Navegando Posts em Cotidiano

Sporophila Caerulescens

Coleirinha. Aves no Campus, IB/USP,1993.

Il est probable que dans la hiérarchie artistique,
les oiseaux sont les plus grands musiciens
qui existent sur notre planète.
L’oiseau est d’ailleurs un être merveilleux à tous points de vue:
le vol est une merveille encore inexplorée,
la migration est une autre merveille qui a fait couler des flots d’encre…
Mais la plus grande de toutes les merveilles,
la plus précieuse pour un compositeur de musique,
c’est évidemment le chant des oiseaux.

Olivier Messiaen

Foi em 1976, quando de minhas incursões no Vale do Paraíba, a fim de conhecer nossa Arte Sacra Popular e os santeiros que por lá criaram imagens a reverenciar santos da Igreja Católica (vide Eduardo Etzel I e II, categoria Personalidades), que conheci Lazinho Lima, camponês que morava às margens da D.Pedro, rodovia àquela altura ainda inconclusa. Conhecia ele os moradores de toda a região que cultuavam imagens de madeira ou terracota feitas por artesãos do passado e raros do presente. Mais tarde, Lazinho Lima instalar-se-ia em Nazaré Paulista com sua velha tia. Mantinha algumas toscas gaiolas com pássaros silvestres, como coleirinha, canário da terra, bigodinho, coleira do brejo, pássaro preto e outros. Exatamente como parte considerável de nossos caboclos, caipiras ou simplesmente homens do campo. Sempre aos sábados visitava-o, e de sua casa simples partíamos, juntamente com meu saudoso amigo Carlindo, para incursões pela mata adentro.
Em uma gaiola, um coleirinha, sempre que eu por ele passava, cantava as suas notas características. Sensível, Lazinho certo dia deu-me a gaiola, a dizer que a avezinha já lá estava há um ano a dar sinais de que queria ficar comigo. Comentou que, se fosse solta, morreria, pois desaprendera a vida selvagem. O coleirinha ou papa-capim é um passarinho de aproximadamente 12 cm de comprimento, assim chamado devido à coleira preta em volta do peito de cor branca, como o restante de toda a parte frontal. Tem a cabeça e toda a parte dorsal, incluindo as asas, de coloração plúmbea. Vive nos campos onde há gramíneas, alimentando-se de sementes pequenas.
Tinha eu já alguns canários belgas que alegravam o dia desde o amanhecer, e a eles veio somar-se o coleirinha. Impressionava sua cantoria. Durante a noite, mesmo na escuridão, emitia lá os seus sons curtos e agudos, mas agradáveis, ao contrário dos “aparelhados” canários, soberanos em seus longos gorjeios. Quando pela alta madrugada, após as aulas e o estudo diário de piano, ficava a ler e escrever teses ou artigos acadêmicos, acompanhava-me seu breve e intercalado canto.
Passaram-se as décadas. Por vezes, inadvertidamente, os arames da gaiola ficavam separados demais, o que permitiria o vôo do papa-capim para o exterior. Um dia, saiu da gaiola por uma dessas aberturas. Procurei-o e tive a certeza que encontrara outros caminhos. Ajustei os arames e limpei a gaiola, ora vazia. À noite, quando estava a examinar aquelas dos canários, qual não foi a surpresa ao vê-lo em cima de sua gaiola. Lentamente prendi um pregador de varal à portinhola, deixando-a entreaberta. Ao me afastar, imediatamente o coleirinha entrou. Fiquei realmente feliz. Preenchi a pequena e longa gaveta com alpiste e painço, coloquei água e já naquela noite ele voltou a cantar.
Quando da muda, que se dá uma vez ao ano, ficava o papa-capim silencioso. É natural entre os pássaros, pois nesse período ficam fragilizados, a necessitar de gotas de vitamina adicionadas aos pequenos bebedouros. Curiosamente, sua troca de penas era rápida, ao contrário dos canários belgas, e um mês após voltava a emitir um breve motivo musical.
De tempos em tempos, com todo o cuidado, como habitualmente fazia com os canários, retirava-o da gaiola para cortar suas unhas, que ao crescer dificultavam a sustentação do bichinho no puleiro. Nada mais. Cantava, cantava, e parecia alegre para todos que por ele passavam. Membro da família, poderia assim dizer.
Há dias, verifiquei que estava na muda, mas peninhas novas já afloravam. Tinha uma das pernas suspensas devido às unhas bem longas. Levei cuidadosamente a gaiola a um quarto com pouca luz e retirei-o, a fim de aparar as minúsculas úngulas que o impediam de agarrar-se ao puleiro. Cheguei a cortar quatro delas, e o coleirinha não se preocupou. Pelo fato de ser bem pequeno, segurá-lo requer uma atenção especial, para que não haja a menor pressão sobre seu delicado corpo. Em determinado momento, senti que, placidamente, encostou sua cabecinha em meu segundo dedo da mão esquerda e parecia ter adormecido. Não havendo qualquer reação, verifiquei que ele dera adeus a uma longa existência, que pelos meus cálculos chegara a 33 anos. Certamente teve um colapso cardíaco, devido à idade. Desolado, saí do quarto e minha mulher imediatamente sentiu meu desalento.
Há mistérios em nossos relacionamentos afetivos, com as pessoas ou com os animais. Aquele dia apresentava algo triste, mas de esperança. Quanta alegria os seus sons nos proporcionaram. Por que não quis fugir, quando tudo era propício? Qual a razão de ter escolhido aquele instante para partir? Com carinho, Regina tomou-o em suas mãos e enterrou o companheiro de tantas décadas em nosso pequeno jardim, ao lado de uma roseira. Estará em paz.

