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A saga de um herói imaginário

Jean-Christophe é um evento ético mais do que literário.
Stefan Zweig
(“Berliner Tageblatt”, 22/12/2012)

Para o povo, a injustiça é a desigualdade,
Para a elite, é a igualdade.
Romain Rolland
(“Jean-Christophe”, p. 1263)

Foram duas as minhas leituras do mesmo compêndio de 1595 páginas em papel bíblia (Paris, Albin Michel, 1950). A primeira em 1957 e a segunda no ano 2005. Foi certamente um dos romances que retive indelevelmente na memória. Curiosamente, interessei-me pela obra porque Romain Rolland (1866-1944) foi também biógrafo e entre seus livros tem-se os estudos sobre Beethoven, Gandhi, Tolstoi, Haendel, Péguy, Michelangelo, Ramakrishna, Vivekananda…

Escreve em 1903 uma primeira biografia de Beethoven. Sua admiração inconteste pelo compositor fá-lo edificar, a partir de 1928, a monumental coleção dedicada ao genial compositor alemão, não desprovida de análises de muitas criações, e que se estenderia por sete volumes redigidos até os estertores da existência. Abro parêntesis para mencionar que a tradução para a língua portuguesa foi realizada pelo notável compositor Fernando Lopes-Graça (1906-1994) em três volumes (Lisboa, Cosmos, 1960). A leitura de “Goethe et Beethoven” (1930), segundo da série, levou-me a percorrer com intensidade “Jean-Christophe” (1904-1912), obra dividida em 10 volumes. Romain Rolland escreveria na “Introdução” do romance que “as analogias históricas entre o músico de Bonn se reduzem a alguns segmentos da família de Christophe, no primeiro volume”. Creio que vão além, conscientemente ou não. Romain Rolland acompanha o herói imaginário e acalentado, do nascimento à morte, seguindo-o da Alemanha à França, à Suíça e em seu retorno definitivo a Paris.

Jean-Christophe Kraff, músico imaginário nascido na Alemanha, onde receberia a formação musical que o leva a ser pianista, violinista, regente e compositor meritório, após os primeiros lustros no país natal, onde vive também seus primeiros amores, parte para Paris movido por decepções de várias ordens. Na capital francesa se desalenta e se indispõe com a moral vigente e com a classe artística, mas pouco a pouco vê suas composições serem aceitas. Encontra um grande amigo, Olivier, irmão de Antoinette, que conhecera na Alemanha e que é título do sexto livro. Olivier, ligado a revolucionários, morre em uma escaramuça. No blog anterior mencionei que, na “Introdução” tardia de 1931 para reedição de “Jean Christophe”, o autor tencionava tornar o personagem central um revolucionário também, o que daria destino completamente diverso aos dois livros finais (9 – Le Buisson Ardent, 10 – La Nouvelle Journée).

Saliento a minha percepção após as duas leituras tão espaçadas no tempo. Na primeira abordagem, aos 19 anos, a figura do herói Jean Christophe se me apresentava como inspiração. Romain Rolland, em toda a trajetória de seu personagem, consciente ou inconscientemente, não descarta o adolescente em seus sonhos, mesmo na idade madura de Jean-Christophe, apesar de seus almejos e desencantos frente à vida. Seria possível entender que, para o jovem músico que eu fui, eleger àquela altura Jean-Christophe tem lá suas razões, como anos antes, aos 13 anos, sob contexto outro, escolhera a figura de Enrico, no comovente “Cuore” de Edmondo de Amicis (1846-1908), que, décadas após a publicação, por motivos essencialmente ideológicos, a intelligentsia tentou desconstruir. Como não pensar igualmente num dos livros franceses de maior aceitação pública e êxito editorial absoluto, “Le Grand Meaulnes”, de Alain-Fournier (1886-1914), morto durante a primeira grande guerra? Seu único livro, publicado em 1913, aos 27 anos, apresenta um jovem em sua trajetória fantasiosa e imbuído dos fluidos românticos. Sem o conteúdo de Jean-Christophe, a literatura de Fournier é lírica e cativante. Quanto à criação de Romain Rolland, nos meus 19 anos comungava os anseios do herói e seu comprometimento indelével com a Música – o que também acontecia com o jovem leitor. Na leitura em 2005 o interesse maior foi pelos últimos dois volumes, marcados pelas cicatrizes advindas de sucessos – por vezes efêmeros -, ilusões, amores de diversas intensidades, amizades intensas, confissões, almejos, riscos, espírito libertário, desalentos profundos e resignação de Jean-Christophe, mormente no período a anteceder o desenlace, quarta parte de La Nouvelle Journée, 10º livro da saga.

