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Leva a pensar

Não tinha ainda aprendido a desconfiar do futuro.
Vera Albers
“Romancinho”

Recebi, de uma dileta amiga, livro que a partir do título, “Romancinho”, delimita a sua dimensão. A autora relata, na primeira pessoa, a saga de uma personagem da primeira infância à mocidade, na sequência da própria transformação física e mental. Nas 49 páginas, o enredo traduz com precisão histórica e geográfica o desenrolar da trama, sobretudo vivida no norte da Itália.

Os curtíssimos capítulos fazem jus à fugacidade dos episódios retidos na memória de uma menina em seus aspectos fulcrais. Na narrativa, as conclusões exaradas pela personagem são curtas e diretas, contendo o resultado do seu pensar, tantas vezes reflexivos para a idade. Os primeiros anos da infância vividos no Piemonte, ao norte da Itália, sem o pai convocado para a guerra, a resultar em “0 mundo era feito de mulheres e de espera”. Nesses tempos sombrios, mãe e filhas partem para a casa dos avós, “a casa de Domodossola era feita de espera, a de Nembro era feita de presença. Tudo ali acontecia ao mesmo tempo”. O arquivamento, na mente da criança, de circunstâncias do cotidiano será fundamental para a sua formação. São elementos estabelecidos pela autora que, centrando nos flashes do pensar da miúda, não despreza o entorno, e a existência dos anos belicosos não passaria ao largo, substanciando aquele pensar e a torná-lo menos otimista.

Como não lembrar da igreja próxima à casa dos avós: “Dela vinha o sino, a missa interminável, o latim que não compreendia, mas me hipnotizava. O cheiro do incenso me dava vertigem. Eu resistia. Resistir era uma forma de estar”. Desse cotidiano, recordações das andanças, descobrindo a natureza, árvores, frutos, folhas, resíduos pelo caminho: “pequenas coisas inúteis que para nós eram provas de existência. Eu não sabia que aquilo era felicidade. Sabia apenas que aquilo era o mundo”. Ao envenenarem um gato que amava, observaria sur le tard: “Não sabia ainda que morrer em partes seria uma constante”.

Finda a guerra, o pai volta ileso: “Não chegou como alguém que retorna, mas como alguém que se instala”. Brincava com a filha nos seus quatro anos, mas mostraria severidade. A mudança para perto de Carrara, em uma casa maior com jardim espaçoso, fica registrada na memória em seus aspectos oscilantes, com brincadeiras, mas a ter episódio que marcaria a segunda infância: “Era um exame. Disseram depois. Para mim, foi outra coisa”. A autora conduz o leitor a imaginar. Mistério.

Encontrar tênues alegrias foi um refúgio para a realidade. O regresso da escola é um desses momentos retidos: “Ao voltar, caminhava pelos campos. Catava violetas. Observava fungos estranhos, ocos como pequenas arquiteturas sem função. Eram meus momentos de acordo com o mundo. Antes de voltar para a casa”.

Milão, etapa seguinte, mercê do esgotamento nervoso do pai. As mulheres retornam à morada dos avós em Nembro. Aos nove anos, a percepção da casa faz-se outra. Mergulha doravante na leitura: “Li tudo. Li sem critério. Li como quem constrói uma casa invisível”. Estabelece a relação com a simetria, “…uma forma de calma”.

Tem interesse a empatia que terá com uma boneca de pano. Não apenas cuidava das suas roupas, mas entendia o seu silêncio: “A boneca não reclamava. Não invadia. Não exigia explicações”. A autora reitera a tendência da personagem pela simetria.

Adolescente, entende olhares em sua direção e de um menino da sua faixa recebe mensagem a dizer que ela “era bonita e ajuizada”. Sente que “havia momentos em que algo se agitava em mim sem pedir permissão”.

A autora muda o cenário. A mocinha personagem viaja com a família para o Brasil, pois o pai assinara contrato por alguns anos com empresa do país. Santos, São Paulo. Hotel e, finalmente, uma casa: “Tudo parecia uma cópia imperfeita de algo que eu perdera”. Menina-moça doravante e a infalibilidade a atingir todas as outras meninas-moças em período certo: “Eu não sentia orgulho, nem curiosidade, nem alívio. Assentia apenas uma espécie de condenação silenciosa. O corpo tinha decidido por mim”.

Aprende com facilidade a nova língua e, na escola, a leitura, já presente na infância, sofre aceleração maior: “A biblioteca tornou-se território”. Confessaria: “Se eu sobrevivi, foi lendo”.

Transcrevo o curtíssimo capítulo final:

“Anos depois, já fora daquela casa, chorei por horas seguidas-não de tristeza, mas de alívio.

