Navegando Posts em Literatura

Algumas decorrências

Sinto que, por mais que tenha acumulado em mim
todos os tesouros do espírito humano…
quando finalmente quero descansar um pouco,
nenhuma força nova brota do meu coração;
e não consigo crescer nem o fio de um cabelo,
nem me aproximar um pouco do infinito.
Goethe
“Fausto”
Fausto a dialogar com Mefistófoles

Estava a estudar em Paris (1958-1961) quando, sob a sugestão de Antoine Robert, dileto amigo, que me introduziu a tantas obras literárias importantes europeias, fui presenteado com a extraordinária criação de Goethe, “Fausto”, seguido do segundo “Fausto” (Paris, Le Livre Club du Libraire, s.d.), na magnífica tradução do poeta Gérard de Nerval (1808-1885). Se a obra “Os sofrimentos do jovem Werther” (1774) granjeou-lhe notoriedade na Europa, seria contudo a tragédia “Fausto”, entre tantos outros escritos de Goethe, a sua obra maior a inspirar alguns dos mais ilustres compositores do período, na qual Fausto faz um pacto com Mefisto, o diabo, no desiderato de se livrar de seus tormentos. Lembremos que, bem anteriormente a Goethe, autores da Inglaterra e da Alemanha já haviam se debruçado  sobre a temática de Fausto.

Tendo o conhecimento das duas correntes totalizantes, classicismo e romantismo, Goethe teria uma inclinação maior pela primeira, mercê de vários atributos voltados às regras preestabelecidas. Daquela leitura, que me marcaria para sempre, lembro-me de um pormenor que foi motivo de diálogos proveitosos com Antoine, fortemente versado em literatura e música. Um dos temas se encaminhou para a relevância do número três desde a Grécia Antiga, simbolizado por vários debruçamentos dos pensadores gregos e fundamental no cristianismo, “Deus, Filho e Espírito Santo”. Repassamos a exemplificação clara, na primeira parte de “Fausto”, no segmento “Gabinete de estudo”

“Fausto
Batem à porta? Entre! Quem é que vem incomodar-me outra vez?

Mefistófeles
Sou eu.

Fausto
Entre!

Mefistófeles
Tens de o dizer três vezes.

Fausto
Entre, pois!”

Uma das inúmeras “regras” no período clássico musical era a apresentação de determinado motivo duas vezes, sendo que a resolução se daria na terceira vez. J.S.Bach (1685-1750) se utiliza do processo e um exemplo transparente é o início da fuga em dó menor do primeiro volume do Cravo Bem Temperado. Jean-Philippe Rameau (1683-1764), Mozart (1756-1791), Beethoven (1770-1827) e tantos outros seguiram essa “regra”.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, “Les Cyclopes”, na interpretação de J.E.M. (na apresentação do tema, Rameau resolve na terceira exposição):

https://www.youtube.com/watch?v=xdKjHjNx700

Goethe, apesar de suas preferências, teve inúmeras de suas criações como fonte inspiradora para compositores que permanecem na história. Admirava Mozart desde o momento em que o ouviu tocar aos 7 anos de idade, tendo-o como um dos que mantinham valores voltados às normas clássicas. Entendia-o como um gênio, “um fenômeno, um milagre inexplicável”, comparando-o com outros grandes mestres das artes pictóricas do passado. A canção datada de 1785,  Das Veilchen, “A violeta”, é a única na qual Mozart se utiliza de um poema de Goethe.

Clique para ouvir, de Mozart, o lied “Das Veilchen” (A Violeta), na interpretação da soprano Barbara Bonney, tendo ao piano Geoffrey Parssons:

https://www.youtube.com/watch?v=zDSSLo0OSMw

Em relação a Beethoven, data de 1812 o encontro com Goethe, amistoso no início, pois o poeta se encantou com as qualidades do compositor e pianista, a ponto de escrever à sua esposa: “nunca vi um artista mais concentrado, mais enérgico e fervoroso”. De sua parte, Beethoven considerava Goethe o grande pensador da língua alemã. A surdez do compositor, a influenciar seu temperamento, foi um dos motivos a distanciá-los para sempre.

Beethoven compôs várias obras, como lieder e outras mais a partir de poemas de Goethe, destacando-se Egmont, música de cena constituída de uma abertura e nove outras partes em que participam soprano, recitante e grande orquestra. A abertura é muito frequentada pelas orquestras em todo o mundo.

Clique para ouvir, de Beethoven, a abertura de “Egmont” (drama de Goethe), com a orquestra Gewandhaus sob a regência de Kurt Masur:

https://www.youtube.com/watch?v=0oaazxCPNwU

Franz Schubert (1797-1828) criou 72 lieder a partir de poemas de Goethe. Fazem parte referencial do repertório para canto e piano.