Os dez volumes de “Jean-Christophe”, inicialmente publicados paulatinamente nos “Cahiers de la quinzaine” de seu amigo, o poeta Charles Péguy (1873-1914) – tragicamente morto na frente de batalha no início da primeira grande guerra -, alcançaram recepção pública expressiva, mas com reservas da crítica. Tem-se de entender que, em tempos entre guerras, a franco-prussiana de 1870-1871 entre a França e Estados alemães dirigidos pela Prússia, e a primeira Grande Guerra 1914-1918, Romain Rolland estava a erigir um jovem alemão com fortes vínculos com a França como personagem capital de seu romance, do berço à morte. Sob outra égide, elegera Beethoven seu compositor preferido e alemão. A aproximação com a cultura da Alemanha seria uma das conotações, entre tantas outras, das críticas chauvinistas a Romain Rolland. Teria passado desapercebida uma frase na segunda parte de La Nouvelle Journée sobre o retorno de Jean-Christophe a Paris, após ter se refugiado na Suíça: “jamais gostaria de rever essa cidade”? (p.1469).

Creio que “Jean-Christophe”, assim como “Citadelle”, de Saint-Exupéry, este rigorosamente sob outra égide, são odes à condição do homem em direção à fraternidade e a um humanismo que está a esvair-se. Romain Rolland constrói o herói gestado amorosamente, distanciando-o de uma vida estéril: “Desgraça à alma que não se sente fecunda, plena de vida e de amor, como uma árvore florida na primavera! O mundo pode honrá-la de diversas maneiras; mas está a coroar um cadáver” (p.383).

Jean-Christophe é o modelo do herói romântico. Tem suas características essenciais. As inúmeras mensagens recebidas pelo autor, mormente de jovens ao longo de duas décadas, evidenciariam a escolha do personagem que, criado, flutuaria através do tempo como paradigma. Beethoven é um farol para Romain Rolland, mas a aura de compositores do período romântico também poderia estar em sua mente, pois confessaria uma certa indisposição para com o modernismo. Jean-Christophe atravessa a existência “acalentado” por seu autor. Criador e criatura se amalgamam. Romain Rolland consegue, através de seu personagem, transmitir suas convicções sobre arte, moral, costumes, fé, música essencial, assim como sobre os objetivos frente à vida: “A maior parte dos homens morre aos vinte ou trinta anos: passado esse marco, esses homens não são mais do que seu próprio reflexo; o resto da vida se escoa enquanto imitam a eles mesmos, repetindo a cada dia mais e mais, de maneira mecânica e também caricata, o que disseram, fizeram, pensaram, amaram nos tempos passados” (p.238). Há a visão clara da Arte como patamar não contaminado pelos interesses econômicos: “…não há nenhuma relação entre uma soma de dinheiro e uma obra de arte, a obra não está acima, tampouco abaixo: ela está fora” (p.1289). Essa apreensão da arte como alheia a poderes por vezes inconfessos é contrária ao que hoje ocorre, ou seja, o caminhar progressivo em direção à civilização do espetáculo, que nega valores culturais sedimentados pela tradição. Confessa in adendo: “…as pessoas atualmente leem rápido e mal, não mais sabem a força maravilhosa que irradia dos livros que bebemos lentamente” (p.1217).

Poder-se-ia considerar uma frase, quase ao final do livro, que tem a sonoridade e o significado de uma oração e sintetiza a transcendência do herói na saga: “Ó minha velha companheira, minha música, tu és melhor do que eu. Sou um ingrato, eu te despedi. Mas tu não me abandonas; não te aborreces com meus caprichos. Perdão! Tu sabes bem, são brincadeiras. Eu nunca te traí, tu jamais me traíste, somos seguros um do outro. Nós partiremos juntos, minha amiga. Fica comigo, até o fim!” (p.1588). (tradução: J.E.M.).

Sobre meu leito, tenho essa passagem manuscrita.

In this second post I comment on my two readings of “Jean-Cristophe”, in 1957 and 2005. The different perceptions have only increased the great appreciation I have always had for this monumental novel. Humanism, culture, art, morals, customs and responsibility permeate the novel. Such qualities have faded over the decades.

