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Reflexões sobre a Essência

Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)

Mais l’amour de la danse
n’est point amour de toi qui danses.

Antoine de Saint-Exupéry

Já abordei o fascínio inicial que me conduziu à leitura de Citadelle, de Antoine de Saint-Exupéry, e o fato marcante que me levou a eleger naturalmente o livro como preferencial após o acúmulo de tantas outras leituras no peristilo dos setenta anos (vide Antoine de Saint-Exupéry, categoria Literatura, 09/11/07). A complexidade da obra, a atentar para todas as possibilidades do homem, destino, almejos, condições, aspectos envolvidos in conditio sine qua non sob o manto da responsabilidade, merece apreciações. Tenho-a sempre em meu quarto, ao lado do livro percorrido no momento. Sendo uma enciclopédia da essência humana em suas manifestações mais amplas, livro eleito pois, visito excertos com constância. Trazem-me a paz interior necessária para outro percurso, a obrigatoriedade do sono. Ao longo, como já observara, transcreverei trechos, transmitindo ao leitor conceitos fundamentais desse extraordinário pensador que foi Saint-Exupéry.
Estava a trotar pelas ruas de minha cidade-bairro, como faço três vezes por semana, quando o olhar encontrou algo que me ligou a olhares anteriores de Citadelle e a analogia se fez. Um pedinte, aparentando a minha idade, tocava um pequeno tambor e angariava alguns trocados. Passei por ele no meu lento correr, deixei umas moedas e continuei. Veio-me imediatamente uma passagem de Citadelle inserida no capítulo CIV. Saint-Exupéry escreve: O selvagem acredita que o som é somente emitido pelo seu tambor. E ele adora o tambor. Um outro acredita que o som está nas baquetas e ele adora as baquetas. Um último acredita que o som é devido à pujança de seu braço e o verá orgulhoso com o braço erguido. Você reconhece, sim, você, que o som não está nem no tambor, nem nas baquetas nem nos braços, e denominará verdade o toque de tambor (leia-se interpretação) do tamborileiro.
Tantas décadas acumuladas e mais me dou conta de que caminhamos para a “glorificação” do estereótipo, de tudo aquilo que possa causar impacto. Mídia, holofotes potentes, a necessidade absoluta do emergir sem atender à ética. O homem tem que ser visto, bajulado, incensado, e os valores intrínsecos ficam à deriva. Compactuando com setores privados, o meio político distorcido, a acalentar a corrupção endêmica, antítese de captações morais e éticas. Perdemos o norte pela instauração da mentira como prática e norma. Tambor, baquetas e braços fortes continuam em escala geométrica a prevalecer sobre o verdadeiro toque do tambor, a essência essencial a motivar a transmissão. O pensamento metafórico de Saint-Exupéry serve para todas as áreas.
Na Música, por exemplo, quando o enfoque é menos voltado à real qualidade da interpretação e mais à promoção. Esses traços mais e mais se tornam dominantes a mostrar que dificilmente haverá retorno.
Tambor, baquetas e braços, nessa alegoria, sintetizariam o próprio Sistema, não interessado nos aprofundamentos que possam levar à elevação cultural de um povo, mas ao que é aparente, que brilha, que anestesia. Os governos em nosso país, sejam eles quais forem, voltam-se impreterivelmente à manutenção de um status quo para populações que não reivindicam com firmeza, por absoluta letargia, os atributos ou direitos a formarem a noção de cidadania sob todas as égides. Jornais e revistas estão sempre a buscar anunciantes que deságuam publicidade voltada à coletividade, entendida esta como desprovida de quaisquer julgamentos críticos. As propagandas estarão a compor o todo, povoado por tantos artigos visando ao sensacionalismo ou ao vazio das idéias; os canais abertos, salvo raríssimas exceções, exibem programas endereçados preferencialmente àqueles incapazes de apreciação mais ajuizada. A grade televisiva volta-se ao dirigismo do não pensar. Exterminaram-se princípios voltados à cultura como meio de elevação de um povo. Como exemplo, os grandes shows de “música” popular reúnem milhares de pessoas, que movimentam seus braços atendendo aos apelos previamente ensaiados no culto a ídolos descartáveis. Lembram as multidões “eufóricas” em seus gestos nos tempos de Hitler. Em ambos os casos, a presença da distorção. E as televisões insistem em pormenorizar gestuais. O gesto coletivo que inibe a reflexão.
Saint-Exupéry, nesse mesmo capítulo, continua: aquele que lê uma carta de amor sente-se lisonjeado independentemente da tinta e do papel, pois ele não buscava o amor nem no papel nem na tinta. Perde-se o conteúdo, quando esse princípio do essencial desaparece. Mais e mais volta-se o homem à tinta e ao papel. A mensagem contida teria pouca importância.
O piloto, escritor e pensador, personagem de um império imaginário e atemporal que é Cidadela, entende que seu reino não poderia ser jamais entregue ao geômetra que venera o triângulo usado para projetar a construção do templo. Há essencialidades na maneira de comandar um povo, e estas perdem o sentido na medida em que se desviam da compreensão intrínseca das reações humanas. Não estaríamos, mais acentuadamente em nossos dias, afastando-nos da própria natureza do homem? Não teria perdido ele, nessa globalização sem retorno previsível, a percepção da individualidade, integrando-se à massa informe de um rebanho sem nome? Não necessitaria o homem repensar, se ainda há tempo, todos os valores que o norteiam? Perguntas que surgem enquanto continuo minha lenta corrida pelas ruas de minha cidade-bairro, o Brooklin.

