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Sylvain Tesson e Priscilla Telmon em Travessia a Cavalo pela Ásia Central

Segredo do peregrino:
avançar sem ansiedade, mas sem distração,
passos contados, obstinado ao longo do dia,
para vencer consideráveis distâncias.
A estepe desfila lentamente,
cinco ou seis km por hora,
sem que nada rompa a fantástica uniformidade do deserto.
Sylvain Tesson

Foram muitos os livros de Sylvain Tesson resenhados no blog ao longo destes últimos anos. A lista completa pode ser acessada através do link “Livros – Resenhas e Comentários” do menu do blog. Admiro a intrepidez do aventureiro que percorre o planeta a pé, de bicicleta ou a cavalo, trazendo ao leitor um universo tantas vezes inóspito e, para nós, inacessível. O olhar arguto de Tesson, aprimorado com o passar dos anos, encaminha-nos  sempre para leituras novas das paisagens, dos costumes e dos personagens das mais variadas etnias. Esses, Tesson ausculta, capta desalentos e esperanças, entende o sedentarismo ou nomadismo a depender das circunstâncias, é introduzido nos lares singelos e rústicos e retira eflúvios ancestrais, passados através das gerações.

Em Janeiro de 2014 tive a alegria de estar presente – puro acaso – no lançamento de um de seus livros em livraria de arrondissement em Paris (vide: “Considerações sobre o Desbravar – Buscando Responder a Indagações”, 15,02,2014). Um dedo de prosa, autógrafos e vários outros livros na bagagem de volta. Para um autor que esteve tantas vezes frente à possibilidade de morrer, um fato absolutamente do cotidiano quase levou-o à morte. Aos 20 de Agosto, sofre uma queda em Chamonix ao escalar um prédio. Teve comoção cerebral. Permaneceu em coma induzido durante bom período e, segundo um comunicado da família, meses depois Tesson recupera-se: “Suas capacidades intelectuais estão milagrosamente preservadas mas devido aos muitos traumatismos, haverá necessidade de tempo e repouso”. Assim esperam seu familiares e legião de leitores. No vídeo da entrevista que concede à FR1 (20/01/2015), Sylvain Tesson, pleno de lucidez, apresenta contudo sequelas da lamentável queda (http://www.huffingtonpost.fr/2015/01/20/video-philippe-tesson-defendu-par-sylvain-tesson-propos-musulmans_n_6505336.html ).

Em “La Chevauchée des Steppes” (Paris, Robert Laffont, 2001), o escritor viajante percorre com Priscilla Telmon cerca de 3.000km a cavalo pela Ásia Central. Para tanto, adquirem três equinos no Cazaquistão – Ouroz, Boris e Bucéphale – dedicando-lhes o livro. A bela Priscilla Telmon (1975) é jornalista e escritora, viajante de longas distâncias, fotógrafa. Realizou viagem solitária pelo Himalaia em 2003-2004, seguindo as passadas da aventureira Alexandra David-Néel (vide blog, 07/12/20007), e saltou de paraquedas a 10.000m de altura sobre o Everest em 2011.

“La Chevauchée des Steppes” foi realizada entre 1999 e 2000. Trata-se de um dos primeiros livros de Sylvain Tesson (1972) e, para o leitor que tem acompanhado sua trajetória, pode-se sentir o percurso mental do autor, interessado inicialmente também na narração de fatos históricos à medida que espaços são vencidos. E essas narrativas são muitas, sob olhar arguto, a fazer comparações de toda a região em dois períodos decisivos, antes e logo após o regime soviético.

Os 3.000km abrangem uma vasta região que se estende do Cazaquistão, Quirgstão, Tajdiquistão, Uzbequistão, margeia a fronteira do Turcomenistão, prolonga-se pelos desertos uzbeques até o Mar de Aral. Aventura fantástica não desprovida de perigos, pois por várias vezes quase sucumbiram aos assaltos quando das lentas cavalgadas.