Codorniz, fac-símile do The Metropolitan Museum of Art de Nova York.

A presença dos pássaros sempre exerceu forte fascínio em todos os tempos. No dia em que o coleirinha se foi para outra jornada, horas antes colocara em meu quarto a reprodução em gesso-pedra de uma codorniz ou codorna, datada do período ptolomaico (332-230 A.C.) no Egito. Minha cunhada Maria Elizabeth adquirira o fac-símile no The Metropolitan Museum of Art de Nova York. Servia a escultura – em pedra no original – como modelo para os estudantes, daí saliências nos cantos superior esquerdo e inferior direito, respectivamente. Essas serviam como regra para a altura do objeto a ser modelado, após terem sido estabelecidos os contornos. Curiosa coincidência. Sob aspecto outro, minha filha Maria Fernanda fixara, semanas antes do ocorrido, em pleno esplendor de vôo e luz, uma bela gaivota a sobrevoar o Douro, bem perto da Ribeira, no Porto. Pássaros diferentes, histórias diversas. Canto e magia a encantarem o homem desde as origens.

Gaivota sob o céu do Douro. Foto de Maria Fernanda.

On how the death of a caged double-collared seedeater that lived in my house for more than 30 years arose reflections on the fascinating relationship between birds and humans.

Revisitar Emoções

J.E.M. em desenho de Maria Fernanda Martins Rosella, Março de 2008.

Retornar à Bélgica e ao Portugal de meu sangue é sempre prazeroso, pois revisito sensações musicais e olhares amigos. A ansiedade só existe quando o local é desconhecido. Este, ao tornar-se familiar, apenas caracterizará expectativa de novos encontros.
O ato voluntário de hoje preferenciar pouquíssimas apresentações públicas, que ocorrem basicamente no Exterior, seria conseqüência de longa reflexão a respeito da música e de sua importância em minha vida. Se o estudo pianístico permanece um norte, gravação e repertório são decorrências e continuam a povoar meu universo sonoro. Sob aspecto outro, há determinadas fases da existência em que bifurcações na senda trilhada fazem-nos escolher um caminho a apresentar paisagens que imaginávamos existir, mas diversas de outras tantas, fosse diferente a estrada. Esta pode ser plena de gente, iluminada, mediática, provavelmente a expor pouca margem à introspecção. Aquela, voluntariamente serena, a evidenciar o que sabemos amar, fulcro da paz interior acalentada e perene meta a ser atingida. Cada CD gravado na planície flamenga, na milenar Capela de Sint-Hilarius, em Mullem, é um ato de afeto. Toda a longa preparação tem datas e horários previstos com um ano a anteceder o encontro. Atravessar o oceano para esse amálgama, que só entendo se absoluto, leva-me à felicidade de antever momentos únicos, quando busco os meus limites na interação com as reverberações que Sint-Hilarius me proporciona.
Haverá os recitais em Gent, um integrando a temporada da Rode Pomp, o outro para crianças. Após, curso em Lisboa e recitais em Évora, Coimbra e Braga. Estarei atento e a escrever posts para o blog. Em São Paulo, Magnus e Regina Maria cuidarão das inserções com competência e dedicação. Minha filha Maria Fernanda deverá encontrar-se com o pai em Lisboa, e idéias não faltarão para seus desenhos.
As viagens do ano passado resultaram em textos. Eles continuarão a surgir, pois o olhar estará a observar as transformações dos lugares, das pessoas e as nossas também. Cada ano acumulamos sensações que provocam o sentir diferentemente. O certo, contudo, é reencontrar intensidades emotivas permanentes, pois as mudanças, quando fidelidade na amizade existe, não atingem essencialidades.

