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Glosas nº 13 homenageia Gilberto Mendes

A música é uma actividade do intelecto.
Não foi inventada pelo Homem,
foi criada com o Homem.
Fernando Corrêa de Oliveira

Não poucas vezes dediquei posts à Revista Glosas, publicação do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa (mpmp), que, ao pormenorizar-se sobre a criação em Portugal através dos séculos, reserva sempre espaços à produção da música brasileira desde o período colonial. Infelizmente não há minimamente recíproca por parte das raríssimas publicações brasileiras, o que é motivo de louvação especial aos esforços de Glosas.

O núcleo temático de Glosas (nº 11) foi reservado ao nosso grande compositor romântico Henrique Oswald. Artigos e ilustrações enriqueceram a publicação. Em 2014, Edward Luiz Ayres de Andrade, dinâmico presidente do mpmp, disse-me que pretendiam homenagear o mais importante compositor vivo brasileiro, Gilberto Mendes. Estivemos em Santos para longa entrevista do músico ao Edward Luiz e simpático almoço no tradicional restaurante Almeida, um dos preferidos do compositor. A entrevista e outros artigos sobre Gilberto Mendes foram publicados no número que saiu em Novembro último. Infelizmente, a bela edição não chegou a ser apreciada pelo compositor, que nos deixou no primeiro dia deste ano, aos 93 anos de idade.

A entrevista concedida a Glosas revela muitas das facetas marcantes de Gilberto Mendes. Edward Luiz soube extrair conteúdos essenciais da personalidade tão encantadora do grande compositor e humanista. Têm interesse algumas respostas pontuais, que, tratadas sob outra égide em seus livros, dão a entender as amarras libertas de determinadas tendências vanguardistas. A uma pergunta de Edward Luiz “E o que significou Darmstadt em sua carreira?” (as ideias da neue musik, professadas no Festival de música da cidade alemã, influenciaram tendências da vanguarda no Brasil, mormente nos anos 1960), responde Gilberto: “Na verdade nada, porque tudo aquilo eu já sabia. Fomos atrás do que os jornais diziam, de Boulez, de Stockhausen, Berio, Nono, Ligeti… Mas, na verdade, em Darmstadt não havia aulas, eram apenas conferências. E era muito num jogo assim: Ligeti fala sobre Boulez, Boulez fala sobre Berio… – uma panelinha muito bem urdida”. A uma outra pergunta de Edward Luiz sobre transformações de sua linguagem musical, Mendes historia seus caminhos criativos, que foram vários. Em questão sobre a Bossa Nova, Gilberto observa que não há nada de novo na harmonia da Bossa Nova, pois ela “é Debussy”, mas considera “gostosinha a batidinha rítmica” daquilo que denomina “coisa essencialmente carioca, de praia, e eu também sou de praia”.

Em Glosas 13, artigos são dedicados ao notável compositor nascido em Santos: José Lopes e Silva, “No som das vibrações ultra-sónicas…”; Antônio Eduardo Santos, “Veios de uma transmodernidade” e “Um outro gesto sonoro – o teatro musical na obra de Gilberto Mendes”; Luís Salgueiro, “Gilberto Mendes – Alegres Trópicos” e, a fazer parte de minha coluna permanente em Glosas, “Ecos d’Além Mar”, “A mente aberta de Gilberto Mendes”, em que enumero todas as obras que apresentei durante trinta anos de um relacionamento intenso com o compositor.

Ascent, título de matéria substanciosa, destaca o músico polivalente português Bernardo Sasseti (1970-2012), talentoso em todas as áreas em que atuou. Glosas bem fez reservando-lhe espaço, inicialmente a reproduzir texto de Sasseti, que implica considerações sobre seus almejos. “Posso também referir que o cinema, a fotografia e a pintura, assim como a actividade de composição original para piano – a qual me dedico com assiduidade – se manifestam, directa ou indirectamente, tanto em Ascent como nas gravações que a antecedem, desde 2002 com o CD Nocturno”. Biografia bem documentada, mas não assinada, revela-nos um compositor que também se interessou pelo teatro e apresenta extensa discografia de Bernardo Sasseti. O artigo de Maria João Neves, “O sonho dos outros – A fenomenologia do sonho de María Zambrano na música de Bernardo Sasseti”, tem interesse pela inserção do pensamento da escritora e filósofa espanhola (1904-1991) e a habilidade com que a autora do texto trabalha com essa aspiração de Sasseti, para quem a música “faz-me sempre sonhar”.