Romain Rolland – a longa gestação de um romance

Pareceu-me sempre que a Arte
deveria proporcionar essa alegria,
necessária para suportar a vida cotidiana,
tão dura para uns, tão morna para outros.
Todavia, quanto tempo será necessário
para que transpareça, através de um acorde,
a ideia da bondade e do desinteresse que o inspira.
Claude Debussy
(carta a Romain Rolland, 11/05/1904)

Indubitavelmente é fora de dúvida
que a considerável obra de Romain Rolland
só pode ser simpática a todos os artistas,
em particular, aos músicos.
Claude Debussy
(carta a Arthur Cantillon, Fevereiro, 1913)

Encontrei meu amigo Marcelo a fazer compras no supermercado próximo à minha morada. De imediato diz ter ouvido o primeiro movimento da Sonata Hammerklavier na interpretação de Désiré N’kaoua e que gostara imenso da criação de Beethoven, apesar de, como leigo, entendê-la bem “abstrata”, conforme afirmou. Marcelo observou que, pela segunda vez em pouco tempo, insiro epígrafes de Romain Rolland. Diz haver lido anos atrás um volume de seu famoso romance “Jean-Christophe”. A extensão da obra impediu-o de prosseguir a leitura. Perguntou-me se eu já havia lido o romance. A resposta afirmativa e o breve diálogo despertaram em mim o interesse de abordar sucintamente o monumental romance de Romain Rolland, o que agradou a Marcelo.

Romain Rolland (1866-1944) foi uma das figuras mais brilhantes de sua época. Francês, foi escritor, romancista, dramaturgo, ensaísta, biógrafo, memorialista e musicógrafo. Humanista, não poucas vezes teve suas posições entendidas como não patrióticas, mormente durante a primeira grande guerra, o que lhe valeria dissabores. Intelectuais mais nacionalistas viam-no como tendente a observar o conflito de forma não engajada e dúbia aos interesses da França. As posições, que se tornaram públicas, fizeram inclusive com que a Academia da Suécia, que lhe atribuíra o Prêmio Nobel de literatura em 1915, sensível às pressões, somente entregasse o prêmio desse ano em 1916.

Dividirei o tema “Jean-Christophe” em dois posts, o primeiro a salientar a importância da “Introdução” tardia do livro, redigida pelo autor em Villeneuve-du-Léman na Páscoa de 1931, e o segundo a comentar as impressões que me calaram fundo em ambas as leituras, tão espaçadas no tempo. “Jean-Christophe” está dividido em 10 tomos, publicados de 1904 a 1912 na formatação de feuilleton (romance em série) pela revista Cahiers de la quinzaine, sendo que uma segunda edição do primeiro tomo, L’Aube, foi impressa pela Librairie Paul Ollendorf de Paris (1906).

A “Introdução” revela uma das características do pensar de Romain Rolland, o humanismo. À sociedade do espetáculo em que se vive nessas últimas décadas, as palavras introdutórias para uma edição tão distante (1931) da primeira publicação podem parecer anacrônicas. O narrador tem agora consciência da trajetória vitoriosa de seu herói pelo mundo, através de tantas traduções de seu livro. O apego à figura por ele criada se metamorfoseia e, nomeando-se “pai”, se a visse “com os costumes os mais variados” teria dificuldade de reconhecê-lo. Romain Rolland, ao revelar identidade plena com o personagem consagrado pelos leitores através das décadas e seu afeto por Jean-Christophe do berço à morte, fato reiteradas vezes mencionado, expõe-se por inteiro: “O Jean-Christophe que eu carregava em mim, como uma mulher o seu fruto”. Tão distante da marcante dedução do notável escritor português Guerra Junqueiro (1850-1923), que, no prefácio à segunda edição de “A velhice do Padre Eterno”, escreveria: “Um livro atirado ao público equivale a um livro atirado à roda. Entrego-o ao destino, abandono-o à sorte. Que seja feliz é o que eu lhe desejo; mas, se não o for, também não verterei uma lágrima”.

