Navegando Posts em Literatura

Paolo Cognetti e sua viagem ao Himalaia

O caminho é muito mais precioso do que o cume.
Paolo Cognetti

Ao longo dos anos resenhei cerca de dez livros sobre o Himalaia escritos por alpinistas que atingiram o pico do Everest ou, então, uns pouquíssimos eleitos que acessaram as 14 montanhas acima dos 8.000, todas na cadeia himalaia, caso específico do notável alpinista português João Garcia (vide blogs “14 – Uma vida nos tectos do mundo”, 2 e 9/07/2016). Essa temática sempre me causou surda empolgação, mercê da aventura perigosa, dos percalços para se atingir cumeeiras e até relatos de alpinistas que tiveram companheiros mortos nas empreitadas.

Com o tempo, um emaranhado de empresas de toda sorte, a abranger organizações que levam ou tentam levar “turistas” a preço de ouro ao ponto mais alto do planeta, que vendem material especializado para acesso à montanha, que agendam viagens até o Nepal ou o Tibete, que alugam o trabalho braçal dos sherpas, criam, em meses propícios à ascensão, um enxame de majoritariamente pretensos alpinistas. Ultimamente forma-se verdadeira fila indiana de interessados a banalizar a ascensão. A cada dia acentua-se o culto ao “maior”, seja de qual área for. O Everest, sendo o teto do planeta, 8.848 metros de altitude, assiste a essa legião que busca a mais elevada montanha. Só de pensar que o K2 (8.611 metros), com apenas 237 metros abaixo de Everest, é minimamente procurado, não só por ser muitíssimo mais difícil de ser acessado, mas prioritariamente por ser o segundo. Faz-me lembrar meus anos de estudos em Paris do final da década de 1950 ao início dos anos 1960. Estava no Louvre, visitado algumas vezes durante esse período, quando uma única vez fiquei à frente da Mona Lisa. De repente ouvi barulho de passos que se acentuava desmesuradamente. Eram turistas japoneses. Pararam diante do quadro pequeno, escuro e emblemático, tirando fotos. Após o ato, em desabalada carreira desapareceram. Já àquela altura entendi melhor a noção da superficialidade humana.

Foi-se o tempo do Everest misterioso, que levou à morte Mallory e Irvine em 1924 e glorificaria Edmund Hillary e o sherpa Tenzig Norgay em 1953, os primeiros a pisarem o topo do mundo. Desvendado por centenas de montanhistas, sepultura aberta para um número elevado daqueles que sucumbiram sem resgate, a montanha mais alta do planeta hoje perdeu essa aura de invencibilidade. Reage por vezes ceifando vidas, mas é inundada anualmente por grupos cada vez maiores de pretensos aventureiros.

A premissa se faz necessária, pois em Maio, ao visitar uma das muitas livrarias parisienses, deparei-me com um livro que de imediato chamou-me a atenção, pois mostrava a razão da narrativa, ou seja, a proposta voluntária do autor de não atingir qualquer cume do Himalaia, mas a de atravessar passagens até 5.400 metros de altitude numa caminhada de 300km a pé. Paolo Cognetti, escritor italiano consagrado, teve vários livros vertidos para o francês e “Senza mai arrivare in cima” foi um deles (“Sans jamais atteindre le sommet”, Paris, Stock, 2019). Recebeu o prêmio Médicis em 2017 destinado à obra estrangeira pelo livro “Huit Montagnes”.

