Navegando Posts em Cotidiano

Desapropriações Rigorosamente Açodadas

Esboço aproximado da área a ser desapropriada.

Dentre os atos de intervenção estatal na propriedade
destaca-se a desapropriação,
que é a mais drástica
das formas de manifestação do poder de império,
ou seja, da Soberania interna do Estado
no exercício de seu domínio eminente
sobre todos os bens existentes no terrítório nacional.

Hely Lopes Meirelles

Para aqueles que elegeram o Brooklin como cidade-bairro, foi-lhes possível ter conhecimento, não de maneira oficial, da desapropriação, que está a ser cogitada, de extensa área que se estende entre as fronteiras do Campo Belo e do Brooklin. De um projeto antigo, que já lá tem algumas décadas, mudou-se abruptamente o percurso do Metrô da Av. Vereador José Diniz para a Av. Santo Amaro. Motivos tergiversantes, a tentar explicar o inexplicável.
Desnecessário comentar que o trajeto natural da linha que está por vir deveria seguir a básica linha reta que se estendia outrora da descida, após o Instituto Biológico, situado na Av. Rodrigues Alves, até o Largo Treze em Santo Amaro. Era o caminho dos bondes com rotundas em Moema, Brooklin, Santo Amaro e término na Capela do Socorro. Incontáveis as vezes que percorri este trajeto quando criança, a fim de visitar meus avós em Santo Amaro. Caminho natural, administrativamente bem mais econômico, friso, em relação ao açodado percurso decidido recentemente pelo Metrô em seu projeto funcional. Corresponde este à Linha 5, Lilás, no Trecho Largo Treze – Chácara Klabin, especificamente naquela que está planejada para ser a Estação Campo Belo em sua especificação Estação de Transferência Intermodal. Os dados estão no site do Metro. Trata-se, pois, de um desvio decidido atualmente, de pouca data, a não contrariar interesses poderosos existentes no percurso primitivo. Em acréscimo, tenciona a administração atual, que deverá realizar as obras do Metrô, construir um terminal de ônibus numa das regiões mais tradicionais, é bom frisar, do Brooklin-Campo Belo, a degradar decididamente os dois bairros contíguos. Uma tragédia que se anuncia e fruto de pensares estranhos, interferências estranhas, projetos rigorosamente alterados com pressa estranha e que não resistiriam a um olhar mais atento. Contempla, sim, a equivocada teoria de que a reta não é o caminho mais curto entre dois pontos. Saliente-se, com toda ênfase, que a comunidade da região não foi consultada, não houve um mínimo respeito no sentido de ser constituída uma comissão de moradores, a fim de um debate civilizado e sério. É a plena arrogância administrativa tão atuante em todas as áreas.
Alguns pontos mereceriam considerações. Referem-se a aspectos essenciais, neglicenciados por motivos não devidamente divulgados, mas a abalar profundamente uma extensa área que se estende dos logradouros a serem desapropriados a todo um entorno a partir desse “escolhido” epicentro constituído pela passagem da Av. Santo Amaro, para a qual confluem as Ruas Padre José dos Santos-Vieira de Moraes, Jacucaim, Indiana-Pascal, Guararapes-Jesuíno Maciel (vide esboço, que pode ser ampliado clicando-se sobre a ilustração).
Há, na região da convergência da Av. Santo Amaro com a Av. Água Espraiada, extensa área já desapropriada, assim como terrenos pertencentes ao D.E.R., órgão público pois, distantes cerca de 600 metros do local a ser atingido. Infinitamente menos oneroso. Acrescente-se que deverá passar futuramente, pela Av. Água Espraiada, Metrô a ligar a região à cabeceira da referida avenida. Menos dispendioso, bem mais prático, a atender sim à população, a região circundando essa confluência seria de verdadeiro interesse à comunidade, podendo abrigar naturalmente um terminal de ônibus, pois no entroncamento de duas futuras linhas. Mas não, estudam a desapropriação de área adensada, diria nobre, nessa localização Brooklin-Campo Belo, sem possibilidade de qualquer junção. Tudo decidido sem estudos prévios do impacto sobre o meio ambiente e sem pesquisa aprofundada do solo dessa região “escolhida”, plena de fragilidade conhecida por todos os moradores. Lembrar a tragédia de Pinheiros é um presságio que pode tornar-se realidade. Urgiria um debruçar isento das autoridades, que não visasse ao imediatismo.