Romain Rolland confessaria, à guisa de introdução: “O pensamento de Jean-Christophe abrange mais de vinte anos de minha vida. A primeira ideia data da primavera de 1890, em Roma. As últimas palavras escritas datam de Junho de 1912. Encontrei esboços de 1888, enquanto aluno da École Normale Supérieure de Paris. Christophe me era uma segunda vida, escondido aos olhos exteriores, onde eu retomava contato com o meu eu mais profundo”. Seria a partir de 1900 que, “…inteiramente livre e em solilóquio com meus sonhos, minhas armas da alma, lancei-me resolutamente sobre a torrente”. A primazia pelo projeto é notória, ao afirmar: “Jamais uma obra foi tão totalmente organizada no pensamento como Jean-Christophe, antes que as primeiras palavras fossem jogadas sobre o papel”, fato que ocorreria aos 20 de Março de 1903. Se o herói já fazia parte do pensar de Romain Rolland, não mais o abandonaria durante a longa gestação: “Em dez anos, nenhum dia passou sem a sua presença. Ele não tinha necessidade de falar. Ele estava lá”. Romain Rolland tem consciência de que Jean-Christophe tem sua trajetória “numa época de decomposição moral e social na França”. Elenca a seguir as condições de um chefe. Jean-Christophe é moldado para a missão de herói, mas seria ledo engano entendê-lo como figura mitológica. Para Romain Rolland, como definira em relação a Beethoven: “Chamo de heróis somente aqueles que foram grandes pelo coração”. A contemporaneidade de Beethoven com o personagem idealizado no romance estaria presente mormente nos primeiros anos de Jean-Christophe, fixados nos três primeiros livros (L’Aube, Le Matin, L’Adolescent), pois nos outros sete adquire seu papel pessoal pela história e se universaliza. Contudo, seria possível apreender Beethoven a “sobrevoar” em tantas passagens nos livros subsequentes. Romain Rolland descreve o pós-edição: “Jean-Christophe não é mais, em nenhum país, um estrangeiro. Das terras mais distantes, das raças as mais diversas, da China, do Japão, da Índia, das Américas, de todos os povos da Europa chegaram homens dizendo: ‘Jean-Christophe é nosso. Ele é meu. Ele é meu irmão. Ele é meu’ “. Em 1883, no alvorecer das ideias visando à edificação do herói, já apregoava a insistência, a repetição como necessidade de ser compreendido ao dar significado ao personagem: “E se, para melhor penetrar seu pensamento, será útil que você repita as mesmas palavras, repita, insista, não busque outras palavras! Que nenhuma palavra seja perdida! Que seu verbo seja ação! São princípios que eu reivindico ainda hoje contra a estética contemporânea”.

Romain Rolland confessa ter escrito notas, fragmentos esboçados, encaminhando Jean-Christophe, nos livros finais, para a difícil senda dos heróis revolucionários partícipes dos movimentos que explodiram na Alemanha e na Polônia. Abortou a ideia de estender a saga, mas acredita não ter colocado um ponto final na narrativa. “O fim de Jean-Christophe não é um fim, é uma etapa. Jean-Christophe não acaba. Sua morte é um momento do Ritmo, uma expiração do grande sopro eterno… Ele terá morrido cem vezes, ele renascerá sempre, ele combaterá sempre, ele é e continuará o irmão dos homens e das mulheres livres de todas as nações, que lutam, que sofrem e que vencerão”. E como última frase, o autor relembra em 1931 seu herói: “Um dia eu renascerei, para novos combates…”.

O fervor de Romain Rolland pode ser sintetizado em seu testemunho: “Eu não escrevo uma obra literária. Eu escrevo uma obra de fé”.

Today I write about the French novelist, playwright, musicologist, essayist and great humanist Romain Rolland (1866-1944) — Nobel prize winner for Literature in 1915 — and his masterpiece, the ten-volume epic novel “Jean Christophe” (published from 1904 to 1912), in which the author expresses his views on music, social matters and his love of mankind. I will divide the post into two parts, the first stressing the importance of the belated introduction to the book (only written in 1931); the second commenting on the deep impressions the book made on me after two reads.

“Memórias”

Da margem, eu fazia sinal ao balseiro que conduzia a balsa até a margem oposta, chamando-o com um gesto suplicante.
Pois a Vida, em mim, ardia por partir para a viagem da existência.
Rabindranath Tagore (“Memórias”)