J.E.M. em desenho da neta Emanuela, 4 anos.

Possivelmente escreverei posts mais curtos, devido à imprevisibilidade do tempo disponível. Serão constantes, porém. Quebrada a rotina, está-se a mercê do imponderável. Novamente, buscarei acentuar mais o que me causa emoção àquilo que, mesmo a provocar impacto, pode ter tido germinação fugaz. Que sejamos cúmplices nessa nova peregrinação sonora e visual.

Emotions Revisited:
Once more a fly to Belgium and Portugal for recitals and to record a new CD. My posts will not be interrupted, but will be shorter and more frequent. Let us be partners in this new experience.

O Reaparecimento
Pedro. Desenho a lápis - Maria Fernanda Martins Rosella

Si j’étais Dieu, j’aurais pitié du coeur des hommes…
Maurice Maeterlinck
(Pelléas et Mélisande)

Conheci Pedro no início da década de 70. Chamou-me a atenção aquele rapaz de traços finos, barba e cabelos desalinhados, vestes surradas, que permanecia sempre na mesma confluência de vias importantes de minha cidade-bairro, Brooklin. Ficava sentado, olhar distante, sem nada pedir. Havia, contudo, qualquer semelhança com aqueles personagens saídos da pena de Dostoievsky. Se algo lhe era oferecido, agradecia e voltava a sentar de maneira curiosa, como se estivesse numa concha. Um dia perguntei seu nome e comecei a estabelecer um breve diálogo com ele. Como nada pedia, levava-lhe periodicamente algum mantimento ou vestuário. Simplesmente agradecia.
O Brooklin ainda não tinha sido invadido pela quantidade desmesurada de edifícios em processo predatório do espaço, a causar, no futuro, problemas irrecuperáveis, pois a insaciabilidade imobiliária está a planejar sempre prédios mais altos. Da Rua Jesuíno Maciel com a Av. Santo Amaro avistavam-se as colinas do Morumbi. Dessa confluência, indaguei a Pedro o que ele buscava. Sua resposta deixou-me perplexo. Disse-me que estava a procura da cadência e que sem ela perde-se o sentido das coisas. Quis saber mais e ele, em poucas palavras, comentou que a cadência estava bem longe, a apontar as colinas visíveis do Morumbi. Ao questionar sobre sua vida, permaneceu silencioso.
Certa vez dei-lhe um par de sapatos. Ficou feliz, mas em noite chuvosa pisou em uma madeira com prego, que destruiu a sola e perpassou-lhe o pé, levando-o a algum pronto-socorro. Durante muito tempo andou a mancar, primeiramente com faixas que ficaram escurecidas em pouco tempo. Dificilmente conseguia extrair de Pedro uma frase. Naquele tempo, escrevi um texto sobre o personagem intrigante, em caderno de anotações do cotidiano. O tempo passou e continuei a encontrar o andarilho, que jamais me contou onde se abrigava à noite. Naquele morador de rua havia alguma história diferenciada que se mantinha secreta. Não insistia, mas levava ao Pedro coisas básicas de que precisava. Parado, naquela posição quase fetal, via-o apenas no cruzamento. Deste, como epicentro, Pedro caminhava com rapidez em um diâmetro de cerca de três a quatro quilômetros, sempre a olhar para a frente e sem nada solicitar aos transeuntes. É provável que àquela época mantivesse a esperança de um dia encontrar a cadência.
Comentei em casa o desaparecimento de Pedro. Já fazia parte da minha rotina do olhar e das muitas indagações que elucubrava a seu respeito. Muitos anos após, reagrupando papéis espalhados, encontrei o texto que escrevera sobre ele em 1979, hoje perdido para sempre ao ter organizado outros escritos. Fiquei a pensar em Pedro. Certamente já teria morrido, pois a existência de um morador de rua está sujeita às mais difíceis agruras: alimentação, doenças, inverno, chuvas, violência. Quando passo pela esquina, outros moradores lá estão, na mendicância absoluta, ou outros personagens, como vendedores e acrobatas do infortúnio, alguns com raras habilidades. Pedro faz falta, pois representava a angústia interior a nada mais reivindicar da sociedade.