Depreende-se da leitura a presença do observador atento à natureza, à fauna, à flora, àqueles que se lhe deparam no longo trajeto, à reação dos dois amigos que o acompanharam, aos costumes dos habitantes dos lugarejos atravessados na longa caminhada, às tradições dos vários sherpas e às suas próprias alterações físicas motivadas pelo cansaço e pelo ar por vezes rarefeito. Quando transpunha os 5.000 metros já sentia irresistível fadiga, o que leva o leitor a entender o título do livro. Escreve Cognetti: “Faço-me a pergunta: não pareceria talvez a sensação que se tem da velhice? Economizar o menor gesto, em um corpo já cansado de estar no mundo”. Em sua bagagem havia um livro inspirador lido e relido, “Le Léopard des neiges”, de Peter Matthiessen (Paris, Gallimard, 1983, tradução de Suzanne Nétillard). Não hesita em mencionar nessa incursão himalaia citações do livro em contextos possíveis. Curiosamente, Matthiessen empreendeu viagem na região montanhosa a fim de ver o raríssimo leopardo das neves. Não atingiu seu desiderato fundamental, mas regressou enriquecido com o que vivenciou nas alturas e, entre esses encantamentos, vislumbrar o carneiro azul. Para Cognetti, a viagem ao Himalaia representava “meu adeus a esse outro reino perdido que é a juventude”, pois o autor já se encontra na juventude da idade madura, em seus quarenta anos.

Na narrativa, Cognetti repetidas vezes menciona o mantra inscrito nos paredões rochosos, Om mani padme hum (“A joia no coração do lotus”) e redige em seu caderno: “uma frase misteriosa, a ter mil interpretações possíveis do invisível escondido no interior daquilo que vemos”.

Em Tsakang, o autor segue um monge budista e assiste a cerimonial. Lembra-se de texto de Matthiessem que, ao questionar um lama sofrendo de artrite no mesmo local que estava a visitar, dele recebe a resposta: “Sou feliz aqui! É maravilhoso, mormente pelo fato de não ter eu escolha!”. A observação relacionada aos costumes de cada localidade nepalesa é sempre fulcral. Busca inteirar-se, não poucas vezes penetra as moradas de camponeses das montanhas ou planícies. O autor faz referência ao iaque, herbívoro de extensa pelagem indispensável na região por sua múltiplas funções. Cognetti, estando em Charka, observa: “Degustava pela primeira vez o chá salgado da manteiga do iaque: bem desagradável quando sabemos se tratar de chá, bom e reconfortante quando apresentado como sopa”. Costumes a partir da realidade do entorno e da crença levam Gognetti a descrever um enterro, após vislumbrar corvos sobrevoando uma colina: “Chegamos em pleno funeral, pois em Dolpo as sepulturas celestes ainda são praticadas. Nessa altitude, não há madeira suficiente para as cremações. Assim, cadáveres são desmembrados e transportados em pedaços para uma colina onde as aves de rapina fazem seu trabalho. Para os budistas, nosso corpo é feito de elementos que o universo nos empresta e, logo que a vida o abandona, necessário se faz devolvê-lo: a matéria que nós habitamos tornar-se-á ar, água, terra; são os pássaros que se incumbem de retorná-la à circulação”.

Paolo Gognetti tece bela observação sobre o vento: “Ninguém o veria se ele não provocasse algo a tremular: as bandeiras tornam visível o invisível. O abutre quebra-ossos e outras aves de rapina subiam aos ares, asas abertas e imóveis, ministros do culto das alturas”. Pormenoriza a sensação que o impacta ao ver uma águia ferida, assim como, em várias situações do livro, menciona Kanjiroba, uma cadela que o acompanharia durante parte considerável do trajeto.

A leitura de “Sans jamais atteindre le sommet”, iniciada durante o voo Paris-São Paulo, seria oportuna para legião de pretensos alpinistas que dispende somas altíssimas em busca da ilusão de atingir o cume do Everest. Mortes e subidas fracassadas preenchem estatísticas. Saint-Exupéry já escrevia que “a vaidade não é um vício, mas uma doença”. O livro de Paolo Cognetti corrobora a opinião de tantos sensatos, que buscam na caminhada pelas altas montanhas o prazer indizível de estar nas alturas sem pretensões egocêntricas. Certamente seus olhares são definitivos, não apenas de passagem. Agradável leitura e uma lição de como planejar uma viagem como observador atento.

Comments on the book “Sans Jamais Atteindre le Sommet” (Without ever reaching the top), by the Italian writer Paolo Cognetti. Now that Mount Everest is congested with trekkers in queues at bottlenecks on their way to the summit, it is a great relief to read about a journey on foot above 5000 meters  in the remote region of Dolpo — in the Nepal Himalayas — without intention of reaching any summit. Attentive observer of the magnificence of nature, of people he meets, of living conditions in an exotic land lost in time and of his own physical limits, the author offers travel literature at its best, a heroic adventure one devours with pleasure.

