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Um CD de mérito

Le progrés en art ne consiste pas à l’étendre ses limites,
mais à les mieux connaître.
Georges Braque

Conheci Marta Menezes em masterclass que ofereci na Academia de Amadores de Música, em Lisboa, poucos anos atrás. Impactou-me a interpretação da jovem pianista em obras de Beethoven e Prokofief. Segurança plena, maturidade, estilo definido, propostas apresentadas com convicção, musicalidade e fraseado transparentes e perfil de uma já pianista. No diálogo existente nessa configuração difundida, em que a transmissão do executante com aquele que lhe dará possíveis sugestões é em princípio salutar, ficou clara a determinação de Marta Menezes e sua vontade de continuar rumo à ascensão. Em nenhum instante duvidei de suas aspirações interiores.

Não mais a vi, mas tenho trocado e-mails com Marta Menezes e é com alegria que assisto à sua evolução segura, muito bem conduzida também em seus intentos acadêmicos. Marta Menezes sabe o que quer e tem a certeza de trilhar caminho que já a conduz a ser nome de referência na pianística de Portugal.

Ao leitor que não a conhece, traria dados breves de seu perfil. Após estudos preliminares que lhe deram bases sólidas, concluiu Licenciatura e Mestrado na Escola Superior de Música de Lisboa, sob a orientação de dois competentes pianistas portugueses, Miguel Henriques e Jorge Moyano. Em 2013 terminou o curso de Master of Performance no Royal College of Music (Londres), iniciando Doutoramento em Música na Jacobs School of Music (Universidade de Indiana), na classe do igualmente competente pianista brasileiro Arnaldo Cohen. Tem se apresentado como solista com várias orquestras portuguesas e como recitalista em países europeus e nos Estados Unidos.

Destaquemos os prêmios que tem colecionado: 1º lugar no Concurso Beethoven no Royal College of Music (Londres, 2013) e no Concurso Internacional de Piano de Nice Côte d’Azur (2013), assim como outras láureas em Portugal, Espanha, França e Itália.

O CD Beethoven – Lopes-Graça (publicado em Portugal através de patrocínios, 2017) é revelador das qualidades de Marta Menezes, a partir da escolha do repertório. Poderia parecer antagônica a preferência da pianista para Sonatas de compositores tão distantes na história. Lopes-Graça sempre teve profunda admiração por Beethoven, sendo inclusive tradutor da extraordinária e extensa obra do grande escritor francês Romain Rolland (Beethoven – Les grandes époques créatrices), sob o título de Beethoven (Lisboa, Cosmos, 1960).

Após a apresentação de duas obras pouquíssimas vezes visitadas pelos pianistas, a Polonaise em Dó Maior, op. 89, e a Bagatela em Dó menor, Wo 52 de Beethoven, interpretadas com compreensão estilística e até humor – no caso da Polonaise -, Marta Menezes apresenta a última Sonata de Beethoven, a magnífica 32ª em Dó menor, op.111. Se as duas amostras iniciais têm características totalmente distantes da Sonata op. 111, a intérprete caracteriza no CD sua compreensão de um todo beethoveniano. Aliás, seu repertório já contempla outras Sonatas e concertos para piano e orquestra do compositor alemão.

Clique para ouvir a Polonaise em Dó Maior, op. 89 de Beethoven na interpretação de Marta Menezes

Abordar ainda na juventude adulta a Sonata testamentária de Beethovem poderia parecer uma ousadia. Obra de síntese a partir da presença de apenas dois movimentos, a op. 111 requer uma compreensão imensa das propostas que Beethoven imprime em toda a construção. Quantos não foram os posicionamentos ao longo da história sobre a presença de apenas dois andamentos? Sob outro aspecto, o compositor, já com problemas avançados de surdez, não deixa em inúmeras cartas de relatar esse desconforto, ainda mais para um músico. A sublime Sonata op. 111 já paira num plano que diria espiritual, quando o acúmulo de conhecimento que leva à essência essencial prevalece. Marta Menezes entendeu a obra, assimilou-a e nos dá uma versão condigna, austera e lírica, dinamicamente muito bem tratada, pianisticamente sans reproche. Apreende-se, através de sua bela interpretação, todo um conhecimento prévio de tantas outras sonatas e concertos de Beethoven.

