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Sylvain Tesson e a Síntese da Observação

O aforismo permite ganhar tempo economizando espaço.
Um aforismo vinga desde que não haja nada a acrescentar
a alguma coisa da qual se teria muito a dizer.
Sylvain Tesson

Nós não confessamos os pequenos defeitos
para persuadir-nos que não temos os grandes.
La Rochefoucauld

Ao longo da História, o gênero aforismo tem sido utilizado, entre tantas outras categorias literárias, por pensadores, filósofos, artistas, juristas, literatos… Pretende, em pouquíssimas palavras, deixar registrado um pensamento, um princípio, uma observação ou uma sentença. Incontáveis os autores que se perpetuaram no imaginário do leitor através de seus aforismos. Estes são repetidos pela sucessão de gerações. Caracteriza o aforismo essa singularidade da síntese da síntese. Provocador, o aforismo abre campo para uma série de outras constatações. Tem a independência que o coloca isolado em texto de um autor. Pinçado, por vezes. Apesar de semelhança, não deve ser confundido com máxima, provérbio ou adágio (vide “Açores – O Povo Eternizado, Adagiário Açoriano”, 26/03/2011), formas mais penetrantes e “doutrinárias”. O aforismo, síntese da síntese literária, tem a qualidade de apreender a observação aguda de quem pratica o gênero. A liberdade dessa forma literária confere-lhe conteúdo descritivo, humorístico e espiritual. Pode encerrar um princípio teórico, igualmente. Encontramo-lo com várias vestimentas: aforismo de ordem poética, moral, geral e tantas outras.

Estou a me lembrar de que meu saudoso pai, admirador confesso da literatura francesa, gostava de ler para os quatro filhos “Les Maximes”, de La Rochefoucauld (1613-1680). Mencionaria dois exemplos outros: Honoré de Balzac (1799-1950), em “Physiologie du mariage ou méditations de philosophie écletique, sur le bonheur et le malheur conjugal” (1829), cultua a forma em segmento por ele denominado “Aphorisme”. Por sua vez, Friedrich Nietzsche (1844-1900), admirador do gênero, considera ser necessária a “leitura lenta” e uma “ruminação” dessa forma tão difundida.

Sylvain Tesson, em suas caminhadas pelo mundo a pé, de bicicleta ou sobre um cavalo, narra a natureza, costumes das etnias e tece reflexões sobre a condição humana. Arguto, olhar de lince, Tesson fixa em seu carnê de viagem conceitos curtos em forma de aforismos. Para quem leu sua já vasta obra literária, essa síntese da síntese traduz verdades transparentes. O pensamento de Tesson por vezes é cáustico, se não sarcástico. Há humor fino ou direto, mas também crítica à incúria humana. Metáforas são permanentes nos aforismos de Tesson. O caminhar, preferencialmente solitário, tem sua síntese. “Solidão: companhia que não fugirá jamais” ou “O amor dá-se quando convidamos o outro à mesa da solidão”. Paradoxal para o “eremita caminhante”, mas compreensível em sua admiração ilimitada pelo desconhecido. Desacertos e incúrias provocados pelo homem em tantas latitudes e longitudes não o deixariam indiferente. Se a árvore é recorrente, lembre-se dos inúmeros bivaques realizados por Tesson no alto das mais frondosas. A admiração pela fauna é onipresente, assim como a metamorfose das estações, as águas estáticas, deslizantes ou marítimas, a geografia do andarilho e seu convívio efêmero, mas intenso, com o outro. Natureza a preponderar, vida animal, o homem a caminhar pela história…

Do livro de Sylvain Tesson, “Aphorismes sous la Lune et autres pensées sauvages” (France, Équateurs-Parallèles, Illustrations de Bertrand de Miollis, 2008), selecionei alguns aforismos,  buscando agrupá-los tematicamente.

Fauna:

O tiro do fusil parte. O pássaro cai, mas o caçador está moralmente abaixo.
Caça à perdiz: o céu dá pérolas aos porcos.
Pã! A mesma sílaba para o deus da Natureza e o tiro de fusil que a fere.
Caçador: vândalo que destrói as obras de Pã.
O chilreio dos pássaros intima e ordena o dia a despertar.
Cada pássaro escolhe o galho na universidade das árvores.
Os passarinhos cantam pelo fato de serem felizes.
Pássaro engaiolado: teríamos ideia de denominar homens de estimação os presidiários?
Voo do urubu: auréola dos cadáveres.
Cada dia a aranha redesenha o mapa da Rota da Seda.
A mosca na teia da aranha tem como consolo morrer na seda.
Um urso insone muito estressado durante seis meses do ano.
Joaninha: um pequeno tanque de guerra vestido de palhaço.
As serpentes praticam a dança do ventre.
Quando penso na vaca, o vermelho da carne sobe-me à cabeça.
Vespas: a Luftwaffe dos campos.
Se o homem fosse um lobo para o homem, ele deixaria o lobo tranquilo.


