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Sylvain Tesson em entrevista de síntese

Somos influenciados pelas ideias magníficas,
apresentando verdes prados e a vida eterna.
Prefiro pensar em outra,
também alegre e otimista, de uma vida curta
e que nos conduza a viver com muito apetite,
pois ela acabará rapidamente contra um muro chamado vazio.
Sylvain Tesson

O leitor que me tem acompanhado ao longo de mais de nove anos ininterruptos de blogs, publicados sempre aos sábados, teria observado a  constância que dedico à leitura das narrativas de viagens do geógrafo, jornalista e escritor francês Sylvain Tesson. Meu amigo, compositor e pensador François Servenière, na Normandia, partilha dessa admiração .

Dizia meu saudoso amigo Eduardo Etzel, psicanalista que seguiu minhas revelações íntimas durante dez anos, que todos nós temos um paraíso ideal. Nele nos refugiamos quando se faz necessário. Essa idealização permite atenuar agruras, desencantos, depressões e renova forças para o enfrentamento cotidiano. A leitura fornece-nos essa possibilidade.

Sempre me encantaram as narrativas de aventureiros. Ainda jovem percorria avidamente autores intrépidos, que realizaram viagens inacreditáveis. As conquistas dos polos, os picos vencidos por alpinistas destemidos, as travessias oceânicas em condições impensáveis. O maior poeta da língua portuguesa de todos os tempos, Luís Vaz de Camões, não foi um deles e a obra “Os Lusíadas” não seria narrativa plena de elementos míticos se mesclando com o presencial? Pena que o MEC tende a desobrigar Camões de nossos currículos. Pequenez de uma governança rigorosamente inculta.

Tesson não é um narrador tout court. Introduz o leitor no mundo mágico da interioridade, e seus relatos pormenorizados captam o exterior que o impacta, sem contudo esquecer-se de enriquecê-lo, seja pelas experiências vividas, guardadas na mente, seja pela interpretação do inusitado.

Assisti a um vídeo que apresenta entrevista de Sylvain Tesson concedida a Carine Marret, durante ciclo de conferências CUM, aos 9 de Dezembro, evento que se deu em Nice, no sul da França. Alvissareira e longa comunicação que se dá após o gravíssimo e prosaico acidente que o escritor sofreu ao cair da fachada da casa de um amigo em Chamonix, em Agosto de 2014. Dez metros de altura que poderiam levá-lo à morte. Safou-se com vértebras quebradas e fraturas no crânio, após 10 dias em coma. Paradoxal destino para um aventureiro que percorreu o mundo de bicicleta, galgou montanhas, atravessou desertos e estepes e passou por perigos incontáveis. Sequelas permanecem em sua face e, do período  comatoso, lembrar-se-ia em entrevista bem anterior: “Encaminho-me para o outro lado, outra margem do rio e, como desconfiava, não havia ninguém. Nenhuma mão estendida, nem anjo, nem virgem”.

No longo depoimento concedido a Carine Marret, Sylvain Tesson realiza a síntese de sua vida voltada à aventura, como caminhante pelo planeta ou estático em uma cabana às margens do lago Baikal, na Sibéria. Durante todo o longo depoimento, Tesson desfila um sem número de autores, muitos deles aventureiros narradores, e esse acervo, constituído pela experiência e farta leitura, contribuiu para a construção de suas narrativas enriquecedoras.

A primeira pergunta de Carine Marret remete às origens das viagens tessonianas, e a resposta inicial não deixa dúvidas: “partimos em viagem porque muitas vezes não queremos saber o que se passa no interior de nós mesmos”. Tesson esclarece que a viagem substituiu o possível divã, pois sua primeira aventura, ainda bem jovem, já apontava para um longo caminho, a volta ao mundo de bicicleta. Existiria uma profunda alegria, verdadeira festa relacionada ao esforço físico e, à medida que essa primeira grande aventura acontecia, outras tantas já povoavam sua mente. Menciona George Mallory (1886-1924), famoso montanhista que desapareceria juntamente com seu companheiro de escalada, Andrew Irvine (1902-1924), no Himalaia, ao tentar a conquista do Everest. A uma pergunta sobre o porquê de sua vontade de subir montanhas, Mallory responderia “porque elas estão lá”, e Tesson comenta que a vida, sendo curta, precipitamo-nos a conhecer novos horizontes.

