Navegando Posts em Cotidiano

O que a Imprensa não Revela

Celui-là habitera mieux qui, faute d’eau, séche dans le désert,
en rêvant d’un puits qu’il connaît,
dont il entend dans son délire grincer la poulie et craquer la corde,
que celui-là qui, de ne point ressentir la soif,
ignore simplement qu’il est des puits tendres, vers où conduisent les étoiles.
Antoine de Saint-Exupéry  (Citadelle CLXXXVII)

Não poucas vezes mencionei minhas posições como professor universitário. Apesar de lecionar piano, jamais pensei na formação de um pianista que não tivesse em conditio sine qua non uma visão musical mais ampla e também uma sólida cultura humanística, únicas salvaguardas para a edificação de um músico completo. Para quem é do métier, impossível não notar lacunas, mesmo em se tratando de um hábil virtuose de ofício, daquelas atribuições fundamentais. Fora das lides interpretativas, haverá vazio de ideias.

Flávio Metne foi meu aluno na universidade. Questionador, colocava-me sempre em posição atenta às suas elucubrações sobre técnica, repertório, mormente dos países do leste europeu e daqueles pertencente à Ásia Menor. Dialogar com Flávio era um prazer estético. Sua evolução pianística nunca foi desprovida dos porquês dos procedimentos realizados. Sempre indagava sobre as razões do técnico-pianístico ou daqueles interpretativos.  Fonte de entusiasmo para seu velho mestre. O  Trabalho de Conclusão de Curso por ele apresentado foi notável e o aluno de piano não apenas tocou, como discorreu sobre a formação histórica da música nacional do Azerbaijão.

Flávio cresceu musicalmente. Atavicamente ligado aos povos do Levante, aqueles pertencentes à região ao nascente do Mar Mediterrâneo, ou seja, situados na costa ocidental da Ásia por ele banhada, Flávio fixou-se na Síria há mais de uma década, onde desempenha profícua atividade como professor de piano do The High Institut of Music em Damasco. Desenvolve também pesquisas relacionadas tanto à música como à língua árabe. Lê constantemente meus posts e nos correspondemos com certa assiduidade.

A atual situação da Síria, interpretada com exacerbação nem sempre confiável pela mídia, fê-lo colocar suas posições a respeito daquilo que, como cidadão a participar da vida do país, observa e presencia. Pensei pois transmitir ao leitor essas agudas observações. Tendo vindo a São Paulo durante as férias escolares, encontramo-nos diversas vezes e foi um prazer enorme esse contato, que se traduziria em um segundo texto de meu ex-aluno e dileto amigo, resultado também de nossas correspondências e encontros decorrentes dessa sua vinda a São Paulo.

Em Julho escrevia-me instigante e-mail de Damasco. Reproduzo seu texto na íntegra, com sua autorização, pois o desenvolvimento do amigo tem-se dado de maneira homogênea, e o leitor poderá inteirar-se das preocupações de Flávio em áreas outras, distantes das nossas, mas humanísticas.

“A demora em escrever algumas palavras poderia denotar  falta de estima… ao contrário, sua presença como mestre e amigo é contínua, seja através das gravações que ouço e as faço ouvir, seja  pelas preciosas idéias sugeridas em seus artigos. Talvez o mais motivador seja mesmo sua postura ante a vida.

Vamos em frente. Como você pode imaginar, o país esta passando por momentos difíceis e é impossível ficar ileso, mesmo que moralmente… Foram muitas as ponderações e penso que o destino do sistema vigente poderá afetar seriamente a vida de muita gente. Otimisticamente, gostaria de acreditar  que os detentores do poder neste país estão mais capacitados do que certos líderes da Liga e chegarão a um consenso inteligente. Caso isso não aconteça, poderá haver uma longa guerra civil ou a desgraça de uma teocracia, ou talvez a fragmentação do território em pequenos países, de acordo com as maiores religiões e etnias vigentes no Levante, e estas regidas por democracias de fachada.

A sociedade síria é uma trama complexa destas etnias, religiões e suas derivações, em cada uma delas há diferenças também culturais e econômicas, também com seus aliados internos e externos. Isso deve ser levado muito em conta ao se fazer qualquer análise.

