Navegando Posts em Cotidiano

Quando a Arrogância e os Holofotes Preponderam

Porquê tolerar?
Parece-me ainda pior do que perseguir.
No perseguir há um reconhecimento do valor.
Agostinho da Silva

Estávamos no dia 9 de Julho de 1950. Meus pais levaram os quatro filhos para assistir ao jogo Brasil x Suécia em pleno Maracanã, na então bela Rio de Janeiro. Pela primeira e última vez entrei nesse gigantesco estádio e, nos meus 12 anos, vibrei com a vitória por 7 x 1 frente à equipe sueca. Ineditamente, 64 anos após, assisto pela televisão a mais um 7 x 1, desta vez contra nossa lamentável seleção. Estamos quites com os maiores resultados que obtivemos em todas as copas, para cima ou para baixo. Portanto, empatados…

Durante a Copa do Mundo preferi nada escrever sobre o tema. Filhas e netas me aconselharam a não ser o “cético” que vaticinava a derrocada desde os preparativos da seleção brasileira, mercê do ufanismo exagerado e das teorias ultrapassadas da comissão técnica de nossa equipe. Aquiesci, porém, após o Mineiratzen que jamais será esquecido por esta e futuras gerações, pensei escrever um post, ouvir comentaristas, mormente aqueles que foram jogadores consagrados. Não é de hoje que escrevo ter aprendido muito com as observações de esportistas de todas as áreas, inclusive tendo reflexos na minha atividade pianística.

Assisti aos jogos pela TV Bandeirantes, como sempre. Gosto dos comentaristas, ex-jogadores como Neto, Edmundo, Djalminha, Pedrinho, Denilson e dos locutores, bem mais competentes e naturais nos lances que se desenrolam durante os jogos, se comparados aos de emissoras da TV a cabo, muitos apenas jovens comentaristas que se expressam bem, mas sem a experiência daqueles citados. Há também os integrantes da equipe da principal rede aberta televisiva, pomposos e com ares oficiais. Contudo, interessaram-me igualmente as observações de quatro grandes jogadores internacionais campeões do mundo que compareceram com frequência aos estúdios do Sport TV. Lothar  Matthäus (Alemanha), Fabio Cannavaro (Itália), Daniel Passarela (Argentina) e Carlos Alberto Torres (Brasil) evidenciaram posições diferenciadas e de grande interesse. Carlos Alberto frisou que o problema maior de nossa seleção resumia-se num “oba, oba” nefasto que ele denunciava já há alguns anos. Creio que essa situação é fruto de um entusiasmo desmesurado da mídia; do Planalto, que frequentemente fazia-se presente em pronunciamentos para “prestigiar” e, consequentemente, colher frutos de uma eventual conquista brasileira, em exemplos grotescos como “A Copa das Copas” ou o “É Tóis”, postado recentemente pela mandatária mor do país; de Luis Felipe Scolari, técnico absolutamente ultrapassado; do ufanismo estratosférico de Carlos Alberto Parreira que proclamou, poucos dias antes da Copa, que éramos os francos favoritos; do próprio Scolari, que prometeu tanto aos brasileiros, criando nos mais incautos a sensação da invencibilidade; dos jogadores envoltos nas mais diversas propagandas; dos holofotes em altíssima voltagem e do sobrevoo dos helicópteros quando dos deslocamentos hollywodianos.

Sob outro aspecto, rádios e canais de televisão apresentavam um verdadeiro tsunami, exibindo exaustivamente durante meses publicidades banalíssimas sobre a copa, encomendadas por empresas privadas e estatais. Musiquetas pavorosas, insistentes, com textos massacrantes marcaram essa propaganda de patrocinadores os mais variados, de Bancos, a lojas que vendem “sem juros”, de revendedoras de automóveis a hotéis com “promoção”… Festival anacrônico. Em página inteira publicada no Estadão na quarta-feira, 9 de Julho, um dia após o Mineiratzen, lê-se publicidade de uma das maiores empresas do Brasil na área de alimentação: “Valeu a pena torcer. E se não deu para papar mais um título agora, nossa torcidinha tem tempo pela frente pra ver o sexto, o sétimo, o oitavo… Quem tem alma de criança nunca perde por esperar, Seleção # TE AMO JUNTINHO”. É de pasmar!!! Logo, logo a mais poderosa rede de televisão estará a conclamar “… faltam mil e tantos dias para o Copa do Mundo em Moscou” !!! E toda a lamentável distorção estará a se perpetuar!!!