As I was jogging in my neighbourhood, I passed by a beggar playing a drum. In a flash a passage of Saint-Exupéry’s book Citadelle (The Wisdom of the Sands) came to my mind. The main character wonders from where the sound of a drum comes. Is it from the drum itself? From the sticks? From the player’s arms? Just to conclude it comes from the drummer’s interpretation.This was the starting point of this post, a consideration on the modern society tendency to promote the false and shallow to the detriment of the genuine and substantial. Shouldn’t we rethink our values, searching for the hidden essence behind the superficial appearance?

Sporophila Caerulescens

Coleirinha. Aves no Campus, IB/USP,1993.

Il est probable que dans la hiérarchie artistique,
les oiseaux sont les plus grands musiciens
qui existent sur notre planète.
L’oiseau est d’ailleurs un être merveilleux à tous points de vue:
le vol est une merveille encore inexplorée,
la migration est une autre merveille qui a fait couler des flots d’encre…
Mais la plus grande de toutes les merveilles,
la plus précieuse pour un compositeur de musique,
c’est évidemment le chant des oiseaux.

Olivier Messiaen

Foi em 1976, quando de minhas incursões no Vale do Paraíba, a fim de conhecer nossa Arte Sacra Popular e os santeiros que por lá criaram imagens a reverenciar santos da Igreja Católica (vide Eduardo Etzel I e II, categoria Personalidades), que conheci Lazinho Lima, camponês que morava às margens da D.Pedro, rodovia àquela altura ainda inconclusa. Conhecia ele os moradores de toda a região que cultuavam imagens de madeira ou terracota feitas por artesãos do passado e raros do presente. Mais tarde, Lazinho Lima instalar-se-ia em Nazaré Paulista com sua velha tia. Mantinha algumas toscas gaiolas com pássaros silvestres, como coleirinha, canário da terra, bigodinho, coleira do brejo, pássaro preto e outros. Exatamente como parte considerável de nossos caboclos, caipiras ou simplesmente homens do campo. Sempre aos sábados visitava-o, e de sua casa simples partíamos, juntamente com meu saudoso amigo Carlindo, para incursões pela mata adentro.
Em uma gaiola, um coleirinha, sempre que eu por ele passava, cantava as suas notas características. Sensível, Lazinho certo dia deu-me a gaiola, a dizer que a avezinha já lá estava há um ano a dar sinais de que queria ficar comigo. Comentou que, se fosse solta, morreria, pois desaprendera a vida selvagem. O coleirinha ou papa-capim é um passarinho de aproximadamente 12 cm de comprimento, assim chamado devido à coleira preta em volta do peito de cor branca, como o restante de toda a parte frontal. Tem a cabeça e toda a parte dorsal, incluindo as asas, de coloração plúmbea. Vive nos campos onde há gramíneas, alimentando-se de sementes pequenas.
