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Thomas Bernhard frente ao niilismo

Dos fracos não reza a História
Camões

Recebi de meu querido amigo, ilustre neurocirurgião Edson Amâncio, o livro “O Náufrago”, do escritor austríaco Thomas Bernhard (1931-1989). Ficcional, a temática tem como princípio o piano no seu nível mais elevado sob o plano interpretativo e três figuras fulcrais do romance, o ilustre pianista canadense Glenn Gould (1932-1982) e dois colegas, o narrador, anônimo sempre, e Wertheimer, colega de classe, sob a tutela do consagrado pianista Horowitz (o primeiro nome, Vladimir, nunca aparece), durante os cursos no Mozarteum de Salszburgo no pós-guerra.

Inúmeras leituras podem ser feitas a partir da longa narrativa onde inexistem parágrafos, exceção ao início, tornando o texto ininterrupto, possivelmente com o desiderato de demonstrá-lo à maneira de um ostinato, termo usado na área musical.

Os dois personagens, o narrador e Wertheimer, pianistas de talento, colegas de Glenn Gould, entendem de imediato a qualidade do pianista canadense, sabedores  de  que jamais chegarão a sequer ombreá-lo. Bastaram os primeiros compassos das Variações Goldberg, de J.S.Bach, interpretadas por Gould para que, destruído pela impossibilidade de se tornar Glenn Gould, Wertheimer perde irreversivelmente a vontade de continuar e abandona os estudos, caminhando fatalmente para o destino final, o suicídio. Sem o talento de Wertheimer, o narrador igualmente perde a ambição de pontificar como pianista. Glenn Gould teria sido a causa: “Foi ele quem tornou nosso virtuosismo impossível, e isso numa época em que nós dois acreditávamos ainda firmemente nesse nosso virtuosismo”.

Obcecado pela trajetória de Wertheimer e de seus escritos, mormente após a autodestruição do ex-colega, o narrador penetra no âmago das angústias que teriam acompanhado a trajetória do infortunado, acabando por saber que as “milhares de anotações retiradas de gavetas e armários” do colega suicida foram por ele jogadas ao fogo.

Thomas Bernhard se utiliza do fluxo de consciência e prioritariamente, durante o texto ininterrupto, impera o niilismo extremo. Acentua como técnica literária a repetição, e ela não se apresenta poucas vezes. A reiteração enfatiza ainda mais a desdita, no caso, do seu ex-colega Wertheimer, assim como, sob outra égide, as qualidades pianísticas do músico canadense: “Terminado o curso, ficou claro que Glenn era já melhor pianista do que o próprio Horowitz e, daquele momento em diante, Glenn passou a ser para mim o virtuose do piano mais importante no mundo todo; de todos os muitos pianistas que ouvi a partir de então, nenhum tocava como Glenn…”. Não são poucas as vezes em que o narrador menciona superlativamente Glenn Gould.

A quase que fixação em Wertheimer, sua infausta trajetória e seus escritos extrapola a desistência do colega e se estende àqueles que, ao não atingirem um resultado pianístico que os levaria à denominada carreira, encontram no ensino em conservatórios os seus destinos. Em três constatações o narrador, após o ímpeto inicial voltado à possível carreira como pianista, revela consequências da sua desistência, que se acentuam no decorrer da narrativa. É cáustico nessas afirmações: “Munidos do propósito inicial de se tornarem grandes virtuoses, nossos antigos colegas de curso vivem agora há anos sua existência como nada mais do que professores de piano, pensei; autodenominam-se pedagogos musicais e levam uma vida medonha de pedagogo, à mercê de alunos sem qualquer talento e da megalomania e avidez pelo sucesso artístico dos pais destes; e, em seus lares pequeno-burgueses, sonham com a aposentadoria de pedagogos musicais. Noventa e oito por cento dos estudantes de música chegam a nossas academias munidos da máxima ambição; concluído o curso, passam então as décadas seguintes da forma mais ridícula, como professores de música, pensei”. Ridicularizando o professor de piano que se dedica aos alunos da formação básica, desconhece que a maioria dos que conseguiram atingir níveis de excelência iniciaram seus estudos com professores da categoria apontada. Continua o narrador: “Dessa existência, tanto eu quanto Wertheimer fomos poupados, bem como daquela outra, que também sempre detestei com igual intensidade e que conduz nossos conhecidos e famosos pianistas de uma metrópole a outra, de uma estação de águas a outra, e por fim de um nicho provinciano a outro, até paralisar-lhes os dedos e até que a senilidade interpretativa tenha tomado posse total deles. Chegando a uma cidadezinha provinciana, logo vemos numa placa pregada em uma árvore o nome de um dos nossos ex-colegas, que tocará Mozart, Beethoven e Bártok no único auditório do lugar, na maioria das vezes um salão decadente de restaurante, pensei, e a visão nos embrulha o estômago”. Em outro trecho, o narrador comenta, certamente por não ter atingido aquilo que almejava: “Ser concertista é uma das coisas mais horríveis que se pode imaginar, qualquer que seja o instrumento, tocar piano diante de um público é horrível, tocar violino diante de um público é horrível, e isso para não falar no horror que temos que suportar quando cantamos diante de um público, pensei”.