Comovente tributo é prestado à ilustre violoncelista portuguesa Madalena Moreira de Sá e Costa (1915-  ), a comemorar seu centenário. Um texto da homenageada discorre sobre o célebre Fado Burnay, de Eduardo Burnay, precedido por revelações artísticas da violoncelista. Madalena, irmã da ilustre pianista e professora Helena de Sá e Costa (1913-2006) e filha do renomado compositor Luís Costa (1879-1960), teve oportunidade de responder às competentes perguntas de Nuno M. Cardoso e José Carlos Araújo sobre sua longa atividade musical. Entrevista referencial. Substanciosos depoimentos de músicos, ex-alunos e amigos enriquecem ainda mais esse outro núcleo temático de Glosas, privilegiando a violoncelista portuense. Os textos têm as assinaturas de Vasco Barbosa, Isabel Delerue, Paulo Gaia Lima, Gisela Neves, Luiza Gama Santos, Jed Barahal, Jorge Rodrigues, Manuela Gouveia, Maria José Figueiredo, Elvira Archer, Piñeiro Nagy, Bruno Borralhinho, Bruno Caseirão, Ana Filomena Silva, Valter Mateus, Sofia Novo, Fernando Costa, Alberto Campos, Guilherme Cancujo.

Como adendo extra Glosas, Madalena de Sá e Costa e eu demos recital no Porto (Delegacia Regional do Norte, 7 de Janeiro de 1986), apresentando obras de Oswald, Beethoven, Debussy e Filipe Pires. Grande senhora e com memória privilegiada, pois compareceu a um recital que realizei em Braga (2011), conduzida por seu filho, a lembrar-se perfeitamente de nosso evento, que foi prestigiado pela presença de sua irmã, Helena de Sá e Costa.

O espaço a que me proponho impede-me de abordar pormenorizadamente todos os ricos temas assinados por especialistas. Nomeá-los, contudo, faz-se necessário: Luís Salgueiro entrevista o compositor Nuno da Rocha, pleno de ideias inovadoras; as “Irmandades e Ritual em Minas Gerais durante o Período Colonial” são estudadas por Maria Alice Volpi; “Lembrança(s) Suggia: Notas sobre um Espólio” remete-nos à grande violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia, mercê do arguto olhar de Luís Cabral; “Em torno do Festival de la Canción Gallega”, José Luís do Pico Orjais elabora um breve apanhado da participação portuguesa nesse importante Festival, mormente a de obras de Frederico de Freitas; “Evocação de Santo Pinto no Bicentenário de seu nascimento”, na qual Maria José Borges evidencia atributos de compositor do século XIX de música dramática e orquestral, que mereceria maior atenção; “Os Cantos Sefardins para voz e piano de Fernando Lopes-Graça” é um texto abreviado de longo estudo analítico a ser publicado por José Maria Pedrosa Cardoso. Foi o ilustre professor vimaranense que nos sugeriu os 12 Cantos Sefardins, apresentados em primeira audição mundial em São Paulo (Unibes, 15/10/2015), tendo Rita Morão Tavares (mezzo-soprano portuguesa) e eu como intérpretes.

O substancioso artigo de J.A. Gonçalves Guimarães, “Os quatro músicos Napoleão”, tem muito interesse. O estudioso apresenta sucintamente a saga dos Napoleões, do pai Alexandre, nascido em Bergamo, na Itália (1808-1886), e dos filhos portugueses Artur (1843-1925), Aníbal (1845-1880) e Alfredo (1852-1917). O segundo e o terceiro se notabilizariam como intérpretes e compositores, sendo que Gonçalves Guimarães se pormenoriza em Artur, menino prodígio, verdadeiro globetrotter em sua época, pois a viajar pela Europa e Américas, apresentando-se diante da nobreza e de músicos afamados que lhe rendem altos elogios. Estabelecer-se-ia no Rio de Janeiro, onde continuaria sua atividade de pianista, professor e proprietário de editora de música, obtendo grande repercussão nas várias atividades. Deve-se à editora a publicação de inúmeras obras do repertório pátrio, de Portugal e de alhures e de suas próprias composições, que mereceriam ser frequentadas pelos intérpretes. Gonçalves Guimarães, ao tratar dos irmãos, fá-lo de maneira a estabelecer um elo que sempre existiu entre eles, apesar de apenas Artur ter ficado sob a guarda do pai, que o acompanhou pelo mundo até a maioridade. Na discografia dos Napoleões menciona, entre outras gravações, peças para piano de Artur gravadas por Sylvia Maltese e Clélia Ognibene (duo), Waldelly Mendonça e Philip Martin para selos diversos. De Alfredo, cita o Concerto para piano e orquestra nº 2, pela Orquestra Nacional da BBC de Gales, conduzida por Martyn Brubbins, tendo Artur Pizarro ao piano ((Hyperion).