Após a trajetória dos últimos anos, Scolari não deveria ser convidado a dirigir uma seleção. Técnicos com mais idade mantiveram-se atualizados. Sir Alex Ferguson (1941- ), que esteve na lista dos maiores treinadores do mundo até bem recentemente a dirigir o Manchester United da Inglaterra, é apenas um extraordinário exemplo. Scolari, Murtosa, Parreira não acompanharam a evolução técnico-tática do futebol. A acachapante derrota diante de uma Alemanha organizadíssima comprova a falta de estratégia de um trio atônito com o desenrolar do massacre infringido ao selecionado brasileiro. É só acompanhar o retrospecto de Scolari nestes últimos anos, saliento bem. Após passagem frustrada pela seleção portuguesa, com duas derrotas frente à mediana equipe da Grécia, a primeira e a última partida da Copa da Europa de 2004, não propiciando aos portugueses festejos em seu país, dirigiu despreparado o poderoso Chelsea da Inglaterra, retirando-se pouco tempo após. A seguir esteve a dirigir no Uzbequistão. A “inesquecível” condução como técnico do Palmeiras, abandonando o barco quando a equipe deslizava em direção à série B, o que de fato aconteceu, e as direções anteriores seriam motivos indiscutíveis para o arquivamento de seu nome como técnico, vencedor sim no passado, de certames no Brasil e da Copa de 2002. Esses feitos jamais serão olvidados e ficarão registrados na história do futebol pátrio. Assumir o cargo de técnico da seleção brasileira, tendo Carlos Alberto Parreira, outro desatualizado, foi temeridade a anunciar naufrágio. Sob outro aspecto, entendo profundamente constrangedora a atitude dos três, Scolari, Parreira e Murtosa, abandonando à própria sorte a seleção após o terceiro gol da Alemanha. Encolhidos em suas cadeiras, abrigados do vexame e não dando a menor possibilidade de reação à equipe pessimamente escalada para enfrentar a poderosíssima seleção alemã. Desestruturada em sua espinha dorsal, pois negligenciando o meio de campo, setor cerebral de uma equipe, tornaram-se nossos perdidos jogadores presas fáceis da blitzkrieg germânica, que atacava com rapidez, desorganizando por completo nossos setores defensivo e dianteiro. A imagem que me vinha à mente após os poucos minutos de terror, quando tomamos 5 gols, era a dos filmes sobre a segunda grande guerra em que tanques e aviões nazistas invadiam sem piedade as hostes “inimigas”. Frise-se, em nenhum instante a extraordinária equipe alemã utilizou de recursos desleais e seus jogadores demonstraram até uma certa “piedade” em relação à nossa seleção. Se quisessem forçar as blitz, teriam chegado não aos sete gols, mas certamente à maior goleada da história de todas as copas, dez, onze ou mais gols!!! A comparação com a blitzkrieg, friso, relaciona-se ao poder de ataque, pois a seleção alemã, num sentido absolutamente oposto aos nazistas, foi certamente a mais simpática, comunicativa e generosa entre todas que estiveram no país. Que o diga o Estado da Bahia, onde se hospedaram. Legaram ao simpático povo baiano a sede que planejaram e construíram.

Considerando a decisão de alguns técnicos, como Fabio Capello (Rússia), Cesare Prandelli (Itália) e outros que não estou a me lembrar, após os 7 x 1 contra os alemães o mínimo que Scolari e a Comissão Técnica poderiam fazer seria anunciar a pronta demissão após o jogo deste sábado. Veremos. Mas fica a pergunta cruel, temos hoje algum técnico no Brasil ao nível dos experientes europeus ou mesmo argentinos? Falam de Tite. Campeão Mundial Interclubes em 2012 pelo Corinthians. E depois? Sucumbiu com o mesmo time no campeonato brasileiro do ano seguinte. Muricy foi tímido e não preparou convenientemente o Santos para o desastre de 4 x 0 frente ao Barcelona, também a disputar o Mundial Interclubes. Internacional de Porto Alegre e o Atlético Mineiro deram vexame ao serem derrotados nas semifinais desse certame em outros anos, também mal orientados nas retas finais. Sob outra égide, os técnicos das seleções da Colômbia (José Pekerman) e do Chile (Jorge Sampaoli) são da Argentina e levaram as equipes por eles dirigidas a avançar na Copa do Mundo como jamais acontecera anteriormente para os dois países. Argentinos eram os dois que decidiram a Liga dos Campeões da Europa neste 2014. Teríamos a humildade de convidar um excelente técnico europeu? Para a Confederação Brasileira de Futebol e para o ego de nossos treinadores seria impossível pensar em técnico do país vizinho. A seleção dos Estados Unidos teve a treiná-la um dos maiores jogadores da Alemanha em passado recente, Jürden Klinsmann, e cumpriu com dignidade sua participação na Copa.

