Revisitar Emoções
Retornar à Bélgica e ao Portugal de meu sangue é sempre prazeroso, pois revisito sensações musicais e olhares amigos. A ansiedade só existe quando o local é desconhecido. Este, ao tornar-se familiar, apenas caracterizará expectativa de novos encontros.
O ato voluntário de hoje preferenciar pouquíssimas apresentações públicas, que ocorrem basicamente no Exterior, seria conseqüência de longa reflexão a respeito da música e de sua importância em minha vida. Se o estudo pianístico permanece um norte, gravação e repertório são decorrências e continuam a povoar meu universo sonoro. Sob aspecto outro, há determinadas fases da existência em que bifurcações na senda trilhada fazem-nos escolher um caminho a apresentar paisagens que imaginávamos existir, mas diversas de outras tantas, fosse diferente a estrada. Esta pode ser plena de gente, iluminada, mediática, provavelmente a expor pouca margem à introspecção. Aquela, voluntariamente serena, a evidenciar o que sabemos amar, fulcro da paz interior acalentada e perene meta a ser atingida. Cada CD gravado na planície flamenga, na milenar Capela de Sint-Hilarius, em Mullem, é um ato de afeto. Toda a longa preparação tem datas e horários previstos com um ano a anteceder o encontro. Atravessar o oceano para esse amálgama, que só entendo se absoluto, leva-me à felicidade de antever momentos únicos, quando busco os meus limites na interação com as reverberações que Sint-Hilarius me proporciona.
Haverá os recitais em Gent, um integrando a temporada da Rode Pomp, o outro para crianças. Após, curso em Lisboa e recitais em Évora, Coimbra e Braga. Estarei atento e a escrever posts para o blog. Em São Paulo, Magnus e Regina Maria cuidarão das inserções com competência e dedicação. Minha filha Maria Fernanda deverá encontrar-se com o pai em Lisboa, e idéias não faltarão para seus desenhos.
As viagens do ano passado resultaram em textos. Eles continuarão a surgir, pois o olhar estará a observar as transformações dos lugares, das pessoas e as nossas também. Cada ano acumulamos sensações que provocam o sentir diferentemente. O certo, contudo, é reencontrar intensidades emotivas permanentes, pois as mudanças, quando fidelidade na amizade existe, não atingem essencialidades.
Possivelmente escreverei posts mais curtos, devido à imprevisibilidade do tempo disponível. Serão constantes, porém. Quebrada a rotina, está-se a mercê do imponderável. Novamente, buscarei acentuar mais o que me causa emoção àquilo que, mesmo a provocar impacto, pode ter tido germinação fugaz. Que sejamos cúmplices nessa nova peregrinação sonora e visual.
Emotions Revisited:
Once more a fly to Belgium and Portugal for recitals and to record a new CD. My posts will not be interrupted, but will be shorter and more frequent. Let us be partners in this new experience.







Havia uma serviçal muito idosa que morava em La Querye desde a juventude. Céline era seu nome. Magricela, apoiava-se em um cajado, e o forte acento da região de Auvergne tornava-a atemporal. Ninguém sabia exatamente o número de décadas acumuladas pela anciã. Entendia-me com Céline. Certa vez presenteou-me com duas laranjas. Vi que estavam com um carimbo Oranges du Brésil. Perguntei-lhe se alguma vez ouvira falar de nosso país. Com um acento bem da região, respondeu-me: “Sim, fica atrás daquelas montanhas”. Céline seria personagem típica de um filme.