Somam-se às posições negativistas quanto à destinação daqueles que não atingiram a excelência pianística a crítica ácida à Suíça, “tudo é podre” e à Áustria, “sujeira das cozinhas austríacas”. O narrador estende as suas frustrações a tudo e a todos.

“O Náufrago” seria, pois, um livro a ser prontamente descartado? Rigorosamente não. Antolha-se-me extraordinário, pois expõe de maneira insistente e repetitiva a impossibilidade da realização se o almejo for o pico da montanha profissional, mercê de tantas circunstâncias que vão sendo elencadas na sequência da narrativa. Se o narrador e Wertheimer desistiram por saber que não seriam os maiores pianistas, esta sensação certamente existe entre determinados músicos. Um fator é essencial, pois há gradações no nível de excelência. A insigne pianista romena Clara Haskil (1895-1960), entre alguns exemplos notáveis, consagrou-se interpretando Scarlatti, Mozart, Schubert e Schumann, preferencialmente, apesar da escoliose acentuada. Se não executou determinadas obras transcendentais frequentadas na época por Vladimir Horowitz (1903-1989), György Cziffra e Jorge Bolet (1914-1990), como exemplos, isso não a impediu de estar no Olimpo dos grandes intérpretes da História. O maior do mundo, inúmeras vezes citado pelo narrador, não existe, pois escolhas repertoriais precisas impedem a avaliação do melhor entre pianistas notáveis. Wertheimer e o narrador almejavam o topo individualizado, e a decepção ao ouvirem Glenn Gould lhes ceifou quaisquer intenções.

Thomas Bernhard atinge a origem originária da decepção. Wertheimer e o narrador não teriam renunciado à carreira pianística que se desenhava sem predisposições mentais que conduzissem ao desfecho. Na minha juventude, conheci colegas em nossas terras e máxime na França, durante meus estudos pianísticos, que declinaram da carreira e se tornaram músicos multidirecionados competentes para o magistério pianístico, teórico ou para a composição, sendo que alguns se tornaram ótimos músicos de câmara. O campo é amplo.

Um ano após a morte de Glenn Gould, meu irmão João Carlos Martins foi convidado pelos pais do pianista canadense para o First Glenn Gould Memorial Concert na cidade de Toronto (Março de 1983), apresentando as célebres Variações Goldberg, obra paradigmática no repertório de Glenn Gould e um leitmotiv no romance de Thomas Bernhard. Considere-se que João Carlos gravou no Exterior a integral de J.S.Bach para cravo interpretada ao piano.

https://www.youtube.com/watch?v=XUXdIa8V6PM

‘The Castaway’, by Austrian writer Thomas Bernhard, allows for many interpretations. Fictional, the novel questions the difficult rise to a career as a pianist with its hopes, frustrations and even tragedy. Three essential figures make up the plot, including Canadian pianist Glenn Gould.

 

 

 

 

João Gouveia Monteiro diante de relevante programação

Ignorar as vidas dos homens mais ilustres da antiguidade
é continuar sempre na infância.

