Navegando Posts em Cotidiano

Diálogos que Enriquecem

Só os trâmites importam.
Eles é que permanecem e não o fim,
mera ilusão do caminhante que vai de pico em pico,
como se o fim alcançado tivesse um sentido.
Assim como não há progresso sem aceitação do que existe.
Antoine de Saint-Exupéry (Citadelle, cap. XLIX)

Um dos prazeres que a vida nos oferece é o diálogo. Há inúmeras possibilidades e níveis que se apresentam. O diálogo, nessas circunstâncias, se enriquece devido aos conteúdos trocados e às experiências em áreas aparentemente antagônicas, que se intercalam e abastecem a mente. Se Carlos, paraibano, meu companheiro de corridas, é um sábio nas tarefas mais intrincadas do cotidiano como pintura, eletricidade, encanamento, estando sempre a apresentar soluções exatas para problemas que, para mim, são de dificílima resolução quando o consulto, ainda assim é funcionário exemplar de uma empresa há cerca de 27 anos. Nas corridas, aos 50 anos, Carlos é, logicamente, mais rápido, pois não carrega 25 anos a mais. Carlos ou Batoré ou, ainda, Peba (apelido de infância que vem da Paraíba, pois costumava  arrastar-se pelo chão à maneira do tatupeba existente no agreste) está sempre disposto. Nosso diálogo em torno do cotidiano tem interesse imenso, pois aprendo sempre com esse amigo de forte sotaque e linguajar simples e envolvente, que pontualmente me espera antes de raiar o dia quando das corridas oficiais de rua  em São Paulo ou no interior próximo à nossa cidade. Nas corridas de 10k é Carlos que me aguarda na linha de chegada, já com a medalha de sua participação pendurada no pescoço e com palavras estimuladoras para o velho corredor.

Num universo outro, a troca semanal de e-mails com o compositor e pensador francês François Servenière, desde 2010 mais intensamente, preenche até a presente data bem mais de 1.000 páginas!!! Música a predominar, mas também literatura, aventura, cotidiano, degradação cultural que se acentua e a política plena de subterfúgios e de escândalos de nossos dois países. Diálogo virtual a atravessar o oceano nessa velocidade que nos espanta. Nosso intercâmbio de ideias pressupõe a existência do trâmite e, quando um de nós atinge o fim proposto, a somatória do diálogo permanece, a substanciar a longa caminhada.

Selecionei alguns temas esparsos desses últimos e-mails, para transmiti-los ao prezado leitor. Escrevia eu que, acentuadamente, artigos arbitrados e livros analíticos sobre música distanciam-se de minhas preocupações atuais por motivos claros: quantos não são aqueles escritos com a finalidade precípua de contar pontos em avaliação acadêmica, quantificar currículos ou obter recursos em Instituto de Fomento para serem lidos em incontáveis congressos que pululam nas agendas universitárias? É tão claro distingui-los, mas eles tendem a ser maioria nesse impulso voltado à produção. Sim, é preciso escrever para ser respeitado como scholar e, para o medíocre ou não vocacionado, a tarefa da elaboração de um texto torna-se um fardo que é preenchido pelo vazio de ideias, pela quantidade de notas de rodapé, tantas delas forçadas, e pela precisão do número de caracteres. Muitos são aqueles artigos que, espremidos, não produzem uma gota de saber. Justamente estava a ler livro com dezenas de artigos, alguns notáveis, outros de que desistia já no primeiro parágrafo. E mais grave, esses últimos aceitos e… publicados.

François Servenière comenta: “Sou um pouco como você desde sempre. Na minha juventude li grande quantidade de livros teórico-musicais do passado e da atualidade. Posteriormente, essa literatura acabou por me causar enfado, como uma serpente que morde sua cauda. Como você, encontrei mais inspiração nos relatos de escritores viajantes e nas aventuras épicas que me provocam arrepios, sensação que encontro ao descobrir partituras e gravações que me entusiasmam, mesmo que concernentes à música da segunda metade do século XX. Desta, mais acentuadamente tenho dificuldade de achar composições que me deem a sensação do absoluto e das exóticas terras virgens. Consideremos que há quantidade de teses que levam os leitores a zonas totalmente estranhas ao objeto precípuo do trabalho acadêmico. Quantas não são as vezes em que o mestrando ou doutorando é órfão da criação ou da interpretação e tem a imperiosa necessidade de compensar essa criatividade frustrada por elucubrações fora de propósito. É o que fez estancar minhas críticas  sobre determinadas áreas, pois inúmeras vezes essas críticas podem ser filhas da frustração pessoal”.

