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“Em Defesa da Música Portuguesa”

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On ne passe ni du chant instinctif à la musique,
ni du dessin d’enfant à la peinture,
ni de la justesse ou de l’émotion de la parole au roman;
depuis des siècles, entre l’expression instinctive et l’art,
il y a toujours un autre art.

On ne devient pas poète par un matin de printemps,
mais par l’exaltation d’un poème.

André Malraux

Dificilmente, quando estou em Portugal, o nome de Louis Saguer deixa de ser aventado. Alexandre Branco Weffort, que já nos brindou com excelente livro sobre Lopes-Graça (vide Movimento Editorial – Livros Portugueses sobre Música, 19/04/08), a cada visita minha a Lisboa presenteia-me com algo relacionado ao compositor nascido em Tomar: Cosmorame, Músicas Festivas. Apresentei a primeira coletânea na recente tournée. Ofereceu-me nessa viagem obra que eu estava a procurar há muito tempo. Trata-se do livro de Louis Saguer Em Defesa da Música Portuguesa (Lisboa, Gazeta Musical e de Todas as Artes, 1969). Presenteado na véspera de meu regresso, foi a leitura durante o longo voo até São Paulo. Somava-se a outra obra que ganhara dias antes: Um saudoso adeus distante para Louis Saguer, última das composições da série Músicas Fúnebres para piano, de Lopes-Graça.
Louis Saguer. Tudo aconteceu em 1959. Em Lisboa, solicitei ao grande compositor Fernando Lopes-Graça que me indicasse um mestre na acepção para complementar meu estudo pianístico, que estava a realizar em Paris sob a tutela de Marguerite Long e Jean Doyen. Sentia a necessidade de um professor para as áreas teóricas, apesar dos três anos a estudar em São Paulo com H.J. Koellreuter. Sem titubear, Lopes-Graça deu-me o nome: Louis Saguer.
Necessário se torna traçar um brevíssimo perfil de Louis Saguer (1907-1991). Nascido na Alemanha, naturalizou-se francês em 1947. Estudou com Tagliapietra, Louis Aubert, Arthur Honegger, Darius Milhaud, Paul Hindemith e Kurt Sachs. Na Alemanha, foi assistente de H. Eisler. Como compositor, muitas de suas obras tiveram prêmios relevantes e, após sua morte, pouco a pouco estão a ser divulgadas. Citemos a ópera Marianna Pineda, que lhe valeu o Grande Prêmio de Mônaco em 1964, Une flûte fuyant le sol à perdre haleine (Concerto para flauta e orquestra), Quase una fantasia (Concerto para piano e orquestra), Scheggue e Stralci para piano, vasta obra de câmara, criações para coros a capella ou com orquestra e tantas outras composições. Convidado, dirigiu em 1949 um curso sobre música francesa contemporânea em Darmstadt, apresentando obras de Boulez, Dutilleux, Jolivet, Messiaen. Regente, teve atuações marcantes, revelando em primeira audição composições significativas na condução da Orquestra da Rádio Francesa. Foi assistente do grande regente Hermann Scherchen. Luis Saguer falava oito línguas. Várias vezes esteve em Portugal, sendo que em 1962 dirigiu um curso de música contemporânea na Academia de Amadores de Música em Lisboa, juntamente com Jorge Peixinho.

A partir da esquerda: Lopes-Graça, Louis Saguer, Jorge Peixinho. Academia de Amadores de Música em Lisboa. Anos 60. Clique para ampliar.