 

 

O legado e as adversidades inexoráveis

Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo,
e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas.
Ela se perde porque ninguém mais fia ou tece
enquanto ouve a história.
Quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo,
mais profundamente se grava nele o que é ouvido.
Quando o ritmo de trabalho se apodera dele,
ele escuta as histórias de tal maneira
que adquire espontaneamente o dom de narrá-las.
Assim se teceu a rede em que está guardado o dom narrativo.
E assim essa rede se desfaz hoje por todos os lados,
depois de ter sido tecida, há milênios,
em torno das mais antigas formas de trabalho manual.

Walter Benjamin
(“O Narrador”)

Gerou uma série de comentários o diálogo entre Eduardo Lourenço (filósofo) e Álvaro Siza Vieira (arquiteto), apresentado e comentado no blog anterior. Saliento a posição do professor titular da FFLECH, Gildo Magalhães: “Discussão transcendental a que se coloca entre os três: Eduardo Lourenço, Siza e você. Sim, penso que fazemos coisas porque acreditamos na eternidade, não do além, mas daqui mesmo, seja na forma de descendentes, seja na de obras que criamos. Nenhum cataclismo tem tirado esta fé, talvez porque, em outro polo, somos a espécie que tem consciência de sua própria morte e, diferentemente de outras espécies, criamos cultura. Dentro de pouco tempo, relativamente pouco em nossa escala de poucos milhões de anos da espécie humana, seremos capazes de fazer como Jor-El do planeta Krypton do Super-Homem: se nosso planeta se destruir, iremos para outra estrela ou galáxia recomeçar. Nossa fé assim o exige, contra todos os desânimos dos pessimistas”.

Presencialmente, de bate-pronto, o amigo Marcelo me questiona: “Não acreditar no legado como permanente não é negar a eternidade da criação”? Pergunta de difícil resposta, mormente pelo fato de nada sabermos sobre a perenidade das coisas criadas. Todavia, o tema foi motivo para uma conversa prolongada durante dois curtos num café de minha cidade-bairro, Brooklin-Campo Belo. Marcelo é o senhor das perguntas. Formula-as como respira e tem sempre algumas sobre os blogs publicados aos sábados.

Não acredito na eternidade das coisas criadas, sejam elas artísticas ou científicas. Seria lógico acreditar que as criações reproduzidas, mesmo que perdendo a “aura”, subsistam mais longamente. A Música seria uma exceção a depender da permanência do homem na Terra, pensando-se na extinção do terráqueo sine die.

Ao dizer que “O problema é que, consciente ou inconscientemente, escrevemos como se fôssemos eternos. Sem essa ilusão de eternidade como coisa nossa, nós não escreveríamos nada de realmente grandioso. O que os homens querem é que aquilo se transfigure numa espécie de estátua, que se pode tocar, viver e permanecer através dos séculos”, o filósofo português Eduardo Lourenço não apenas menciona a “ilusão da eternidade” como a vontade, por parte do criador, de “querer” a perenidade da obra.

Curioso, Marcelo insiste em não considerar que o acervo material erigido há milênios desaparecerá, a não ser pela destruição do planeta. Pontuei no blog anterior alguns exemplos de destruição. As causas naturais, a cada ano mais acentuadas devido à degradação do ambiente como um todo, destroem muitas obras de interesse artístico, sem contar a lamentável legião de mortos. “E São Paulo?”, pergunta-me o amigo. A megalópole soube indiscriminadamente eliminar o pouco que restava de nossas edificações que poderíamos considerar históricas. O que ficou da Av. Paulista? Estou a me lembrar que, durante dois anos (1954-1955), estudei no Liceu Eduardo Prado na Av. Paulista. Curso noturno que me obrigava, ao regressar à casa por volta da meia-noite, a percorrer parte da avenida e admirar os casarões construídos nas fronteiras dos séculos XIX-XX, antes de pegar o bonde que me levava até a confluência da Av. Rodrigues Alves, de lá caminhando até nossa morada. Desse legado da Av. Paulista sobraram alguns casarões, tristes testemunhas de um conjunto arquitetônico que representava nossa história. Paris, Londres, Bruxelas e tantas mais cidades preservaram imóveis. A sanha imobiliária tem sido ilimitada. Teriam seus mentores mínima visão cultural? A destruição do legado é fruto em parte da ignorância humana, essa igualmente ilimitada. Apesar dessa “ilusão da eternidade” de que nos fala Eduardo Lourenço, nem sequer trégua ao que deve ser preservado existe. Sob o plano cultural e moral, a destruição — também implacável e sistemática — dos valores humanísticos é evidência de que não há reversibilidade.