A narrativa, por vezes entremeada por escritos de Priscilla Telmon, testemunha a atração pelo desconhecido, a curiosidade em apreender costumes e retirar das mentes das tantas etnias a sabedoria ancestral. Ficaria claro que a divisão territorial empreendida pela União Soviética, com fins “aparentemente” geográficos, trouxe uma série de problemas fronteiriços e escaramuças permanentes entre os habitantes dessas inóspitas regiões. Em todas as obras do autor, quase sempre foi bem recebido pelos citadinos, nômades ou aldeões. Constante.

As tantas intervenções da antiga União Soviética nos recursos hídricos dos vastos territórios teriam sido desastrosas. Com fins unicamente de retirar as riquezas do solo, represas foram feitas sem o respeito criterioso aos recursos naturais e Tesson e Telmon testemunham o desastre de cidades e as consequências de leitos de rios secos, cidades moribundas e a sensível diminuição das águas do Mar de Aral, um dos quatro maiores lagos do planeta há 50 anos, hoje reduzidíssimo (vide ilustração). Um dos rios que o abastece, o Amou-Daria, que foi fonte de sobrevivência para os países em questão, está em situação calamitosa, diminuído, poluído. Tem interesse o relato de Tesson em terras usbeques ao abordar o interesse da ex União Soviética em transformar as planícies do Uzbequistão em celeiro de algodão: “O Amou-Daria e o Syr-Daria, dois rios tributários do Mar de Aral, converteram-se brutalmente em vulgares tubos de irrigação. Bombeiam-se suas águas míticas. A planície foi estriada por canais feitos a céu aberto, alimentados pelos dois cursos de água. O algodão cresce. As cifras incharam. O Aral agoniza, sacrificado sob o altar das estatísticas de produção”. Catástrofe. Mutatis mutandis, não se tenta no Brasil, nessas últimas gestões planaltinas, a transposição do Rio São Francisco, o rio da integração nacional? Obra faraônica com consequências imprevisíveis. Independentemente das chuvas, já houve a diminuição do fluxo de nosso rio mítico. Sob outra égide, o desmatamento da vasta região amazônica, que deveria ter fiscalização plena, está a recrudescer e parte da falta das chuvas, que chegavam também ao sudeste, é devida a essa verdadeira incúria.

À medida que nossos aventureiros atravessam desertos, estepes e adentram cidades e aldeias, relatam o presente e reportam-se ao passado. Os habitantes mais velhos lembram-se de tempos mais venturosos do período da piscicultura ancestral. Será Priscilla Telmon a narrar o resultado das pragas e insetos que quase levaram Tesson à septicemia: “Por força de desafiar de manhã à noite as regras de higiene, dividindo as noites com percevejos nos leitos, mosquitos sanguinários durante o dia, pulgas e outros mais insetos, foi vítima de uma infecção nos canais linfáticos. De um minúsculo abscesso situado sob o punho surgiram longas manchas vermelhas, que subiram até os ombros. Os gânglios foram atingidos. Mais alguns dias e teríamos a septicemia. Essa só não chegou graças à dose cavalar de antibióticos, mais violenta do que meses de cavalgada”.

O longo convívio serviu para leitura de um sem número de livros que os dois aventureiros levaram. O cotejamento história-atualidade reveste-se de charme, pois rememoram desde Genghis Khan aos séculos mais recentes e sentem um quase prazer de pisar solo anteriormente frequentado por cavaleiros e guerreiros. Comentam o islamismo, descrevem mesquitas e minaretes. Encantam-se com Samarcanda, a segunda cidade uzbeque. Pormenorizam-na, pois fazia parte da rota da seda entre China e Europa. Extasiam-se com Bukhara, essa cidade murada do século X, sua mesquita mor e seu alto minarete de Kalian (50m). De lá, o khan ordenava a queda dos condenados à morte. Tem certa dose de humor negro o relato de Tesson, que subiu ao topo com Priscilla “Era a última visão que os condenados à morte levavam antes da queda, empurrados pelo carrasco. Derradeira graça concedida pelo khan: oferecia-lhes um último olhar sobre as belezas do mundo”.