Rubricas de interesse e assinadas por Luzia Rocha, Pedro Cravinho, Tiago Hora, Sílvia Sequeira e pela equipe do Museu Nacional da Música completam Glosas 13.

Reitero o esforço do mpmp que faz publicar a Revista Glosas, a valorizar a música portuguesa e dando substancial espaço para a música brasileira. Ratifico que não há recíproca concernente a essa literatura específica no Brasil. Inúmeras vezes já escrevi que nosso país insiste em ignorar a música portuguesa. Intérpretes minimamente conhecem ou sequer ouviram criações de compositores portugueses e nossas publicações acadêmicas, seguindo caminho similar, passam ao largo. Estou a me lembrar de que, durante muitos anos (1990-2007), fui o redator chefe da Revista Música da Universidade de São Paulo. Reservei, desde o primeiro número, cerca de 30% dos espaços para artigos de ilustres compositores, intérpretes e musicólogos em contribuições originais. Despertava e instigava a comparação. Foram mais de trinta artigos!!! Creiam os leitores, havia aqueles que me questionavam, pois gostariam de vê-la a proporcionar colaborações em “quantidade maior”, friso, de docentes e pesquisadores das muitas universidades brasileiras (sic). Nomes internacionais da maior respeitabilidade estão inseridos nos muitos números publicados até minha aposentadoria. No que concerne a Portugal, Elisa Lessa, Humberto d’Ávila, Jorge Peixinho, José Manuel Bettencourt da Câmara, José Maria Pedrosa Cardoso, Nancy Lee Harper, Ruy Vieira Nery e Sérgio Azevedo fazem-se presentes ao longo dos anos.

O ato efetivo de Glosas ao estender a mão, dando espaços sensíveis à música brasileira, não deveria ser incentivo para que façamos o mesmo, mormente se considerarmos a riqueza da composição portuguesa? No mínimo, Glosas, nessa abertura generosa, mostra o caminho a ser novamente seguido. Doravante haveria terra fértil?

This post is about issue nº 13 of Glosas, the voice of classical music that is the only one to cover all the countries that share the Portuguese language. This issue is very special, since a large segment is dedicated to the Brazilian composer Gilberto Mendes, who recently passed away. I also comment briefly on the remaining wide variety of topics addressed by the music magazine, in special the tribute paid to the great cellist Madalena Moreira de Sá e Costa celebrating the centennial of her birth.

 

 

A crítica política em versos do jurista Ives Gandra

Esclareço que os termos mais duros,
nos versos relacionados ao poder,
são destinados aos cidadãos já condenados.
Quanto à incompetência governamental,
apenas reitero o que escrevi
em artigos jornalísticos ou pareceres jurídicos.
Ives Gandra da Silva Martins
(Extraída da Breve Introdução à obra)

Petulância e incompetência
Há no governo de sobra,
Seu veneno, na indecência,
Lembra peçonhenta cobra.
(quarteto de 28/02/2015)

Autor de dezenas de livros a abordar áreas do Direito, o notável jurista Ives Gandra tem na poesia, desde a juventude, uma de suas paixões. Traduz-se essa verve poética num também sem número de livros em que privilegia temas essenciais do condicionamento humano, a família, o amor, o cotidiano. Não por outro motivo ocupa cadeira na Academia Paulista de Letras, um de seus orgulhos, a somar-se a tantas outras Academias que honra com seu prestígio.