Clique para ouvir, de Schubert, “Der Erkönig” (O Rei dos Elfos), na interpretação excelsa do barítono Hermann Prey, tendo ao piano Karl Engel:

https://www.youtube.com/watch?v=QeIw7Y4UEHY

Franz Liszt (1811-1886) igualmente cultuou a obra literária de Goethe e sua “Sinfonia Fausto” é pujante exemplo. Comporia igualmente lieder ― estes, tributários às criações literárias do poeta alemão. A primeira e mais conhecida das quatro valsas Mefisto de Liszt decorre da lembrança do personagem de Goethe em seu “Fausto”.

Clique para ouvir, de Franz Liszt, “Valsa Mefisto”, na interpretação maiúscula de Geörgy Cziffra:

https://www.youtube.com/watch?v=Cy9Cwrwea9U

Uma das composições mais importantes de Hector Berlioz (1803-1869) é La Damnation de Faust (A Danação de Fausto), drama em quatro partes, no qual o compositor tardiamente retrabalha determinadas cenas compostas décadas atrás sobre o tema extraído da obra de Goethe.

Charles Gounod (1818-1893) escreveria uma ópera em cinco atos, “Fausto”, cujo libreto tem a origem originária no poema de Goethe.

Significativo o fato de que compositores, desde aqueles mais representativos, e outros tantos sem a mesma dimensão, terem se interessado não apenas pelo drama “Fausto” de Goethe, como também pela quantidade de poemas esparsos, testemunhando a importância transcendental de Wolfgang von Goethe.

How “Wolfgang von Goethe’s tragic masterpiece, ‘Faust’, profoundly influenced countless prominent composers across the late 18th and 19th centuries.”

 

 

Leva a pensar

Não tinha ainda aprendido a desconfiar do futuro.
Vera Albers
“Romancinho”

Recebi, de uma dileta amiga, livro que a partir do título, “Romancinho”, delimita a sua dimensão. A autora relata, na primeira pessoa, a saga de uma personagem da primeira infância à mocidade, na sequência da própria transformação física e mental. Nas 49 páginas, o enredo traduz com precisão histórica e geográfica o desenrolar da trama, sobretudo vivida no norte da Itália.

Os curtíssimos capítulos fazem jus à fugacidade dos episódios retidos na memória de uma menina em seus aspectos fulcrais. Na narrativa, as conclusões exaradas pela personagem são curtas e diretas, contendo o resultado do seu pensar, tantas vezes reflexivos para a idade. Os primeiros anos da infância vividos no Piemonte, ao norte da Itália, sem o pai convocado para a guerra, a resultar em “0 mundo era feito de mulheres e de espera”. Nesses tempos sombrios, mãe e filhas partem para a casa dos avós, “a casa de Domodossola era feita de espera, a de Nembro era feita de presença. Tudo ali acontecia ao mesmo tempo”. O arquivamento, na mente da criança, de circunstâncias do cotidiano será fundamental para a sua formação. São elementos estabelecidos pela autora que, centrando nos flashes do pensar da miúda, não despreza o entorno, e a existência dos anos belicosos não passaria ao largo, substanciando aquele pensar e a torná-lo menos otimista.

Como não lembrar da igreja próxima à casa dos avós: “Dela vinha o sino, a missa interminável, o latim que não compreendia, mas me hipnotizava. O cheiro do incenso me dava vertigem. Eu resistia. Resistir era uma forma de estar”. Desse cotidiano, recordações das andanças, descobrindo a natureza, árvores, frutos, folhas, resíduos pelo caminho: “pequenas coisas inúteis que para nós eram provas de existência. Eu não sabia que aquilo era felicidade. Sabia apenas que aquilo era o mundo”. Ao envenenarem um gato que amava, observaria sur le tard: “Não sabia ainda que morrer em partes seria uma constante”.

Finda a guerra, o pai volta ileso: “Não chegou como alguém que retorna, mas como alguém que se instala”. Brincava com a filha nos seus quatro anos, mas mostraria severidade. A mudança para perto de Carrara, em uma casa maior com jardim espaçoso, fica registrada na memória em seus aspectos oscilantes, com brincadeiras, mas a ter episódio que marcaria a segunda infância: “Era um exame. Disseram depois. Para mim, foi outra coisa”. A autora conduz o leitor a imaginar. Mistério.

Encontrar tênues alegrias foi um refúgio para a realidade. O regresso da escola é um desses momentos retidos: “Ao voltar, caminhava pelos campos. Catava violetas. Observava fungos estranhos, ocos como pequenas arquiteturas sem função. Eram meus momentos de acordo com o mundo. Antes de voltar para a casa”.

