Navegando Posts em Cotidiano

Livro recém lançado de François Servenière

Mais o mal existe no mundo,
mais há razões para fazer o belo.
É mais difícil, sem dúvida, mas também mais necessário.
Andreï Tarkovsky

Inúmeras vezes tive o prazer de inserir em meus Ecos, posts imediatos que testemunham apreciações de leitores ao precedente, considerações do compositor e pensador francês François Servenière. A guarida aos seus textos tem sido entusiasmante, pois propicia, aos que  generosamente seguem os blogs semanais, apreenderem parcela essencial de seu pensamento multidirecionado e competente.

“Bien Faire et Laisser Braire” (Blangy-le Chatêau: Esolem, 2015) desperta curiosidade a partir do título e também do subtítulo, “Crônica da água que corre sob as pontes sem jamais retornar rio acima, exceção à nascente mercê da evaporação”. Em tradução, poder-se-ia ter “Fazer bem feito e deixar zurrar ou ladrar” ou simplesmente “Os cães ladram e a caravana passa”. Somos conduzidos de muitos temas diversificados à polêmica que enriquece, aos conceitos originais, à convicção sem arrependimento de Servenière, à qualidade singular de seu pensamento que, corajoso, não hesita em buscar uma verdade na qual ele acredita. O autor reuniu uma série de crônicas que se estendem de 2000 ao presente. Publicados em seu blog, ou especialmente já a pensar na edição do livro. O universo  literário “politicamente correto”, em que tantos se abrigam a fim de evitar interpretações que possam ferir a aceitação mediática e, consequentemente, pública, inexiste para Servenière. Será possível entender que alguns capítulos atinjam o limite da corda esticada, tão veementemente o autor se empenha em expor seu pensamento. Não há condicional, e as ideias são expostas sem meio termo. Acredito que estar distante de Paris, centro em que fez sua formação musical e do pensar, mas que voluntariamente foi descartado para um “refúgio” na Normandia, tenha conduzido Servenière à liberdade de expressão, sem amarras que pudessem interferir. A postura independente não significa alienação. O autor está diariamente conectado com o mundo, e posso testemunhar a quantidade de informações que Servenière me envia sobre temas que nos são caros, a preponderar a Música e seus caminhos, que devem ser compreendidos, tantas vezes, sans issue.

“Bien Faire et Laisser Braire” divide-se em XXI capítulos em que não poucas vezes conceitos anteriormente apresentados ressurgem metamorforseados, mas que evidenciam não apenas o estilo de Servenière, mas sua necessidade de reforçar ou alargar temas que o interessam. Ajustam-se essas considerações aos capítulos que desfilam. Arte, política, música como essencialidade, religião e fanatismo, ciência, comentários de artigos ou resposta a um e-mail curto e desairoso recebido compõem o livro em questão.

Após breve narração das origens da família, da infância como observador atento, já no segundo capítulo Servenière apresenta uma espécie de “confissão”, portal que abre seu entendimento da música. Expô-lo torna-se necessário para a compreensão do todo:

“No meu trabalho como compositor destruo e reciclo. Mas, sobretudo, eu quero reconstruir, reassociar, mostrar de novo o contraste e a diversidade. Simplesmente pelo fato de que correspondem à realidade. Abandonando – evitando – as ‘igrejinhas’, as posições e o estatuário ideológico, fontes de bloqueios e retenções que produzem, salvo raras exceções, obras fechadas, estanques e indigestas, encontro-me no meio e não sou senão um filtro, um caminhante… testemunha que vibra no uníssono de todas as ondas. Essa atitude mental é não apenas uma necessidade psicológica, fisiológica, mas igualmente filosófica.

Tive a chance de encontrar na música o ferramental através do qual minha vida expressaria melhor essa simplicidade. Senti-me desde logo como o peixe no seu habitat. Descobri o significado de minha vida”.

