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Quando Interesses Estranhos Sobrepõem-se à Alegria de Milhares

Car, myopes et le nez contre,
ne se préoccupant jamais que de la qualité de l’encre ou du papier
et non de la signification du poème.
Saint-Exupéry (Citadelle. CCXVI)

No post anterior comentava o ano de 2011 e o pouco a ser comemorado, salvo raras exceções, entre elas a família como entidade mater , a dar exemplos de união sincera e amorosa. Em um dos itens escrevi que narraria a “epopéia” do novo percurso da São Silvestre a desnudar equívocos sensíveis por parte da organização do evento, tantos deles provocados por interesses dos patrocinadores. Todas as justificativas referentes ao trajeto último, largamente divulgadas, sempre soaram mal junto aos milhares de participantes. Os atletas amadores que pagaram preços das inscrições muito acima da média – é só conferir os sites de algumas das mais tradicionais empresas que promovem corridas na cidade para que os leitores comprovem a veracidade do que escrevo – não foram ouvidos. Estas dezenas de milhares de corredores da alegria, do prazer, da confraternização são esquecidos em momentos de deliberação. Aqueles excepcionais atletas profissionais, que correspondem a uma porcentagem infinitesimal entre os participantes e que atraem os holofotes por méritos incontestáveis, estão habituados a todos os trajetos. São heróis a serem reverenciados, mas não deveriam jamais servir como opiniões absolutas, o que pareceria evidente em alguns pronunciamentos  dos vencedores da prova, colhidos logo ao término da corrida e divulgados como testemunhos de aprovação da “maioria”.

Quando mencionei a Yescom no último post é pelo simples fato de que é dela que todos nós corredores recebemos e-mails descritivos, da inscrição à prova. Mas pareceria evidente que ela sofreu pressões para liberar a Av. Paulista logo após o último participante passar pelo Masp, à  largada.

Auscultando tantos atletas amadores, assim como alguns profissionais, pareceu-me evidente que eles estavam a sentir por parte dos organizadores uma certa arrogância. Um de meus amigos ouviu em noticiário televisivo a opinião de um dos que ajudou a traçar o novo percurso. A certa altura teria dito que participariam aqueles que quisessem participar e que o problema seria deles! Experientes, dois amigos corredores de fato, José Nicolau (Nicola) e Elson Otake (ranqueado em Maratonas no Brasil), recusaram inscrever-se ao ver o novo traçado, que consideraram muito mal estudado, tornando-o  perigoso para participantes dos mais variados níveis.

Mas vamos à corrida. Há sempre em tempos da São Silvestre a possibilidade de garoas, aguaceiros, chuvas persistentes ou amedrontadoras tempestades. Faz parte de nosso calendário das águas. Nada a fazer, pois delas não temos o menor controle. Todavia, desde o início da semana, aos 26 de Dezembro, já havia previsão, largamente divulgada pelos meios de comunicação, a indicar fortes pancadas que desabariam na passagem do ano. Tudo previsto, pois. Frise-se que todo corredor, profissional ou amador, está sujeito às intempéries. Elas fazem parte de nossa prazerosa atividade esportiva.