Tão açodado se mostrou o projeto que uma eficiente organização de produtos hortifrutigranjeiros, ao alugar uma vasta propriedade privada que se estende da Rua Pascal à Jesuíno Maciel, despendeu alguns milhões, a dotar recentemente o bairro com um dos mais bonitos hortifrútis de São Paulo, incluindo padaria e restaurante. Muitíssimo bem freqüentado, aperfeiçoou o sentido de escolha de produtos. Nada sabiam sobre o Metrô e um Terminal de ônibus. Um posto de gasolina na esquina da Av. Santo Amaro com a Rua Pascal teve recentemente toda a documentação aprovada e já está com as bombas instaladas. Do outro lado, Brooklin propriamente dito, moradores realizaram reformas custosas em suas residências contando com a preservação do bairro, uma lanchonete adquiriu uma propriedade na qual realizou, há alguns meses, reforma completa, dotando as cercanias de um decente estabelecimento, um Laboratório de Análises Clínicas reconhecidamente importante há pouco instalou um posto de atendimento, Escola de Artes respeitada investiu em uma enorme instalação. Fosse o projeto previamente anunciado, após a oitiva da comunidade, nada teria ocorrido, nenhum empenho particular teria acalentado tantos sonhos. Qual a razão do silêncio por parte das autoridades e do Metrô? Uma resposta torna-se clara, o projeto é de recente feitura. Frise-se que há uma gritante arbitrariedade neste ato de discricionariedade da administração que, sob a dita “declaração de utilidade pública”, estabelece um equivocado juízo de valor a respeito da conveniência e oportunidade (mérito do ato administrativo), afrontando o princípio da eficiência (art. 37 da CF/88), já que o custo-benefício do projeto anterior compensava muito mais do que o atual. Sob outra égide, qual a razão de o Edital para Licitação do Projeto Arquitetônico da Estação Campo Belo, redigido pela Administração Pública, em seu item 9, no último parágrafo, prescrever que “as áreas remanescentes poderão ser aproveitadas para implementação de empreendimentos associados”? O porquê dessa imprecisão? Causa perplexidade tal indefinição.
Ao comunicar a um amigo belga essa intenção já publicada no site do Metrô, mas não devidamente divulgado pela mídia, escreveu-me Johan Kennivé que tal “para nós europeus é inaceitável e desumano. Aqui, respeitamos as leis e dá-se um tempo de anos para que os moradores encontrem casas com os mesmos valores”. Isso na Europa, repito. Aqui, nem a imprensa divulga com a ênfase necessária a possível degradação ambiental absoluta de região já consagrada e sedimentada, como mostram-se a Administração Pública e o Metrô reservados ao não tornar de conhecimento amplo desideratos estranhos. Uma moradora que teria a casa desapropriada leu o projeto no site do Metrô e adquiriu o edital, mas ao consultar a empresa recebeu carta tergiversante, ou seja, camuflam intenções, pretextando imprecisão quanto à região a ser desapropriada. Um absoluto desvio dos reais objetivos, pois todos os mapas estão estampados no site referido.
O lado humano, sobretudo em ano eleitoral, é o menos importante. Imperam o bombástico, a propaganda a camuflar aspirações misteriosas. Tomo a liberdade de transcrever outro trecho do e-mail de meu dileto amigo da Bélgica, que estendo à grande legião daqueles que, de maneira não oficial, estão a inteirar-se de resoluções sobre as quais não foram consultados minimamente, moradores dessa região visada despoticamente: “Dominar a vida foi um desafio para você! E Deus te propõe mais um combate fundamental, a destruição de tua casa, a raiz de sua vida com a família, o lugar de segurança, cultura, humanidade, a casa de tuas filhas. Para mim era a casa belga no Brasil, com todas os objetos tendo uma história particular, sonoridade harmoniosa. E agora, as máquinas com seus ruídos intensos vão tudo destruir sem consciência e significação. O resultado faz-me pensar nos judeus expulsos durante a guerra.” Estamos anos-luz distantes do pensamento de Saint-Exupéry que, sobrevoando à noite as pequenas cidades do sul da Argentina e do Chile nos vôos pioneiros, ao ver luzes cintilando imaginava a confraternização no seio de lares anônimos. E as perguntas não deixam de ser formuladas. Por que a não consulta à comunidade? Quais as razões para a abrupta mudança de trajeto? Que interesses inconfessos fizeram mudar o direcionamento original do conhecimento de todos? Teriam moradores ou empresas realizado obras se soubessem há anos que o Metrô cogitava construir estação e terminal de ônibus, como acréscimo, nesse epicentro tradicional e sedimentado?
Como nos sentimos? A nossa posição é semelhante àquela de uma vila sitiada. Quantas centenas de filmes não mostraram cidades, vilas, castelos aguardando o ataque que poderia vir a qualquer momento. Desconhecemos a face real do agressor recentíssimo, que espreita silencioso. Para alguns dos moradores mais sensíveis, a ameaça dos invasores captados apenas pela internet – à la manière daqueles que, na Idade Média, transmitiam intenções através de pombos-correios -, transformou-se em pesadelo. É a arrogância dos “poderosos”, sem ao menos a atitude corajosa de apresentarem-se frente a nós e à opinião pública, clara e convictamente.
Lutaremos. A nossa atitude de cidadãos cônscios dos deveres terá de ser respeitada. Não poderemos ficar calados. Iremos às instâncias judiciais, a denunciar essa intempestiva mudança de propósitos. As incongruências são muitas. O Poder hoje não deveria jamais pensar na volta da força como instrumento mais fácil. Voltaríamos à barbárie ditatorial? Espero que não.

