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Um dos nomes mais relevantes da musicologia no século XX

Poucas personalidades puderam e souberam
conduzir, como ele, várias carreiras
ou atividades paralelas enriquecendo-se mutuamente,
sendo as principais, de um lado,
a função de curador na Bibliothèque Nationale
e a de professor do ensino superior,
e, sob outra égide,
as atividades de musicólogo e de bibliógrafo,
para nos limitarmos ao essencial.

Catherine Massip

Há exatamente 20 anos, 21 de Junho, a França perdia um de seus mais notáveis musicólogos e bibliógrafos. A lembrança de François Lesure faz-se necessária neste espaço, pois sou-lhe eternamente grato. Foi ele que, ao conhecer minhas pesquisas e interpretação de toda a obra para piano de Claude Debussy, propiciou-me aberturas fundamentais em torno do imenso compositor. Abriu-me inclusive, como Diretor de Música da Bibliothèque Nationale, o estudo de toda a criação pianística de Debussy através dos manuscritos originais, experiência fulcral para aprofundamentos. À medida que as pesquisas prosseguiram, por três vezes convidou-me para palestras na École Pratique des Hautes Études em Paris, assim como para escrever, ao longo dos anos, artigos para os “Cahiers Debussy”, publicação do Centre de Documentation Claude Debussy, por ele criado.

Essa premissa faz-se necessária. Rememorar François Lesure é descortinar uma mente privilegiada, brilhante, plena de sabedoria e de generosidade para com todos aqueles que, imbuídos de propostas pertinentes, procuravam-no na Secção de Música da Bibliothèque Nationale, Rue Louvois, nº 2. Foi um grande privilégio privar de sua amizade.

François Lesure foi certamente uma das figuras mais significativas da cultura musical em França, quiçá a mais enciclopédica, na segunda metade do século XX. Tendo estudado na Sorbonne, na École Pratique des Hautes Études, École de Chartes e no Conservatoire de Paris, legou nas duas Escolas mencionadas teses referenciais sobre a feitura instrumental (1948) e os instrumentistas (1950) na Paris do século XVI. Em 1954, como secretário do Repertoire International des Sources Musicales (R.I.S.M.), François Lesure seria determinante na elaboração de catálogos, mormente três (1960, 1964 e 1971), que repertoriam do século XVI ao XVIII. A dedicação à vasta produção da música antiga ocuparia parte das investigações de François Lesure. Saliente-se a colaboração efetiva de sua esposa, Anik Devriès-Lesure, na edificação dos dois volumes do “Dictionnaire des éditeurs de musique français”, que abrange dos primórdios da atividade até 1914.

Posteriormente, o musicólogo estaria na direção de publicações da coleção “Le Pupitre”, com música dos séculos XVII-XVIII (Paris, Heugel, Leduc), assim como da coleção “Patrimoine”, que privilegia compositores franceses relevantes nascidos no século XIX (Paris, du Marais). Da primeira, presenteou-me com a edição das obras de Jean-Philippe Rameau (1683-1764) para cravo (Paris, Heugel. “Pupitre”, coleção de música antiga publicada sob sua direção. Edição crítica de Kenneth Gilbert) e com o “Traité de l’Harmonie” do genial compositor (France, Klincsiek, 1992, fac simile do exemplar conservado na Biblioteca da Sorbonne. Nota bibliográfica de François Lesure), essenciais para a minha gravação da integral ao piano em Sófia, na Bulgária, em 1997 e lançada em dois CDs pelo selo belga De Rode Pomp com texto do encarte assinado pelo ilustre musicólogo.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, “Les Niais de Sologne”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=xdKjHjNx700

Seria em 1950 que François Lesure entraria no Departamento de Música da Biblioteca Nacional da França e, entre 1970 e 1988, diretor do Departamento. Como professor de musicologia lecionou, de 1964 e 1977, na Universidade Livre de Bruxelas, sendo que em 1977 sucedeu a Solange Corbin (1903-1973) na cadeira de musicologia da École Pratique des Hautes Études. Presidiu a Société Française de Musicologie entre 1971-1974 e 1988-1991. François Lesure foi responsável pela organização de exposições junto à Biblioteca Nacional e alhures. Uma delas teve relevo especial, “Debussy et le symbolisme”, na Villa Médicis em Roma, onde o compositor, após receber o Prix de Rome no Conservatório de Paris, estagiou entre 1885-1887. Recordo-me que François Lesure situava Debussy nessa atmosfera simbolista, rejeitando o termo impressionista. Para tanto, disse-me ele que, naquela Exposição, colocara embaixo das escadas, com pouca visibilidade, um pequeno quadro da escola impressionista, apenas para evidenciar a diminuta influência.