Seis integrantes de nossa equipe TA LENTOS participaram nessa última edição. Como nossos tempos são diferenciados, três logo se destacaram: André Shigueo Uchiyamada (1:21:45), Américo Risato Umeda (1:34:30) e Ademir Giacomelli . Corri (1:58:41) ao lado de nosso capitão, Yuji Yokoyama (1:58:41), e de Fernanda Mello, que esteve conosco até a subida da Brigadeiro, quando desgarrou por estar mais rápida. Estivemos sempre debaixo de chuva, sendo que em dois trechos, a perigosa descida da Major Natanael e durante quase todo o percurso da Av. Rio Branco, o céu desabou sobre nós. Panorama mais ou menos inusitado, mas já previsto. Encharcados antes mesmo de cruzarmos aparelhos iniciais de aferição no MASP, assim fomos até o final da prova, no obelisco do Ibirapuera. A descida da Brigadeiro teve características dantescas, mercê do planejamento inadequado da organização quanto ao percurso. Após os 13 km percorridos, incluindo a difícil e tradicional subida da mesma avenida, descer sempre a correr – até o presente jamais andei em prova – tornou-se um martírio para a maioria, que sentiu as articulações dos joelhos e os músculos posteriores de toda a perna sofrerem com esse declive imposto. Tendo já participado de 40 corridas de rua, nunca, friso bem, cheguei com qualquer espécie de dor. Desta vez, se a mente estava super lúcida durante todo o trajeto, joelhos e musculatura sofreram, e mal conseguia andar após a corrida, apesar de imediatamente depois da chegada minha pressão estar como sempre esteve, 11/6, segundo avaliação do posto médico instalado ao final da prova em tenda armada no centro do lodaçal que se formou. A descida da Brigadeiro foi um martírio e outros corredores com os quais cruzei estavam a se lamentar. Dias antes conversara longamente com o grande campeão das S. Silvestres de 1980 e 1985, José João da Silva, que me alertou para essa temível descida, que iria colocar em cheque toda a estrutura dos joelhos e a musculatura das pernas após a histórica subida, que já teria exigido esforço extra depois de tantos km percorridos. Neste domingo (01/01/12), ao iniciar a redação do post, efeitos dolorosos persistem e mal consigo andar. Passarão certamente, mas para que submeter atletas amadores, friso, a esse desafio quase insano?  Minha filha Maria Fernanda e duas netas, que estavam a me esperar na linha de chegada, ouviram inúmeros participantes queixarem-se, e um deles a praguejar  em alta voz que iria processar a organização, pois chegara com os joelhos estourados. Saliente-se, contudo, a bem da verdade, que no regulamento há expresso o não comprometimento da empresa organizadora quanto a percalços físicos dos participantes. Portanto, cabe o ônus ao que se propôs a correr. Inclusive há termo de responsabilidade aceito pelos corredores.

À chegada desse novo trajeto, rigorosamente sem nenhum encanto, sabedores que haveria aguaceiro previsto tão antecipadamente, os organizadores colocaram as tendas para as entregas de medalhas, pasmem os leitores, muitas dezenas de metros depois do término da prova, num terreno sem asfalto, de terra batida com alguma “ex-vegetação” rasteira pisoteada e afogada. Ocorreu o que somente os dirigentes não sabiam, por puro desconhecimento desse espaço no Parque do Ibirapuera e da meteorologia.  Estava a anoitecer, a chuva não parava e sofremos  humilhação e constrangimento ao  atravessar verdadeiro lodaçal  já às escuras, unicamente devido à irresponsabilidade da organização. Sem possibilidades de caminhos alternativos, por vezes Yuji e eu mergulhávamos os pés até bem acima dos tornozelos nessa lama absoluta. Verdadeira aberração. Uns poucos caíam e se desesperavam, pois totalmente enlameados, como em filmes de pastelão. Os mais exaltados a proferirem palavras que, por respeito aos leitores, prefiro não  publicar. Como pode isso acontecer na prova pedestre mais tradicional do Brasil e na maior cidade da América do Sul? Descaso, despreparo total dos organizadores quanto ao espaço fulcral da São Sivestre. Esse lamentável episódio não estaria a prejudicar a imagem de patrocinadores de peso estampados na camisa distribuída no kit de participação? Branca, não ficaria enlameada, a respingar sujeira nas empresas que emprestaram seus nomes ao empreendimento, como Caixa, Correios, Fisk, Rexona, Globo e outros?   Se a organização do evento arrecadou muito, qual a razão de não contratarem experientes atletas profissionais e amadores para, estes sim, determinarem o percurso como um todo, da pré-largada à entrega das medalhas e, finalmente, à dispersão? E que essa Comissão competente fosse de inteiro conhecimento público. Estava a descer dolorido a Brigadeiro e muitos já subiam a Avenida para  pegar, no entorno da Av. Paulista, a condução de volta aos seus lares, muitos desses anônimos bem enlameados.

