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Um dos nomes referenciais na história da musicologia portuguesa

Nenhuma vida tem qualquer significado ou qualquer valor
se não for por uma contínua batalha contra o que nos afasta da perfeição,
que é o nosso único dever.
Agostinho da Silva
(“As Aproximações”)

Meu amigo-irmão, José Maria Pedrosa Cardoso, partiu no dia 8, quinta-feira, após prolongada doença. Perda inestimável. O desenlace já aguardado por José Maria, na serenidade daqueles imbuídos da fé cristã, fê-lo inclusive dias antes selecionar as músicas de seu velório. Seguimos deste lado do Atlântico toda a lenta evolução do irremediável. A emoção que estou a sentir me impede de escrever de imediato sobre o amigo-irmão. Meu dileto amigo, ilustre medievalista João Gouveia Monteiro, Professor da Universidade de Coimbra, escreveu-me a dizer que apreendeu a morte de Pedrosa Cardoso “quando ouvi os sinos a repicar na cabra da Torre da UC”, em homenagem ao ex-professor Pedrosa Cardoso. Na mensagem, o Professor Gouveia Monteiro anexou um texto significativo publicado no ato pelo também ilustre Professor Catedrático jubilado da UC, da área de Arqueologia, grande especialista em Epigrafia, José d’Encarnação. Obtive a  autorização para publicá-lo. Transmito-o para que o prezado leitor conheça a abrangência da atuação de meu querido amigo-irmão, sendo que ao final, sua dedicada esposa Manuela tece pungente testemunho sobre a partida.

“Faleceu ontem, dia 8, pelas 22 horas, na Casa de Saúde de Idanha – Instituto das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, em Belas, onde estava internado, o Dr. José Maria Pedrosa Cardoso, Professor aposentadao da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Natural de Guimarães (28 de Março de 1942), Pedrosa Cardoso formou-se em Filosofia e Teologia, em Valladolid e Munique (1962-1969); estudou Pedagogia e Didáctica Musical com Edgar Willems e Jos Wuytack, Direcção Coral com Michel Corboz e Pierre Salzmann; fez o curso geral de Piano pelo Conservatório de Música do Porto; foi dos primeiros licenciados em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa.

A partir de Janeiro de 1987 e até 1989, acumulou a docência na Universidade Nova de Lisboa e no Conservatório Nacional com o cargo de assessor de João de Freitas Branco na direcção artística e de produção do Teatro Nacional de S. Carlos.

Entrou para a  Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em 1992, como assistente estagiário, para leccionar a cadeira de História da Música. Aí passou a exercer prioritariamente a docência, mais tarde alargada ao Mestrado em Ciências Musicais e ao Curso de Estudos Artísticos, que veio a dirigir na área da. Doutorou-se em Ciências Musicais Históricas e fez a agregação na mesma área científica. Integrou, como investigador, o Centro de Estudos Clássicos da sua Faculdade de Letras. Música até à sua aposentação, em 2009.

Conferencista convidado em Portugal e no estrangeiro, falava sobretudo da sua especialidade: a música sacra e a música histórica portuguesa.

Embora com incursões na música contemporânea, com estudos sobre Luiz de Freitas Branco, António Fragoso e Fernando Lopes Graça, a sua pesquisa musicológica seguiu prioritariamente a pista aberta por Mestre Santiago Kastner, um músico estrangeiro consagrado em Portugal que chamou várias vezes a atenção para uma verdadeira especificidade da música portuguesa dentro do quadro europeu. Tem pautado a sua investigação pela busca da singularidade da música histórica portuguesa, um caminho aberto na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e percorrido em todos os principais arquivos nacionais e estrangeiros.

Entre as iniciativas que tomou no âmbito musical, podem citar-se: a fundação,  em 1976, do Grupo Coral de Lagos, que dirigiu até 1981, com o qual desenvolveu vasta acção cultural através de todo o Algarve, com digressões pelo país e gravações para a RTP e RDP; a fundação, em 1977, da Escola de Música do Grupo Coral de Lagos, que dirigiu até 1981; a criação, também  em 1977, com o Coral de Lagos e com o Coral Ossónoba de Faro, do Festival de Coros do Algarve que se mantém até ao presente; a criação, em 1979, os Cursos Musicais de Férias de Lagos, com a colaboração de alguns dos melhores professores portugueses, com os quais se estabeleceu na cidade de Lagos uma dinâmica concertística rara durante seis semanas de Verão, Cursos que dirigiu até 1983.

