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Leonor Alvim e a Arte Tri-dimensionada

Amor é sentir o universo
Pequeno para tanta estrela
Leonor Alvim

Conheci Leonor Alvim (1935-2012) no final da década de 1970. Chegara ao Brasil, vinda de Portugal, para fixar-se em São Paulo com toda a família após a “Revolução dos Cravos”, de 25 de Abril de 1974. Nesse período, nosso país receberia inúmeras outras famílias portuguesas. Privei da amizade de todo o clã dos Alvins, principalmente de meu saudoso amigo Rui Pereira Alvim, intelectual e poeta, marido de Leonor. Os filhos do casal tornaram-se amigos diários de nossas duas filhas. E concretizava-se uma amizade que perduraria…

Lutando com intrepidez, Leonor operou tripardidamente. Foi professora de piano no Conservatório Musical Brooklin Paulista e no Conservatório de Pouso Alegre em Minas Gerais, dedicar-se-ia com maestria a arte invulgar, grandes painéis tecidos, e escrevia seus poemas veladamente, sem contudo divulgá-los. Agitada, impulsiva a defender suas ideias, era sempre um prazer estético acentuado a discussão com a saudosa Leonor sobre o ato artístico. Diria que foram anos de intensa confraternização, expandida pelo relacionamento fraterno entre nossos filhos. Sob outro contexto, minha mulher Regina e Leonor chegaram a se apresentar várias vezes em recitais de piano a quatro mãos.

Depois dos anos tumultuados pós Revolução, regressaria a Portugal em 1989, a continuar sua atividade como professora na Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa e a realizar seus já famosos painéis tecidos, expondo-os em alguns espaços referenciais, como a Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e a Pinacoteca do Estado de São Paulo. Estive umas poucas vezes com Leonor em Lisboa, que por vezes assistiu meus recitais de piano na capital portuguesa. Em uma das noites, após meu recital no Conservatório Nacional de Lisboa, jantamos com o saudoso compositor e amigo Jorge Peixinho em restaurante caro ao notável músico, “Toni dos Bifes”, ao pé do Saldanha. Noitada não esquecida. Dos seus cinco filhos, três permaneceram no Brasil, um deles, Rui, músico, outros dois, Tomás e Luiz, dedicando-se à editoração de livros de arte, sendo que as duas filhas singraram mares. Leonor Alvim Brazão, ativa publicitária e artista plástica nos Estados Unidos, primogênita dos Alvins, foi uma das organizadoras do comovente evento “Obrigado, Sígrido”.

Qual não foi nossa alegria ao recebermos das mãos de Leonor o livro de poemas e ilustrações de panos-collage “Palavras Soltas” (São Paulo, BEI, 2010). Encantaram-me os poemas, pois seus painéis tecidos já me eram familiares e os admirava imenso.

Confesso que jamais Leonor me apresentou um só de seus poemas e apenas conhecia os dons poéticos de Rui, com quem esteve casada por mais de duas décadas. Literatura portuguesa era a temática das conversas diárias mantidas com Rui (Os Alvins eram nossos vizinhos), pois com Leonor música e painéis preponderavam em nossos diálogos.

A poesia de Leonor Alvim tem a sua impressão digital. Aquela mulher artista que caminhava sempre agitada assim procedendo durante toda a existência, na busca frenética de horizontes não vislumbrados, mas que sabia entender a sua prole à sua maneira, refugiar-se-ia no solilóquio, recanto íntimo insondável para os outros. Anos de convívio e a criação poética de Leonor manteve-se não revelada para este amigo confidente, mormente naquele período de intensas discussões em torno da arte.

Os poemas de Leonor se processam em situações confluentes. A metáfora lhe é familiar e sabe dela servir-se com maestria. O amálgama panos-collage e poema se dá a todo instante. Em “Panos”, revela origens:

Panos

“A minha Mãe ensinou viver sem a cópia da obrigação

Onde os tecidos viraram a pele que me cobre, a sensação
Feita posse da luz que os ilumina, uma longa estrada
Brincando no espaço que se recria
Caleidoscópio de outra dimensão

A minha Mãe ensinou-me a ser livre
A ser um livro de capas da minha pele
Que ambas costuramos a vida inteira”

No poema “Noite”, Leonor ratifica a trajetória “Sou noite na madrugada e a minha pele é a Terra!”. Essa “pele”, elaborada no útero, não sofre metaforfose, pois revelaria a integração plena e harmoniosa com todo o trabalho vindouro, a feitura dos painéis tecidos. Em cada tira, na junção dos tecidos, é essa pele que, por osmose, penetra a obra de arte multicolorida – sua alma assim não era? -, intrigando o observador, mercê do propósito da artista de revelar segredos, mas a guardar mistérios, esses insondáveis. Impossível não sentir impacto frente aos seus painéis tecidos, que servem a tantas interpretações. O filósofo e musicólogo francês Vladimir Jankélévitch já escrevia que o segredo pode ser descoberto, jamais o mistério.