Sob outro contexto, gostaria de salientar que a não realização das eliminatórias pela seleção do Brasil como país sede, resultou situação aparentemente tranquila, mas péssima no que concerne à presença permanente da tensão em jogos decisivos. Quem sedia a Copa tem a participação garantida. Contudo, eliminatórias significam atividade constante e testes essenciais para jogadores que despontam ou não estão glorificados pelos holofotes. Cria-se uma equipe base que, durante mais de um ano, terá de pontuar para se garantir entre os primeiros nas eliminatórias. Jogadores entram com adrenalina lá em cima pela expectativa dessa pontuação, apresentam-se frente às hostis torcidas de outros países sul americanos nos chamados jogos de volta. Essa participação é o peristilo do que poderá acontecer numa copa. Todavia, livre das eliminatórias, teve nossa seleção como jogos extras partidas amistosas sem qualquer interesse futebolístico. Em se tratando do Brasil, a CBF busca seleções por vezes insignificantes de países longínquos para pelejas que só buscam o lucro e, logicamente, nem os jogadores têm a adrenalina alterada, tampouco esses jogos são lembrados. Quantos não foram os mergulhos abissais no mar da corrupção que a CBF realizou nessas últimas décadas envolvendo, entre outras estranhas negociações, esses jogos “caça-níqueis”? Nada, mais nada é capaz de modificar as estruturas corroídas da CBF.

Assim como o dia 16 de Julho de 1950 jamais será esquecido, o célebre Maracanazo, também o dia 8 de Julho ficará na memória, o Mineiratzen, nos textos, nas conversas de botequim, no cotidiano sob todas as formas e nesse imaginário nostálgico do sofrido povo brasileiro. Preparado para as fotos que seriam divulgadas ad nauseam, caso vencêssemos a Copa, certamente o Planalto silenciará sobre o desastroso match frente aos alemães. Silenciará também sobre obras inacabadas nos entornos dos estádios e na infraestrutura, sobre os gastos estrondosos das grandes arenas e, infelizmente, sobre os gigantescos e belíssimos elefantes brancos que ficarão plantados em Manaus e Cuiabá. Nada a fazer neste país à deriva. “O povo tem memória curta”. Acredita o Planalto que logo as nuvens cobrirão todo o infortúnio. Nada a fazer. As eleições batem à porta.

Post Scriptum:

O texto entrou aos cinco minutos deste último sábado. Corroborando o que se lê em meu blog, porém com a acuidade e o olhar mais aprofundado de um dos maiores locutores e comentaristas que o Brasil conhece, Flávio Araújo, insiro excerto da “Coluna” que recebi, publicada em site especializado no dia 14/07/2014.

“O país do futebol de outrora é hoje a pátria da corrupção, onde as mãos largas dos políticos se fecham em busca do poder a qualquer preço e pelo maior tempo possível. O futebol muito fez pelo Brasil em tantos anos de conquistas, mas chegou o momento de abrirmos os olhos desse povo hoje enganado em todos os sentidos. Seja pelos políticos produzidos pelos marqueteiros para mentir em busca de votos, seja pelo falso ufanismo imperante nas tevês. Quem não via que o Brasil não tinha time para ganhar a Copa? Só os cegos globais”.

After Brazil’s 7-1 defeat by Germany in World Cup semi-final, a humiliation on epic scale, I raise some considerations about the sad situation of Brazilian football today.

 

Utopia?