Mundo vegetal:

Uma velha árvore inclinada sob o peso dos segredos que os pássaros lhe confiaram.
Uma árvore sozinha no meio campo: monumento comemorativo de uma floresta desaparecida.
Conversação das folhas nas árvores: elas falam do vento, tema que as agita.
Vistam-se!!! Ordena a primavera para as árvores.
No Music-hall da Natureza, a cada ano há o strip-tease do outono antes que desça a cortina do inverno.
Não é cortando que tornaremos melhores as ervas daninhas.
O campo de flor é o tapete de oração do jardineiro.

Montanhas:

A erosão pune a montanha que quis se erguer em direção ao céu.
O Himalaia continua a crescer. O que mais quer além das neves eternas?
Lago de Como: Os Alpes nevados se veem envelhecidos no espelho das águas.
Colocar uma cruz no alto da montanha é acreditar que ela não se basta por si só.

Falésias:

Falésia: o mar encostado ao muro.
A Terra, com pressa de se jogar ao mar, hesita e a falésia se forma.
O oceano baba de raiva por não poder abater a falésia.
Ir avante é viver, salvo na beirada de uma falésia.

Águas:

O  mar: coração que bate entre dois litorais.
Chuva: volta à terra daquilo que o céu tirou do mar.
Uma cascata chorava num vale de lágrimas.
Uma pedra que cai na água não erra jamais o centro do alvo.
O oceano é um cinemascópio: ele não conhece senão a nouvelle vague.
Rios: hemorragia das montanhas.
A queda faz a chuva sofrer?
Seria pelo fato de ter olhado para o interior das casas que as lágrimas da chuva escorrem pelas janelas?
Habitantes das margens do Aral: órfãos de seu mar.

Universo:

Para qual alvo estão apontadas as flechas das catedrais?
Sentindo-se observada, uma estrela foge velozmente.
O dia é o véu que as estrelas nos jogam, aborrecidas de serem tão observadas.
A lua, grávida da luz, amamenta a noite.
Relâmpago: a tempestade teve uma ideia.
A coragem não existe: mesmo o sol se deita.

Geografia:

A Terra talvez seja azul, mas como uma laranja podre.
Praias do Mediterrâneo: campos de batalha cobertos de corpos mortos de calor.
O Equador é a cintura de um ventre que nunca engorda.
Chile: um cigarro de quatro mil quilômetros cuja ponta incandescente chama-se Terra do Fogo.
Se o Tibete é o teto do mundo, o Nepal é a goteira.
O Tirol é um vaso de gerânios colados no balcão da Áustria.

Comboios:

Transiberiana: um zipper do manteau de taigas
Amo os trens: eles seguem um caminho de ferro.
Escritura: as palavras são vagões, as frases comboios e as páginas, estepes percorridas pelo trem.

Vinho:

Os enólogos são pessoas às quais o vinho torna falantes. Os bêbados, pessoas que falam após embebedarem-se.
Vinho: o fruto está na taça.

Temas Diversos:

A Música é a ciência do tempo sob controle; o nomadismo, a ciência do espaço conquistado.
O homem se interessa pela meteorologia para fazer passar o tempo.
Televisão: ligamos e o mundo se fecha.
Desde a noite dos tempos há o efêmero.
Quem me ama me segue, dizia o vento.
Mesmo o pensamento de Darwin conheceu uma espécie de evolução.
Bandeiras na janela: roupa suja dos Estados.
Uma vez rico, o faquir decide dormir sobre a palha.
Gostaríamos de cumprimentar os suicidas pela coragem do ato.
Há influências intelectuais semelhantes às medusas: corpo mole mas longos tentáculos.
Desde que se faça da imensidão o seu deus, caminhar torna-se liturgia.
A poluição é a sombra do progresso.
Neve: partículas nos olhos do inverno.
Trancar um nômade entre quatro paredes é o mesmo que enlatar o vento.
O que fazem certos livros para ficar tranquilos, mercê de seus conteúdos?
O frio é um ser sutil; ele morde, corta, penetra e agulha. O calor é um bruto que se contenta em nocautear.
A nostalgia é estar indignado com o tempo que ousa passar sem nós.
A fé é a vaidade de se acreditar criado à imagem de Deus.
Conseguir caminhar levemente sobre a corda esticada da existência.
No momento de minha morte, minhas últimas palavras: “Um a menos”.
(tradução: J.E.M.)