As posições de Servenière são claras e polêmicas. Ele, que conheceu e dominou vários processos técnicos da música contemporânea e está a par das tendências multi direcionadas, não apenas da música instrumental, mas também da eletrônica, perceberia a tempo o impasse da criação ou, ao menos, a aparência da inventiva. Distanciou-se, como outrora fizera o primeiro compositor francês a compor música dodecafônica em França, Sérgio Nigg (1924-2008). Servenière teria chegado ao impasse: compor para estar no “modismo” ou escrever música a seguir seu de profundis? Optou por este caminho. Sua obra bem vasta, a abranger tantos gêneros, é testemunha de uma escrita precisa e de comunicabilidade singular. Teve tributo a pagar e disso tem plena consciência. Longe das “panelinhas” contemporâneas, Servenière revisitou formas e gêneros do passado como ferramentas para sua criação. O desprezo que “capitães” da música contemporânea de laboratório teriam pelas suas criações foi uma das causas de retirar-se para a Normandia e continuar a criar música a fazer sentido e que chega às mentes sensíveis e ao coração. Uma sua frase é incisiva: “A música contemporânea detesta a vida, é uma triste realidade”. Não se tome à risca a afirmação, pois há música contemporânea e música contemporânea. Aquela a que Servenière se refere seria a pertencente às “igrejinhas”, termo que se poderia entender como grupos fechados, donos da verdade para os quais o não respeito a credos outros determina o anátema definitivo. Menciona jornalista dos anos 1990 que, ao perguntar a músicos do EIC (Ensemble Intercontemporain – IRCAM) “qual a música que eles escutavam à noite de volta à casa ‘para puro prazer’, ouviu respostas unânimes: jazz“. Em outro segmento, expressa posição a mostrar origens precisas: “A música clássica, romântica, moderna – toda a que precede 1945 e continuou sob a forma neo, tudo o que consonante, dissonante, modal, tonal, atonal, desestruturada ou não, mas audível e sobretudo celeiro de emoções, seja ela organizada sobre papel, outro meio qualquer ou computador e interpretada por instrumentistas ou não – é uma linguagem universal que atinge os espíritos e os corações de maneira profunda. Eu continuarei a denominá-la música, aliás como todo mundo”. O posicionamento de Servenière me fez lembrar célebre frase de Arnold Schönberg (1874-1951): “há muita boa música que pode ser escrita em Dó Maior”. Também lembra-me frase de um compositor pátrio na juventude da idade madura que, em entrevista a uma revista especializada, afirmou que suas obras e de outros compositores de sua geração – pertencentes às “igrejinhas” – estavam destinadas a guetos. É Servenière que observa ironicamente “Dancem agora! Esqueci, estou desolado: a música contemporânea não se dança, não se canta, não se escuta, ela se pensa, unicamente”. Entenda-se, no sentido da natural e ampla aceitação.

Outro segmento que prende a atenção do leitor está relacionado à polêmica, tão a gosto de pensadores franceses. Servenière não deixa de colocar seu posicionamento quando entende necessário fazê-lo, mesmo que opiniões suas possam causar desavenças. Após a leitura de entrevista do baterista e escritor Marc Cerrone, na qual o compositor diz que a criação não tem tanta necessidade do talento, Servenière pormenoriza a crítica. Cerrone, autor de composições repetitivas, minimalistas, mas que, segundo Servenière, são desprovidas da aura, recebe por parte do autor de “Bien Faire… ” observações argutas. “Adoro a música repetitiva ou cíclica. Compus algumas. Porém, não confundo Marc Cerrone nem um techno, com Steve Reich ou György Ligeti. Desgraçadamente, indigência criativa ou de ideias e comércio fazem hoje um bom casamento. Quando não com a utilização de produtos falsificados”, afirma Servenière.

Ao receber e-mail de um cidadão a dizer “você é um idiota patético! Tente ter mais cultura e consciência política”, em seguida a um seu texto incluso em “Bien Faire… ” sob o título Paroles, Objets et Art Contemporains, Servenière responde ao ora denominado pessoa progressista da música contemporânea, a ratificar seu posicionamento e a dizer que recebeu muitos “falsos e-mails que se aparentavam à ‘Arte da Guerra’ de Sun Tzu, que recomenda desestabilizar e enfraquecer o adversário através do perpétuo assédio moral e físico”. Servenière observa procedimentos da arte contemporânea, música inclusa, praticados pelas esquerdas. É incisivo: “Intelectual de esquerda é redundância! Alguns pretenderiam maliciosamente que a expressão está a caminho de se tornar um paradoxo… Um intelectual é forçosamente de esquerda, vejamos! Deduz-se então, implicitamente, que um homem da direita que pretenda refletir com a sua cabeça não pode racionalmente ser considerado intelectual. Ele teria de utilizar obrigatoriamente um outro órgão… Estamos em França, merde! Aqui, pois, ‘ter uma consciência política’ ou ‘estar politicamente engajado’ significa ‘ser de esquerda’. Ponto final”. Sobre o tema, já a excluir nominalmente o cidadão do e-mail ofensivo, Servenière se detém em outro capítulo “O idiota e seu domínio de competência, a idiotice”.

