exemplarmente punida. Acrescente-se, como exemplos, duas outras tragédias, a do Mar de Aral, hoje com pouco mais de 10% de sua capacidade, em virtude dos planos insanos da ex-URSS; a que se abaterá sobre as populações ribeirinhas às margens do sofrido leito do São Francisco nessa “planejada” transposição do rio, o que tornará  esses povos tão indefesos como aqueles do agonizante Mar de Aral. Evidências de que o MAL, originário dessas catástrofes alhures e em nosso solo, advém da corrupção. Numa outra esfera corruptiva, Mensalão e Petrolão exemplificam essa endemia que se alastrou pelo país, mormente a partir de 2003. Compete à mídia competente e esclarecida revelar sem tréguas as operações do Lava-Jato. Observar, apenas observar, apesar de desesperanças…

In this post I transcribe message from the French composer François Servenière with reflections on the issue of what Sylvain Tesson calls “pofiguisme”, something we can understand as fatalism. According to Servenière, the resignation shown by people from Eastern Europe or Islam is a consequence of their harsh geography: arid grasslands and scattered oases, barred from contact with the sea. On the other hand, for people of Western Europe, living by the sea in a more docile environment , it is easier to tame nature, modify it and go searching for new horizons.