Escreveu as seguintes obras:

  • O Teatro Nacional de S. Carlos – Guia de Visita, APEM, 1991;
  • Fundo Musical da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Lisboa, 1995;
  • Obra Litúrgica I e II (Gulbenkian – Serviço de Música, 12-2000);
  • História da Música – Manual do Aluno do 2º Ano (Sebenta, 04-2003);
  • Carlos Seixas, de Coimbra (Imprensa da Universidade de Coimbra, 12-2004) (coord. e autor);
  • Ano Seixas. Exposição Documental. Coimbra: Imprensa da Universidade, 2004;
  • O Canto da Paixão nos Séculos XVI e XVII: A Singularidade Portuguesa (Imprensa da Universidade de Coimbra, 12-2006);
  • Cerimonial da Capela Real - Um manual litúrgico de D. Maria de Portugal (1538-1577) Princesa de Parma (INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda / Fundação Calouste Gulbenkian, 05-2008);
  • História da Música I (Sebenta, 03-2008);
  • História Breve da Música Ocidental. Coimbra: Imprensa da Universidade, 06-2010;
  • O Passionário Polifónico de Guimarães. Guimarães: SMS, 2013.

E, nesse aspecto, merece  grande realce uma obra, bilingue, que particularmente lhe agradou publicar: O Grande ‘Te Deum’ Setecentista Português, de 363 páginas, editado pelo CESEM e pela Biblioteca Nacional de Portugal, em cujo Auditório decorreu, a 9 de janeiro de 2020, a apresentação, a cargo de Manuel Pedro Ferreira e de David Cranmer. A sessão contou ainda com a demonstração musical de um trecho dos Grandes Te Deum, a cargo de David Cranmer e de Manuel Rebelo.

Continuou muito activo, mesmo após a sua aposentação. Recentemente programou, por exemplo, e foi director artístico do Festival de Música Religiosa de Guimarães, realizado no período da Semana Santa.

Foi homenageado pela Câmara Municipal de Lagos, tendo recebido a Medalha de Mérito Municipal, grau ouro, pelos serviços prestados à cidade, no âmbito da cultura musical, durante 40 anos.

Estava casado com a Professora Manuela Pedrosa Cardoso, a quem endereçamos – bem como à demais família – os nossos mais sentidos pêsames. Foi, sem dúvida, exemplar o seu acompanhamento ao marido. A 14 de Novembro escrevia ao grupo que se formara para ir sabendo da evolução do doente, então já na Unidade de Cuidados Paliativos de Idanha (Sintra): «Não pode receber visitas, apenas eu o posso ver. Está sereno, sem dores, muitíssimo cansado. Preparado para a viagem onde será recebido pela PAI CELESTIAL. Ontem escrevi a seu pedido as músicas que se vão ouvir na sua partida, no velório. Pediu que fosse feito silêncio e nada de LÁGRIMAS. […] Fiquem tranquilos, porque a PAZ está connosco. Darei notícias».

Bem haja, Dra. Manuela, por este testemunho de… vida!

Que descanse em paz quem, na verdade, logrou, ao longo de toda a sua existência, combater o bom combate!”

No menu do blog, no item “Livros – Resenhas e Comentários (lista)”, o leitor encontrará a relação dos livros de Pedrosa Cardoso resenhados ao longo em meus posts semanais. Escreverei um segundo post no próximo dia 18, a narrar nosso entendimento pleno sobre tantos planos culturais, projetos conjuntos e, a preponderar, a amizade ilimitada. Apresentarei várias fotos desse transcurso.

The recent death of the illustrious retired professor José Maria Pedrosa Cardoso from the University of Coimbra, a reference name of musicology in Portugal, has caused me a strong commotion. Pedrosa Cardoso leaves an extraordinary legacy, through an extensive literary-musical production based on the competent interpretation of musical sources since the 16th century in Portugal. I include in this post a substantial text by José d’Encarnação, retired professor from the University of Coimbra.

