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Livro recém lançado de François Servenière

Mais o mal existe no mundo,
mais há razões para fazer o belo.
É mais difícil, sem dúvida, mas também mais necessário.
Andreï Tarkovsky

Inúmeras vezes tive o prazer de inserir em meus Ecos, posts imediatos que testemunham apreciações de leitores ao precedente, considerações do compositor e pensador francês François Servenière. A guarida aos seus textos tem sido entusiasmante, pois propicia, aos que  generosamente seguem os blogs semanais, apreenderem parcela essencial de seu pensamento multidirecionado e competente.

“Bien Faire et Laisser Braire” (Blangy-le Chatêau: Esolem, 2015) desperta curiosidade a partir do título e também do subtítulo, “Crônica da água que corre sob as pontes sem jamais retornar rio acima, exceção à nascente mercê da evaporação”. Em tradução, poder-se-ia ter “Fazer bem feito e deixar zurrar ou ladrar” ou simplesmente “Os cães ladram e a caravana passa”. Somos conduzidos de muitos temas diversificados à polêmica que enriquece, aos conceitos originais, à convicção sem arrependimento de Servenière, à qualidade singular de seu pensamento que, corajoso, não hesita em buscar uma verdade na qual ele acredita. O autor reuniu uma série de crônicas que se estendem de 2000 ao presente. Publicados em seu blog, ou especialmente já a pensar na edição do livro. O universo  literário “politicamente correto”, em que tantos se abrigam a fim de evitar interpretações que possam ferir a aceitação mediática e, consequentemente, pública, inexiste para Servenière. Será possível entender que alguns capítulos atinjam o limite da corda esticada, tão veementemente o autor se empenha em expor seu pensamento. Não há condicional, e as ideias são expostas sem meio termo. Acredito que estar distante de Paris, centro em que fez sua formação musical e do pensar, mas que voluntariamente foi descartado para um “refúgio” na Normandia, tenha conduzido Servenière à liberdade de expressão, sem amarras que pudessem interferir. A postura independente não significa alienação. O autor está diariamente conectado com o mundo, e posso testemunhar a quantidade de informações que Servenière me envia sobre temas que nos são caros, a preponderar a Música e seus caminhos, que devem ser compreendidos, tantas vezes, sans issue.

“Bien Faire et Laisser Braire” divide-se em XXI capítulos em que não poucas vezes conceitos anteriormente apresentados ressurgem metamorforseados, mas que evidenciam não apenas o estilo de Servenière, mas sua necessidade de reforçar ou alargar temas que o interessam. Ajustam-se essas considerações aos capítulos que desfilam. Arte, política, música como essencialidade, religião e fanatismo, ciência, comentários de artigos ou resposta a um e-mail curto e desairoso recebido compõem o livro em questão.

Após breve narração das origens da família, da infância como observador atento, já no segundo capítulo Servenière apresenta uma espécie de “confissão”, portal que abre seu entendimento da música. Expô-lo torna-se necessário para a compreensão do todo:

“No meu trabalho como compositor destruo e reciclo. Mas, sobretudo, eu quero reconstruir, reassociar, mostrar de novo o contraste e a diversidade. Simplesmente pelo fato de que correspondem à realidade. Abandonando – evitando – as ‘igrejinhas’, as posições e o estatuário ideológico, fontes de bloqueios e retenções que produzem, salvo raras exceções, obras fechadas, estanques e indigestas, encontro-me no meio e não sou senão um filtro, um caminhante… testemunha que vibra no uníssono de todas as ondas. Essa atitude mental é não apenas uma necessidade psicológica, fisiológica, mas igualmente filosófica.

Tive a chance de encontrar na música o ferramental através do qual minha vida expressaria melhor essa simplicidade. Senti-me desde logo como o peixe no seu habitat. Descobri o significado de minha vida”.