Não obstante imagens figurativas e abstratas fundirem-se tantas vezes num delírio onírico, seria a leitura do poema que traria subsídios ao observador para  apreender ao menos uma centelha das verdadeiras intenções da artista.

Em “Amanhecer” Leonor capta a explosão da natureza, dissipados os resquícios da penumbra, aspiração em direção à luz numa visão heliotrópica. Bastam uns versos para a apreensão do todo:

Amanhecer

“Em tons ciclâmen e rosa tinge a noite seu manto de sombras
Lilases e magenta espalham-se sobre os prados
Que se espreguiçam sobre a Terra
Brilhos sob os véus que se esboroam
Nos sons do amanhecer

Raios de luz acordam a Natureza
Deslizam no espaço que se dilata, freme
A claridade avança e mistura os timbres da aurora
Às sombras da Noite… que se dilui!

Mítica luz que se espalha pelo espaço
Azul turquesa, preciosa gema, cristal facetado
Desta divindade que brilha ao nascer do Sol”

A noção do regresso, seja ele geográfico ou afetivo, move-a em direção ao geotrópico, característica visceral em tantos painéis:

Torno à velha casa donde parti

Torno à velha casa donde parti
À minha volta apenas o mar e a terra que me rodeia
O ar espesso de ausências sorvo – banquete amargo de saudades
Ser adiado, vida contida que no entanto jorra
Destes campos e colinas que me cercam
Fui embora… só este corpo resta, esvaziada a sede
Que me devora
Livre e solta, partirei agora. Outros espaços aguardam
Sem som, sem cor
Só a água clara que brota de meus olhos em prantos já antigos
Torno à velha casa donde parti outrora tão só e triste como agora

Como não pensar no soneto “Visita à Casa Paterna”, de Luiz Guimarães Junior (1844-1898), nascido no Rio de Janeiro e falecido em Lisboa?  “Como a ave que volta ao ninho antigo, / Depois de um longo e tenebroso inverno, / Eu quis também rever o lar paterno, / O meu primeiro e virginal abrigo: // Entrei. Um gênio carinhoso e amigo, / O fantasma talvez do amor materno, / Tomou-me as mãos,-olhou-me grave e terno, /E, passo a passo, caminhou comigo.// Era esta a sala (oh! se me lembro! e quanto!) / Em que, da luz noturna à claridade, / Minhas irmãs e minha Mãe… O pranto // Jorrou-me em ondas… Resistir quem há-de? / Uma ilusão gemia em cada canto, / Chorava em cada canto uma saudade.” O regresso não passaria impune nos dois poemas.

Em texto curto e exemplar, “A Patria dentro da Pátria”, a imensa poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004),  nascida no Porto como Leonor Alvim, já escrevia: “Porque ali é a cidade onde pela primeira vez encontrei os rostos de silêncio e de paciência cuja interrogação permanece. Porque ali é o lugar onde para mim começam todos os maravilhamentos e todas as angústias”. Seria essa “O Porto” que faz Leonor tão bem expressar na série de painéis tecidos a representar o Douro: “Não vejo mais o espaço, sou cada uma, áspera, lúbrica / Violenta ou doce feito mel / Gerada neste berço de família de pedras em cadeia / Esculpidas pela Natureza”.

Privilegiados os que conheceram Leonor Alvim, que perdurará através de seus painéis carregados de emoção, de lirismo e da força interior. Seus poemas seguirão como a segunda via, necessária, imperiosa até, nessa integração plena cor e palavra, vida e o amor.

From Leonor Alvim Brazão – who organized the event “Obrigado, Sígrido”- I have received the poetry book “Palavras Soltas” (Loose Words), written by her mother, the late Leonor Alvim, a dear friend who lived in São Paulo for some years, fleeing from the Carnation Revolution (1974) in Portugal. Leonor was a multifaceted artist: talented pianist and teacher, visual artist (her fabric collages are spread through private and public collections in various countries) and also a poet. This last talent was unknown to me, though we’ve been friends for more than twenty years. This post is a brief appreciation of her book, in which the amalgamation between her paneaux collages and her thought-provoking poetic language is a constant, as evidenced by the book’s magnificent illustrations. Leonor passed away in 2012, but she will remain with us through her collages charged with emotion, lyricism and inner strength. Her poems are a second path, necessary, even imperative, for merging into a single art color-word, love-life.