Melancólica a chegada ao Mar de Aral. Todo o projeto a visar ao final esse mar que está a morrer. Tesson comenta “Na cabeceira do mar nós choramos, pois o mar está morto e nossa viagem chega ao fim”. Doados ao Museu de Artes Savitsky, em Noukus, Uzbequistão, os fiéis cavalos Boris, Ouroz e Bucéphale ganham a liberdade no dia seguinte, não sem emoção de Sylvain e Priscilla.

Sedimentavam-se em 2.000 tantos outros projetos que levariam Sylvain Tesson a percorrer a pé, a cavalo ou de bicicleta vasta região do planeta, traduzidos em instigantes livros já resenhados. Esperemos que a narrativa do conturbado mundo em que vivemos, lenta e serenamente, sob olhar inusitado, perdure.

This post is an appreciation of the book “La Chevauchée des Steppes”, written by the French geographer and traveler Sylvain Tesson. In 1999-2000, together with the photographer Priscilla Telmon, he crossed the steppes of Asia from Kazakhstan to Uzbekistan, reaching the Aral Sea . He tells us about customs of different ethnic groups, their difficulties and dreams, witnessing the devastation and shrinking of the lake that was formerly one of the four largest lakes in the world.


 

 

 

 

Leonor Alvim e a Arte Tri-dimensionada

Amor é sentir o universo
Pequeno para tanta estrela
Leonor Alvim

Conheci Leonor Alvim (1935-2012) no final da década de 1970. Chegara ao Brasil, vinda de Portugal, para fixar-se em São Paulo com toda a família após a “Revolução dos Cravos”, de 25 de Abril de 1974. Nesse período, nosso país receberia inúmeras outras famílias portuguesas. Privei da amizade de todo o clã dos Alvins, principalmente de meu saudoso amigo Rui Pereira Alvim, intelectual e poeta, marido de Leonor. Os filhos do casal tornaram-se amigos diários de nossas duas filhas. E concretizava-se uma amizade que perduraria…

Lutando com intrepidez, Leonor operou tripardidamente. Foi professora de piano no Conservatório Musical Brooklin Paulista e no Conservatório de Pouso Alegre em Minas Gerais, dedicar-se-ia com maestria a arte invulgar, grandes painéis tecidos, e escrevia seus poemas veladamente, sem contudo divulgá-los. Agitada, impulsiva a defender suas ideias, era sempre um prazer estético acentuado a discussão com a saudosa Leonor sobre o ato artístico. Diria que foram anos de intensa confraternização, expandida pelo relacionamento fraterno entre nossos filhos. Sob outro contexto, minha mulher Regina e Leonor chegaram a se apresentar várias vezes em recitais de piano a quatro mãos.

Depois dos anos tumultuados pós Revolução, regressaria a Portugal em 1989, a continuar sua atividade como professora na Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa e a realizar seus já famosos painéis tecidos, expondo-os em alguns espaços referenciais, como a Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e a Pinacoteca do Estado de São Paulo. Estive umas poucas vezes com Leonor em Lisboa, que por vezes assistiu meus recitais de piano na capital portuguesa. Em uma das noites, após meu recital no Conservatório Nacional de Lisboa, jantamos com o saudoso compositor e amigo Jorge Peixinho em restaurante caro ao notável músico, “Toni dos Bifes”, ao pé do Saldanha. Noitada não esquecida. Dos seus cinco filhos, três permaneceram no Brasil, um deles, Rui, músico, outros dois, Tomás e Luiz, dedicando-se à editoração de livros de arte, sendo que as duas filhas singraram mares. Leonor Alvim Brazão, ativa publicitária e artista plástica nos Estados Unidos, primogênita dos Alvins, foi uma das organizadoras do comovente evento “Obrigado, Sígrido”.

