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A criança prodígio e o impacto frente ao público

Desde já, nós apreendemos a diferença entre aquele que não pensa e aquele que pensa.
Mesmo diante do mistério, o primeiro diz sempre: “Mas, é bem evidente”.
Mesmo diante da evidência, o segundo diz: “Eu não compreendo nada”.
Jean Guitton
(Nouvel Art de Penser- 1946)

Exatamente há dois anos escrevia blog pertinente à precocidade (vide blog: “A criança prodígio frente à interpretação musical e à vida”, 14/06/2014). Acredito que aspectos fulcrais foram comentados. Abordei, inclusive, o prodígio Pierino Gamba (1936- ), sob o olhar laudatório inicial do crítico musical, ensaísta e poeta português João José Cochofel, que, após poucos anos, em outra apresentação do já adolescente, é mais reservado e escreve: “Mas que estragos não será capaz, antes do desabrochar de todas as faculdades, a má orientação, as medalhas que lhe põem no peito, os focos luminosos que acompanham, os livros e filmes biográficos ou pseudobiográficos que lhe consagram, enfim: toda a adulação de uma máquina de propaganda montada com todos os expedientes comerciais do tempo em que vivemos?”. Passaram-se outros mais anos e, ao vê-lo reger nos seus 26 anos, mostra-se cáustico. Mencionei naquele blog que no futuro, já Piero Gamba, o maestro desenvolveria sólida carreira como regente de orquestras renomadas.

Volto ao tema, após ter ficado hospedado durante a tournée em Portugal em Oeiras, no lar do querido casal Manuela e José Maria Pedrosa Cardoso, ele notável musicólogo. Ao consultar sua rica biblioteca, encontrei um pequeno livro sobre Pierino Gamba que me despertou muito interesse (Isidoro Duarte Santos. “Pierino Gamba – O menino maestro à luz da nova psicologia”. Lisboa, Estudos Psíquicos Editora, 1949).  José Maria emprestou-mo, trouxe-o comigo, e a leitura retrata o instante do acontecido e sua decorrência, resultados dos momentos de impacto que o autor do livro sofreria ao ouvir o miúdo aos 11 anos de idade em vários concertos, a reger orquestra sinfônica em Lisboa.

Inicialmente temos de regressar aos anos 1940-1950. A aparição de um denominado menino prodígio levava multidões aos teatros. Tratava-se de fato raro, a ser amplamente divulgado. No caso de Pierino Gamba, o sucesso que obteve em Portugal e em tantos outros países foi absoluto. Autoridades, realeza, dignatários da Igreja compareciam aos seus concertos. A raridade e a exposição despertavam o fascínio. O livro de Isidoro Duarte Santos traduz exatamente o impacto causado. Insere críticas laudatórias escritas logo após eventos. Apresenta opinião do renomado compositor Ruy Coelho. Duarte Santos enriquece sua publicação consultando médico psiquiatra e espiritualista, respectivamente. Contradiz o depoimento do psiquiatra, que afirma: “E toda gente pergunta: quanto tempo durará esta luz deslumbrante?”. Desfila um sem número de escritores, cientistas, músicos, a tentar argumentação às suas teorias. Chega à explanar a respeito do perispírito para consubstanciar gênio, memória e outras mais áreas polêmicas. Até César Lombroso é mencionado, ao afirmar que “o gênio é degenerescência mental” e que, portanto, esses extraordinários seres não devem ter saúde perfeita, devem ser anormais. Duarte Santos expõe longa lista dos chamados gênios em todas as áreas imagináveis. Cada um em sua categoria de genialidade, extravagância, inspiração e ação. Todo o discurso, a fim de tentar explicar o menino prodígio Pierino Gamba. O autor traz curiosa diferença entre talento e gênio, a partir de observação de Hagen, para o qual o gênio é original. Escreve Duarte Santos: “A inspiração talentosa repete o fato registrado; a do gênio dá origem ao fato inédito. Não repete; inventa ou cria. O talento visa a um objetivo que se esconde a cada passo; o gênio visa a um objetivo inteiramente invisível”. Nesses quase setenta anos passados, por quantos questionamentos passou a palavra gênio?