A São Sivestre sempre primou pela confraternização e alegria. O percurso mais atualizado de 15km dos últimos anos caracterizou-se pela harmonia, com a descida até suave da Avenida da Consolação, sendo a subida da Brigadeiro o trecho paradigmático que, vencido, dava lugar à satisfação plena algumas centenas de metros depois, aos pés da Gazeta. Internautas, através de e-mails incisivos enviados aos provedores, nomeiam a Globo como responsável pela alteração do percurso. Seria possível supor que seja ela uma das maiores interessadas em ver a Av. Paulista livre a partir das 18:00h para a preparação do show da chamada “virada”. Mas não seria a única. Contudo, apesar da organização indicar que a maioria aprovou, não é essa a mostra que nos apresentam alguns dos mais importantes  provedores dos sites: Uol “Participantes reprovam mudanças no trajeto da S. Silvestre” e Terra “Não foram só os corredores amadores que reprovaram a mudança no percurso da Corrida de São Silvestre”. Ambos expõem dezenas e dezenas de comentários de participantes, muitos deles plenos de revolta. Atentemos. Se os organizadores mostram opiniões positivas de alguns vencedores da presente edição da corrida, representam elas, friso, a infinitesimal porcentagem entre o grosso participativo, constituído por atletas amadores. O grande campeão Maílson dos Santos (S. Silvestre 2003, 2005, 2010), a contrapor positivas palavras de alguns vencedores, comenta: “A gente vai avaliar a situação. Foi um percurso muito duro, com muita subida e descida. Estou todo dolorido, então vou tentar recuperar o máximo para treinar para a Maratona de Londres, em abril”.  Damião de Sousa, sétimo colocado na presente edição, comenta: “Estava caindo muita água. Teve um momento em que eu pensei que era um dilúvio. Deu vontade de correr para a calçada. Tive medo na descida de levar um tombo e deslizar. Tinha muita água, então tive que segurar um pouco mais”.

Urge repensar. Poderia essa massa humana majoritária, constituída por milhares de corredores amadores, estar de acordo com o novo trajeto? Teria a organização de se mostrar surda aos apelos da maioria que mantém a S. Sivestre, mediante polpudo preço da inscrição? Não deveriam repensar o término novamente na tradicional Av. Paulista? As justificativas dadas pelos organizadores continuarão a distorcer realidades? O constrangimento e a humilhação por que passaram milhares de corredores, logo depois de transpor a linha de chegada insossa, já não bastariam para ratificar o falhanço do percurso atual? Seria prudente que os organizadores não pensassem em alternativa ao percurso 2011 da S. Silvestre, pois abyssus abyssum invocat, como reza preceito latino, nessa sábia interpretação do abismo chamar outro abismo. Aos responsáveis, reconhecerem o equívoco e restaurar a chegada naquele ponto da tradição, intenso, pleno, da confraternização total. Não voltaram atrás depois do absurdo da prova de 2010, quando entregaram as medalhas junto com o kit, verdadeira blasfêmia para os corredores que têm nesse símbolo de metal a recompensa pelo esforço voluntário e prazeroso? Reparar o erro seria um belo e necessário gesto, pois a experiência vivida no último dia 31 foi para tantos a antítese da essência da prova, congraçamento e alegria.

Aos 73 anos, essa foi minha quarta participação consecutiva. Conheço bem organizações outras que promovem as corridas de rua. Jamais tive algo a reclamar, e lá se vão tantos percursos transpostos. Tencionava, talvez visionarismo, chegar a correr 10 S.Silvestres. Assim como tantos e tantos corredores que buscam a alegria, a confraternização e a qualidade de vida, caso o percurso atual seja mantido, o que provavelmente ocorrerá – quantos não foram os blogs em que apontei que praticamente nada podemos, hélas, contra interesses econômicos poderosos – essa terá sido minha última participação na lendária prova, hoje maculada. Nada que deva  inquietar a organização da São Silvestre. Um corredor da terceira idade entre milhares de tantas faixas etárias! Havia redigido o post quando leio surpreso no site da Midiasport pronunciamento do diretor da Yescom, Thadeus Kassabian. Algumas frases merecem destaque: “Mesmo com a chuva, os atletas aprovaram toda a estrutura oferecida nos 15 quilômetros, incluindo largada e dispersão” (sic); “O temporal não estava nos planos. Seria impossível atender a todos na Avenida Paulista com a chuva e o evento que aconteceria em seguida” (sic); “A área de dispersão para 2012 será ampliada e garantirá ainda mais conforto e infraestrutura aos corredores” (sic) (grifo meu). Saberão os organizadores conseguir, através da ampla divulgação pela mídia daquilo que querem passar ao público, adesões sempre crescentes. Faz parte de nosso Sistema, em que a verdade verdadeira pode ser camuflada. Mas não podem tirar-me o direito de deixar em meu blog o protesto. Arma virtual, imaginária, mas necessária.

