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Agradecimento à vida na certeza da morte próxima

Não consigo fingir que não estou com medo.
Mas meu sentimento predominante é a gratidão.
… Agora estou face a face com a morte,
mas isso não quer dizer que não quero mais nada com a vida.
Oliver Sacks

Oliver Sacks, neurologista e escritor anglo-americano, foi igualmente professor de neurologia e psiquiatria. Sua expressiva obra literária, multidirecionada, granjeou-lhe grande projeção, apesar das poucas críticas contrárias ao seu pensar. Li, bem anteriormente, “Alucinações Musicais” (Musicaphilia, 2007), não resenhado em meus blogs que nasciam naquele ano. Penso fazê-lo oportunamente, pois a leitura de “Gratidão” me remeteu ao livro mencionado, que estuda aspectos profundos da mente humana com a música.

Oliver Sacks escreveu “Gratidão” (São Paulo, Companhia das Letras, 2015, tradução Laura Teixeira Motta) cônscio de que sua vida se escoava, mercê de um câncer metastático. Estava no início da fase octogenária. Expressa-se com naturalidade sobre tema espinhoso, mas igualmente a proporcionar uma razão existencial ao leitor, mormente se esse estiver avançado na terceira idade e doente grave. Não se trata de mensagem de esperança, mas a de entender como enfrentar a certeza de um fim próximo. Suas considerações em “Gratidão” complementam sua autobiografia “Sempre em Movimento” (Cia. Das Letras, 2015). Gratidão é um livro de síntese da realidade que se apresentava e Sacks aprende a conviver interativamente com o inexorável. Frisa que a gratidão é pela vida, sabedor de que soube vivê-la: granjeou amizades, realizando-se nos estudos, nos ramos escolhidos da ciência e nos inúmeros livros, cujos temas são bem variados.

“Gratidão” está distribuído em quatro capítulos que se completam: Mercúrio, My Own Life, Minha tabela periódica e Shabat, capítulos esses que foram paulatinamente publicados no New York Times entre 2013 e 2015. No capítulo inicial, Sacks, no peristilo dos 80 anos, detentor de uma mente brilhante, escreve: “(… lamento ser tão angustiantemente tímido aos oitenta quanto era aos vinte; lamento não falar outra língua além da materna e não ter viajado ou vivenciado outras culturas de modo tão produtivo quanto deveria”. Não acreditando em uma vida após a morte, teria, contudo, o desejo de que seus livros “possam falar às pessoas depois que eu morrer”.

Oliver Sacks faz uma síntese da sua situação, máxime ao adentrar a oitava década da existência “Aos oitenta paira o espectro da demência ou do derrame. Um terço dos meus contemporâneos está morto e vários outros, com graves problemas mentais ou físicos, vivem presos numa existência trágica e mínima. Aos oitenta, as marcas da decadência são demasiado visíveis. Nossas reações são um tanto mais lentas, os nomes nos fogem mais amiúde, e cumpre administrar melhor as energias, mas ainda assim é possível nos sentirmos muitas vezes cheios de vigor e nem um pouco velhos”. Realidade. Aos 88 anos, sempre grato pela existência, testemunho sistematicamente a visita da morte a vários pianistas pátrios. Só na minha área essencial, a música-piano-pesquisa, oito pianistas da minha geração, com os quais mantive sempre relações cordiais, já partiram: Jacques Klein (1930-1982), Gilberto Tinetti (1932-2022), Ney Salgado (1935-2015), Fernando Lopes (1935-2019), Arthur Moreira Lima (1940-2024), Roberto Szidon (1941-2011), Antônio Guedes Barbosa (1943-1993), e Nelson Freire (1944-2021). Faço minhas as palavras de Sakcs: “Já faz uns dez anos que ando cada vez mais consciente de mortes entre meus contemporâneos. Minha geração está na reta final, e sinto cada morte como uma ruptura, como uma parte de mim que é arrancada”.

