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O pensamento sem amarras da Cultura Humanística

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Os meus livros imprimo-os para o público,
mas escrevo-os para mim.
Guerra Junqueiro (1850-1923)
(“A velhice do Padre Eterno”)

Cartas manuscritas foram escritas durante séculos, datilografadas a partir da segunda metade do século XIX e, com o surgimento dos computadores, passo essencial para o advento da internet, a dedicação epistolar, que mantinha a aura personagem-caneta-papel, estiolou-se basicamente por completo. Não se trata de saudosismo, mas de realidade. Missivas de figuras que permaneceram na história estão preservadas em bibliotecas pelo mundo e são fundamentais para os pesquisadores. Já há algum tempo todo esse imenso acervo, perpetrado ao longo da história, tem sido digitalizado. Contudo, frise-se, os manuscritos continuam conservados. Neles, pode-se captar a caligrafia, essa autêntica “impressão digital”, tão importante para a compreensão de outras capacitações do remetente. Considere-se que muitas daquelas figuras históricas que trocavam missivas antes da computação quase sempre guardavam em seus arquivos pessoais a preciosa correspondência recebida. A prática da escrita cursiva, rigorosamente individualizada, ainda permanece em determinadas circunstâncias, mas deixou de ser predominante graças aos avanços mencionados. A carta manuscrita apesar da sensível diminuição, ainda perdura a externar sentimentos de toda ordem e o cotidiano em suas captações voltadas à admiração ou à platitude. Sob outra égide, a mensagem escrita a mão não tem necessariamente finalidade coloquial e a multiplicidade de temas testemunha a assertiva.

Inúmeras vezes o prefácio de um livro adquire o significado de uma missiva e, se aquele é destinado à obra de um autor de gerações passadas, o preambulum representa o tributo reverencial, a propiciar ao leitor a abertura enriquecedora.

Durante a década de 1980, nas minhas visitas a Portugal para recitais e palestras ficava hospedado na morada da insigne Júlia d’Almendra (1904-1992), fundadora em 1953 do Centro de Estudos Gregorianos de Lisboa e autora de precioso livro, “Les Modes Grégorians dans l’oeuvre de Claude Debussy” (1948), motivo do nosso primeiro contato. Mantivemos ao longo dos anos correspondência manuscrita ativa. Ao receber suas cartas, a simples leitura do endereçamento no envelope levava-me a deduzir seu estado de espírito, se descontraído ou preocupado. As suas mensagens originais e as minhas a ela encaminhadas estão depositadas no Centro Ward de Lisboa, dirigido pela dedicada e competente regente coral Idalete Giga, discípula de Júlia d’Almendra.

Após ter  apresentado, em São Paulo inicialmente, as integrais para piano solo de Claude Debussy em quatro recitais no MASP e para piano a quatro mãos e dois pianos, juntamente com minha mulher, Regina Normanha Martins, no Teatro Cultura Artística (1980), e publicado o livro “O som pianístico de Claude Debussy” (São Paulo, Novas Metas, 1982), uma experiência que me marcou foi o privilégio de realizar aprofundadas pesquisas sobre Debussy, manuseando a sua opera omnia manuscrita para piano, mercê do privilégio que recebi do Diretor do Departamento de Música da Bibliothèque Nationale de Paris e do Centre de Documentation Claude Debussy, o notável musicólogo François Lesure (1923-2001), nome maior dos estudos sobre o compositor francês na segunda metade do século XX. Durante minhas várias visitas ao Centro Debussy nas décadas de 80 e 90, estudava determinados manuscritos que me eram trazidos por funcionário da BN e, munido de luvas e uma espécie de espátula para virar as páginas, permanecia em uma sala que era fechada, após a saída do funcionário. Extraordinárias leituras que salientam, entre outros pormenores, a própria “evolução” da escrita do compositor e o rigor que lhe era característico, fato menos sensível se observada for a obra publicada.