Livre.

O sal ficou. O gosto do mar. O corpo que aprende tarde demais e cedo demais. A memória que ainda volta, às vezes, como um cheiro.

Mas agora eu tinha palavras.

E com elas, sobrevivi”.

Quanto ao texto, é admirável o sentido de concisão de Vera Albers. As frases de síntese apreendem não apenas um domínio absoluto da nossa língua, como contêm em tantas situações, apesar da faixa etária da personagem, o sentido pleno de máximas sobre a vida.

Recomendo vivamente a leitura de “Romancinho”.

In her first-person novel *Romancinho*, Vera Albers recounts the journey of a girl born in northern Italy during World War II, from early childhood through puberty — which she experiences in Brazil. The narrative moves from her initial childlike observations to her transformation into a young woman who, despite both positive and negative experiences, survives.

 

 

Uma aventura que ficará na história

O maior desafio da minha carreira foi aceitar
minha filha fazer coisas piores do que eu fazia.
Amyr Klink
“documentário”

Para meu pai.
Quando eu era pequena,
você me contava histórias do seu inverno no mar gelado.
Eu tinha muitas perguntas. Essa viagem começou ali.
Tamara Klink
“Bom dia, inverno”

No dia dos pais, uma das filhas me presenteou com o relato personalíssimo de Tamara Klink, “Bom dia, Inverno” (São Paulo, Companhia das Letras, 2026), sabedora de que aprecio igualmente livros de aventura. Desde a adolescência, admiro as ousadias humanas que estimulavam a imaginação. Estou a me lembrar da leitura da “Expedição Kon-Tiki”, de Thor Heyerdahl (1914-2002), nos anos 50, a integral de Saint-Exupéry (1900-1944) durante o período em que estudei na França, e as bem posteriores sobre as incursões no Himalaia de vários autores, tanto sobre o Everest como o K2. Do aventureiro francês Sylvain Tesson (1972-), ao longo dos blogs, cerca de dez livros foram resenhados

Conheci Amyr Klink, pai da autora de “Bom dia, inverno”, em um restaurante árabe no Campo Belo, bairro da zona sul de São Paulo. Em uma segunda oportunidade entreguei-lhe um CD com composições do notável Francisco de Lacerda (1869-1934), pois Klink iria permanecer longo tempo na Antártida. As “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” focalizam a fauna terrestre e aquática. Toda a extraordinária coletânea está no Youtube divididas em três blocos. Na terceira, Lacerda apresenta vários animais que frequentam as águas e as terras, inclusive “Les Pingouins” (nº34), que vivem na Antártida. Meses após, reencontro Amyr Klink no mesmo restaurante e ele me afirmou que em momentos de absoluta solidão ouvia o referido CD, fato que me alegrou ao saber que as obras do ilustre compositor açoriano estavam a ser ouvidas em circunstâncias tão especiais.

“Bom dia, inverno”materializa um dos anseios da autora, que já havia anteriormente atravessado o Atlântico vinda do continente africano, mas almejava feito mais absoluto, que se tornou realidade após os oito meses passados no Ártico. Deslocou-se em seu pequeno veleiro, Sardinha2, até a Groenlândia e, durante longos 8 meses, permaneceu num fiorde, pois tinha como desiderato viver o pleno inverno ártico, a ausência da luz externa sem a presença do sol e no mais absoluto solilóquio, salvo a presença brevíssima de pescadores ou caçadores pela região que chegou a conhecer.

“Bom dia, inverno” distancia-se da grande maioria dos relatos de aventuras excepcionais. Dir-se-ia, uma absoluta confissão do de profundis de Tamara, mas igualmente a vivência em circunstâncias meteorológicas quase extremas, sem quaisquer barreiras, externando os mínimos pormenores do seu cotidiano, como alimentação, higiene, afazeres domésticos realizados na precariedade do seu veleiro Sardinha2, assim como incursões fora da embarcação, não apenas passeios solitários para conhecer entornos, a fauna, observar o firmamento e o fenômeno da aurora boreal. Naqueles oito meses deparou-se com as transformações das noites intermináveis à volta solar progressiva.

A necessidade imperiosa de vivenciar a solidão em seu veleiro, apesar de saber de todas as possibilidades reais e imponderáveis, atravessa a narrativa de maneira coloquial, sem pretensões outras a não ser transmitir o que sente. Em uma circunstância mais aguda quase morreu ao pisar no gelo frágil e ficar por instantes numa temperatura de 26º graus negativos. Lição aprendida. Compensa o isolamento humano com “fraterna” interação com pássaros, máxime raposas, nomeando algumas, apesar de nenhum contato físico. Inúmeras vezes seu barco recebeu a visita dessas raposas do Ártico.