Especialista referencial da música a partir do século XVI, estudando aprofundadamente manuscritos editados ou não, repertoriando, catalogando, nessa importante via de elaborações bibliográficas, François Lesure teria uma relevância absoluta na edificação das fontes relacionadas, mormente as referentes a Claude Debussy. Inquestionavelmente, posicionou-se como o mais abrangente pesquisador nos estudos relacionados ao notável compositor francês na segunda metade do século XX.

Afirmaria em entrevista à Rádio USP-FM, São Paulo, aos 9/10/1997: “Houve uma mudança de rumo quando se deu o centenário de Claude Debussy em 1962. Já estava na Bibliothèque Nationale e, nessa instituição, há o hábito de celebrar os grandes centenários através de catálogos e exposições. Nesse ano entrei pois pela primeira vez, de uma maneira focalizada, no mundo debussista”. Em 1971 foi o responsável pela edição de “Monsieur Croche”, edição da obra crítica de Debussy (Paris, Gallimard), republicada pela mesma editora em 1987 numa edição revista e aumentada. Em 1977 é publicado o “Catalogue de l’oeuvre de Claude Debussy” (Genève,Minkoff) e, já no início da introdução, Lesure afirma que “todos os catálogos são provisórios”. A essa altura, François Lesure se preocupava não apenas com a biografia, como também com a seleção da vasta correspondência de Debussy. Quanto à primeira, posiciona-se Catherine Massip ao considerar a biografia de Debussy depositada em dois livros — “Claude Debussy avant Pelléas ou les années symbolistes” (Paris, 1992) e “Claude Debussy: biographie critique” (Paris 1994) – como “a melhor biografia de Debussy atualmente disponível”. Aliás, biografia não superada até o presente, apesar das precedentes obras de Léon Vallas (1879-1956) e Edward Lockspeiser (1905-1973), entre tantos outros que se dedicaram ao difícil mister. Quanto à reunião da correspondência de Debussy, Lesure empreendeu um trabalho de longo fôlego, inicialmente introduzindo imagens nas duas obras da década de 1970, “Claude Debussy – iconographie” (Genève, Minkoff, 1975) e “Claude Debussy – Lettres” (Paris, Hermann, 1980). Desse período até a publicação de “Claude Debussy – Correspondance – 1884-1918” (Paris, Hermann, 1993), dezenas de outras missivas manuscritas seriam divulgadas (vide blog: “Claude Debussy e a atividade epistolar”, 11/01/2020). François Lesure continuava a pesquisa com vistas à publicação da correspondência completa – provisória, se considerada sua opinião sobre catálogos, quando vem a falecer aos 78 anos, em 2001. O trabalho hercúleo de François Lesure seria completado pelo seu ex-aluno Denis Herlin juntamente com Georges Liébert (Paris, Gallimard, 2005). Ainda no universo de Debussy, Lesure foi o criador e supervisor da edição crítica da obra completa de Debussy pela Durand-Costallat, com muitos volumes já publicados, mas em andamento há décadas.

Durante as várias viagens a Paris para pesquisas relacionadas a Debussy, destaco a importância de Myriam Chimènes, a quem François Lesure confiou, a partir de 1984, a responsabilidade do “Centre de documentation Claude Debussy” por ele criado, convidando-a a fazer parte do comité de redação da Edição crítica das obras completas de Claude Debussy, acima mencionada. François Lesure foi seu orientador da tese de doutorado, a ter como tema “Khamma, ballet de Claude Debussy, Histoire et Analyse” (Université Paris IV, 1980).