Como irmão, Ives não deixa, a cada publicação, de me enviar o novel livro com simpática dedicatória ao casal. Foi com prazer que li seu novo diário, que, junto àquele neste espaço resenhado, forma um conjunto invejável (vide blog “Meu Diário em Sonetos”, São Paulo: Pax & Spes, 4 vol., 2010, 21/05/2011). O presente “Meu Diário em Sextetos”, também apresentado com o nome completo do autor, Ives Gandra da Silva Martins, tem características, diria, mais abrangentes (São Paulo: Pax & Spes, 2016). Razões poderiam explicar essa assertiva.

O jurista poeta, aos 81 anos de idade, adentra mais profundamente o benfazejo espírito de síntese, e a forma sexteto, multum in minimo, é resultado de longa decantação. Diria que arabescos são dispensados e Ives penetra na senda estreita da essência essencial. Debruça-se, a interpretar seu entorno – fundamento da existência -, sem deixar, porém, a visão mais hermenêutica – mas em termos acessíveis – dos amplos temas que afligem hoje a imensa maioria dos brasileiros. Nessa altura da vida, livre das amarras que fatalmente levam o profissional a manter convivência “politicamente correta” com adversários tantas vezes ferrenhos durante a fase mais intensa da carreira, Ives sobrevoa e vê a floresta da vida sem concessões. Não que tenha cessado a brilhante carreira como advogado, mas o tempo da dissecação de cada árvore dessa floresta passou e, vê-la do alto, após tantas conquistas, deu-lhe a sabedoria serena.

“Meu Diário em Sextetos” apresenta um sexteto para cada dia do ano e, ao fim de cada mês, duas ou três quadras. Divide-se o livro em três compartimentos preferenciais: a família-religião, o declínio físico e a crítica política. O primeiro, fulcro de uma paz advinda de seu catolicismo convicto e da família como estrutura fundamental ao equilíbrio pleno, tem em sua esposa, Ruth, o epicentro, pois tantos são os sextetos a ela dedicados que se torna nítida a união indelével. O declínio físico, que não altera minimamente o pensar em ebulição e a defesa de princípios que apoia com fervor, está presente em muitos breves poemas. Artrite, artrose, doença autoimune, nada impede que, apesar do sofrimento expresso em versos, o corajoso Ives percorra, ainda hoje, o país inteiro a pregar aquilo que entende justo, correto, honesto e voltado à democracia almejada e ao cidadão comum, sem dele selecionar ideologia. O terceiro compartimento representa a síntese absoluta das centenas e centenas de artigos ou pareceres jurídicos expostos ao longo da vida, com uma ressalva. Se tantas vezes Ives teve de se conter – assim acredito, após leitura de infindável número de artigos publicados na grande mídia através das décadas -, pela tipificação profissional e também pelo coleguismo “diplomático”, não mais o faz nos sextetos. São estes transparentes, cristalinos como a água mais pura. Aponta a corrupção, estilhaça para o leitor a incompetência deste governo que desde 2003 aí permanece. Não poupa Lula, tampouco a criatura Dilma. Uma força moral o conduz ao desvelamento pleno e com que autoridade, diria, vocação libertária!!! Seus sextetos crítico-políticos são o filtramento de tantos de seus pareceres e artigos.

Selecionei muitos deles entre os que se atêm à especificidade crítico-política e à endêmica corrupção que teve acelerada evolução após 2003. Não obedeci à cronologia, pois dia após dia os sextetos foram sendo escritos, muitos pontuais após as desastrosas medidas governamentais de 2015, ano preciso que reúne a criação poética do livro.

Sobre Dilma e Lula, não cessa de apontar a incompetência, a ignorância e até… a loucura.

Disse Dilma que vai bem
Seu governo e que também
Não mudou a sua trilha,
Ou é mentirosa ou cega,
Esta louca que navega
A “Versailles” de Brasília.

O Brasil se desfigura,
Vive só de sinecura
E da esquerda truculenta,
Quanto mais ele vai mal,
Do mundo não tendo aval,
Mais se esconde a “Presidenta”.

Foram seis meses corridos,
Os ânimos revestidos
De repulsa ao mau comando,
Com seu ar tão prepotente
E seu jeito incompetente
Dilma afunda com seu bando.

Dilma vive prepotência
Com enorme incompetência
Em governar o Brasil,
Nunca tanto se roubou,
Mas sempre faz o seu show,
Num de pólvora barril.