Clique para ouvir, de Claude Debussy, “Étude pour les arpèges composés”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=VCAH8fYHjSo&t=18s

Regressando às cartas, relevantes compositores foram ativos missivistas, e a menção a alguns se faz necessária: Beethoven, Liszt, Wagner, Moussorgsky, Fauré, Debussy, fato que evidencia a prática constante que músicos tiveram em relação à escrita coloquial particularizada. Essas personalidades nem sempre se dedicavam, em suas atividades epistolares, a escrever sobre música, mas cultuavam igualmente outros valores, a natureza, o cotidiano implacável, os estados de alma, a relação amistosa, a literatura e a poesia, fatores essenciais para a compreensão do âmago da criação de seus autores. O irremediável e necessário avanço tecnológico tem propiciado o imediatismo e a pouca consideração com progressos do passado. Mui raramente um inventor se refere aos passos dados por seus predecessores. Serviram-lhe de base, mas a mídia é ávida do momento presente e a reverência àqueles que no passado propiciaram uma invenção ou descoberta, impulsionando o caminhar presente, não a estimula, mas sim o que motivará vendagem. Sob aspecto outro, os compositores contemporâneos mais ousados negligenciaram as conquistas sucessivas que permaneceram até poucas décadas atrás, resultando em um número imenso de tendências bem diferenciadas. Apesar das realizações em termos da composição musical, da obra literária e das invenções e descobertas científicas, manancial importantíssimo em todas as áreas está depositado nas correspondências manuscritas daqueles personagens que permaneceram na história.

Anos atrás, experiência certamente compartilhada com incontáveis pessoas, na troca de um computador perdi, por descuido, todo o acervo anterior e nem mesmo um técnico experiente conseguiu recuperá-lo. Na realidade, deveria paulatinamente ter salvo o conteúdo em um pen drive e não o fiz. Amadorismo puro. Evaporaram-se cartas e depoimentos de personagens fundamentais da cultura que me privilegiaram através da troca de mensagens pelo computador. Perderam-se inúmeros testemunhos fulcrais dessas ilustres personagens. Felizmente, umas tantas fizeram parte de inúmeros blogs através dos anos.

Nos próximos blogs deverei tecer comentários sobre a prática ativa de figuras basilares da Cultura Humanística, que legaram através das missivas imensa contribuição que serviu para desvelamentos.

The handwritten letter, which has endured for millennia, basically ceased to exist after the advent of the typewriter, the computer, the cell phone and the internet.  Something to think about.

 

Artigo: “Sobre o Conceito de Popular na Música”

A educação para o Belo se faz através do Belo.
Pablo Casals (1876-1973)
Notável violoncelista espanhol

O insigne compositor português Fernando Lopes-Graça (1906-1994) foi igualmente um escritor que legou substanciosa obra literária no que concerne sobretudo à música portuguesa, mas igualmente opinando sobre outras vertentes musicais praticadas além-fronteiras, do passado à contemporaneidade.

Um artigo perspicaz (1947) a constar de um dos seus livros, “Nossa companheira Música”, editado em 1964 e tendo uma segunda edição em 1991 (Lisboa, Caminho), versa “Sobre o Conceito de ‘Popular’ na Música”. Já àquela altura, Lopes-Graça é crítico agudo quanto à  invasão de uma “música” de cunho efêmero que faria parte, décadas após, daquelas apresentadas com características outras ad extremum em nossas terras nos megashows em áreas abertas ou fechadas; nas aglomerações nos fins de semana nos denominados bailes funks; no sertanejo descaracterizado ou em outras manifestações “sonoras” que mistificam a essência da música, mercê de interesses promocionais e outros tantos. Os meios de comunicação divulgam exacerbadamente essas realizações e a recepção, mormente pelas gerações mais novas, pode ser devastadora sob várias égides: “música” predominantemente efêmera, costumes e moralidade derrocados e linguagem em constante alteração simplista, sem que haja qualquer lastro sustentável.

Lopes-Graça se posiciona: “Sou apenas um profissional da música, que se tem esforçado até hoje por desempenhar o seu ofício o melhor possível, sem trair nenhum dos imperativos que lhe fazem amar a sua arte e defendê-la contra tudo e todos que, dentro e fora dela, tentam aviltá-la, vendendo-a e vendendo a sua consciência a troco de mesquinhas satisfações de ordem pessoal: o interesse, a vaidade, a consagração oficial e pública”.

 

A evidenciar a essência essencial da autêntica música de índole popular, afirma: “Na verdade, só o povo, ou aqueles que no povo se reconhecem, são capazes de se dedicar tão de alma e coração, e com uma persistência que chega por vezes a ser verdadeiro heroísmo, a tarefas que não visam tirar interesse algum material e de que não esperam outro prêmio além da satisfação íntima que lhe vem da própria dedicação ao objeto do seu amor e do seu sacrifício. Culto sem ídolos vãos, fé sem dogmas nem imposições falazes, esta atitude se poderia qualificar de autêntico idealismo, se a palavra não andasse por aí tão gasta ou, antes, tão mal gasta, encobrindo, grande parte das vezes em que é invocada, propósitos e ações de pureza e gratuidade bem contestáveis”.