Quanto à memória, o autor cita a entrevista que o pai do menino maestro concedeu ao “Diário de Notícias”, de Lisboa, assistida por Pierino, que se lembraria até do número de palavras repetidas por seu progenitor, tentando mostrar a evidência da memória prodigiosa voltada às obras orquestrais, pois o garoto regia sem partituras. Argumentação para a teoria a envolver vidas anteriores,  entenda-se reencarnação proposta por algumas religiões e seitas. Escreve que sua convicção “prova que o cérebro não é sede da memória e que esta se encontra nos recessos do perispírito, esse mediador plástico que modela os corpos e sobrevive às alterações orgânicas. Mais prova também que não há uma vida, mas muitas vidas encadeadas entre si, como elos de infinita corrente, os quais dão carácter de veracidade à lei de causa e efeito que rege o mundo e o mundo moral”.

Duarte Santos, nessa intenção absoluta de explicar o menino prodígio que foi Pierino, extrapola para a metafísica e expõe suas “certezas” a respeito de Vida e Além. É nítida a vontade de explicar o menino maestro como sendo resultado de reencarnação.

A leitura do livro possibilita entender o impacto que pode causar a aparição, no caso, de um ser com dons acima do natural. O fascínio é nítido. Evidencia igualmente que a pouca circulação da comunicação, até as décadas apontadas, ventilava raros miúdos prodígios, não apenas na área musical. Eles continuam a existir, agora às toneladas, mormente vindos do Extremo-Oriente. O YouTube aí está a apresentar inúmeras crianças superdotadas, assim como outras consideradas prodígios apenas pelo círculo familiar. No primeiro caso, há interesse em vê-las, apesar de sempre se saber que se está a ouvir o talento, é lógico, mas fundamentalmente a interpretação transmitida pelo professor e assimilada pela criança. Quanto ao segundo caso, verdadeiras aberrações inundam o YouTube.

Isidoro Duarte Santos, leigo em música, espiritualista convicto, ficou seduzido e seu livro é um pleno testemunho dessa inteira submissão à regência do miúdo Pierino Gamba. Prosta-se ao impacto fulminante que sofreu. Seria correto entender que parte considerável dos meninos prodígios acaba sucumbindo a cobranças futuras, quase impossíveis de serem satisfeitas para um tipo de público “leigo e cativo”. O psiquiatra Barahona Fernandes, mencionado por Duarte Santos, afirma, receoso sobre o futuro desses “meteoros”: “Perecerá de esgotamento, estiolará à força de explorado em ininterruptas exibições, degenerará em banalidade com a maturação da idade?”. Como bem afirmava minha mestra, a lendária pianista e professora Marguerite Long, “nada resiste ao trabalho”. Compreenda-se que disciplina, estudo aprofundado, concentração e “desligamento” de um passado pleno de incenso, que poderia tê-lo feito sucumbir, levou Piero Gamba, no futuro, a ser reconhecido como regente de reais méritos na Europa, Austrália e Américas, tendo gravado com Luciano Pavarotti e o violinista Ruggiero Ricci, entre tantos mais. Prossegue o desempenho de carreira como regente e professor de direção orquestral. Reside atualmente nos Estados Unidos.

Levas de prodígios continuarão a aparecer. Contudo, o carisma da criança prodígio teria desaparecido com o advento da internet, pois o YouTube tudo aceita. A quantidade banaliza, dificulta a seleção e o superdotado em tenra infância é admirado, mas continuaria ainda a ser reverenciado como outrora? Dos milhares de prodígios que surgem no Extremo Oriente, apenas uma quantidade pequena deles, anos após, já basta para inundar o Ocidente em Concursos Internacionais de Instrumento. Destacar-se-ão uns poucos. A neblina ocultará aqueles que, pelos mais variados motivos, tiveram de ficar pelo caminho. Razões estimulantes como a cultura abrangente, a orientação musical segura e o fundamental apoio da família, que deveria sempre buscar o burilamento do talento em direção à maturidade, poderão conduzir a criança prodígio, livre das amarras, à plena realização.

This post is about a book I’ve just finished reading about Pierino Gamba, the child-prodigy who has conducted great orchestras at a very early age. It was written in 1946 by Isidoro Duarte Santos, under the impact of the concerts starred by Pierino, then just a child. The author conceives curious theories to explain Pierino’s mastery, which he sees as something supernatural. As an adult, the conductor became Piero Gamba, who built a solid reputation as conductor and teacher, but away from the spotlight. I believe today, with the web jam-packed with young geniuses showcasing their talents in different fields, a wonder like Pierino Gamba would hardly achieve special attention in the media.

