Missiva manuscrita vinda dos Países Baixos
Qual não foi minha surpresa ao receber do dileto amigo Joep Huiskamp, professor jubilado da Universidade de Eindhoven, na Holanda, e artista plástico com inúmeras exposições em seu país, uma resposta, pelos Correios, aos blogs que têm sido direcionados à temática das cartas manuscritas, hoje em acentuado processo de extinção. Nossa amizade data do ano 2000, quando em Gent, na Bélgica, estivemos durante alguns dias hospedados em casa do dileto casal Tony e Tânia Herbert. Nos anos vindouros, Joep e sua esposa Jonneke compareceram aos meus recitais de piano em várias cidades da Bélgica e estiveram, inclusive, em uma apresentação que realizei em Lisboa. Nosso relacionamento, iniciado no início do século, prolongou-se. Amante incondicional do arquipélago português dos Açores e da cultura de Portugal, tendo, entre outras contribuições, traduzido para a língua holandesa “O Mandarim”, de Eça de Queirós, Joep tem, ao longo dos anos, viajado constantemente ao belíssimo arquipélago constituído por nove ilhas. Realizei em 1992 turnê por três ilhas açorianas, Terceira, Faial e São Miguel, e sendo admirador inconteste das obras para piano do compositor português Francisco de Lacerda (1869-1934), acabei interpretando a integral para piano e gravado muitas de suas criações, motivos determinantes para o estreitamente da amizade com Joep Huiskamp, igualmente um apreciador das criações do músico nascido nos Açores.
A carta, aparentemente heteróclita, testemunha não apenas um tributo expresso ao ato de escrever correspondência à mão, mas igualmente um senso criativo com boa dose de humor. Joep mescla francês e português, as duas línguas com as quais nos comunicávamos. Desenha na folha da missiva três retratos coloridos, homenageando luminares da cultura açoriana: o escritor e poeta Antero de Quental (1842-1991), nascido em Ponta Delgada, capital da Ilha de São Miguel; Vitorino Nemésio (1901-1978), originário de Santa Cruz – Praia da Vitória, na Ilha Terceira, autor de um dos mais importantes romances portugueses, “Mau Tempo no Canal”; e Francisco de Lacerda, natural da Ribeira Seca, Ilha de São Jorge.
“Meu muito caro José Eduardo,
Naturalmente, tens razão! Escrever cartas à mão, com tinta, isso se vê cada vez menos nesses dias. E, como consequência, a caligrafia de muitas pessoas fica em frangalhos”.
Menciona o equívoco ortográfico na palavra frangalhos na sua missiva manuscrita, tendo corrigido a segunda letra a e a última sílaba. Após, narra aspectos da vida cotidiana do casal, a sua aposentadoria e brevemente a da esposa, assim como os projetos tão caros para aqueles que sabem planejar as décadas subsequentes e a vida em família, no caso. No roteiro, um regresso à Ilha de São Jorge, a fim de pintar e escrever.
A missiva do meu dileto amigo holandês tem algo que faz pensar, pois merece diversas interpretações. Se, sob determinado aspecto, há um humor fino, até sarcástico, o que muito me alegrou, revela a mensagem ilustrada a realidade sombria que aponta para o crepúsculo da correspondência manuscrita, motivo determinante para a elaboração da carta. As três ilustres figuras açorianas que tão bem ilustram o envio de Joep, personagens que fazem parte igualmente dos meus eleitos entre aqueles da extraordinária cultura lusíada, não significariam a necessidade de evidenciar a presença dos três desenhos originais e não de reproduções impressas?
O vaticínio para a missiva escrita à mão já foi dado há poucas décadas atrás. Não obstante o fato irreversível, a simples lembrança das correspondências que subsistiram desde a Grécia Antiga leva-nos a deduzir que mais profundamente se está a penetrar na era da irreversibilidade do efêmero. Mutatis mutandi, se na música alguns compositores de mérito permanecem frequentados com dedicação pelos intérpretes, tendo a plena aceitação de um público bem menos vasto, mas fiel, a produção musical da atualidade, um leque de tendências composicionais com as mais variadas formas, estilos e destinações, tende a ser descartada em tempo exíguo, salvo exceções realmente meritórias.
Consultei inúmeras pessoas nesses últimos tempos a respeito dos pendrives, a diminuta peça onde armazenavam o que deveria ser preservado, missivas internéticas inclusas. A grande maioria nem mais os utiliza e a minha pergunta sobre a destinação desses dispositivos recebeu respostas contundentes: “não sei onde os guardei” ou “joguei-os fora”.
Retomarei oportunamente às cartas manuscritas de compositores que permaneceram na história, pois outros temas já estão a pedir passagem. Não obstante, a leitura através das décadas dessa literatura, essencial para o conhecimento mais aprofundado dos compositores pesquisados, levou-me a considerar oportuno o tema do próximo blog.
Clique para ouvir, de Francisco de Lacerda, “Papillons” e “Zara”, na interpretação de J.E.M.
https://www.youtube.com/watch?v=rOa_dEmQg30&t=25s
My dear friend Joep Huiskamp, a retired professor from Eindhoven University in the Netherlands and also a painter, sent me a handwritten letter by post. A lover of the Azores, like myself, he included three of his own paintings depicting immortal figures born in the Azores archipelago.