É admirável, no livro de Oliver Sacks, o sentido de gratidão para com a existência e o convívio: “Amei e fui amado, recebi muito e dei algo em troca, li, viajei, pensei, escrevi”. Acrescenta: “Embora tenha tido amores e amizades e nenhuma verdadeira inimizade, não posso dizer (e ninguém que me conhece dirá) que sou um homem de índole branda. Ao contrário, sou um homem de temperamento impetuoso, com entusiasmos violentos e extrema imoderação em todas as minhas paixões”.

Em “My Own Life” (Minha própria vida), inicia a pontuar que aos 81 anos ainda nadava um quilômetro e meio por dia, até saber que o mal invadira seu fígado. “Sou grato porque me foram concedidos nove anos de boa saúde e produtividade desde o primeiro diagnóstico, mas agora estou face a face com a morte”. Parcela de portadores de câncer se entregam, com resignação ou não, ao mal. Sacks, no entanto, continuou a sua trajetória normalmente e a sua relação costumeira com aqueles do seu entorno. É admirável a antevisão da morte, admitindo-a, fato que acelera as suas considerações sobre a vida: “Agora devo escolher como viver durante os meses que me restam. Tenho de viver do modo mais rico, profundo e produtivo que puder”. Uma das colocações de Sacks sobre como vislumbrava o seu passado: “Nesses últimos anos tenho sido capaz de ver minha vida como que de uma grande altitude, como uma espécie de paisagem, e com uma noção crescente da conexão entre todas as suas partes”. Faz-me lembrar uma das considerações sobre o tema, emanada por um grande mestre francês com quem estudei em França nos meus vinte anos. Jean Doyen (1907-1982), emérito pianista e professor, dizia que fazemos uma primeira leitura de uma obra e, após estudos, memorizamos. A seguir, sobrevoamos a criação do compositor, tendo captado os seus aspectos essenciais. Tem relevância uma outra colocação de Sacks sobre a concentração após a evolução do mal que o acometia; “Devo me concentrar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não assistirei mais ao noticiário toda noite. Não vou mais prestar atenção em política ou em discussões sobre o aquecimento global”.

No capítulo “Minha tabela periódica”, salientaria sua percepção ao observar o firmamento: “Algumas semanas atrás, no campo, longe das luzes da cidade, vi o céu inteiro ‘polvilhado de estrelas’ (palavras de Milton), eu imaginava que só seria possível ver um céu assim em platôs altos e áridos como o de Atacama, no Chile (onde ficam alguns dos telescópios mais potentes do mundo). Foi esse esplendor celeste que de súbito me fez perceber o pouco tempo, a curta vida que me resta. Minha ideia de beleza celeste, de eternidade, ficou inseparavelmente mesclada a uma ideia de transitoriedade – e de morte… Gostaria de ver de novo um céu como esse quando estiver morrendo”.

Clique para ouvir de J.S.Bach-Kempff, Coral: Awake, the voice is sounding, na interpretação de J.E.M.:

Bach-Kempff – Awake, the Voice is Sounding – José Eduardo Martins – piano

No último capítulo, “Shabat”, Oliver Sacks narra com precisão a sua formação, em que seus pais e toda uma comunidade judaica seguiam à risca todos os preceitos ligados ao Shabat desde o anoitecer de sexta-feira até sábado pouco após o pôr do sol. Visita à Sinagoga, preparação das refeições próprias para a data e mais a devoção dos seus pais, tudo ficaria na memória de Sacks. Contudo, seus pais, ao saberem da sua homossexualidade, proferiram severas críticas, máxime sua mãe, o que o fez, no momento oportuno, imigrar para os Estados Unidos, onde desenvolveu uma carreira brilhante como neurologista e escritor.

“Gratidão”, título que remete a tantas figuras com as quais Sachs conviveu ao longo da existência, tem um fim voltado à paz interior: “E agora fraco, sem fôlego, os músculos antes firmes derretidos pelo câncer, encontro meus pensamentos, cada vez mais, não no âmbito sobrenatural ou espiritual, e sim no que se quer dizer com levar uma vida boa, que valha a pena – alcançar a sensação de paz dentro de si mesmo. Encontro meus pensamentos rumando em direção ao Shabat, o dia de descanso, o sétimo dia da semana, e talvez o sétimo dia da nossa vida também, quando podemos sentir que nosso trabalho está feito e, com a consciência em paz, descansar”.