Em reiterados posts abordei livros concentrados nos desafios de intrépidos aventureiros. Sob égide não distante do tema, desloquei minha atenção para os depoimentos de esportistas ou técnicos. Seus ensinamentos e a constante evolução de métodos visando ao aperfeiçoamento dimensionam nosso entendimento relativo aos quesitos essenciais para o músico: compreensão, disciplina, horas de labor, concentração, performance sem pressões. São tantos os canais televisivos de esporte e entrevistas com técnicos de todas as modalidades esportivas do Brasil e, sobretudo, do Exterior, deveriam fazer parte de diálogos entre professores de música e seus alunos. Paradoxalmente, esses ensinamentos têm analogia com procedimentos de um intérprete, assim como do corredor amador que eu insisto em ser. Acredito também que há maior atualização na técnica esportiva se comparada àquela aplicada à performance musical. Como esse processo tem a ebulição nos treinamentos (ambas as áreas)  visando ao resultado final, a execução “físico-mecânica”, estou sempre mais propenso a ouvir uma gravação de mestres do passado àquela de um jovem egresso de importantes concursos internacionais, pois nesta consigo extrair o ato performático que tantas vezes surpreende nossos sentidos, mercê da virtuosidade em expansão, e naquela transparece a essência essencial de uma obra, razão de sua perenidade. François Servenière, excelente compositor e pensador, praticou muitos esportes, entre os quais alpinismo, esqui alpino e vela. Trocamos mensagens permanentes também sobre a temática da aventura que nos apaixona, daí tantos livros que resenhei nesse espaço. O diálogo em circunstâncias internéticas tem lá seus resultados. Escreve-me Servenière: “Minha biblioteca, como a sua, está repleta desses opus marítimos e terrestres que são, na verdade, os livros que me fazem partir para ‘fora’. Sou amador dos livros de ficção científica e de conflitos marítimos, nos quais a coragem dos homens é testada no alto das montanhas, no mar, nas tempestades”. Arguta sua reflexão sobre a possibilidade da morte em circunstâncias tantas vezes provocadas pelo “instante do acontecido”, no dizer do filósofo Vladimir Jankélévitch. Servenière, ao comentar um de meus posts sobre livros de aventura, escreve: “Desde muito tempo sou fascinado pelo contraste entre a relação épica das histórias nos livros e filmes. Temos sempre a impressão de que as aventuras são vividas sob grandes orgias de músicas sinfônicas, tais como são apresentadas em documentários. Sobre esse tema, tendo praticado muito montanhismo, esqui e navegação marítima, posso confirmar que a natureza não é sonorizada em estéreo sinfônico nem em hard rock quando a tensão se apresenta palpável em circunstâncias trágicas. Muitos aventureiros do mar e das montanhas insistem permanentemente sobre esse aspecto da aventura. A maior delas, melhor organizada, com o melhor barco, com o melhor equipamento e a melhor equipe de montanhismo, para imediatamente quando algum tripulante cai no mar ou um alpinista, numa fenda. É meu pesadelo recorrente quando trabalho mentalmente à noite sobre meus projetos de travessia oceânica. Como ter a certeza de que uma queda no mar não pode acontecer? Barcos seguros afundaram e marinheiros experientes sucumbem sempre, assim como no caso dos alpinistas e suas quedas extraordinárias. Nas aventuras o risco zero não existe”. (tradução JEM).

Essas divagações sobre diálogo permanente e enriquecedor com Servenière tem a dádiva da diversidade de temas. Se a música prepondera na grande maioria de e-mails trocados, e não foram poucas as vezes em que inseri segmentos expressivos do ilustre amigo, os mais variados assuntos são evocados. Divagações prazerosas que, oxalá, prossigam.

This post is about the simple pleasure of conversations with friends and acquaintances. It is illustrated by my own experience with two friends of opposing personalities. On one hand, my fellow street racer Carlos, a good-hearted and simple guy of humble birth, with infinite skills to handle the practical side of life. I turn to him in case of problems with leakages, broken tiles, car mechanics, wall painting. On the other hand, the French composer François Servenière —well known by readers of my blogs — a reflective man with whom one may talk about almost everything. Different dialogues with different types of people, but the same pleasure of being in communication with others.

