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“Prefácio à  Segunda Edição” de “A Velhice do Padre Eterno”

A crença é como o luar que nas trevas flutua;
A razão é do céu o esplêndido farol:
Para a noite da morte é que Deus nos deu lua…
Para o dia da vida é que Deus fez o sol.
Guerra Junqueiro
(“A Velhice do Padre Eterno” – (quadra de “Aos Simples”)

Conversava com minha dileta amiga Jenny Aisenberg sobre epígrafes inseridas no blog semanal. Chegamos a Guerra Junqueiro (1850-1923) e às diversas citações que faço de seus livros. Ao comentar a respeito de uma de suas obras primas, “A Velhice do Padre Eterno”, falei-lhe do prefácio para a segunda edição, datado de 1887, e publicado postumamente (Porto, Lello,1926). Estudos aprofundados foram feitos sobre esse prefácio, mormente concernentes às argumentações de Junqueiro quanto às críticas que recebeu quando da primeira edição do livro. Teria dito ao seu amigo Luís de Oliveira Guimarães “Os políticos consideram-me um poeta; os poetas, um político; os católicos julgam-me um ímpio; os ateus, um crente”. Ater-me-ei ao texto introdutório às críticas que o autor recebeu, rebatidas com argumentações que clareiam seu pensamento quanto às intenções de “A Velhice do Padre Eterno”. Nesse, que entendo como preâmbulo, Junqueiro fixaria “doutrina” sobre seu pensar a respeito da obra conclusa, julgamento alheio, qualidade, temporalidade de um livro impresso, valor e mediocridade, podendo-se aferir conteúdo precioso nos muitos parágrafos. As Artes agradecem a lucidez desse texto inequívoco, que anatematiza a obra sem mérito iluminada temporariamente pelos holofotes. Aspecto fulcral que tenho há longos anos debatido neste espaço relaciona-se à perenidade de uma criação. O pouquíssimo qualitativo perdurará. Sob outra égide, aprofundamentos que se acentuam têm provocado a emersão de obras de absoluto valor rigorosamente desconhecidas.

Guerra Junqueiro, escritor, poeta, jornalista, alto funcionário público, político e colecionador de obras de arte, foi em vida o mais popular poeta português. “A Velhice do Padre Eterno” é uma de suas mais importantes e difundidas criações.  Teve longa gestação e seria publicada em 1885. Ao ser difundida, houve forte reação do clero português.

Em blog bem anterior já abordáramos o grande literato através da musicalidade que emana de seus poemas (vide “A Música de Junqueiro – A Música para Junqueiro”, 03/07/2010).

Do longo “Prefácio à segunda edição”, datado de 1887, exibirei o segmento que antecede as considerações específicas da “Velhice do Padre Eterno”. Guerra Junqueiro não é apenas um grande mestre da língua portuguesa, como um pensador de alta estirpe. No presente, em que a escrita e a fala têm sido tão ultrajadas em nosso país, por vezes deliberada e intencionalmente pelos senhores da política, que não tiveram a humildade de ao menos conhecer seus rudimentos, o texto que segue é o exemplo do respeito à língua mãe. Sob outra égide, Guerra Junqueiro frequenta com maestria o universo metafórico, jamais no sentido da erudição pela erudição, mas a substanciar argumentações.

“Nunca discuti, nem jamais discutirei com quem quer que seja, o valor literário duma obra minha.

Um livro atirado ao público equivale a um filho atirado à roda. Entrego-o ao destino, abandono-o à sorte. Que seja feliz é o que eu lhe desejo; mas, se o não for, também não verterei uma lágrima.

Não faço versos por vaidade literária. Faço-os pela mesma razão por que o pinheiro faz resina, a pereira, peras e a macieira, maçãs: é uma simples fatalidade orgânica. Os meus livros imprimo-os para o público, mas escrevo-os para mim.