Tem interesse desvelamentos de Tamara: “Quanto mais cansada, mais sonho e realidade se confundem”; “Os sonos curtos são eficazes, mas têm pequenos efeitos colaterais, como a perda da memória e de lucidez. Como desconfio da minha cabeça, sigo a lista de instruções que criei para não perder energia tomando decisões: a cada vinte minutos, verificar se há barcos ao redor e se as velas estão bem reguladas: a cada quatro horas, verificar se há algo estranho no cockpit, se tem água entrando debaixo do piso, comer, beber água, ir ao banheiro (ou ao balde azul), sempre pôr o colete e me amarrar do lado de fora, anotar todos os eventos no diário de bordo”. Um outro parágrafo tem efeito essencial para aqueles que realmente amam a solidão como Tamara: “Enquanto procurarmos o amor no outro, faremos da solidão nossa rival. Veremos apenas o que ela tem de escuro: silêncio, sombras, vazio, imensidão, segredos, medo. Tentaremos combatê-la nos cercando de gente estranha, de vozes intrometidas, de luzes que piscam. Tentaremos afogá-la com bebidas e poções, esquecê-la com distrações. Tentaremos explodi-la e explodiremos a nós mesmos. Porque somos feitos de solidão: enquanto procuramos o amor no outro, perdemos a chance de fazer da solidão nossa aliada, dando ao outro a chave do nosso prazer”. Não poucas vezes, e é necessário frisar, Tamara se sente imensamente feliz durante a longa solidão Ártica.

Na narrativa de Tamara a família não se ausenta. A avó é permanente interlocutora, mãe e pai são citados, e as citações a este são frequentes: “Criança, sonhei ser muitas coisas. Quando pedi para meu pai me ajudar a aprender a navegar como ele, ele responder que sua ajuda seria não me ajudar”. Sabedor de todas as adversidades possíveis nessas navegações solitárias, um pai responsável só poderia dar essa resposta precisa. Em outro segmento: “… se um dia eu for mãe, provavelmente não poderei fazer o que meu pai fez sendo pai. O pai que corre riscos recebe prêmios. A mãe que corre riscos recebe críticas”.

“Bom dia, inverno” é um diário pleno de alternativas centradas sempre num arguto senso de observação de Tamara. Majoritariamente, revela suas sensações frente à solidão e se, por vezes, tem contato com pescadores, caçadores e, quando ancorada em porto frequentado por outros barcos e veleiros, com personagens diversificados, esses encontros são fortuitos e desaparecem do relato.

Um feito absolutamente excepcional realizado por uma jovem aos 26-27 anos, nessa passagem para a idade madura, numa região inóspita sob tantos aspectos, mas com a certeza de que era um objetivo a ser alcançado.

Presentemente, Tamara empreende uma outra viagem admirável, a travessia solitária e plena de riscos, no seu Sardinha2, pela ligação dos Oceanos Pacífico e Atlântico, tendo já cruzado o icônico Mar de Bering. Nossos pensamentos positivos para a brava aventureira.

A recepção ao livro tem sido imensa e plena de merecimento.

The book “Good Morning, Winter”, by Tamara Klink, is a fascinating read that recounts the adventure of a young sailor who spent eight long months anchored in a fjord in Greenland aboard her sailboat “Sardinha2,” bravely weathering

A partir de substancial diálogo

Enquanto Rameau, entre os maiores, não ocupar todo o espaço a que tem direito,
a História da Música do século XVIII e através dos tempos não terá a sua total orientação.
Georges Migot (1891-1976)

O ilustre pianista Arthur Rubinstein (1887-1982), após se “aposentar” da atividade frente ao público aos 89 anos, manteve em seu repertório algumas obras que lhe foram caras durante a existência. Mutatis mutandis, sem quaisquer intuitos comparativos, após encerrar minhas atividades pianísticas públicas em 2023, diariamente me dedico umas poucas horas aos estudos de piano, relendo criações que me impactaram e apresentando-as periodicamente em petit comité com propósitos precisos: preservar a vocação iniciada aos 9 anos de idade, ter contato com amigos ouvintes possuidores da apreciação crítica e, finalmente, manter-me em atividade aos 88 anos, verdadeira dádiva. Minha mulher Regina realiza o mesmo caminho. Há um compositor que diariamente revisito, interpretando uma ou duas peças ao piano: Jean-Philippe Rameau (1683-1764). Há anos, um belo dia caminhava com meu caro amigo, pensador e compositor meritoso, Willy Corrêa de Oliveira (1938-). Repentinamente, ele para e me pergunta à “queima roupa” qual era meu compositor preferido e instantaneamente, sem pensar, respondo: Rameau. Retribuí a pergunta e a resposta de Willy foi também precisa, Chopin. Logicamente outras figuras essenciais da composição fazem parte das minhas preferências. A admiração pela obra de Rameau vem da juventude, quando aos 16 anos, após ouvir a integral para cravo interpretada ao piano (2 LPs) pela excelsa pianista francesa Marcelle Meyer (1887-1958), fiquei fascinado pelas obras, que desconhecia por completo. Meu Pai, ao sentir o meu entusiasmo, presenteou-me com o álbum.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, La Dauphine, na interpretação de Marcelle Meyer:

https://www.youtube.com/watch?v=4IrpvP2xXDY

De uma conversa fundamental entre duas figuras marcantes em França, o musicólogo Roland-Manuel (1891-1966) e a pianista franco-russa Nadia Tagrine (1917-2003), parte de um dos programas da série radiofônica e literária Plaisir de la Musique, na qual as duas relevantes personalidades dialogavam a respeito de aspectos fulcrais da música e das criações concebidas por luminares da composição, extraí as considerações sobre Jean-Philippe Rameau. Bem anteriormente, escrevera dois posts sobre temas contidos em Plaisir de la Musique (25/08/2018 e 1/9/2018), abordando figuras fulcrais da história da música. Sobre Rameau foram vários blogs ao longo de mais de 19 anos de posts publicados sem interrupção.

Roland-Manuel insere no diálogo alguns dados pouco ventilados pelos biógrafos e que evidenciam traços da personalidade de Rameau:

“Áspero, tanto no estado de espírito como fisicamente, fechado, triste, solitário. Dizia-se que o vazio que ele encontrava na sociedade o levava a afastar-se dela. Quanto à sua arte e aos interesses dela estava, pelo contrário, preocupado em não negligenciar nada, segundo as suas próprias palavras; a avareza era o reverso dessa moeda dura. Incapaz de fazer concessões e particularmente inexorável em matéria de música, pois esta estivera presente em toda a sua vida. O escritor Louis Petit Bachaumont (1690-1771) conta que, à beira da morte, quando o pároco de Saint-Eustache foi dar-lhe a extrema-unção, Rameau encontrou forças para interrompê-lo, dizendo-lhe: «Mas que raio vem cá cantar-me isso, Senhor Pároco? A sua voz está desafinada…».

Rolland-Manuel enfatiza conceito que se tornaria uma constante nas avaliações feitas a posteriori sobre Rameau. A sua grandeza não apenas se fixou nas composições, exemplificada pelas suas magníficas óperas, que têm sido progressivamente apresentadas, como na profundidade dos seus tratados teóricos. Comenta: “«Não é tanto fruto do acaso, mas sim da Providência, que o maior teórico da música e o maior compositor francês do século XVIII se encontrem reunidos na mesma pessoa: a ciência e a experiência, a razão e a intuição apoiam-se e esclarecem-se mutuamente em Jean-Philippe Rameau».

Através das décadas mais se consolidou a minha admiração pela obra de Rameau. Em suas inúmeras óperas, Rameau revela todo o seu domínio escritural, assim como o domínio dos endereçamentos no que concerne à ópera-balé ou à tragédia lírica. Roland-Manuel observa: “O que há de admirável em Rameau é que ele efetivamente não apenas estabelece a razão demonstrativa e a sensibilidade mais profunda, como também a sabedoria a mais rigorosa, sem deixar de ser o poeta mais afinado às solicitações do sonho”.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, Tendre Amour, da ópera-balé Les Indes Galantes, na interpretação do conjunto Les Arts Florissants sob a regência de William Christie:

https://www.youtube.com/watch?v=MvRMfR2c1hY

Em contraste ao Tendre Amour, clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, a Abertura da Tragédia Lírica Zoroastre, na interpretação do conjunto Le Concert des Nations sob a regência de Jordi Savall:

https://www.youtube.com/watch?v=9br3o8MfUvI&t=23s

Quanto à obra para cravo interpretada ao piano, a criação de Rameau quantitativamente é menor às de François Couperin, J.S.Bach e Domenico Scarlatti. Todavia, tem-se o multum in mínimo e a excelência de suas composições comprova a assertiva.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, Les Cyclopes, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=c7lyY0pBRkU&t=4s

A fruitful dialogue between the French-Russian pianist Nadia Tagrine and the musicologist Roland-Manuel about Jean-Philippe Rameau is of interest because, although it took place in the mid-20th century, it remains highly relevant today.