Discreto, afirmaria: “Minha situação é somente a consequência de minha incapacidade de me promover com sucesso e de meu insólito caráter”. E continua: “não dever nada a ninguém, recusar qualquer publicidade, qualquer tratativa, qualquer combinação; contando apenas com a qualidade de meu trabalho e esperando que ele se imponha por si só. O pior obstáculo: os amigos que não querem aceitar minha atitude”. Hervé Désarbre escreveria: “Compositor, ele ignorava as concessões, levando a discrição ao extremo, o que não o ajudou a se fazer conhecido do grande público, mas permitiu situar sua trajetória acima de modismos e tendências”.
Morava o grande músico e pensador em um pequeno apartamento no Boulevard Raspail. Louis Saguer acolheu-me com simpatia e, após minha primeira exposição, disse-me que durante nossas aulas particulares trabalharia todas as fugas dos dois livros de O Cravo Bem Temperado, de J.S. Bach, e alguns Tempos de Sonata de vários autores. Frise-se que como cravista apresentou importantes obras dos séculos XVII e XVIII, compondo igualmente para o instrumento. Durante três anos segui à risca o cronograma do mestre e semanalmente levava uma peça analisada para sua apreciação. Basicamente nada cobrava pelas aulas, pois o preço era apenas simbólico. Poucas vezes toquei para Saguer uma obra inteira, mas a partitura estava sempre profusamente anotada pelo discípulo, a fim do julgamento seguro do ilustre músico. Interessava a ele o aperfeiçoamento mental do jovem, a maneira como as informações transmitidas com competência pudessem ser apreendidas. Quanto à interpretação, buscava, após a análise de uma obra, inserir a integração analítica à naturalidade do executar como amálgama que levaria às resoluções sonoras.
Camargo Guarnieri, quando em Paris em 1960 (vide Camargo Guarnieri – Em Torno de um Centenário I e II, 3 e 11/07/09, respectivamente), escreveria a Lopes-Graça a respeito de um encontro que tivemos – Guarnieri, Louis Saguer, Jean Reculard e eu – no 17bis, Rue Légendre, onde eu morava, pois o compositor brasileiro tinha também profunda admiração por Saguer. A sua discrição era tanta que apenas muitos anos após compreendi a imensa contribuição de sua obra como compositor. Mas ficaram indeléveis princípios voltados ao conhecimento repertorial – não apenas aquele que estava forçosamente a perpetrar nas classes de piano -; a análise apriorística de uma obra a preceder imperiosamente a visita dos dedos ao teclado; a visão literária. Foi através de Louis Saguer que, entre tantos autores, conheci a obra de Jean-Louis Bory, amigo do compositor e autor do extraordinário Mon village à l’heure allemande (Prêmio Goncourt, 1945). Em torno do romance, foram muitas as conversas a respeito de aferições do mesmo tempo ou de sua simultaneidade.

Cartão Postal enviado de Lisboa por Louis Saguer e Lopes-Graça a J.E.M. 1960. Clique para ampliar.