Saúde “Sub Judice”

 J.E.M. na largada da Maratona 2008. Corrida dos 5 km.

Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
mora um Pai Amado.

Friedrich von Schiller (Ode à Alegria – An die Freude)

Lembrar 2004 é recordar extremos. A morte de meu querido genro José Rinaldo, um linfoma que instalou-se em meu interior, químios prolongadas e debilitantes, mas também o lançamento de quatro CDs, recitais nos lugares que amo na Europa e a família, esta proteção extraordinária que nos dá forças inacreditáveis. Se, por um lado, o vaticínio médico inicial foi plúmbeo, com prazo de sobrevivência limitado, sob aspecto outro jamais me alarmei, a entender, àquela altura que vivera bem, conseguira objetivos que na juventude pareciam-me nebulosos e constituíra uma bela descendência ao lado de minha mulher Regina. Em nenhum instante pensei em batalha perdida, mas sim na luta cotidiana a visar suplantar o mal instaurado.
Segui criteriosamente todos os conselhos de médicos competentes aos quais devo permanente gratidão. Rui Yamanishi, meu clínico geral desde 1978, Sílvio Donatangelo, Belmiro José Matos e Ana Rita Burgos, hematóloga e oncologista que me recebe todos os meses em consultas longas e minuciosas, a interpretar com competência os exames obrigatórios.
Durante os primeiros meses recebi o mesmo conselho de todos os dedicados profissionais: evite aborrecimentos, alimente-se bem, curta sua Música e prepare-se fisicamente através de exercícios sistemáticos. Tenho sido um discípulo aplicado, pois abandonei, a partir de meados de 2004, todas as Comissões da Universidade de São Paulo, pois tantas eram as reuniões que se mostravam estéreis, dedicando-me doravante à sala de aula, à edição da Revista Música e à revisão de manuscritos de Henrique Oswald. Liguei-me ainda mais aos recitais e gravações no Exterior. Baixou a adrenalina, senti-me bem e passei a praticar outros exercícios, ter mais tempo para a Música e para as leituras, cuidando também da alimentação mais selecionada. Como sempre, família e amigos leais enriqueceram o período pós-químio. A conselho de meu saudoso pai, desde os anos 60 realizo pela manhã, durante 15 minutos, os movimentos da chamada ginástica sueca.
A partir de Janeiro de 2006 corro – o melhor seria dizer troto – pelas ruas de minha cidade-bairro, o Brooklin. Três vezes por semana cinco quilômetros são percorridos com alegria e disposição. A vontade de superar o mal não é consciente, mas faz parte de um todo que aponta para a esperança. Esse lento correr tornou-se um hábito salutar. Aumentou minha disposição e prazerosamente passo por pontos que me são familiares, mas a obedecer roteiros diferentes. Aos domingos chego a percorrer seis quilômetros, devido ao silêncio das ruas. À medida que o condicionamento físico se aprimora, mais o prazer de correr, de estar vivo é real. Os entendidos falam nas endorfinas. Diria, contudo, uma concessão Superior sentir o prolongamento da existência. Nessas trajetórias vêm-me à mente muitas das idéias de posts futuros. Cruzo com muitos cidadãos que fazem o mesmo, corridas ou caminhadas. Tornamo-nos hábeis em reconhecer as calçadas em péssimo estado – quando existem – e as ruas plenas de irregularidades. Quase nada a fazer, pois o descaso faz parte da cultura de todas as nossas administrações. A situação ajuda-nos, porém, a ter aguçado um outro sentido, aquele voltado à “acrobacia”.
Passadas e respiração mesuradas desenvolvem a rara qualidade da paciência. Na minha faixa etária, o correr obedece a pulsações que não devem suplantar determinado índice, mesmo que o físico clame por uma maior velocidade. Aprende-se a ter cautela, a esperar o tempo, a controlar o limite das batidas cardíacas. Uma lição para a mente e para o físico.