 

 

 

 

 

 

 

 

O Olhar de Lince e a Escrita Inteligente

Pouco nos importa o modo de expressão
que colocou em movimento a sensibilidade de um artista.
O que desejamos em troca de nossa  “incuriosidade”  respeitosa
sobre  processo emotivo
é que ele não introduza maneiras estranhas
nos modos de expressão que lhe são peculiares.
Georges Migot

Inúmeros foram os posts nos quais inseri considerações do dileto amigo e ilustre compositor e pensador francês François Servenière. A temática gravita preferencialmente em torno da Música, mas tantas vezes, devido ao direcionamento dos posts, Servenière demonstra todo seu vastíssimo acervo cultural que o torna um pensador de estirpe.

Os dois posts a respeito de “Domador de Sonhos”, de Norberto de Moraes Alves, serviram para Servenière considerá-los sob várias facetas, a partir do “sonho” como desiderato almejado. Ao considerar frase de Norberto de que não deveríamos deixar que nossos sonhos se percam no mundo das ilusões, o mestre francês observa:

“Inicialmente, o título do livro de Norberto de Moraes Alves é magnífico, pois evoca o que todos nós somos e o percurso que empreendemos pela vida tão curta como ‘domadores de sonhos’. Deles partimos e tentamos domá-los, na medida de nossas possibilidades, trazendo-os à realidade, partindo do idealismo em direção ao realismo. Acredito que os sonhos mais loucos são realizáveis, pois, como diz meu sogro, com forte pronúncia regional, aposentado e carpinteiro de profissão, portanto muito próximo das coisas da vida, ‘quando se quer, faz-se’. Sim, a vontade é a verdadeira escavadeira da vida, que torna possível as pistas de decolagem de nossos sonhos mais absurdos. Você, eu, meu pai e meu sogro somos exemplos de ‘quando se quer, faz-se’ e estamos longe de ter esgotado essa exigência de sonhos a realizar. O que mais detesto nesse mundo é a procrastinação, tão presente nos políticos clientelistas de nossos países, principalmente nos dias de hoje, que não fazem outra coisa do que surfar sobre as mentiras, que não vivem que da ficção da vida a crédito, levando nossos países à ribanceira sob o pretexto de que a dívida será o único motor das economias modernas, quando na verdade é o principal câncer. Quanto à política e seu cinismo… eu ainda sonho combatê-los, talvez contra moinhos de vento…

A sinceridade raramente casa com a popularidade e com os negócios. Para a composição, a equação do establishment é aquela de juntar-se com as aspirações do público, ou seja, de partir dos anseios deste para a criação de uma obra. A equação do autor autêntico, do artista autêntico, é partir de sua interioridade para o nascimento de uma obra que possa evidentemente encontrar sucesso e se instalar no coração e no espírito das pessoas. A prova evidente do fato das maiores obras da humanidade tornarem-se atemporais reside não somente nesse falar direto aos corações e aos espíritos do público, não fazendo abstração da exigência. Ao acoplar-nos ao desejo do povo, tornamo-nos populistas. Ao aderirmos ao excesso do princípio da exigência, tornamo-nos, inversamente, ideólogos e incomunicáveis. A melhor fórmula já não teria sido aventada pela filosofia chinesa em sua imanente verdade ‘O espírito busca sempre caminho mais longo que o coração, contudo jamais ele irá tão longe’.

Sim, eu entendo, os apóstolos da arte contemporânea pretendem que falar com o coração é vulgar e faz parir romances vendidos nas estações ferroviárias, portanto pateticamente fracos, temática e semanticamente, segundo o princípio por eles entendido como universal ‘Não se faz arte com bons sentimentos’. Norberto de Moraes Alves pretende que ‘não deixemos nossos sonhos perderem-se no mundo das ilusões’.