 

Viver a Vida, Solidão, Vazio, Viagem…

Senhor, se o viajante perdido no deserto
tem uma casa habitada
mesmo que nos confins do mundo,
alegra-se.
Nenhuma distância o impede de estar alimentado,
e, se ele morrer, morre no amor…
Antoine de Saint-Exupéry
(Citadelle, cap CXXIV)

Reflexões de interesse transmitidas por François Servenière a partir dos dois últimos blogs fizeram-me considerar o tema relacionado à solidão, que pode ensejar a vontade da vida mais curta. Admirador confesso das realizações e livros do aventureiro francês Sylvain Tesson, Servenière considera, contudo, que o grave e prosaico acidente que sofreu em 2014, que o levou ao coma e à paralisação parcial dos movimentos da face direita, tenha recrudescido esse desejo de existência breve e fim abrupto.

Entendo que em todas as atividades há “normas” que influenciam a trajetória humana. A vida contemplativa tem suas regras; a atividade artística em cada área caracteriza-se por determinada maneira de atuação, de proceder, de vestir-se, de viver “livremente”; o mundo corporativo tem, inclusive, atitudes frente à necessidade de evidenciar status no cotidiano, e a posse de bens materiais determina parte essencial da aceitação entre os pares; figuras mediáticas, em todas as funções possíveis, agem a pensar diuturnamente no holofote, “aparência” da verdade; personagens mundanas e frívolas só gravitam na superficialidade; o acadêmico na universidade sofre pressão constante vinda majoritariamente de carreiristas, geralmente com estreiteza de pensamento; políticos, com raríssimas exceções, pensam em suas trajetórias pessoais. O aventureiro, seja alpinista, navegador, andarilho ou a utilizar não importa qual meio de locomoção, conhece os riscos diários que podem levar ao fim da existência. Uma outra concepção se instaura em sua mente, que se pode traduzir em solilóquio, no vasto espaço da solidão e na antevisão da morte.

Essa atração pelo isolamento voluntário, expressa por Tesson na entrevista a Carine Marret e que o faz mergulhar no mundo interior, não diverge do que pensa Henry de Montherlant (1895-1972): “O importante não é ser diferente dos outros, mas diferente de si mesmo”. Seria Montherland a escrever que “aquele que viveu intensamente em parte venceu a morte”, frase de sua narrativa Un voyageur solitaire est un diable. Frise-se que Montherlant se suicidaria em 1972.

Servenière observa:

“Não fiz nenhum comentário a respeito de seu artigo sobre Sylvain Tesson, pois não sabia o que dizer e você disse tudo. Ademais, o vídeo é tão esclarecedor quanto à trajetória de nosso aventureiro! A respeito do discurso tessoniano ‘viver a vida em plena velocidade desde que ela seja curta’, sinto a frase como uma forma de testamento daquele que escapou da morte por milagre… Sente-se Sylvain em estado de urgência, apesar de mostrar-se calmo e realizado após suas explorações pelo mundo e sua vida e seus escritos plenos de sucesso. O vídeo, ao qual assisti por duas vezes, é magnífico.

Estou a ler presentemente ‘S’abandonner à vivre’, de Tesson (vide blog de 06/06/2015). Gosto muito, apesar de não aderir ao posicionamento ‘última solução’ do autor. Explico-me: última folha pelo fato de que se trata de uma ‘alegria sine qua non e, após, o dilúvio’. Para Sylvain Tesson, ‘estar vivo’ significa ‘viver velozmente sua vida’, ‘aproveitar o mais rapidamente a vida e tudo que ela nos oferece’… ‘mesmo que tenhamos de morrer jovens’. Para mim, viver não é simplesmente fazê-lo com intensidade, mas viver todos os períodos para melhor compreendê-los e também saber-se partícipe do contexto da vida, prolongando-a para nossas crianças e criações.

Não ter filhos, por escolha, impossibilidade ou egoísmo, poderia representar alienação frente à vida, à maneira de interpretá-la. Seria como um pintor falar de pintura sem nunca ter pego um pincel. Ter filhos, sem entrar no juízo de valor, nos conduz a um outro mundo, desde a intenção de tê-los.