Em Defesa da Música Portuguesa reúne ensaios publicados não só pela editora, mas também uma palestra de Louis Saguer sobre “A Música e a Evolução Social”. Duas cartas incisivas de Lopes-Graça às autoridades portuguesas de plantão em defesa do amigo, a quem foi-lhe negado produzir-se junto à Emissora Nacional, estabelecem o clima necessário no peristilo do opúsculo.
A obra dá bem a medida dos vastos conhecimentos musicográficos do autor. Intransigente defensor da Música Portuguesa de todos os períodos, Saguer, ao receber os dois importante tomos Flores de Música, do Padre Manuel Rodrigues Coelho (1583- ?), revisados por Santiago Kastner, publicação de grande importância da Fundação Gulbenkian, analisa-os pormenorizadamente em textos datados de 1960 e 1961, respectivamente. Nessa primeira edição de Flores de Música, Saguer ressalta o grande mérito do compositor e da edição, mas o olhar arguto de musicógrafo observa com acuidade a feitura das composições, a penetrar no âmago da criação. Frise-se o conceito idealizado de solidão aferido por Saguer ao não encontrar possíveis raízes populares na obra instrumental do mestre de Elvas, Rodrigues Coelho: “Solidão do artista trabalhando num meio pouco compreensivo, num posto perdido, que o constrange a manter um solilóquio por vezes desesperado. A impressão de que Coelho viveu afastado do mundo é ainda reforçada pela ausência total de temas de origem popular (se exceptuarmos o emprego sistemático da cadência andalusa). Nisso se distingue dos Frescobaldi, Cabezón, Sweelinck e dos virginalistas, que da veia popular tiraram a mais bela substância da sua obra”.
Em outros ensaios de 1961 a 1968 publicados no livro, Saguer, sempre a sustentar a música portuguesa, é um crítico agudo das programações massificadas, sem interesse musical e social; da repetição repertorial ou da sua execução: “…obras ouvidas à saciedade (Carnaval Romano, Pastoral, Sinfonia Italiana, Quadros de uma Exposição) ou do virtuosismo dos executantes que, em vez de servirem à música, se serviram dela para ‘tirar efeitos’ “. Meio século após suas palavras, não é basicamente esse repertório que ad nauseam continua a ser repetido para um público não afeito à renovação por motivos os mais díspares? Não escreveria igualmente sobre os encores: “Muitas vezes me tenho perguntado a mim próprio porque é que as ‘sumidades’ da batuta se julgam obrigadas a descer, nos extras e após um programa em si nada ambicioso, às danças húngaras ou boêmias”, a entender que, em Portugal, essas concessões depois de um concerto mereceriam privilegiar a música contemporânea. Tem consciência da importância da Fundação Gulbenkian na vida artística do país, apesar de alertá-la no sentido de uma maior divulgação da música portuguesa. Não obstante, não poupa outras entidades.
Amigo absoluto de Fernando Lopes-Graça, com quem mantém sempre o diálogo competente, Saguer escreve em artigo de 1968 inserido no opúsculo: “Que multiplicidade de técnicas e estilos na sua obra imensa… Da tonalidade mais clássica ao atonalismo mais acentuado, da simples harmonização de cantos populares ao serialismo mais elaborado, Fernando Lopes-Graça está a vontade em todas as linguagens e a cada uma sabe imprimir a sua marca, que é só dele, reconhecível e indelével. Imbuído da tradição da sua terra natal e alimentado, como nenhum outro no seu país, do vasto tesouro de obras primas de todo o mundo, tanto no espaço como no tempo, pode permitir-se o lançamento de suas pesquisas em todas as direções, na certeza de encontrar sempre a síntese necessária. Vivendo à margem da rotina musical oficial, as suas obras, logo que germinadas, atraem o grande público e eclipsam, de longe, as dos seus contemporâneos.” E sobre o homem Lopes-Graça, comenta: “…bate-se heroicamente, músico obscuro e frágil, com uma intransigência sem paralelo, pelo respeito, os direitos, a independência e as liberdades dos homens, seus irmãos.” A propósito, Cosmorame de Lopes-Graça, que apresentei na tournée que acaba de findar, não é cópia fiel dessas sensíveis palavras de Louis Saguer?
Inserida no livro, a palestra A Música e a Evolução Social, proferida em 1962 e destinada a estudantes universitários. Uma autêntica aula, síntese da trajetória musical através da história. Finaliza: “Todas as ciências, e entre elas as ciências musicais, se encontram plenamente desenvolvidas – mas de nada servirão se uma bomba nos cair em cima; o único sobrevivente do cataclismo terá de fabricar uma flauta de cana para poder tocar uma canção de três notas! Só nos resta desenvolver e fazer evoluir as consciências”.
A leitura de Em Defesa da Música Portuguesa trouxe-me gratas lembranças e a certeza de que a influência de Louis Saguer sobre aquele jovem que com ele estudou foi duradoura. Os princípios do mestre permaneceram como farol e muitos dos conceitos depositados em seus textos fazem parte daquilo que foi assimilado pelo discípulo. Minha gratidão eterna a Lopes-Graça pela indicação de Louis Saguer, tão fundamental em meu transcurso.

This post is about the great French composer, conductor and teacher Louis Saguer (1907-1991), who gave me private lessons of music theory in Paris. Born in Germany, he became a French citizen in 1947. Fluent in 8 languages, Saguer composed operas, chamber music and pieces for piano, orchestra, a capella choir. He was a close friend of the composer Lopes-Graça and an admirer of the Portuguese classical music. Due to his quiet and unpretentious demeanor, during his lifetime he has not received from the media the recognition a musician with his accomplishments would deserve, but today his legacy is being rediscovered. I will be forever grateful to Lopes-Graça for recommending me to Louis Saguer, an outstanding musician and man, so essential to my full development as a pianist.