Sem ser a obra mais divulgada do poeta, romancista, compositor, cantor, dramaturgo e pensador Rabindranath Tagore, “Memórias” foi lida durante esta pandemia por motivos até afetivos. Após a morte de meu saudoso pai, José da Silva Martins (1898-2000), herdei uma parte de sua imensa biblioteca, intensamente consultada pelos quatro filhos sob a orientação do progenitor. Entre os livros de autores caros a ele, como Camões, Dante, Cervantes, Descartes, Pascal, La Rochefoucauld, Krishnamurti, Renan, Annie Besant, Maurice Maeterlinck, Guerra Junqueiro, Antero de Quental, Oliveira Martins, João Ameal, Pandiá Calógeras…, fiquei também com as “Memórias” de Rabindranath Tagore. Mui recentemente, ao manejar uma das estantes, ao fundo figurava o livro de Tagore. Ricamente encadernado, causou-me surpresa a dedicatória dos quatro filhos à nossa saudosa mãe, Alay Gandra Martins (1907-1999), por ocasião de seu aniversário aos 16 de julho de 1947. Os quatro, por ordem cronológica, assinaram seus nomes e sobrenomes completos!!! Ofertávamos à mãe dois livros, sendo o outro Anna Karenina, de Leon Tolstoi. Outras épocas, em que a leitura fazia parte essencial do cotidiano.

Rabindranath Tagore foi figura ímpar na cultura da Índia, mais precisamente, bengali. Apesar do pouco conhecimento que temos da cultura hindu, sua obra literária, difundida pelo mundo, teve calorosa recepção no Brasil e recebeu admiração de nossos poetas e escritores, entre os quais a notável Cecília Meireles, que teria sofrido influência em sua lírica vertente. Os acadêmicos Abgar Renault e Guilherme de Almeida foram dois de seus tradutores diretamente do inglês, assim como Ivo Storniolo. Em 1913 Tagore receberia o Prêmio Nobel de Literatura.

Tagore teve inúmeras obras traduzidas para o português. “Memórias” (Rio de Janeiro, José Olympio, tradução de Gulnara Lobato de Morais Pereira, 1946), a abranger a infância e juventude do autor, é particularmente sensível, pois no Brasil uma de suas criações, “As mais belas histórias” editada em 1954, teve até 1970 mais de 100 edições e esteve presente nas escolas primárias do país.

Fixar-se na infância após décadas acumuladas merece os maiores cuidados, à pas du loup, para que a narrativa não adquira lamentável fantasia. Metaforicamente, Tagore expõe no prólogo essa revisita ao longínquo passado: “Quando viajamos por uma estrada, pouca atenção damos ao pouso em que nos detemos à beira do caminho, mas com o cair da noite, antes de encontrar descanso na última hospedaria, se volvemos o olhar para as cidades, para os campos, rios e colinas percorridos na manhã da existência, temos, sob a luz crepuscular, a visão de um conjunto dos mais pitorescos. Foi assim que contemplei meu passado e o que vi me fascinou”.

Nas Memórias, Tagore constrói parte da narrativa numa incessante citação à sua morada. Ao que se depreende, viviam muitos integrantes da família e o poeta teve inúmeros irmãos, louvados em vários segmentos. A casa em que morava deveria ser grande, pois reiteradas vezes Tagore se refere a um terceiro pavimento e a aposentos que não podiam ser visitados pelos menores.

A veia poética é patente desde a infância e aos oito anos já surgiam as primeiras incursões, apesar de confessar nada ter aprendido com seus professores em sala de aula. Contrariamente, desfilam nas Memórias incontáveis mestres particulares, poetas ou amigos com quem aprenderia línguas, literatura e poesia. A eles exibia seus poemas e cantares. Esse aprendizado teve a cumplicidade de seu pai e seu testemunho é claro: “Até seus últimos dias me foi dado observar que ele não criava embaraços à nossa independência”. Leitor inveterado, Rabindranath comenta: “No nosso tempo, líamos de fio a pavio todos os livros que nos caíam nas mãos”. A considerar sua vocação, Tagore, ainda criança-adolescente, ouvia conselhos de mestres e, na ausência de elogios, tinha a convicção de que “nada poderia conter o impulso que me impelia em minhas tentativas literárias”. O convívio com o texto escrito ou com os poemas lidos ou cantados fá-lo, ao redigir as memórias, conceituar o mal maior literário: “O defeito mais grave em literatura não está no estado d’alma que se expressa, mas sim na expressão imperfeita desse estado”.

Tem interesse a posição de Tagore sobre música e palavras, pois foi autor de centenas de cantos. Comenta: “A arte da música vocal tem suas funções especiais e seus traços individuais. Quando associada à palavra, estas não devem prevalecer-se disso para dominar a melodia, da qual são apenas um veículo. Se o canto é belo por si mesmo, que necessidade há de se recorrer às palavras? A música começa onde as palavras acabam. Sua força reside na região do inexprimível, pois só ela pode dizer o que as palavras não dizem.”