Contudo, desde o momento em que ponho as minhas ideias à venda em todas as livrarias, equiparo-me a qualquer produtor que manda os seus produtos para o mercado.

Com uma diferença, no entanto: O artífice e o industrial podem encher de reclames bombásticos, de elogios próprios as esquinas das ruas ou a quarta página das gazetas. É esse o seu interesse. O artista, pelo contrário, perante os aplausos  ou perante as inventivas, deve manter-se absolutamente digno e silencioso. É esse o seu dever. Um poeta não é um marceneiro.

Enquanto a crítica, no uso dum legítimo direito, avalia livremente os meus versos, julgando-os ou ótimos ou medíocres ou detestáveis, eu, em vez de ir para os jornais defender a minha obra, provando que ela é uma maravilha e o seu autor um homem de gênio,  acho um bocadinho mais sensato e mais útil esquecer-me do livro feito para me lembrar unicamente do livro a fazer. Cortada a seara e recolhido o trigo, arrotea-se o campo e semeia-se de novo.

Cheio de luz ou cheio de sombra, alegre ou triste, que importa o dia de ontem? É um cadáver. Deixá-lo em paz. Pensemos no dia que há de vir, fitando o azul na direção da aurora. Só os viandantes exaustos é que se sentam de tarde à beira das estradas, medindo em silêncio, melancolicamente, o caminho percorrido.

Nós, os que temos ainda força, não descansemos um minuto. O dia é breve e a jornada é longa. E os que quedam, contemplativos, a olhar para trás, ficam muitas vezes, como a mulher de Loth, empedernidos em estátua.

A nossa obra é o nosso monumento. Não o cerquemos de grades de ferro, com sentinelas armadas para o proteger, nem desperdicemos a existência a dourá-lo constantemente de novo a ouro fino, a brunir-lhe as asperezas com o esmeril dulcíssimo do amor próprio e a sacudir-lhe as teias de aranha irreverentes com um espanador olímpico, feito de grandes caudas de pavão.

Ao contrário. Levantemos a nossa obra com toda a coragem, ao ar livre, na praça pública, sem muros que a vedem e sem granadeiros que a defendam. Batam-na os ventos, crestem-na os sóis, lasquem-na os raios, a ferrugem que a vermine, a lama que a conspurque e os cães que a mordam. E depois de exibida assim durante vinte ou trinta anos a todas as admirações e a todos os insultos – desde as coroas da apoteose até aos coices dos onagros – depois de lhe terem passado por cima o gelo de trinta invernos e o fogo de trinta estios, então, e só então, meus amigos, é que poderemos averiguar com segurança se o nosso monumento para a imortalidade era de bronze ou era de zinco, era de mármore ou era de gesso.

Sim, o crítico dos críticos é só ele – o tempo. Infalível e insubornável. As grandes obras são como as grandes montanhas. De longe, vêem-se melhor. E as obras secundárias, essas quanto maior for a distância, mais imperceptíveis se irão tornando.

Não falo de mim, porque não sou vaidoso nem orgulhoso. A vaidade é o orgulho dos imbecis e o orgulho é a vaidade dos gênios. Ora eu francamente não pertenço a nenhuma dessas categorias. O triunfo, o aplauso público, a rajada de incenso não têm o dom de me embriagar. Não me estonteia o cérebro a vulgar monotonia das grandezas literárias.

Alexandre Dumas, nos últimos tenebrosos meses de sua vida, teve uma noite um pesadelo mortal, um pesadelo trágico.

Sonhou que no alto de um Himalaia monstruoso estava, soberba e resplandecente, a estátua vitoriosa, a estátua de ouro dum ídolo enorme. A estátua era a dele, e o pedestal, o Himalaia – as suas obras. De repente, num segundo, a grande montanha esboroou-se como uma montanha oca de pedra pome ou de caliça, e a estátua do ídolo, que não era de ouro mas de barro, partiu-se e esfarelou-se também, ficando sepultada debaixo dos escombros efêmeros do seu próprio pedestal.