Sob a égide dessa frase, e para resistir ao Maelström que representa a constatação de um de seus últimos posts, ‘a arte foi invadida pela massificação, que não subsiste que através do efêmero’; é necessário criar e escrever obra que se sustente. Essa perenidade não acontece evitando-se as tentações da sedução, escrevendo-se uma música antimusical ou antissedução, mas criando, ao contrário, uma música tão ou mais sedutora do que aquela que por vezes é encontrada no estilo efêmero e no turbilhão do alto consumo. Que fique claro, essa música sedutora e envolvente tem de possuir qualidades intrínsecas de elevada condição estrutural e semântica, repleta de prazeres e de surpresas e embasada na técnica segura. Todo o material da música atual está disponível, instrumentalmente ou sob o prisma composicional. Construir uma obra que seduza, feita sob a égide hedonista, mas a responder a critérios de qualidade extrema, tornou-se exigência para o futuro da arte renovada, em todos os seus domínios. Isso é possível, pois ‘há ainda muitas obras primas a serem escritas em dó maior’. Nossos antepassados em França, Debussy, Ravel e mais recentemente  Messiaen e Dutilleux, fizeram essa façanha, como em todos os centros. Villa-Lobos, Guarnieri, Mignone e Oswald em seu país, Lopes-Graça em Portugal, assim como tantos nos países do Leste e nos Estados Unidos… Nada é impossível, tudo se pode, em todo lugar e sempre. Nada resiste ao trabalho e ao espírito.

É evidente o aspecto empresarial em torno das obras atuais mais ventiladas. Seria necessário o pouco provável retorno a um renascimento artístico, único capaz de suscitar novamente grandes obras e fazer emergir grandes artistas, certamente escondidos hoje no ‘anonimato’, como você bem lembra em seu post, artistas ligados ao preceito dos antigos atenienses – ‘verdadeiro, belo e justo’-, ontologicamente impregnados da síntese e da simplicidade.

Todos os sintomas sociais estão presentes sobre a Terra para mostrar não somente a necessidade do retorno às virtudes ‘clássicas’, mas também a vital impulsão pela busca da fé em outra coisa que não os ‘produtos de consumo correntes’ – mesmo os produtos artísticos tornaram-se de ‘consumo corrente’. Não mais satisfazem parcela da população, mas enriquecem muitos. Quanto ao espírito?

Falando dos artistas que são apresentados como modelos poderosos do show-business atual, consideremos que outros extraordinários artistas não são evidentemente promovidos a contento, ou mesmo quase nunca, apesar de não termos o recuo histórico para analisar. Leis do mercado. Contudo, mesmo nos Jogos Olímpicos aquele que sai primeiro nem sempre cruza a linha final. É a fábula do coelho e da tartaruga.

O círculo é vicioso, pois perdedores e vencedores, segundo os critérios das mídias à maneira do Maesltröm, não vivem todos num mesmo planeta. De um lado, o sucesso e meios financeiros imensos, do outro uma ausência de sucesso e meios financeiros limitados que impedem a aparição pública de obras mais exigentes e inovadoras.

Malgrado todas essas constatações, os artistas, sejam eles de geografias diferentes e de talentos e méritos vários, sejam quais forem suas linguagens, gêneros ou estilos, todos estão restritos ao idêntico paradigma, aquele do ‘hic et nunc’, que demonstraria que a posteridade tem raramente a possibilidade de reavaliar méritos e talentos ‘post-mortem’ do artista. Reconhece-se a força de uma obra também através da capacidade do artista se produzir, seja lá a qual preço. Nessas circunstâncias, não há consolação ou vitória exterior, mesmo se carreiras são feitas de repescagens permanentes e os destinos do tipo fênix, que renasce das cinzas.

É injusta, mas a lei da vida estabelece a seleção natural e esta é cega. Sem concessão. Sem ter plano preconcebido, preserva contudo os melhores, aqueles que transmitirão o bastão à geração seguinte. A natureza fixa regras aplicando-as de maneira darwinista implacável , tanto nas artes como em todas as áreas. ‘Struggle for life’ é o motor central e genérico de todas as existências sobre a Terra. A concorrência é rude, mas ela o é desde os espermatozoides. Nada mais fazemos do que continuar o processo.

Uma força imensa está presente em cada um de nós. Há aqueles que sabem aproveitá-la, dominá-la e fazer da vida algo excepcional, como existem os que passam ao largo, mesmo se considerarmos que a vida não presenteia no início as pessoas da mesma maneira. Sabe, contudo, distribuir cartas ao longo da existência, ao mérito, precisamente.

A vida não é justa ou injusta, ela é. Eis o que me levou à reflexão sobre seus dois textos em torno de ‘Domador de Sonhos’, de Norberto de Moraes Alves. Continuemos a ser indomáveis e obrigado por seus artigos sinceros e lúcidos, se bem que tristes, se considerarmos certos talentos”. (tradução: J.E.M.)