As posições de Servenière são claras e polêmicas. Ele, que conheceu e dominou vários processos técnicos da música contemporânea e está a par das tendências multi direcionadas, não apenas da música instrumental, mas também da eletrônica, perceberia a tempo o impasse da criação ou, ao menos, a aparência da inventiva. Distanciou-se, como outrora fizera o primeiro compositor francês a compor música dodecafônica em França, Sérgio Nigg (1924-2008). Servenière teria chegado ao impasse: compor para estar no “modismo” ou escrever música a seguir seu de profundis? Optou por este caminho. Sua obra bem vasta, a abranger tantos gêneros, é testemunha de uma escrita precisa e de comunicabilidade singular. Teve tributo a pagar e disso tem plena consciência. Longe das “panelinhas” contemporâneas, Servenière revisitou formas e gêneros do passado como ferramentas para sua criação. O desprezo que “capitães” da música contemporânea de laboratório teriam pelas suas criações foi uma das causas de retirar-se para a Normandia e continuar a criar música a fazer sentido e que chega às mentes sensíveis e ao coração. Uma sua frase é incisiva: “A música contemporânea detesta a vida, é uma triste realidade”. Não se tome à risca a afirmação, pois há música contemporânea e música contemporânea. Aquela a que Servenière se refere seria a pertencente às “igrejinhas”, termo que se poderia entender como grupos fechados, donos da verdade para os quais o não respeito a credos outros determina o anátema definitivo. Menciona jornalista dos anos 1990 que, ao perguntar a músicos do EIC (Ensemble Intercontemporain – IRCAM) “qual a música que eles escutavam à noite de volta à casa ‘para puro prazer’, ouviu respostas unânimes: jazz“. Em outro segmento, expressa posição a mostrar origens precisas: “A música clássica, romântica, moderna – toda a que precede 1945 e continuou sob a forma neo, tudo o que consonante, dissonante, modal, tonal, atonal, desestruturada ou não, mas audível e sobretudo celeiro de emoções, seja ela organizada sobre papel, outro meio qualquer ou computador e interpretada por instrumentistas ou não – é uma linguagem universal que atinge os espíritos e os corações de maneira profunda. Eu continuarei a denominá-la música, aliás como todo mundo”. O posicionamento de Servenière me fez lembrar célebre frase de Arnold Schönberg (1874-1951): “há muita boa música que pode ser escrita em Dó Maior”. Também lembra-me frase de um compositor pátrio na juventude da idade madura que, em entrevista a uma revista especializada, afirmou que suas obras e de outros compositores de sua geração – pertencentes às “igrejinhas” – estavam destinadas a guetos. É Servenière que observa ironicamente “Dancem agora! Esqueci, estou desolado: a música contemporânea não se dança, não se canta, não se escuta, ela se pensa, unicamente”. Entenda-se, no sentido da natural e ampla aceitação.

Outro segmento que prende a atenção do leitor está relacionado à polêmica, tão a gosto de pensadores franceses. Servenière não deixa de colocar seu posicionamento quando entende necessário fazê-lo, mesmo que opiniões suas possam causar desavenças. Após a leitura de entrevista do baterista e escritor Marc Cerrone, na qual o compositor diz que a criação não tem tanta necessidade do talento, Servenière pormenoriza a crítica. Cerrone, autor de composições repetitivas, minimalistas, mas que, segundo Servenière, são desprovidas da aura, recebe por parte do autor de “Bien Faire… ” observações argutas. “Adoro a música repetitiva ou cíclica. Compus algumas. Porém, não confundo Marc Cerrone nem um techno, com Steve Reich ou György Ligeti. Desgraçadamente, indigência criativa ou de ideias e comércio fazem hoje um bom casamento. Quando não com a utilização de produtos falsificados”, afirma Servenière.