The French explorer and writer Sylvain Tesson, in his adventures in remote areas of the globe, observes nature and humans, summing up his life experience in witty, sarcastic, good humored or poetic aphorisms that wrestle with the big questions of life. This post is a selection of aphorisms taken from Tesson’s book “Aphorismes sous la lune et autres pensées sauvages”.

 

 

 

 

Subtítulo do Livro: “L’Aventure Continue”

A rosa imagina, talvez,
que seu perfume a absolva de seus espinhos.
Sylvain Tesson

A constante presença das mensagens transmitidas pelo excelente compositor e pensador francês François Servenière tem suas razões. Aos sábados pela manhã, ao abrir meu computador, já lá está o e-mail do dileto amigo a comentar e enriquecer o conteúdo do blog. As horas de defasagem Brasil-França explicam parte dessa presteza. Soma-se a cultura abrangente de Servenière, que lhe possibilita inserir  novo olhar, pleno de clareza, a subsidiar comentários argutos e pertinentes. Ambos somos profundos admiradores da magnífica obra de Sylvain Tesson que, nos percursos pelo planeta, sabe filtrar essencialidades. Portanto, é com prazer que partilho com meus leitores as reflexões argutas de François Servenière.

“Sublime livro que eu devorei há 10 anos atrás em apenas um dia, como um doce preferido desde a juventude e com o apetite de um faminto. Sempre preferenciei a geografia à história, contrariando legião de historiadores. Esses pretendiam superioridade interdisciplinar, acreditando que a história domina a geografia desde sempre, que os homens e sua vontade arbitram os elementos… Li numerosas obras sobre geografia, apaixonado como você pelas paisagens, estepes, desertos, mares e civilizações que surgem. Como você, eu descobri Sylvain Tesson, presidente da Sociedade de Exploradores Franceses, Sociedade da qual gostaria de ser membro após realizar projetos em mente. Sei que você leu quase toda a obra de Tesson.

Particularmente gostei do livro em pauta pelo fato de que ele coloca a geografia em primeiro plano, tese que eu sempre defendi, pois ela molda as sociedades humanas bem antes da história. Condiciona os modos de vida, os comportamentos, as regras e, após, as leis. Dizia recentemente que o Islã (não se trata de ser original, mas é bom relembrar) era incompatível na sua forma original com a Europa por uma razão apenas. O Corão, um texto originário do deserto e produzido conforme obrigações necessárias à vida naquelas terras. Seria fácil compreender. Uma sociedade e as leis de países férteis têm pouco a ver com uma sociedade e leis de países desérticos. Não se trata de juízo de valor, pois o caráter e o comportamento dos povos e das pessoas são diferentes. O stress hídrico, o sol, as tempestades de areia e o calor resultam em povos com outros anseios comparados àqueles nascidos sob outra condição climática.

Não sei por que nossos políticos não têm essa inteligência dos exploradores. Fariam melhor se lessem ou escutassem Sylvain Tesson, ao invés de dizerem bobagens a todo instante sobre uma religião que eles não compreendem em sua essência, unicamente para a manutenção do poder e de suas poltronas aquecidas. Que falta de curiosidade, que falta de pertinência, reflexões e decisões; que distanciamento do povo que deveria ser ouvido; que cinismo!!! Os políticos são cegos em todos os rincões e sempre, de maneira voluntária em primeiro lugar e, após, naturalmente. O poder é cego e o político não vê, não ouve e não compreende mais nada. Essa situação tornou-se ontológica na Europa, ligada à burocracia que asfixia tudo, diria, quase letalmente. Sabemos que os povos estão revoltados, em todos os lugares. Isso poderá explodir.