No próximo blog abordarei as três viagens de François Lesure ao Brasil (1988, 1990, 1997) para conferências, entrevistas, avaliação do Departamento de Música da Universidade de São Paulo e participação em banca de livre-docência na mesma instituição.

François Lesure, bibliographer and one of the leading musicologists of the 20th century, passed away twenty years ago. Professor at the École Pratique des Hautes Études and curator of the Music Department of the Bibliotèque Nationale in Paris (1970-1988), François Lesure specialized first in 16th and 17th centuries music and later in Claude Debussy. His researches, which resulted in fundamental books, place him as the most representative scholar on the French composer in the second half of the 20th century.

200 casos verídicos narrados por Jorge de Souza

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de navegar
Sobre as ondas azuis o nosso pensamento!
Miguel Torga
(“História Trágico-Marítima” – Alguns Poemas Ibéricos, 1952)

Na adolescência fascinavam-me os livros de biografias e as aventuras reais. Meu saudoso pai incentivava as histórias de figuras que permaneceram na história, pois as entendia como exemplos norteadores. As epopeias e grandes aventuras pouco a pouco também preenchiam minhas estantes. Marcas indeléveis permaneceram. Nos blogs, que remontam a Março de 2007, há inúmeros livros que, após leitura, resenhava ou comentava, mormente os relativos à cadeia de montanhas do Himalaia e seu pico maior, o Everest. Com a “vulgarização” das subidas ao pico, movidas por organizações especializadas nesse mister, centenas de “curiosos” sobem anualmente e não poucos sucumbem. Perdeu-se a magia, profanaram a Deusa Mãe do Céu Sagarmatha, segundo os nepaleses, desvirtuaram o alpinismo, hoje, de turismo. Apesar dessa realidade, ainda me entusiasma a leitura dos acessos ao K2, duzentos e pouco metros menos elevado, muito mais perigoso e, por não ser o maior, pouco visitado.

Nesses últimos dez anos entusiasmaram-me as aventuras do extraordinário aventureiro francês Sylvain Tesson e resenhei mais de dez livros (vide Resenhas e Comentários no menu) em que o autor descreve com agudeza suas andanças pelo planeta, quase sempre solitário.

Nessa interminável pandemia, li em um dos portais instigante artigo sobre um navegador que, em barco pequeno, realizou a circum-navegação do planeta sem parar em terra alguma. Ao fim da matéria havia publicidade de um livro: “Histórias do Mar – 200 casos verídicos” (São Paulo, Agência 2, 4ª edição, 2020). Interessei-me e adquiri-o via internet. A conta-gotas fui lendo as duas centenas de aventuras que se estendem do início do século XVI à atualidade. O autor, jornalista Jorge de Souza, é especialista em fatos, aventuras e histórias ligadas ao mar. Criou revistas afins e tem atuação permanente na mídia.

O notável navegador Amyr Klinck opina sobre o “Histórias do Mar”: “Sensacional! Livro viciante, daqueles que a gente não consegue parar de ler”.

Rigorosamente leigo na matéria, só entrei em um barco pequeno, o famoso pô-pô-pô – denominação simpática devido ao barulho do seu motor -, abundante nas águas do rio Guamá, para uma travessia de Belém à ilha do Cumbu. Comungo a opinião do pianista René François Duchâble (vide blog: “René François Duchâble”, 30/01/2021), que tem medo de viajar de navio e que jamais o fez. Esse é meu temor também, mas o fato não invalida assistir a documentários sobre barcos pesqueiros no mar do norte, ou aventuras marítimas pungentes. Recordo-me das duas leituras, uma na juventude e outra faz alguns anos, de “A expedição Kon-Tiki” (vide blog: 29/09/2018).

Amyr Klinck, tantas vezes navegante solitário, tem toda a razão sobre o livro. Centrei-me em poucas histórias diariamente, mas a vontade era prosseguir.

Jorge de Souza é um expert na temática “mar” sob os mais variados aspectos. Historicamente narra desde aventuras, naufrágios, pirataria e aspirações que remontam aos primórdios do século XVI. Torna-se evidente que a documentação desse período e os subsequentes é bem mais escassa, mas o autor, com perspicácia, consegue imprimir “atualização” a essas aventuras marítimas de antanho.