Written while he was battling cancer, neurologist and writer Oliver Sacks’s book “Gratitude” is a poignant farewell to life and the friendships dear to him.

 

 

Algumas decorrências

Sinto que, por mais que tenha acumulado em mim
todos os tesouros do espírito humano…
quando finalmente quero descansar um pouco,
nenhuma força nova brota do meu coração;
e não consigo crescer nem o fio de um cabelo,
nem me aproximar um pouco do infinito.
Goethe
“Fausto”
Fausto a dialogar com Mefistófoles

Estava a estudar em Paris (1958-1961) quando, sob a sugestão de Antoine Robert, dileto amigo, que me introduziu a tantas obras literárias importantes europeias, fui presenteado com a extraordinária criação de Goethe, “Fausto”, seguido do segundo “Fausto” (Paris, Le Livre Club du Libraire, s.d.), na magnífica tradução do poeta Gérard de Nerval (1808-1885). Se a obra “Os sofrimentos do jovem Werther” (1774) granjeou-lhe notoriedade na Europa, seria contudo a tragédia “Fausto”, entre tantos outros escritos de Goethe, a sua obra maior a inspirar alguns dos mais ilustres compositores do período, na qual Fausto faz um pacto com Mefisto, o diabo, no desiderato de se livrar de seus tormentos. Lembremos que, bem anteriormente a Goethe, autores da Inglaterra e da Alemanha já haviam se debruçado  sobre a temática de Fausto.

Tendo o conhecimento das duas correntes totalizantes, classicismo e romantismo, Goethe teria uma inclinação maior pela primeira, mercê de vários atributos voltados às regras preestabelecidas. Daquela leitura, que me marcaria para sempre, lembro-me de um pormenor que foi motivo de diálogos proveitosos com Antoine, fortemente versado em literatura e música. Um dos temas se encaminhou para a relevância do número três desde a Grécia Antiga, simbolizado por vários debruçamentos dos pensadores gregos e fundamental no cristianismo, “Deus, Filho e Espírito Santo”. Repassamos a exemplificação clara, na primeira parte de “Fausto”, no segmento “Gabinete de estudo”

“Fausto
Batem à porta? Entre! Quem é que vem incomodar-me outra vez?

Mefistófeles
Sou eu.

Fausto
Entre!

Mefistófeles
Tens de o dizer três vezes.

Fausto
Entre, pois!”

Uma das inúmeras “regras” no período clássico musical era a apresentação de determinado motivo duas vezes, sendo que a resolução se daria na terceira vez. J.S.Bach (1685-1750) se utiliza do processo e um exemplo transparente é o início da fuga em dó menor do primeiro volume do Cravo Bem Temperado. Jean-Philippe Rameau (1683-1764), Mozart (1756-1791), Beethoven (1770-1827) e tantos outros seguiram essa “regra”.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, “Les Cyclopes”, na interpretação de J.E.M. (na apresentação do tema, Rameau resolve na terceira exposição):

https://www.youtube.com/watch?v=xdKjHjNx700

Goethe, apesar de suas preferências, teve inúmeras de suas criações como fonte inspiradora para compositores que permanecem na história. Admirava Mozart desde o momento em que o ouviu tocar aos 7 anos de idade, tendo-o como um dos que mantinham valores voltados às normas clássicas. Entendia-o como um gênio, “um fenômeno, um milagre inexplicável”, comparando-o com outros grandes mestres das artes pictóricas do passado. A canção datada de 1785,  Das Veilchen, “A violeta”, é a única na qual Mozart se utiliza de um poema de Goethe.

Clique para ouvir, de Mozart, o lied “Das Veilchen” (A Violeta), na interpretação da soprano Barbara Bonney, tendo ao piano Geoffrey Parssons:

https://www.youtube.com/watch?v=zDSSLo0OSMw

Em relação a Beethoven, data de 1812 o encontro com Goethe, amistoso no início, pois o poeta se encantou com as qualidades do compositor e pianista, a ponto de escrever à sua esposa: “nunca vi um artista mais concentrado, mais enérgico e fervoroso”. De sua parte, Beethoven considerava Goethe o grande pensador da língua alemã. A surdez do compositor, a influenciar seu temperamento, foi um dos motivos a distanciá-los para sempre.