Seria possível admitir que a conjuntura atual, a que diariamente assistimos, leva-nos ao posicionamento cético. Os benefícios trazidos pela internet estão sendo seguidos progressivamente pelo desinteresse do jovem pela leitura. Faixas etárias acima ainda sofrem menor influência, mas também são atingidas na medida em que essas geringonças, surgidas após o celular simples, sempre in progress e com várias denominações, são profusamente utilizadas. Assistimos lamentavelmente à retração das livrarias que, segundo estatísticas, tiveram em um ano diminuição porcentual de vendagem acima de um dígito em nosso país. Triste realidade.

Estou a me lembrar do romance “Fahrenheit 451” (1953), do escritor norte-americano Ray Douglas Bradbury (1920-2012), e do excelente filme (1966) do diretor François Truffaut (1932-1984) a partir do livro homônimo. Ambos tiveram enorme repercussão crítica. Se na essência, como teria afirmado o autor do romance de ficção científica, “Fahrenheit 451” buscava atingir a televisão como meio “destruidor” do ato secular da leitura, poder-se-ia dizer que hoje essa ação tem caráter devastador com a evolução internética. No romance, o personagem Guy Montag, bombeiro, tem a missão de destruir livros numa sociedade futura em que opiniões individuais são expressamente proibidas, o que elimina por completo o espírito crítico. O fio de esperança restaria na presença da memória dos resistentes, voluntariamente capazes de reter obras inteiras condenadas ao extermínio. O romance de Bradbury ratifica tragédias culturais anteriores, como a queima dos instrumentos musicais monárquicos — cravo como exemplo maior — durante a Revolução Francesa (1789), a queima de livros na Alemanha nazista e a destruição sistemática de acervos de bibliotecas, instrumentos musicais e outros bens relacionados à Cultura Ocidental no período da Revolução Cultural Chinesa, iniciada em 1966.

A menção a “Fahrenheit 451” teria correlação com o legado a ser preservado e essa qualidade extraordinária do homem e de qualquer ser vivo, a memória, “a mais épica de todas as faculdades”, segundo Walter Benjamin em “O Narrador”. Benjamin já observava que a oralidade é essencial à continuidade do legado imaterial.

Seria possível acreditar que a destruição lenta e sistemática das obras materiais, fato inequívoco, não impedirá aos pósteros a preservação da memória do que teria sido. Podemos sempre imaginar pela imagem e através da História os monumentos da Antiguidade que desapareceram. Junta-se, àquilo que aprendemos, a imaginação, que idealiza para cada indivíduo o passado mais remoto. Ao menos a lembrança…

This post resumes the subject discussed previously about the human legacy to History. I am convinced of the impermanence of our tangible heritage. This is particularly true in a city like São Paulo, in continual demolition and construction thanks to the devastating fury of private interests that systematically sacrifice valued historic landmarks. But I am also convinced that the memory we hold in our brains will ensure the preservation of what has been and provide communities with a sense of continuity.