Plutarco (46 d.C. – 120 d.C.)

Recebi do meu dileto amigo João Gouveia Monteiro, professor Catedrático Jubilado da Universidade de Coimbra e um dos maiores especialistas em História Medieval, a comunicação alvissareira de uma série de podcasts voltada a personagens do mundo antigo. Gouveia Monteiro tem nesse belo projeto a colaboração do jornalista Ricardo Venâncio.

Bem anteriormente, a produção histórico-literária de Gouveia Monteiro já me despertava vivo interesse. Vários foram os blogs sobre a sua obra individual, máxime “Crónicas da História, Cultura e Cidadania” (23/12/2011) e “Nuno Álvares Pereira – Guerreiro, Senhor Feudal, Santo – Os três rostos do Condestável” (05 e 12/11/, 2022), assim como sobre livros em que foi um dos coordenadores, sempre a focalizar a sua área de atuação.

Gouveia Monteiro, em “Vidas em Paralelo”, presta homenagem a Plutarco, referencial historiador, pensador e biógrafo grego. Entre suas obras, destaca-se “Vidas Paralelas”, na qual, nos 23 pares biográficos, rende preito às figuras notáveis da Grécia e Roma Antigas. Estou a me lembrar de que nosso Pai conservava um volumoso “Vidas Paralelas” e os quatro filhos tiveram o prazer de ler na juventude algumas dessas duplas biografias.

No plano inicial, dele a constar 10 podcasts, estão assinalados os já disponíveis. Em alguns participa a historiadora Leonor Pontes. João Gouveia Monteiro, por vezes, é questionado pelo jornalista Ricardo Venâncio, momento em que cada intervenção poderia certamente ser a de um ouvinte da série. Essas criteriosas perguntas, prontamente respondidos por Gouveia Monteiro, tornam-se relevantes, ressaltando outros pormenores acrescidos à exposição planejada.

1. Alexandre Magno e Júlio César. (já disponível, Partes I e II). 2. Buda e Confúcio. (já disponível, Partes I e II). 3. D. João I e Nuno Álvares Pereira. (já disponível, Partes I, II e III). 4. Leonor Teles e Filipa de Lencastre (com Leonor Pontes). (já disponível, Partes I e II). 5. Jesus e Maomé. (já disponível, Partes I e II). 6. Fernão Lopes e Pero López de Ayala. 7. Justiniano e Carlos Magno. 8. Cristina de Pisano e Joana d’Arc. 9. D. Dinis e a Rainha Santa (com Leonor Pontes). 10. Carlos Seixas e Beethoven (com Paulo da Nazaré Santos).

https://podcasts.apple.com/us/podcast/vidas-em-paralelo-um-podcast-com-hist%C3%B3ria/id1843058148

Acessado o link, o leitor poderá ouvir a apresentação do tema escolhido. Dois aspectos se me afiguram como fundamentais, a competência insofismável de Gouveia Monteiro traduzida pela serenidade da sua narração, assim como o método empregado para a trama expositiva, tornando o todo do podcast selecionado extremamente agradável e instrutivo.

Divulgá-los no Brasil adquire importância, pois os temas, com exceções, são pouco debatidos no país. Paulatinamente estou a ouvir os podcasts, entre eles um dos programas dedicados a D. João I (1357-1433) e Nuno Álvares Pereira (1360-1431) e o primeiro a focalizar Jesus e Maomé. Após as leituras de dois livros referenciais sobre Nuno Álvares Pereira de autoria de J.P. de Oliveira Martins (1845-1894), e o já mencionado livro de Gouveia Monteiro, a narrativa deste nessa programação indispensável traduz de maneira clara e sucinta duas das mais relevantes figuras da História em Portugal. Poder-se-ia afirmar que, no espaço de aproximadamente uma hora fixado para cada programa, tem-se outros fatos essenciais de personagens marcantes de um heroico passado histórico de Portugal, assim como da Antiguidade: Alexandre Magno e Júlio César, Justiniano e Carlos Magno, Cristina de Pisano e Joana D’Arc… Quanto aos dois podcasts referentes a Jesus e Maomé, eles adquirem uma complexa, mas vital importância na atualidade, pois abordam as duas religiões mais professadas no mundo. No que concerne a este último tema, assim como Buda e Confúcio, podcasts que visitarei brevemente, Gouveia Monteiro já coordenara a fundamental edição “História Concisa das Grandes Religiões” (Lisboa, Manuscrito, 2022).