Qual não foi nossa alegria ao recebermos das mãos de Leonor o livro de poemas e ilustrações de panos-collage “Palavras Soltas” (São Paulo, BEI, 2010). Encantaram-me os poemas, pois seus painéis tecidos já me eram familiares e os admirava imenso.

Confesso que jamais Leonor me apresentou um só de seus poemas e apenas conhecia os dons poéticos de Rui, com quem esteve casada por mais de duas décadas. Literatura portuguesa era a temática das conversas diárias mantidas com Rui (Os Alvins eram nossos vizinhos), pois com Leonor música e painéis preponderavam em nossos diálogos.

A poesia de Leonor Alvim tem a sua impressão digital. Aquela mulher artista que caminhava sempre agitada assim procedendo durante toda a existência, na busca frenética de horizontes não vislumbrados, mas que sabia entender a sua prole à sua maneira, refugiar-se-ia no solilóquio, recanto íntimo insondável para os outros. Anos de convívio e a criação poética de Leonor manteve-se não revelada para este amigo confidente, mormente naquele período de intensas discussões em torno da arte.

Os poemas de Leonor se processam em situações confluentes. A metáfora lhe é familiar e sabe dela servir-se com maestria. O amálgama panos-collage e poema se dá a todo instante. Em “Panos”, revela origens:

Panos

“A minha Mãe ensinou viver sem a cópia da obrigação

Onde os tecidos viraram a pele que me cobre, a sensação
Feita posse da luz que os ilumina, uma longa estrada
Brincando no espaço que se recria
Caleidoscópio de outra dimensão

A minha Mãe ensinou-me a ser livre
A ser um livro de capas da minha pele
Que ambas costuramos a vida inteira”

No poema “Noite”, Leonor ratifica a trajetória “Sou noite na madrugada e a minha pele é a Terra!”. Essa “pele”, elaborada no útero, não sofre metaforfose, pois revelaria a integração plena e harmoniosa com todo o trabalho vindouro, a feitura dos painéis tecidos. Em cada tira, na junção dos tecidos, é essa pele que, por osmose, penetra a obra de arte multicolorida – sua alma assim não era? -, intrigando o observador, mercê do propósito da artista de revelar segredos, mas a guardar mistérios, esses insondáveis. Impossível não sentir impacto frente aos seus painéis tecidos, que servem a tantas interpretações. O filósofo e musicólogo francês Vladimir Jankélévitch já escrevia que o segredo pode ser descoberto, jamais o mistério.

Não obstante imagens figurativas e abstratas fundirem-se tantas vezes num delírio onírico, seria a leitura do poema que traria subsídios ao observador para  apreender ao menos uma centelha das verdadeiras intenções da artista.

Em “Amanhecer” Leonor capta a explosão da natureza, dissipados os resquícios da penumbra, aspiração em direção à luz numa visão heliotrópica. Bastam uns versos para a apreensão do todo:

Amanhecer

“Em tons ciclâmen e rosa tinge a noite seu manto de sombras
Lilases e magenta espalham-se sobre os prados
Que se espreguiçam sobre a Terra
Brilhos sob os véus que se esboroam
Nos sons do amanhecer

Raios de luz acordam a Natureza
Deslizam no espaço que se dilata, freme
A claridade avança e mistura os timbres da aurora
Às sombras da Noite… que se dilui!

Mítica luz que se espalha pelo espaço
Azul turquesa, preciosa gema, cristal facetado
Desta divindade que brilha ao nascer do Sol”

A noção do regresso, seja ele geográfico ou afetivo, move-a em direção ao geotrópico, característica visceral em tantos painéis:

Torno à velha casa donde parti

Torno à velha casa donde parti
À minha volta apenas o mar e a terra que me rodeia
O ar espesso de ausências sorvo – banquete amargo de saudades
Ser adiado, vida contida que no entanto jorra
Destes campos e colinas que me cercam
Fui embora… só este corpo resta, esvaziada a sede
Que me devora
Livre e solta, partirei agora. Outros espaços aguardam
Sem som, sem cor
Só a água clara que brota de meus olhos em prantos já antigos
Torno à velha casa donde parti outrora tão só e triste como agora