“Do Canto Gregoriano ao Sintetizador”

A música expulsa o ódio daqueles que não têm amor.
Ela traz paz aos que não têm repouso,
consola os que choram.
Aqueles que se perderam encontram novos caminhos,
e os que recusam tudo encontram confiança e esperança.

Pablo Casals

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Quando do blog referente ao ótimo livro do compositor Gilberto Mendes (vide “Viver sua Música – Com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à avenida Nevskiy”, 28/03/09), considerava o respeito que sempre tive pelos textos competentes sobre música, nos quais o autor, ao exercer igualmente a atividade prática musical, seja em qual segmento for, demonstra conhecimento pleno da escrita particularizada do universo sonoro. Compositores, intérpretes e musicólogos, quando se dirigem voluntariamente para o texto passível de ser lido por todos, pois sem a ininteligibilidade – para muitos – da partitura, podem revelar o domínio da área sem amarras, a depender obviamente do talento para o mister e da cultura adquirida através da trajetória. Há livros e livros escritos por competente músicos, mas muitos deles direcionados a conhecedores, pois podem envolver análises ou conceituações difíceis para não iniciados. Todavia, quando a obra tem caráter de divulgação de conhecimentos para o público em geral, mais importante ainda que o texto transparente esteja estruturado em sólida cultura musical, salvaguarda contra equívocos, por vezes constrangedores. Acabo de ler o livro de Júlio Medaglia (Música Maestro, – Do Canto Gregoriano ao Sintetizador. São Paulo, Globo, 2008, 355 págs). O subtítulo da obra já apresenta empreitada de dificílima resolução, mormente pela abrangência do quadro, a abordar o desenrolar da música ocidental a partir do cantochão, expressão maior da cristandade.
Júlio Medaglia, um dos músicos mais completos deste país, maestro, compositor, arranjador, comunicador, nasceu em São Paulo em 1938. Ainda na juventude ingressou na Escola Livre de Música, onde teve a orientação de Hans Joachim Koellreutter. Adquiriu posteriormente sólida formação na Alemanha, quando estudou com o lendário regente sir John Barbirolli, cursando os festivais de música contemporânea de Darmstadt com Karlheinz Stockhausen e Pierre Boulez. O trabalho com ilustres mestres é garantia de boa estrutura, embora não necessariamente de bons frutos. Medaglia é exemplo típico daquele que deu resultado. Poucos podem orgulhar-se de ter perpassado como regente o grande repertório tradicional, a música contemporânea e ter sido o expert dos arranjos do movimento tropicalista. A experiência como professor em várias universidades e seus deslocamentos permanentes para apresentações no Exterior são inequívocas referências. Lembremo-nos, igualmente, da excelência de Medaglia como comunicador.
De posse de toda essa bagagem, primeiramente escreveria Música Impopular (São Paulo, Global, Coleção Navio Pirata, 1989), do qual redigi resenha para o jornal “O Estado de São Paulo” (Cultura, nº 454, ano VII, 08/04/89, pág.9).
Os vinte anos que separam os dois livros merecem um comentário. Se na obra de 89 Júlio é provocativo, ousado nas críticas – endosso-as plenamente – a determinadas situações da música atual, erudita ou popular, em Música, Maestro! pode-se perceber o músico-pensador instigante, mas destilando a competência com serenidade. Todos os capítulos, desde o destinado à Antiguidade até o da música contemporânea, são descritos sem qualquer constrangimento ou amarras acadêmicas. Um passeio pela História. A intenção do livro é nitidamente a de divulgar com competência a trajetória da música ocidental, daí o primeiro passo para a liberdade do pensar não limitada a período específico, autor e obras, tão caros à Academia. Ratifico, discorrer sobre a História da Música, tarefa dificílima, torna-se em Música, Maestro! leve, palatável, competente e a atender ao leigo, ao estudante e ao músico. Que contributo extraordinário não seria se fosse o livro adotado na universidade, quando muitas vezes o “ranço” da erudição torna nebuloso o entendimento da evolução histórica da música, distanciando o aluno, em não poucas oportunidades, de um interesse frutífero pela matéria.
Júlio Medaglia tem o dom da comunicação direta, sem artimanhas, sem o linguajar que possa suscitar dúvidas ou a busca aos léxicos. Lê-lo discorrer sobre passado e presente, como se estivesse a sobrevoar solo familiar, é a comprovação do conhecimento estruturado em raízes profundas. Os capítulos referentes à polifonia (de 800 a 1600) estendendo-se ao estilo clássico (de 1750 a 1820) oferecem informações rigorosamente transparentes, sem a menor necessidade de aprofundamentos tantas vezes inintelegíveis. O estilo romântico (de 1820 a 1900) é abordado numa concentração nos autores fundamentais, desenvolvimento das formas, gêneros. Focaliza ópera, opereta vienense, canção-solo, criações para orquestra, música de câmara, e a ascensão do instrumento solo. “A música para piano liderou a criação musical no século XIX, chegando, em meados desse período, a superar até mesmo a orquestral” como afirma. Uma sinopse dos principais compositores do século XIX e a inclusão do ballet e a sua real importância concluem esse capítulo, que relata período tão caro aos aficionados. O século XX é uma das muitas especialidades de Júlio Medaglia. É instrutivo ler suas considerações sobre escolas composicionais, estilos, autores, sempre com a mais absoluta firmeza.
Ao considerar a música brasileira, percorre-a do erudito ao popular. O povo e suas manifestações, características regionais e gêneros são percorridos por quem viveu momento crucial, verdadeira encruzilhada, que foi o período do movimento tropicalista.
Comentava sobre o respeito que sempre tive pelo texto competente escrito pelo profissional de fato e de direito. Ao escrever um subcapítulo, “Nasce o Maestro”, Júlio Medaglia dá uma verdadeira aula (págs. 87-90), e o leitor capta a sensível percepção daquele que deve liderar o conjunto orquestral.
A meu ver, o livro Música Maestro! é necessário a todos que desejam realizar um passeio pela extensa senda da História da Música. Para os que já leram tantos compêndios, torna-se o livro uma revisitação prazerosa, a relembrar fatos por vezes esquecidos. Para estudantes e leigos, uma belíssima introdução. Fica a certeza de que novos adeptos à causa da música erudita estarão nascendo. Um CD anexado a Música, Maestro! faz-nos percorrer do gregoriano a Villa-Lobos, nesse caminhar que leva a tantas boas recordações sonoras. Anexos pertinentes completam a obra.
À guisa de conclusão, escreve Júlio Medaglia, a reverenciar um de seus grandes mestres – como é bom neles pensar! – “Almoçando certa vez na casa de Pierre Boulez em Baden-Baden, junto com o poeta concretista Haroldo de Campos, o grande músico francês nos disse uma frase, ideal para encerrar este trabalho: ‘O talento e a tecnologia são como dois espelhos. Só quando colocados frente a frente, em igualdade de condições, é que os resultados vão se refletir e multiplicar ao infinito’. Que seja esta a missão do homem no admirável século novo…”