 

 

Narrativa do compositor e tributos a ele prestados

Gosto de gostar de tudo,
de viver a música em toda a sua plenitude de significados.
Me proibir, por razões ideológicas de grupo,
de gostar de uma coisa de que na verdade eu gosto, jamais!
Gilberto Mendes

Gilberto Mendes (1922-2016) foi um de nossos mais importantes compositores. Absolutamente aberto às tendências, percorreu-as conscientemente, mas sempre a deixar em suas composições as impressões digitais, marcas inalienáveis que evidenciam o talento autêntico e a seriedade de propósitos. Estivemos ligados por laços indestrutíveis de amizade desde os tempos de meu ingresso na Universidade de São Paulo em 1982 até sua morte em 2016. Nas fronteiras dos setenta anos, que indicariam sua aposentadoria, insisti para que escrevesse uma espécie de autobiografia musical, a resultar numa extraordinária defesa de tese de doutorado na qual tive o prazer de estar presente como membro da banca examinadora. O texto, com alguns ajustes, foi publicado e teve excelente guarida (“Uma Odisséia Musical – Dos mares do sul à elegância pop/art déco”. São Paulo,  Edusp, 1992). Vieram ao longo outros livros, nos quais Gilberto Mendes narrava suas aventuras musicais, opções estéticas, amizades conquistadas pelo mundo e Santos, sempre Santos, a sua cidade mágica.

Tardiamente penetraria nas narrativas idealizadas, pois seu espírito criador voltava-se aos personagens abstratos que povoavam sua mente, mas não desprovidos de nebulosas identidades. Seu livro “Danielle em surdina – Langsam” foi promissor impulso aos 91 anos (vide blog: “Danielle em surdina, Langsam”, 06/04/2013). Pouco antes do desenlace escreveu “Os dois amigos entraram finalmente na Rua Borges”, publicado postumamente com a elucidativa apresentação de Ademir Demarchi (Santos, Realejo, 2019).

Os curtíssimos episódios dessa última publicação revelam compartimentos essenciais da personalidade de Gilberto Mendes, a realidade e a ficção. Mesclá-las, eis o objetivo alcançado. Gilberto está presente nessa autoficção sem se nomear; capta período preocupante para um grupo de militantes do Partido Comunista e Ramiro seria seu pseudônimo. À maneira de um Dostoievsky, autor que ele tanto admirava, Gilberto observa. Esteve na militância durante cerca de 20 anos e, com o advento da “Revolução” de 1964, jogou todo o material que possuía no mar de sua Santos, seu porto seguro.

Acompanhar essas brevidades é compreender que as reuniões para discussão de temas afins ao Partidão tinham igualmente outras finalidades, pretexto para conquistas amorosas regadas, por vezes, por generoso vinho. Várias classes reunidas, aqueles pertencentes à burguesia em seus matizes, os decantados “intelectuais”, assim como os portuários seguidores das cartilhas que vinham do leste europeu. Nessas reuniões havia sempre o receio de serem flagrados, mercê da ilegalidade, mas as discussões corriam soltas sobre temas concernentes à estrutura daquele núcleo, às doutrinações marxistas, aos debates sobre arte e literatura. A certa altura os temas voltaram-se igualmente à encenação de peça teatral e vários participantes encontravam nos ensaios momentos de autovalorização.

Para os que tiveram o privilégio de conviver com Gilberto sur le tard a narrativa tem uma cativante apreensão dessa participação do autor, quase sempre como um observador irônico, por vezes com fino humor, traços inalienáveis de Gilberto. Sendo “Os dois amigos entraram finalmente na Rua Borges” uma visitação às décadas longínquas vividas sob o ímpeto de uma juventude na idade madura, inserir um caso amoroso, “paixão arrebatadora”, entre o principal articulador, Rodrigo, e uma bela e misteriosa frequentadora, traria à pena de Gilberto um frescor narrativo nos seus mais de 90 anos. Não estaria o compositor a se divertir ao recordar e também dando asas à fértil imaginação?