O entrevistado salienta bem que o viajante literato apreende o que o cotidiano lhe fornece, e o diário íntimo tem de conter consciência do relato e concentração. Para tanto, em suas viagens leva muitas obras, mormente as de aventureiros, pois são eles “restauradores da realidade e não seres a dar asas à imaginação”.  Tesson não tem interesse em escrever romance e criar personagens, pois os seus figurantes  frequentam o cotidiano de suas passadas pelo planeta. Se, nos vários contos que escreveu, figuras humanas imaginadas surgem, entendo que não sejam as de maior interesse. O personagem vivo de todos os quadrantes da Terra, este sim, adquire em suas narrativas dignidade e realismo. Sob outra égide, Tesson observa que a viagem longa a que sempre se propõe é uma espécie de aceleração da existência e que o alpinista, um outro aventureiro em confronto permanente com a queda, tem a impressão de estar a conviver a todo instante com a morte no ato da prática. Menciona neste caso um alpinista que comandava um grupo que atingiria o cume, não sem antes ter assistido à morte de alguns. Montanhista escritor, narraria que, ao chegar ao topo, apertou a mão dos que conseguiram a proeza. Tesson explana que o relato da aventura pode  revestir-se de frieza e que é essencial para o aventureiro escritor saber lidar com a abundância de fatos e a clareza.

A uma pergunta de Carine Marret, mencionando frase de Dostoievsky a considerar que o homem, estando em movimento, dá um objetivo a esse ato, recebe resposta pertinente de Tesson. O viajante escritor entende que, se a viagem for longa, deve-se subdividi-la em etapas, dando-lhe o sentido e o objetivo dostoievskiano. Pensar as etapas reduziria o stress, pois os destinos abreviam-se. Vencida uma, parte-se para outra. Para um viajante como Tesson, que empreende caminhadas que demandam muitos meses e levam ao sofrimento, esses compartimentos previsíveis têm significado. Menciona a antítese, o político que busca atingir a cumeeira rapidamente, ao contrário do montanhista que subdivide a escalada em etapas predeterminadas. Lembro ao leitor que um corredor de longa distância também fatia o percurso, precisando marcos definidos.

Sylvain Tesson elabora uma série de pensamentos voltados à viagem de aventura. Uns a realizam como fuga, outros para desvendar novos horizontes – curiosidade? -, outros mais buscam o autoconhecimento, viagem interior. As várias categorias impulsionam o viajante. Quanto à fuga, haveria o horror do domicílio, da rotina cotidiana, pois tantos não suportam o imobilismo da vida. Para aquele que viaja e que busca o desvelamento de tudo o que vê ou fotografa, a viagem tem objetivo preciso e pode, inclusive, significar a procura do outro, da solidariedade humana. Existiria a satisfação da descoberta diária de algo que possibilita até mesmo o desequilíbrio. Quanto à viagem interior, a introspecção se dá e pode haver transformação psíquica, metafísica, intelectual, caso específico de seu estado de eremita durante o longo inverno em uma cabana às margens do lago Baikal, na Sibéria. Num outro compartimento, Tesson situa o sedentário escritor pleno de imaginação e que, sem sair de seu aposento, cria obras que podem perdurar. Flaubert é citado, pois apesar de ter viajado ao Egito, era epilético, sedentário e escrevia em sua moradia às margens do Sena.

Menciona um outro tipo de viajante, o vagabond, característico do século XIX, que percorria geografia limitada de aldeia a aldeia, tinha certa relação com os habitantes e assim vivia sua sina.

À medida que Carine Marret posicionava as questões, Sylvain Tesson “viajava” nas respostas. Interessante sua visão da modernidade e do tempo. Segundo ele, rompemos o pacto com o tempo que passa. Este representa nossa estadia sobre a Terra, que pode ser mais ou menos longa, mas que a única certeza é de que somos incapazes de tudo realizar. As explanações levam Tesson ao que ele denomina blefe tecnológico, que nos faz pensar sermos capazes de obter tudo, como ter a posse de toda a biblioteca da França no bolso, verdadeiro blefe que nos faz perder a noção da duração do tempo. Diz não gostar dessa parafernália tecnológica e que viver a duração do tempo requer paciência. Entende que a leitura das grandes aventuras leva-nos à apreensão da amizade que pode existir entre os participantes nesse entendimento do tempo e de sua duração.