Ao receber e-mail de um cidadão a dizer “você é um idiota patético! Tente ter mais cultura e consciência política”, em seguida a um seu texto incluso em “Bien Faire… ” sob o título Paroles, Objets et Art Contemporains, Servenière responde ao ora denominado pessoa progressista da música contemporânea, a ratificar seu posicionamento e a dizer que recebeu muitos “falsos e-mails que se aparentavam à ‘Arte da Guerra’ de Sun Tzu, que recomenda desestabilizar e enfraquecer o adversário através do perpétuo assédio moral e físico”. Servenière observa procedimentos da arte contemporânea, música inclusa, praticados pelas esquerdas. É incisivo: “Intelectual de esquerda é redundância! Alguns pretenderiam maliciosamente que a expressão está a caminho de se tornar um paradoxo… Um intelectual é forçosamente de esquerda, vejamos! Deduz-se então, implicitamente, que um homem da direita que pretenda refletir com a sua cabeça não pode racionalmente ser considerado intelectual. Ele teria de utilizar obrigatoriamente um outro órgão… Estamos em França, merde! Aqui, pois, ‘ter uma consciência política’ ou ‘estar politicamente engajado’ significa ‘ser de esquerda’. Ponto final”. Sobre o tema, já a excluir nominalmente o cidadão do e-mail ofensivo, Servenière se detém em outro capítulo “O idiota e seu domínio de competência, a idiotice”.

“Bien Faire et Laisser Blaire” tem vários segmentos a abordar a crise global, mormente a francesa, a problemática imigratória e a impossibilidade de várias etnias já existentes em França “suportarem” o país e a cultura que as abrigaram. É crítico severo às posições do governo socialista, hoje no poder, nele vendo aberturas que poderão levar ao impasse. Nos capítulos “O obscurantismo” e “Como lutar contra o obscurantismo”, seu pensamento não deixa margens a dúvidas quanto à sua coerência, individual, mas também à de milhões de franceses.

No capítulo “Épilogue”, Servenière argumenta sobre várias áreas da cultura, sempre de maneira incondicional. Após breves considerações sobre música e criação, política, ciência, religião e economia, tantas vezes a suscitarem polêmica, finaliza com certa esperança: “É necessário saber que a total liberdade tem um preço, a solidão. Poucos são capazes de assumi-la (…) Malgrado tudo, continuemos a fazer o que é melhor, deixemos ladrar a matilha, caminhemos para vislumbrar além do horizonte, aprendamos, escutemos, viajemos… pois são os únicos meios provados para evitarmos morrer idiotas. Logicamente os cães continuarão a ladrar… Deixemo-los ladrar, mas evitemos beber na mesma fonte”.

O capítulo XII é dedicado a um concerto “Concert à l’Atelier”. Refere-se ao recital que dei aos 29 de Janeiro de 2013 na Salle Godard, em Paris, quando apresentei, extraprograma, o Étude Cosmique Sinergie, de sua autoria. Fico-lhe grato pela inserção.

“Bien Faire et Laisser Braire” pode ser adquirido através do site www.amazon.fr . Recomendo-o vivamente.

This post is an appreciation of the book “Bien Faire et Laisser Braire” (in a totally free translation, “Dogs Bark and the Caravan Moves on”), chronicles written by the French composer François Servenière, in which, after a brief introduction shedding lights on his childhood and family origins, he addresses a myriad of subjects, such as arts, politics, religion, fanaticism, sciences and, most of all, music. Controversial as he may be, sometimes proposing radical solutions, Servenière concludes with at least a thread of hope, stating that, as a lone fighter, one has to go on doing its best whatever the cost.

 

 

 

Tem-se que Preservar o Espírito de Congraçamento

E agora, no coração da noite como um vigia,
ele descobre que ela mostra o homem:
apelos, luzes, inquietude.
Essa simples estrela na sombra:
o isolamento de uma casa. Uma luz se apaga:
o lar se fecha sobre seu amor.
Antoine de Saint-Exupéry
(Vol de Nuit)

Dá-me prazer inserir no blog um conto de Natal nesse período onde almejamos a paz, a reunião de parentes e amigos no lar aconchegante, o destino mais ameno dos infortunados, o fim do pesadelo político que nos assola. Como bálsamo para a cristandade, o Natal é a mais bela das datas, pois evoca o nascimento de Cristo. Contos de D. Henrique Golland Trindade, arcebispo de Botucatu, e de Idalete Giga, especialmente para o blog, enriqueceram posts natalinos anteriores.