Clique para ouvir, de Gilberto Mendes, Sonatina à la Mozart (1951), na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=ZO0-u5kU5c4

Na nonagésima década, a ironia gilbertiana estaria implícita nesse tratamento em que, ao não penetrar no âmago da doutrinação partidária, menos voltado aos fundamentos do núcleo do Partidão que deveriam ser a essência das reuniões, confere aos vários participantes da trama interesses tão alheios, com exceções. Meio século após, apesar de sempre ser simpático às teses da esquerda, assim como foi aberto a tantas tendências composicionais, Gilberto não tinha o menor pendor para o fanatismo ideológico e nos deixou uma grande lição nesse sentido. “Os dois amigos entraram finalmente na Rua Borges” é um exemplo.

Flávio Viegas Amoreira é escritor, poeta e jornalista. Em sua profícua atividade teve a grata ideia de homenagear Gilberto Mendes com um “esboço”, como ele bem afirma, de uma biografia almejada para 2022, ano do centenário do compositor. Literato, buscou concentrar nas páginas de “Gilberto Mendes – notas biográficas” (Santos, Imaginário Coletivo, 2021) as relações intensas do músico com poetas e escritores, contemporâneos ou não. Seis “prefaciantes”, em breves e precisas palavras, testemunham a admiração pelo homenageado, apreendendo facetas características do imenso Gilberto Mendes: Charles A. Perrone, “Concertos novo-musicais!”; Luiz Zanin Orichi, “O espírito livre de Gilberto Mendes”; Carlos Conde, “Um perfil (também) humano”; Edson Amâncio, “Gilberto Mendes”; João Carlos Rocha, “Carta a Gilberto”; Madô Martins, “Cabelos Brancos”. Essas expressivas apresentações dimensionam a proposta de Flávio Viegas Amoreira e enriquecem suas “notas biográficas”. É um outro olhar sobre o compositor, a evidenciar seu direcionamento voltado igualmente à literatura, à poesia em especial e ao cinema. Gilberto me confessaria que suas idas semanais para assistir aos filmes que escolhia levavam-no ao encantamento desde o instante em que, sentado ao lado de sua esposa Eliane, “que se tornou uma segunda mãe”, segundo Gilberto, as luzes se apagavam paulatinamente e os toques sonoros criavam o clima necessário.

As “notas biográficas” de Flávio Viegas Amoreira têm significado amplo. Fixa período fulcral na formação de Gilberto Mendes: “Aquele período, entre 35 e 40, foi ápice da década ideológica e concomitante ao período de formação estética de Mendes: geração inoculada com brilho de Hollywood mesclado ao cinema alemão, ainda não contaminado pelo nazismo, o advento do mercado editorial brasileiro com traduções de Freud, Mann, Brecht, o conhecimento dado aos trópicos de Fernando Pessoa, Marcel Proust, todos experimentos tributários de James Joyce, os romances de gozo e fruição de Somerset Maugham, Charles Morgan e a prosa conceitual de Chesterton e Audous Huxley, sem falar no onipresente Joseph Conrad”.

Entendê-lo nesse labirinto literário-poético, onde há o olhar atento de um cinéfilo absoluto, é missão complexa, assim como o foi no caso de Claude Debussy, que apreendeu um universo de tantas tendências antes de pender para o simbolismo sem o qual, apesar de certamente não explicar Debussy, não se pode compreender a formação de sua linguagem. Quantos não foram os poetas por ele visitados em suas sublimes Mélodies? Gilberto percorre esse caminho a abraçar tendências outras ao concretismo por ele tão fequentado. Amoreira comenta: “Sempre senti tão gêmeos o trabalho do poeta com o do compositor: extraímos do nada, absolutamente nada mais do que qualquer outro artista, pura entrega de alma para almas laçadas por uma perícia inconsútil e invisível. No começo o compositor nasceu poeta mesmo sem o poema escrito”. No caso das Proses Lyriques (1892-1893) de Debussy, o compositor seria o autor dos poemas. Louis Laloy, primeiro biógrafo de Debussy, escreveria em 1909 que “as mais aproveitáveis lições não lhe vieram da parte dos músicos, mas de poetas e pintores”. Se Flávio Viegas Amoreira assinala até o “autodidatismo” de Gilberto Mendes, a visão aberta ao mundo, fruto em parte dessa visão marítima de sua Santos tão amada a partir do fluxo de navios com todas as bandeiras, a diversidade da escolha dos poetas de correntes tão diversas atenderia à essência essencial do compositor, voltada ao universal.