Tinha eu já alguns canários belgas que alegravam o dia desde o amanhecer, e a eles veio somar-se o coleirinha. Impressionava sua cantoria. Durante a noite, mesmo na escuridão, emitia lá os seus sons curtos e agudos, mas agradáveis, ao contrário dos “aparelhados” canários, soberanos em seus longos gorjeios. Quando pela alta madrugada, após as aulas e o estudo diário de piano, ficava a ler e escrever teses ou artigos acadêmicos, acompanhava-me seu breve e intercalado canto.
Passaram-se as décadas. Por vezes, inadvertidamente, os arames da gaiola ficavam separados demais, o que permitiria o vôo do papa-capim para o exterior. Um dia, saiu da gaiola por uma dessas aberturas. Procurei-o e tive a certeza que encontrara outros caminhos. Ajustei os arames e limpei a gaiola, ora vazia. À noite, quando estava a examinar aquelas dos canários, qual não foi a surpresa ao vê-lo em cima de sua gaiola. Lentamente prendi um pregador de varal à portinhola, deixando-a entreaberta. Ao me afastar, imediatamente o coleirinha entrou. Fiquei realmente feliz. Preenchi a pequena e longa gaveta com alpiste e painço, coloquei água e já naquela noite ele voltou a cantar.
Quando da muda, que se dá uma vez ao ano, ficava o papa-capim silencioso. É natural entre os pássaros, pois nesse período ficam fragilizados, a necessitar de gotas de vitamina adicionadas aos pequenos bebedouros. Curiosamente, sua troca de penas era rápida, ao contrário dos canários belgas, e um mês após voltava a emitir um breve motivo musical.
De tempos em tempos, com todo o cuidado, como habitualmente fazia com os canários, retirava-o da gaiola para cortar suas unhas, que ao crescer dificultavam a sustentação do bichinho no puleiro. Nada mais. Cantava, cantava, e parecia alegre para todos que por ele passavam. Membro da família, poderia assim dizer.
Há dias, verifiquei que estava na muda, mas peninhas novas já afloravam. Tinha uma das pernas suspensas devido às unhas bem longas. Levei cuidadosamente a gaiola a um quarto com pouca luz e retirei-o, a fim de aparar as minúsculas úngulas que o impediam de agarrar-se ao puleiro. Cheguei a cortar quatro delas, e o coleirinha não se preocupou. Pelo fato de ser bem pequeno, segurá-lo requer uma atenção especial, para que não haja a menor pressão sobre seu delicado corpo. Em determinado momento, senti que, placidamente, encostou sua cabecinha em meu segundo dedo da mão esquerda e parecia ter adormecido. Não havendo qualquer reação, verifiquei que ele dera adeus a uma longa existência, que pelos meus cálculos chegara a 33 anos. Certamente teve um colapso cardíaco, devido à idade. Desolado, saí do quarto e minha mulher imediatamente sentiu meu desalento.
Há mistérios em nossos relacionamentos afetivos, com as pessoas ou com os animais. Aquele dia apresentava algo triste, mas de esperança. Quanta alegria os seus sons nos proporcionaram. Por que não quis fugir, quando tudo era propício? Qual a razão de ter escolhido aquele instante para partir? Com carinho, Regina tomou-o em suas mãos e enterrou o companheiro de tantas décadas em nosso pequeno jardim, ao lado de uma roseira. Estará em paz.

Codorniz, fac-símile do The Metropolitan Museum of Art de Nova York.