Não sei se Sylvain Tesson tem ou não filhos. Sua vida é bela e seus livros e suas aventuras são incríveis, mas sente-se algo incompleto, talvez  correndo sem cessar atrás de espectro invisível. Não obstante, como podemos julgar que existe um homem completo? Complexa questão a que nos propomos constantemente. Não temos nós todos falhas, equívocos, desequilíbrios? Fizemos escolhas, especializamo-nos nos domínios por nós eleitos, o que nos limita o conhecimento de domínios estranhos… É isso. A completude da vida se faz pela assembleia dos humanos e todas as particularidades que formam o conjunto de um só corpus de experiências e de conhecimentos. Impossível conhecer tudo, verdadeira pretensão do homem!!!

Sobre o seu artigo no blog, diria que é necessário ver a literatura de Sylvain Tesson  como a de um antropólogo, cuja curiosidade sem trégua jamais será resolvida. Os viajantes são assim. Há os viajantes de salão, que surfam sobre seus sonhos e criam mundos extraordinários. Existem outros que passam em revista a Terra para preencher seus cadernos substanciosos, observando o planeta real e criando realidades mais belas do que o próprio real, pois apenas eles saberiam colocar palavras talentosas sobre o que observam, ressentem e entendem. Sylvain Tesson é um desses poetas esclarecidos. Fascinava-me a dicotomia entre meu amigo eslovaco Josef Baàn e meu posicionamento intelectual. Ele buscava na etnomusicologia as razões de ser de sua música, pois buscava, para a inspiração musical, conhecer cientificamente as raízes da música junto aos povos primitivos. De minha parte, compunha a partir de meu espírito, com ciência e memória, talvez, mas, antes de quaisquer outras razões, pela introspecção profunda. Inerente, adquirida?

Eu amo viajar. Não saberia dizer se amo a atração da viagem mais do que a própria viagem. Amo ser viajante, mais do que encontrar um desiderato para a viagem, uma destinação, seja intelectual ou física. Sou um viajante mental, pois meu espírito viaja a cada dia em torno da Terra. Todavia, creia-me, não realizei nada comparável a Sylvain Tesson. Lê-lo permite-nos viajar por procuração, mesmo que a situação seja insuficiente. Você bem sabe que não é fácil para um músico profissional viajar, sobretudo quando o piano é o instrumento. Flautista e violonista têm maiores possibilidades”. (tradução: JEM).

Debate sem limites. A mente humana sempre a viajar para locais palpáveis ou para o de profundis, sempre insondável.

In this post I transcribe message received from the French composer François Servenière, with his comments on Tesson’s worldview, as expressed in the book “On a roulé sur la Terre”.

 

 

 


Sylvain Tesson e Alexandre Poussin em aventura inédita

Ainsi nous allons mourir,
et nous n’aurons pas tué le vent.
Henry de Montherlant

Desde 2011 tenho resenhado livros do geógrafo, aventureiro e escritor Sylvain Tesson (1972- ). Em “On a roulé sur la Terre” (Paris: Robert Laffont, 1996), o autor realiza a volta ao mundo de bicicleta juntamente com seu amigo, aventureiro e escritor igualmente, André Poussin (1970- ). Bem posteriormente empreenderiam uma segunda grande viagem, “La Marche au Ciel -  5.000 km à pied à travers l’Himalaia” (vide blog: 25/02/12).

“On a roulé sur la Terre” é o primeiro livro dos dois autores, pois posteriormente realizariam viagens separadamente, exceção àquela na cadeia do Himalaia. Após o casamento com Sonia, Poussin empreenderia a travessia da África com a esposa e outras mais viagens.

Impressiona o destemor dos então jovens e intrépidos aventureiros. Companheiros de escaladas de monumentos como catedrais, prédios públicos, paredões e montanhas, os amigos, com pouco mais de 20 anos de idade, resolveram percorrer o mundo pedalando.

No mapa que apresentam, a título de orientação para o leitor, tem-se o périplo incrível dos dois corajosos viajantes. Só os oceanos determinariam as intermediações terrestres. Ao todo foram 364 dias e 23.962 km rodados sobre duas rodas, atravessando 31 países!!!