A uma pergunta sobre o acaso, formulada pela diretora da programação, Tesson se estende a partir do pessimismo que, a seu ver, paradoxalmente, esconde uma certa alegria de viver e lucidez. Nada esperar no dia seguinte, não formular ilusões quanto à experiência da humanidade, mas ter relação até amigável com o semelhante. Para ele, uma das maneiras de ser profético é ser pessimista. Quanto ao acaso, entende que o acúmulo dos muitos acasos reunidos bem ou mal resultaria em algo que poderíamos desenhar como sendo destino.

Do público veio pergunta instigante. “O que entenderia como medo?”. Explicou que este reside basicamente no medo das forças da natureza e dos animais selvagens. Essas duas forças são previsíveis: tempestades, avalanches, urso frente a frente. Todavia, o semelhante é imprevisível e sentiu medo no Afeganistão quando foi interceptado por talibãs. Essa última categoria é angustiante e não a compreendemos na realidade.

A uma outra questão vinda da plateia sobre a viagem solitária ou acompanhada, Tesson responderia que na primeira, verdadeiro solilóquio, você tem o caderno para anotações e, na segunda, ouvidos que o escutam e que atenuam o distanciamento do conforto do lar.

Na última intervenção relativa à sua atuação após o grave acidente que deixou marcas inalienáveis, Sylvain Tesson disse que o período de convalescência levou-o à reflexão e que possivelmente se dedicará, como já o fez recentemente em campo de refugiados no Iraque, a ações coletivas humanitárias.

O autor de tantas narrativas de aventura experimentou várias modalidades de viagens. Os 11 livros resenhados até o presente neste espaço estão na seção Livros – resenhas e comentários (lista) – no menu do blog, encontrável na página primeira do blog.

O leitor poderá ter acesso à entrevista completa de Sylvain Tesson acessando o link:

https://www.youtube.com/watch?v=hj97ZuprzPc

No post da próxima semana apresento a resenha de seu primeiro livro: “On a roulé sur la Terre”, viagem que empreende de bicicleta em torno do planeta juntamente com seu companheiro André Poussin.

In interview given in December 2015 in Nice, France, Sylvain Tesson talks about his unconventional life of adventures, discussing the root cause of the need to leave home comforts (evasion, curiosity, self-knowledge?), fear of the forces of nature and of his fellow man, technology and our illusion of mastering time, his life plans after the near-fatal accident he suffered in 2014. A synthesis of Tesson’s thought that I saw fit to comment in my blog, since I am a great admirer of the French writer and geographer, having reviewed so far eleven of his books.

 


Glosas nº 13 homenageia Gilberto Mendes

A música é uma actividade do intelecto.
Não foi inventada pelo Homem,
foi criada com o Homem.
Fernando Corrêa de Oliveira

Não poucas vezes dediquei posts à Revista Glosas, publicação do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa (mpmp), que, ao pormenorizar-se sobre a criação em Portugal através dos séculos, reserva sempre espaços à produção da música brasileira desde o período colonial. Infelizmente não há minimamente recíproca por parte das raríssimas publicações brasileiras, o que é motivo de louvação especial aos esforços de Glosas.

O núcleo temático de Glosas (nº 11) foi reservado ao nosso grande compositor romântico Henrique Oswald. Artigos e ilustrações enriqueceram a publicação. Em 2014, Edward Luiz Ayres de Andrade, dinâmico presidente do mpmp, disse-me que pretendiam homenagear o mais importante compositor vivo brasileiro, Gilberto Mendes. Estivemos em Santos para longa entrevista do músico ao Edward Luiz e simpático almoço no tradicional restaurante Almeida, um dos preferidos do compositor. A entrevista e outros artigos sobre Gilberto Mendes foram publicados no número que saiu em Novembro último. Infelizmente, a bela edição não chegou a ser apreciada pelo compositor, que nos deixou no primeiro dia deste ano, aos 93 anos de idade.

A entrevista concedida a Glosas revela muitas das facetas marcantes de Gilberto Mendes. Edward Luiz soube extrair conteúdos essenciais da personalidade tão encantadora do grande compositor e humanista. Têm interesse algumas respostas pontuais, que, tratadas sob outra égide em seus livros, dão a entender as amarras libertas de determinadas tendências vanguardistas. A uma pergunta de Edward Luiz “E o que significou Darmstadt em sua carreira?” (as ideias da neue musik, professadas no Festival de música da cidade alemã, influenciaram tendências da vanguarda no Brasil, mormente nos anos 1960), responde Gilberto: “Na verdade nada, porque tudo aquilo eu já sabia. Fomos atrás do que os jornais diziam, de Boulez, de Stockhausen, Berio, Nono, Ligeti… Mas, na verdade, em Darmstadt não havia aulas, eram apenas conferências. E era muito num jogo assim: Ligeti fala sobre Boulez, Boulez fala sobre Berio… – uma panelinha muito bem urdida”. A uma outra pergunta de Edward Luiz sobre transformações de sua linguagem musical, Mendes historia seus caminhos criativos, que foram vários. Em questão sobre a Bossa Nova, Gilberto observa que não há nada de novo na harmonia da Bossa Nova, pois ela “é Debussy”, mas considera “gostosinha a batidinha rítmica” daquilo que denomina “coisa essencialmente carioca, de praia, e eu também sou de praia”.