Beethoven compôs várias obras, como lieder e outras mais a partir de poemas de Goethe, destacando-se Egmont, música de cena constituída de uma abertura e nove outras partes em que participam soprano, recitante e grande orquestra. A abertura é muito frequentada pelas orquestras em todo o mundo.

Clique para ouvir, de Beethoven, a abertura de “Egmont” (drama de Goethe), com a orquestra Gewandhaus sob a regência de Kurt Masur:

https://www.youtube.com/watch?v=0oaazxCPNwU

Franz Schubert (1797-1828) criou 72 lieder a partir de poemas de Goethe. Fazem parte referencial do repertório para canto e piano.

Clique para ouvir, de Schubert, “Der Erkönig” (O Rei dos Elfos), na interpretação excelsa do barítono Hermann Prey, tendo ao piano Karl Engel:

https://www.youtube.com/watch?v=QeIw7Y4UEHY

Franz Liszt (1811-1886) igualmente cultuou a obra literária de Goethe e sua “Sinfonia Fausto” é pujante exemplo. Comporia igualmente lieder ― estes, tributários às criações literárias do poeta alemão. A primeira e mais conhecida das quatro valsas Mefisto de Liszt decorre da lembrança do personagem de Goethe em seu “Fausto”.

Clique para ouvir, de Franz Liszt, “Valsa Mefisto”, na interpretação maiúscula de Geörgy Cziffra:

https://www.youtube.com/watch?v=Cy9Cwrwea9U

Uma das composições mais importantes de Hector Berlioz (1803-1869) é La Damnation de Faust (A Danação de Fausto), drama em quatro partes, no qual o compositor tardiamente retrabalha determinadas cenas compostas décadas atrás sobre o tema extraído da obra de Goethe.

Charles Gounod (1818-1893) escreveria uma ópera em cinco atos, “Fausto”, cujo libreto tem a origem originária no poema de Goethe.

Significativo o fato de que compositores, desde aqueles mais representativos, e outros tantos sem a mesma dimensão, terem se interessado não apenas pelo drama “Fausto” de Goethe, como também pela quantidade de poemas esparsos, testemunhando a importância transcendental de Wolfgang von Goethe.

How “Wolfgang von Goethe’s tragic masterpiece, ‘Faust’, profoundly influenced countless prominent composers across the late 18th and 19th centuries.”

 

 

Leva a pensar

Não tinha ainda aprendido a desconfiar do futuro.
Vera Albers
“Romancinho”

Recebi, de uma dileta amiga, livro que a partir do título, “Romancinho”, delimita a sua dimensão. A autora relata, na primeira pessoa, a saga de uma personagem da primeira infância à mocidade, na sequência da própria transformação física e mental. Nas 49 páginas, o enredo traduz com precisão histórica e geográfica o desenrolar da trama, sobretudo vivida no norte da Itália.

Os curtíssimos capítulos fazem jus à fugacidade dos episódios retidos na memória de uma menina em seus aspectos fulcrais. Na narrativa, as conclusões exaradas pela personagem são curtas e diretas, contendo o resultado do seu pensar, tantas vezes reflexivos para a idade. Os primeiros anos da infância vividos no Piemonte, ao norte da Itália, sem o pai convocado para a guerra, a resultar em “0 mundo era feito de mulheres e de espera”. Nesses tempos sombrios, mãe e filhas partem para a casa dos avós, “a casa de Domodossola era feita de espera, a de Nembro era feita de presença. Tudo ali acontecia ao mesmo tempo”. O arquivamento, na mente da criança, de circunstâncias do cotidiano será fundamental para a sua formação. São elementos estabelecidos pela autora que, centrando nos flashes do pensar da miúda, não despreza o entorno, e a existência dos anos belicosos não passaria ao largo, substanciando aquele pensar e a torná-lo menos otimista.