E o sonho realizou-se. Alexandre Dumas, de quem Michelet dizia que era umas das forças da natureza: Alexandre Dumas, cuja glória atroadora encheu o mundo durante um quarto de século, hoje, tem sido um gigante, pode passar sem se curvar, que passará à vontade, por baixo das pernas de Balzac. Um cresceu, o outro diminuiu.

Ah! Quantos e quantos pseudo sublimes artistas duma hora, ex grandes gênios dum semestre, não têm assistido em vida ao enterro de 4ª classe da sua imortalidade, aos pobres e mesquinhos funerais da sua glória, que velha, calva, desdentada, coroada de louros secos e rosas tristes de boião de farmácia, foi dentro de um lençol de misericórdia para a vala comum, para o cemitério anônimo do esquecimento e do desprezo!

Os séculos são as montanhas do tempo. Cordilheira imensa, cordilheira titânica sem fim e sem princípio! E nos topos alcantilados e inacessíveis de cada um desses Horebes monstruosos ficam apenas, com o correr das idades, meia dúzia de gênios, faróis inextinguíveis, archotes crepitantes, incêndios imorredouros que, resplandecendo de montanha em montanha, de século em século, nos deixam estender os nossos olhos curiosos pela caverna profunda do passado, pelo abismo da noite, o insondável cemitério da vida que se chama a História!

Enquanto a nós, Shakespeares das nossas comarcas, Dantes do nosso concelho, Homeros da nossa freguesia, podemos estar perfeitamente descansados acerca do destino que nos espera. Somos uma via láctea de constelações da qual, volvidos meia dúzia de séculos, restará quando muito meia dúzia de pirilampos.

E é por estas considerações, duma imensa humildade cristã, que eu, apesar de ser incontestavelmente o primeiro poeta da minha terra – Freixo de Espada à Cinta – nunca discuti, nem discutirei com quer que seja, o valor literário de uma obra minha.

No entanto, como nisso não há imodéstia, estou sempre pronto a discutir imparcial e tranquilamente os princípios de filosofia, as ideias gerais, os pontos de vista críticos que serviram de base fundamental para qualquer dos meus livros.

Daí este prefácio”

Guerra Junqueiro, que permaneceu pela qualidade da opera omnia, segue num segundo momento a analisar a recepção crítica desfavorável à primeira edição de “A Velhice do Padre Eterno” e a rebatê-la.  Pormenoriza-a, sem faltarem ceticismo, livre arbítrio, humor sombrio e até desilusão altiva. Apesar do anti-clericalismo, Deus e o Cristo são constantes nesse turbilhão de ideias criativas. A sua formação católica não se faz negar.

In this post I transcribe part of the preface of the book A Velhice do Padre Eterno (The Old Age of the Eternal Father), by the Portuguese poet Guerra Junqueiro (1850-1923), a series of satiric and anticlerical poems criticizing conservatism and the Church. However, what interested me in particular was the first part of the preface, in which Junqueiro discusses with absolute clarity and perception the issue of mediocre and meritorious works, stating that only the latter will stand the test of time.

 

 

 

“Um Líder Vitorioso”

Eu imagino o que São Paulo não faria hoje
se tivesse à sua disposição uma rádio, uma televisão,
um jornal escrito, uma revista,
os meios de comunicação modernos, atuais, a informática, a internet…
O que ele não teria feito se tivesse ao alcance das mãos
também esses meios de comunicação que temos hoje.
Dom Odilo Scherer  – Cardeal Arcebispo Metropolitano de São Paulo
(comentário publicado em 24 de Janeiro de 2013 pela TV Aparecida)

A figura de Paulo de Tarso é fascinante sob todos os aspectos. Originário de Tarso (hoje Tarsus, Turquia), viveu aproximadamente de 8 a 64-68, quando morre em Roma. De implacável perseguidor dos primeiros cristãos tornar-se-ia um dos santos mais cultuados pela Igreja Católica Apostólica Romana e pela cristandade ao longo da história. Foi também um dos primeiros e mais esclarecidos seguidores dos ensinamentos do Cristo, apesar de não ter integrado a geração de discípulos que teve diretamente contacto com Jesus. Catorze são as “Epístolas” a ele atribuídas, umas poucas de autoria questionada. É-nos facultado conhecer São Paulo igualmente através do “Atos dos Apóstolos”. Através dessas fontes independentes, que basicamente se completam, podemos ter a edificação do extraordinário personagem.