Quanto à Sonata nº 3 de Lopes-Graça (1952), tem-se uma obra monolítica, pois o compositor interliga inúmeros  “andamentos”, sem interrupção. Se não original, pois a prática estava a ser utilizada desde meados do século XIX com entendimentos diferenciados por parte dos compositores, a concentração dada por Lopes-Graça à 3ª Sonata evidencia, sob égides diferenciadas, influências oriundas de Liszt a Bela Bartok, este um de seus eleitos. Teria porventura Marta Menezes escolhido a Sonata nº 3 mercê dessa concentração que a antecede através da Sonata op. 111 de Beethoven? Sua interpretação convence e os vários “andamentos” da 3ª Sonata são muito bem estruturados, numa compreensão estilística louvável.

A escolha de Marta Menezes, a privilegiar obra relevante de Lopes-Graça,  não se furtando ao grande repertório da tradição, é alvissareira. A gravação das extraordinárias seis Sonatas (integral) do Mestre de Tomar pelo notável pianista português António Rosado (2004) é reveladora da evolução escritural do compositor, sem que jamais a identidade de Lopes-Graça se perca. Suas impressões digitais estão sempre presentes. Marta Menezes, ao mostrar ao público sua atenção ao repertório português, presta serviço inestimável à causa tão propalada dessa necessidade de o músico nascido em Portugal difundir seus autores. No blog anterior, mencionei o organista nascido em França Antoine Siberttin-Blanc, radicado em Portugal a partir dos anos 1960, que tanto divulgou a obra para órgão composta em terras lusíadas ao longo da história. É pena que intérpretes portugueses superventilados pelo mundo insistam em negligenciar a criação musical em Portugal. Quando egos prevalecem à integração, pouco a fazer.

Marta Menezes já é uma realidade e, mercê da inteligência e do talento, saberá cultuar, paralelamente ao repertório tradicional, o que de mais valioso foi criado para piano em Portugal do barroco aos nossos dias.

It has always been a pleasure to meet a young pianist with real talent, sure about the path chosen, careful with repertoire selection. The Portuguese pianist Marta Menezes meets all the above requirements, as confirmed by her just released CD with works by Beethoven and Lopes-Graça. Winner of numerous national and international awards, among them first prize in the Royal College of Music Beethoven Competition and in the Concours International Côte D’Azur “Simone Delbert-Février”, her talents may be fully appreciated in the CD, in which tradition and novelty have been weaved into a daring whole. Exceptionally gifted musician, Marta Meneses will know for sure how to promote together with the traditional piano repertoire the best of the classical music produced in Portugal.

 


 

 


Um Músico na acepção plena do termo

Il semble que la perfection soit atteinte
non quand il n’y a plus rien à ajouter,
mais quand il n’y a plus rien à retrancher.
Antoine de Saint-Exupéry

Antoine Sibertin-Blanc (1930-2012) nasceu em Paris e foi um músico de muitos méritos. Organista, professor, compositor, Sibertin-Blanc teve uma vida inteiramente dedicada à música. Só foi músico e um dos grandes organistas de sua geração. Teve como professores alguns dos mais renomados mestres franceses, entre os quais o grande organista Édouard Souberbielle (1899-1986), Maurice Duruflé (Harmonia Superior), Guy de Lioncourt (Composição Superior), Jean de Valois (Canto Gregoriano). Em 1955 dá início à brilhante carreira de organista que o levaria a muitos países europeus. Foi organista titular de importantes igrejas na França e Luxemburgo. Característica da escola francesa de órgão, Sibertin-Blanc se destacava também como exímio improvisador ao final dos concertos, a partir de tema que lhe  era oferecido.

Após carreira consolidada na Europa do norte, data de 1960 sua ida a Portugal, a convite da ilustre gregorianista Júlia d’Almendra, a fim de dirigir, a partir de 1961, a Classe de Órgão do Centro de Estudos Gregorianos de Lisboa. Cuidou a seguir das cadeiras de Harmonia, Acompanhamento, Improvisação. Versatilidade e competência fizeram-no conduzir, durante períodos variáveis, o ensino de Solfejo, Contraponto, Fuga, Coro, Piano elementar, Leitura e Redução de Partituras. Sua ligação ao país deu-se pois de maneira integral. Formou gerações de organistas e músicos, que hoje ocupam postos relevantes em Portugal e alhures. Mencionaria, a título de exemplificação, António Duarte, Domingos Peixoto, Idalete Giga, João Pedro de Oliveira, João Vaz, Joaquim Simões da  Hora, entre tantos outros.