“Bien Faire et Laisser Blaire” tem vários segmentos a abordar a crise global, mormente a francesa, a problemática imigratória e a impossibilidade de várias etnias já existentes em França “suportarem” o país e a cultura que as abrigaram. É crítico severo às posições do governo socialista, hoje no poder, nele vendo aberturas que poderão levar ao impasse. Nos capítulos “O obscurantismo” e “Como lutar contra o obscurantismo”, seu pensamento não deixa margens a dúvidas quanto à sua coerência, individual, mas também à de milhões de franceses.

No capítulo “Épilogue”, Servenière argumenta sobre várias áreas da cultura, sempre de maneira incondicional. Após breves considerações sobre música e criação, política, ciência, religião e economia, tantas vezes a suscitarem polêmica, finaliza com certa esperança: “É necessário saber que a total liberdade tem um preço, a solidão. Poucos são capazes de assumi-la (…) Malgrado tudo, continuemos a fazer o que é melhor, deixemos ladrar a matilha, caminhemos para vislumbrar além do horizonte, aprendamos, escutemos, viajemos… pois são os únicos meios provados para evitarmos morrer idiotas. Logicamente os cães continuarão a ladrar… Deixemo-los ladrar, mas evitemos beber na mesma fonte”.

O capítulo XII é dedicado a um concerto “Concert à l’Atelier”. Refere-se ao recital que dei aos 29 de Janeiro de 2013 na Salle Godard, em Paris, quando apresentei, extraprograma, o Étude Cosmique Sinergie, de sua autoria. Fico-lhe grato pela inserção.

“Bien Faire et Laisser Braire” pode ser adquirido através do site www.amazon.fr . Recomendo-o vivamente.

This post is an appreciation of the book “Bien Faire et Laisser Braire” (in a totally free translation, “Dogs Bark and the Caravan Moves on”), chronicles written by the French composer François Servenière, in which, after a brief introduction shedding lights on his childhood and family origins, he addresses a myriad of subjects, such as arts, politics, religion, fanaticism, sciences and, most of all, music. Controversial as he may be, sometimes proposing radical solutions, Servenière concludes with at least a thread of hope, stating that, as a lone fighter, one has to go on doing its best whatever the cost.

 

 

 

Desalento e Esperanças

Como nada entenderam do passado,
nada podem sonhar para o futuro.
Agostinho da Silva
(“Espólio”)

Se 2015 foi ano atribulado pelo mundo afora, há que se destacar a deterioração de tantos valores morais e culturais no Exterior e mormente em nosso país. Nem insiro a palavra ética, pois esta tem sido utilizada por todas as correntes, banalizou-se, prostituiu-se, retiraram-lhe o significado essencial. Estou a me lembrar de série de programas sobre Ética em canal estatal, faz um bom tempo. A intelligentsia de sempre, tupiniquim, discutiu durante semanas, em linguajar ex cathedra, pomposo, acadêmico e ininteligível para o leigo, os valores da ética. Alisou egos dos convidados e os efeitos, como esperados, foram nulos, pois o telespectador ficou desinformado.

O PT, ao reivindicar posições, desde sua fundação erigiu a ética como fundamento. Desnecessário estender-se sobre o tema. Desgovernos, mensalão, petrolão e tantos outros escândalos e indiciamentos aí estão para dimensionar o desvio absoluto por que prima o partido, desde 2003, quanto ao desrespeito dessa nobre palavra, ética, hoje tão aviltada. Lembremo-nos de que o lema apregoado pela presidente de plantão em seu desastroso segundo mandato foi “Pátria Educadora”. Seu criador, em recente pronunciamento na Espanha, culpa a colonização portuguesa pelo atraso da Educação no Brasil e menciona dados históricos falhos (sic). Com absoluta clareza a imprensa portuguesa revoltou-se contra essa verborragia. Teria o ex a coragem de proferir o descalabro quando do recebimento do título Doctor Honoris Causa conferido pela Universidade de Coimbra, anos atrás? Desrespeito para com a verdade, ignorância e absoluto desconhecimento do rito diplomático. Recebi mensagem de minha amiga portuguesa Idalete Giga, em que deputado europeu, indignado com a fala do ex presidente, assim teria se pronunciado: “Fazer da ignorância um exercício de erudição, é em si mesmo um paradoxo. Discorreu sobre temas que implicam estudo, com a facilidade com que trautearia um forró. E o disparate aconteceu”.