Once more I transcribe e-mail message received from the French composer François Servenière, now with his views on a subject addressed  recently: our dreams and the chances of making them come true and the difficulties to determine why so many talented artists live in obscurity, while others, maybe not so qualified, succeed in capturing media attention.

 

 


Aspectos da Divulgação

Nunca vemos fenómenos puros;
todo o fenómeno que nós observamos e que descrevemos para os amigos,
excepto quando é matemática pura, nunca é um fenómeno.
É uma autobiografia nossa,
é uma confissão
daquilo que nós somos e que vemos tal coisa desta ou daquela maneira,
diferente de outros.
Agostinho da Silva

Tenho apresentado ao longo desses anos posições a respeito da obra  e da sua divulgação. Incluo a produção artística, literária e o intérprete, no caso da área da música. Incontáveis as mensagens recebidas comentando a ventilação maior ou menor da obra conclusa ou do intérprete que a divulga. A sociedade, voltada mais aceleradamente à massificação, tende a concentrar seus interesses em nomes precisos. A proliferação dos criadores da produção artística não impacta vivamente os mantenedores do status quo. Preferem o aumento do público àquele de quem cria. Resulta na concentração de nomes. Divulgar autores “seletivos”, tantas vezes impostos por interesses de toda ordem – empresários, mídia, editoras, gravadoras -, tem sido constante, mormente a partir da segunda metade do século XX, marcada por progressiva edificação de “ídolos”, muitos deles com pés de barro. Descoberta a mina, essa é explorada à exaustão.

O tema vem a propósito de pergunta que me foi colocada por uma das senhoras integrantes da Associação de Escritores de Bragança Paulista. Lera o prefácio de “Domador de Sonhos”, de Norberto de Moraes  Alves, publicado no último blog.  “Se Norberto é tão bom em tantas obras, como de fato é, não pareceria injusta a pouca divulgação em outros meios de comunicação?”. Só posso tristemente concordar. Razões são muitas, a partir da geografia.

O eixo São Paulo-Rio de Janeiro prioritariamente abriga considerável porção da atividade artística em suas programações, assim como das editoras mais afamadas. Decorreria a permanência junto à mídia daqueles “protegidos” por esse sistema centralizado. Espaço menos amplo tem sido destinado para a divulgação não apenas da produção artística como da editoração dos “não abrigados” pelo sistema. Recolhem-se estes às pequenas salas de espetáculo, diria espaços de “resistência” e às editoras pequenas, que lutam com dificuldades. Esforços hercúleos podem ser sentidos em numerosas cidades de nosso extenso mapa. Mantêm  orquestras, corais, “importando” intérpretes daquele eixo, assim como dão guarida às minúsculas editoras, tantas delas de grande mérito. E o que se assiste, em acréscimo, é a visita a essas editoras de escritores e poetas de grande mérito, que sabem não ter acesso às grandes empresas editoriais. É um círculo bem vicioso. Reúnem-se esses autores dessas cidades menores, à semelhança das capitais e cidades com maior adensamento populacional, em meritórias Academias de Letras. Melhores ou piores? Diria que, mesmo na Academia Brasileira de Letras, tantos por que lá passaram estão “imortalizados” apenas nas atas e nos números das cadeiras que ocuparam. As pequenas Academias, proporcionalmente, obedecem ao mesmo fluxo da meritocracia maior, menor ou até inexistente. Todavia, a exemplo de nosso personagem real Norberto de Moraes Alves, quantos não foram realmente bafejados pelas musas?