A justo título o Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa (MPMP) publicou o “Ad memorian - Antoine Sibertin-Blanc” (2016) sob a concepção, organização e traduções de sua dedicada esposa, Leonor de Lucena Sibertin-Blanc. Merecidíssima publicação, que perenizará a memória de um músico que contribuiu de maneira efetiva para o desenvolvimento da arte organística e a divulgação maior da música sacra em Portugal. Apresentou-se como organista em todo Portugal continental, Açores e Madeira e praticamente todos os órgãos no país tiveram-no como intérprete extraordinário e cuidadoso na preservação do repertório português para o instrumento, sempre incluído em seus programas. O leitor poderá ouvir algumas das gravações do ilustre organista ao acessar o YouTube.

Impressiona a qualidade dos depoimentos de músicos portugueses e de outros países sobre a personalidade de Sibertin-Blanc. São quase 50 testemunhos, que apreendem os vários dons do organista. Mencionarei alguns desses comentários, privilegiando as particularidades da multifacetada carreira do músico.

“O Professor Sibertin-Blanc foi, sem dúvida, a personalidade mais estruturante da vida organística portuguesa do século XX” (Domingos Peixoto, professor de órgão jubilado da Universidade de Aveiro).

“No dia 17 de Agosto de 1976, o Antoine deu um recital na Catedral de Friburgo – em Brisgove – dotada de quatro órgãos. A Catedral estava completamente cheia e um público de mil e duzentas pessoas apertava-se para ouvir este grande embaixador da música portuguesa. No programa, Tomás de Santa Maria, Antonio Valente, Jordi Rodriguez, Carlos Seixas, Marcel Dupré, Sibertin-Blanc (suite portugaise), Messiaen e uma improvisação sobre um tema apresentado” (Bernhard Marx – Organista titular da Johanneskirche de Friburgo – e Marjorie France Mayo-Marx).

“Um modelo de nobreza de espírito, de probidade intelectual e artística: um exemplo a ser seguido. Através de suas composições e gravações, alunos nos vários níveis, através de tantas lembranças vivas e perenes, seu apostolado ao serviço da música religiosa autêntica, sua obra ‘o acompanhará’ para sempre” (Édith Weber, professora emérita da Universidade Paris-Sorbonne).

“No meu contacto quase diário com o Prof. Sibertin, nas aulas, nos ensaios, concertos do Coro Palestrina e concertos de órgão, tive a oportunidade de conhecer melhor não só o artista, o mestre competente e dedicado, sempre disponível, sempre amável para todos os alunos, mas também o homem íntegro, sincero, generoso, revelando uma bondade natural e um despojamento constantes. Na sua actividade pedagógica e artística é inegável a importância que o Prof. Sibertin teve no desenvolvimento do movimento organístico em Portugal. Integrado no projeto cultural traçado por Júlia d’Almendra, o CEG iniciou uma verdadeira revolução organística que se estendeu por todo o país” (Idalete Giga, Professora jubilada da Universidade de Évora e Maestrina do Coro Capela Gregoriana Laus Deo).

“O Professor Antoine Sibertin-Blanc ocupa um lugar de grande relevo na história do órgão em Portugal. É ele que, durante a segunda metade do século XX, contribui direta e decisivamente para a criação de uma escola de órgão moderna e é ele também que, enquanto organista titular da Sé de Lisboa, cria um elevadíssimo ponto de referência para o acompanhamento litúrgico. A sua genuína paixão pelo órgão, o seu entusiasmo e dedicação, a sua inteligência e bom senso, o seu elevado profissionalismo fizeram com que a sua acção fosse sempre independente, abrangente, aberta, integradora” (António Duarte. Professor de órgão na Escola de Música do Conservatório Nacional e Titular do Órgão da Sé Catedral de Lisboa).

“O seu percurso criativo foi amplo e variado. Tendo vivido de perto muitos dos momentos-chave da evolução musical dos últimos cinquenta anos, a sua actividade como organista tentou sempre incorporar as novidades técnicas, musicais e composicionais que se foram desenvolvendo. Num ambiente cultural em que a música contemporânea tinha uma atenção reduzida ou inexistente nas escolas de música ou conservatórios, Sibertin-Blanc sempre primou por divulgar e estimular os alunos a tocar esses tipo de música, juntamente com os clássicos do repertório organístico” (João Pedro de Oliveira. Professor Titular da Universidade Federal de Minas Gerais e Professor Catedrático na Universidade de Aveiro).

“Para testemunhar a sua competência e versatilidade,  vou apenas evocar um recital no órgão da capela da Universidade de Coimbra, precisamente no dia 28 de Março de 2007.