The 2011 edition of the St. Sylvester road race, the main event of the Brazilian street race circuit, was held on New Year’s Eve through the hilly, twisting and skyscraper-lined streets of São Paulo with 25.000 participants. The new route of the race made things very hard for nonprofessional runners like me. It now ends after a long, exhausting and steep slope that comes immediately after the long, exhausting and steep climb of Brigadeiro Luis Antonio Av. Afterwards many participants complained against the organizers’ lack of vision, but I managed to complete the 15 kilometers under a steady downpour, despite an inevitable leg pain that still persists for me and probably for thousands of other participants, even after some days of rest.

 

 

 

 

 

Há o que Comemorar neste País?

Chegamos a mais um anoitecer de ano, que permanecerá como  um número no calendário inexorável. Assistimos 2011, pasmos com os resultados que já eram esperados, não de agora. O leigo minimamente informado estava a saber que a zona do euro um dia chegaria ao impasse. Apesar das dificuldades cambiais, perdia-se “outrora” pouco tempo para a troca das muitas moedas espalhadas pela Europa. Os países integrantes sobreviviam, prosperavam ou não, mas caminhavam com as suas dificuldades e poucos acertos. Havia certa independência, e as relações entre os países europeus se processavam dentro de plausíveis parâmetros. O euro veio trazer anunciada a tragédia que podia ser vista num horizonte distante. O euro dos ricos e dos pobres, pasteurizado temporariamente como a verdade absoluta para países incomensuravelmente desiguais, mas contrapondo-se ao dólar ou à libra esterlina, doravante moedas “adversárias”. Não há luz à vista, não aquela do fim do túnel, mas a do pleno dia. Uma bruma cinzenta cobre os países que aceitaram a utopia da união monetária europeia. 2012… o que esperar? Paliativos.

O Brasil, país integrante dos BRICS, vive a ilusão polianesca. Governantes asseguram que tudo vai bem, que a inflação está sobre controle e que a crise internacional nos atingirá de raspão. Recebi recentemente por e-mail um texto de autora holandesa, em que a cidadã “viaja”. Verdadeira nefelibata, que sequer conhece os problemas internos de nosso país. Espalhado por milhões de computadores, essas considerações na realidade são destinadas aos privilegiados que pululam neste Brasil, movidos, tantas vezes, por estranhos propósitos. Tenta fazer-nos ver que vivemos numa maravilha absoluta. Para o cidadão comum, é só entrar em um supermercado, lojas em centros comerciais ou fora deles, assim como em restaurantes para verificar que a inflação teve características, por vezes, galopante.

Assim como parcela considerada da Nação, desiludo-me com o que se passa. Brasil, onde a corrupção endêmica consegue superar a cada ano a sua desfaçatez. As palavras “rubor nas faces”, tão utilizada em saudosos tempos, foi definitivamente banida dos dicionários decentes. Estamos à mercê de todos os impropérios. Nos três poderes houve aumentos salariais abusivos, que foram assinalados já no início do ano na Câmara Federal, de mais de 60%, e neste final de 2011, atingindo aos vergonhosos, acachapantes 200%, número este para determinada casta municipal. O que mais nos assusta é verificar a serenidade dos arautos dos poderes ao anunciarem esses achaques à população ordeira, honesta, que paga religiosamente seus impostos e que luta pela sobrevivência digna. Sob outra égide piorou muito a avaliação que o cidadão comum faz da Justiça em relação ao quadro que apresentei em blog bem anterior (A Justiça – Interpretação de uma Charge. 24/10/09). Morosa, nossa Justiça abre as janelas à impunidade, chaga que está a destruir a identidade do país.