Em Glosas 13, artigos são dedicados ao notável compositor nascido em Santos: José Lopes e Silva, “No som das vibrações ultra-sónicas…”; Antônio Eduardo Santos, “Veios de uma transmodernidade” e “Um outro gesto sonoro – o teatro musical na obra de Gilberto Mendes”; Luís Salgueiro, “Gilberto Mendes – Alegres Trópicos” e, a fazer parte de minha coluna permanente em Glosas, “Ecos d’Além Mar”, “A mente aberta de Gilberto Mendes”, em que enumero todas as obras que apresentei durante trinta anos de um relacionamento intenso com o compositor.

Ascent, título de matéria substanciosa, destaca o músico polivalente português Bernardo Sasseti (1970-2012), talentoso em todas as áreas em que atuou. Glosas bem fez reservando-lhe espaço, inicialmente a reproduzir texto de Sasseti, que implica considerações sobre seus almejos. “Posso também referir que o cinema, a fotografia e a pintura, assim como a actividade de composição original para piano – a qual me dedico com assiduidade – se manifestam, directa ou indirectamente, tanto em Ascent como nas gravações que a antecedem, desde 2002 com o CD Nocturno”. Biografia bem documentada, mas não assinada, revela-nos um compositor que também se interessou pelo teatro e apresenta extensa discografia de Bernardo Sasseti. O artigo de Maria João Neves, “O sonho dos outros – A fenomenologia do sonho de María Zambrano na música de Bernardo Sasseti”, tem interesse pela inserção do pensamento da escritora e filósofa espanhola (1904-1991) e a habilidade com que a autora do texto trabalha com essa aspiração de Sasseti, para quem a música “faz-me sempre sonhar”.

Comovente tributo é prestado à ilustre violoncelista portuguesa Madalena Moreira de Sá e Costa (1915-  ), a comemorar seu centenário. Um texto da homenageada discorre sobre o célebre Fado Burnay, de Eduardo Burnay, precedido por revelações artísticas da violoncelista. Madalena, irmã da ilustre pianista e professora Helena de Sá e Costa (1913-2006) e filha do renomado compositor Luís Costa (1879-1960), teve oportunidade de responder às competentes perguntas de Nuno M. Cardoso e José Carlos Araújo sobre sua longa atividade musical. Entrevista referencial. Substanciosos depoimentos de músicos, ex-alunos e amigos enriquecem ainda mais esse outro núcleo temático de Glosas, privilegiando a violoncelista portuense. Os textos têm as assinaturas de Vasco Barbosa, Isabel Delerue, Paulo Gaia Lima, Gisela Neves, Luiza Gama Santos, Jed Barahal, Jorge Rodrigues, Manuela Gouveia, Maria José Figueiredo, Elvira Archer, Piñeiro Nagy, Bruno Borralhinho, Bruno Caseirão, Ana Filomena Silva, Valter Mateus, Sofia Novo, Fernando Costa, Alberto Campos, Guilherme Cancujo.

Como adendo extra Glosas, Madalena de Sá e Costa e eu demos recital no Porto (Delegacia Regional do Norte, 7 de Janeiro de 1986), apresentando obras de Oswald, Beethoven, Debussy e Filipe Pires. Grande senhora e com memória privilegiada, pois compareceu a um recital que realizei em Braga (2011), conduzida por seu filho, a lembrar-se perfeitamente de nosso evento, que foi prestigiado pela presença de sua irmã, Helena de Sá e Costa.