Soube da Maratona de São Paulo, impossível, no meu caso, de ser percorrida em seu trajeto integral. Generosamente, a organização Yescom cuidou de dois outros percursos, que saem basicamente do mesmo ponto, com cinco e dez quilômetros. Alegra a todos os que se amoldam a essas distâncias. Com inicial temor, e logo após movido por pleno entusiasmo, inscrevi-me no percurso menor. Ao pagar em um banco a taxa de inscrição, senti-me como um jovem, não acreditando que isso fosse realmente possível após vicissitudes de anos anteriores. O Barão Pierre de Coubertin (1863-1937), fundador do Comitê Olímpico Internacional, dizia que o importante não era ganhar, mas competir. Acrescentaria que competir pressupõe, talvez, a vontade silenciosa de ganhar, mas no meu caso se traduz na simplicidade de apenas participar. Já é uma dádiva poder correr com milhares de participantes, a esmagadora maioria somente pelo prazer. Festa para todos, alegria indizível para poucos.
Ao buscar o meu kit, uma sensação inusitada. Deparei-me com uma legião com o mesmo propósito. A terceira idade tem suas compensações e logo fui atendido. Recebido o material, dele a constar camiseta, chip para tênis, folhetim com as instruções e mais o número a ser fixado no peito, fiquei deveras receoso por ter decidido voluntariamente participar, num misto de alegria e ansiedade. Fui contemplado com o número 20.544.
Confesso que dormi bem na noite que antecedeu a corrida e acordei pleno de euforia. Tinha a impressão de um primeiro recital de piano. Outra era a vestimenta daquela das apresentações pianísticas. Com orgulho coloquei o uniforme do Vitória de Guimarães – terceiro no campeonato português de 2008 – que me foi oferecido este ano em Lisboa pelo dileto amigo José Maria Pedrosa Cardoso, mas o chapéu era de minha Portuguesa de Desportos, lusa de tantas glórias e tradições igualmente. Uma multidão aglomerava-se, pois foram 12.000 participantes para as quatro modalidades: Maratona, 10 e 5 mil metros e também caminhada dessa última distância. A largada foi inesquecível. Os mais jovens e os melhores atropelaram e passaram-me com extrema facilidade na primeira subida da nova e belíssima Ponte Estaiada. Segui o conselho de meu bom amigo Jorge, presente ao evento como assistente. Asseverou-me que nos primeiros minutos deveria correr com os cotovelos apontados para fora, a fim de evitar ultrapassagens perigosas daqueles mais rápidos ou vigorosos. Na marginal de Pinheiros consegui acompanhar as passadas da maioria e já na outra subida, na Ponte do Morumbi, muitos foram ficando para trás. Novamente na marginal, sentido contrário, em direção à Avenida Águas Espraiadas, houve equilíbrio, mas na alça da Ponte Estaiada uma longa subida fez com que dezenas continuassem apenas a andar. Nesse trecho consegui ultrapassar, sem mudar meu ritmo de corrida, muitos outros inscritos. Já na Águas Espraiadas, mais uns 1.500 metros separavam-nos do término dos 5 mil metros. Cheguei no pelotão intermediário, absolutamente feliz com o meu tempo de 40’43”; diria, vivendo a alegria da maturidade da idade adulta. Com muito orgulho, fui o primeiro colocado na minha faixa etária, que incluía outros dois corredores. Todos entregaram os chips amarrados aos cadarços dos tênis e receberam as medalhas de participação, água, chocolates e frutas. Uma festa. Minha netinha Emanuela, de quatro anos, ao ver-me com a medalha pendurada no peito, abraçou-me com o sorriso puro da idade: “Vovô, eu sabia que você ia ganhar”. Sim, ela tinha razão. Ganhamos todos os participantes.