Se Paulo de Tarso ou São Paulo é um dos mais estudados santos da Igreja, sob outro aspecto haveria sempre a possibilidade para outras interpretações no que concerne à sua vida e à extraordinária divulgação da fé cristã. A vastíssima bibliografia estaria sempre in progress, pois novos estudos, olhares diferenciados continuam a enriquecer realidades e estimulam também a lenda, quando propagada pela oralidade.

Betho Ieesus se propôs a uma difícil tarefa. Escrever um livro sobre Paulo de Tarso, a salientar o aspecto de liderança e poder mental do apóstolo. Tarefa árdua, que mereceria um aprofundamento necessário junto às fontes históricas, a fim de que a figura de São Paulo não fosse adulterada. Cumpriu brilhantemente essa missão personalíssima. Durante cinco anos, sob o olhar cuidadoso do Padre Zezinho, SCJ, debruçou-se sobre a literatura existente, a buscar apoio para seu livro bem original na abordagem.

Para quem conhece Betho Ieesus nada parece impossível. Arquiteto e engenheiro de áudio competente – o que é raríssimo no Brasil – , violonista, compositor e poeta, Betho surpreende literariamente mais uma vez. Seu instigante livro de poesias, “A Casa de Vidro”, teve resenha neste espaço (vide blog 30/04/2011).

Como trazer para os nossos dias a figura de Paulo de Tarso, o nosso São Paulo – apóstolo dos gentios – que deu nome à nossa hoje sofrida e mal tratada megalópole? Fazê-lo mais perto de nós, apreender a essência espiritual e prática das “Epístolas” e dos “Atos” sem fixar amarras e tecer elucubrações o que tornaria, por consequência, qualquer incursão teológica ou acadêmica plena de armadilhas. Já não escreveria que “a letra mata, mas o espírito vivifica” (2 Coríntios 3:6)? As “Epístolas” de São Paulo têm a característica da clareza e da compreensão, sem que se busque na hermenêutica soluções alheias ao espírito no qual o santo tanto acreditava. Fatos e textos espirituais de um homem apaixonado pela causa, imbuído de um ideal absolutamente religioso, frise-se, escritos no contexto da época, mas de dimensão atemporal.

“O Incansável Paulo de Tarso – Um Líder Vitorioso” (São Paulo, Loyola, 2014) tem como prefaciante meu irmão, o notável jurista Ives Gandra Martins, que afirma que o livro de Betho Ieesus “historicamente é irreprovável”. E o é pelos caminhos traçados pelo autor. Betho percorre a biografia do santo, da infância à decapitação em Roma. Diria que, à maneira de um viajante que percorre estrada litorânea, o grande mar está sempre à vista. Betho Ieesus traduz e interpreta a trajetória de Paulo de Tarso, caminhando ao seu lado, a buscar, na própria escrita descontraída, humanizar ainda mais – se isso fosse possível – a figura do apóstolo. Seu texto tem a vestimenta de um romance histórico, sem o ser realmente. É claro, objetivo, sincero e agradável. A narrativa de Ieesus tem no preciso momento o esclarecimento epistolar de São Paulo, a fim de que dúvidas não pairem. Se o seguir as longas viagens de Paulo de Tarso testemunha o conhecimento, não poucas vezes o autor, como em uma pausa para balanço, reconstrói o perfil do santo “Paulo foi fundamental, mas não foi o único que se sacrificou; tampouco pode-se atribuir a ele a exclusividade na ‘fundação’ do cristianismo. Ele fez parte de um exército imenso de lutadores martirizados, muitas vezes anônimos. Um exército de paz em que todos nós ainda podemos nos alistar”.