Todos querem Dilma fora
E a presidente não cora
Em ver o gesto do povo,
Seu fracasso é retumbante
Mas ela bem segue avante
E quer fracassar de novo.

Mais uma fala na classe,
Falando no negro impasse
Que Dilma pôs o Brasil,
Nunca vi roubarem tanto
Que a todos nós causa espanto,
Descarados, sem ardil.

Se não ladra, foi omissa,
Eis a única premissa
Neste assalto a Petrobras,
Que a Polícia Federal
Descubra a origem do mal
Pra nação estar em paz.

Dilma cai como um foguete,
Foi o Brasil seu joguete
Para afundá-lo de vez.
O povo desesperado
Não sabe para que lado
Caminhar a cada mês.

Dilma não sabe o que diz
Para a nação infeliz
Que seu governo gerou,
Desce por ladeira abaixo,
E seu governo eu bem acho
De ingovernança dá show.

Esta fala com mentira,
que do sério a mim não tira,
desta horrível presidente,
preciso ter muita fé
para que mantenha em pé
a vontade de ir à frente.

Bem afunda meu Brasil
E o povo está num barril
De pólvora a explodir.
É Dilma a mãe da inflação
E seu governo ladrão
Devia daqui partir.

Dom Pedro no dia sete,
Num gesto que se repete,
Proclamou a independência.
Há muito que este país
Passou a ser infeliz
Com Dilma na presidência.

Quanto mais a presidente
Mostra ser incompetente,
Mais luta pelo poder,
Desgraça a nação inteira,
Que segue na sua esteira,
Sem mesmo sobreviver.

Nosso país tem futuro,
Será, sem Dilma, seguro,
Pois haverá governança,
Enquanto a turba do assalto
Viver do roubo bem alto
Não há qualquer esperança.

Dilma e Lula que tristeza,
Afundaram com certeza
O meu Brasil tão querido,
Seus amigos saqueadores
São da pátria traidores
Tirando-lhes sonho e vida.

É Lula um agitador,
Tisna a sua presidência,
Parece mais “batedor”
Do que ter sido “excelência”.

Lula perde as estribeiras
Sente ser lançado às beiras
Por verdades reveladas,
Sendo quase analfabeto
Fez das palestras projeto
Com que recebe boladas.

Quanta verdade escondida
Quanta mentira vertida
Neste mundo tresloucado,
Quando se fala em PT
Tudo que sempre se vê
É o patrimônio roubado.

Este assalto permanente
De um partido indiferente
Ao que é público e privado,
Tornando seu o dinheiro,
Ganho pelo brasileiro,
Tem que ser bem apenado.

Ives Gandra insiste no termo canalha. São vários os sextetos que expõem essa categoria instalada em Brasília:

A canalha de Brasília
Que o fruto do roubo empilha,
Assaltou de todo lado
Nunca tanta podridão
Do Governo em seu porão
Foi ao povo desventrado.

O poder sempre me enerva,
É sempre a mesma caterva
Que o mantém com suas tralhas,
Os poucos de bons princípios
Desabam nos precipícios
Derrotados por canalhas.

Quanto mais vejo a canalha,
Que o Brasil tanto atrapalha,
Empoleirada em Brasília,
Eu continuo a gritar,
Com outros, para levar
O país a boa trilha.

As vezes tenho vontade.
Pois parece-me verdade
Dizer o que o povo espalha,
O poder vive do achaque,
Que ganha maior destaque,
Quanto mais se faz canalha.

O saque da canalhada,
Que jamais teve parada
Liquidou o meu Brasil,
Muitos estão na cadeia,
Outros tecem sua teia
Na busca de um bom ardil.

Em Curitiba falei,
Aborrecido com lei
Escrita pelo Supremo.
São bandidos, são canalhas
Os governantes que as tralhas
Põem no povo em peso extremo.

Sobre o Fisco e o STF:

Um difícil parecer
Eu principio a escrever
Sobre o Fisco sem moral.
Tais horríveis publicanos
Ao mundo só causam danos,
Pois dedicados ao mal.

“Longa manus”, o Supremo
Transforma seu ato extremo
Esteira do Executivo,
Se o Governo faz apelo
Nunca decide, em seu zelo,
De ser um mero adesivo.