Ter recebido essa medalha foi para mim algo especial, emoção superior àquelas conseguidas nos difíceis concursos pianísticos no Brasil e no Exterior durante a juventude. As musicais apontavam para a trajetória sonora, minha companhia existencial e amorosa, a da corrida indicava o maravilhamento que é a vida. Quão bem o grande Beethovem soube entender no final da Nona Sinfonia a Ode à Alegria de Schiller (1759-1805). Humildemente entendo como dádiva o estar a participar intensamente de emoções tão fortes. Que o entusiasmo permaneça, a indicar outras aspirações.
Não posso contudo deixar de voltar à realidade. Nas próximas semanas novas tomografias computadorizadas, novos exames de sangue. Lá estará Dra. Ana Rita a interpretar os insondáveis mistérios de nossas transformações. Mas as esperanças continuam em alta. Bem haja!

São Paulo City Marathon:
In 2004, after a diagnosis of lymphoma, sessions of chemotherapy and somewhat gloomy prognosis from the doctors, I was advised to avoid stress, sedentary life, junk food and to take exercises. So, in addition to my usual daily Swedish gymnastics, I began to jog in the streets of my neighborhood, running 6 km three times a week. I heard of the annual São Paulo Marathon, held last June 1st. The race organizers also sponsored a 5km-10km fun run and a 5 km walk in conjunction with the main event for those who, not qualified for the marathon, wanted to participate for the accomplishment of having run the race at all. I registered for the 5 km fun run. This post is an account of the emotions of my first run: the start with a mixture of amateur and professional runners, the course through the city and the climbing of the new bridge (Ponte Estaiada) – for me the most difficult point of the run, where lesser trained runners were forced to walk – people lining the sides of the course to cheer the participants, the arrival at the finish line, the medal. Not bad for a cancer patient like me, a way to prove to those in the same conditions that it is possible to overcome our deficiencies and have the same life experiences others are so lucky to have.

Yasmina Reza (1959- )

Nicette Bruno e Paulo Goulart em 'O Homem Inesperado' de Yasmina Reza. Foto Beti Niemeyer.