Clique para ouvir, de Rabindranath Tagore, Shanganagagane Ghor Ghanaghata, interpretada por Neelanjana Dutta:

https://www.youtube.com/watch?v=cMbWxLUH74M

Desde os tempos de miúdo Rabindranach sente-se um cultor da natureza. O maravilhamento é crescente. Paisagens, céu, rios, árvores e, perene, a interpretação da luminosidade a incidir sobre tudo que observa. De um dos terraços, ou através dos vãos do parapeito da certamente imensa morada da família, contempla e escreve. Visitando seu irmão e cunhada às margens do Ganges, comenta: “Eis-me assim de novo às margens do Ganges! Repetir-se-iam aqueles dias e noites inefáveis, cheios de um langor feliz e de ardente inspiração, junto às águas que corriam espumosas por sob a sombra fresca das matas ribeirinhas. O céu luminoso de Bengala, a brisa do sul, o rio, aquela majestosa indolência, aquele eterno lazer a estender-se de um horizonte a outro, da terra verde ao azul do céu, tudo isso me era oferecido como um banquete de beleza e poesia, onde eu poderia saciar à vontade minha fome e minha sede. Sentia-me como que envolto nos braços de uma mãe”.

A respeito do outono escreve: “É o outono que amadurece meus versos, como amadurece o trigo para o semeador; é o outono que enche meus celeiros de radiosos lazeres e derrama sobre meu espírito, liberto de qualquer fardo e deliciado com as canções e histórias que inventa, uma alegria sem causa”. Nas viagens que realizou à região himalaia, primeiramente com seu pai, após com um de seus irmãos, esta última às colinas do Darjeeling, guardaria lembranças: “Quando do alto das montanhas relancei o olhar em torno de mim, senti, no mesmo instante, que perdera minha nova forma de visão. Todo o mal fora ter julgado que o mundo exterior poderia proporcionar-me maior soma de verdade. O rei dos montes podia varar o firmamento com o seu pico sem ter nada para oferecer-me, ao passo que o divino Semeador de dons podia, num abrir e fechar de olhos, transformar numa resplandecente miragem a mais obscura das ruelas”.

Ainda jovem empreende sua primeira estada na Inglaterra, mencionada várias vezes, não só pela forte influência política e militar em seu país natal, positiva e negativamente, mas igualmente pelos laços de amizade que estabeleceu.

Ao final de “Memórias”, uma crítica ácida relacionada à Índia: “Num país em que o espírito de separatismo impera de modo supremo, e onde mil barreiras ínfimas se erguem entre os cidadãos para dividi-los, esse premente desejo de participar da grande vida coletiva tem por força de ficar insatisfeito”.

Durante muitos anos, Rabindrenath Tagore e Mahatma Gandhi (1869-1948) tiveram debates sobre muitos temas como política, nacionalismo e tantos outros, nem sempre concordantes.

O exemplar de “Memórias” de Rabindranath Tagore, com minha assinatura em 1947 em dedicatória à minha saudosa mãe, repousou nas estantes durante 73 anos, a aguardar a leitura de um dos quatro signatários. Ao lê-lo nesta pandemia, mais evidente ficaria configurada a transformação gigantesca, infelizmente através de processo não favorável, da formação cultural desde a infância. A observação do belo, a permanência da amizade, a prática prazerosa da leitura, o respeito e a admiração pela natureza e o por ele denominado Semeador esvaíram-se nestas últimas décadas, mas ainda há aqueles que cultuam esses valores.

A revisitação às primeiras décadas através do olhar da maturidade revela por parte de Tagore que sua infância, já mergulhada no sonho poético, resultou no notável personagem da literatura da Índia. “Memórias” é livro referencial, que se soma às grandes reminiscências da história da literatura mundial.

When my father died in 2000 I inherited part of his immense library. Among the books, “Memórias” (My Reminiscences) by the Bengali poet, novelist, playwright, composer, singer, painter and  Nobel laureate for Literature (1913) Rabindranath Tagore (1861-1941). I confess I’ve decided to read it by sentimental reasons, after seeing the dedication my three brothers and I wrote to our mother on her birthday in 1947, but the book was definitely worth reading. Written in Tagore’s maturity, these are delightful  memories of childhood in a bygone era. With the wisdom of the past, the author teaches us the importance of appreciating beauty, the value of friendship, the pleasure of reading, the respect for nature, the relevance of a spiritual connection with our surroundings. An absorbing book to be added to the great reminiscences of world literature.