Sylvain Tesson nos dá o recuo do tempo vindo do deserto e da longa estrada. Que inteligência, que pertinência, que lição de história! Comparado com os que vivem nas torres de marfim, nos escritórios ministeriais, mais preocupados com a nova máquina de café ou com o funcionamento do ar condicionado. É isso, meu caro amigo! As fotos tiradas pelos satélites focalizando o Mar de Aral deixam-me entristecido. Como marinheiro, eu teci minhas reflexões. Vi fotos de cargueiros que antes navegavam pelas águas, hoje deitados em leitos de areia, tendo perdido toda a esperança do retorno à suas origens, razão da existência. De singradores dos mares, estendidos presentemente como esqueletos de animais mortos sob o sol do deserto. Cenas que me trazem lágrimas aos olhos. Você sabe o quanto um barco é caro ao espírito do marinheiro, ‘homem livre sempre amará o mar’. O barco é o instrumento de sua liberdade. Matar o instrumento é matar a liberdade. O Mar de Aral era um paraíso antes do desvio criminoso dos rios empreendido pelo poder centralizador, totalitário e imbecil da União Soviética. Verdadeiro crime contra a humanidade. Há muitos outros. Nos Estados Unidos, a barragem Hoover, do Colorado, unicamente para alimentar Las Vegas e sua consumação excessiva de água, é indecente. A biologia do Golfo da Califórnia transformou-se, os pescadores locais passam dificuldades e o Colorado chega ao mar com déficit inferior ao de um rio menor em França. O lago Mead baixou 40 metros em relação ao nível original depois da construção da barragem. Verdadeira calamidade! Certos homens, determinados sistemas são os verdadeiros predadores da natureza. Como pará-los, sobretudo quando têm o poder?”. Há tantas posições divergentes aos projetos da transposição do Rio São Francisco e da Usina de Belomonte no Brasil. Projetos megalômanos não teriam no cerne interesses outros? O tempo, insubornável, dirá.

Continua Servenière “Adoro também a maneira como viajantes e exploradores têm de redesenhar mapas, realística e sentimentalmente. Um outro componente mágico em ‘La Chevauchée des Steppes’ é a integração de Priscilla Telmon com a medicina etnológica. Ela oferece-nos as chaves da compreensão das primeiras formas médicas, das carências patológicas para a luta contra insetos, bactérias e ácaros, pureza da água e dos alimentos, dados esses tão distantes de nossos hospitais e sociedades tecnologicamente ultramodernas… mas infestados de bactérias e de vírus. Doenças de toda espécie, perda de resistência frente às múltiplas formas virais e bacteriológicas antigas (a história de Sylvain Tesson que você relata no post anterior). Há pouco tive experiência junto a um hospital da Normandia. Visitava um amigo hospitalizado por problemas cardíacos e, ao conversar com o médico, falei-lhe de fato comprovado relacionando lua cheia e maré alta com o aumento de distúrbios humanos, inclusive concernentes à hospitalização. Retrucou o respeitado médico “Eu sou um homem da ciência, senhor” e de bate pronto afirmei que eu também era. Sylvain Tesson e Priscilla Telmon, estou certo, teriam berrado frente à afirmação do cirurgião! Dramas psicosociológicos de nossas sociedades superorganizadas, onde a inteligência não tem mais qualquer contato com a natureza… Esquecimento e ocultação voluntária e construtivista de nossa origens, psicanálise lógica e provável a advir do mundo e de seus indivíduos. Seríamos ainda naturais e teríamos esse direito? Certamente seremos sempre seres biológicos, afeitos ao que gira ao nosso redor!

Magnífico livro! Seu blog reitera brilhantemente a assertiva”. (tradução J.E.M.).

Last week’s post, “La Chevauchée des Steppes”, deserved extensive comments from the French composer François Servenière, like me a great admirer of the adventurer Sylvain Tesson, who travels the world observing different ethnic groups and their customs, man-made environmental disasters and the fate of our natural habitat. Relevant as ever, Servenière’s comments have a strong interest, since they offer a fresh perspective on topics covered by this blog.