Voilà la méchanceté du temps. Ce qu’est le temps.
Le temps: le seul sujet.

Yasmina Reza (Hammerklavier)

Há muito tempo não ia ao teatro. Minha filha Maria Beatriz assistira à peça O Homem Inesperado, de Yasmina Reza, encantando-se com o texto e também com a atuação de Nicette Bruno e Paulo Goulart. Ofereceu-nos os ingressos, como presente aos pais pela passagem dos 45 de casamento, a dizer-nos que ficaríamos fascinados igualmente. Confesso ter relutado inicialmente, por evitar sair à noite em São Paulo, mas fui com Regina ao Teatro Renaissance.
Conhecia a importância de Yasmina Reza, nascida em Paris, filha de uma violinista húngara e de um engenheiro e músico amador russo-iraniano de origem judaica. É autora de récits relevantes e peças de teatro. Algumas são montadas com freqüência nos países em que o teatro é tradição enraizada. Lera Hammerklavier (Paris, Albin Michel, 1997, 120 págs.), “Art” e L’Homme du Hasard ora em questão (Théatre: L’Homme du hasard, Conversations après un enterrement, La Traversée de l’hiver, “Art”. Paris, Albin Michel, 1998, 251 págs.). Confesso preferir ler textos teatrais a assisti-los ao vivo. Talvez essa prática tenha origem nos retornos que realizo quando de frases entendidas essenciais e nas encenações criadas em meu imaginário.
Quando da visita a Hammerklavier, a curiosidade maior veio do título homônimo da Sonata para piano op. 106 de Beethoven, obra monumental. A ascendência musical de Yasmina Reza poderia parecer pouco importante, não fosse a ligação afetiva que manteve com seus progenitores, a receber toda uma herança sonora que perpassa por seus textos, não na superficialidade facilmente detectável, mas num conhecimento de escutas atávicas. Hammerklavier é um conjunto de curtas narrativas basicamente autobiográficas, constância da autora, a revisitar desde o passado longínquo, enriquecido por lembranças afetivas nas quais seu pai sobressai. Escrito dois anos após L’Homme du Hasard, não deixa a autora de colocar os problemas do cotidiano, existenciais em sua essência, de maneira a revelar, sem barreiras, o seu pensar do instante, pois nada parece ficar nebuloso, antes mostra-se despojado, sem censura. Nessa narrativa, parte de um repertório da música sacralizada, motivo de recordações, é projetado nas intenções de Yasmina Reza. Beethoven, Schubert, Haëndel, Mozart, Stockhausen são ouvidos em concerto e a lembrança de seu pai emerge. A referência a Hammerklavier faz-se necessária para o melhor entendimento de O Homem Inesperado, pelas reiteradas menções à música e a compositores e pelas reflexões sobre a existência.
Quanto a L’Homme du Hasard, O Homem Inesperado na tradução de Flávio Marinho para o Português, tem-se um texto de humor aparente. Contudo, é bem mais perspicaz. Poder-se-ia entender como um acúmulo de situações humanas não resolvidas, mas a atingir com o desenrolar da peça o final feliz. Um primeiro impacto já é salutar. Sabe-se que a concentração estará voltada ao texto e à interpretação de dois atores. É uma salvaguarda para a não dispersão das idéias, a depender da qualidade dos intérpretes. O tema aparentemente é banal: Paul Brodsky e Marta, ele um escritor famoso, ela uma mulher de classe média com aspirações absolutamente rotineiras, leitora anônima das obras do autor à sua frente, não se conhecem e estão sentados em poltronas vizinhas num comboio que os levará de Paris a Frankfurt. Durante o decorrer da peça, até quase o seu fim, tem-se solilóquios alternando preocupações do homem de nossos dias, solidão, carência afetiva, hesitação, neurastenias, não aceitação da velhice, frustrações existenciais, mas a contrapor momentos de fina dose de humor. O Homem Inesperado revela a morna angústia do homem urbano, sua indiferença diante dos outros, seu egocentrismo de contágio.
A evidenciar a familiaridade com a música, Yasmina Reza menciona compositores e seus atributos na fala de Paul Brodsky: Debussy em duas peças sacralizadas que ele dedilha, a impossibilidade de poder tocar L’isle Joyeuse ou obras de Scriabine, ou ainda Scarbo, de Ravel, sua dificuldade no uso dos pedais, sentindo-se bem em não usá-los em um Impromptu de Schubert. Menciona Cenas da Floresta, de Schumann, também uma melhora de sua mão esquerda graças a Bach e o melhor desempenho de seu amigo Youry Kogloff ao tocar. Pensa: “Fácil ouvir os outros, ouvir-se a si mesmo, eis a dificuldade”. Nesse monólogo interior, a comparação com Youry é musical; no início da peça, refere-se a uma relação amorosa do amigo com uma japonesa. Desvantagens a ferirem Paul Brodsky.
Todo texto teatral depende fundamentalmente de fatores que interferem na apreensão de conteúdos. Mais focalizado o aspecto extratexto, menor a captação de mensagens. A globalização fomentou egos exagerados, que privilegiam encenações de impacto, deixando o essencial em segundo plano. Meritórias pois a direção de Emílio de Mello e a cenografia e concepção de imagens de Marcos Flaksman para a edificação de O Homem Inesperado. Chegou-se ao multum in minimo, a proporcionar a plena valorização do texto de Yasmina Reza.
Admiro há décadas o talento e a vocação para o teatro de Nicette Bruno e Paulo Goulart. Conservando a essência do DNA cênico, apesar de atuarem freqüentemente em novelas televisivas, não se deixaram contaminar, quando na ação teatral ao vivo, pelos vícios daquele meio, amálgama de joio e trigo, onde o talento de alguns grandes atores e a mediocridade plena de outros convivem num universo repetitivo. Versáteis, íntegros e competentes, Nicette Bruno e Paulo Goulart estiveram extraordinários em suas representações. Domínio da cena, dicções perfeitas a nada se perder, carisma insofismável do casal ficam evidentes. O texto inicial de Paulo Goulart e o brilhante final de Nicette Bruno testemunham maestria absoluta. É um privilégio poder assisti-los em peça teatral que poderia tornar-se verdadeira armadilha, não fossem suas qualidades maiúsculas. Comovente performance.