Betho Iesus justifica o porquê do subtítulo, “Um líder Vitorioso”. À guisa de informação, mencionaria algumas das inúmeras qualidades de São Paulo atribuídas pelo autor: “Sabia motivar e inspirar as pessoas; desenvolvia laços afetivos com elas; tentava acordos até o fim (judeus em Roma); mesmo recluso, não parava de articular seu ideal; respeitava as leis e o direito alheio; tinha uma rotina de trabalho com disciplina; liderava pelo exemplo; estava presente nas assembleias, criando um corpo comum ligado a ele, não se isolava na liderança; era generoso no perdão; dividia seus discípulos em equipes funcionais; sabia delegar, confiar e cobrar; sabia que teria que deixar uma sucessão à altura e a preparava para a obra não morrer; admitia derrotas como ensinamentos e era otimista”.

Têm interesse os “recortes” que Ieesus aplica em segmentos essenciais. Facilita para o leitor a compreensão histórica: O Papel das Mulheres, Tradições Culturais e Falsificações, Roubos, Extravios. Essas “caixas” posicionam-se em momentos precisos da leitura.

“O Incansável Paulo de Tarso” é livro para ser apreciado em sua essência. O texto claro, direto, comunicativo, descontraído, mas não desprovido de competência, ajuda-nos a entender, sob enfoque original, a figura extraordinária de Paulo de Tarso, São Paulo. Recomendo-o vivamente.

This post is an appreciation of the book O Incansável Paulo de Tarso (The indefatigable Paul of Tarsus), written by Betho Ieesus, who is also poet, musician, sound engineer, architect… A result of five years of sound research, it addresses – with the use of light language – life and work of Paul of Tarsus, or St. Paul,  Apostle to the Gentiles, from his birth to his beheading in Rome, and the lesson of courage, persistence and faith of one of the greatest religious leaders in the history of Christianity.

 

 

 

 

Posicionamento que Merece Atenção

Inútil comentar que aqueles que têm em conta a Academia
tornaram-se totalmente surdos a qualquer música natural.
Formam uma casta de técnicos para os quais
o valor de toda a música se mede através da complexidade da escritura.
Para eles, o canto gregoriano e a música dos trovadores não têm interesse,
pois comportam uma só voz , resultando música fácil.
André Souris (1899-1970)

Ao considerar a proliferação de compositores e filósofos, baseando-me na observação de Serge Nigg (1924-2008),  primeiro músico francês a compor obra dodecafônica em França, na qual frisava que a partir de certo momento só era apresentado a compositores, pois “todos” assim se intitulavam, observei que, ao longo da última década a preceder minha aposentadoria em 2008, cada vez mais frequentemente alunos cursando ou egressos dos cursos de música-composição e filosofia pronunciavam-se como compositores e filósofos. Mais penetram em elucubrações a partir das tendências multidirecionadas da composição e do pensar, mais acentuadamente tentam diminuir as definitivas contribuições de compositores que permanecerão. André Souris, autor da epígrafe, menciona J.S.Bach, Beethoven e Debussy como alguns exemplos, “vítimas” de determinadas correntes “composicionais”. No pensar filosófico, Russell Jacoby e Vitor J. Rodrigues (vide blogs 21/03/2009 e 14/08/2010, respectivamente) já sinalizavam  empáfias similares às apontadas.