A escuta se forma pouco a pouco,
e três ou quatro gerações modificam os ouvidos de uma nação.
Voltaire (1694-1778)

A profética frase do grande escritor, ensaísta e filósofo francês, contida em uma de suas missivas ao se referir à música, pode ser aplicada a qualquer área do conhecimento. Voltaire teria ido além, pois vaticina nessa carta que o interlocutor “dar-lhe-á notícias daqui a cento e cinquenta anos”. Essas “três ou quatro gerações” de que nos fala o ilustre pensador têm sido abreviadas, pois a escuta teve uma transformação brutal nessas últimas décadas. O gosto majoritário da juventude desligou-se da tradição erudita, popular de raiz ou elaborada a partir de diversos procedimentos como o jazz, a canção francesa e italiana, o samba-canção, a bossa-nova, como exemplos dessas criações. Transferiu-se para a parafernália acústica, à qual dezenas de milhares de alucinados acorrem quando dos megaeventos onde essa barulhada persiste madrugada adentro. Entoam a descartabilidade com a convicção de que se ouve o mito “eterno”. As cenas do último festival LollaPolooza bem evidenciam a histeria coletiva frente a ídolos que se utilizam de tantos recursos eletrônicos e visuais para favorecer a ideia do “demiurgo” vociferando “músicas” e “letras” de baixíssima qualidade, que fariam corar versejadores de canções autênticas. E, dias antes, muitos desses jovens frequentadores acampam no entorno, vindos dos rincões desse país. O sertanejo-brega e a barulhada dos trios elétricos no nordeste inebriando as massas são outras tipificações. Tem-se apenas um exemplo daquilo que Mario Vargas Llhosa entende como a decadência irrefutável da cultura tradicional.

Diariamente somos invadidos por uma quantidade crescente de mensagens eletrônicas. Há os antivírus que têm, de maneira razoável ajudado a combatê-las, mormente as “comerciais” ou aquelas imbuídas de conteúdos de toda ordem, mas nocivas. De um amigo de Portugal recebi uma foto com dizeres que, além da mensagem intrigante, provocativa, mas repleta de verdades, levou-me à reflexão. Partilho com o leitor a foto e teço algumas considerações.

A hipotética viagem para um mundo melhor, ainda mais tendo uma criança como símbolo, não seria a certeza de que neste planeta ainda se pode sonhar? O cenário mundial mostra-se instável. Europa em crise e um dos poderosos da KGB da antiga URSS, a dar sinais de senhor da guerra, estaria a vislumbrar uma Grande Rússia. Apesar da gritaria oficial do Ocidente, pouco a pouco acalenta suas aspirações, pois parece que esse mandatário permanecerá num ad eternum possível a governar o “Império”. Sob outro aspecto, regimes democráticos estáveis e com governantes probos, mormente em alguns países tradicionalmente afeitos à alternância do poder, sabem, na medida do possível, controlar seus gastos, a economia e a vida social. Estão fundamentados num pilar irrefutável, a Educação. Pode estar em alguns desses países um mundo melhor. Alternância do poder é resultado da Educação. Sem ela, a teia formada pela não compreensão por parte do povo dos problemas graves de um país, faz sucumbir liberdades inalienáveis, mercê dos votos dos rigorosamente desinformados. Tivesse o povo acesso pleno à Educação, mãe de todas as virtudes, a alternância do poder seria inevitável.

Um Mundo Melhor é o almejo da grande maioria dos humanos. Como admiti-lo, se povos de um mesmo país se digladiam em conflitos cujo estopim não teria curso houvesse ponderação e respeito, quando de fases preliminares, em que diálogos são rompidos tantas vezes por disputas inconsequentes? É o fanatismo a sufocar as mentes lúcidas.

Mundo Melhor. Teremos de sonhar ainda. A menininha da ilustração deseja estar nesse utópico planeta, onde a fraternidade entre as pessoas seja real; em que uma paz possível seja almejada; no qual lucro e tributos sejam apenas justos e não escorchantes; em que a família, tal qual a conhecemos de antão seja preservada e não desestruturada; onde – em nosso país particularmente -, saúde e segurança não existam apenas nos discursos de todos os candidatos em palanque, friso, todos, sem exceção; onde a palavra corrupção, mãe de todos os vícios, inexista no dicionário; no qual político seja sinônimo de honradez. Um mundo… melhor, aqui e alhures.

A photo that has recently swept the web led me to reflect on society as it is today and on the political, economic and social utopia it could be were men different.