Nós elegemos nossos autores e, à medida que o acúmulo dos anos nos dá a possibilidade do conhecimento de tantas obras do passado e recentes, a aventura extraordinária da leitura mostra-se uma das mais apaixonantes de nossas vidas. Ler e reter para sempre a essência dos livros escolhidos. Das muitas centenas de livros percorridos intensa e inteiramente pelo olhar e assimilados pela mente, um número determinado de compêndios constitui nossa biblioteca essencial.

Ao longo dos anos, quantos não foram os blogs nos quais a obra de Saint-Exupéry (1900-1944) foi mencionada, tanto na interpretação de segmentos como no empréstimo de sábias epígrafes extraídas da monumental Citadelle, um dos livros referenciais de minha vida? Tenho-o à minha cabeceira, pois o fervor está presente em toda a obra, os caminhos que conduzem o homem a Deus e os valores essenciais do viver, como família, relação humana, atividade profissional e, a pairar sobre tópicos fundamentais, a responsabilidade. Não são poucos os que consideram Citadelle como a bíblia do século XX.

Saint-Exupéry em seus escritos busca menos a contundência literária e mais o aprofundamento no anseio moral. Literatura como instrumento para aperfeiçoar a civilização. Preferencia personagens atemporais. Preocupa-o o destino humano e o condicionamento do homem, como bem pondera sua irmã, Simone de Saint-Exupéry. Tive o maior privilégio de, ao correr de ano e meio, durante meus estudos em Paris, tê-la ouvido na leitura dos textos esparsos de Citadelle, que Simone organizara com outros especialistas. No apartamento de seu primo-irmão, o Baron André de Fonscolombe, todas as quartas-feiras à noite, Simone apresentava gravações feitas pelo irmão e que seriam datilografadas pela secretária do escritor-piloto nos dias subsequentes. Foram cerca de 1.000 páginas reestudadas, que deveriam compor Citadelle, que viria a público em edição primorosa (1959) após a primeira, de 1948. Trabalho hercúleo dos organizadores das oeuvres de Saint-Exupéry.

Na narrativa, constante do capítulo CXXII de Citadelle, o Natal é evocado. A pena sensível, lírica e onírica do autor capta a essência essencial da noite mágica. Há muito da parábola nas narrativas de Saint-Exupéry.  No breve e profundo relato da noite de maravilhamento que a cristandade cultua, o autor penetra num universo metafórico que lhe é sempre caro. Como mestre de um Império atemporal, herança de seu pai, Saint-Exupéry, pela voz do herdeiro imperial, escreve sobre um de seus soldados, a buscar motivação para morrer.

Eis o pungente segmento  referente ao Natal, encontrável no capítulo mencionado:

“Estou a me lembrar do soldado que desejava morrer, pois apreendera, através do canto de uma lenda nórdica que lhe vinha vagamente à memória, que em determinada noite do ano os habitantes caminham sobre a neve fofa, sob o céu pleno de estrelas, em direção às casas de madeira iluminadas. E se, após o percurso, entrares em uma sala plena de luz e colares o rosto nos vidros das janelas, saberás que a claridade vem de uma árvore. E te dirão que é uma noite que tem o gosto de brinquedos de madeira envernizada e o aroma de vela acesa. Dir-te-ão, igualmente, que os semblantes dessa noite são extraordinários. Todos esses rostos estão à espera de um milagre. E verás que todos os velhos, que retêm a respiração e fixam os olhos nas crianças, estão sujeitos ao acelerar do coração. Algo intangível e de valor inestimável percebe-se no olhar dessas crianças. Porque durante todo o ano tu edificaste sonhos, através da espera e mais, pelas narrativas e promessas, mormente tuas árias ouvidas e tuas alusões secretas e a imensidão de teu amor. E agora, tu vais retirar da árvore um objeto simples qualquer de madeira envernizada e dá-lo ao pequenino, segundo a tradição de teu cerimonial. E eis que o instante chega. Respiração suspensa de todos. E a criança tem as pálpebras semi fechadas, pois foi acordada abruptamente para o evento. E ela está lá, sobre teus joelhos com aquele odor típico de criança que acaba de ser acordada, mas que, ao te abraçar, emana algo que é fonte para o coração e sacia a tua sede. (O maior tédio das crianças é verem-se despojadas de uma fonte que lhes é inerente, mas para elas desconhecida, embora todos os que envelheceram no coração nela venham beber, a fim de reconquistar a mocidade perdida). Há uma pausa para os beijos trocados. A criança olha a árvore e tu fixas o olhar nesse seu gesto. Porque se trata de colher uma surpresa encantada, como uma flor rara que nascesse uma vez ao ano na neve.