Quanto à música, seria possível constatar que a ascensão dos meios eletroacústicos, que não necessariamente implicou qualidade dos “compositores”, camuflou capacidades, em parte embaçando-as por “falta” de parâmetros de julgamento, levando à multiplicação de autores. Dezenas e dezenas de compositores têm obras selecionadas para as Bienais de Música Contemporânea aqui e alhures. Serge Nigg observa: “Diria que todos foram subitamente tocados pelas graças das musas”. Seria isso crível?  Como bem intuía  o grande escritor e poeta português Guerra Junqueiro (1850-1923): “Sim, o crítico dos críticos é só ele – o tempo. Infalível e insubornável”.

O compositor e pensador francês François Servenière escreveu-me após a leitura do blog de 5 de Julho, a considerar vários fatores influentes nessa multidirecionada diversidade de meios de composição da atualidade. Sente em França o peso de tendências institucionais corroborando a edificação de”mitos” inacessíveis, ininteligíveis para a grande maioria daqueles que labutam em áreas como música e filosofia. Elegem-se oráculos de suas gerações e assim são tratados pela mídia “especializada”. Extraí segmentos de sua longa mensagem.

“Para retornar ao tema de seu blog, só posso, infelizmente, pensar como você. ‘O hábito não faz o monge’ e os estudos de composição, como os de filosofia, não tornam aspirantes a  compositores ou filósofos realmente capazes. O tempo se encarregará da decantação, se  houver. A sequência de minha vida musical revelou-me uma verdade imanente: O melhor gramático não faz automaticamente um artista, um compositor, um escritor ou um filósofo. Para que o artista ou o pensador flua há a necessidade de outra flama, que implica a compreensão  íntima e a partilha das forças do Universo em si. Não nego que as matemáticas constituem uma das forças que arquitetam a música e o Universo, se bem que música e Universo existam antes das matemáticas, estas relativamente recentes. Todavia, tenho a mais extrema reserva em relação aos compositores que entram na música pelas matemáticas. Diria mesmo que, se eles entram por essa porta, não encontrarão aquilo que procuram, como no caso do ‘albergue  espanhol’ (lugar por onde passam pessoas de diversas procedências). Os compositores que vivem a acrescentar sons e notas, sob pretexto da infalibilidade de modelo matemático (o caso da série aplicada a todos os parâmetros musicais é um dos maiores equívocos teórico-musicais, a mais extrema incompreensão do material original da música), apenas produzem dramas acústicos e desentendimento literário para os ouvidos do público.

No ato de compor, jamais pensei nas matemáticas, jamais, mesmo considerando ser meu espírito rigoroso e matemático. Sob outro prisma, sempre estive em concordância com recomendações de Debussy, bem antes de conhecer suas frases e conselhos históricos. Nunca deixei de pensar no prazer. Fui por ele guiado. Permanentemente me perguntava como Debussy deveria fazê-lo no ato da composição: ‘Se você quiser levar o prazer aos seus ouvintes, torna-se absolutamente necessário  começar por ter prazer ao compor’. Desde que sentia o prazer desaparecer de minha partitura, eliminava a passagem ‘não prazerosa’, sem qualquer remorso. Por várias vezes fiz ligações ou junções pela técnica composicional pura, pela sintaxe teórica e as cadências. Todavia, permanentemente as aperfeiçoava da mesma maneira que o pedreiro faz junções artísticas ao manusear belas pedras ou um marceneiro realiza cuidadoso encaixe para associar dois bonitos pedaços de madeira entalhados. Após muitos anos de labor, creio ter chegado a um êxtase que bem antes, numerosos compositores excelsos sentiram, como Gabriel Fauré. É o momento em que concluo que teria dificuldade em ensinar música teórica, tantos são os termos e ‘teorias’ agregados de ordem acadêmica que surgem nessas novas tendências, ininteligíveis para o público no resultado final, a composição.