2016 aponta no horizonte. Será um ano basicamente perdido, mercê de todo o processo de impeachment que se deverá prolongar. As mais vis porfias serão travadas em Brasília entre o executivo e o legislativo, sob o olhar de um judiciário complexo no que tange às nomeações de seus integrantes, por vezes ideológicas. Após a trágica sessão do Supremo Tribunal Federal em que a Corte decidiu barrar o processo de impeachment (17/11), estabelecido pelo presidente da Câmara dos Deputados, contra a presidente atual, assim se pronunciou o ilustre Ministro do STF, Gilmar Mendes: “Existe um projeto de bolivarização da Corte. Assim como se opera em outros ramos do Estado, também se pretende fazer isso no tribunal, e, infelizmente, ontem tivemos mostras disso” (Fonte: Brasil 247, 19/12/2015). Economia, inflação, desemprego galopante, insegurança, saúde, educação, saneamento básico assustam o brasileiro. O descaso do governo pelo elementar saneamento é fator primordial da aceleração dos surtos causados pelo mosquito aedes aegypti, transmissor de outras mais pragas que não a dengue. Temos que acreditar e arregimentar cidadãos que compartilhem princípios morais, que anatematizem essa chaga que se tornou endêmica e que se alastrou, sobretudo desde 2003, a corrupção. O sistemático desvio de dinheiro nas grandes e pequenas obras, o inchaço da máquina administrativa a continuar o aparelhamento do Estado e a contagiar o orçamento pátrio, a prática vexatória do popularmente “toma cá, dá lá”, são temas do cotidiano, hélas. Há o Lava-Jato, benfazejo processo que está a desmoronar redutos e a chegar à fonte primeira do desvio de somas fabulosas. O cidadão de bem acredita nesse processo, salvaguarda ainda de nossa pobre sociedade brasileira. Oxalá permitam!!! Ano difícil está por vir.

Num aspecto mais amplo, de possível transição para períodos menos desfavoráveis, há a hipótese remotíssima, frise-se, do pronunciamento, por parte da presidente, de uma palavra apenas: renúncia. Completamente despreparada para a função que ocupa, sua fala, quando improvisada, apenas aumenta o anedotário pátrio; seus desvios sistemáticos da verdade estão acelerando seu descrédito; sua “inanição” frente à economia e ao desemprego no país; suas articulações políticas diárias para se manter no Poder a qualquer custo, tudo está a conduzi-la ao fundo do abismo, reduzindo sua aprovação pública a nível constrangedor. Saint-Exupéry, em frase notável, dizia que a vaidade não é um vício, é uma doença. Criador e a pobre criatura sofrem desse ego superdimensionado, que inviabiliza a leitura do Brasil como país de todos e não de um grupo. O projeto de não alternância do poder impede o olhar a miséria do povo, que deveria ser extinta pela ação educadora. Entregam o peixe simplesmente, em detrimento da vara, do anzol, da isca e dos mares, rios e lagoas tratados… E bastaria uma só palavra que revelaria, nessa conturbada pátria, grandeza a atenuar o descompasso da presidente. Renúncia, termo que os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado também deveriam pronunciar. Acrescentaria que a arrogância, a empáfia e a teimosia também são doenças, alargando o preceito de Saint-Exupéry. “Poderosos” desprovidos de preceitos fundamentais. Nesse tópico relativo à política à deriva no país, mencionaria recente (26/11/15) sexteto (XXVI) de meu irmão Ives Gandra, notável jurista:

“O Brasil em polvorosa
Vê política horrorosa
Em Brasília praticada.
Há muito qu’este país
Deixou o povo infeliz
À mercê da canalhada”.