 

 

 

Escândalos se Sucedem – Leitores Entendendo Mensagens de um Observador

Não basta, porém, para ser livre,
que se tenha liberdade política.
A liberdade política é perfeitamente ilusória
enquanto se não tem liberdade económica,
pela coacção exercida por quem dispõe de meios
de produção, de transportes e de crédito,
pela fácil corrupção do voto,
porque os meios de difusão têm sempre proprietários e custam dinheiro,
e porque a miséria nem pensar pode.
Agostinho da Silva (Dispersos)

Reiteradamente tenho comentado que a temática a envolver mazelas de nosso Governo Federal e outras mais de diversas procedências não são preferências de minha pena. Sentir a deterioração flagrante de estruturas básicas da nação, como Cultura, Ética, Moral, não apenas constrange como “envenena” a mente. Sob outra égide, noticiários televisivos enfatizam ad nauseam resultados da extrema violência e desvios de conduta da classe política, a abranger todos os partidos, uns mais outros menos, mormente o planaltino. Sob outro aspecto, existe o lobista, essa figura sombria quando a visar o lucro abusivo, mensageiro humano que, à la manière da ave de rapina, sobrevoa os poderes públicos sempre em busca da famigerada vantagem para organizações privadas de toda ordem.

Se a Copa do Mundo de Futebol está a revelar, bem antes de seu início, a existência do superfaturamento, essa praga crônica que assola o Brasil, no post do dia oito de Março salientei a derrocada da Petrobrás, antes o grande orgulho nacional e que, desde a ascensão do ex-presidente e mudanças nos escalões superiores, foi sendo aparelhada, para desespero de acionistas, que viram suas ações despencarem e a credibilidade da estatal esvair-se. Dias após meu post, explode de maneira mais contundente, e com todas as letras, o escândalo a envolver a compra de refinaria em Pasadena, em que a Petrobrás pagaria preço inimaginável. No “Estadão” online de 20 de Março lê-se: “BRASÍLIA – Documentos até agora inéditos revelam que a presidente Dilma Rousseff votou em 2006 favoravelmente à compra de 50% da polêmica refinaria de Pasadena, no Texas (EUA). A petista era ministra da Casa Civil e comandava o Conselho de Administração da Petrobrás. Ontem, ao justificar a decisão ao Estado, ela disse que só apoiou a medida porque recebeu ‘informações incompletas’ de um parecer ‘técnica e juridicamente falho’. Foi sua primeira manifestação pública sobre o tema”. Os leitores certamente já tiveram conhecimento do noticiário posterior, largamente ventilado pela mídia, no qual  desdobramentos para a compra do restante, a completar 100% da refinaria em Pasadena, elevaram o preço total à estratosfera. Uma pergunta fica no ar: se em empresa privada com Conselho Administrativo, em qualquer dos países do denominado G 20, fato infinitamente menor tivesse ocorrido a dar enorme prejuízo à organização, qual o destino do responsável pela negociação? Possivelmente estaria não apenas fora da empresa, como “banido” do meio empresarial. A paquidérmica estrutura do Estado consegue sempre minimizar ou fazer o cidadão esquecer mazelas tantas vezes descomunais. Contudo, beneficiários da demagógica Bolsa-Família nem saberão o que ocorre. “E porque a miséria nem pensar pode”, como afirma Agostinho da Silva, programas assistencialistas conseguem o que lhes importa, o voto. Enquanto a prioridade mor, a Educação, a anteceder todas as outras, não estiver na mente de nossos governantes, erro, equívoco, distorção dos fatos, desvio de conduta, embuste, demagogia e descompromisso com a verdade serão preponderantes em nosso país à deriva. A ausência voluntária da Educação planejada como única saída para o progresso harmonioso de uma nação, conduz a caminho sem saída. Tivesse o povo acesso à Educação sólida desde a tenra infância conheceria as lamentáveis negociações da Petrobrás e outras, que estão a pipocar, referentes à Estatal. Certamente saberia escolher o governante preparado. Nada a fazer, por enquanto, a não ser protestar, pois a sustentação de bancadas majoritárias coadunando-se com o Planalto são preocupações primeiras do Establishment. Na recentíssima e excelente entrevista que o Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Joaquim Barbosa, concedeu ao jornalista Roberto D’Ávila para a GloboNews (Globo.TV), afirmou: “Se faz muita brincadeira no Brasil no âmbito do Estado, dos três poderes. Muitas decisões são tomadas superficialmente. Não se pensa nas consequências”. Diria ainda: “o Brasil é o país dos conchavos, do tapinha nas costas”.