À medida que nos aproximamos do século XX e que a navegação se torna bem mais intensa, relatos ganham configuração mais abrangente, a não ser quando há misteriosos desaparecimentos de comandantes e seus adjuntos no mar, mas não das embarcações. Não são poucas essas narrativas. Pirataria em alto mar, revolta de tripulações que, após eliminarem comandantes e ajudantes, evadiram-se em barcos salva-vidas e igualmente deles não restariam traços. Jorge de Souza sempre enfatiza essas situações. Navios fantasmas.

Não há como pontuar algumas das 200 histórias, tantas trágicas, outras dramáticas e algumas hilárias. O texto de Jorge de Souza tem teor jornalístico, é leve, agradável, sem quaisquer requintes literários mais sofisticados. Talvez seja essa apreensão, independentemente de algumas histórias mais longas e elaboradas, que tornam a leitura tão agradável. Se não aborda o Titanic (mais de 1.500 vítimas), pois já se tornou um enfado retornar ao tema, creio que um pormenorizar maior sobre a tragédia marítima que atingiu 9.300 pessoas e que, no livro, tem como título “O triste fim do Titanic de Hitler”, enfatizaria ainda mais a insanidade das guerras, quando o transatlântico alemão Wilhelm Gustloff foi torpedeado por submarino russo em 30 de Janeiro de 1945, nos estertores da IIª Grande Guerra. O Titanic, cercado de glamour e aura de navio perfeito, foi a pique ao chocar-se com um iceberg; quanto ao segundo, superlotado por civis alemães em fuga e soldados feridos do regime nazista, dos certamente mais de 10.500 “passageiros” apenas 1.239 sobreviveram.

Um sobrevivente dirá décadas após: “os mortos estão tranquilos, mas nós, sobreviventes, morremos a cada dia”. Pungente documentário traduz a maior tragédia marítima em termos de vidas perdidas:

https://www.plongee-infos.com/chaque-jour-une-epave-30-janvier-1945-le-wilhelm-gustloff-la-plus-grande-tragedie-maritime-de-tous-les-temps/

A contrastar com essa magnitude, em “Histórias do Mar” Jorge de Souza conta casos até bizarros de viajantes solitários que, atingindo ou não seus objetivos, arriscaram-se pelos mais variados motivos: aventura, fuga, diversão, notoriedade, furto. Alguns se deram muito mal e levaram seus sonhos para o fundo do mar. Impressionam determinados casos de aventureiros que contam unicamente com o alimento extraído do mar — peixes, tartarugas — e do espaço, quando aves migratórias ou distantes de terra firme encontram um lugar para descansar. Nas “histórias” de Jorge de Souza sobre esses navegadores solitários o que não falta é a diversidade de condutas.

Jorge de Souza alerta sobre o descaso das autoridades que permitem que barcos superlotados de turismo ou de viajantes naveguem pelas águas brasileiras. Menciona a tragédia “do barco Novo Amapá na foz do rio Amazonas, onde morreram mais de 250 dos 600 passageiros – embora ele só tivesse capacidade oficial para 150 pessoas”. Oito meses após seria o Sobral Santos II, característica gaiola amazônica (Setembro, 1981), igualmente naufragando por falta de fiscalização, superlotado, a deixar dezenas de desaparecidos. O autor insere no livro a tragédia do  Bateau Mouche, também superlotado, que naufragaria na noite de 31 de Dezembro de 1988 na saída da Baia de Guanabara. Não há necessidade de profetizar, mas por desleixo na fiscalização tantas outras tragédias como essas serão tratadas pelo autor futuramente, hélas.

Pela abrangência, tem interesse especial o relato sobre o submarino alemão U-507, que, durante a IIª Grande Guerra, com seus torpedos afundou vários navios brasileiros em 1942. Comenta: “Foi ele, também, que decretou o trágico destino de mais de 600 brasileiros, muitos deles mulheres e crianças, ao torpedear navios de passageiros sem nenhum aviso. Foi Harro Schacht (comandante), enfim, que fez o Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial, após a nação, indignada, romper sua neutralidade”. Meses após, em 1943, o submarino voltaria aos mares do sul e encontraria seu fim causado por bombas de profundidade lançadas por um avião Catalina, que escoltava comboio de navios.