Resumidamente, vejo três tipos de oposição. Uma oposição, diríamos, ideológica, ou seja, é fundamentada em idéias, comunistas ou nacional-sírias ou seja lá o que for. Outra grita por liberdade, mas com tendências declaradamente teocratizantes e fascistas. Um terceiro grupo composto por mercenários, com slogans muito pobres, quebrando , matando e fazendo declarações falsas às emissoras tendenciosas.

Tenho, como  você, o hábito de ouvir muito as pessoas. Ouço o  padre, o ministro, o exilado, o aluno, o colega de trabalho, o parente do interior, o filho do preso político, o pedreiro, o chofer, o tintureiro, o muçulmano rico, o muçulmano pobre, o cristão francofônico, o curdo sem nacionalidade, o agente, o militar, o nouveau-riche… as emissoras estatais e estrangeiras. Na maioria deles, o que há em relação à sorte do país é um grande ponto de interrogação estampado no rosto, fora as argumentações contraditórias, o diálogo surdo… O mais desesperador é que muitos indivíduos acreditam piamente que sua religião é a escolhida e que têm o direito, legitimado em seu livro sagrado, de apagar os outros do mapa! Estes também engrossam o caldo da ‘oposição’. A pressão internacional é considerável, tendendo a uma intervenção militar mal intencionada. Por outro lado, temo que se está usando, apesar da crise, os mesmos velhos métodos de manipulação popular; métodos estes que, ao meu ver, são aqueles que poderiam levar o sistema à falência.

Ontem foi sexta-feira, feriado, e ao pôr do sol causticante fui fazer uma visita a um parente. As praças cheias, as pessoas passeando, e no caminho que leva a Damasco centenas de famílias fazendo picnic com seus apetrechos, dos quais não falta o narguile. Que boa vida….Até que ponto o cidadão comum quer se envolver? Será que eles ignoram seu destino? Ou será que, depois de tantos conturbados séculos, sabem que nada podem fazer? Chega-se a um ponto  em que tudo o que o cidadão quer, até  o mais ilustrado dos homens, é que o deixem respirar em paz.

As tais aulas da sobrevivência… desvinculei-me definitivamente de uma pequena escola onde lecionava. Coloquei um ex-aluno meu no lugar para assim não prejudicar o  diretor. Era cansativo demais por tão pouco retorno profissional e financeiro. Fico somente com as aulas no Instituto Superior, cujos alunos prestaram vestibular e passaram por um exame de admissão e onde meus esforços são, pelo menos moralmente, mais bem empregados.

Aproveitando meu gosto pela introspecção, pela contemplação, leitura, coisas do espírito enfim, saio o mínimo possível de casa, evitando lugares lotados, ambientes poluídos, trânsito… O retorno é grande pois leio os grandes mestres, escrevo bastante e o mais importante: dedos nas teclas.

O que tenho escrito? Tenho em minha mesa cinco pastas, cinco assuntos mais ou menos relacionados. O sistema que adotei: leio diversas fontes e é impossível esgotar um assunto em uma semana.Vou lendo, vivendo e refletindo e depois de um tempo começam a se estruturar idéias em frases ou parágrafos. Escrevo e coloco na devida pasta, abastecendo-a de material para ser reavaliado e organizado em forma de texto. Não me preocupo logo no começo em colocá-las em um discurso linear. Se as idéias estiverem corretas, buscam seus pares e tudo correrá bem. Tenho, portanto, a liberdade de abandonar por um tempo um assunto e retornar a outro. Forma-se assim uma espiral ascendente e, cada vez que se retorna a um motivo, as idéias se esclarecem. Nunca se sabe quando uma relação interessante pode ocorrer. As idéias precisam de tempo para amadurecer e um distanciamento é  producente; prática sugerida na adolescência pelo meu  psicanalista.

Estou ocupado, por exemplo, com um estudo, ‘Fórmulas de Polidez’, em vernáculo árabe. Não estão escritas em nenhum compêndio. Devem ser retiradas do convívio com os locais, sejam entrevistas, peças de teatro ou fontes as mais diversas. São milhares de fórmulas – herança linguística – usadas no convívio social e  para cada ocasião uma fala, sua devida resposta e, às vezes, a resposta da resposta. São muito bonitas. Já tinha recolhido há muitos anos algumas frases, mas o impulso final veio a partir do Larousse, que tem uma parte dedicada a ‘Formules de politesse correspondant à divers événements’. Este é um trabalho mais acumulativo do que analítico, mas para o qual estou elaborando um pequeno comentário.

