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Eterna Lembrança

Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem.
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.
Fernando Pessoa

Minha mãe em 1938. Foto: José da Silva Martins.

Vila Bonfim, hoje integrada à cidade de Ribeirão Preto, viu nascer minha mãe, Alay Ferreira Gandra, aos 16 de Julho de 1907. Os avós maternos tiveram 16 filhos e minha mãe intermediava a grande prole. Infância, adolescência e juventude foram vividas na simplicidade, no espírito econômico e, sobretudo, no saber dividir. A alegria dos primeiros anos permaneceria durante toda a vida. Em 1933, quando se casa com meu pai, José da Silva Martins, após longo noivado, transfere-se para São Paulo e aí permanece até seus últimos dias: Alay Gandra Martins, doravante.
Como mãe, soube acalentar os sonhos de seus quatro filhos: Ives, José Paulo, João Carlos e eu. Ter pertencido a uma grande família talvez a tenha ensinado a não ter predileções. Seu amor era distribuído de maneira sempre equânime.
As lembranças mais marcantes remontam ao passado longínquo. Minha mãe lutou bravamente para que nada nos faltasse, a ter um verdadeiro instinto de como proteger, sem excessos, seus filhos. Se meu pai foi um lutador, trabalhando duramente, era ela que, atenta, zelava por tudo em casa, jamais deixando, entre tantas atribuições familiares, de estimular o marido nesse labor cotidiano e intenso. Estou a me lembrar dos anos da Segunda Grande Guerra, quando alguns racionamentos eram naturais. Levava-nos à fila na padaria e cada um recebia seu pão de milho. Em casa, cuidava com meu pai de um galinheiro doméstico, onde não faltavam aves para o abate e ovos matinais. Da horta, entendia todos os atalhos que levam às belas hortaliças. No ambiente feliz desses primeiros anos íamos vivendo sob o inefável olhar materno. Na distribuição dos serviços de casa, ficou a mim reservado, entre outros, levar o carrinho à feira-livre. Eram extraordinários seu bom humor, os diálogos com os feirantes – sabia o nome de todos – e a certeza das escolhas. Se freqüento até hoje, com prazer, a feira-livre, certamente devo à minha mãe tal preferência. Cozinhava à perfeição as variedades de receitas relacionadas ao bacalhau, ao frango – do abate à mesa -, ao cuscuz, às tortas, às sopas – caldo verde, juliana, de feijão -, aos doces – de abóbora, de batata, seu incomparável arroz doce, entre tantas outras receitas mágicas. Havia sempre a alegria contagiante não só no preparo de todas essas iguarias, mas também ao perceber a aprovação de todos. Outro verdadeiro dom que a mãe possuía era a arte de fazer frivolitê com uma habilidade extraordinária. De posse de duas navetes de madrepérola, após o preenchimento das bobinas interiores com linhas especiais, criava toalhas de mesa, outras pequenas para adornos e até blusas. Tenho ainda em meus ouvidos aquele ruído seco e constante dos fios passando pelas bordas da navete. Dona Olímpia, uma professora muito educada, ensinara esse mister e outros mais à pupila e durante anos freqüentou nossa casa. Ensinou também bordados e crochê, e minhas filhas guardam belos cobertores plenos de personagens do lúdico infantil, todos idealizados pelas mãos hábeis de minha mãe. Lembro-me, ainda miúdo, que Dona Olímpia jantava às quartas-feiras após a aula e pegava o bonde que a conduziria ao bairro de Moema, até então êrmo, a ser sua casa uma das poucas existentes. Ainda voltarei ao tema desses bondes, dito camarões, que nos levavam todos os domingos pela manhã a Santo Amaro, quando visitávamos os avós maternos. A morada ficava pouco abaixo do Largo Treze, então verdadeiro cartão postal de pacata cidade de interior, com sua Igreja, ruas estreitas e tão pouca gente.