Gisèle Brelet e a ampla abertura sobre interpretação

Quando uma interpretação é manipulada com o objetivo de se conseguir um efeito particular,
ela deixa de ser autêntica e, por conseguinte, de ser ética.
Daniel Barenboim
(“La Musique est un tout”)

Neste segundo post, a abordar o primeiro volume de “L’Interprétation Créatrice”, a musicóloga francesa Gisèle Brelet estende suas considerações sobre a intrínseca ligação compositor-intérprete. Ao longo das décadas tenho lido literatura específica, contudo acredito ser a obra da autora a que mais penetra na multidiversidade representada pelo imperioso amálgama a envolver a criação e a imprescindível presença do intérprete. Seria lógico supor que os dois livros datem de 1951 e que, a partir da segunda metade do século XX, tenha havido outras possibilidades a envolver o compositor e a interpretação, mercê de processos de expressão musical sempre em curso, como a eletrônica. Contudo, a essência da relação compositor-intérprete permanece intacta quanto à fidelidade da transmissão, exceção clara para intervenções do executante, expressas pelo compositor quando o libera para improvisações ou mesmo propiciando ao intérprete a leitura mais livre.

A imensa prospecção que Gisèle Brelet empreende nessa temática, até certo ponto espinhosa, impede-me de penetrá-la de maneira completa. Alguns aspectos, que entendo de maior interesse para o leitor, serão abordados no presente post.

Segundo a autora, “para determinados intérpretes a inteligência pode matar a espontaneidade dos reflexos – essa exigência do gesto sem a qual não pode haver nem descontração, nem precisão, tampouco vivacidade. A reflexão pode ser inibidora e por vezes se torna muito difícil refazer à vontade a espontaneidade perdida. O problema para a inteligência é o de reencontrar a espontaneidade e de liberá-la para melhores desempenhos. Ao contrário da contração dos gestos, a inteligência deve permitir ao executante descobrir sua atividade mais natural e descontraída”. A autora tece considerações sobre espontaneidade, a dizer que “a execução de uma criança, que vence as dificuldades ignorando-as, aparenta-se à execução de um grande artista, mas entenda-se, ela é apenas um símbolo – símbolo em certo ponto enganoso. À espontaneidade de uma criança, psicológica, opõe-se a do artista, neste caso especificamente artística, diga-se, orientada segundo as exigências de perfeição formal de uma técnica. São duas espontaneidades iguais e contrárias, pois uma não pode se desenvolver que em detrimento da outra. A espontaneidade psicológica da criança não seria conservada pelo artista: ela só pode ser reconquistada sobre um plano diferente e transcendente”. Obviamente, essa criança de que nos fala Brelet é aquela popularmente tida como prodígio. Por mais talentoso que possa ser um miúdo, sua interpretação, mesmo que virtuosística, refletirá o que lhe foi transmitido, ou seja, há forte dose de imitação. Legiões de crianças do Extremo Oriente mostram-se habilíssimas, mas ficaria a pergunta “o que sabem da Cultura Ocidental?” Só o tempo, essa presença indisfarçável, poderá propiciar à criança, já munida de sólido ferramental técnico, a sedimentação que se faz necessária. São aproximadamente 30 milhões de miúdos estudando piano na China!!! O passar dos anos provoca seleção natural, mas legião de pianistas orientais têm “invadido” o Ocidente, excelentes velocistas, nem tanto músicos na acepção.

Gisèle Brelet se preocupa com a solidão do intérprete ao apenas se escutar, encontrando nessa situação o pleno prazer: “É perigoso para o executante muito se ouvir e ter prazer nesse ato, pois corre o risco de preferir seus estados ao seus amadurecimentos; na verdade, o intérprete não tem o direito de se escutar e de contemplar seu tocar, a não ser que, em detrimento de buscar essa audição de si mesmo como ocasião de uma alegria preguiçosa, buscar e encontrar a prova de seu aprofundamento e a confirmação de sua alegria durante a execução”.

Estende seu pensar ao observar “… a técnica, desvinculada de todos os conteúdos, utiliza contornos estanques e invariáveis e não é senão mecanismo; e o executante se esforça em vão por revitalizar sua emoção através de rubatos exagerados que deformam a música – e que nenhum sopro de vida poderá animar. Não obstante, há na técnica, para aqueles que a compreendem, uma virtude de atualidade, um secreto poder de incessantemente regenerar o sentimento musical e de conservar um eterno frescor”.