Outra pasta, o problema da avaliação pedagógica. Tenho participado anualmente das bancas examinadoras do Instituto e acredito que falta muito para uma melhor avaliação das provas práticas. Isso  me leva a uma série de reflexões a esse respeito e,  por conseqüência, foram devidamente escritas e serão propostas em futuro próximo.  Não é um texto longo e poderei enviar-lhe o rascunho se for de seu interesse. Interesse maior será o meu em moldar-me às prováveis críticas. Avante, a motivação é maior. As outras pastas também são interessantes, mas penso que já tomei demais seu tempo”.

Resultado de nossas longas conversas em São Paulo neste Setembro, Flávio escreveria:

“Nunca fui um ativista e confesso que, nos meus 40 anos, não teria paciência de sê-lo.  Sempre estou querendo saber e ouvir mais… Minha posição não me impede contudo de manifestar críticas a qualquer sistema existente.

Muitos assuntos eu não tratei em correspondências anteriores e que são, a meu ver, de suma importância. De passagem: o clientelismo impera, a corrupção institucionalizada; o código civil, importado da França,  foi enxertado numa sociedade com história e valores diversos do país de origem, muitas leis herdadas dos idos tempos otomanos ainda parasitam na constituição de uma sociedade que é governada por um partido socialista ‘laico’, alimentado pelo sonho pan-arábico. Previdência social ineficaz, sistema hospitalar péssimo, desrespeito visceral ao meio ambiente, imprensa… mais remedia do que noticia.

A sociedade levantina é puritana por natureza. A palavra como tal é crime e os tabus são muitos. Arrisco dizer que censura e puritanismo legitimam-se mutuamente. Acho pouco provável leis sobreviverem contrariamente à moral vigente. Existe, sim, uma elite educada e esclarecida. Ela tem consciência ambiental, habituou-se a fazer reciclagem, respeita a cultura alheia e integra com naturalidade os espaços em que vive, não corrompe e não é corrompida. Há bons escritores, corais relativamente bem treinados, compositores tentando, dentro de suas possibilidades, desenvolver uma linguagem nacional, programas de assistência social promovidos pela nossa excelente Primeira Dama e coisas afins.

Sob o aspecto cultural, dada a sua localização geográfica, o Levante compartilha imensamente do belo imaginário mediterrâneo. Muçulmanos e Cristãos convivem sem atritos maiores. Algumas cidades sírias poderiam bem estar em Portugal, Espanha, Itália ou Grécia e o inverso seria também válido. É só olhar os semblantes de homens e mulheres, as casas construídas com pedras escuras, ver casamentos, danças, ouvir adufes e gaitas; observar os vinhedos e as oliveiras, assim como as mulheres vestidas de luto e o culto à Virgem.  Acredito que essas semelhanças sobrevivam desde épocas anteriores às conquistas islâmicas. Indo mais a fundo,  a paisagem de cidades mais afastadas do Mediterrâneo, nela incluindo seus habitantes, aproxima-se mais de panorama existente na Península Arábica. Acrescentaria cidades a nordeste com traços mais centro-asiáticos em todos os aspectos.

A História da região não foi nada homogênea e sim plena de conturbações, seja nos tempos de Roma e de seus Césares, ou naqueles de Alexandre, pois o território pareceria fadado às ocupações.

O viajante que empreender um turismo sério, fora dos saguões cinco estrelas e restaurantes com música ‘para inglês ver’, poderá, a partir de uma atenta e prazerosa leitura das paisagens, aprender muito sobre a história da região.

Viver o cotidiano do país por uns bons quinze anos permite-me observar : os sírios vivem num país seguro? Sim. A pobreza é inferior àquela de outros do ‘terceiro mundo’? Sim. Pode-se andar pelas ruas à noite sem medo de assalto? Sim. Há alimento subsidiado pelo Estado? Sim. Há liberdade de culto? Sim. O mais relevante: a tolerância entre as diversas etnias e religiões e a solidariedade entre as pessoas, independentemente destas diferenças, é, de fato, admirável.

Transpondo exageros movidos por parcialidades e desinformação, penso que uma reavaliação mais sensível deveria ser feita, evitando assim julgamentos e decisões políticas de consequências nefastas.”

Flávio me apresentaria fotos por ele tiradas na Síria. Compartilho cinco delas com meus leitores. Tem-se muito do país e do que vai no interior do olhar de meu querido amigo.