Todos reunidos em 1949. Foto de José da Silva Martins

Minha mãe contrapunha à disciplina espartana – mas não desprovida de afeto – que meu pai impunha aos filhos, quanto aos estudos e às responsabilidades de cada um, o carinho, a criar o equilíbrio. Reprimendas impostas por ele, em uma época em que tal prática mostrava-se comum, eram sempre atenuadas, mercê dessa santa intermediação.
Vêm-me à memória auditiva as melodias do cancioneiro popular que a mãe cantava, fazendo-se acompanhar ao violão, em um todo harmonioso. Nós adorávamos, os amigos que freqüentavam nossa casa sentiam esse ambiente diferenciado, pois a mãe foi, igualmente, uma anfitriã simples e contagiante. Meu pai, que sonhava música e tinha fascínio pelo piano – reminiscências de sua difícil juventude em Portugal – comprou um de armário, um belo Schwartzmann, a acreditar que minha mãe pudesse estudar. Não o fazendo, João Carlos e eu iniciamos então nosso aprendizado. Estávamos ainda a realizar os primeiros exercícios dos cinco dedos, escalas e arpejos, e já nossos pais, sentados num sofá após o jantar, queriam ouvir os resultados, estimulando-nos, hábito que mantiveram durante a adolescência e juventude dos filhos pianistas.
Quando em França para os anos de estudos de música, semanalmente recebia cartas plenas de carinho, de saudades e de estímulo. Qualquer portador era pretexto para que enviasse ao filho distante alimentos ou roupas. Guardou por toda a vida meus cartões enviados da Europa. Hoje em minhas mãos, são a evidência de um afeto muito profundo e de sua imensa preocupação com minha saúde, pois reiterava eu nesses escritos, a fim de não inquietá-la, a minha boa disposição.
Da mesma maneira, soube repartir, sem distinções, seu amor entre netos e bisnetos. Nos partos de suas noras, lá estava a postos, atenta a tudo. Ela, que sofreu quase vinte intervenções cirúrgicas durante sua longa existência. Minha primeira filha talvez não houvesse nascido viva não fosse a firmeza de minha mãe que, já no hospital, horas antes do parto, soube impor-se à inexperiente enfermeira, saindo ela própria à procura do médico, pois percebeu que era chegada a hora.
Nos últimos anos, uma névoa começou a sobrevoar sua mente e o mal de Alzheimer foi pouco a pouco se instalando. Suas últimas recordações eram melodias que cantara alegremente numa outra época. Ao partir, aos 31 de Maio de 1999, meu pai entendeu que sua vida também se encerrava, sobrevivendo um ano à morte da mulher com quem fora casado durante 66 anos. Tinha ele 102.
No centenário de minha mãe, fica esse sentimento de saudade, sim, mas de plena felicidade por tudo o que ela foi para as gerações que tiveram o privilégio de conhecê-la.

Meliponideos – Abelhas do Convívio

A colméia entre as ramas da unha-de-gato. Foto J.E.M.

O inverno está a começar e raios solares atenuam-se graças à sua menor incidência sobre o hemisfério sul nesse período. Num fim de tarde agradável, quando o sol já buscava ocultar-se, observei que um pequeno foco de luz recaia diretamente sobre a entrada de uma colméia logo abaixo de minha janela. Presenciava um espetáculo rotineiro extraordinário. A luz mostrava-se tênue, realçando o cenário. As pequenas abelhas negras, sem ferrão, mergulhavam em vôos rápidos e rasantes no orifício de pouco mais de sete centímetros de diâmetro, a buscarem proteção durante a longa noite. Era uma sucessão contínua, que se prolongou. Pouco a pouco fazia-se sombra e rapidamente começou a escurecer.
Fiquei a pensar durante um bom tempo. Que relação plena com os filmes de ficção, onde pequenas naves espaciais recolhem-se à nave mãe! Exatamente da mesma maneira e com a mesma precisão. Nos filmes, geralmente não há equívocos, a depender dos roteiros. Na natureza, as abelhas fazem essas incursões sem jamais errar. Absoluta competência.
Há trinta e tal anos convivo com essa colméia. Diria que faz parte da família. Essas abelhas, em suas muitas gerações a povoarem o mesmo local, inicialmente construíram sua morada na compacta vegetação conhecida como unha de gato, que com o tempo tudo cobriu, exceção à entrada. Um volume apreciável é possível perceber. Não ferroam, mas causam um grande transtorno àqueles que se aproximam, a fim de aparar as ramas da unha de gato. Estou a me lembrar de um velho jardineiro, que durante muitos anos freqüentou nossa casa para podar essa trepadeira tão comum. Munia-se de um pano sobre a cabeça, óculos de piscina, tampão para os ouvidos, luvas e ia ao corte. Praguejava sempre quando nesse mister. Após o ótimo trabalho do bom homem, tinha por hábito olhar para a entrada da colméia a ver, com mais clareza, a rotina de entrada e saída das pequenas abelhas negras. Num determinado dia, não vi esse movimento. Subi numa escada e, devidamente protegido, verifiquei in loco que o apavorado jardineiro havia introduzido um pano embebido em querosene à entrada da colméia de minhas velhas amigas. Retirei o trapo com o devido cuidado, elas vieram sobre mim, mas tudo se passou bem, pois entendia de longa data as reações desses insetos tão necessários. Dizem que essas abelhas produzem ótimo mel e, como não ferroam, imiscuem-se pelos cabelos, tornando-os uma pasta, ou então azucrinam os ouvidos. Alguns as chamam de Abelha Cachorro, mercê do ruído, outros de Jataí… O certo é que todas as abelhas são insetos Hymenopteros, da extensa comunidade Apoidea. Se denominações variam, dependendo das regiões, o certo é que as pequenas abelhas negras em questão, minhas vizinhas tão próximas, são familiares. Não raras vezes, uma delas entra em meu quarto, permanecendo longos momentos. Após, busca o seu habitat original. Essa colméia tão antiga integrou-se à minha história. Partilhamos uma convivência tranqüila. Que continuem seu destino de fidelidade à velha morada!