A presença dos pássaros sempre exerceu forte fascínio em todos os tempos. No dia em que o coleirinha se foi para outra jornada, horas antes colocara em meu quarto a reprodução em gesso-pedra de uma codorniz ou codorna, datada do período ptolomaico (332-230 A.C.) no Egito. Minha cunhada Maria Elizabeth adquirira o fac-símile no The Metropolitan Museum of Art de Nova York. Servia a escultura – em pedra no original – como modelo para os estudantes, daí saliências nos cantos superior esquerdo e inferior direito, respectivamente. Essas serviam como regra para a altura do objeto a ser modelado, após terem sido estabelecidos os contornos. Curiosa coincidência. Sob aspecto outro, minha filha Maria Fernanda fixara, semanas antes do ocorrido, em pleno esplendor de vôo e luz, uma bela gaivota a sobrevoar o Douro, bem perto da Ribeira, no Porto. Pássaros diferentes, histórias diversas. Canto e magia a encantarem o homem desde as origens.

Gaivota sob o céu do Douro. Foto de Maria Fernanda.

On how the death of a caged double-collared seedeater that lived in my house for more than 30 years arose reflections on the fascinating relationship between birds and humans.

Revisitar Emoções

J.E.M. em desenho de Maria Fernanda Martins Rosella, Março de 2008.

Retornar à Bélgica e ao Portugal de meu sangue é sempre prazeroso, pois revisito sensações musicais e olhares amigos. A ansiedade só existe quando o local é desconhecido. Este, ao tornar-se familiar, apenas caracterizará expectativa de novos encontros.
O ato voluntário de hoje preferenciar pouquíssimas apresentações públicas, que ocorrem basicamente no Exterior, seria conseqüência de longa reflexão a respeito da música e de sua importância em minha vida. Se o estudo pianístico permanece um norte, gravação e repertório são decorrências e continuam a povoar meu universo sonoro. Sob aspecto outro, há determinadas fases da existência em que bifurcações na senda trilhada fazem-nos escolher um caminho a apresentar paisagens que imaginávamos existir, mas diversas de outras tantas, fosse diferente a estrada. Esta pode ser plena de gente, iluminada, mediática, provavelmente a expor pouca margem à introspecção. Aquela, voluntariamente serena, a evidenciar o que sabemos amar, fulcro da paz interior acalentada e perene meta a ser atingida. Cada CD gravado na planície flamenga, na milenar Capela de Sint-Hilarius, em Mullem, é um ato de afeto. Toda a longa preparação tem datas e horários previstos com um ano a anteceder o encontro. Atravessar o oceano para esse amálgama, que só entendo se absoluto, leva-me à felicidade de antever momentos únicos, quando busco os meus limites na interação com as reverberações que Sint-Hilarius me proporciona.
Haverá os recitais em Gent, um integrando a temporada da Rode Pomp, o outro para crianças. Após, curso em Lisboa e recitais em Évora, Coimbra e Braga. Estarei atento e a escrever posts para o blog. Em São Paulo, Magnus e Regina Maria cuidarão das inserções com competência e dedicação. Minha filha Maria Fernanda deverá encontrar-se com o pai em Lisboa, e idéias não faltarão para seus desenhos.
As viagens do ano passado resultaram em textos. Eles continuarão a surgir, pois o olhar estará a observar as transformações dos lugares, das pessoas e as nossas também. Cada ano acumulamos sensações que provocam o sentir diferentemente. O certo, contudo, é reencontrar intensidades emotivas permanentes, pois as mudanças, quando fidelidade na amizade existe, não atingem essencialidades.

J.E.M. em desenho da neta Emanuela, 4 anos.

Possivelmente escreverei posts mais curtos, devido à imprevisibilidade do tempo disponível. Serão constantes, porém. Quebrada a rotina, está-se a mercê do imponderável. Novamente, buscarei acentuar mais o que me causa emoção àquilo que, mesmo a provocar impacto, pode ter tido germinação fugaz. Que sejamos cúmplices nessa nova peregrinação sonora e visual.

Emotions Revisited:
Once more a fly to Belgium and Portugal for recitals and to record a new CD. My posts will not be interrupted, but will be shorter and more frequent. Let us be partners in this new experience.