Segurança, Educação e Saúde. A primeira praticamente não existe. Nas cidades maiores temos de nos esconder à noite e as grades em portas e janelas testemunham realidades. No país, o último dado de meses atrás dava 137 assassinatos por dia. Somos os campeões mundiais nesse quesito. Já perdemos a conta das caixas eletrônicas estouradas neste ano; dos ataques às pessoas, tantos deles fatais, da presença de falsários, estelionatários e traficantes presos e soltos através do habeas corpus, a verdadeira salvaguarda para que meliantes persistam no crime. Quantos foram os que morreram nos corredores da tragédia em hospitais e pronto-socorros públicos? E a Educação sucateada? A gurizada progride automaticamente, sem nenhum preparo. Mestres surrados em salas de aula por gangues de alunos. A droga a invadir, presentemente, até a infância.  Tristes realidades. A todos esses fatos o cidadão comum assiste nos canais abertos a porcentagem esmagadora das notícias destinadas ao mal, ao erro, ao desvio de conduta, à negligência das autoridades e, como “pérolas” diárias, ao latrocínio, ao sequestro, ao estupro, aos motoristas embriagados ceifando vidas mas soltos logo a seguir para responderem em liberdade após pagamento de fiança, e… à morte como elemento essencial. Será que apenas essas notícias interessam aos patrocinadores? Por acaso apresentadores sensatos podem interferir e impedir que essa lama continue a jorrar diariamente pelas telas? Para atenuar as mentes já massacradas dos teleespectadores, pequenas pílulas representadas por algumas notícias animadoras.

E o futebol? Dezenas de milhões de brasileiros adoram o esporte e têm lá seus times de preferência. A última decisão do Mundial de Clubes mostrou a nossa verdade. Nada mais temos para encantar dentro das quatro linhas de um campo de futebol. Já sabíamos do fosso abissal a separar a superioridade dos times europeus se comparados àqueles da América Latina. A evidência é transparente. Viu-se um milagre quando anos atrás o São Paulo foi massacrado pelo Liverpool, mas ganhou de 1 x 0, mercê da maior atuação da carreira de Rogério Ceni naqueles mundiais que não espelhavam realidades, pois decididos em um jogo apenas. O recente Barcelona e Santos não permitiu equívocos. Poderá porventura acontecer uma surpresa que não refletirá nada, é certo, entre os vencedores da sofrida Libertadores da América e a poderosa Champions League, mas a cada ano se torna mais difícil. O retrato de nosso futebol lá estava estampado em Yokoyama, sem subterfúgios. Em post bem anterior, que suscitou críticas por parte de fanáticos torcedores de times paulistas, apontava algo transparente. Escrevia àquela altura, em 2007, que tudo não passava de proporção. Os denominados “grandes” times brasileiros buscam seus reforços nos outros da série B, ou revelações que despontam em equipes menores, e que os grandes times europeus encontravam seu manancial de jogadores em vários países do mundo, mormente nos “grandes esquadrões” brasileiros ou argentinos. Apesar de títulos conquistados, nenhuma equipe brasileira conseguiria alguma coisa se atuasse um campeonato inteiro na Espanha, Itália, Inglaterra ou Alemanha. Acredito firmemente que as denominadas melhores equipes brasileiras estão, hoje, ao nível dos times da segunda divisão dos países mencionados. Sob outro aspecto, valeria a pena refletir neste fim de ano sobre quatro tópicos essenciais que fazem sucumbir o futebol pátrio: não há equipe brasileira que mantenha um elenco durante mais de uma temporada, pois as transferências de jogadores são constantes, sobretudo para o Exterior, da Europa ao leste europeu, do Médio ao Extremo Oriente; centenas de jovens embarcam para realização de esperanças que nem sempre se apresentam risonhas; um técnico não subsiste às poucas derrotas sucessivas; não é da tradição brasileira uma equipe que mantém a posse de bola ser atacada por jogadores contrários; o número de passes errados é algo inacreditável, diria, incomensurável, em nosso futebol e em toda a América Latina. Como pode um jogador ganhar fortuna se não sabe o básico do básico, fazer a bola correr até os pés de um outro de seu time? Ninguém estuda esse fundamento? Barcelona x Santos não serviria ao menos para abrir os olhos dos dirigentes e técnicos de nosso futebol? Numa visão sobre seleções, a da Espanha - última campeã do mundo - é coesa e tem seus jogadores entrosados, saindo de dois grandes times. Serão esses virtuoses da bola que estarão no Brasil em 2014. E o Brasil? Em um ano, como preparação para a copa em nosso país, o técnico de plantão já testou dezenas e dezenas, tantos deles sob pressão de empresários e patrocinadores. Nada a fazer. A imprensa escrita, falada e televisiva, despreparada em tantos segmentos, não incensa ad nauseam jogadores que, culturalmente sem bases, não têm a força para permanecer intactos frente à varredura que fazem de suas vidas? A presença de infinidade de empresários, movida unicamente por interesse financeiro, não criaria expectativas de vida melhor para meninos que estão a despontar? É só verificarmos o torneio que está por vir, a envolver uma infinidade de jovens na cidade de São Paulo. Quantidade de empresários com caderninhos a tudo anotar e pais que assinam qualquer contrato, imbuídos de quiméricas aspirações para seus filhos.