On the book “Música, Maestro”, written by the Brazilian conductor, composer and arranger Júlio Medaglia, an outstandingly comprehensive overview of the history of music from the Gregorian chant to the synthesizer, designed for both the student and the general reader.

“Com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à avenida Nevskiy”

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Se o teu pensamento fôr o que deve ser,
encontrarás pouca dificuldade na ação.
Lembra-te que para seu util à humanidade,
o pensamento deve traduzir-se em ações.

J. Krishnamurti

Há décadas, e não poucas vezes, tenho redigido textos a respeito do escrever sobre música. O posicionamento vem de uma imensa admiração pela escrita competente. Apreciador de esportes, respeito aqueles comentaristas que – empregando jargão da especialidade – “estiveram lá”, ou seja, praticaram modalidades esportivas que resultariam, após encerrar a carreira, em atividade nos meios de comunicação, através de jornais, revistas, rádio e televisão. É fácil entender que comentam com propriedade, sem radicalismos, pois “estiveram lá”, a apreender a vitória e a derrota, o congraçamento e a discórdia. Quem “lá não esteve” geralmente tem paixões, vocifera, evidencia possíveis frustrações pela ausência em sua vida da área demarcada e cercada pelo público. Pode até ganhar notoriedade, mas o respeito do esclarecido que ama esportes estará concentrado nos que transpiraram em suas especialidades esportivas. O mero comentarista pode tornar-se um simples falastrão, diferentemente do locutor de esportes, que exerce uma arte destinada a poucos. Ao compor Santos Football Music (1969) para orquestra sinfônica, 3 tape recordings contendo irradiação de jogo de futebol, participação do público e ação teatral, Gilberto Mendes (1922- ) recorreria à extraordinária narração de Geraldo José de Almeida, um dos grandes locutores do passado.
Dessa premissa vem igualmente o meu respeito pelo texto voluntário sobre música, mas redigido por especialista. Se naturalmente construído, não tem o “ranço”, tantas vezes “obrigatório”, que a Academia impõe, mercê em parte dos não vocacionados impelidos a escrever, a fim de alcançar as várias titulações em suas carreiras. Inexiste tampouco na espontaneidade daquele que “lá está” a característica facilmente detectável do soi disant, o diletante que aparenta competência, mas que insiste em escrever sobre música. Essa categoria existe e está sempre a publicar textos, críticas, comentários e até ensaios sobre nossa área. Neste caso, pode incorrer no simulacro, pois estará a navegar em águas desconhecidas, que acredita confiáveis e familiares. A retórica rebuscada não consegue camuflar incompetências transparentes. Numa visão mais ampla, o texto voluntário e seguro tem a aura da dedicação e da relação amorosa com a área abordada.
Dois ótimos livros sobre música foram lançados recentemente, escritos por músicos da melhor estirpe que “estão lá”, a exercer com firmeza e dedicação suas atividades: o notável compositor Gilberto Mendes, nosso maior nome como criador erudito, e Júlio Medaglia, esse extraordinário músico pleno de pluralidade ímpar. O livro de Júlio, Música, Maestro!, será tema de um futuro post, pois a temática prende-se ao conhecimento geral da história da música em linguagem acessível a todos.
Ao escrever seu primeiro livro (Odisséia Musical – Dos Mares do Sul à elegância Pop/Art Déco. São Paulo, Giordano/Edusp, 1994, 268 págs.), Gilberto Mendes concretizava o sonho de ver editada a sua magnífica tese de doutorado, da qual tive o prazer de participar como membro da banca julgadora. Nessa obra, Gilberto narra a sua trajetória, envolve aqueles que foram contatos permanentes, declara seus ascendentes musicais eleitos e Santos, sempre Santos, mostrar-se-ia o “porto seguro”, como ele assim define, após tantas viagens pelo mundo. Em 2005 foi lançado o documentário extremamente bem produzido, dirigido e editado por seu filho Carlos de Moura Ribeiro Mendes, A Odisséia Musical de Gilberto Mendes, e através de música e imagens seu universo se dimensiona. Gilberto Mendes está por inteiro a percorrer a sua Europa amada, os lugares em que apreendeu ser a vida dadivosa, graças a seu talento invulgar e a uma dedicação e disciplina ímpares, resultando numa produção contínua na qual o compositor se mostra o artesão amoroso. Sempre. Por ocasião de seus 85 anos, redigi um post a respeito do grande músico e dileto amigo (vide Gilberto Mendes (1922- ) – Tributo ao Músico Pensador, 13/10/07).