Sempre fiel à cultura popular autêntica a que o povo tem direito, faz em 1947 a crítica à manipulação, posição esta que soa tão presente em nosso país; “Não é raro vermo-la utilizada com intuitos reservados, como verdadeiro instrumento demagógico, com o fim de lisonjear com ela o povo para melhor se servirem dele. Tanto a cultura popular como a arte popular logo que são organizadas, logo que são dirigidas, deixam de ser verdadeiramente populares e passam a ser coisas artificiais, que perderam toda a razão de ser, todo o viço e toda a ingenuidade que lhes advém  do fato de serem atividades espontâneas e desinteressadas da alma ou da vontade de expressão artística do povo. E não há dúvidas de que o povo tem direito à cultura – mas tem também direito a mais coisas que são a base mesma da cultura e sem as quais esta não passa de uma palavra vazia de conteúdo”.

Tem me chamado a atenção a falta de conteúdo musical nos megashows que recebem dezenas de milhares de frequentadores, quando em espaço aberto, realizados sazonalmente, pois a cada apresentação novos hits “musicais” efêmeros, sem conteúdo, mas amplamente divulgados e assimilados pela nova geração, extasiam os que presenciam esses espetáculos. No texto em apreço, distante quase oito décadas, Lopes-Graça realça “o estrupido de certas musiquetas que, pretendendo ser alegres, apenas conseguem ser estúpidas”. Apesar dessa afirmação, o autor afirma: “Preciso advertir-vos de que não sou adversário irredutível e birrento da chamada ‘música ligeira’. Mas o que estou longe é de confundir música ligeira de música popular”. Auscultei alguns jovens sobre a memorização dessas músicas apresentadas em megashows dois ou mais anos antes. Não se lembram, mas sim o que foi ouvido no último show. Contudo, quando questiono pessoas na juventude da idade madura, esses têm na memória músicas que foram cantadas em shows no Brasil por Frank Sinatra, Charles Asznavour, Paul MacCartney e outros mais, e que se diga, apresentavam-se para multidões sem parafernália cênica a mascarar a pobreza musical.

Num contexto temporal totalmente outro, Lopes-Graça já preconizava essa decadência apontada acima: “Conclui-se que de maneira nenhuma podemos assimilar música popular à ladina copla revisteira ou à langorosa canção cinematográfica, aos viras mascarados de rumba ou às ‘sex-appealescas’ cançonetas importadas da América e garganteadas pelas nossas ‘sex-appealescas’ vedetas da rádio.  Esta espécie de música nada tem que ver com o autêntico povo, não nasce do seu seio, não corresponde às suas necessidades, não traz a sua dedada. Trata-se, antes, de puros produtos comercialistas, destinados a um público de gosto pervertido, de nulo instinto estético, e a quem a música só desperta sensações de ordem puramente animal e vegetativa. Chamar popular a esta música de baixo nível e de intenções quantas vezes duvidosa é ofender a verdadeira música popular, tal como ela se revela nas tão vivas, sinceras e recendentes manifestações da arte folclórica.”

Em termos do nosso país, a música folclórica pura ainda é motivo de festejos populares tipificados nas mais diversas regiões do Brasil. Quanto à música urbana, que granjeou enorme repercussão até poucas décadas antes do século XXI, tivemos cantores, alguns deles compositores, e suas canções permaneceram na memória de parte sensível da população. Refiro-me a Ataulfo Alves, Lupicínio Rodrigues, Adoniram Barbosa, Noel Rosa, Lamartine Babo, Dorival Caymmi… sem contar com as criações de Tom Jobim e uns poucos outros talentosos.