Na substanciosa narrativa de Amoreira, após mencionar frase de Gilberto “Toda a arte é boa, está acima de critérios de qualidade”, lembrar-se-ia de frase de Schoenberg, transmitida ao seu amigo Robert Gerhard após ouvir o concerto para piano e orquestra de Grieg “Esta é a espécie de música que eu realmente gostaria de escrever”. Flávio Viegas Amoreira completa: “A música de Grieg, certamente um compositor menor, para os ‘classificadores’ implacáveis”. Essa arguta observação me faz recordar de um episódio que se deu em minha sala de aula na USP. Estava a tocar o 4ª Noturno de Gabriel Fauré quando Gilberto adentra, ouve até o final e me diz serenamente: “Daria toda minha obra em troca desse Noturno”. Lição de humildade vinda de um imenso músico! Em conversa recente com Eliane Mendes, disse-me ela que mais de uma vez Gilberto mencionou esse episódio.

Clique para ouvir, de Gabriel Fauré, o 4ème Nocturne de Gabriel Fauré, na interpretação de J.E.M.:

https://embedy.cc/movies/UmMrbjZ3RFBhb24xb2VTa3NQOS8zaHpVWHFnSDErMkhEZERKZGUxODNxOD0=

Amoreira desfila em sua narrativa, nas passagens pertinentes, incontável lista de escritores, poetas, compositores, artistas plásticos e de teatro, amizades outras que trazem à luz o universo de Gilberto. Impressiona a abrangência de um músico interessado em todas as manifestações culturais e “políticas”, mantendo-se sempre solícito com todos que o procuravam. Observa: “Admirei de longe, desde sempre, Gilberto Mendes como uma celebridade artística nacional, pelas ruas de Santos em minha juventude, frequentando cinemas de mãos dadas com Eliane, caminhando pela praia… Sabia ser ele na música algo que eu gostaria de seguir na literatura: alguém entregue todo tempo ao seu ofício sagrado de criador”. Gilberto Mendes adaptou vários poemas do autor de “notas biográficas” para seu sinfônico “Alegres Trópicos, Um Baile na Mata Atlântica”.

Nesse contato permanente na cidade amada pelo músico e o poeta, uma frase de Flávio Viegas Amoreira evidencia algo não raro entre os tantos compositores sur le tard: “Mas também pude testemunhar seu desencanto com desvios da esquerda brasileira, sua preocupação ecológica crescente com destinos da Amazônia e o chorar com desastres como o de Mariana. Tinha perdido muitas  ilusões, mas ainda resistia por uma utopia muito particular de criação e motivação dos jovens”.

O centenário de Gilberto Mendes se aproxima. Certamente haverá uma série de tributos a ele prestados. Urge realizá-los.

In two recent publications, Gilberto Mendes is revealed in significant aspects of his life and work. In a short novel, Gilberto writes an autofiction depicting a tumultuous period in the 1960s, a narrative not devoid of humor. In a second book, writer, poet and journalist Flávio Viegas Amoreira provides biographical notes of great interest. As a friend of Mendes, he penetrates his poetic/literary universe, apprehending the composer’s choices. Next year we will celebrate Gilberto Mendes’ birth centennial.

Um dos nomes mais relevantes da musicologia no século XX

Poucas personalidades puderam e souberam
conduzir, como ele, várias carreiras
ou atividades paralelas enriquecendo-se mutuamente,
sendo as principais, de um lado,
a função de curador na Bibliothèque Nationale
e a de professor do ensino superior,
e, sob outra égide,
as atividades de musicólogo e de bibliógrafo,
para nos limitarmos ao essencial.