O espaço a que me proponho impede-me de abordar pormenorizadamente todos os ricos temas assinados por especialistas. Nomeá-los, contudo, faz-se necessário: Luís Salgueiro entrevista o compositor Nuno da Rocha, pleno de ideias inovadoras; as “Irmandades e Ritual em Minas Gerais durante o Período Colonial” são estudadas por Maria Alice Volpi; “Lembrança(s) Suggia: Notas sobre um Espólio” remete-nos à grande violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia, mercê do arguto olhar de Luís Cabral; “Em torno do Festival de la Canción Gallega”, José Luís do Pico Orjais elabora um breve apanhado da participação portuguesa nesse importante Festival, mormente a de obras de Frederico de Freitas; “Evocação de Santo Pinto no Bicentenário de seu nascimento”, na qual Maria José Borges evidencia atributos de compositor do século XIX de música dramática e orquestral, que mereceria maior atenção; “Os Cantos Sefardins para voz e piano de Fernando Lopes-Graça” é um texto abreviado de longo estudo analítico a ser publicado por José Maria Pedrosa Cardoso. Foi o ilustre professor vimaranense que nos sugeriu os 12 Cantos Sefardins, apresentados em primeira audição mundial em São Paulo (Unibes, 15/10/2015), tendo Rita Morão Tavares (mezzo-soprano portuguesa) e eu como intérpretes.

O substancioso artigo de J.A. Gonçalves Guimarães, “Os quatro músicos Napoleão”, tem muito interesse. O estudioso apresenta sucintamente a saga dos Napoleões, do pai Alexandre, nascido em Bergamo, na Itália (1808-1886), e dos filhos portugueses Artur (1843-1925), Aníbal (1845-1880) e Alfredo (1852-1917). O segundo e o terceiro se notabilizariam como intérpretes e compositores, sendo que Gonçalves Guimarães se pormenoriza em Artur, menino prodígio, verdadeiro globetrotter em sua época, pois a viajar pela Europa e Américas, apresentando-se diante da nobreza e de músicos afamados que lhe rendem altos elogios. Estabelecer-se-ia no Rio de Janeiro, onde continuaria sua atividade de pianista, professor e proprietário de editora de música, obtendo grande repercussão nas várias atividades. Deve-se à editora a publicação de inúmeras obras do repertório pátrio, de Portugal e de alhures e de suas próprias composições, que mereceriam ser frequentadas pelos intérpretes. Gonçalves Guimarães, ao tratar dos irmãos, fá-lo de maneira a estabelecer um elo que sempre existiu entre eles, apesar de apenas Artur ter ficado sob a guarda do pai, que o acompanhou pelo mundo até a maioridade. Na discografia dos Napoleões menciona, entre outras gravações, peças para piano de Artur gravadas por Sylvia Maltese e Clélia Ognibene (duo), Waldelly Mendonça e Philip Martin para selos diversos. De Alfredo, cita o Concerto para piano e orquestra nº 2, pela Orquestra Nacional da BBC de Gales, conduzida por Martyn Brubbins, tendo Artur Pizarro ao piano ((Hyperion).

Rubricas de interesse e assinadas por Luzia Rocha, Pedro Cravinho, Tiago Hora, Sílvia Sequeira e pela equipe do Museu Nacional da Música completam Glosas 13.

Reitero o esforço do mpmp que faz publicar a Revista Glosas, a valorizar a música portuguesa e dando substancial espaço para a música brasileira. Ratifico que não há recíproca concernente a essa literatura específica no Brasil. Inúmeras vezes já escrevi que nosso país insiste em ignorar a música portuguesa. Intérpretes minimamente conhecem ou sequer ouviram criações de compositores portugueses e nossas publicações acadêmicas, seguindo caminho similar, passam ao largo. Estou a me lembrar de que, durante muitos anos (1990-2007), fui o redator chefe da Revista Música da Universidade de São Paulo. Reservei, desde o primeiro número, cerca de 30% dos espaços para artigos de ilustres compositores, intérpretes e musicólogos em contribuições originais. Despertava e instigava a comparação. Foram mais de trinta artigos!!! Creiam os leitores, havia aqueles que me questionavam, pois gostariam de vê-la a proporcionar colaborações em “quantidade maior”, friso, de docentes e pesquisadores das muitas universidades brasileiras (sic). Nomes internacionais da maior respeitabilidade estão inseridos nos muitos números publicados até minha aposentadoria. No que concerne a Portugal, Elisa Lessa, Humberto d’Ávila, Jorge Peixinho, José Manuel Bettencourt da Câmara, José Maria Pedrosa Cardoso, Nancy Lee Harper, Ruy Vieira Nery e Sérgio Azevedo fazem-se presentes ao longo dos anos.