Próximo do milésimo post (998), incontáveis vezes salientei a triste derrocada da Cultura Humanística, no Brasil de maneira avassaladora. Mario Vargas Llosa (1936-2025), em “La Civilización del espetáculo”, já apregoava essa decadência em termos mundiais. Personagens em nosso país, sem a estrutura cultural ao menos envernizada, proliferam nos meios de comunicação como influencers, o infeliz termo da moda, e o resultado está a ser notado na formação das novas gerações. “Notabilizados”, esses influencers ocupam espaços avantajados na mídia, e temas culturais relevantes tornaram-se escassos. Preocupação maior dos meios de comunicação do país é a divulgação dos que vivem sob os holofotes, e a Cultura Humanística, não tendo interesse para a grande “clientela” devido a tantos entraves, oficiais ou não, por que com ela se importar?

Convido meus leitores, muitos deles me acompanhando desde 2 de Março de 2007, a paulatinamente ouvirem os podcasts. Uma bela e empolgante viagem pela História.

Clique para ouvir, de Carlos Seixas (1704-1742) a Sonata em Si bemol Maior (nº 78), na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=E8GX3qIjfLI

‘Vidas em Paralelo’ (Parallel Lives), divided into 10 podcasts, is a programme dedicated to illustrious figures in human history. Presented by João Gouveia Monteiro, retired professor of the University of Coimbra, the series features the collaboration of journalist Ricardo Venâncio.

A proximidade de duas visões do universo infantil

A vida, onde quer que ela se manifeste;
a verdade, por mais amarga que seja; palavras sinceras e ousadas,
dirigidas aos homens sem rodeios: eis o meu ponto de partida,
eis a que aspiro e temo falhar.
É nessa direção que sou empurrado,
é assim que permanecerei.
Modest Moussorgsky (1839-1881)
Carta ao amigo Vladimir Stassov (1824-1906)
(7 de Agosto de 1875)

Defendamos que a beleza de uma obra de arte permanecerá sempre misteriosa,
ou seja, nunca poderemos verificar exatamente «como é feita».
Preservemos, a todo o custo, essa magia peculiar à música.

Por sua essência, ela é mais suscetível de contê-la do que qualquer outra arte.
Claude Debussy (1862-1918)
(“Monsieur Croche et autres récits”)
(15 de Fevereiro de 1913)

Os Cahiers Debussy (nº 9) publicaram, em 1985, artigo a versar sobre “La vision de l’univers enfantin chez Moussorgsky et Debussy”. Nele busquei uma outra importante relação de Debussy com uma criação maiúscula para piano de Moussorgsky. Anteriormente, estudos de ilustres musicólogos apontaram comparações claras entre as óperas Boris Godounov, do compositor russo, e Pélleas et Mélisande, de Debussy, assim como do ciclo de canções Chambre d’enfants, com texto e música de Moussorgsky, com Children’s Corner para piano, de Debussy. É Moussorgsky que tardiamente escreverá: “Minha relação familiar com a niania (babá) me iniciou precocemente a todos os contos russos. Era ainda menino e esses contos russos muitas vezes me impediam de dormir”.  E as babás cantavam para os miúdos, músicas do cancioneiro voltado à infância.