No que concerne a literatura, o que se assiste nos países de língua portuguesa, de maneira bonita, despojada, saudosista e, paradoxalmente, esperançosa, é a presença de inúmeros autores de raro valor que permanecem com obras editadas em pequenas tiragens, que testemunham o pulsar poético-literário que jamais fenece. Tive a oportunidade de ler livros de poemas de minúscula tiragem editados em Portugal – incluindo o fertilíssimo veio poético dos Açores -, assim como em Cabo Verde, Moçambique e Angola e impressiona-me a natural inclinação ao verso. Infelizmente, muitos autores desaparecem levados pelas torrenciais chuvas da vida cotidiana. Por vezes, um é pinçado, mercê do acaso ou de tantos outros fatores claros ou estranhos. Em recente post abordei “O Canto da Palavra”, de Idalete Giga, alentejana como Florbela Espanca, esta que tem sido, felizmente, estudada e divulgada mais acentuadamente. Idalete Giga, em versos despojados, conta-nos o pulsar alentejano. Entre outros poetas e contistas de tendências várias já resenhei livros de José Paulo Paes (extraordinário poeta e tradutor, tão pouco mencionado atualmente), do catalão Joan Reventós i Carner (o magnífico “Os Anjos não Sabem Velar os Mortos”), do português António Menerez (“Crônicas contra o Esquecimento”), dos irreverentes Betho Iesus  (“A Casa de Vidro”) e Luca Vitali (“Amo-Te-Me”). Claramente, na categoria da ampla divulgação, autores são “ungidos” pela mídia graças a um sem número de fatores influentes, não se descartando as possibilidades financeiras. Expostos ao público, são ventilados e recebem atenção. Melhores dos que os tantos meritórios das pequenas tiragens? Tenho lá minhas dúvidas. Esses permanecerão ocultos e, raramente, a história, em seu fluxo “arqueológico”, redescobre e revela com trombetas obras de valor. Cora Coralina (1889-1985), poetisa da gema, não poderia estar esquecida não tivesse a segunda edição de “Poemas de becos de Goiás e estórias mais”, de 1978, saudada pelo extraordinário Carlos Drummond de Andrade em 1980? “Se há livros comovedores, este é um deles”, escreveria o poeta. Quantas sensíveis Coras não existem nos rincões que abrigam a língua portuguesa? A notoriedade, nem sempre merecida, leva à acolhida de escritores, pintores e músicos. Seriam necessárias as apreciações de outros Drumonds, assim como razões várias para que haja recepção por parte dos produtores.

Se Norberto de Moraes Alves é admirado pela comunidade dessa Bragança Paulista, pela qual particularmente tenho um afeto especial, urgiria divulgar seus livros. Como e quando? Pergunta que ficaria sem resposta, hélas.

Talentos existem espalhados pelo imenso país. Escritores e poetas têm a possibilidade de realizar prazerosas tertúlias em incontáveis cidades menos adensadas e não raramente desponta um mais privilegiado pelas musas. Essas reuniões os motivam ao constante ato de escrever. Na música e na pintura a proximidade dos centros maiores torna-se imperativa para a divulgação. O intérprete tem de estar em constante contacto com centros maiores, sob o risco de estiolar-se, mormente na juventude. Poder-se-ia dizer o mesmo em relação à pintura e à escultura. Contudo, os mecanismos que levam ao conhecimento público são basicamente idênticos, a envolver empresários, mídia, profissionais de divulgação, marchands, patrocínio, recursos… Se o mérito intrínseco independe tantas vezes dessas convergentes, intérpretes musicais meritosos podem passar a existência numa nostálgica penumbra, se não estiverem em contato permanente até a juventude da idade madura com centros avançados, quase que obrigatoriamente do Exterior. Seria claro entender também que a índole do músico intérprete pode estar voltada unicamente à qualidade, distanciando-se voluntariamente da cultura de massas. Na Europa, como exemplo, quantos não são os intérpretes excepcionais que preferem o aprimoramento apenas e não a busca dos holofotes, restringindo-se suas apresentações a territórios por eles escolhidos. Mestres impecáveis vivendo em cidades pequenas, vilas ou aldeias. Frise-se que essa atitude individual, intransferível e voluntária só é possível após a assimilação plena da linguagem musical, ou seja, na maturidade do ser.  Não obstante o fato do dirigismo acentuado proposto pelo sistema, temos que reconhecer que os intérpretes mais ventilados que circulam pelo planeta têm qualidades fundamentais que os recomendam.

Seria utópico pensar numa abertura a visar à meritocracia. Essa implicaria a introdução no mercado de quantidade de escritores, poetas, pintores e músicos rivalizando com aqueles, que o público conhece. E isso, nulamente, não interessa ao sistema. Lamentável, mas é fato.

The release of the book “Domador de Sonhos”, written by Norberto de Moraes Alves, in the city of Bragança Paulista last week was the starting point of this post: a reflection on the existence of talented artists whose work, by lack of distribution channels to reach wider audiences, remain hidden within the limits of their own cities.

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No link abaixo o leitor terá acesso à “Suonata Terza” das “Sonatas Bíblicas” de Johann Kuhnau, sempre sob os cuidados de meu amigo maratonista Elson Otake. Belíssima obra que ilustramos com imagens referenciais.

Clique para ouvir a “Suonata Terza” das “Sonatas Bíblicas” de Johann Kuhnau. Piano: J.E.M.