O ato efetivo de Glosas ao estender a mão, dando espaços sensíveis à música brasileira, não deveria ser incentivo para que façamos o mesmo, mormente se considerarmos a riqueza da composição portuguesa? No mínimo, Glosas, nessa abertura generosa, mostra o caminho a ser novamente seguido. Doravante haveria terra fértil?

This post is about issue nº 13 of Glosas, the voice of classical music that is the only one to cover all the countries that share the Portuguese language. This issue is very special, since a large segment is dedicated to the Brazilian composer Gilberto Mendes, who recently passed away. I also comment briefly on the remaining wide variety of topics addressed by the music magazine, in special the tribute paid to the great cellist Madalena Moreira de Sá e Costa celebrating the centennial of her birth.

 

 

A crítica política em versos do jurista Ives Gandra

Esclareço que os termos mais duros,
nos versos relacionados ao poder,
são destinados aos cidadãos já condenados.
Quanto à incompetência governamental,
apenas reitero o que escrevi
em artigos jornalísticos ou pareceres jurídicos.
Ives Gandra da Silva Martins
(Extraída da Breve Introdução à obra)

Petulância e incompetência
Há no governo de sobra,
Seu veneno, na indecência,
Lembra peçonhenta cobra.
(quarteto de 28/02/2015)

Autor de dezenas de livros a abordar áreas do Direito, o notável jurista Ives Gandra tem na poesia, desde a juventude, uma de suas paixões. Traduz-se essa verve poética num também sem número de livros em que privilegia temas essenciais do condicionamento humano, a família, o amor, o cotidiano. Não por outro motivo ocupa cadeira na Academia Paulista de Letras, um de seus orgulhos, a somar-se a tantas outras Academias que honra com seu prestígio.

Como irmão, Ives não deixa, a cada publicação, de me enviar o novel livro com simpática dedicatória ao casal. Foi com prazer que li seu novo diário, que, junto àquele neste espaço resenhado, forma um conjunto invejável (vide blog “Meu Diário em Sonetos”, São Paulo: Pax & Spes, 4 vol., 2010, 21/05/2011). O presente “Meu Diário em Sextetos”, também apresentado com o nome completo do autor, Ives Gandra da Silva Martins, tem características, diria, mais abrangentes (São Paulo: Pax & Spes, 2016). Razões poderiam explicar essa assertiva.

O jurista poeta, aos 81 anos de idade, adentra mais profundamente o benfazejo espírito de síntese, e a forma sexteto, multum in minimo, é resultado de longa decantação. Diria que arabescos são dispensados e Ives penetra na senda estreita da essência essencial. Debruça-se, a interpretar seu entorno – fundamento da existência -, sem deixar, porém, a visão mais hermenêutica – mas em termos acessíveis – dos amplos temas que afligem hoje a imensa maioria dos brasileiros. Nessa altura da vida, livre das amarras que fatalmente levam o profissional a manter convivência “politicamente correta” com adversários tantas vezes ferrenhos durante a fase mais intensa da carreira, Ives sobrevoa e vê a floresta da vida sem concessões. Não que tenha cessado a brilhante carreira como advogado, mas o tempo da dissecação de cada árvore dessa floresta passou e, vê-la do alto, após tantas conquistas, deu-lhe a sabedoria serena.

“Meu Diário em Sextetos” apresenta um sexteto para cada dia do ano e, ao fim de cada mês, duas ou três quadras. Divide-se o livro em três compartimentos preferenciais: a família-religião, o declínio físico e a crítica política. O primeiro, fulcro de uma paz advinda de seu catolicismo convicto e da família como estrutura fundamental ao equilíbrio pleno, tem em sua esposa, Ruth, o epicentro, pois tantos são os sextetos a ela dedicados que se torna nítida a união indelével. O declínio físico, que não altera minimamente o pensar em ebulição e a defesa de princípios que apoia com fervor, está presente em muitos breves poemas. Artrite, artrose, doença autoimune, nada impede que, apesar do sofrimento expresso em versos, o corajoso Ives percorra, ainda hoje, o país inteiro a pregar aquilo que entende justo, correto, honesto e voltado à democracia almejada e ao cidadão comum, sem dele selecionar ideologia. O terceiro compartimento representa a síntese absoluta das centenas e centenas de artigos ou pareceres jurídicos expostos ao longo da vida, com uma ressalva. Se tantas vezes Ives teve de se conter – assim acredito, após leitura de infindável número de artigos publicados na grande mídia através das décadas -, pela tipificação profissional e também pelo coleguismo “diplomático”, não mais o faz nos sextetos. São estes transparentes, cristalinos como a água mais pura. Aponta a corrupção, estilhaça para o leitor a incompetência deste governo que desde 2003 aí permanece. Não poupa Lula, tampouco a criatura Dilma. Uma força moral o conduz ao desvelamento pleno e com que autoridade, diria, vocação libertária!!! Seus sextetos crítico-políticos são o filtramento de tantos de seus pareceres e artigos.