Como não pensar no soneto “Visita à Casa Paterna”, de Luiz Guimarães Junior (1844-1898), nascido no Rio de Janeiro e falecido em Lisboa?  “Como a ave que volta ao ninho antigo, / Depois de um longo e tenebroso inverno, / Eu quis também rever o lar paterno, / O meu primeiro e virginal abrigo: // Entrei. Um gênio carinhoso e amigo, / O fantasma talvez do amor materno, / Tomou-me as mãos,-olhou-me grave e terno, /E, passo a passo, caminhou comigo.// Era esta a sala (oh! se me lembro! e quanto!) / Em que, da luz noturna à claridade, / Minhas irmãs e minha Mãe… O pranto // Jorrou-me em ondas… Resistir quem há-de? / Uma ilusão gemia em cada canto, / Chorava em cada canto uma saudade.” O regresso não passaria impune nos dois poemas.

Em texto curto e exemplar, “A Patria dentro da Pátria”, a imensa poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004),  nascida no Porto como Leonor Alvim, já escrevia: “Porque ali é a cidade onde pela primeira vez encontrei os rostos de silêncio e de paciência cuja interrogação permanece. Porque ali é o lugar onde para mim começam todos os maravilhamentos e todas as angústias”. Seria essa “O Porto” que faz Leonor tão bem expressar na série de painéis tecidos a representar o Douro: “Não vejo mais o espaço, sou cada uma, áspera, lúbrica / Violenta ou doce feito mel / Gerada neste berço de família de pedras em cadeia / Esculpidas pela Natureza”.

Privilegiados os que conheceram Leonor Alvim, que perdurará através de seus painéis carregados de emoção, de lirismo e da força interior. Seus poemas seguirão como a segunda via, necessária, imperiosa até, nessa integração plena cor e palavra, vida e o amor.

From Leonor Alvim Brazão – who organized the event “Obrigado, Sígrido”- I have received the poetry book “Palavras Soltas” (Loose Words), written by her mother, the late Leonor Alvim, a dear friend who lived in São Paulo for some years, fleeing from the Carnation Revolution (1974) in Portugal. Leonor was a multifaceted artist: talented pianist and teacher, visual artist (her fabric collages are spread through private and public collections in various countries) and also a poet. This last talent was unknown to me, though we’ve been friends for more than twenty years. This post is a brief appreciation of her book, in which the amalgamation between her paneaux collages and her thought-provoking poetic language is a constant, as evidenced by the book’s magnificent illustrations. Leonor passed away in 2012, but she will remain with us through her collages charged with emotion, lyricism and inner strength. Her poems are a second path, necessary, even imperative, for merging into a single art color-word, love-life.

 

 

 

 

 

 

 

 

O Olhar de Lince e a Escrita Inteligente

Pouco nos importa o modo de expressão
que colocou em movimento a sensibilidade de um artista.
O que desejamos em troca de nossa  “incuriosidade”  respeitosa
sobre  processo emotivo
é que ele não introduza maneiras estranhas
nos modos de expressão que lhe são peculiares.
Georges Migot

Inúmeros foram os posts nos quais inseri considerações do dileto amigo e ilustre compositor e pensador francês François Servenière. A temática gravita preferencialmente em torno da Música, mas tantas vezes, devido ao direcionamento dos posts, Servenière demonstra todo seu vastíssimo acervo cultural que o torna um pensador de estirpe.