Catherine Massip

Há exatamente 20 anos, 21 de Junho, a França perdia um de seus mais notáveis musicólogos e bibliógrafos. A lembrança de François Lesure faz-se necessária neste espaço, pois sou-lhe eternamente grato. Foi ele que, ao conhecer minhas pesquisas e interpretação de toda a obra para piano de Claude Debussy, propiciou-me aberturas fundamentais em torno do imenso compositor. Abriu-me inclusive, como Diretor de Música da Bibliothèque Nationale, o estudo de toda a criação pianística de Debussy através dos manuscritos originais, experiência fulcral para aprofundamentos. À medida que as pesquisas prosseguiram, por três vezes convidou-me para palestras na École Pratique des Hautes Études em Paris, assim como para escrever, ao longo dos anos, artigos para os “Cahiers Debussy”, publicação do Centre de Documentation Claude Debussy, por ele criado.

Essa premissa faz-se necessária. Rememorar François Lesure é descortinar uma mente privilegiada, brilhante, plena de sabedoria e de generosidade para com todos aqueles que, imbuídos de propostas pertinentes, procuravam-no na Secção de Música da Bibliothèque Nationale, Rue Louvois, nº 2. Foi um grande privilégio privar de sua amizade.

François Lesure foi certamente uma das figuras mais significativas da cultura musical em França, quiçá a mais enciclopédica, na segunda metade do século XX. Tendo estudado na Sorbonne, na École Pratique des Hautes Études, École de Chartes e no Conservatoire de Paris, legou nas duas Escolas mencionadas teses referenciais sobre a feitura instrumental (1948) e os instrumentistas (1950) na Paris do século XVI. Em 1954, como secretário do Repertoire International des Sources Musicales (R.I.S.M.), François Lesure seria determinante na elaboração de catálogos, mormente três (1960, 1964 e 1971), que repertoriam do século XVI ao XVIII. A dedicação à vasta produção da música antiga ocuparia parte das investigações de François Lesure. Saliente-se a colaboração efetiva de sua esposa, Anik Devriès-Lesure, na edificação dos dois volumes do “Dictionnaire des éditeurs de musique français”, que abrange dos primórdios da atividade até 1914.

Posteriormente, o musicólogo estaria na direção de publicações da coleção “Le Pupitre”, com música dos séculos XVII-XVIII (Paris, Heugel, Leduc), assim como da coleção “Patrimoine”, que privilegia compositores franceses relevantes nascidos no século XIX (Paris, du Marais). Da primeira, presenteou-me com a edição das obras de Jean-Philippe Rameau (1683-1764) para cravo (Paris, Heugel. “Pupitre”, coleção de música antiga publicada sob sua direção. Edição crítica de Kenneth Gilbert) e com o “Traité de l’Harmonie” do genial compositor (France, Klincsiek, 1992, fac simile do exemplar conservado na Biblioteca da Sorbonne. Nota bibliográfica de François Lesure), essenciais para a minha gravação da integral ao piano em Sófia, na Bulgária, em 1997 e lançada em dois CDs pelo selo belga De Rode Pomp com texto do encarte assinado pelo ilustre musicólogo.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, “Les Niais de Sologne”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=xdKjHjNx700

Seria em 1950 que François Lesure entraria no Departamento de Música da Biblioteca Nacional da França e, entre 1970 e 1988, diretor do Departamento. Como professor de musicologia lecionou, de 1964 e 1977, na Universidade Livre de Bruxelas, sendo que em 1977 sucedeu a Solange Corbin (1903-1973) na cadeira de musicologia da École Pratique des Hautes Études. Presidiu a Société Française de Musicologie entre 1971-1974 e 1988-1991. François Lesure foi responsável pela organização de exposições junto à Biblioteca Nacional e alhures. Uma delas teve relevo especial, “Debussy et le symbolisme”, na Villa Médicis em Roma, onde o compositor, após receber o Prix de Rome no Conservatório de Paris, estagiou entre 1885-1887. Recordo-me que François Lesure situava Debussy nessa atmosfera simbolista, rejeitando o termo impressionista. Para tanto, disse-me ele que, naquela Exposição, colocara embaixo das escadas, com pouca visibilidade, um pequeno quadro da escola impressionista, apenas para evidenciar a diminuta influência.