Não poucas vezes o jurista poeta está a apontar a podridão governamental instaurada, a mentira deslavada, o inchaço da máquina pública e a corrupção à solta, endêmica, mas que teve aceleração progressiva a partir de 2003:

Todo o excesso tributário
Tem sempre um destinatário
Sustentar corrupção
E quem quer se aboletar
Sem precisar trabalhar
Nos cabides da nação.

A podridão cada dia
Tira do povo a alegria
Quanto mais é revelada.
O retrato faz-se mórbido
Pois este governo sórdido
Finge não saber de nada.

Da algibeira sempre tira
O governo uma mentira
Para o seu povo enganar.
Do roubo nada sabia,
Apesar de cada dia,
O roubo solto deixar.

Cada dia um novo saque
Merece em jornais destaque
Deste Governo malandro,
O mar de lama é tamanho,
Que não me parece estranho,
Nele descer de escafandro.

Quando vejo meu país,
Triste, abatido e infeliz
E os governantes felizes
Dá vontade de gritar
E toda a lama esfregar
Na ponta de seus narizes.

São a mentira e a promessa
Para a qual jamais há pressa,
As armas dos governantes.
Nada fazendo de novo,
Sempre sufocam o povo
Muito mais que meliantes.

Todos amigos do rei
São mais de cem mil, eu sei,
Convidados sem concurso.
Obama tem quatro mil.
É que no pobre Brasil
O roubo está sempre em curso.

Ter poder pelo poder
Mesmo sem o merecer,
É próprio do governante.
Mandar tem suas delícias,
No peculato as premissas,
O que o torna delirante.

Quanto mais podre o poder
Mais busca se defender,
Negando o mal praticado.
Ataca os acusadores
Os tornando “mal feitores”,
Pelo crime demonstrado.

Faz-se o governo malandro
E nem mesmo de escafandro
Se desce ao mar de sujeira,
Precisamos nos livrar
Desta podridão sem par
Cortando-lhe pela beira.

República e monarquia
Se comparo dia a dia,
A República falhou.
O Brasil em sobressalto
Tem a moral no asfalto,
Onde a lama é que dá show.

E em nostálgica esperança:

Apesar da incompetência
De um governo cuja essência
Foi o roubo sem limites,
Eu creio no meu Brasil
Que sob um céu cor de anil
Ao futuro faz convites.

Para o leitor de meu blog, diria que essa coleção de sextetos, a acentuar o desalento do jurista Ives Gandra, tem, como belo contraponto, a família. Evidencia nesse segmento o caráter impoluto do Homem, a dimensionar ainda mais, todas as críticas aos desvarios dos últimos desastrados governos.

My eldest brother, the prominent Brazilian jurist Ives Gandra, is also a poet with a significant number of poetry books published. The last one, Meu Diário em Sextetos (My Diary in Sestets), comprises 365 poems in sestet form, one for each day of 2015. It may be divided into three sections: family/religion, physical decline and the Brazilian political crisis. In the last one, he touches the weak spots and, without constraints, denounces the corruption, incompetence, ignorance and cynicism of the current government. I selected for this week’s post some of such verses that fulminate against political chicanery.

 

 

 

 

t.

O autor se pronuncia após resenha

Le premier qui dit la vérité doit être exécuté.
Guy Béart (1930-2015)
(Canção ‘La vérité’)

Depois da minha resenha de “Bien Faire et Laisser Blaire”, de François Servenière, recebi mensagem do autor que tem muito interesse, pois algumas outras interpretações de seu livro enriquecem o conteúdo já explicitado.

Escreve Servenière:

“Qual a razão de ter apreciado a crítica que o amigo fez de meu livro em seu blog? Pelo fato de que traduz a realidade de meu texto. Sim, meu livro tem segmentos extremos, mas nossa realidade mundial, europeia e humana atual é também extrema. Busquei apenas as causas, sem preocupação em tornar a publicação uma enciclopédia ou uma tese. Tão somente uma reflexão global, que se apoia sobre o real nessa minha faixa etária após o cinquentenário.

Não se trata de uma análise dos últimos quinze dias, mas sim uma reflexão que começou a ser delineada há 15 anos, a partir de um acervo de informações e debruçamentos acumulados em 30 anos. Meu texto pode desagradar e cada um fará seu julgamento. Quando eu falo da idiotice, não tenho ilusões, pois poderei ser alvo de críticas, como todo mundo, aliás.