Selecionei muitos deles entre os que se atêm à especificidade crítico-política e à endêmica corrupção que teve acelerada evolução após 2003. Não obedeci à cronologia, pois dia após dia os sextetos foram sendo escritos, muitos pontuais após as desastrosas medidas governamentais de 2015, ano preciso que reúne a criação poética do livro.

Sobre Dilma e Lula, não cessa de apontar a incompetência, a ignorância e até… a loucura.

Disse Dilma que vai bem
Seu governo e que também
Não mudou a sua trilha,
Ou é mentirosa ou cega,
Esta louca que navega
A “Versailles” de Brasília.

O Brasil se desfigura,
Vive só de sinecura
E da esquerda truculenta,
Quanto mais ele vai mal,
Do mundo não tendo aval,
Mais se esconde a “Presidenta”.

Foram seis meses corridos,
Os ânimos revestidos
De repulsa ao mau comando,
Com seu ar tão prepotente
E seu jeito incompetente
Dilma afunda com seu bando.

Dilma vive prepotência
Com enorme incompetência
Em governar o Brasil,
Nunca tanto se roubou,
Mas sempre faz o seu show,
Num de pólvora barril.

Todos querem Dilma fora
E a presidente não cora
Em ver o gesto do povo,
Seu fracasso é retumbante
Mas ela bem segue avante
E quer fracassar de novo.

Mais uma fala na classe,
Falando no negro impasse
Que Dilma pôs o Brasil,
Nunca vi roubarem tanto
Que a todos nós causa espanto,
Descarados, sem ardil.

Se não ladra, foi omissa,
Eis a única premissa
Neste assalto a Petrobras,
Que a Polícia Federal
Descubra a origem do mal
Pra nação estar em paz.

Dilma cai como um foguete,
Foi o Brasil seu joguete
Para afundá-lo de vez.
O povo desesperado
Não sabe para que lado
Caminhar a cada mês.

Dilma não sabe o que diz
Para a nação infeliz
Que seu governo gerou,
Desce por ladeira abaixo,
E seu governo eu bem acho
De ingovernança dá show.

Esta fala com mentira,
que do sério a mim não tira,
desta horrível presidente,
preciso ter muita fé
para que mantenha em pé
a vontade de ir à frente.

Bem afunda meu Brasil
E o povo está num barril
De pólvora a explodir.
É Dilma a mãe da inflação
E seu governo ladrão
Devia daqui partir.

Dom Pedro no dia sete,
Num gesto que se repete,
Proclamou a independência.
Há muito que este país
Passou a ser infeliz
Com Dilma na presidência.

Quanto mais a presidente
Mostra ser incompetente,
Mais luta pelo poder,
Desgraça a nação inteira,
Que segue na sua esteira,
Sem mesmo sobreviver.

Nosso país tem futuro,
Será, sem Dilma, seguro,
Pois haverá governança,
Enquanto a turba do assalto
Viver do roubo bem alto
Não há qualquer esperança.

Dilma e Lula que tristeza,
Afundaram com certeza
O meu Brasil tão querido,
Seus amigos saqueadores
São da pátria traidores
Tirando-lhes sonho e vida.

É Lula um agitador,
Tisna a sua presidência,
Parece mais “batedor”
Do que ter sido “excelência”.

Lula perde as estribeiras
Sente ser lançado às beiras
Por verdades reveladas,
Sendo quase analfabeto
Fez das palestras projeto
Com que recebe boladas.

Quanta verdade escondida
Quanta mentira vertida
Neste mundo tresloucado,
Quando se fala em PT
Tudo que sempre se vê
É o patrimônio roubado.

Este assalto permanente
De um partido indiferente
Ao que é público e privado,
Tornando seu o dinheiro,
Ganho pelo brasileiro,
Tem que ser bem apenado.

Ives Gandra insiste no termo canalha. São vários os sextetos que expõem essa categoria instalada em Brasília:

A canalha de Brasília
Que o fruto do roubo empilha,
Assaltou de todo lado
Nunca tanta podridão
Do Governo em seu porão
Foi ao povo desventrado.