Muitos leitores manifestaram-se a respeito do post do dia 15 de Março. Flávio Araújo, um dos maiores locutores esportivos do Brasil em todos os tempos e hoje arguto jornalista, inseriu em sua coluna no www.ribeiraopretoonline.com.br (“A Imprensa e sua Missão”, 20,03,2014) parte significativa de meu post, precedido de comentários que anexo ao presente:

“Nem sempre os grandes comentaristas dos fatos que ocorrem pelo mundo afora estão abrigados nas grandes corporações jornalísticas. Com a diversidade da mídia depois da implantação da Internet é comum encontrarmos matérias de grande valor inseridas em sites ou mesmo em blogs avulsos. Também é preciso esclarecer que, com essa possibilidade de todo mundo poder manifestar sua opinião, o que é democrático, nem tudo o que se escreve é digno de ser lido, o que nada tem a ver com liberdade de expressão. Com o tempo e com bom faro vamos selecionando o que há de melhor e, principalmente, buscando opiniões conflitantes, já que nem sempre lermos aquilo que se coaduna com nossas ideias é a melhor das alternativas. Dispensando o material deletério abrigado na web, é possível encontrar matérias de elevada qualidade e opiniões divergentes de cujo confronto sempre extrairemos sábios ensinamentos.

Assim é que procuro ler o que julgo em princípio de boa qualidade literária e, se possível, que esteja projetando também ideias dignas de serem levadas a sério. Não importa se nossos pensamentos caminham em direções paralelas, explico mais uma vez, mas esse não é o caso do que vou agora focalizar, que é a opinião de alguém que, no geral, pensa como eu também tenho pensado na idade provecta que atingi.  Um dos blogs do qual sou leitor assíduo é aquele assinado por José Eduardo Martins, grande músico e mestre dos mais respeitados do país. Constantemente em viagens ao exterior, onde grava seus preciosos discos, o professor José Eduardo tem uma visão global das coisas que vão ocorrendo no planeta e não se limita a escrever sobre sua especialidade, a música de alta qualidade.

No seu último post (Pós-Carnaval e Temores Pré e Pós-Copa do Mundo de Futebol) traçou um retrato perfeito da situação que estamos vivendo e, com sua autorização, estamos reproduzindo aqui uma pequena amostra, quando escreve de passagem sobre o mundial de futebol do qual estamos tão próximos”. A íntegra de sua coluna, “A Imprensa e sua Missão”, pode ser lida ao ser acessado o link abaixo:

Clique para visitar a coluna de Flávio Araújo, em Ribeirão Preto Online

Retornarei aos posts que me trazem prazer e alegria. Desesperançado pelos rumos que o Brasil está a seguir, ao menos tenho, ainda, a possibilidade de, por vezes, expressar desilusões.

Flavio Araújo was one of the greatest sports journalists of the 2nd half of the 20th century in Brazil and presently writes for the Ribeirão Preto Online sports section. Last week he posted excerpts of my last week’s post on the current social and political situation in Brazil, while giving his views on how to sort the wheat from the chaff on the web. I transcribe his words here, since they are worth reading.

 

Observar, Apenas Observar

Dada a situação no mundo de hoje,
talvez sejam outros os caminhos e haja,
antes dela, uma apocalíptica Idade.
O que é importante é que nunca percamos nem a fé nem a esperança
e que se comporte cada um de nós,
dentro do possível e sobretudo do impossível,
como desejamos se comportem os homens
do mais longínquo futuro que possamos imaginar no mundo.
Agostinho da Silva (Dispersos, pág. 757)

Que parte considerável da população esclarecida está atenta ao que ocorre no país é fato notório. Palavras oficiais são utilizadas para vilipendiar os mais esclarecidos, atentos ao que está a ocorrer. Nesses últimos meses termos desgastados graças ao caminhar da história, como burguês e elite, têm sido permanentemente empregados pela denominada Situação. Mais recentemente, Casa Grande, a contrastar com Senzala, foi pronunciado pelo alcaide de São Paulo.  Desde as manifestações de Junho de 2013, reivindicações legítimas foram olvidadas pelos Poderes Executivo e Legislativo. Isso também é fato.