És tu um privilegiado ao observares uma certa cor de olhos que se tornam sombrios, pois a criança abraça seu tesouro, para toda ela se iluminar no seu interior tão logo o presente é tocado, como as anêmonas- do-mar. E ela fugiria se tu a deixasses partir. E não há qualquer esperança de a alcançar. Não lhe fales, ela não mais ouve.

Essa atitude é passageira e mais leve do que uma nuvem sobre o campo e não venhas tu me dizer que ela não tem peso. Mesmo que ela fosse única recompensa de teu ano e da transpiração de teu trabalho e de tua perna perdida na guerra, e de tuas noites de meditação e afrontas e de sofrimentos suportados, eis que ela te pagaria e te maravilharia, pois tu ganhas com essa troca. Porque não há razão para raciocinar sobre o amor pela propriedade, sobre o silêncio do templo, tampouco sobre este instante incomparável.

O certo é que meu soldado queria morrer. Ele que vivera, que sob o sol e sobre a areia não conhecera qualquer árvore de luz e vagamente sabia a direção do Norte, mas ouvira dizer que determinada conquista em algum lugar pusera em risco um certo aroma de vela e uma certa cor dos olhos e que os poemas lhe chegaram tenuemente, como o vento traz o odor das ilhas. Não conheço uma razão melhor para morrer”. (tradução: JEM).

A tradução livre na segunda pessoa, a mais adequada no caso, teve que apreender “possíveis” intenções do autor, pois não raras vezes há que se prospectar num de profundis pleno de mistérios, onde a metáfora sugere interpretações várias. Se difícil foi quando da primeira edição francesa em 1948, maior aprofundamento teve a edição de 1959 (A. de Saint-Exupéry. Oeuvres. Paris, Bibliothèque de la Pleiade). A edição portuguesa data de 1996 (Cidadela. Lisboa, Editorial Presença. Prefácio e tradução: Ruy Belo).

Finalizando incluo poema recebido nesses dias, de minha dileta amiga e gregorianista portuguesa Idalete Giga. Escreveu após ver na internet foto recente de crianças em “trabalho escravo” na emergente Índia, como afirma.

Presentes de Natal

Quero pegar ao colo estas crianças
e segredar baixinho ao seu ouvido:
não chorem mais meus pequeninos
Venham comigo
Tenho uma Escola-Mágica só para vós
Vamos brincar
à cabra-cega
à macaca
às escondidas
ao pião
Vamos fazer balões coloridos
com espuma de sabão
Depois vamos descobrir
o nome das flores
das árvores
dos pássaros
que estão esperando por nós
Corram, corram, corram
Venham comigo
Não tenham medo
Não chorem mais meus pequeninos
Não chorem mais
Não chorem mais

A todos os leitores que me têm prestado generoso estímulo, desejo um Natal pleno de Paz e congraçamento.

On Christmas season, I publish a story extracted from Citadelle, by Saint-Exupéry, my bedside book. With delicacy, lyricism and dreamlike mood, he captures the magic of Christmas night through metaphors that allow different interpretations. Also included is a poem sent at the very last moment by Idalete Giga ─ a very dear friend, teacher and Gregorianist living in Portugal: simple lines dedicated to children who go through pain and suffering in the world.
To all my readers, I wish a season filled with beautiful moments and cherished memories.