Creio que o leitor poderá se interessar pelas narrativas que, por vezes, em casos específicos, são abordados por Jorge de Souza com fino humor ou ironia.

Ficaria apenas uma observação, resultado de meu desconhecimento de outras obras de sucesso do autor. Gostaria que houvesse sido inserida a extraordinária façanha de Ernest Henry Shackleton, que, na expedição à Antártida (1914-15), assistiu ao esmagamento pelo gelo de seu navio Endurance, mas que, após verdadeira epopeia, salvaria a tripulação.

Since my youth I have enjoyed books based on true adventures. Many have already been mentioned in this blog, like the ones about the Himalayan mountain range or the many books by the French adventurer Sylvain Tesson. “Histórias do Mar” (Sea Stories), written by Jorge de Souza, a journalist and editor specializing in facts occurring at sea, is a book of great interest and worth of attention. A real page turner, from beginning to end a compelling read.

 

Carreira consagrada e projeto cultural a envolver a Chapelle Royale de Senlis

É certo que, para um artista que carrega uma mensagem, devolvê-la numa hora fixada
diante de um público que se pretende numeroso,
ao menor estremecimento das fibras de sua sensibilidade resultará um estado entre a ação das graças
e o suplício de Tântalo.
Transfigurado pela pujança de sua visão,
ele entra em incandescência
até se tornar a encarnação viva da revelação fugidia.

György Cziffra
(“Des canons et des fleurs”)

Neste último post sobre o pianista György Cziffra, três temas têm interesse maior: a carreira vertiginosa que assombraria plateias, o hercúleo projeto que compreende a guarda e restauração da Chapelle Royale de Saint-Frambourg em Senlis e a intensa relação com seu filho, György Cziffra Jr., regente de talento.

Fugindo do regime húngaro em 1956, no início da revolução húngara, que em poucas semanas foi sufocada pelos tanques Soviéticos, Cziffra, a mulher Soleika e o filho se refugiam na França, país que concederá futuramente a cidadania aos três. Sua primeira apresentação naquele ano foi fulminante. Impactavam-se as estruturas conceituais da denominada escola francesa de piano. Jamais tinham ouvido tão grande virtuosidade em um pianista. Alain Lompech comenta: “György Cziffra tinha um ar estranho e dez vezes mais dedos do que seus contemporâneos” (“Les grands pianistes du XXº siècle”, 2012). Doravante sua carreira foi meteórica, apresentando-se no Ocidente e no Oriente diante de plateias extasiadas por suas performances singulares.

Esse assombro persistiria durante certo tempo e, posteriormente, o conhecido esprit de corps de alguns colegas e da crítica tentaria minimizar sua atuação, mormente no fator estilo. Alain Lompech avoca: “sua colega Martha Argerich (1941-), que amou Cziffra na primeira vez que o ouviu através de discos nos anos 1950, contou que sentiu o desprezo da classe em relação a ele quando transmitiu toda a sua admiração a músicos célebres. Responderam-lhe ‘sim, o cigano…, enfadonho’ ”. No post anterior inseri palavras ácidas de Cziffra sobre a crítica. Corroborando certos posicionamentos quanto às suas performances extraordinárias, que ensejaram opiniões até desairosas devido seguramente à sua formação inicial e “autodidata”, fora dos padrões de conservatórios, pareceria inacreditável a ausência de seu nome, sequer como menção, nos livros de Harold Schonberg, “The great pianists” (1966) e de Elyse Mach, “Great contemporary pianists speak for themselves” (1991), mormente deste, sabendo-se que em “Des canons et des fleurs” Cziffra tanto escreveu! Incontáveis outros pianistas respeitáveis são mencionados, mas inúmeros sem a dimensão de Geörgy Cziffra.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, de J.S.Bach a Toccata e Fuga em ré menor:

https://www.youtube.com/watch?v=0O7mb0soC3g

A atividade do pianista não se resumiria somente à vertiginosa carreira. Ao receber a cidadania francesa, passa a utilizar o prenome Georges e não György. Após as agruras mencionadas no blog anterior, busca retribuir a acolhida em França e tem interesse o diálogo com André Malraux (1901-1976), notável escritor, pensador, historiador e ministro da Cultura (1959-1969) no governo de Charles de Gaulle. György Cziffra foi aconselhar-se com Malraux, a fim de sugerir essa contribuição que entendia necessária, no caso, a restauração de um templo:

“- Seu projeto vos honra… mas não deve ser realizado em Paris, pois não mais há na cidade um pedacinho de terreno onde a intenção do homem não colocou o pé. Talvez em Senlis, que não é uma cidade como as outras. Senlis é bem mais do que isso, é o berço da França. Creio ser a mas antiga dessas igrejas, a antiga Chapelle Royale de Saint-Frambourg, obra-prima hoje periclitante. Outrora foi o feudo dos primeiros Capetianos (final do século X). Presentemente está na iminência de desabar. Vandalizada durante a Revolução, serviu de templo da Razão, forja, loja de forragem, manejo de cavalos, caserna de bombeiros e atualmente… estacionamento pago! Deus sabe como ela é bela. Se você conseguir revelá-la, a França lhe deverá uma vela honrosa, digo-lhe francamente. Mas, há necessidade de muito dinheiro. Você tem o suficiente?”

Após a negativa de Cziffra, a dizer que poderia ao menos iniciar a recuperação, imediatamente Malraux o interrompe com a afirmação de que seria necessário muito dinheiro, indagando como poderia fazê-lo: “Seria com os seus dez dedos que pensa reerguer a capela real de suas cinzas?”. “Sim, respondeu Cziffra”.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, de Franz Liszt, Grand Gallop Chromatique:

https://www.youtube.com/watch?v=a-fyNP7y680

O estado da Chapelle Royale era deplorável: Paredes rompidas, espaços vazios sem vitrais que se tornaram abrigo, segundo Cziffra, para “corvos, centenas de pombos, milhares de pardais e gatos negros que doravante teriam de buscar abrigo em outro lugar”. Tudo a ser restaurado e… a carreira vertiginosa a dar alento.

Ao iniciar a empreitada com seus próprios recursos, vê-se cercado por “pilha de faturas com tantos zeros que me fizeram estremecer. Sou crente e habitualmente jamais rezo para pedir algo pessoal, mas sim pela saúde e felicidade de meus familiares. Neste dia rezei para São Francisco de Sales, padroeiro da igreja justo em face de minha janela, para que me desse forças para continuar, pois somente um milagre poderia fazer com que pudesse cumprir sozinho os encargos massacrantes desse projeto, mormente naquele período em que meus compromissos pianísticos eram imensos e eu não podia parar”. Desalentado, refletia sobre os quase intransponíveis trabalhos que estavam anunciados, quando sua esposa Soleika, imprescindível na condução dos trabalhos, comunica que donativos chegavam, primeiramente para os vitrais, um a representar Santa Elizabeth da Hungria e, outro, São Francisco de Sales. Saliente-se que o escultor e pintor Joan Miró (1893-1983), amigo do pianista, ofereceria também vitrais para a Chapelle Royale. Outras tantas doações permitiram, após longo processo de reconstrução, a abertura da Chapelle Royale de Saint-Frambourg para apresentação de recitais, concertos com orquestra, corais, exposições e masterclasses. O Festival de Senlis, sonho de György Cziffra, prossegue até o presente.