Gisèle Brelet desenvolve a temática andamento: “Indubitavelmente, certos tempi são falsos e contrários às obras. Mas não se trata de tempo arquétipo, pois o tempo verdadeiro comporta uma certa margem de indeterminação, margem que, precisamente, permitirá ao executante impor à obra o tempo segundo o qual ele a vive e de fazer assim, de sua forma, a forma mesma de sua duração íntima”.

Reiteradas vezes nesse espaço tenho comentado a constante aceleração nos tempi de obras virtuosísticas. Essa constante se mostraria mais evidente nas novas gerações de intérpretes oriundas do Extremo Oriente e do Leste Europeu. A aceleração em quase todas as áreas da vida moderna, os recordes a serem batidos, mormente nos esportes, têm fatalmente influenciado intérpretes de instrumentos solo. Os muitos concursos internacionais de piano têm propiciado essas verdadeiras “olimpíadas” digitais. Tantas vezes o conteúdo musical é comprometido pela necessidade da rapidez em seus limites. A verdade inerente à partitura tem sofrido, hélas, irremediável alteração de parâmetros que, pouco a pouco, são aceitos pelo público e motivo de concorrência entre intérpretes “atletas”. Prioritariamente essa atitude é acompanhada por gestual físico e facial, para gáudio da mídia que fixa imagens de rostos em transe. Com acuidade o notável Daniel Barenboim já escrevia que o ouvido humano não consegue seguir o que acontece em tantas passagens de alta velocidade. Exceções há, e pianistas como os extraordinários Vladimir Horowitz e György Cziffra, mormente o primeiro, souberam aplicar à altíssima virtuosidade elementos essenciais à música, como o controle absoluto da dinâmica, da agógica e da articulação. Fenômenos na realidade.

Gisèle Brelet observa: “O tempo vivido atualiza a forma sonora de conformidade com ambos. Para cada execução nova há um novo reencontro da forma musical e do tempo; e uma realidade sempre nova é prometida à obra musical pela perpétua renovação desse reencontro, onde reside o milagre de sua encarnação”. Continua a autora: “Se o tempo verdadeiro não pode ser aquele que é sentido interiormente pelo intérprete, cada tempo atualiza na obra um aspecto diferente, um conteúdo expressivo que só é visível por ele”. Ratifica a autora, a considerar que “Pode-se dizer que a possibilidade para a obra de se realizar em andamentos diferentes atesta a plurivalência de sua forma e a riqueza de seu conteúdo”. Após considerações a respeito dos tempi rápidos e lentos, questiona: “o que de mais eminentemente expressivo não é um cromatismo lento e de mais brilhante e superficial quando rápido? O cromatismo, sendo lento, pode ser retardado sobre as sonoridades sucessivas e instalar-nos nessas dissonâncias para captar a inquietude interior, mas no movimentos rápido tem-se o luxo sonoro e riqueza das notas de passagem, um élan ininterrupto e não uma instabilidade inquieta”. A depender das possibilidades “físicas” de um intérprete, Brelet observa: “Os executantes, segundo suas aptidões naturais, estão dispostos à rapidez ou à lentidão, buscando imprimir às obras interpretadas caráter virtuose ou expressivo, fazendo prevalecer nelas a vivacidade do ritmo ou a languidez da melodia”.

A autora entende bem próximas a virtuosidade e a improvisação, esta, “triunfo da execução pura, onde o executante ‘fabrica’ a música através de suas forças, cria uma obra musical capaz de viver no ato de sua invenção e mesmo de sobreviver a esse ato”, aquela, “…livre, a serviço da liberdade propiciada pelo texto musical”.

Teria de dedicar inúmeros blogs apenas para o primeiro volume de “L’Interprétation Créatrice”, verdadeira Enciclopédia sobre a interpretação. Não obstante, o leitor poderá, creio, através de dois posts dedicados à obra, aferir a extensão desse monumental aprofundamento realizado por Gisèle Brelet sobre apaixonante tema.

In the second post about the first volume of the book “L’Interprétation Créatice”, the French musicologist and pianist Gisèle Brelet discusses spontaneity in children and adults when performing a piece of music , as well as the issue of “tempi” markings indicated – or not –  by composers and the interpreter’s response to  “temp0″ variations.