Ao escrever Viver sua Música: com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à avenida Nevskiy (Santos-São Paulo, Realejo/Edusp, 2008, 373 págs.), Gilberto Mendes, livre de determinadas amarras que uma tese acadêmica determina, confessa tudo que o levou à inteira compreensão de seu mundo, único, generosamente repartido entre todos os que tiveram e têm o privilégio de privar de seu convívio. Autobiografia singela e bonita. Gilberto abre-se para o leitor. Os oitenta e tais anos acumulados impedem-no de não dizer o que sente. Silenciar seria trair sua natureza. Reverencia mestres com imensa candura e respeito – lição para as novas gerações, que insistem em esquecê-los. Importa muito menos o processo escritural já assimilado e extremamente polivalente, mas único e personalíssimo, e mais o texto coloquial. Um caleidoscópio em permanente mutação, onde influências assimiladas prazerosamente transformam-se naquilo que Gilberto é, a sinceridade plena. Sob outra égide, perpassam amigos, músicos, outros músicos e Santos, sua eternidade terrena. Poder-se-ia afirmar que o segundo livro é mais solto, e em nenhum instante Mendes evita o que lhe vai pela alma. Até de maneira ingênua, por vezes, nessa qualidade rara e essencial que a intelligentzia entende – quantas lá não foram as vezes – como não seriedade. Fotos sinceras, que poderiam ser compreendidas até como integrantes do seu lúdico, que jamais deixou de existir. Imagens reveladoras do imenso prazer de Gilberto ao sentir um local que povoou seu imaginário durante décadas. Retratos do texto.
É comum com a idade a fixação no passado, a rememorar paraísos percorridos ou terrenos pantanosos vencidos. Tudo faz parte. Recorrendo insistentemente a esse tempo ascendente, Gilberto tem o descortino como permanente meta. Bonito vê-lo discorrer encantado, como um jovem em plena fase efusiva, sobre as terras novas ou reconquistadas nas últimas décadas, revisitação sob novo olhar. U.S.A., Bélgica, Holanda, Alemanha e, preferencialmente, a Rússia. Diria, São Petersburgo. Ter lá estado, assistir a apresentação de suas obras e conhecer o solo que viu passar os monstros sagrados da música russa sintetizam o autêntico maravilhamento. Aliás, ao ler-se Viver sua Música, tem-se a impressão de que se não fosse Santos sua cidade, escolheria a cidade do Museu Hermitage, do Teatro Mariinsky e dos passos, que ecoam ainda, dos grandes mestres do Conservatório: “andei pelos corredores e escadarias por onde também andaram Rimsky Kórsakov, Glazunof, Anton Rubinstein, Tchaikovsky, e ainda Prokofief, Shostakovich, Galina Ustvolskaya e… Igor Stravinsky!”, escreve reverencialmente o nosso mais importante e festejado compositor erudito vivo brasileiro. A euforia de Gilberto é total e os locais novos são incorporados aos antigos, a enriquecer sua enciclopédia. Está tudo lá, passado, presente e, logo mais, outros futuros. A memória extraordinária do grande músico, compositor e amante da vida registra o mínimo detalhe e insere as gradações sensoriais e emotivas. O peixe e o vinho em jantar com Eleazar de Carvalho, o peixe roubado pelo urubu em seu terraço, o cinema – essa paixão absoluta -, a Av. Nevskiy em São Petersburgo, nada escapa ao olhar extasiado. Ao final volta à escrita musical e algumas partituras, assim como um catálogo básico, completam a bela obra de Gilberto Mendes.