A sua resenha de ‘Bien Faire Laisser Braire’ (‘Fazer bem feito e deixar ladrar ou zurrar’) está universitariamente exata. Você soube extrair as paixões existentes no livro. Qual a razão de entendermos formidáveis os livros dos grandes autores do passado, Shakespeare, Voltaire, La Fontaine, Goethe, Kant, Cervantes… (lista imensa). Por uma razão apenas: eles não mentiram sobre suas épocas. São analistas lúcidos e cruéis. E Deus sabe que correram risco de morrer graças aos seus testemunhos – ‘E sei que ela gira’ (Galileu) -. A verdade contida em suas revelações nunca agradaram a monarcas e senhores feudais, às ideologias e às circunstâncias momentâneas, aos interesses e aos lobbies, friso, nunca. Nada de novo sob o sol: no Brasil e na França, ainda vivemos esse drama, malgrado a imprensa dita ‘livre’ (hum, hum)!!! Hoje, os monarcas não matam pela verdade estampada que os desagrada, mas mantêm associações e editam leis para impedir que a verdade chegue ao firmamento.

A sua crítica é formidável, pois você vê meu livro como ele é. Na forma bruta, sem concessão, no limite, sobre a corda esticada, como afirma, se comparado às novas normas do pensamento único, que encolhe o debate à velocidade da luz. Estou a me lembrar da história do repórter ou fotógrafo de guerra. O fotógrafo de guerra tira as fotos, majoritariamente horríveis: massacres, fome, execuções sumárias… Ao voltar para casa, colocas as imagens no computador sobre photoshop para os profissionais contemporâneos. Que pensaríamos nós se essas fotos fossem retocadas para serem adaptadas para o público, para o editor, etc…, pelo dinheiro tão somente? Diríamos que ele não teria feito seu trabalho. Sinto que fiz meu trabalho.

Procurei, logicamente através de meu prisma, traduzir tudo aquilo que senti e vivi desde minhas origens. Tentei destruir nessas crônicas tudo que pudesse – programações mentais de educação e do meio social de origem cristã, da direita e da esquerda de um cristianismo por vezes comunista, rural, comercial, artístico, universitário e também voltado à medicina – alterar a crua visão da verdade e a leitura de nossa conjuntura. Reli o texto ao menos 300 vezes. Consegui, a partir de uma análise de vários anos, liberta-me daquilo que pudesse sugerir a subjetividade em detrimento do essencial, a resultar portanto a transparência da objetividade. Daí ter inserido cifras, fatos e consequências múltiplas em tantas áreas (capítulos X, XI, XV, XX). Busquei sempre colocar-me na posição de um extraterrestre que, ao chegar à Terra, descobrisse a civilização humana, a criticá-la sem piedade nem afeto, sem conluio de qualquer espécie e respeito pelas suscetibilidades individuais e coletivas. Quis sempre guardar esse olhar e afrontar o horror, mesmo que essa atitude pudesse desagradar minha genealogia, meus antepassados, pois não deixo de ser devedor de toda a herança que me legaram, sob múltiplas formas. Procurei ver sob essa casca humana protetora que constitui a cultura, o bom, o belo, o justo, deixando de lado toda programação geográfica e histórica. Eis o meu propósito, pois.

Muitas vezes ou sempre, pelo menos assim deveria ser, a bondade se encontra no de profundis de cada um de nós. Vê-se que estamos diante de uma busca incessante sem fronteiras. Meu livro, na realidade, está sempre a transmitir essas ideias. Abandonai vossas barreiras mentais!  Guardai vossas fronteiras e vossas leis para proteger vosso microcosmos como se protege um jardim, que nada mais é do que fruto de um trabalho. Todavia, abri vossos corações à alteridade, viajai! Era um pouco a filosofia do grande Maurice Ravel: “Sou um internacionalista por filosofia, mas nacionalista em arte”.