Quanto a Debussy, o universo infantil terá influência em algumas das suas criações. O fato de ter continuado a viver com os seus pais, enquanto dois irmãos foram educados por uma tia; a razão de ter sido filho primogênito e o preferido; a ausência da escola primária, sendo transparente a influência materna (mãe e professora) que o iniciou no aprendizado não musical; a prisão do seu pai durante a Commune em 1871, tudo contribuiu para torná-lo, em certa dimensão, o homem da casa.  Dois momentos seriam decisivos para a compreensão da sua infância, que, saliente-se, seria mantida em segredo. Episódios fulcrais fizeram-no se amalgamar ao universo infantil: o ciclo de canções Chambre d’enfants, de Moussorgsky, e o nascimento de sua filha Claude-Emma, a sua Chouchou (1905-1919). Debussy considerava Moussorgsky “um dos mais importantes compositores contemporâneos, talvez o maior.” (René Peter, Claude Debussy, Paris, 1944). Escreveria para a Revue blanche: “Ninguém falou mais àquilo que de melhor existe em nós e com um acento mais carinhoso e profundo; ele é único e continuará a sê-lo por sua arte sem artifícios, sem fórmulas enfadonhas” (15/04/1901).

Clique para ouvir, de Moussorgsky, do ciclo Chambre d’enfants, Cavaleiro, na interpretação de Elly Ameling, tendo ao piano Rudolf Jansen:

https://www.youtube.com/watch?v=a8fRmlCmnG8&t=807s

Observa-se, em alguns títulos de obras para piano de Debussy, a visitação ao universo infantil, como em Nous n’irons plus au bois; Do,do, l’enfant dormira bientôt e Au clair de la lune, que fazem parte do repertório das canções destinadas à infância. Em 1915, Debussy comporia Noël des enfants qui n’ont plus de maisons.

Com o nascimento de Chouchou, alguns dos segredos mantidos no de profundis de Debussy relacionados à sua infância começam a aflorar. Children’s Corner et La Boîte à Joujoux (ballet pour enfants) são dedicadas à sua filha e, nessas criações, a aproximação com Moussorgsky se torna evidente.

Quanto aos Quadros de uma Exposição, obra essencial de Moussorgsky e um dos ícones da literatura pianística, foi composta em 12 dias de um só élan. Moussorgsky escreve ao seu amigo Vladimir Stassov (1824-1906) aos 12 de Junho de 1874 e menciona inicialmente a sua ópera Boris Godounov: “Hartmann ferve como ferveu Boris. Os sons e as ideias se me apresentam como pombos grelhados”. A exposição de aquarelas, de projetos e maquetes em homenagem ao seu saudoso amigo Victor Hartmann (1834-1873) suscitou um período de produção alucinante. Moussorgsky perpetua em sua obra a tradição narrativa, transmitida desde a infância pela sua niania e assimilada de maneira indelével. O compositor transforma os resultados pictóricos de Hartmann, após inúmeras visitas à mostra, em fio condutor claro, através da observação minuciosa do Promeneur, esse visitante presente em muitas variações do tema a anteceder ou integrar episódios dos Quadros de uma Exposição. “Minha fisionomia aparece nos intermédios”, escreve. Stassov relata “Ele se representa a caminhar pela exposição, lembrando-se por vezes com alegria, outras com tristeza, do grande artista que morrera”.

A visita às aquarelas de Hartmann resulta no retorno à infância do músico russo. É tão evidente essa amálgama aquarela-criação musical em quadros como Gnomus, Tuilleries (crianças a brigar enquanto brincam), Balé dos pintinhos em suas cascas, a Cabana sobre patas de galinha (Baba-Yaga), e outros mais até com certo humor, como Limoges (A praça do mercado – a grande nova ou Samuel Goldenberg e Schmuyle (o judeu rico e o judeu pobre). Quanto às Catacumbas (de Paris e Com mortuis in língua mortua, Stassov relata observação do compositor: “O espírito criador de Hartmann me conduz em direção aos crânios, endereçado a eles, e os crânios começam a brilhar docemente”.Moussorgsky, em sua plenitude russa, mas a admirar a cultura francesa (TuilleriesLimoges), não evidencia  no quadro final, A Grande porta de Kiev, lembrança, consciente ou não, da célebre canção popular francesa Frère Jacques? A semelhança dos temas, a lembrança dos sinos, nos dois casos, não têm uma clara conotação com a infância?

Insiro neste post, com um propósito definido, o tema de Frère Jacques e, após, compassos dessa canção e o início da Porta de Kiev, que ilustram o artigo em pauta.