 

 

 


Lembranças que Permanecem

Aos domingos,
folga de meu pai,
pegávamos o bonde para visitar a tia Olímpia,
irmã e confidente de minha mãe,
em Santana.
Drauzio Varella

Minha neta Ana Clara (23) leu a resenha que fiz do livro “Correr”, de Drauzio Varella (vide blog 03/10/2015). Gostou imenso e teceu comentários. Ana Clara já participou de duas corridas com o avô e se prepara para mais uma, agora com a irmã, Maria Teresa (17). Uma alegria só. Ao comentar o blog, lembrou-se de um livro que apreciou, quando ainda criança, escrito por Drauzio Varella, “Nas Ruas do Brás” (São Paulo, Companhia das Letrinhas – Coleção Memória e História, 2000). Destinado, em princípio, aos miúdos, o livrinho está fartamente ilustrado com desenhos de Maria Eugênia, coloridos e apropriados a cada situação, além de fotos do período, a enriquecer as curtas e deliciosas narrativas. Impressiona vivamente a lembrança fotográfica do autor ao rememorar episódios tão distantes, quão mais verdadeiros se, ao puxarmos por nossa própria memória, fatos bem comuns àqueles que viveram esse período tão especial não pululassem também.

“Nas Ruas do Brás” evoca a infância vivida em bairro operário em que a fábrica se apresenta como um epicentro. Pais, tios, amigos têm suas vidas ou ligadas a uma fábrica ou a alguma atividade de serviço autônomo. Imigrantes italianos ou espanhóis são revividos por Varella em seus hábitos trazidos nessa imigração que se fez necessária. Vivendo modestamente em habitações coletivas, pois geralmente um só banheiro servia a várias famílias. Isso trazia uma série de conflitos cotidianos entre as muitas mães que habitavam espaços restritos, mas tudo, segundo o autor, tinha felizmente chama efêmera e a paz se restabelecia.

O olhar daquele menino que participou de tantas molequices, que corria atrás de balões durante as festividades juninas, que brigava, apesar da pouca idade, com meninos maiores, que estudava, mas sempre atento ao cotidiano, fica com clareza, humor e precisão fixado nessas suas histórias em idade edipiana. Fez-me lembrar leituras percorridas nos meus poucos anos e que me marcaram: “Cuore”, de Edmondo de Amicis (1846-1908),  “Os Meninos da Rua Paula”, de Ferenc Molnár (1878-1952) e “Cazuza”, de Viriato Corrêa (1884-1967). “Nas Ruas do Brás” é narrativa de vida, os três outros romances, de formação com viés memorialista.

Estive a me lembrar, durante a companhia do pueril e agradável “livrinho” de Drauzio Varella, da minha própria infância. Quanta proximidade com a essência daqueles tempos, apesar de meus cinco anos a mais, num período em que as transformações tendiam a se acelerar a cada ano, como de fato aconteceu. As nítidas diferenças de infância vivida em bairro eminentemente operário, onde as dificuldades para a sobrevivência digna eram maiores do que aquelas da Vila Mariana, onde cresci, não descartam tantas identidades características da meninice. Ficaram as lembranças das brincadeiras bem próximas àquelas narradas por Varella, como correr atrás de balões que despencavam dos céus; “pescar” com peneira pequeninos guarus que existiam num córrego límpido próximo à av. Rodrigues Alves, destinados a povoar dois aquários de cimento que tínhamos em casa, assim como pegar sapos, que meu irmão Ives e seu colega Armando levavam para o laboratório de sua escola, Colégio Bandeirantes – o portador de batráquio ou outro pequeno animal para dissecação tinha nota alta garantida! -; fazer pipas triangulares ou hexagonais; rodar pião; descer a av. Rodrigues Alves com carrinho rolimã no asfalto que existia na trilha dos bondes – certo dia, à altura da Rua Rio Grande, bati num poste, daí resultando corte profundo na “canela”, escoriações, hematomas e, pior, a proibição paterna para que jamais voltasse à prática, não sem antes ter recebido boas e doídas chineladas -; pular o muro para jogar bola em casa dos Bogossians; praticar pingue-pongue em casa com meus irmãos e jogo de dominó com o pai. Todas, distrações que se davam nos intervalos dos inflexíveis horários de estudo de piano aos quais meu irmão João Carlos e eu nos dedicávamos com afinco. Lembro-me de ter sempre acompanhado minha mãe à feira livre no Ibirapuera (hoje av. Dante Pazzanese), puxando o carrinho de madeira, daí minha frequência extremamente prazerosa às feiras-livres de sábado na minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo. Reminiscência mais antiga vem das filas diárias a que minha mãe e os quatro filhos se submetiam para a cota de pão de milho em tempos dos conflitos na Europa. Vivíamos a era do rádio e me recordo do alto falante do quintal de casa anunciar, aos seis de Junho de 1944, a invasão da Normandia pelas tropas aliadas durante a IIª Grande Guerra. Estava eu para completar seis anos dias após. Todos os vizinhos correram para a rua, saudando o acontecimento. Servindo-me de uma frase de Varella, diria que também “aos domingos, pegávamos o bonde para visitar” nossos avós, em Santo Amaro. A foto a estampar caminhão que entregava leite em frascos de vidro era também comum em minha infância, assim como habitual em meu bairro a chegada, uma vez  por semana, de cabras leiteiras, anunciadas, ao descerem a av. Rodrigues Alves, graças aos sinos pendurados aos pescoços. O lixo era recolhido por grandes carroções puxados a cavalo. Nessas comparações, que forçosamente surgiram durante a aprazível leitura, só não havia esse total congraçamento entre a criançada, pois no Brás, segundo Varella, as habitações proporcionavam esse salutar convívio, o que era mais difícil em meu bairro, pois muitas residências eram construídas em terrenos espaçosos e a avenida não possibilitava peraltices da criançada. Diria que o relacionamento era mais íntimo, familiar.