2016 sinaliza as Olimpíadas no Rio de Janeiro. A organização preparou devidamente nossos atletas para o maior evento esportivo do planeta? A ouvir-se esportistas que não tiveram o acompanhamento necessário, a resposta é, decididamente, não. Assim como no futebol, devastado pela corrupção aqui e alhures de maneira vergonhosa, mercê, entre outras mazelas, de mandatos “perpétuos” de seus dirigentes. Sob a égide de permanência no cargo, há quantas décadas está na presidência do COB o mesmo cidadão? No caso, também, não há renovação e ideias arejadas não conseguem penetrar as mentes dos dirigentes. Se nas Olimpíadas, que distribuem aos vencedores das muitas categorias centenas de medalhas, as minguadas láureas que o país de 204.000.000 de habitantes receberá serão motivos de palavras plenas de lisonjas pelos mandatários, que também não têm a grandeza da renúncia. Veremos. Nem menciono super-faturamentos que virão à tona após competições, mas que já começam a pulular. Voltarei ao tema após as Olimpíadas para, infelizmente, ratificar o que acabo de escrever.

2016 deverá persistir, sempre em movimento de ascensão, na continuação do óbvio. Na música erudita, os mesmos de sempre, com raras exceções, visitarão o país. Ouviremos, com algumas ressalvas, as repetidas obras do repertório para orquestra, de câmara e solista, as óperas rotineiras. Toda uma programação que completa geralmente o círculo após, no máximo, cinco anos. A roda a fazer seu giro e a prosseguir o movimento circular. Na televisão, há canais a cabo com programas interessantes, pois a TV aberta não merece comentários, salvo, diga-se, alguns raros programas de entrevistas e de documentários. O ano vindouro deverá assistir à avassaladora avalanche dos mega-shows que chegam do Exterior com o som às alturas, entradas a preço de ouro,  e a massa informe de frequentadores erguendo os braços, agitando-os, à maneira da juventude nazista. E a cultura?

No hemisfério norte, a problemática da imigração descontrolada de muçulmanos, preferencialmente, conduz aos continentes a incerteza, o temor e a islamofobia generalizada. Períodos difíceis e assustadores estão por vir. Veremos também.

Apesar de todas as mazelas, dificuldades de toda sorte por que passa o planeta, há valores que têm de ser preservados, e a família continua a ser o epicentro que leva ao equilíbrio das mentes.

Desejo a todos os leitores que prestigiam meu blog um ano de 2016 que ao menos traga certa tranquilidade e menos incertezas. O convívio familiar e os amigos serão os bálsamos que ajudarão a todos nessa transição que custa a passar, mas passará.

____________

Finalizava o post quando recebo e-mails de Idalete Giga e de François Servenière, comentando o texto da semana que passou, dedicado ao Natal e tendo como epicentro bela narrativa de Saint-Exupéry. Insiro segmento da mensagem da ilustre gregorianista portuguesa e do notável compositor francês. Escreve Idalete:

“O texto de Natal que extraiu do cap. 122 da sua obra Citadelle está escrito numa linguagem metafórica que pode, na realidade, ter várias interpretações. O soldado que queria morrer pode ser cada um de nós. As imagens são constantes na linguagem que usa. Este é um dos aspectos mais deslumbrantes da Citadelle. Também concordo que esta obra foi a ‘Bíblia’ do século XX e continuará a ser neste século. Mas podemos perguntar: quem a compreende verdadeiramente na sua dimensão ao mesmo tempo humana, metafórica e espiritual?

O José Eduardo foi um privilegiado ao conhecer e ouvir pela 1ª vez, textos desta obra impar lidos pela irmã do escritor-piloto, Simone de Saint-Exupéry. E chegou a ouvir alguma gravação do próprio Exupéry?” Sim, semanalmente, naquele ano e meio a que me refiro no e-mail anterior, a irmã do piloto-escritor lia e fazia-nos ouvir gravações de Saint-Exupéry. Continua Idalete “Citadelle não é obra para ler e guardar. É um universo a descobrir constantemente. Cada vez que abrimos o livro, seja em que capítulo for, descobrimos sempre novas revelações, novas imagens, novos mundos que, por vezes, se nos deparam quase inatingíveis. E voltamos a ler e a reler até descobrirmos o sentido das metáforas”.

Servenière envia verdadeiro hino à nossa atividade de músico.

“Espírito do Pequeno Príncipe, estás lá?
Espírito da infância, onde estás?
Porque tantas mortes, concessões à ignomínia e ao inominável?
O caos das estrelas?
Olhas como elas nos iluminam desde as origens.
Uma esperança ancestral?
Não, um permanente anseio.
Olhas o céu e serás levado ao divino.
Se apenas olhares o solo serás levado ao sepulcro.
Nossa música como testemunho de um dom.
Não deixemos as trevas invadirem nossas vidas e nossas artes”

New Year and the reflections it gives rise to: political unrest and corruption in Brazil, violence, vandalism, poor quality of education and health, infrastructure deficiencies, tax burdens. In the Northern hemisphere, intolerance and invasions of illegal immigrants. Hoping that family values will not be wasted in face of the tough times ahead of us, I can only wish you all a New Year filled with some promises of a brighter tomorrow.