 

 

 

 

Diálogos que Enriquecem

Só os trâmites importam.
Eles é que permanecem e não o fim,
mera ilusão do caminhante que vai de pico em pico,
como se o fim alcançado tivesse um sentido.
Assim como não há progresso sem aceitação do que existe.
Antoine de Saint-Exupéry (Citadelle, cap. XLIX)

Um dos prazeres que a vida nos oferece é o diálogo. Há inúmeras possibilidades e níveis que se apresentam. O diálogo, nessas circunstâncias, se enriquece devido aos conteúdos trocados e às experiências em áreas aparentemente antagônicas, que se intercalam e abastecem a mente. Se Carlos, paraibano, meu companheiro de corridas, é um sábio nas tarefas mais intrincadas do cotidiano como pintura, eletricidade, encanamento, estando sempre a apresentar soluções exatas para problemas que, para mim, são de dificílima resolução quando o consulto, ainda assim é funcionário exemplar de uma empresa há cerca de 27 anos. Nas corridas, aos 50 anos, Carlos é, logicamente, mais rápido, pois não carrega 25 anos a mais. Carlos ou Batoré ou, ainda, Peba (apelido de infância que vem da Paraíba, pois costumava  arrastar-se pelo chão à maneira do tatupeba existente no agreste) está sempre disposto. Nosso diálogo em torno do cotidiano tem interesse imenso, pois aprendo sempre com esse amigo de forte sotaque e linguajar simples e envolvente, que pontualmente me espera antes de raiar o dia quando das corridas oficiais de rua  em São Paulo ou no interior próximo à nossa cidade. Nas corridas de 10k é Carlos que me aguarda na linha de chegada, já com a medalha de sua participação pendurada no pescoço e com palavras estimuladoras para o velho corredor.

Num universo outro, a troca semanal de e-mails com o compositor e pensador francês François Servenière, desde 2010 mais intensamente, preenche até a presente data bem mais de 1.000 páginas!!! Música a predominar, mas também literatura, aventura, cotidiano, degradação cultural que se acentua e a política plena de subterfúgios e de escândalos de nossos dois países. Diálogo virtual a atravessar o oceano nessa velocidade que nos espanta. Nosso intercâmbio de ideias pressupõe a existência do trâmite e, quando um de nós atinge o fim proposto, a somatória do diálogo permanece, a substanciar a longa caminhada.

Selecionei alguns temas esparsos desses últimos e-mails, para transmiti-los ao prezado leitor. Escrevia eu que, acentuadamente, artigos arbitrados e livros analíticos sobre música distanciam-se de minhas preocupações atuais por motivos claros: quantos não são aqueles escritos com a finalidade precípua de contar pontos em avaliação acadêmica, quantificar currículos ou obter recursos em Instituto de Fomento para serem lidos em incontáveis congressos que pululam nas agendas universitárias? É tão claro distingui-los, mas eles tendem a ser maioria nesse impulso voltado à produção. Sim, é preciso escrever para ser respeitado como scholar e, para o medíocre ou não vocacionado, a tarefa da elaboração de um texto torna-se um fardo que é preenchido pelo vazio de ideias, pela quantidade de notas de rodapé, tantas delas forçadas, e pela precisão do número de caracteres. Muitos são aqueles artigos que, espremidos, não produzem uma gota de saber. Justamente estava a ler livro com dezenas de artigos, alguns notáveis, outros de que desistia já no primeiro parágrafo. E mais grave, esses últimos aceitos e… publicados.

François Servenière comenta: “Sou um pouco como você desde sempre. Na minha juventude li grande quantidade de livros teórico-musicais do passado e da atualidade. Posteriormente, essa literatura acabou por me causar enfado, como uma serpente que morde sua cauda. Como você, encontrei mais inspiração nos relatos de escritores viajantes e nas aventuras épicas que me provocam arrepios, sensação que encontro ao descobrir partituras e gravações que me entusiasmam, mesmo que concernentes à música da segunda metade do século XX. Desta, mais acentuadamente tenho dificuldade de achar composições que me deem a sensação do absoluto e das exóticas terras virgens. Consideremos que há quantidade de teses que levam os leitores a zonas totalmente estranhas ao objeto precípuo do trabalho acadêmico. Quantas não são as vezes em que o mestrando ou doutorando é órfão da criação ou da interpretação e tem a imperiosa necessidade de compensar essa criatividade frustrada por elucubrações fora de propósito. É o que fez estancar minhas críticas  sobre determinadas áreas, pois inúmeras vezes essas críticas podem ser filhas da frustração pessoal”.