A realidade que escrevo, vivia-a, mensurei-a, tive pesadelos e noites brancas para chegar a esses mecanismos. Por vezes relâmpagos de lucidez surgiam-me em plena noite, nada de excepcional, aliás, pois ocorre a todo pensador ao refletir sobre seu mundo, sem cessar. Adquiri o hábito há anos de ter meu laptop ao lado de minha cama para apreender ao vivo a reflexão. A construção do livro foi fruto de dezenas de horas de debruçamento, a fim de compreender um mecanismo ou outro, em todos os domínios de minhas fronteiras mentais: filosofia, música, barco, navegação, montanha, ciência, etc… Como na música, foi necessário, sobretudo, não perder o fio condutor da construção mental. Criadores, autores, artistas e tantos outros, que têm a mente em ebulição, conhecem esse fulgor. Pode ocorrer no carro, sob uma ducha, correndo, sobre uma bike elíptica, no sonho, ou, in extremis, na conjunção de tantos fatores. Um espírito em vigília, um espírito que trabalha, fá-lo do primeiro ao último dia, sem cessar… A fadiga nessa busca permanente percebe-se no olhar, nos traços. O repouso basicamente não existe.

Agradeço-lhe pela crítica, longa, pensada, sem derivativos, a afrontar e a descrever meu texto na sua mais profunda autenticidade. Já previa que determinadas passagens pudessem desagradá-lo, você, cristão e humanista. Sabia contudo de sua abertura intelectual maior. Soube você extrair de seu paradigma mental razões para resenhar meu livro em seu aspecto real. Você fala das polêmicas! Bem entendido, tudo é polêmico, do grego antigo πόλεμος, pólemos (guerra). Estamos em guerra contra o obscurantismo e o totalitarismo. E, como descrevi, essa guerra é multiforme, multipolar, a encontrar sua essência nos mesmos erros e nas ideologias que quiseram pela força criar o ‘novo homem’ ou ‘nova humanidade’, os socialismo, comunismo, nacional-socialismo, islam e uma parte das tradições talmúdicas e bíblicas que não foram verdadeiramente pensamentos humanistas na origem. O fundamentalismo e seus efeitos monstruosos têm origem nesses textos. É fato e de fácil comprovação. A guerra evidentemente, contra a civilização no sentido da civilidade. Não entre as civilizações. Guerra entre bárbaros e os civilizados. É tudo.

Nós dois almejamos um só caminho, o da verdade, e ela faz mal. Não seguimos a verdade conjuntural, geográfica ou cultural, religiosa ou doutrinária, mas a verdade humana naquilo que ela tem de mais ontológico, aquela que emana das profundidades do DNA. E a música, nesse sentido amplo, não pode mentir. Ela está fora do campo ideológico, pois a música é ‘DNAdística’, mediúnica. Aqueles que pretenderam colocá-la no campo ideológico no século XX deram-se mal. Recebem no rosto o boomerang (analogia política/música).

Enfim, ontologicamente, essencialmente: por que, qual a razão de aqui estarmos, para qual propósito? Kant, Spinoza, Shakespeare, a Bíblia, o Torá, o Talmud… certamente propõem as chaves. Qual a razão para agirmos assim? Por que fazemos a guerra e a paz e, após 30 anos, refazermos ainda conflitos exterminadores, sempre invocando razões bem próximas, como exponho no subtítulo de meu livro ‘Crônica da água que corre sob as pontes sem jamais retornar acima, exceção graças à evaporação’ (a vida é um ciclo)? Sempre, sempre, malgrado a relatividade de Einstein, as mesmas causas produzem desgraçadamente os mesmos efeitos. O século XX sofreu com a sua descoberta e com sua consequência filosófica, o relativismo. Tudo passaria doravante a ser relativo e nada mais teria o valor real, diria, batalha de cínicos! Tentei provar que todas essas controvérsias eram falsas, apesar da justeza teórica sobre pontos precisos. Vivemos, mesmo que seja em forma de ondas ou de influências macro/microscópicas ou nanoscópicas, realidades. Os músicos integram essa certeza desde o nascimento da música” (tradução: JEM).

Servenière finaliza a enviar-me inúmeros aforismos pertinentes à desavença, à guerra, à discórdia, à leitura preconceituosa. Mencionaria o primeiro, bem apropriado ao conteúdo de seu livro e determinadas interpretações que dele deverão advir: “Quando o sábio aponta para a lua, o idiota olha seu dedo” (provérbio chinês).

In last week’s post I published an appreciation of François Servenière’s book “Bien Faire et Laisser Blaire”. Today I publish the author’s comments on my review, suggesting other interpretations that only enrich the understanding of his book.