Sob outra égide, no que concerne àquilo que Lopes-Graça também entende como popular, a música de concerto ou clássica: “o que está em causa, na questão de educar musicalmente o povo, não é a capacidade intelectual ou emotiva deste, mas sim a sua capacidade econômica: donde as medidas tendentes a facilitar financeiramente o povo aos concertos, sem por isso se pensar em fazer baixar o nível estético destes”. Lopes-Graça estende as suas reflexões, sempre a almejar o aprimoramento do povo: “Resolvida ou aplanada da melhor forma possível essa questão econômica primordial, só há um caminho a seguir, e é o que têm seguido aqueles países [Graça mencionara anteriormente Inglaterra, Suíça e Checoslováquia] para promover a educação musical do povo: é dar a este a melhor música, executada pelos melhores artistas, pelas melhores orquestras, pelos melhores coros. Em nenhuma parte se pensa que as supremas criações de um Bach, de um Rameau, de um Beethoven, de um Schumann, de um César Franck, de um Moussorgsky, de um Debussy sejam transcendentes demais para o povo, que elas não sejam capazes de o emocionar e de o entusiasmar, não sejam, enfim, obras ‘populares’, no sentido em que é popular tudo que se dirige ao maior número possível de auditores, tudo o que revela um profundo e universal calor humano”.

Têm interesse fundamental reflexões de Lopes-Graça em torno desse conceito do termo popular. “Há profissionais, pessoas esclarecidas e competentes, que partilham do mesmo ponto de vista e consideram utópico manter os ‘concertos populares’ no mesmo nível dos outros. Esses ‘outros’ são, naturalmente, os concertos de elite. Qual elite é que se não vislumbra lá muito bem. A da inteligência? Mas esta pertence precisamente ao povo, faz parte dele, trabalha com ele e para ele. Os ‘concertos populares’ são também os seus concertos, e não há portanto que fazer a distinção , que, bem vistas as coisas, envolve uma certa intenção despicienda. A elite do dinheiro, a que frequenta o São Carlos? (Teatro em Lisboa). Mas esta sabemos nós que ali concorre mais para exibir as suas casacas de corte irrepreensível e os seus vestidos luxuosos do que para ouvir a boa música!…”.

O artigo de Fernando Lopes-Graça, apesar da distância temporal, o que implica histórico-social diferenciado, pode ser potencializado ao extremo em termos atuais. Se menciona em 1947 as ‘sex-appealescas’, qual seria a sua posição ao assistir a alguns megashows em nossos “teatros” praianos a céu aberto, nos quais as principais figuras femininas se apresentam sumariamente vestidas, quando não com o denominado “fio dental”, levando dezena de milhares de frequentadores ao delírio? Faz pensar. A “música”, nesses casos, mero pormenor.

Num outro contexto geográfico e histórico, o texto de Lopes-Graça denuncia o aviltamento que se processava em terras lusíadas. Potencializado, vivemos no Brasil a decadência cultural que afeta não apenas a música de raiz ou amorosamente criada por músicos talentosos e sinceros no gênero denominado genericamente de popular. A maioria dos meios de comunicação se mostra ávida em publicar farto material sobre os megashows, estes amparados por poderosos patrocínios. Mais e mais em nosso país a Cultura Humanística vai perdendo espaços, envolta em névoa que se adensa. Remotas esperanças…

 

Clique para ouvir, de Fernando Lopes-Graça, Viagens na Minha Terra, na interpretação de J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=n0PwLys54GU

An exemplary text by the notable Portuguese composer and writer Fernando Lopes-Graça (1906–1994) focuses on the ‘Concept of “Popular” in Music.’ I add  my own comments on the subject.

 

Quando a escrita se torna respiração

Porque ser fiel, em primeiro lugar, é ser fiel a si mesmo.
Saint Éxupéry (1900-1944)
“Citadelle” (cap. CLXXV)

Foi aos 2 de Março de 2007 que, após uma conversa na qual relatava alguma lembrança de décadas passadas, meu ex-aluno e amigo Magnus Bardela me perguntou qual a razão de eu não ter um blog. Frequentador de nossa casa àquela altura, Magnus foi ao computador a fim de verificar algo e me chamou logo após. “Criei um blog em seu nome e é só começar a escrever”, disse ele. Atônito, sem conhecer nada desse “mecanismo”, escrevi um curto texto que nomeei “Preambulum”, a pensar na introdução da Partita nº 5, de J.S.Bach, que integrava meu repertório. Como ilustração, coloquei a foto da primeira caneta tinteiro que ganhei de meus pais quando completei 14 anos, uma Parker Júnior. Finalizava o primeiro post com uma frase que se tornou grata realidade: “Doravante, você leitor está convidado a realizar essa viagem. Que sejamos cúmplices. Bem haja”!