O Perigo do Circunstancial Endêmico

Le trop grand empressement qu’on a
de s’acquitter d’une obligation
est une espèce d’ingratitude.

La Rochefoucauld

Elegemos nossos temas de vida. - Foto J.E.M.

Voltava de minha caminhada habitual pelas ruas do Brooklin, quando encontro um ex-aluno de curso que ofereci em um dos programas de pós-graduação na Universidade de São Paulo. Convidei-o para um café. Instalados, perguntei-lhe a respeito da conclusão de seu mestrado e dos caminhos trilhados nesses últimos dois ou três anos. Disse-me que fora aprovado como mestre e que tentava, presentemente, o doutorado, a fim de obter uma bolsa junto a um dos Institutos de Fomento existentes para continuar a viver, já que não tinha emprego, apenas dava algumas aulas particulares. Indaguei-lhe se continuaria com o tema que desenvolvera para o mestrado. Respondeu-me prontamente que de forma alguma voltaria àquela temática que o cansara tanto. Pretendia um outro “assunto”, que lhe desse tranqüilidade. Insisti. Nem tenho idéia, respondeu. Tomamos o café, despedimo-nos e cada qual continuou seu caminho. Fiquei a pensar que a cena se repete. Alguns outros, a quem fiz idêntica pergunta no campus universitário nesses últimos anos, deram-me rápido a mesma resposta, como um verdadeiro leitmotiv.
Sem ser regra, pois há uma grande diversidade de áreas na Universidade, antolha-se-me contudo preocupante a repetição de tais casos. Em algumas das especificidades das Humanas, a pequena possibilidade de absorção pelo mercado de trabalho torna imperiosa a busca pela sobrevivência. Os que se enquadram no perfil mencionado, a buscarem a bolsa, correm em direção ao título e que venha ele o mais rápido possível. O tema de Dissertação de Mestrado, ou Tese de Doutorado, pareceria um “mal necessário” aos desideratos reais. Frise-se, há constante preocupação das instâncias superiores, a almejarem duração menor dos cursos que levam à conclusão de Dissertações e Teses.
Deparei-me, ao logo de minha vida acadêmica, com outra situação, não distante do princípio da primeira: o pós-graduando que se dirige sequioso aos Congressos, Seminários ou Colóquios, com o objetivo precípuo de ler um paper e vê-lo publicado. A questionamentos que faço, a resposta vem direta: “Professor, conta pontos junto aos Institutos de Fomento”. Se aceito pelas organizações dessas Reuniões, a pontuação estará garantida. Destaque-se que muitas vezes esses Encontros têm necessidade de determinado volume de trabalhos, o que significa “importância e respeitabilidade”, a resultar em captação de verbas públicas. Neste caso específico, paper aceito, o candidato à bolsa estará a evidenciar desempenho.
A Rádio Jovem Pan tem apresentado um segmento exemplar: Educação, Semente do Amanhã, Alicerce da Pátria. O competente Joseval Peixoto apresentou o depoimento de dezenas de crianças que cursavam a Escola Pública e nada sabiam após alguns anos. Numa segunda etapa, professores estão sendo ouvidos e a situação mostra o desmoronamento educacional neste país de tantos desvios. Em todos os níveis, pois as mais diferentes categorias de docentes estão a ser ouvidas.
Creio que as nuvens plúmbeas aproximam-se igualmente da Universidade Pública no Brasil, inclusive na pós-graduação. Estou a me lembrar de teses defendidas em décadas anteriores, quando o número de candidatos ao mestrado e ao doutorado era bem inferior. Havia, preferencialmente, o gosto pela investigação. Temas de mestrado continuavam seu percurso no doutorado, tornando-se roteiros de vida. Um, dois ou mais objetos de estudo acompanhavam a trajetória acadêmica daquele estudioso. Mostrar-se-ia inequívoco o resultado, a dar subsídios valiosos à ainda precária bibliografia brasileira em tantas áreas.