O que torna o relato de Drauzio Varella tão encantador é o fato de que em todos os breves capítulos há a presença de algumas argutas observações, normalmente esquecidas graças ao acontecimento efêmero, mas que ficaram presentes na memória do médico oncologista. Reteve lembranças dessas casas privadas de conforto e seus corredores escuros, pormenorizando os espaços partilhados que por vezes levavam às desavenças, reparadas logo em seguida; a amizade com miúdos da sua idade que participavam das mesmas peraltices; a gastronomia que imigrantes e seus descendentes mantinham como elo às terras distantes e tantas outras situações de interesse, inclusive para a compreensão de período crucial da cidade. Acompanha com ternura e inocência o longo definhar de sua mãe, que morreria precocemente. Fez-me pensar no relato do grande pianista Wilhelm Kempff (1895-1991) ao viver situação bem próxima, quando da morte de sua avó (Cette Note Grave, Paris, Plon, 1955).

Drauzio Varella deve ter paulatinamente anotado todas as situações por que passou. É comum, mormente sur le tard, uma névoa encobrir a realidade vivida, o que torna relatos suspeitos. A precisão, o pragmatismo e, paradoxalmente, o encantamento que flui das poucas páginas de “Nas Ruas do Brás” testemunham um período histórico da cidade e revelam hábitos, costumes e tradições de um dos mais acarinhados bairros de nossa megalópole. Foi com prazer, curiosidade e inevitáveis comparações que li “Nas Ruas do Brás”, que tão intensa impressão deixou em Ana Clara e em seu avô, que carinhosamente agradece a indicação.

My comments on the book “Pelas Ruas do Brás” (On the Streets of Brás), written by the oncologist Drauzio Varella, in which he recalls delightful moments of his childhood spent in the forties at Brás, a traditional working class district in São Paulo, predominantly inhabited by Italians and their descendants. Revealing habits, traditions and social conditions of a historical period of São Paulo, the author’s remembrances made me feel dominated by emotions, since they reminded me of my own childhood lived in the same city around the same time.

Post Scriptum

Recebi de meu dileto amigo, o musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso, que abrilhantou o ciclo “Viagens e História” promovido pela Unibes Cultural e pelo Consulado Geral de Portugal em São Paulo, a camisa de seu time de eleição em Portugal, Vitória de Guimarães. Tive o prazer de correr com a gloriosa camisa na Corrida Shopping Aricanduva deste último dia 25 de Outubro.