Gilberto Mendes na interpretação da esposa Eliane. Clique para ampliar.

Livro para ser apreciado a conta-gotas. Através dele, pode-se perceber como a dedicação à música ultrapassa qualquer barreira, desde que vocação à flor da pele exista. Torna-se, nessa condição, imanente no caráter do homem. E mesmo a ideologia, tão presente em Gilberto Mendes, tem o cunho de profundo humanismo. Ideologia de esquerda, autêntica, mas embalada aos sons dos trópicos, do Havaí inclusive. Há exceções em sua obra musical, onde a tragédia é denunciada. Contudo, é o todo que se manifesta homogêneo. A contracapa reproduz a pintura carinhosa de sua esposa Eliane, que consegue extrair essa serenidade do compositor – aparente talvez -, e também o testemunho de Gilberto: “É o que eu chamo de som da felicidade. O prazer da felicidade que a beleza musical pode nos proporcionar, como no caso de As Bodas de Fígaro, de Mozart. ‘Ah tutti contenti’! Viver a emoção provocada por essa beleza, que encerra a dor do mundo – a beleza intensa dói! – e também a alegria, que é o amor, significa viver a música, em toda a sua estranheza e ambiguidade. Isso é o que é a música para mim”.

A few comments on the last book written by Gilberto Mendes (1922- ), the most important living composer of contemporary classical music in Brazil.