Milão, etapa seguinte, mercê do esgotamento nervoso do pai. As mulheres retornam à morada dos avós em Nembro. Aos nove anos, a percepção da casa faz-se outra. Mergulha doravante na leitura: “Li tudo. Li sem critério. Li como quem constrói uma casa invisível”. Estabelece a relação com a simetria, “…uma forma de calma”.

Tem interesse a empatia que terá com uma boneca de pano. Não apenas cuidava das suas roupas, mas entendia o seu silêncio: “A boneca não reclamava. Não invadia. Não exigia explicações”. A autora reitera a tendência da personagem pela simetria.

Adolescente, entende olhares em sua direção e de um menino da sua faixa recebe mensagem a dizer que ela “era bonita e ajuizada”. Sente que “havia momentos em que algo se agitava em mim sem pedir permissão”.

A autora muda o cenário. A mocinha personagem viaja com a família para o Brasil, pois o pai assinara contrato por alguns anos com empresa do país. Santos, São Paulo. Hotel e, finalmente, uma casa: “Tudo parecia uma cópia imperfeita de algo que eu perdera”. Menina-moça doravante e a infalibilidade a atingir todas as outras meninas-moças em período certo: “Eu não sentia orgulho, nem curiosidade, nem alívio. Assentia apenas uma espécie de condenação silenciosa. O corpo tinha decidido por mim”.

Aprende com facilidade a nova língua e, na escola, a leitura, já presente na infância, sofre aceleração maior: “A biblioteca tornou-se território”. Confessaria: “Se eu sobrevivi, foi lendo”.

Transcrevo o curtíssimo capítulo final:

“Anos depois, já fora daquela casa, chorei por horas seguidas-não de tristeza, mas de alívio.

Livre.

O sal ficou. O gosto do mar. O corpo que aprende tarde demais e cedo demais. A memória que ainda volta, às vezes, como um cheiro.

Mas agora eu tinha palavras.

E com elas, sobrevivi”.

Quanto ao texto, é admirável o sentido de concisão de Vera Albers. As frases de síntese apreendem não apenas um domínio absoluto da nossa língua, como contêm em tantas situações, apesar da faixa etária da personagem, o sentido pleno de máximas sobre a vida.

Recomendo vivamente a leitura de “Romancinho”.

In her first-person novel *Romancinho*, Vera Albers recounts the journey of a girl born in northern Italy during World War II, from early childhood through puberty — which she experiences in Brazil. The narrative moves from her initial childlike observations to her transformation into a young woman who, despite both positive and negative experiences, survives.

 

 

Uma aventura que ficará na história

O maior desafio da minha carreira foi aceitar
minha filha fazer coisas piores do que eu fazia.
Amyr Klink
“documentário”

Para meu pai.
Quando eu era pequena,
você me contava histórias do seu inverno no mar gelado.
Eu tinha muitas perguntas. Essa viagem começou ali.
Tamara Klink
“Bom dia, inverno”

No dia dos pais, uma das filhas me presenteou com o relato personalíssimo de Tamara Klink, “Bom dia, Inverno” (São Paulo, Companhia das Letras, 2026), sabedora de que aprecio igualmente livros de aventura. Desde a adolescência, admiro as ousadias humanas que estimulavam a imaginação. Estou a me lembrar da leitura da “Expedição Kon-Tiki”, de Thor Heyerdahl (1914-2002), nos anos 50, a integral de Saint-Exupéry (1900-1944) durante o período em que estudei na França, e as bem posteriores sobre as incursões no Himalaia de vários autores, tanto sobre o Everest como o K2. Do aventureiro francês Sylvain Tesson (1972-), ao longo dos blogs, cerca de dez livros foram resenhados

Conheci Amyr Klink, pai da autora de “Bom dia, inverno”, em um restaurante árabe no Campo Belo, bairro da zona sul de São Paulo. Em uma segunda oportunidade entreguei-lhe um CD com composições do notável Francisco de Lacerda (1869-1934), pois Klink iria permanecer longo tempo na Antártida. As “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” focalizam a fauna terrestre e aquática. Toda a extraordinária coletânea está no Youtube divididas em três blocos. Na terceira, Lacerda apresenta vários animais que frequentam as águas e as terras, inclusive “Les Pingouins” (nº34), que vivem na Antártida. Meses após, reencontro Amyr Klink no mesmo restaurante e ele me afirmou que em momentos de absoluta solidão ouvia o referido CD, fato que me alegrou ao saber que as obras do ilustre compositor açoriano estavam a ser ouvidas em circunstâncias tão especiais.

“Bom dia, inverno”materializa um dos anseios da autora, que já havia anteriormente atravessado o Atlântico vinda do continente africano, mas almejava feito mais absoluto, que se tornou realidade após os oito meses passados no Ártico. Deslocou-se em seu pequeno veleiro, Sardinha2, até a Groenlândia e, durante longos 8 meses, permaneceu num fiorde, pois tinha como desiderato viver o pleno inverno ártico, a ausência da luz externa sem a presença do sol e no mais absoluto solilóquio, salvo a presença brevíssima de pescadores ou caçadores pela região que chegou a conhecer.