Flavio Metne was one of my students at the university in the past and for more than ten years he has been living in Damascus, where he is a piano teacher at the High Institute of Music. We keep in touch by e-mails and meet when he comes to São Paulo on vacation. In this post I transcribe two interesting messages received from him, in which he gives his views on today’s civil unrest in Syria and also on the diverse fabric that makes up the Syrian society.

 

Deixar-se Embrutecer

Entretanto, se consagrarmos um quarto de nosso tempo
cessando nossos esforços pessoais
a deixar tranquilamente o espírito da Natureza impregnar o nosso,
poderíamos reconsiderar a lista de nossos desejos e, ao fazê-lo,
assegurar igualmente a cooperação da Natureza
para obter o que almejamos.
Paul Brunton

Músicos, poetas, escritores, atores, artistas plásticos têm a noção exata do espaço para a respiração. Este pode ser até infinitesimal, mas está sempre a existir. É a pausa a intermediar a frase musical, é a vírgula para quem escreve, o respirar para o ator, o traço a interligar com leveza a feitura do desenho. Habituamo-nos, desde o aprendizado, a essa interrupção momentânea, que possibilita retomadas. Na excelência, grandes poetas, escritores, compositores, intérpretes, atores e artistas de artes visuais sabem conduzir de maneira inefável o espaço que leva à palavra ou o som àquilo que segue ou, ainda, a separação a levar à harmonia das cores.  Não por outro motivo são eles reverenciados por quem se irmana ao conteúdo transmitido. Quando há a simbiose plena música-poema, tem-se então a magia. Entre tantos exemplos, Schubert, Fauré e Debussy souberam extrair o maravilhamento do texto poético em música inefável  e conseguiram estabelecer  momentos absolutos em que palavra e som encontram o sentido transcendente da respiração. Sob outra égide, a do leigo, qual não é o prazer na leitura de um belo poema ou de um texto impecável, onde todos os contornos desse “tempo imaginário” podem ser captados?

O respirar essencial à vida, possibilita, sob outra égide, um controle mais acentuado em determinadas atividades devido às peculiaridades. Brevíssimas interrupções ou pausas fazem parte de seus glossários. Contudo, essa respiração tem sido aniquilada cada vez mais acentuadamente pelos meios de comunicação. Antigamente, na passagem de uma propaganda para outra, tinha-se uma fração mínima de silêncio no rádio, e a separar um anúncio de outro na televisão, igualmente uma fração de segundo em que a tela ficava escura antes da publicidade seguinte. A rede de maior audiência teve no passado, inclusive, mínimas vinhetas representadas por charges articuladas intermediando as propagandas. Pouco a pouco, devido ao princípio fundamental do lucro e do tempo “precioso”, as propagandas foram sendo prensadas umas às outras, sem mais o  infinitesimal instante de separação entre elas. Esse processo converteu-se numa absoluta constante e torna-se aflitiva a sucessão de publicidades díspares – tantas delas verdadeiras câmaras da inconsequência  -, completamente dissonantes umas das outras. O generoso leitor, se prestar atenção,  observará essa assertiva, que chega a ser até um desrespeito ao ouvinte ou ao telespectador. Se necessidade há de se encaixar um número determinado de publicidades, não poderiam as empresas de comunicação eliminar essa verdadeira fusão, possibilitando a passagem de um e de outro anúncio numa sequência natural não tensa? Não bastaria encurtar determinados tempos de créditos ou outros artifícios?

Para aquele que vê e ouve há ainda outra agravante. Quantas não são as vezes em que já se está a ouvir ou a ver determinada propaganda e, na realidade, ainda se acredita tratar-se da anterior? Nem um flash tem tamanha “eficácia”. Algumas empresas de publicidade têm o bom senso de deixar a logomarca do anunciante por meio segundo que seja ao final da mensagem. A mínima fixação já faz o frequentador distinguir perfeitamente os “anúncios” transmitidos. Contudo, algo que fica evidente, até cômico, poder-se-ia afirmar, refere-se à publicidade de remédios. Ao final, em prestissimo veloce, o locutor de rádio ou a tarja em flash afirmam que “se persistirem os sintomas o médico deverá ser consultado” ou “esse medicamento não deve ser utilizado em caso de sintomas da dengue”. Ou ainda, em termos telefônicos, “sua mensagem está sendo encaminhada para a caixa postal e estará sujeita à cobrança após o sinal”.