Finalmente, a São Silvestre. Devo participar pela quarta vez consecutiva. De maneira desrespeitosa e sem critérios sustentáveis - auscultei atletas profissionais  -, movidos por interesses econômicos e televisivos, os organizadores mudaram o percurso. Trata-se de uma irresponsabilidade. A descida, que se iniciava suave e homogênea pela Av. da Consolação, tranferiram-na para a Rua Major Natanael, a ladear o Cemitério do Araçá, passando pelo Estádio do Pacaembu, a continuar descendente pela Rua Itápolis para finalizar na Praça Charles Muller. Descida abrupta, um quilômetro após a largada, pasmem os leitores, que lesionará as articulações dos joelhos de incontáveis corredores inadvertidos e que  poderá também atingir a região do baço, órgão situado à esquerda da região abdominal, ao nível da nona costela. Uma descida desse teor e o baço sente a situação. Sem contar prováveis quedas devido ao declive acentuado. E que dizer do final da prova no Ibirapuera? A São Silvestre é festa para os atletas amadores, que durante o ano se confraternizaram nas dezenas de corridas espalhadas pela cidade. A Yescom, promotora do evento, impinge a esses atletas da alegria, após a árdua subida da Brigadeiro Luís Antônio, quando a musculatura e as articulações chegaram ao limite para corredores não profissionais, a descida igualmente abrupta no sentido do Ibirapuera. Dirigentes que mereceriam admoestação do Poder Público, que inexiste nessas situações em que interesses estranhos estão em jogo. Narrarei no próximo post a aventura. Espero, aos 73 anos, concluir condignamente a prova, só a correr, no meu ritmo, é certo.

Fim de mais um ano. Esse povo ordeiro, trabalhador, honesto continuará. Graças a ele podemos ainda acreditar. Sua índole é boa. Sofrendo toda espécie de pressão e até descaso, tem-se no povo a chama que impulsiona a Nação. Quanta verdade no texto do grande escritor português Almeida Garret (1799-1854) em Viagens na Minha Terra: “ Assim, o povo, que tem sempre melhor gosto e mais puro do que essa escuma decorada que anda ao de cima das populações, e que se chama a si mesma por excelência a Sociedade…”. Ele é maioria, mas infelizmente torna-se presa fácil dos políticos mal intencionados que, com promessas vazias, obtêm seus votos. Deixa-se manipular por movimentos sindicais de toda ordem que imperam no campo e nas cidades. Frei Beto, em artigo admirável publicado em Novembro último em um de nossos jornais, escreve sobre a corrupção em todas suas variantes. Ao final, um pequeno deslize. Acredita ainda que a consciência do cidadão poderia levá-lo, nas próximas eleições, à escolha dos melhores nomes. Creio ser uma utopia. Se parte da corrupção tem destino voltado aos votos, impossível o vislumbre de uma democracia decente. Mas vamos lá. Povo trabalhador que na escrita de Garret tem prazeres simples. Somemos - como exemplos fulcrais - a família consciente, amorosa  estruturada na retidão de propósitos; a Arte quando não a serviço dos poderosos ou das vaidades pessoais. Se avanços há que considerarmos neste nosso Brasil, nascem eles de mentes sãs da grande maioria da população, muitas delas de raro brilhantismo. Mas como dizia meu saudoso pai: “basta uma gota apenas de ácido para estragar o tonel do melhor vinho”.

Estava a finalizar o post, quando recebo, via e-mail, de meu querido amigo Luca Vitali que tantas ilustrações criou para os textos, um sugestivo desenho de fim de ano. Luca, o artista da esperança. Como não me associar ao seu entusiasmo? Submeto-me sempre ao ato artístico criativo.