A proposta de André Malraux possibilitou a utilização por 40 anos da Chapelle Royale, e os esforços hercúleos do pianista húngaro-francês no sentido de reconstruí-la foram coroados. Para tanto, foi criada em 1975 a Fundação Georges Cziffra, importantíssima para a divulgação e recepção de fundos. Somente em 2016, concretizando-se o sonho do pianista, a Fundação Cziffra adquiriu a Chapelle Royale Saint-Frambourg que, na realidade, já desde a década de 1970 era a sua sede histórica.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, de Franz Liszt, Valsa-Impromptu:

https://www.youtube.com/watch?v=nRD5RralCgA

Um dos grandes prazeres de Cziffra era tocar sob a regência de seu filho, György Cziffra Jr. Em 1981, o jovem regente morre em incêndio em seu apartamento. Cziffra não mais tocou com orquestra e sua carreira vitoriosa aos poucos perderia a denominada joie de vivre. O brilhantismo, sempre presente, doravante ficaria marcado pela nuvem da nostalgia. György Cziffra morreu em 1992, vítima de ataque cardíaco.

Clique para ouvir, na memorável interpretação de György Cziffra ao piano, sob a regência de György Cziffra Jr. a conduzir a Orquestra Nacional da ORTF, as Variações Sinfônicas de Cesar Franck:

https://www.youtube.com/watch?v=offejPoTAzo

A interpretação de György Cziffra ultrapassa os ditames tradicionais em aspectos fulcrais. Considerando-se a atualidade que, graças à profusão de intérpretes das novas gerações, mormente da legião de pianistas do Extremo Oriente que impactam o Ocidente munidos do técnico-pianístico irrepreensível e amparados por fortes holofotes, que possibilitam às câmaras fixarem o gestual sempre mais acentuado, ouvir Cziffra, hoje, é desfrutar de algo raro. Sem contar o fenômeno absoluto que ele representa, sem explicação plausível. Há em sua execução algo de telúrico, uma anima não encontrável em outros pianistas da nova geração. A constatação de Martha Argerich se expande até os dias atuais e não são poucos os “puristas” que o veem de maneira desabonadora. Como exposto no blog anterior, Cziffra fez sua autocrítica, preparou-se leoninamente após as vicissitudes para penetrar no âmago das obras e dos autores estudados, saindo-se vencedor. O longo mergulho no de profundis da criação musical não foi realizado sem sacrifícios. Contudo, o sabido desabono de alguns intérpretes baseia-se, possivelmente, na impossibilidade de alcançarem eles próprios as performances de György Cziffra, sobretudo no quesito técnico-pianístico. Foi ele um caso à parte na história da interpretação pianística. Entre as suas incontáveis qualidades, primeiramente se destaca a virtuosidade rigorosamente singular. Acrescentem-se a clareza de sua execução, mesmo nas passagens mais transcendentais da literatura pianística; a extensão dinâmica em seus limites; a pedalização econômica nas culminâncias da virtuosidade; o senso do rubato; a sensibilidade que não esconde um passado dramático; o gestual discretíssimo; a sinceridade na execução das obras. Nada é apresentado para impactar o público, pois sua interpretação, mais precisamente nas obras de grande virtuosidade, jorra na intensidade de lavas vulcânicas.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, de Chopin, a Fantaisie Impromptu op. 66:

https://www.youtube.com/watch?v=ow1c8esX3bQ

No pórtico dos 83 anos sensibiliza-me sempre a epopeia, o desprendimento e a generosidade de um pianista excelso que, em país que o acolheu, lega uma herança musical e física que o dimensiona como rigorosamente ímpar entre todos aqueles que se destacaram nessa “Voie Royale” (extraordinário livro de André Malraux), que também foi a grande senda percorrida pelo artista György Cziffra. Ele mesmo comparou sua futura empreitada à criação de André Malraux.

György Cziffra compôs algumas obras, assim como transcreveu para piano inúmeras outras de conhecimento público, configurando tantas delas numa escritura transcendental.

Ao finalizar o terceiro post sobre György Cziffra, exibo uma sua gravação realizada em 1934, registro incompleto, diga-se, em que o menino se apresenta com o traje de marinheiro oferecido pela irmã, tão comum nas crianças de então. Prenunciava-se a singularidade.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra aos 13 anos de idade, de Franz Schubert, o Impromptu op 90 nº 4:

https://www.youtube.com/watch?v=-rDoRRKXLSY

In this third post I address the celebrated career of György Cziffra after his escape from Hungary to France; the Chapelle Royale project in Senlis; the premature death of his only son, the conductor György Cziffra Jr., and some fundamental aspects of his interpretation.