Em reiterados posts abordei livros concentrados nos desafios de intrépidos aventureiros. Sob égide não distante do tema, desloquei minha atenção para os depoimentos de esportistas ou técnicos. Seus ensinamentos e a constante evolução de métodos visando ao aperfeiçoamento dimensionam nosso entendimento relativo aos quesitos essenciais para o músico: compreensão, disciplina, horas de labor, concentração, performance sem pressões. São tantos os canais televisivos de esporte e entrevistas com técnicos de todas as modalidades esportivas do Brasil e, sobretudo, do Exterior, deveriam fazer parte de diálogos entre professores de música e seus alunos. Paradoxalmente, esses ensinamentos têm analogia com procedimentos de um intérprete, assim como do corredor amador que eu insisto em ser. Acredito também que há maior atualização na técnica esportiva se comparada àquela aplicada à performance musical. Como esse processo tem a ebulição nos treinamentos (ambas as áreas)  visando ao resultado final, a execução “físico-mecânica”, estou sempre mais propenso a ouvir uma gravação de mestres do passado àquela de um jovem egresso de importantes concursos internacionais, pois nesta consigo extrair o ato performático que tantas vezes surpreende nossos sentidos, mercê da virtuosidade em expansão, e naquela transparece a essência essencial de uma obra, razão de sua perenidade. François Servenière, excelente compositor e pensador, praticou muitos esportes, entre os quais alpinismo, esqui alpino e vela. Trocamos mensagens permanentes também sobre a temática da aventura que nos apaixona, daí tantos livros que resenhei nesse espaço. O diálogo em circunstâncias internéticas tem lá seus resultados. Escreve-me Servenière: “Minha biblioteca, como a sua, está repleta desses opus marítimos e terrestres que são, na verdade, os livros que me fazem partir para ‘fora’. Sou amador dos livros de ficção científica e de conflitos marítimos, nos quais a coragem dos homens é testada no alto das montanhas, no mar, nas tempestades”. Arguta sua reflexão sobre a possibilidade da morte em circunstâncias tantas vezes provocadas pelo “instante do acontecido”, no dizer do filósofo Vladimir Jankélévitch. Servenière, ao comentar um de meus posts sobre livros de aventura, escreve: “Desde muito tempo sou fascinado pelo contraste entre a relação épica das histórias nos livros e filmes. Temos sempre a impressão de que as aventuras são vividas sob grandes orgias de músicas sinfônicas, tais como são apresentadas em documentários. Sobre esse tema, tendo praticado muito montanhismo, esqui e navegação marítima, posso confirmar que a natureza não é sonorizada em estéreo sinfônico nem em hard rock quando a tensão se apresenta palpável em circunstâncias trágicas. Muitos aventureiros do mar e das montanhas insistem permanentemente sobre esse aspecto da aventura. A maior delas, melhor organizada, com o melhor barco, com o melhor equipamento e a melhor equipe de montanhismo, para imediatamente quando algum tripulante cai no mar ou um alpinista, numa fenda. É meu pesadelo recorrente quando trabalho mentalmente à noite sobre meus projetos de travessia oceânica. Como ter a certeza de que uma queda no mar não pode acontecer? Barcos seguros afundaram e marinheiros experientes sucumbem sempre, assim como no caso dos alpinistas e suas quedas extraordinárias. Nas aventuras o risco zero não existe”. (tradução JEM).

Essas divagações sobre diálogo permanente e enriquecedor com Servenière tem a dádiva da diversidade de temas. Se a música prepondera na grande maioria de e-mails trocados, e não foram poucas as vezes em que inseri segmentos expressivos do ilustre amigo, os mais variados assuntos são evocados. Divagações prazerosas que, oxalá, prossigam.

This post is about the simple pleasure of conversations with friends and acquaintances. It is illustrated by my own experience with two friends of opposing personalities. On one hand, my fellow street racer Carlos, a good-hearted and simple guy of humble birth, with infinite skills to handle the practical side of life. I turn to him in case of problems with leakages, broken tiles, car mechanics, wall painting. On the other hand, the French composer François Servenière —well known by readers of my blogs — a reflective man with whom one may talk about almost everything. Different dialogues with different types of people, but the same pleasure of being in communication with others.