Passaram-se quase 19 anos e com entusiasmo escrevi blogs publicados sempre no minuto cinco dos sábados e desde aquela data jamais deixei de inserir um post ao final da semana. Chegamos ao milésimo e o fato me faz rememorar. Ausente do país inúmeras vezes para atividades musicais, ainda nessas temporadas não deixava de publicar o blog, assim como logo após algumas cirurgias. Depois do primeiro ano tive a nítida sensação de que, instintivamente, o blog apreendia tema de qualquer ordem que me causara impressão maior. Sob outra égide, cerca de trezentos livros resenhados se tornaram parte natural das leituras que me marcaram (vide menu: Livros: Resenhas e comentários – lista). Reiteradas vezes mencionei em meus blogs que a respiração não pede férias, assim como minha prática pianística e os escritos.

Os blogs, de Março de 2007 a Março de 2011, resultaram em três livros, “Crônicas de um observador”, publicados pela Pax e Spes do meu dileto amigo Claudio Giordano. Deixei de publicá-los por múltiplas razões. Hoje teríamos 16 livros. Alguns leitores fiéis me escreveram ao longo dos anos dizendo que imprimem e guardam em pastas os blogs publicados, fato que muito me sensibiliza.

Relendo posts ao longo dos anos, verifiquei certas flutuações em termos de temática. A palavra “observador”, utilizada no conjunto de textos nos quatro primeiros anos e que se estenderia ainda por certo tempo, teve como motivo o olhar mais voltado a muitos episódios do cotidiano, tantos deles que me encantaram. Houve uma fase em que as altas montanhas, a pontificar a cordilheira do Himalaia, me fascinaram e sintetizei em posts uma série de livros sobre o assunto. Assim também o fiz ao ler mais de 10 livros do intrépido aventureiro francês Sylvain Tesson (1953-). Com o passar dos anos, o aumento das viagens ao Exterior, a fim de atividades musicais mais acentuadas, sem declinar do cotidiano, voltei-me às experiências vividas nessas turnês, aos músicos excelentes com quem tive o privilégio de conviver, à Música e à eterna leitura seletiva, sempre a pensar na transmissão ao meu leitor. Houve um período em que me pormenorizei na série de extraordinários pianistas do passado, muitos deles hoje pouco acessados no Youtube ou no Spotify, assinalando sempre que, sem o conhecimento de suas gravações históricas, pode se perder o fio condutor que nos leva, como prioridade, ao respeito à mensagem do compositor e à imaginação extraordinária daqueles intérpretes unicamente voltados à essência musical. Fazia a crítica a determinadas performances atuais, tantas delas excepcionais sob o aspecto técnico-pianístico, mas, em inúmeros casos, sem a aura poético-espiritual. Insisti em vários posts a respeito de outro fator dominante nos dias de hoje: holofotes possantes, indumentária inúmeras vezes chamativa, tudo a fazer parte do espetáculo, algo não existente no passado, quando o objetivo do intérprete era tão somente o conteúdo musical a ser transmitido. Se o leitor acessar gravações daqueles mestres excelsos do passado interpretando determinada obra, verificará o pouco número de ouvintes na atualidade, diferentemente dos efeitos de performances hodiernas que, chamativas, atingem visualizações elevadíssimas para certos intérpretes mais ventilados.

Paradoxalmente, a quase absoluta ausência da crítica musical nos últimos tempos é uma trágica realidade. Por volta de 1955 havia em São Paulo (3 milhões de habitantes) 12 críticos que pautavam os concertos realizados na cidade, de celebridades ou daqueles que se apresentavam no início de suas trajetórias. Na maioria, os críticos eram músicos atuantes ou teóricos. Hoje, a cidade tem 12 milhões. Críticos desses eventos? Comentei ao longo dos anos essa situação de queda que se estende, diga-se, a outras áreas da Cultura.

Quanto aos Costumes, a temática se acentuou nos blogs publicados nesses últimos anos, pois não há mais barreiras para a divulgação de toda espécie de conteúdo adulto à disposição em sites de grande divulgação. Realmente, um total absurdo. Infelizmente, essa nefasta “abertura” não recebe o olhar mais atento das nossas autoridades.

Após encerrar minhas atividades pianísticas públicas na Bélgica e em Portugal em 2023, assim como as gravações de CDs na região flamenga (1999-2019), finalizei no Brasil com um recital na cidade de Santos, na Pinacoteca Benedito Calixto, em Agosto do mesmo ano. Não obstante, continuo a praticar como sempre e sete foram os Encontros privados que Regina e eu realizamos desde o término das minhas apresentações oficiais. Continuo, pois, a comparar a prática diária pianística à respiração, que nunca esmorece. Não apenas rememoro repertório interpretado ao longo das décadas, como incorporo composições que sempre tive vontade de estudar e circunstâncias várias me impediram de fazê-lo. As récitas resultaram em blogs sobre os repertórios apresentados.