Naquele ano, dava-se na Faculdade de Letras daquela Universidade um seminário no âmbito do mestrado de Estudos Artísticos, a que se deu o nome de ‘Arte e Violência’, no qual cada professor deveria tratar convenientemente as artes em causa, isto é, teatro, cinema e música. No programa da ‘Música e Violência’ pude apresentar, entre muitos outros tópicos, desde os simplesmente acústicos aos musicalmente descritivos, a importância e impacto que a Bataille de Marignan, de C. Janequim, teve na história da música europeia dos séculos XVI e XVII, tanto na música vocal como instrumental.

E foi então que, aproveitando o convite que a Reitoria da Universidade, em colaboração com a Fundação Calouste Gulbenkian, estava a fazer periodicamente a alguns organistas notáveis do nosso meio, pedi ao Prof. Sibertin-Blanc que incluísse no seu programa uma ‘batalha’. Estes estavam preparados e o Prof. Sibertin-Blanc teria, desta vez pelo menos, um público assegurado e bem preparado, na belíssima capela da universidade. Grande foi a minha surpresa quando vi o programa de recital proposto pelo grande organista, que incluía simplesmente e apenas quatro ‘batalhas’. Não foi difícil aos meus alunos, e a todos os ouvintes presentes naquele fim de tarde primaveril, sobretudo depois das minhas palavras introdutórias relativas ao significado daquela forma musical dos órgãos ibéricos, prender a atenção para a música daquele órgão histórico. Mas o que mais impressionou os alunos foi a improvisação final que o Prof. Sibertin-Blanc se prontificou a fazer sobre o tema sugerido por alguns alunos, que versava precisamente a canção da saudade coimbrã, ‘Coimbra tem mais encanto na hora da despedida’. Não restou qualquer dúvida acerca da mestria do consagrado organista que, daquela maneira, com o jogo harmônico e tímbrico que aquela melodia lhe sugeriu, aproveitando os recursos admiráveis daquele órgão, galvanizou a assembleia de estudantes que aplaudiram longamente o organista titular da Sé Catedral de Lisboa” (José Maria Pedrosa Cardoso. Professor jubilado da Universidade de Coimbra).

Tive imenso prazer de conhecer Antoine Sibertin-Blanc no início dos anos 1980, quando dei alguns recitais dedicados à obra de Claude Debussy no Instituto Gregoriano de Lisboa, a convite de sua diretora, grande gregorianista e especialista em Debussy, Júlia d’Almendra. Sibertin-Blanc compareceu aos recitais e dialogamos sobre o legado de Debussy. Figura serena e tranquila, competente ao extremo, sua maneira de se externar revelava em todas as frases o conhecimento desprovido de qualquer empáfia. Guardo as melhores lembranças dos poucos encontros que tivemos, inclusive um no apartamento de Júlia d’Almendra, onde me hospedei durante toda a década de 1980 e início dos anos 1990, quando visitava Portugal para recitais e palestras. Antoine Sibertin-Blanc, um grande músico e um homem simples. Amálgama perfeito.

This post is a tribute to the memory of Antoine Sibertin-Blanc (1930-2012), the outstanding French-born organist who spent a great part of his life in Portugal. Organist, teacher and an accomplished improviser, he has been a central figure in the development of organ music in Portugal. Under his guidance, generations of music students flourished in Portugal and elsewhere. A talented and unpretentious professional I was lucky enough to meet personally in Portugal in the eighties, having good memories of the moments we spent together.

 


Gyovana de Castro Carneiro e a relação amorosa com um tema

Damo-nos valor por o que pensamos,
em vez de por o que fazemos.
Esquecemos que o não fizemos, não o fomos;
que a primeira função da vida é a acção,
como o primeiro aspecto das coisas é o movimento.
Fernando Pessoa

Inúmeras foram as vezes em que me deparei com recém-mestres ou doutores. Tenho por hábito formular a mesma pergunta relacionada à continuação das pesquisas sobre os temas que os levaram à defesa de dissertações e doutorados. Com desapontamento escrevi em muitos posts sobre abandonos voluntários de pesquisas por parte de mestres e doutores que até se mostravam, hélas, “libertos” de temas que prefeririam doravante esquecer. Trata-se de posição vergonhosa, tantas e tantas vezes nesse espaço comentada e que persiste como chaga à nossa vida acadêmica. Os almoxarifados das universidades estão repletos de dissertações e teses que jamais serão consultadas, pois faltou o verdadeiro espírito que leva às obras bem feitas e, a preponderar, a relação amorosa com a pesquisa. Envolvimentos superficiais, unicamente com propósito de ascensão na vida universitária, só podem resultar no equívoco. E os Congressos sobre Música no Brasil não estão plenos de papers com o objetivo preciso de obter pontos nos currículos? Bolsas de estudo, que deveriam tantas vezes merecer destinação outra, são distribuídas generosamente por parte do Estado e de Fundações diversas, mas sem longo e rigoroso controle pós-defesa, para que o desacerto não se acentue e trabalhos acadêmicos, nascidos estiolados, não proliferem. Competiria aos outorgantes observar através dos anos o desenrolar de vidas acadêmicas dependentes de auxílio e os resultados das pesquisas beneficiadas.