Como não lembrar da igreja próxima à casa dos avós: “Dela vinha o sino, a missa interminável, o latim que não compreendia, mas me hipnotizava. O cheiro do incenso me dava vertigem. Eu resistia. Resistir era uma forma de estar”. Desse cotidiano, recordações das andanças, descobrindo a natureza, árvores, frutos, folhas, resíduos pelo caminho: “pequenas coisas inúteis que para nós eram provas de existência. Eu não sabia que aquilo era felicidade. Sabia apenas que aquilo era o mundo”. Ao envenenarem um gato que amava, observaria sur le tard: “Não sabia ainda que morrer em partes seria uma constante”.

Finda a guerra, o pai volta ileso: “Não chegou como alguém que retorna, mas como alguém que se instala”. Brincava com a filha nos seus quatro anos, mas mostraria severidade. A mudança para perto de Carrara, em uma casa maior com jardim espaçoso, fica registrada na memória em seus aspectos oscilantes, com brincadeiras, mas a ter episódio que marcaria a segunda infância: “Era um exame. Disseram depois. Para mim, foi outra coisa”. A autora conduz o leitor a imaginar. Mistério.

Encontrar tênues alegrias foi um refúgio para a realidade. O regresso da escola é um desses momentos retidos: “Ao voltar, caminhava pelos campos. Catava violetas. Observava fungos estranhos, ocos como pequenas arquiteturas sem função. Eram meus momentos de acordo com o mundo. Antes de voltar para a casa”.

Milão, etapa seguinte, mercê do esgotamento nervoso do pai. As mulheres retornam à morada dos avós em Nembro. Aos nove anos, a percepção da casa faz-se outra. Mergulha doravante na leitura: “Li tudo. Li sem critério. Li como quem constrói uma casa invisível”. Estabelece a relação com a simetria, “…uma forma de calma”.

Tem interesse a empatia que terá com uma boneca de pano. Não apenas cuidava das suas roupas, mas entendia o seu silêncio: “A boneca não reclamava. Não invadia. Não exigia explicações”. A autora reitera a tendência da personagem pela simetria.

Adolescente, entende olhares em sua direção e de um menino da sua faixa recebe mensagem a dizer que ela “era bonita e ajuizada”. Sente que “havia momentos em que algo se agitava em mim sem pedir permissão”.

A autora muda o cenário. A mocinha personagem viaja com a família para o Brasil, pois o pai assinara contrato por alguns anos com empresa do país. Santos, São Paulo. Hotel e, finalmente, uma casa: “Tudo parecia uma cópia imperfeita de algo que eu perdera”. Menina-moça doravante e a infalibilidade a atingir todas as outras meninas-moças em período certo: “Eu não sentia orgulho, nem curiosidade, nem alívio. Assentia apenas uma espécie de condenação silenciosa. O corpo tinha decidido por mim”.

Aprende com facilidade a nova língua e, na escola, a leitura, já presente na infância, sofre aceleração maior: “A biblioteca tornou-se território”. Confessaria: “Se eu sobrevivi, foi lendo”.

Transcrevo o curtíssimo capítulo final:

“Anos depois, já fora daquela casa, chorei por horas seguidas-não de tristeza, mas de alívio.

Livre.

O sal ficou. O gosto do mar. O corpo que aprende tarde demais e cedo demais. A memória que ainda volta, às vezes, como um cheiro.

Mas agora eu tinha palavras.

E com elas, sobrevivi”.

Quanto ao texto, é admirável o sentido de concisão de Vera Albers. As frases de síntese apreendem não apenas um domínio absoluto da nossa língua, como contêm em tantas situações, apesar da faixa etária da personagem, o sentido pleno de máximas sobre a vida.

Recomendo vivamente a leitura de “Romancinho”.

In her first-person novel *Romancinho*, Vera Albers recounts the journey of a girl born in northern Italy during World War II, from early childhood through puberty — which she experiences in Brazil. The narrative moves from her initial childlike observations to her transformation into a young woman who, despite both positive and negative experiences, survives.