Há algum tempo tento evitar temáticas indigestas que afligem parte considerável da população que busca apreender situações esdrúxulas através do cotidiano. Diria que uma surda angústia está em ebulição entre tantos personagens de diversas “classes sociais”. Aliás, como a Situação adora essas palavras de ordem!

Mario Vargas Llosa escreve sobre a deterioração da Cultura, dos Costumes, da Ética, da Política e da Sociedade. Um exemplo da degradação viu-se durante o Carnaval deste ano, a evidenciar bem a ruptura das últimas barreiras da moralidade. O Governo distribuiu aproximadamente 100.000.000 de preservativos e a resposta imediata veio através de imagens impensáveis décadas atrás. Provedores da internet mostraram mulheres seminuas nos desfiles das Escolas, exibindo largos sorrisos e seios vitaminados através de próteses e silicone, comprimindo-os ao máximo, verdadeiramente ofertando-os. Cenas grotescas que, sob outro ângulo, poderiam provocar a procura pelos preservativos distribuídos regiamente pelo Planalto. Em Salvador, multidões absurdas acompanhando os trios elétricos, que apresentavam “música” de baixíssima qualidade, verdadeira aberração aos ouvidos. Uma dessas, “lepo lepo”, paupérrima, foi vociferada pela massa amorfa que, à maneira da juventude nazista, erguia braços e pulava, incitando ainda mais os “cantores” dos trios, que corriam de um lado para outro desses veículos eletrificados conclamando a turba. O mais grave, durante dias, o que vem a demonstrar a alienação completa de dezenas de milhares presentes. Há muito o Carnaval deixou de ter a conotação de festa legítima. Blocos que  desfilam nas cidades brasileiras de quaisquer dimensões ainda preservam resquícios de uma aura que se esvaiu. Igualmente, algumas escolas de samba têm o sentido, quase perdido, da tradição.

Desde as manifestações de Junho recrudesceu em  aceleração crescente o namoro do Planalto com o regime de Cuba. A presidente, durante as referidas manifestações, anunciava com pompa a contratação de milhares de médicos do Caribe para o programa populista Mais Médicos. Comprovou-se que o contrato trabalhista com aqueles profissionais tem problemas sérios. A mídia, estranhamente, não está a dar a exata medida da situação, que na realidade fere princípios de nossa legislação. Sempre fica na penumbra a relação de considerável parte da mídia com o Governo Federal. As verbas governamentais para a propaganda são imensas. Isso poderia explicar parte do silêncio. Vimos ultimamente fatos preocupantes. A presidente, ao visitar Cuba para a inauguração do Porto de Mariel, com 80% do custo financiado pelo BNDES, ou seja, dinheiro do contribuinte, anunciava que outro empréstimo já estaria em cogitação (Jornal da Globo online, atualizado aos 28/01/2014 à 01:56). Enquanto isso, rodovias e  portos brasileiros pedem socorro. Ferrovias? O sonho de Irineu Evangelista de Sousa (1813-1889), barão e visconde com grandeza de Mauá, perdeu-se, talvez para sempre. Sabemos que sem malha ferroviária, ao menos razoável, o Brasil continuará um país caríssimo para as exportações e a distribuição  impedindo o verdadeiro crescimento. Em Fevereiro último, a visita do ex-presidente a Cuba, a fim de visitar os irmãos Castro da famigerada ditadura cubana, serviu para novos acordos e novas ajudas. O que sempre chama a atenção, mas está a ser esquecido pela população, é o fato de Cuba ser a mais cruenta ditadura da América Latina, em termos históricos. Instaurada em 1959, sacrificou numerosíssimos opositores, que perderam a vida nos abomináveis paredóns, mantendo ainda número desconhecido deles em prisões. “Democracia” que não permite o direito fundamental do cidadão de poder transpor livremente as fronteiras. Em 1962, em Moscou, ouvi músicos que adorariam viajar para o Ocidente, assim como ouvi em Berlim Oriental, poucos meses antes da queda do muro, berlinenses a beirarem os 50 anos lamentar a falta da liberdade essencial, pois sonhavam diuturnamente com Berlim Ocidental. O muro da vergonha e da morte, a impossibilitar saídas. Quantos não perderam a vida na ânsia de liberdade? São, pois, preocupantes esses laços que se estreitam tão acentuadamente entre o Planalto e os ditadores de Cuba. Até onde eles se estenderão? Quais os reais propósitos? Não há clareza alguma por parte da presidente em seus pronunciamentos a respeito. Da nossa triste América Latina, Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina são exaltados pela atual mandatária e pelo ex-presidente, assim como pela cúpula do partido planaltino. O Mercado Comum do Sul (Mercosul) está longe de atender a propósitos plausíveis. Enquanto o Brasil corteja ditaduras e governos extremados, perdemos a oportunidade, por razões ideológicas, de uma aproximação maior com a Comunidade Europeia, com a América do Norte (México, Estados Unidos e Canadá), Extremo Oriente não comunista. “Diga-me com quem andas… “. Se a China continua a ser grande importadora, contudo o Brasil está a perder muito com a não aproximação mais firme com países que mereceriam maior atenção. A ideologia é, na verdade, um grande entrave. Diria, insuperável.