O Governo alardeia o aumento de mestrados e doutorados no país, como se a quantidade fosse o fulcro da questão. Político sim, mas qualitativamente uma tragédia que se anuncia. Há um guarda-chuva imenso a cobrir a pós-graduação neste país. O sinônimo é pesquisa. Todos são pesquisadores, bons e maus, ótimos e péssimos. Joio e trigo freqüentam os mesmos bancos da pós-graduação. Curso findo, temas são abandonados abruptamente, a interromper um estudo mais pormenorizado, o que constitui um prejuízo irrecuperável, pois bolsas foram concedidas e trabalhos arquivados após a aprovação dos novos mestres ou doutores. Contudo, não se dá o mesmo em tantas construções públicas dispendiosas abandonadas pelo Brasil? A analogia faz-se lembrada. Ressalvem-se dissertações e teses meritórias, que tendem à publicação em revistas arbitradas ou tornam-se livros de referência.
Não obstante a presença de tantos estudiosos de respeito, jovens que eventualmente trocam de temática após o mestrado, apenas para recuperá-la mais tarde, quando outro for o embasamento, observam-se exemplos em que a mudança do objeto de estudo pode estar a acontecer aleatoriamente. Se houver princípio de interdisciplinaridade nesse novo projeto, ou se ele tiver uma força abrangente a enriquecer o todo de um pós-graduando, que seja bem-vindo. Dificilmente um bom orientador deixará de compreender as nuances da escolha de um candidato na apresentação de um projeto de dissertação ou tese. Um mau orientador sempre abrigará qualquer projeto. Neste caso, acentua-se o caminho da fatalidade, peristilo da tragédia, a pós-graduação circunstancial, hoje endêmica. A corroborar tal situação, verifica-se que muitos mestres ou doutores chegam às conclusões de dissertações e teses, respectivamente, sem biblioteca doméstica. Quando perguntei àquele ex-aluno sobre o seu acervo livresco, respondeu-me que na verdade tinha em casa algumas poucas publicações não específicas. A modernidade, a apresentar o “benefício” das fotocópias ou a busca via internet – importantes veículos para o conhecimento -, ceifou o gosto pelo livro, companheiro de vida. Não seria este brusco corte, igualmente, um foco do desinteresse pelo aprofundamento? Perde-se o norte. A afeição pelo livro, necessária a todo desenvolvimento intelectual, não chega sequer a abortar, pois não foi gerada.
O regresso ao verdadeiro sentido vocacional pleno pareceria uma miragem. Realmente, é o auxílio através da bolsa de pós-graduação um empecilho ao desenvolvimento acadêmico? É-o, na medida em que, mutatis mutandis, assemelha-se, em tantos casos, à bolsa-família meramente assistencialista do governo federal; é-o, a evidenciar ao pós-graduando que as vagas docente-universitárias estão basicamente preenchidas, restando a ele a bolsa como salvação temporária, a prejudicar o real sentido do aprofundamento; e é-o, quando, em certos casos, dá origem ao pós-graduando bolsista “profissional”. E todo o mal estará feito.
Solução haveria? Acredito que um maior rigor na concessão dessas bolsas seja imperioso, sem generosidade excessiva por parte dos Institutos de Fomento, que tendem a mostrar índices quantitativos. Felizmente, ainda são muitos os verdadeiros vocacionados, para os quais a verba da bolsa retorna à comunidade brasileira através de profissionais preparados, que souberam extrair de cada centavo, semente do amanhã, o conhecimento abrangente. A austeridade permitiria um estudo do verdadeiro “DNA” do candidato, suas origens educacionais, seu desempenho, sua dedicação, e seu desiderato final. Se isso ocorresse, enriqueceria o país com o “fim” do desperdício, aumentaria o número dos verdadeiros estudiosos, a grande Bibliografia Brasileira em todas as áreas tornar-se-ia uma certeza e a Comunidade Brasileira receberia realmente os profissionais de maior competência.

The drama of the postgraduate courses:
Funding agencies and the problem of allocation of funds for scholarships for postgraduate students.
Circumstantial projects versus thoughtful research projects with personal and social relevance.