Faço um parêntesis. Uma de nossas netas, Valentina, perguntou-me, após ficar surpresa ao saber dessa “descoberta”, se ela já era de domínio público. Acessou o meu computador e a pergunta formulada em francês teve a resposta na mesma língua, via IA:

“Não, José Eduardo Martins não demonstrou que a Porta de Kiev de Moussorgsky se inspirou em Frère Jacques no Cahiers Debussy nº 9. A afirmação é falsa. Na realidade a ligação entre essas duas obras musicais é uma ideia que circula na internet, mas ela não é sustentada por nenhuma publicação acadêmica ou musicológica séria, nem pela análise de José Eduardo Martins.

A semelhança sonora percebida entre as duas melodias, especialmente na versão orquestral de Ravel, é uma coincidência e não uma intenção do compositor. Moussorgsky utilizou sinos russos e um canto ortodoxo para a peça, e não uma canção infantil francesa.

Erro de fato: a afirmação é falsa
Nenhuma prova: Não existe nenhuma publicação acadêmica credível que sustenta essa hipótese.
Ideia errada: A ideia de uma inspiração é um rumor circulando na internet sem fundamento real.
Frère Jacques: esta canção é uma melodia francesa que não tem ligação com a obra de Moussorgsky.

Entendo como um absurdo. Quando demonstrei ao Diretor do Centre de Documentation Claude Debussy, em Paris, o notável musicólogo e bibliotecário François Lesure (1923-2001), autor de livros referenciais sobre Debussy, da catalogação de sua obra e da reunião da correspondência, comparando o tema grandioso da Grande Porta de Kiev com a canção popular francesa Frère Jacques, mormente após ter-me debruçado sobre vários livros confiáveis a respeito de Moussorgsky, máxime o fruto da sua vocação epistolar expressiva, e de ter apresentado em público a integral para piano do compositor russo e também a de Debussy; François Lesure, em sua sala no Centre de Documentation Claude Debussy, 2, rue Louvois, disse-me surpreso: “Voilà, c’est l’oeuf de Colomb”, convidando-me de imediato para escrever o artigo sintetizado neste post. A Inteligência Artificial, ao declarar que “…ela não é sustentada por nenhuma publicação acadêmica ou musicológica séria”, não apenas desconhece a importância dos “Cahiers Debussy”, a mais respeitável publicação mundial sobre Claude Debussy, como afirma ser falsa a minha constatação. Reitero a minha indignação pelas informações sem fundamentos dessa ferramenta que, bem ou mal, veio para ficar, a IA. Por acaso pesquisaram os escritos de Moussorgsky relacionados à sua infância e suas composições voltadas ao universo infantil? Independentemente de Chambre d’enfants e dos Quadros de uma Exposição, tem-se para piano:  Lembrança da infância, Brincadeira de crianças no recanto, Brincadeiras de crianças (2ª versão), A babá e eu, A primeira punição, evidenciando esse verdadeiro culto à infância potencializado no ciclo de canções Chambre d’enfants e nos Quadros de uma Exposição. Maior clareza do que a semelhança temática mencionada, parece-me impossível. Reitero as palavras do Mestre François Lesure, “Ovo de Colombo”. Após recital que dei em Gent, na Bélgica, quando do lançamento do CD Moussorgsky-Debussy pelo selo De Rode Pomp, conversei com músicos russos que estavam se apresentando na temporada da organização. Concordaram vivamente, mas ficaram atônitos pelo fato da passagem de bem mais de um século sem que alguém constatasse o fato.

Clique para ouvir, de Modest Moussorgsky, Quadros de uma Exposição, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=dDr75RcRNDw

No que se refere às lembranças dos Quadros de uma Exposição em La Boîte à Joujoux, debrucei-me em blogs anteriores sobre a temática e indico: “Centenário de La Boîte à Joujoux de Debussy (04/01/2014)”; “Concerto na Maison Natale de Claude Debussy, (12/01/2014)”; “La Boîte à Joujoux no Youtube (12/02/2022)”. Quanto à obra maiúscula para piano de Moussorgsky, há o blog “Quadros de uma Exposição” (01/06/2013).