Cheguei a um ponto onde a música sai de meu cérebro (como sempre, mesmo nos tempos de juventude, quando a ausência técnica freava o processo criativo, evidentemente) diretamente sobre a partitura, sem interface acadêmica. Nenhuma outra reflexão sobre a técnica musical aparece no ato criativo, só ‘o prazer como regra’ a guiar meu mouse e meus dedos a partir do comando cerebral. Essa regra é minha condutora e sempre o foi. Ao contrário dos teóricos, a prática (práxis), o material a ser trabalhado, limado, recortado, lapidado, interessava-me. Única razão de viver na música, nela pensar. Recusei funções docentes na Universidade de Rouen e na École Nationale de Musique em Laval. Entendia não ser o ensino meu caminho primordial.

Quando você aborda esses temas, apreendo fortemente seu ponto de vista, que me parece essencial e central. Assiste-se hoje em França a figuras institucionais em postos de poder se atribuírem títulos (de glória) de compositores, de ‘criativos’ que, na realidade, não merecem. Justificam esses títulos e postos por seus magistérios no Collège de France, o cume do ensino no país para todas as ciências enquanto que suas músicas convencem um número bem pequeno de ouvintes. Eis um caminho tortuoso evidente do sistema atual, que encoraja não somente esse tipo de carreira, mas também provoca o desvio da verdade ‘eu sou um compositor’ ou sou um ‘filósofo’,  pelo razão de se ter estudado nas grandes instituições do mais alto nível  (o status de compositor considerado um pouco como  função administrativa, com intenções de luta para a ascensão social e profissional em direção ao ápice, quando o essencial seria o desenvolvimento da mente criativa). Considerem-se igualmente os modelos típicos de carreiras mediáticas maiores, mas duvidosas sob o aspecto essencial da arte, só obtidas pelos portadores de diplomas e títulos e saberes de toda ordem. Essa situação para compositores, filósofos, escritores… O sistema demonstra, pois, que basta ser o melhor gramático para ser adulado como o melhor artista institucional. Onde estão as obras mestras? Busca-se sempre! E aí reside o profundo, manifesto e trágico erro. Vemos estranhos sábios, e a música (a verdadeira, a linguagem do coração) desaparece pouco a pouco de seus propósitos musicais institucionais. ‘Atentem para a minha música inteligente’, dizem eles! ‘Os senhores não a compreendem, e eu vou explicá-las durante seis horas, pois’. ‘Sim, ela é inteligente, mas ela não me causa qualquer efeito, ela não me diz nada’, responde em coro o público. ‘O que importa’, respondem os compositores institucionais, ‘se o povo não ama nossa música, nossos propósitos ou nossa ideologia, mudemos o povo, divulguemos, divulguemos nossas obras sem cessar, até que o povo nos compreenda’… E eis que nos sentiríamos num Stalag ou Goulag, ou nas escolas de reenquadramento mental das ditaduras ou mesmo tendo de engolir o Pequeno Livro Vermelho, sem compreender o que realmente está escrito, recitando à maneira pavloviana propostas que não nos interessam.

O relativismo colocado em evidência pela mídia, mais a ideologia e o marketing institucional, estabelecem o mesmo nível para todas as obras. É um equívoco, evidentemente. Não obstante, os indivíduos e os povos, desde que tenham meios, direcionam-se para os melhores produtos, para as ofertas mais qualificadas, mesmo as culturais. Não podemos resistir por muito tempo aos efeitos do Belo, e o ‘Clair de Lune’ de Debussy é aceito em quantidade apreciável de filmes. Não se trata de problema de cultura ou de ensino. Cada indivíduo é tocado pelo que é bonito, e isso está inscrito na alma dos seres vivos desde o momento que  tiveram acesso ao primeiro por do sol. A arte é solar! Não sem razão as civilizações mais expressivas do planeta tiveram o sol como Deus (Egito, Atenas, Roma, Europa…). Sol, água e o Belo. Metaforicamente, temos num plano inverso a sombra, o escurecimento, a morte, o niilismo, a frieza técnica e matemática, a supressão da vida nas obras, o risco da perda da identidade.