A todos os fiéis leitores e tantos amigos, os meus melhores votos para 2012. Que ao menos, o bem mais precioso, a saúde, acompanhe-nos durante o ano inteiro.

Christmas season and the reflections it gives rise to: corruption in Brazil, with politicians using the machine of the state for their own benefit; non justified optimism on the rise, despite violence, education and health poor quality, infrastructure deficiencies and tax burdens; the decline of Brazilian football in comparison with the European one; the new route of the St. Sylvester Road Race held every 31 December in São Paulo and the difficulties competitors like me will have to cope with.

 

 

 

 

Fênix? Até Quando?

Mais n’espère rien de l’homme
s’il travaille pour sa propre vie
et non pour son éternité.
Antoine de Saint-Exupéry (Citadelle – VI)

Se há cidade que nada preserva, esta é São Paulo. Os poderes estatal e privado, que sempre andaram de mãos dadas, ao longo das décadas conseguiram deitar abaixo o que restaria para as novas gerações ao menos entenderem nosso passado. Vergonhosa foi a destruição paulatina da Av. Paulista, hoje uma avenida descaracterizada. Há falta de unidade nos prédios, que não obedecem ao mínimo de básica simetria, imundície crônica das calçadas que fizeram dela um “falso brilhante”, insegurança para o transeunte…  O que parece evidente é que o cartão postal a apresenta preferencialmente à noite, pois as luzes disfarçam problemas e, nessa situação, a  Avenida tem lá sua beleza.

Estou a me lembrar dos velhos casarões que representavam parte de um período preciso da trajetória da cidade. Durante o biênio 1954-55, em que estudei à noite no liceu Eduardo Prado, a fazer esquina com a Rua Pamplona, ao sair da escola por volta das 23:30h caminhava sem pressa pela Avenida Paulista até bem perto do Instituto Pasteur. Era prazeroso esse caminhar. Frondosas árvores, postes com a iluminação antiga, casarões majestosos… De lá pegava o bonde, após este contornar a Brigadeiro Luís Antônio, e ia até o cruzamento da Av. Domingos de Moraes com a Av. Rodrigues Alves. Geralmente descia a pé por esta avenida até a casa onde morávamos, a pouco mais de 50 metros da atual Av. Dante Pazzanese, no Ibirapuera. O que sobrou das Avenidas Paulista e Angélica? Pouquíssimos exemplos, quase todos em estado sofrível. São exemplos que proliferam pela cidade. O poder econômico, sempre em conluio com as estranhas aprovações públicas, já pouco tem para destruir. Para quem teve consciência da cidade com pouco mais de um milhão de habitantes, só lembranças…

Quando insisto em considerar minha cidade bairrro, Brooklin-Campo Belo, a cada dia mais transformada em canteiro de prédios sempre mais altos, é por sentir ainda lampejo do passado existente. Alemães que para cá vieram, ainda na primeira metade do século XX, fizeram construir moradias com estilo que encontramos no sul do país. Muitas delas já deram lugar aos edifícios, a cada ano erigidos em maior altura.

Foi na década de 50 que meu pai comprou um terreno amplo em frente à Estrada de Santo Amaro, mais tarde Avenida, hoje uma das mais movimentadas vias da cidade. Construiu algumas casas que foram vendidas e, sobretudo, a morada da família, que ficaria concluída em fins de 1957. Pensava ele abrigar sob o mesmo teto todos os filhos e dependentes, sonho impossível. Apesar desse aspecto visionário, meus irmãos Ives, João Carlos e eu lá moramos, já casados, por breve período. Naquele período, basicamente nada existia no bairro. Inúmeros terrenos baldios e ruas sem pavimentação, mormente após duas ou três quadras da Avenida Portugal em direção ao Rio Pinheiros, assim como fossas sépticas e poços domésticos nas residências. Nesse segmento do bairro via-se imenso brejo com terra escura, que se encharcava no período das chuvas.