Infelizmente, a morte de tantas figuras ilustres e amigos fiéis fez parte dos meus escritos hebdomadários. Prestei um singelo tributo a mais aos que partiram: François Lesure (1923-2001), Serge Nigg (1924-2008), Álvaro Guimarães (1956-2009), Giovanne Aronne (1937-2009), Almeida Prado (1943-2010), Roberto Szidon (1941-2011), Luca Vitali (1940-2012), Maria Isabel Oswald Monteiro (1919-2012), Mario Ficarelli (1935-2014), Gilberto Mendes (1922-2016), Sequeira Costa (1929-2019), Fernando Lopes (1935-2019), Jorge Sampaio (1939-2021), José Maria Pedrosa Cardoso (1942-2021), Tânia Hachot (1937-2022). Nossos saudosos pais, de Regina e os meus, também foram lembrados com emoção. Inexorabilidade que deve ser cultuada.

Este olhar o passado me fez considerar determinadas mutações, mercê da trajetória do país. O leitor que me segue desde os primeiros tempos bem sabe que eu me posicionava mais otimista, no que concerne ao Brasil, nos talvez dez primeiros anos de posts publicados. Sabe também que não penetro em temas sobre política, pois articulistas especializados e de ideologias diferenciadas o fazem com maior conhecimento. Todavia, não deixo de perceber o país à deriva em tantos aspectos. Verificamos, em vários índices mundiais abrangendo categorias diferenciadas, o nosso recuo, fato lamentável. Sob outra égide, o receio do cidadão comum de se pronunciar mais veementemente a defender suas convicções políticas, outrora amplamente livre, intensificou-se. A espontaneidade, típica do povo brasileiro, foi substituída pela cautela com palavras e textos. A charge de cunho político, tão comum nos meios de comunicação décadas atrás, estiolou-se. Esvaiu-se a espontaneidade e toda charge dos nossos dias tem de ser bem pensada antes de vir a público… O tão apregoado bordão “censura nunca mais” mereceria ser entendido na sua essência essencial.

Há quase um ano tivemos uma abrupta mudança, após 60 anos morando na mesma casa. A sanha avassaladora de uma construtora nos levou a mudar. Continuamos na mesma rua, mas doravante em um apartamento e as relações humanas, fator fundamental, continuam. Página virada e a normalidade de volta.

Tenho o hábito de redigir os blogs durante as madrugadas. Pela manhã realizo uma leitura pormenorizada e envio à minha amiga-irmã, Regina Maria, nossa vizinha desde os anos 1980, que desde o primeiro post, de Março de 2007, realiza uma revisão acurada, pois as denominadas gralhas acontecem: acentuações, falhas na digitação e outros pequenos tropeços. Faz-se necessária a revisão. Estou a me lembrar de um chiste do nosso mais relevante compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931), que, ao enviar ao ilustre organista Furio Franceschini (1880-1976) a sua Sonata para órgão, a fim de que o mestre a revisasse, escreveu que, entre os maus revisores, sentia-se o pior. Certamente um jocoso jogo de palavras, pois seus manuscritos contêm pouquíssimos equívocos.

Clique para ouvir, de Henrique Oswald, “Il Neige!”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=n0RxYeQbBbo&t=5s

Continuarei a escrever meus posts, embora os temas nascessem durante os meus treinos correndo. Aos 87 anos, infelizmente, não mais tenho esse prazer, a conselho do notável ortopedista Heitor Ulsson, convertendo as corridas em andadas, mas cumprindo basicamente as mesmas distâncias. A frase “o tempo insubornável”, do grande poeta Guerra Junqueiro (1850-1923), tem a amenizá-la o desenvolvimento de outras alegrias, entre elas o mavavilhamento de hoje, uma extensa família, lentamente acrescida nestes 62 anos de casamento, e curtida por Regina e por mim. Música, literatura e artes em geral se tornaram ainda mais frequentes e continuarão a impulsionar o blog, até quando a frase latina ser efetivada, “Mors certa, hora incerta”. Contudo, prezado leitor, continuo a ter esperanças.

We have reached our thousandth consecutive post, published every Saturday since 2 March 2007. A significant milestone, since there has not been a single hiatus in this long period of almost 19 years.