Os dois posts a respeito de “Domador de Sonhos”, de Norberto de Moraes Alves, serviram para Servenière considerá-los sob várias facetas, a partir do “sonho” como desiderato almejado. Ao considerar frase de Norberto de que não deveríamos deixar que nossos sonhos se percam no mundo das ilusões, o mestre francês observa:

“Inicialmente, o título do livro de Norberto de Moraes Alves é magnífico, pois evoca o que todos nós somos e o percurso que empreendemos pela vida tão curta como ‘domadores de sonhos’. Deles partimos e tentamos domá-los, na medida de nossas possibilidades, trazendo-os à realidade, partindo do idealismo em direção ao realismo. Acredito que os sonhos mais loucos são realizáveis, pois, como diz meu sogro, com forte pronúncia regional, aposentado e carpinteiro de profissão, portanto muito próximo das coisas da vida, ‘quando se quer, faz-se’. Sim, a vontade é a verdadeira escavadeira da vida, que torna possível as pistas de decolagem de nossos sonhos mais absurdos. Você, eu, meu pai e meu sogro somos exemplos de ‘quando se quer, faz-se’ e estamos longe de ter esgotado essa exigência de sonhos a realizar. O que mais detesto nesse mundo é a procrastinação, tão presente nos políticos clientelistas de nossos países, principalmente nos dias de hoje, que não fazem outra coisa do que surfar sobre as mentiras, que não vivem que da ficção da vida a crédito, levando nossos países à ribanceira sob o pretexto de que a dívida será o único motor das economias modernas, quando na verdade é o principal câncer. Quanto à política e seu cinismo… eu ainda sonho combatê-los, talvez contra moinhos de vento…

A sinceridade raramente casa com a popularidade e com os negócios. Para a composição, a equação do establishment é aquela de juntar-se com as aspirações do público, ou seja, de partir dos anseios deste para a criação de uma obra. A equação do autor autêntico, do artista autêntico, é partir de sua interioridade para o nascimento de uma obra que possa evidentemente encontrar sucesso e se instalar no coração e no espírito das pessoas. A prova evidente do fato das maiores obras da humanidade tornarem-se atemporais reside não somente nesse falar direto aos corações e aos espíritos do público, não fazendo abstração da exigência. Ao acoplar-nos ao desejo do povo, tornamo-nos populistas. Ao aderirmos ao excesso do princípio da exigência, tornamo-nos, inversamente, ideólogos e incomunicáveis. A melhor fórmula já não teria sido aventada pela filosofia chinesa em sua imanente verdade ‘O espírito busca sempre caminho mais longo que o coração, contudo jamais ele irá tão longe’.

Sim, eu entendo, os apóstolos da arte contemporânea pretendem que falar com o coração é vulgar e faz parir romances vendidos nas estações ferroviárias, portanto pateticamente fracos, temática e semanticamente, segundo o princípio por eles entendido como universal ‘Não se faz arte com bons sentimentos’. Norberto de Moraes Alves pretende que ‘não deixemos nossos sonhos perderem-se no mundo das ilusões’.

Sob a égide dessa frase, e para resistir ao Maelström que representa a constatação de um de seus últimos posts, ‘a arte foi invadida pela massificação, que não subsiste que através do efêmero’; é necessário criar e escrever obra que se sustente. Essa perenidade não acontece evitando-se as tentações da sedução, escrevendo-se uma música antimusical ou antissedução, mas criando, ao contrário, uma música tão ou mais sedutora do que aquela que por vezes é encontrada no estilo efêmero e no turbilhão do alto consumo. Que fique claro, essa música sedutora e envolvente tem de possuir qualidades intrínsecas de elevada condição estrutural e semântica, repleta de prazeres e de surpresas e embasada na técnica segura. Todo o material da música atual está disponível, instrumentalmente ou sob o prisma composicional. Construir uma obra que seduza, feita sob a égide hedonista, mas a responder a critérios de qualidade extrema, tornou-se exigência para o futuro da arte renovada, em todos os seus domínios. Isso é possível, pois ‘há ainda muitas obras primas a serem escritas em dó maior’. Nossos antepassados em França, Debussy, Ravel e mais recentemente  Messiaen e Dutilleux, fizeram essa façanha, como em todos os centros. Villa-Lobos, Guarnieri, Mignone e Oswald em seu país, Lopes-Graça em Portugal, assim como tantos nos países do Leste e nos Estados Unidos… Nada é impossível, tudo se pode, em todo lugar e sempre. Nada resiste ao trabalho e ao espírito.