A duração do som, a estabelecer relações da trama musical, proporciona aos músicos a noção mais acurada da supressão desse respirar que deveria ser vital na publicidade, fosse outro o entendimento de profissionais ligados a essa área e a da difusão. Sob outro aspecto, a ascensão desmesurada de um tipo de “música” de massa de altos decibéis não faria parte dessa necessidade de se evitar o silêncio e a pausa, de suprimir a respiração e de tornar tudo ofegante?

Um outro aspecto, consequência da inexistência do mínimo instante a separar uma publicidade da outra, residiria na formação, mormente das crianças. Assoladas pela inundação de propagandas essenciais para as empresas de comunicação, apreendem desde tenros anos essa ausência absoluta da pausa, da respiração como essência. Ouvem e veem cenas que se sucedem sem a menor conexão. Não teria isso influência futura no desenvolvimento do miúdo? Seria plausível entendermos positivamente. Esse problema,  acredito, deveria ser tema de profissionais das áreas da educação e psicologia.

Encontrar Luca Vitali é sempre motivo de alegria. Tomamos um curto e falei-lhe do presente post. Apenas ouviu. Dias após, seu lápis mental transformava em charge minhas elucubrações.

 

A reflection on today’s frenzied world of advertising, that forces us to divide our attention into a nonstop - time is money - multitude of small slices and may have an impact on our ability to process information.

 

 

Rememorando outra Viagem de ônibus

Que a imaginação te engorde e a matemática te emagreça.
Agostinho da Silva

Conversava com meu amigo Luca Vitali. O arguto artista lera os últimos posts de uma só vez. Disse ter gostado dos dois sobre as ferrovias, mas provocou-me: “Certamente você deve ter também outras experiências com ônibus de longo percurso, pois lembro-me de um seu post bem anterior.” Uma delas já abordei (vide Experiência que Marcou – Caminho para Varna, 18/07/2009); mas, ao continuar a nossa conversa, lembrei-me de uma cheia de situações inusitadas. Fomos direto a um curto e prolongamos ideias.

Quando na Bélgica, por várias vezes fui a Paris de comboio. Nos anos 90, de Gent a Bruxelas em trem comum, e de lá a capital francesa em TGV. Hoje há confortável linha direta a ligar Gent a Paris. Em 1999, Christiane, uma amiga que trabalhava na Rode Pomp, disse-me que eu deveria fazer ao menos uma vez a viagem em autocar e assim conhecer outras paisagens e também as auto-estradas que atravessam os dois países. Aquiesci e realizei uma dessas viagens, que normalmente duram quatro horas.

Estou a me lembrar que o ônibus saiu bem cedo, quase que lotado, e que cerca de 80% dos viajantes eram árabes do norte da África, pois suas figuras são marcantes. Há dignidade nesses semblantes, muitos deles sofridos. Alguns vestiam roupas próprias de suas regiões, os homens com toucas ou taeias e as mulheres com lenços ou xales. A linha rodoviária por autocar, Gent-Paris, não era diária, daí o afluxo. Christiane, de extrema gentileza, preparou-me alguns sanduíches e uma garrafa de água. E lá saímos em direção à Gare du Nord, eu tendo ao meu lado um jovem francês descontraído, de pequena estatura, tez bem avermelhada, olhos claros. Trajava jaqueta e boné bem surrados e imensa vontade de conversar. Como eu estava sempre a ler e por vezes olhava a paisagem, o companheiro de viagem interrompia a sua fala por determinado tempo, a me proporcionar transitório alívio.

Na fronteira dos dois países o ônibus parou e alguns guardas alfandegários franceses, armados até os dentes, subiram, a olhar com arrogância os passageiros. A certa altura, bruscamente, retiraram o jovem que estava ao meu lado e o levaram com certa truculência ao posto da polícia de fronteiras. Da janela deu para acompanhar policiais segurando com firmeza os braços do infortunado, atravessarem as duas pistas e entrarem no posto. Em nenhum momento senti-o culpado, tal a descontração e a informalidade de uma pessoa absolutamente comum.