Que Debussy, admirador confesso de Moussorgsky, apreende eflúvios de algumas de suas composições, como Boris GoudunovChambre d’enfants e os Quadros de uma Exposição, é evidente, e a vasta correspondência que deixou testemunha o apreço. Desta última obra, escreve seu amigo Robert Godet (1866-1950): “Já condenado à morte pelo mal que o atingiu, uma de suas últimas joias musicais veio-lhe dos Quadros de uma Exposição”. Um de seus biógrafos, Léon Vallas (1879-1956), observa em Chimène apreensões vindas dos Quadros… (Rodrigue et Chimène, ópera não concluída por Debussy) Outro estudioso, André Schaeffner (1895-1980), menciona parentesco de Tuilleries com o estilo de Debussy. Observa igualmente que “Yniold é o personagem mais moussorgskiano de Pélleas et Mélisande; Constantin Brailoiu (1893-1958) compara Promenade, dos Quadros…, com o Prelúdio Canope de Debussy. Seriam essas sábias afirmações negadas pela IA?

Tendo executado em público as integrais para piano dos dois compositores, o tempo foi responsável pela captação das duas linguagens distintas. Intrigaram-me determinadas intenções de Debussy, conscientes ou não, quando da criação de  La Boîte à Joujoux, que se materializaram, potencializando ainda mais a sua admiração por Moussorgsky.

A presença, em La Boîte à Joujoux, de lembranças dos Quadros de uma Exposição se dá não apenas sob o aspecto musical, mas também de apreensão outra. Debussy, tendo em mente sempre a filha Chouchou, compôs para piano La Boîte à Joujoux, proposta para um balé infantil a partir das aquarelas e roteiro de André Hellé (1871-1845). Orquestrada por André Caplet (1878-1925), só foi apresentada em 1919, um ano após a morte do compositor. Nos Quadros de uma Exposição, tem-se cenas isoladas ligadas por um leitmotiv que atravessa a criação, o tema da Promenade ― visitante da exposição ― em sua apresentação original ou modificado. Quando lembranças dos Quadros se apresentam em La Boîte à Joujoux, pelo fato de haver o texto que indica a ação (música programática), a fluidez não permite a longa duração da lembrança. Não obstante, os temas dos personagens principais do enredo, boneca, polichinelo, soldado e flor, esta representada por uma pausa de semínima em pp decrescente, povoam La Boîte

São várias as aproximações a sugerir a admiração de Debussy pelos Quadros de uma Exposição. No artigo em pauta saliento algumas relacionadas à temática, às harmonizações de segmentos, que lembram algumas realizadas por Moussorgsky, procedimentos de frases musicais quando cenas têm certas afinidades. Nesse artigo, apresento inúmeros exemplos musicais dos dois compositores, sugerindo que, na elaboração de La Boîte à Joujoux, os Quadros de uma Exposição estiveram, conscientemente ou não, gravitando no pensar de Debussy.

Na comemoração do centenário de La Boîte à Joujoux, recebi convite da  diretora da Maison Natale Claude Debussy, em Saint-Germain-en-Laye, para um recital a comemorar o centenário de La Boîte à Joujoux. Comoveu-me a escolha. Propus La Boîte à Joujoux e os Quadros de uma Exposição, apresentação precedida de comentários, nos quais evoquei meu posicionamento sobre essas duas obras.

Clique para ouvir, de Claude Debussy, La Boîte à Joujoux, na interpretação de J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=0nGug1ZFxKU

 

No próximo blog farei a síntese do meu artigo publicado em 1990 nos Cahiers Debussy (nº 14), em que apresento ideias de La Boîte à Joujoux que seriam lembradas nas Sonatas para violoncelo e piano e para  violino e piano de 1915, dois anos após La Boîte

Mussorgsky’s Pictures at an Exhibition and Debussy’s La Boîte à Joujoux have a certain identity in their evocations from childhood. Debussy would recall Pictures at an Exhibition when composing his own work belonging to the childhood universe, a creation dedicated to his daughter Chouchou.