Há um mês tive uma sensação muito forte. Encontrei Pedro em um sábado, próximo à feira que freqüento, no Campo Belo. Não acreditei ser possível ter ele passado mais de três décadas e sobrevivido a tudo. Parei meu carro no meio-fio e chameio-o pelo nome. Naquela mesma posição fetal, ergueu a cabeça e olhou-me, sem nada dizer. O tempo é ainda mais implacável para os infortunados. Perdera um olho, o rosto marcado pelo total abandono, cabelos e barba desgrenhados, mas havia naquele homem uma dignidade na atitude. Levantou-se. Lentamente lembrei-lhe o passado, os nossos mínimos diálogos, o par de sapatos, as agruras. Algo veio-lhe à memória, pois me olhou fixamente. Falei-lhe da cadência e a recordação vinda das profundezas insondáveis afluiu. Sim, a cadência. Ainda a buscava. Nessa angústia, entendi vagamente que a cadência era seu pai, após cuja morte, confessou-me, saíra pelo mundo sem qualquer rumo, a buscar a cadência hipotética. Ainda não a encontrara, contudo ela existe, afirmou-me. A postura fetal, o caminhar sempre e a busca da cadência faziam sentido.
Tenho-me encontrado aos sábados com Pedro. O ciclo continua. Alquebrado pelo esquecimento de todos, ele um dia deverá encontrar a cadência que tanto almeja.
Escrevera anteriormente sobre Sisuphos (vide Sisuphos, 22 de Março de 2007, categoria Cotidiano). A sua saga persiste. Vejo-o passar diariamente pela rua. Pedro e Sisuphos são naturezas diferentes. Sisuphos, bem mais velho, leva seu carrinho de mão contendo os mesmos objetos de sempre. É mais irascível, pois quando descontente esbraveja e grita. Houve momentos em que, ao encontrá-lo nesse estado, tentei acalmá-lo. Conto sempre com seu sorriso apagado que vem do cerne da história, pois atemporal. Pedro e Sisuphos, moradores da intempérie, sobrevivem, a apontar o dilema absoluto das sociedades. Sem contar a incúria governamental que, preocupada com o assistencialismo que gera votos, coloca no mesmo patamar do esquecimento voluntário obras de saneamento do subsolo e infortunados moradores de rua. Estes, arautos do desespero, impossíveis eleitores. Incapazes de se defender, respiram o verdadeiro ar rarefeito da intolerância humana. Não morrem, porém. Suas chagas interiores, sem despertar a menor caridade, expõem nossas próprias chagas,uma delas a indiferença.

Pedro is a street dweller who since the seventies used to wander up and down the streets in my neighborhood. Silent and lonely, he never asked for anything. I used to give him food and clothes and on one occasion he told me vaguely he was searching for what he called “the cadence”. He then vanished and for the last ten years I thought him dead, given the difficult conditions affecting the homeless. Sometime ago he reappeared unexpectedly, looking old and worn out. I reminded him of our past encounters and for the first time he stammered something regarding the death of his father. Still searching for the cadence, which I understood as the balance he lost after his father died, leaving him alone and adrift, without means of survival. Just one more victim of our callous unconcern for anyone but ourselves and of the government’s lack of interest in addressing the systemic problems that prevent multitudes from living decent lives. After all, Pedro is not a voter.