 

 

 

 


Dualidade Perigosa

Pelos caminhos do mundo,
nenhum destino se perde:
Há os grandes sonhos dos homens,
e a surda força dos vermes.
Cecília Meirelles

Os terríveis acontecimentos ocorridos em Paris na noite de 13 de Novembro aterrorizaram um país que poderia até acreditar que os atos terroristas contra o jornal satírico francês Charlie Hebdo, aos 7 de Janeiro deste ano, pudessem ser apenas consequência de charges ofensivas ao profeta Maomé. A ação contra o semanário estava longamente urdida e o lamentável episódio já deveria ser entendido pelos mentores da tragédia como um extraordinário meio de divulgação. E o foi.  Houve comoção mundial e os milhões que acorreram às ruas testemunharam solidariedade com o povo francês. Contudo, os derradeiros passos do terror seguem uma estratégia nítida, calculada, pragmática, radical, a ter como desiderato a submissão e destruição da cultura ocidental. Deveras é o terrorismo islâmico uma ação basicamente voltada à França? É-o, na medida que o país abriga hoje vários milhões de muçulmanos e, com a imigração desenfreada que ocorre, logicamente terá essa quantidade aumentada; e é-o, se considerado for que há um número desconhecido de terroristas infiltrados em solo francês, nascidos em França, pertencentes à comunidade islâmica laboriosa e confundindo o cotidiano parisiense nos recentes casos. Inimigos ocultos provocando a catástrofe.

Tenho acompanhado diversos artigos publicados, sobretudo em França e na Inglaterra, e conversado com amigos nativos que vivem na Europa. Opiniões contrastam ao considerar o contingente oriundo da África do Norte e do Médio Oriente como pacífico. Foge das atrocidades que pululam em várias regiões, contudo não se refugiam em países muçulmanos, e há dezenas deles. Razões existem, e a primordial é a total ausência de democracia nesses países, todos sujeitos aos regimes ditatoriais. Um vídeo húngaro recente focaliza imigrantes das regiões assoladas por guerras e desajustes, fora de um comboio, todos homens da juventude madura, não aceitando garrafas de água para os passageiros, chutando-as ou jogando-as diretamente nos trilhos. Razão, continham no rótulo a Cruz Vermelha da organização humanitária. Preocupante presságio, pois demonstram a total intolerância com o símbolo do cristianismo, religião dominante na Hungria, país que os estava recebendo, ao menos de passagem. O precioso líquido não chegou às crianças, mulheres e idosos. É fato que o agigantar terrorista acentuou-se durante e após as ações desastrosas dos ex-presidentes Bush (pai e filho) e da presente e pusilânime gestão Obama. Recrudesce a tensão, acirra-se a intolerância de muitos jovens nascidos na Europa, mas muçulmanos, e de outros tantos que estão a chegar em ondas contínuas. A aceleração, sem possibilidade de estancamento a médio prazo, dessa inédita “invasão” e o recrutamento (lavagem cerebral) de milhares de crianças e jovens para atividades insanas, tanto in loco como em França e na Bélgica desnortearam o Ocidente. E o que dizer dos “estagiários” que se dirigem à Síria e ao Iraque para se juntarem aos fundamentalistas do EI. Tenho amigos diletos marroquinos e descendentes que vivem na Bélgica e se integraram muitíssimo bem ao país que os abrigou. Contudo, há os intolerantes, e a mais absoluta preocupação está a se instalar nas populações da Bélgica, da França e de outros países da Europa, como também dos Estados Unidos.