O poder sempre me enerva,
É sempre a mesma caterva
Que o mantém com suas tralhas,
Os poucos de bons princípios
Desabam nos precipícios
Derrotados por canalhas.

Quanto mais vejo a canalha,
Que o Brasil tanto atrapalha,
Empoleirada em Brasília,
Eu continuo a gritar,
Com outros, para levar
O país a boa trilha.

As vezes tenho vontade.
Pois parece-me verdade
Dizer o que o povo espalha,
O poder vive do achaque,
Que ganha maior destaque,
Quanto mais se faz canalha.

O saque da canalhada,
Que jamais teve parada
Liquidou o meu Brasil,
Muitos estão na cadeia,
Outros tecem sua teia
Na busca de um bom ardil.

Em Curitiba falei,
Aborrecido com lei
Escrita pelo Supremo.
São bandidos, são canalhas
Os governantes que as tralhas
Põem no povo em peso extremo.

Sobre o Fisco e o STF:

Um difícil parecer
Eu principio a escrever
Sobre o Fisco sem moral.
Tais horríveis publicanos
Ao mundo só causam danos,
Pois dedicados ao mal.

“Longa manus”, o Supremo
Transforma seu ato extremo
Esteira do Executivo,
Se o Governo faz apelo
Nunca decide, em seu zelo,
De ser um mero adesivo.

Não poucas vezes o jurista poeta está a apontar a podridão governamental instaurada, a mentira deslavada, o inchaço da máquina pública e a corrupção à solta, endêmica, mas que teve aceleração progressiva a partir de 2003:

Todo o excesso tributário
Tem sempre um destinatário
Sustentar corrupção
E quem quer se aboletar
Sem precisar trabalhar
Nos cabides da nação.

A podridão cada dia
Tira do povo a alegria
Quanto mais é revelada.
O retrato faz-se mórbido
Pois este governo sórdido
Finge não saber de nada.

Da algibeira sempre tira
O governo uma mentira
Para o seu povo enganar.
Do roubo nada sabia,
Apesar de cada dia,
O roubo solto deixar.

Cada dia um novo saque
Merece em jornais destaque
Deste Governo malandro,
O mar de lama é tamanho,
Que não me parece estranho,
Nele descer de escafandro.

Quando vejo meu país,
Triste, abatido e infeliz
E os governantes felizes
Dá vontade de gritar
E toda a lama esfregar
Na ponta de seus narizes.

São a mentira e a promessa
Para a qual jamais há pressa,
As armas dos governantes.
Nada fazendo de novo,
Sempre sufocam o povo
Muito mais que meliantes.

Todos amigos do rei
São mais de cem mil, eu sei,
Convidados sem concurso.
Obama tem quatro mil.
É que no pobre Brasil
O roubo está sempre em curso.

Ter poder pelo poder
Mesmo sem o merecer,
É próprio do governante.
Mandar tem suas delícias,
No peculato as premissas,
O que o torna delirante.

Quanto mais podre o poder
Mais busca se defender,
Negando o mal praticado.
Ataca os acusadores
Os tornando “mal feitores”,
Pelo crime demonstrado.

Faz-se o governo malandro
E nem mesmo de escafandro
Se desce ao mar de sujeira,
Precisamos nos livrar
Desta podridão sem par
Cortando-lhe pela beira.

República e monarquia
Se comparo dia a dia,
A República falhou.
O Brasil em sobressalto
Tem a moral no asfalto,
Onde a lama é que dá show.

E em nostálgica esperança:

Apesar da incompetência
De um governo cuja essência
Foi o roubo sem limites,
Eu creio no meu Brasil
Que sob um céu cor de anil
Ao futuro faz convites.

Para o leitor de meu blog, diria que essa coleção de sextetos, a acentuar o desalento do jurista Ives Gandra, tem, como belo contraponto, a família. Evidencia nesse segmento o caráter impoluto do Homem, a dimensionar ainda mais, todas as críticas aos desvarios dos últimos desastrados governos.

My eldest brother, the prominent Brazilian jurist Ives Gandra, is also a poet with a significant number of poetry books published. The last one, Meu Diário em Sextetos (My Diary in Sestets), comprises 365 poems in sestet form, one for each day of 2015. It may be divided into three sections: family/religion, physical decline and the Brazilian political crisis. In the last one, he touches the weak spots and, without constraints, denounces the corruption, incompetence, ignorance and cynicism of the current government. I selected for this week’s post some of such verses that fulminate against political chicanery.

 

 

 

 

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