Para quem já percorreu com grande prazer onze livros posteriores de Sylvain Tesson, fica nítido o embrião de percursos outros de bicicleta, a cavalo ou… a pé. Em “On a roulé sur la Terre” há puerilidade em algumas situações, diria, familiares. A mãe de Tesson encontrar-se-ia com a dupla em Lhasa, no Tibet, pois, médica, realizava atividade concernente à sua profissão. Em Teerã, novo encontro, desta vez providencial, pois a progenitora determinaria o diagnóstico de uma hepatite E, que debilitara totalmente Alexandre Poussin nos últimos dias de pedaladas até a capital iraniana. Convidados para jantar em casa do governador de Kerman, este se recusa a apertar a mão da médica – “minha religião não permite” – e Alexandre comenta: “Apesar de ter feito seus estudos em Oxford, gelamos com essa atitude. Ele possui o olhar fixo e iluminado que percebemos num dependente de ópio ou naqueles devotados à morte por uma ideologia da negação”. Durante todo o longo caminho pelo planeta, há por vezes o bálsamo que estimula, visitas de outros parentes e amigos de um ou de outro, como o caso da amiga Sonia, “a prometida” de Alexandre, segundo Sylvain, que com eles se encontraria em Mendoza e, mais tarde, seria a companheira de Poussin em aventuras extraordinárias do marido. De Mendoza, Sylvain e Alexandre teriam a companhia até Valparaizo, no Chile, dos amigos Eric e Natasha e da “prometida”. Despedem-se nessa cidade e os dois partem de avião para a ilha da Páscoa. Sylvain comenta: “Voltamos a comer com os dedos e a enfiá-los no nariz e a tomar banho se oportunidade houver”. Há também a recepção por parte de conhecidos previamente anotados e o maravilhamento do anônimo, ser cordial que os receberia em quaisquer circunstâncias, seja num humilde abrigo ou então em belas moradas.

No espaço que reservo aos blogs dificilmente poderia comentar sequer parte do longo percurso. Digna de consideração a narração alternada de Sylvain e Alexandre, o que torna a leitura muito agradável, ao mesmo tempo em que os textos descortinam situações humanas ou de natureza geográfica de muito interesse. Diria que Alexandre Poussin mostra-se mais lírico e as descrições daquilo que observa, por vezes, fariam bem perceber leituras prévias das aventuras de Saint-Exupéry, como “Terre des Hommes”. Pormenoriza a transformação contínua da natureza planetária, sem contudo desprezar o semelhante. Tece reflexões, como no caso da região himalaia. “Durante todo o dia somos confrontados com o esforço depreendido nessa região: é a valsa das vestimentas, valsa-hesitação, valsa-insatisfação”, referindo-se à constante mutação climática e à “altitude, que resolve as hesitações da chuva transformando-a em neve”. Quando no Irã, sob as tendas em noite brumosa, escreve: “Seria necessário captar o silêncio em foto, o silêncio é tão extremo”. Sylvain, nos seus 22 anos, mostra-se atento ao que vê e sente, mas já dá a perceber certo pragmatismo, tão presente nos seus magníficos relatos futuros.

Os dois não deixam de criticar com agudeza certas situações que encontram ao atravessar 31 países. Não se trata de fortuitamente conhecerem os locais. No curso das pedaladas, o olhar atento vai fixando o que causa impacto. Quando param, têm a possibilidade do contato humano. Não raras vezes são convidados para dormir no interior das moradias espalhadas pelo mundo, o que lhes dá prazer, mormente porque, na maioria das noites, são forçados a dormir em suas tendas.

Seguir a narrativa é conhecer hábitos e costumes de povos que nos são distantes e a entender determinadas precauções que devem ser tomadas em travessia desse porte. Do deserto do Saara ocidental guardam uma premissa essencial quanto aos poços: “se perdermos um só, tudo estará comprometido”. De Buenos Aires, Alexandre deduz: “pequena Europa concentrada, mescla de Barcelona e Paris, com pinceladas de Berlin revisitada por Milão e Nápoles”. Sylvain comenta o início das pedaladas na ascensão dos Andes: “O muro dos Andes se apresenta, como se os pampas morressem ao se confrontar com a cordilheira”. Sobre as longas avenidas de Santiago: “as avenidas são muito longas, parecem o mapa do Chile”. Comentários outros florescem a toda página e nos apresentam Bangkok e a sujeira que impera; a China como uma grande “escarradeira”, pois todos eliminam esses dejetos sem nenhum pudor, em todos os lugares públicos ou privados; criticam a imundície dos hospitais públicos do grande país asiático: ” A última coisa a fazer é ficar doente na China popular”. É que a dupla não passou pelo Brasil, pois de Dakar foram diretos a Buenos Aires. Senão… O sonho de chegar a Lhasa se realiza e sentem o impacto da história milenar do local sagrado, infelizmente anexado violentamente pelos chineses.