Ouça por J.E.M.:
- A. Scriabine – Estudo op.8 no.12 (Pathétique)
- R. Schumann – Humoresque op.20 – Einfach
- Claude Debussy – Pour les tierces

I am not a theatergoer – for me plays work better on the page than on the stage. But I was given tickets for Yasmina Reza’s “The Unexpected Man”, as a wedding anniversary gift from my daughter. So I went to see the play with my wife – reluctantly, I must confess. I was already familiar with the works of the French playwright and novelist Yasmina Reza, having read two of her books: the play “Art” and “Hammerklavier”, a collection of autobiographical sketches showing the affectionate relationship with her father and their love of music. The title refers to one of the most challenging of Beethoven’s piano sonatas. As to “The Unexpected Man”, my initial reluctance turned into bliss. The plot is simple: an understated woman (Martha) sits opposite a famous writer (Paul Brodsky) that she admires while traveling on a train. As they observe each other silently, the audience listens to their thoughts in a series of alternating interior monologues about man’s solitude, doubts, emotional disorders, frustrations, the barriers one erects against each other, all tempered with a subtle sense of humour. Only at the very end the couple will exchange a few words. Reza’s familiarity with music is stated in Paul Brodsky’s mentioning of a series of pieces by great classical composers. The work of the production crew is praiseworthy, but what makes the play outstanding is the superb performance of two great actors – Paulo Goulart and Nicette Bruno – displaying talents shaped during lives on the stage. It was a privilege to watch actors of this caliber in a play that in less competent hands could turn into a trap. Their standard of acting is sheer delight.