Mais de uma vez salientei que a escolha de um Ministro para ocupar assento na Suprema Corte deveria ser feita por Comissão de Notáveis. Sabemos que assim não reza a legislação pertinente. Contudo, se a Situação permanecer mais tempo, certamente teremos todo o STF indicado pela (o) presidente. Isso é fato. Incertezas futuras para com o equilíbrio da balança, instrumento símbolo da Justiça.

A Copa do Mundo de Futebol se aproxima. Estádios superfaturados, entornos inacabados. A FIFA precisaria, para total segurança, de ao menos 90 dias para a instalação de toda a parafernália relativa às Comunicações. O Secretário-Geral da Federação Internacional de Futebol, Jerôme Valcke, que foi tão contraditório por vezes, afirmou há dias que a Copa do Brasil poderá ser a pior da História da Organização. Tudo está a concorrer. O legado deverá ser penoso. Foram muitos os eufóricos pronunciamentos oficiais poucos anos atrás sobre a Copa. Prolongaram-se. Desmentidos pela realidade, mas infelizmente, por absoluto desconhecimento, mercê do despreparo, aceitos por milhões de beneficiários da demagógica Bolsa Família. Repetiu-se a realidade das promessas do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, permanentemente sob… promessas. Se, de um lado, os mencionados beneficiários de vários tipos de bolsas e cotas não se preocupam, desde que recebam seu quinhão, o mesmo não deverá acontecer com a Economia do país, em situação bem delicada. Todos somos afetados. Especialistas independentes têm alertado. O Planalto estará com ouvidos abertos às ponderadas assertivas? Ano de eleições…

Enquanto diariamente cidadãos são assaltados e assassinados por legião de menores, aqueles ligados ao Planalto permaneceram insensíveis ao clamor da população, que majoritariamente tem “implorado” pela diminuição penal.  O Brasil está absolutamente na contramão do que ocorre em países que entendem que crimes hediondos não estão sujeitos à idade, seja ela qual for. Dos mais de 50.000 assassinatos ou latrocínios ocorridos no país (recorde absoluto em termos mundiais), parte considerável dessas tragédias acontece nas grandes cidades e praticada por menores. O que dizer? É preciso pensar sobre o assunto de maneira realista. Em ano de eleições o Governo Central evita o debate franco com a Sociedade.

À mídia compete divulgar verdades. Estará disposta a fazê-lo, indo ao âmago de escândalos que pululam regularmente? Como exemplo, a queda vertiginosa da Petrobrás, no início do século XXI uma das dez mais importantes do mundo, e hoje relegada à ínfima posição acima da centena, evidencia bem os passos equivocados nesta última década. Infelizes acionistas. Não há derrocada abissal sem causas reais. Por que não divulgá-las? O Planalto exalta o pré-sal. Hipotético, pouco sabemos a respeito de viabilidades. E os gravíssimos problemas da Petrobrás que estão à tona? Silêncio do ex-presidente e da atual mandatária. A Petrobrás, orgulho do brasileiro até bem recentemente é motivo de chacota. Isso igualmente é fato.

O General Charles de Gaulle teria razão? Seriedade vem do combate intransigente a fatores crônicos como a corrupção e o despreparo. Aguardemos.

This post is about my disenchantment with my country in all aspects: cultural deterioration, political corruption, the government’s flirting with dictatorships, violence, morality decline leading to spiritual barbarism.