A política e as artes do século XX omitiram aspectos vitais da arte e da política. Retiraram a alegria, a felicidade, o partilhar, a dança, o prazer de viver e de respirar… e pariram não apenas os piores crimes da humanidade, como tiveram necessidade de bunkers para proteger suas ‘obras’ e sua ‘ciência superior’.

Eis minha prosa desta manhã, que se junta de maneira visceral e espontânea à sua, cultivada, talentosa, plena de experiências profundas e sensíveis, mas não divergente da minha. Não poderia ter um outro discurso diante das situações pelas quais você passou com esse jovem professor de filosofia que se diz ‘filósofo’. Tudo que escrevo sobre a música se aplica igualmente à área desse jovem. Como eu te compreendo!!!”  (Tradução: J.E.M.).

Às observações sensíveis sobre a composição soma-se o desvirtuamento que se amplia, em termos brasileiros, na área da filosofia. Se apontamos Russell Jacoby e Vitor J. Rodrigues, que denunciam desvios do pensar direcionados a estranhos holofotes, como não mencionar três casos típicos oriundos dos bancos universitários. “Filósofos” em pauta: uma vocifera ódio visceral contra a classe média, outro incita a invasão da propriedade privada e outra mais estimula o vandalismo. Casos recentes. Os dois primeiros de São Paulo e o terceiro do Rio de Janeiro. Se pensarmos que o último ex-presidente aplaudiu a fala em que a classe média mereceu frases descabidas e, sob outro aspecto, também tem vociferado em linguajar tantas vezes chulo a proclamar o “ódio” que a oposição teria ao seu partido, muito fácil entender que essa palavra não é pronunciada pela dita oposição. Reflexões, apenas reflexões.

P.S. Após a publicação do post da semana recebi e-mail de meu dileto amigo Magnus Bardela. Tece reflexões a partir da afirmação de Servenière pela qual “não podemos resistir por muito tempo aos efeitos do Belo”, pois somos irremediavelmente por ele subjugados. Pertinente, insiro, dias após a postagem, as considerações de Magnus:

“Concordo com o Servenière. Como já bem explicitado, é mais fácil se esconder nas sombras da técnica fria. Nem todos possuem luz própria – até no espaço sideral é assim… Sob outro aspecto, comentaria sobre o processo criativo de ‘tentativa-e-erro’ (trial and error, termo bastante usado em inglês em tantas áreas do conhecimento).

Depreendi do texto que há no método de compor do Servenière esse processo iterativo do ‘fazer – julgar/analisar – refazer’, até que se atinja um patamar de aceitabilidade. O parâmetro do aceitável é a autocrítica, o acervo técnico e a consciência do Belo e do prazer – como ele próprio escreveu. Entendo que esse procedimento criativo seja natural no homem, presente no artesão mais simplório e até nos mestres que reverenciamos. Pode ser uma obviedade, mas, para mim, é esse o processo original, movido pela curiosidade e criatividade/inventividade, resultando na expressão verdadeira do indivíduo. É uma construção de “baixo para cima”, em que as experiências se somam, se agregam, atingindo novas alturas. Por sua vez, os métodos (as ‘matemáticas’), se adotados às cegas e de maneira obtusa, sem a bagagem da experimentação, como se fossem ‘atalhos’ ou ‘fumaças’ para distração, só trariam resultados desprovidos de qualquer identidade, absolutamente vazios e sem significado. Impossível a aplicação ‘de cima para baixo’. Não há fundamento! Pergunto: Não seria essa a evidência da indiscutível necessidade dos 90% de transpiração (leia-se trabalho, empenho, interesse, dedicação, vocação direcionada) para que proporcionem, se tivermos sorte, a existência dos 10% restantes de inspiração?”

For the past years I’ve been receiving feedback from readers. One in special, the French composer François Servenière, often honors me with valuable comments on the subjects I address. His messages enrich my blog thanks to the great depth of what he writes. It was not different with his e-mail about the self-proclaimed philosophers and composers, which I quote here so that readers may see the subject in a new light.