No piso inferior da grande casa não havia janelas que dessem para a avenida. A imensa sala de visitas tinha-as voltadas para as laterais da moradia. Tendo conhecido um artista plástico italiano que passava por São Paulo – infelizmente não nos lembramos de seu nome -, nosso pai contratou-o para fazer um grande mural em mosaico com motivos musicais, já a pensar em futuro Conservatório a ser dirigido por João Carlos e por mim, vontade que nunca se realizaria, por motivos vários concernentes às trajetórias diferenciadas dos irmãos.

O mural ficou pronto no momento da inauguração da casa. Era motivo de muita curiosidade. Na residência que abrigava sete pianos, sendo três de concerto na sala principal, meus pais realizaram inúmeros recitais, deles sempre com a participação de João Carlos e a minha, assim como audições de piano de nosso professor José Kliass. Lá se hospedaram os portugueses Fernando Lopes-Graça (compositor), Sequeira Costa (pianista), Ivo Cruz (compositor), Manuel Ivo Cruz (regente), a pianista francesa Maria Therèse Fourneau e tantos outros. Figuras ilustres da música brasileira, como Guiomar Novaes, Antonieta Rudge, Madalena Lébeis, Camargo Guarnieri, Eleazar de Carvalho, Souza Lima, o compositor argentino Alberto Ginastera e tantos mais frequentaram a grande morada.

Com o passar dos anos e dificuldades que nossa mãe passaria a sentir ao subir escadas, os pais se mudaram para a região da Paulista e lá permaneceram. A casa foi alugada e, desde o primeiro inquilino, cobriram com massa e tinta o grande mural-mosaico. Locatários se sucederam e novas pinturas sobre a pintura trataram de mais ainda tornar o mural “soterrado”. Com a morte de nossos pais, a casa foi finalmente vendida. Alugada há anos para a Academia Brasileira de Arte (ABRA), escola que presta relevante papel junto à comunidade com seus cursos especializados e exposições, novamente a parede aludida recebeu novas pinturas.

Laerte Galesso é meu amigo e dirige a ABRA. Encontramo-nos muitas vezes, seja em exposições de pintura – uma delas do excelente Luca Vitali, que tantas ilustrações criou para meu blog – ou pelas ruas de nossa cidade-bairro. Desde 2007 menciono ao Laerte a existência daquela obra de arte oculta, mural que apenas em uma antiga foto parcial era conhecido. Disse-lhe que seria necessário resgatá-lo. Neste 2011, Laerte empreendeu com seu irmão Evaldo a retirada das muitas camadas de pintura. Quase que diariamente compareci a essa exumação, que necessitou de acurada sensibilidade por parte de Evaldo. Com formão sensível conseguiu retirar, com rara habilidade, as muitas camadas de pintura, sem destruir mínimo segmento do grande mural. Finalmente, após trabalho sereno, árduo, mas sem a pressa que elimina o bom desempenho, conseguiram os irmãos revelar o mural-mosaico, realizado em 1957, mas encoberto desde o começo dos anos 70.

Como era intenção de nossos pais transformar a casa em um Conservatório, o grande mural de 12m por 3m exibe motivos do universo da música: lira, alaúde, dançarinos - extremamente bem elaborados - e, a preponderar, um imenso teclado perpassado pelo pentagrama, a preconizar os futuros de João Carlos e o meu.

Neste dia 9 de Dezembro haverá a reinauguração. Parte de uma história relativamente recente, mas que fora apagada, retorna em plena pujança. A ABRA está de parabéns, e a comunidade da cidade-bairro poderá doravante ter diante dos olhos uma obra artística especial. Façamos votos para que vândalos, que infestam a cidade, não a destruam. Oxalá não a importunem. Votos também para que outro tipo de destruidores do passado da cidade, as incorporadoras, não tentem adquirir, com a avidez que lhes é peculiar, essa morada hoje com seu mural-mosaico, uma obra de arte recuperada da cidade-bairro Brooklin-Campo Belo.

In the fifties my father commissioned from an Italian artist a mosaic mural to adorn the facade of our home in São Paulo. The years went by, my parents moved into an apartment, the property was rented and the mural – a tribute to the arts, displaying dancers, a lyre, a lute and a giant keyboard – was covered by layers of cement and paint. The current tenant is ABRA  (Brazilian Academy of Art), a school of arts. The director, at my suggestion, agreed to restore the mural, and it will be re-inaugurated on 9 December. A work of art recovered and offered as a gift to the community.