“Bom dia, inverno” distancia-se da grande maioria dos relatos de aventuras excepcionais. Dir-se-ia, uma absoluta confissão do de profundis de Tamara, mas igualmente a vivência em circunstâncias meteorológicas quase extremas, sem quaisquer barreiras, externando os mínimos pormenores do seu cotidiano, como alimentação, higiene, afazeres domésticos realizados na precariedade do seu veleiro Sardinha2, assim como incursões fora da embarcação, não apenas passeios solitários para conhecer entornos, a fauna, observar o firmamento e o fenômeno da aurora boreal. Naqueles oito meses deparou-se com as transformações das noites intermináveis à volta solar progressiva.

A necessidade imperiosa de vivenciar a solidão em seu veleiro, apesar de saber de todas as possibilidades reais e imponderáveis, atravessa a narrativa de maneira coloquial, sem pretensões outras a não ser transmitir o que sente. Em uma circunstância mais aguda quase morreu ao pisar no gelo frágil e ficar por instantes numa temperatura de 26º graus negativos. Lição aprendida. Compensa o isolamento humano com “fraterna” interação com pássaros, máxime raposas, nomeando algumas, apesar de nenhum contato físico. Inúmeras vezes seu barco recebeu a visita dessas raposas do Ártico.

Tem interesse desvelamentos de Tamara: “Quanto mais cansada, mais sonho e realidade se confundem”; “Os sonos curtos são eficazes, mas têm pequenos efeitos colaterais, como a perda da memória e de lucidez. Como desconfio da minha cabeça, sigo a lista de instruções que criei para não perder energia tomando decisões: a cada vinte minutos, verificar se há barcos ao redor e se as velas estão bem reguladas: a cada quatro horas, verificar se há algo estranho no cockpit, se tem água entrando debaixo do piso, comer, beber água, ir ao banheiro (ou ao balde azul), sempre pôr o colete e me amarrar do lado de fora, anotar todos os eventos no diário de bordo”. Um outro parágrafo tem efeito essencial para aqueles que realmente amam a solidão como Tamara: “Enquanto procurarmos o amor no outro, faremos da solidão nossa rival. Veremos apenas o que ela tem de escuro: silêncio, sombras, vazio, imensidão, segredos, medo. Tentaremos combatê-la nos cercando de gente estranha, de vozes intrometidas, de luzes que piscam. Tentaremos afogá-la com bebidas e poções, esquecê-la com distrações. Tentaremos explodi-la e explodiremos a nós mesmos. Porque somos feitos de solidão: enquanto procuramos o amor no outro, perdemos a chance de fazer da solidão nossa aliada, dando ao outro a chave do nosso prazer”. Não poucas vezes, e é necessário frisar, Tamara se sente imensamente feliz durante a longa solidão Ártica.

Na narrativa de Tamara a família não se ausenta. A avó é permanente interlocutora, mãe e pai são citados, e as citações a este são frequentes: “Criança, sonhei ser muitas coisas. Quando pedi para meu pai me ajudar a aprender a navegar como ele, ele responder que sua ajuda seria não me ajudar”. Sabedor de todas as adversidades possíveis nessas navegações solitárias, um pai responsável só poderia dar essa resposta precisa. Em outro segmento: “… se um dia eu for mãe, provavelmente não poderei fazer o que meu pai fez sendo pai. O pai que corre riscos recebe prêmios. A mãe que corre riscos recebe críticas”.

“Bom dia, inverno” é um diário pleno de alternativas centradas sempre num arguto senso de observação de Tamara. Majoritariamente, revela suas sensações frente à solidão e se, por vezes, tem contato com pescadores, caçadores e, quando ancorada em porto frequentado por outros barcos e veleiros, com personagens diversificados, esses encontros são fortuitos e desaparecem do relato.

Um feito absolutamente excepcional realizado por uma jovem aos 26-27 anos, nessa passagem para a idade madura, numa região inóspita sob tantos aspectos, mas com a certeza de que era um objetivo a ser alcançado.

Presentemente, Tamara empreende uma outra viagem admirável, a travessia solitária e plena de riscos, no seu Sardinha2, pela ligação dos Oceanos Pacífico e Atlântico, tendo já cruzado o icônico Mar de Bering. Nossos pensamentos positivos para a brava aventureira.

A recepção ao livro tem sido imensa e plena de merecimento.

The book “Good Morning, Winter”, by Tamara Klink, is a fascinating read that recounts the adventure of a young sailor who spent eight long months anchored in a fjord in Greenland aboard her sailboat “Sardinha2,” bravely weathering