Voltando-se ao autoproclamado Grupo Estado Islâmico, está ele disperso e muitos são os aglomerados terroristas espalhados pelo norte da África e pelo Médio Oriente, o que torna bem mais difícil uma incursão terrestre. Teriam de ser muitas frentes de infantaria. A derrocada dos USA na Guerra do Vietnã (1955-1975) não foi também pelo fato de que os “inimigos” surgiam de todos os lados, inclusive cavando túneis? É só lembrarmos da grande base norte-americana de Da Nang e das incursões subterrâneas dos vietcongs, mormente à noite. Mas, no caso do EI deve haver um cérebro, um líder a difundir decisões, tanto nos extermínios de inimaginável barbárie, in loco, dos “prisioneiros” que professam outras crenças, como no doutrinamento de crianças e na “escravidão” das mulheres. Espalhar o terror faz parte dessa engrenagem que revive os períodos mais obscurantistas da história. O Boko Haram na Nigéria declarou lealdade ao EI, outros grupos que espalham o terror na Somália, no Iêmen e outras terras devem ter já professado “obediência”, o que induz a pensar nesse “cérebro” que comanda atos terroristas. Seria possível acreditar num líder com colegiado rigorosamente amestrado. Ele deve existir, tem nome. Ratificando, quantos já não são os militantes infiltrados nessa leva que “invade” a Europa, impulsionados por essas lideranças ocultas?

Em França, o lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” tem sua origem no primeiro artigo da “Déclaration des Droits de l’Homme et du Citoyen”, de 1789, ano da Revolução Francesa. Explicitado bem posteriormente na “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, de 1948, também em seu primeiro artigo. Nenhum país ocidental apreendeu de maneira mais ampla o tríptico do que a própria França, que o criou. Seria possível entender que esse extraordinário lema, orgulho do povo francês, esteja hoje, devido à abertura que é característica da França, sendo uma das causas do acúmulo de atentados. As três palavras sacralizadas jamais serão captadas em sua essência essencial por fanáticos que, nascidos em solo francês, dirigiram-se às tendências aniquiladoras. A lavagem cerebral existe desde a antiguidade e, para aqueles que a ela são submetidos, ignorar quaisquer princípios humanitários e de liberdade é “lei”.

A apreciação deste lado sul do Atlântico leva-me a considerar um fato irresponsável e, sobretudo, a revelar desprezo pleno pela cultura tradicional. Após os atentados de 13 de Novembro, o jornal satírico Charlie Hebdo tem publicado charges com dizeres atestando diferenças conceituais profundas, mas provocativas, pois nestes divulgam  que, enquanto o EI tem armas, a França tem Champanhe e mulheres fáceis. Numa das secções do hebdomadário, “En Kiosque”, (18/11), há uma charge “Paris, capitale de la perversion. Faites la perversion, pas la guerre”. A charge apresenta um casal despido a sorrir e o homem a salientar o dedo médio em posição ofensiva. Não tem o semanário a procuração de notáveis franceses que forjaram a cultura do país através dos séculos, como Ronsard, Descartes, Molière, Corneille, Racine, La Fontaine, Voltaire, Couperin, Rameau, Berlioz, Delacroix, Victor Hugo, Balzac, Monet, Gaughin, Cézanne, Rodin, Matisse, Eiffel, Pasteur, Pierre Curie, Fauré, Debussy, Ravel, Verlaine, Mallarmé, Saint-Exupéry, Bernanos, Malraux, Jankélévitch e uma infinidade, friso, infinidade de grandes vultos, testemunhando que os valores essenciais franceses são outros, humanistas, artísticos e científicos e que colocam a França num patamar criativo rigorosamente singular. Sim, a mulher fácil, a perversão e a libertinagem existem em França e em todos os recantos do planeta; e o Champagne (em charge recente) é delicioso produto, mas produto. Demonstra o semanário leviandade a desprezar consequências fatais. Pseudo-humor, de mau gosto, inoportuno e reducionista. Não seriam esses os elementos fulcrais para a realização dos atos insanos terroristas, mas sem dúvida são provocativos. Estariam a evidenciar que o semanário teria perdido o rumo.

Infelizmente a França estará sujeita a futuros atos atrozes, hélas. As células cancerosas se expandem em metástase, pois no interior do país. Não há consenso quanto ao tratamento, mas ele tem de ser imediato e sem tréguas. A França sempre soube reagir, seu povo preza valores culturais, ora ameaçados. Esperemos que a presidente do Brasil, que há pouco mais de um ano, na abertura das sessões da ONU, propunha um “diálogo” com os terroristas do EI, tenha uma outra postura e se coloque à disposição, juntamente com importantes líderes de países do hemisfério norte que já se pronunciaram, para a ação conjunta, diplomática que seja. Esperemos…

The reflections of someone living on the other side of the Atlantic on the terrorist attacks last 13 November in Paris, something the press has been describing as a clash between religious extremism and free speech – a threat to the entire world, not only to France – and the deplorable provocations staged by the satirical newspaper Charlie Hebdo.