 

 

 

 

 

 

Sylvain Tesson e Priscilla Telmon em Travessia a Cavalo pela Ásia Central

Segredo do peregrino:
avançar sem ansiedade, mas sem distração,
passos contados, obstinado ao longo do dia,
para vencer consideráveis distâncias.
A estepe desfila lentamente,
cinco ou seis km por hora,
sem que nada rompa a fantástica uniformidade do deserto.
Sylvain Tesson

Foram muitos os livros de Sylvain Tesson resenhados no blog ao longo destes últimos anos. A lista completa pode ser acessada através do link “Livros – Resenhas e Comentários” do menu do blog. Admiro a intrepidez do aventureiro que percorre o planeta a pé, de bicicleta ou a cavalo, trazendo ao leitor um universo tantas vezes inóspito e, para nós, inacessível. O olhar arguto de Tesson, aprimorado com o passar dos anos, encaminha-nos  sempre para leituras novas das paisagens, dos costumes e dos personagens das mais variadas etnias. Esses, Tesson ausculta, capta desalentos e esperanças, entende o sedentarismo ou nomadismo a depender das circunstâncias, é introduzido nos lares singelos e rústicos e retira eflúvios ancestrais, passados através das gerações.

Em Janeiro de 2014 tive a alegria de estar presente – puro acaso – no lançamento de um de seus livros em livraria de arrondissement em Paris (vide: “Considerações sobre o Desbravar – Buscando Responder a Indagações”, 15,02,2014). Um dedo de prosa, autógrafos e vários outros livros na bagagem de volta. Para um autor que esteve tantas vezes frente à possibilidade de morrer, um fato absolutamente do cotidiano quase levou-o à morte. Aos 20 de Agosto, sofre uma queda em Chamonix ao escalar um prédio. Teve comoção cerebral. Permaneceu em coma induzido durante bom período e, segundo um comunicado da família, meses depois Tesson recupera-se: “Suas capacidades intelectuais estão milagrosamente preservadas mas devido aos muitos traumatismos, haverá necessidade de tempo e repouso”. Assim esperam seu familiares e legião de leitores. No vídeo da entrevista que concede à FR1 (20/01/2015), Sylvain Tesson, pleno de lucidez, apresenta contudo sequelas da lamentável queda (http://www.huffingtonpost.fr/2015/01/20/video-philippe-tesson-defendu-par-sylvain-tesson-propos-musulmans_n_6505336.html ).

Em “La Chevauchée des Steppes” (Paris, Robert Laffont, 2001), o escritor viajante percorre com Priscilla Telmon cerca de 3.000km a cavalo pela Ásia Central. Para tanto, adquirem três equinos no Cazaquistão – Ouroz, Boris e Bucéphale – dedicando-lhes o livro. A bela Priscilla Telmon (1975) é jornalista e escritora, viajante de longas distâncias, fotógrafa. Realizou viagem solitária pelo Himalaia em 2003-2004, seguindo as passadas da aventureira Alexandra David-Néel (vide blog, 07/12/20007), e saltou de paraquedas a 10.000m de altura sobre o Everest em 2011.

“La Chevauchée des Steppes” foi realizada entre 1999 e 2000. Trata-se de um dos primeiros livros de Sylvain Tesson (1972) e, para o leitor que tem acompanhado sua trajetória, pode-se sentir o percurso mental do autor, interessado inicialmente também na narração de fatos históricos à medida que espaços são vencidos. E essas narrativas são muitas, sob olhar arguto, a fazer comparações de toda a região em dois períodos decisivos, antes e logo após o regime soviético.

Os 3.000km abrangem uma vasta região que se estende do Cazaquistão, Quirgstão, Tajdiquistão, Uzbequistão, margeia a fronteira do Turcomenistão, prolonga-se pelos desertos uzbeques até o Mar de Aral. Aventura fantástica não desprovida de perigos, pois por várias vezes quase sucumbiram aos assaltos quando das lentas cavalgadas.

A narrativa, por vezes entremeada por escritos de Priscilla Telmon, testemunha a atração pelo desconhecido, a curiosidade em apreender costumes e retirar das mentes das tantas etnias a sabedoria ancestral. Ficaria claro que a divisão territorial empreendida pela União Soviética, com fins “aparentemente” geográficos, trouxe uma série de problemas fronteiriços e escaramuças permanentes entre os habitantes dessas inóspitas regiões. Em todas as obras do autor, quase sempre foi bem recebido pelos citadinos, nômades ou aldeões. Constante.