Especialista referencial da música a partir do século XVI, estudando aprofundadamente manuscritos editados ou não, repertoriando, catalogando, nessa importante via de elaborações bibliográficas, François Lesure teria uma relevância absoluta na edificação das fontes relacionadas, mormente as referentes a Claude Debussy. Inquestionavelmente, posicionou-se como o mais abrangente pesquisador nos estudos relacionados ao notável compositor francês na segunda metade do século XX.

Afirmaria em entrevista à Rádio USP-FM, São Paulo, aos 9/10/1997: “Houve uma mudança de rumo quando se deu o centenário de Claude Debussy em 1962. Já estava na Bibliothèque Nationale e, nessa instituição, há o hábito de celebrar os grandes centenários através de catálogos e exposições. Nesse ano entrei pois pela primeira vez, de uma maneira focalizada, no mundo debussista”. Em 1971 foi o responsável pela edição de “Monsieur Croche”, edição da obra crítica de Debussy (Paris, Gallimard), republicada pela mesma editora em 1987 numa edição revista e aumentada. Em 1977 é publicado o “Catalogue de l’oeuvre de Claude Debussy” (Genève,Minkoff) e, já no início da introdução, Lesure afirma que “todos os catálogos são provisórios”. A essa altura, François Lesure se preocupava não apenas com a biografia, como também com a seleção da vasta correspondência de Debussy. Quanto à primeira, posiciona-se Catherine Massip ao considerar a biografia de Debussy depositada em dois livros — “Claude Debussy avant Pelléas ou les années symbolistes” (Paris, 1992) e “Claude Debussy: biographie critique” (Paris 1994) – como “a melhor biografia de Debussy atualmente disponível”. Aliás, biografia não superada até o presente, apesar das precedentes obras de Léon Vallas (1879-1956) e Edward Lockspeiser (1905-1973), entre tantos outros que se dedicaram ao difícil mister. Quanto à reunião da correspondência de Debussy, Lesure empreendeu um trabalho de longo fôlego, inicialmente introduzindo imagens nas duas obras da década de 1970, “Claude Debussy – iconographie” (Genève, Minkoff, 1975) e “Claude Debussy – Lettres” (Paris, Hermann, 1980). Desse período até a publicação de “Claude Debussy – Correspondance – 1884-1918” (Paris, Hermann, 1993), dezenas de outras missivas manuscritas seriam divulgadas (vide blog: “Claude Debussy e a atividade epistolar”, 11/01/2020). François Lesure continuava a pesquisa com vistas à publicação da correspondência completa – provisória, se considerada sua opinião sobre catálogos, quando vem a falecer aos 78 anos, em 2001. O trabalho hercúleo de François Lesure seria completado pelo seu ex-aluno Denis Herlin juntamente com Georges Liébert (Paris, Gallimard, 2005). Ainda no universo de Debussy, Lesure foi o criador e supervisor da edição crítica da obra completa de Debussy pela Durand-Costallat, com muitos volumes já publicados, mas em andamento há décadas.

Durante as várias viagens a Paris para pesquisas relacionadas a Debussy, destaco a importância de Myriam Chimènes, a quem François Lesure confiou, a partir de 1984, a responsabilidade do “Centre de documentation Claude Debussy” por ele criado, convidando-a a fazer parte do comité de redação da Edição crítica das obras completas de Claude Debussy, acima mencionada. François Lesure foi seu orientador da tese de doutorado, a ter como tema “Khamma, ballet de Claude Debussy, Histoire et Analyse” (Université Paris IV, 1980).

No próximo blog abordarei as três viagens de François Lesure ao Brasil (1988, 1990, 1997) para conferências, entrevistas, avaliação do Departamento de Música da Universidade de São Paulo e participação em banca de livre-docência na mesma instituição.

François Lesure, bibliographer and one of the leading musicologists of the 20th century, passed away twenty years ago. Professor at the École Pratique des Hautes Études and curator of the Music Department of the Bibliotèque Nationale in Paris (1970-1988), François Lesure specialized first in 16th and 17th centuries music and later in Claude Debussy. His researches, which resulted in fundamental books, place him as the most representative scholar on the French composer in the second half of the 20th century.