É evidente o aspecto empresarial em torno das obras atuais mais ventiladas. Seria necessário o pouco provável retorno a um renascimento artístico, único capaz de suscitar novamente grandes obras e fazer emergir grandes artistas, certamente escondidos hoje no ‘anonimato’, como você bem lembra em seu post, artistas ligados ao preceito dos antigos atenienses – ‘verdadeiro, belo e justo’-, ontologicamente impregnados da síntese e da simplicidade.

Todos os sintomas sociais estão presentes sobre a Terra para mostrar não somente a necessidade do retorno às virtudes ‘clássicas’, mas também a vital impulsão pela busca da fé em outra coisa que não os ‘produtos de consumo correntes’ – mesmo os produtos artísticos tornaram-se de ‘consumo corrente’. Não mais satisfazem parcela da população, mas enriquecem muitos. Quanto ao espírito?

Falando dos artistas que são apresentados como modelos poderosos do show-business atual, consideremos que outros extraordinários artistas não são evidentemente promovidos a contento, ou mesmo quase nunca, apesar de não termos o recuo histórico para analisar. Leis do mercado. Contudo, mesmo nos Jogos Olímpicos aquele que sai primeiro nem sempre cruza a linha final. É a fábula do coelho e da tartaruga.

O círculo é vicioso, pois perdedores e vencedores, segundo os critérios das mídias à maneira do Maesltröm, não vivem todos num mesmo planeta. De um lado, o sucesso e meios financeiros imensos, do outro uma ausência de sucesso e meios financeiros limitados que impedem a aparição pública de obras mais exigentes e inovadoras.

Malgrado todas essas constatações, os artistas, sejam eles de geografias diferentes e de talentos e méritos vários, sejam quais forem suas linguagens, gêneros ou estilos, todos estão restritos ao idêntico paradigma, aquele do ‘hic et nunc’, que demonstraria que a posteridade tem raramente a possibilidade de reavaliar méritos e talentos ‘post-mortem’ do artista. Reconhece-se a força de uma obra também através da capacidade do artista se produzir, seja lá a qual preço. Nessas circunstâncias, não há consolação ou vitória exterior, mesmo se carreiras são feitas de repescagens permanentes e os destinos do tipo fênix, que renasce das cinzas.

É injusta, mas a lei da vida estabelece a seleção natural e esta é cega. Sem concessão. Sem ter plano preconcebido, preserva contudo os melhores, aqueles que transmitirão o bastão à geração seguinte. A natureza fixa regras aplicando-as de maneira darwinista implacável , tanto nas artes como em todas as áreas. ‘Struggle for life’ é o motor central e genérico de todas as existências sobre a Terra. A concorrência é rude, mas ela o é desde os espermatozoides. Nada mais fazemos do que continuar o processo.

Uma força imensa está presente em cada um de nós. Há aqueles que sabem aproveitá-la, dominá-la e fazer da vida algo excepcional, como existem os que passam ao largo, mesmo se considerarmos que a vida não presenteia no início as pessoas da mesma maneira. Sabe, contudo, distribuir cartas ao longo da existência, ao mérito, precisamente.

A vida não é justa ou injusta, ela é. Eis o que me levou à reflexão sobre seus dois textos em torno de ‘Domador de Sonhos’, de Norberto de Moraes Alves. Continuemos a ser indomáveis e obrigado por seus artigos sinceros e lúcidos, se bem que tristes, se considerarmos certos talentos”. (tradução: J.E.M.)

Once more I transcribe e-mail message received from the French composer François Servenière, now with his views on a subject addressed  recently: our dreams and the chances of making them come true and the difficulties to determine why so many talented artists live in obscurity, while others, maybe not so qualified, succeed in capturing media attention.