Algo de muito estranho deveria estar a passar, pois o viajante lá permaneceu por cerca de duas horas. Não apenas não tínhamos permissão para descer, como nada respondia o policial que ficara à porta do autocar. Inútil dizer que a toilette do autocar serviria como último recurso para básicas necessidades. Após o longo interrogatório, vi o jovem atravessar a auto-estrada escoltado pelos gendarmes, sem que apertassem, dessa vez, os braços do moço. Qual não foi o meu espanto quando um dos agentes entrou no ônibus a impor, de maneira a não deixar quaisquer dúvidas, a nossa saída do veículo, com todos os nossos pertences, inclusive a bagagem do amplo porta-malas. Como estava a ler e a anotar, fui o último a descer, ficando pois no fim de uma extensa fila no posto alfandegário situado na pista em direção a Paris. Tudo, mas tudo, foi revistado. Após uma hora de investigação minuciosa e inóspita, pois bagagens, documentos e as roupas eram verificadas, calculei que ainda teria de esperar uma outra boa hora. Dirigi-me a um dos policiais e mostrei uma carta da Bibliothèque National de Paris, pois teria uma reunião no Centre de Documentation Claude Debussy no dia seguinte. Leu-a sem me olhar, deixou-me livre daquele entrave e não revistou minha bagagem. Ao solicitar permissão para ir ao toilette do posto alfandegário, o policial imediatamente afirmou que teria de me seguir. “Com todo o respeito, não há um certo exagero por parte do senhor?”, disse-lhe. Desconcertado, deixou-me ir não apenas ao toilette como retornar ao ônibus com todos os meus pertences. Exausto, adormeci uma boa meia hora. Ao acordar, senta-se ao meu lado o jovem viajante a sorrir. Afirmou-me que pensaram ser traficante e que estivesse com drogas. Teve de ficar completamente nu. Fizeram-lhe mil perguntas, pois o posto recebera aviso de que aquele ônibus estava com entorpecentes. Perguntei-lhe pelo desfecho. “Tive medo, sofri humilhações, mas não me bateram”, foi a resposta sempre em tom humorado. Contou-me que estava a retornar à França unicamente para buscar novo emprego, após ter permanecido um ano na Bélgica.

Permanecemos quatro horas nesse posto de fronteira. Foi quando abri minha sacola de mão e retirei meus três sanduíches médios. Ofereci um a ele, que imediatamente o devorou. Estava na metade de meu primeiro sanduíche quando o jovem me perguntou se eu iria comer o terceiro. Entreguei-lhe. Antes que terminasse o meu “primeiro”, os dois outros já tinham sido deglutidos por meu companheiro de viagem. Abri a garrafa de água gaseificada de 750cc, mostrei-a ao rapaz e ele nada disse. Após uns goles que acabara de dar, afirmou-me que estava com sede. Passei-lhe a garrafa quase cheia e bastaram alguns segundos para que a esvaziasse. Ainda faltava a barra de 100g de excelente chocolate belga. Ofereci ao alegre vizinho de trajeto, que com forte pressão dos dedos cortou-o e ficou com mais de metade da barra. Da parte que sobrou tirei dois pequenos pedaços, guardando o restante. Minutos após, nova pergunta “O senhor ainda vai comer o chocolate”? Nem respondi, apenas entreguei-o ao voraz “companheiro”. Tenho a certeza que, se café houvesse, teria eu sorte se ficasse com o restinho do fundo de xícara.

O ônibus ainda fez uma parada rotineira em um desses postos de conveniência no meio do trajeto. Chegamos em Paris após oito horas de viagem. Ao se despedir, o sorridente jovem ainda observou “Gostei muito de nossa conversa. O senhor é um velho simpático”. Estendeu-me a mão, cumprimentamo-nos, sorri desconcertado e lá foi ele em busca de seu destino. Fiquei a pensar, que conversa? Eu só entregava a ele o que me era pedido e o moço não parava de falar… e de comer. O certo é que tive tempo de sobra para ler e fazer a revisão dos temas da reunião parisiense. Do que a caridosa amiga Christiane me deu em Gent, bem mais de três quartos ficaram com o vizinho de assento.

Na capital francesa, o fato foi motivo de boas risadas quando narrei pormenores dessa viagem inusitada. Ao final dessa lembrança, Luca, que tem sempre um lápis ou pincel na mente, observou que a viagem de ônibus é a mais solidária, e as pessoas muitas vezes se confraternizam. Dei-lhe inteira razão. Sob outro aspecto, se a viagem fosse sem percalços, não estaria aqui a me lembrar dessas situações inusitadas. Luca me surpreenderia dias após com o desenho que serviu de ilustração. O choque a aguçar nossa memória e imaginação.

My adventures on the road from Gent to Paris with a weird and hungry seatmate.