As tantas intervenções da antiga União Soviética nos recursos hídricos dos vastos territórios teriam sido desastrosas. Com fins unicamente de retirar as riquezas do solo, represas foram feitas sem o respeito criterioso aos recursos naturais e Tesson e Telmon testemunham o desastre de cidades e as consequências de leitos de rios secos, cidades moribundas e a sensível diminuição das águas do Mar de Aral, um dos quatro maiores lagos do planeta há 50 anos, hoje reduzidíssimo (vide ilustração). Um dos rios que o abastece, o Amou-Daria, que foi fonte de sobrevivência para os países em questão, está em situação calamitosa, diminuído, poluído. Tem interesse o relato de Tesson em terras usbeques ao abordar o interesse da ex União Soviética em transformar as planícies do Uzbequistão em celeiro de algodão: “O Amou-Daria e o Syr-Daria, dois rios tributários do Mar de Aral, converteram-se brutalmente em vulgares tubos de irrigação. Bombeiam-se suas águas míticas. A planície foi estriada por canais feitos a céu aberto, alimentados pelos dois cursos de água. O algodão cresce. As cifras incharam. O Aral agoniza, sacrificado sob o altar das estatísticas de produção”. Catástrofe. Mutatis mutandis, não se tenta no Brasil, nessas últimas gestões planaltinas, a transposição do Rio São Francisco, o rio da integração nacional? Obra faraônica com consequências imprevisíveis. Independentemente das chuvas, já houve a diminuição do fluxo de nosso rio mítico. Sob outra égide, o desmatamento da vasta região amazônica, que deveria ter fiscalização plena, está a recrudescer e parte da falta das chuvas, que chegavam também ao sudeste, é devida a essa verdadeira incúria.

À medida que nossos aventureiros atravessam desertos, estepes e adentram cidades e aldeias, relatam o presente e reportam-se ao passado. Os habitantes mais velhos lembram-se de tempos mais venturosos do período da piscicultura ancestral. Será Priscilla Telmon a narrar o resultado das pragas e insetos que quase levaram Tesson à septicemia: “Por força de desafiar de manhã à noite as regras de higiene, dividindo as noites com percevejos nos leitos, mosquitos sanguinários durante o dia, pulgas e outros mais insetos, foi vítima de uma infecção nos canais linfáticos. De um minúsculo abscesso situado sob o punho surgiram longas manchas vermelhas, que subiram até os ombros. Os gânglios foram atingidos. Mais alguns dias e teríamos a septicemia. Essa só não chegou graças à dose cavalar de antibióticos, mais violenta do que meses de cavalgada”.

O longo convívio serviu para leitura de um sem número de livros que os dois aventureiros levaram. O cotejamento história-atualidade reveste-se de charme, pois rememoram desde Genghis Khan aos séculos mais recentes e sentem um quase prazer de pisar solo anteriormente frequentado por cavaleiros e guerreiros. Comentam o islamismo, descrevem mesquitas e minaretes. Encantam-se com Samarcanda, a segunda cidade uzbeque. Pormenorizam-na, pois fazia parte da rota da seda entre China e Europa. Extasiam-se com Bukhara, essa cidade murada do século X, sua mesquita mor e seu alto minarete de Kalian (50m). De lá, o khan ordenava a queda dos condenados à morte. Tem certa dose de humor negro o relato de Tesson, que subiu ao topo com Priscilla “Era a última visão que os condenados à morte levavam antes da queda, empurrados pelo carrasco. Derradeira graça concedida pelo khan: oferecia-lhes um último olhar sobre as belezas do mundo”.

Melancólica a chegada ao Mar de Aral. Todo o projeto a visar ao final esse mar que está a morrer. Tesson comenta “Na cabeceira do mar nós choramos, pois o mar está morto e nossa viagem chega ao fim”. Doados ao Museu de Artes Savitsky, em Noukus, Uzbequistão, os fiéis cavalos Boris, Ouroz e Bucéphale ganham a liberdade no dia seguinte, não sem emoção de Sylvain e Priscilla.

Sedimentavam-se em 2.000 tantos outros projetos que levariam Sylvain Tesson a percorrer a pé, a cavalo ou de bicicleta vasta região do planeta, traduzidos em instigantes livros já resenhados. Esperemos que a narrativa do conturbado mundo em que vivemos, lenta e serenamente, sob olhar inusitado, perdure.

This post is an appreciation of the book “La Chevauchée des Steppes”, written by the French geographer and traveler Sylvain Tesson. In 1999-2000, together with the photographer Priscilla Telmon, he crossed the steppes of Asia from Kazakhstan to Uzbekistan, reaching the Aral Sea . He tells us about customs of different ethnic groups, their difficulties and dreams, witnessing the devastation and shrinking of the lake that was formerly one of the four largest lakes in the world.