Uma cena hilariante valeria transmitir ao leitor. Na descida de Lhasa em direção à Índia deixam as desgastadas bicicletas deslizarem com rapidez. Em trecho sem habitações próximas, percebem que um grande cão desce velozmente também. Pelo retrovisor notam ser um dog tibetano, cão de guarda enorme e pouco sociável. A situação leva-os à queda e imediatamente fazem da bicicleta escudo contra a iminente investida. Esse animal, quando irado, eriça os pelos da enorme cabeça. No instante do ataque, os dois soltaram um grande grito, única defesa possível. O dog abaixa a juba, vira-se e retoma o caminho de volta. Tem graça o relato. Cito este fato pois, na década de 1970, situação semelhante vivi quando realizava pesquisa sobre arte sacra popular no Vale do Paraíba. Vendo uma casa de caboclo com cerca em volta e frágil portinhola, bati palmas e entrei pelo terreno. Repentinamente, um avantajado pastor alemão, provavelmente mestiço, saiu da morada bem simples, veloz e a latir. Apavorei-me inicialmente, pois impossível retornar correndo. Aguardei o pior. Aproximou-se a uma distância de cerca de dois metros, parou, rangeu os dentes, adiantou as patas dianteiras para o salto e preparava-se para me morder com certeza quando abri os braços e dei um berro a plenos pulmões. O cão abaixou o rabo e retornou à casa correndo e eu, também a correr rumo ao portão. Meu saudoso amigo Carlindo Pavan, que permanecera no carro, gargalhava.

Retornando ao livro “On a roulé sur la Terre”, mais de uma vez ficam detidos por longas horas nas inúmeras fronteiras atravessadas. Quase sempre as autoridades mostram a prerrogativa que as torna inquestionáveis. Seria basicamente improvável numa viagem por países por vezes inóspitos, a ausência da agressão e em duas oportunidades são agredidos por militares em países asiáticos. Aprendem com o tempo a lidar com as situações complexas. O fato de os dois terem habilidades musicais e de representação cênica serviu para atenuar momentos críticos. Quando a realidade mostrava-se favorável, tocavam flauta e dançavam diante das crianças e adultos espalhados pelo mundo.

Se as narrativas da natureza são, em determinadas circunstâncias, bem líricas, mormente se os dois sentem-se descontraídos e felizes nessas pedaladas, não raramente há relatos mais cáusticos ou até sombrios, sobretudo quando um deles adoece.

À medida que se aproximam do lar, ainda na Crimeia, o discurso se torna mais esperançoso, apesar de uma das travessias de fronteira ter sido feita clandestinamente. Armênia, Crimeia, Ucrânia vão sendo ultrapassadas, Romênia até Cluj-Napoca (dei recital nessa bela cidade) e de lá à Hungria, Áustria, Alemanha, Suíça e França.

O último relato é de Alexandre. Vale a pena a leitura “Nós deliramos. Trezentos e sessenta graus, revolução em nossos corações, voltamo-nos a nós mesmos”. Menciona as avenidas parisienses, que assistiram às últimas pedaladas: “Hoche, Carnot, Foch, Hugo rendem-nos as derradeiras homenagens; tudo passa, tudo foge, elas estão lá, em frente, tudo para, tudo apaga, uma senhora de vermelho agita um lenço amarelo, minhas pernas fraquejam, titubeio, voz embargada, cego pelo sol da emoção: Mamãe! Ela não está mais lá! Ela está nos meus braços! Levanto-a, tudo apaga. Parecia estar a caminhar como um autômato através da praça, no meio dos carros…”.

My appreciation of the book “On a roulé sur la Terre”, a four-hand work in which Sylvain Tesson and André Poussin, both then in their early twenties, give an account of a year spent cycling around the planet, crossing 31 countries and covering 23.962 km. First book of the two friends (they would write one more together), it describes countries they visited, people they met, varied geography and living conditions, funny or scaring encounters in exotic far-away lands. An enthralling book and an epic adventure one devours with pleasure.