A cáustica premissa se faz necessária, pois tive o grato prazer de participar de tese de doutoramento, na Universidade Nova de Lisboa, defendida pela Profª. Gyovana de Castro Carneiro, da Universidade Federal de Goiás. Sua tese, sob o título “A prática do Piano a Quatro mãos no Brasil de 1808 a 1889″, é inédita em nossa vida acadêmica. Antolha-se-me que a observância da trajetória da professora Gyovana apresenta-se como antítese ao exposto anteriormente. Desde o curso de Bacharelado em Instrumento – Piano, na Universidade Federal de Goiás, a professora se dedica ao repertório específico. Realizou monografia no Curso de Especialização em Música Brasileira, sob o título “Música para piano a quatro mãos de cinco compositores brasileiros vivos” (2000) e dissertação de Mestrado em Música na Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, a ter como título “Momentos brasileiros para piano a quatro mãos de 1900 a 2000″ (2004). Evidente que o acervo cultural adquirido e o aprofundamento notório levaram a professora a escolher tema de doutoramento mais complexo, pois difícil foi chegar às fontes encontradas no Brasil e em Portugal. Obteve a Profª. Gyovana precioso material documental ao longo de mais de três lustros, o que fez com que sua tese tivesse o peso para a apreciação de júri da maior competência. A tese foi orientada pelo notável Prof. Paulo Ferreira de Castro, da Universidade Nova, um dos nomes referenciais da musicologia em Portugal. Compunham o júri o ilustre Prof. David Cramer, também da Universidade Nova, a Profª e pianista da Universidade de Aveiro, Helena Marinho, a Profª e pianista titular aposentada da UFG, Glacy Antunes de Oliveira, e eu, sob a presidência da respeitada Profª Salwa Castelo Branco.

A tese, dividida em três partes, abordou inicialmente a “introdução” do piano a quatro mãos no Império, com a chegada de D.João VI e parte da corte portuguesa ao Rio de Janeiro (1808), assim como a presença de ilustres músicos vindos logo após, como Marcos Portugal (1762-1830) e Sigsmund Neukomm (1778-1858), entre outros, que souberam transmitir aos membros do séquito real e à aristocracia em torno fundamentos musicais e igualmente a prática do piano a quatro mãos. D. Pedro I praticou o gênero e chegou a compor para essa disposição, incluindo clarineta. Numa segunda parte foi abordado o período que se estende de 1831 ao fim do Império, em 1889, quando a vinda de outros músicos estrangeiros corroborou a prática do piano a quatro mãos. A importação se acentua – o Brasil foi o terceiro maior importador de partituras da França na década de 1830 – e a edição de obras para piano edificaria o pianista e compositor português Arthur Napoleão (1843-1925), que viveu muito tempo no país. O ensino de música floresce, estabelecimentos voltados ao aprendizado musical são criados, eventos como saraus e outras apresentações proliferam e a prática do piano a quatro mãos se estende à burguesia, mormente entre as mulheres, que encontravam na música um dos alicerces da boa educação.

Independentemente de todo um processo recente e sistemático a denegrir a vinda da corte portuguesa ao Brasil, e livro que teve sucessivas edições no país a contar história distorcida da realeza, a Profª. Gyovana, a certa altura em sua sustentação, posicionou-se com clareza, colocando questão fulcral: como estaríamos musicalmente sem a vinda de parte da corte portuguesa ao Rio de Janeiro? Fato que nos leva a reflexões. Uma terceira parte foi dedicada à análise de diversas peças escritas para piano a quatro mãos no período. Basicamente descritiva, o repertório escolhido revelou parcela considerável de obras que eram transcritas para piano a quatro mãos, como o Hino Nacional Brasileiro, de Francisco Manuel da Silva (1795-1865); a Marcha Imperial para piano a quatro mãos e clarineta, de D. Pedro I (1798-1834); a Simphoniette em ré menor, de Henrique Oswald (1852-1931); o Batuque, de Alberto Nepomuceno (1864-1920); a Paysage, de Francisco Braga (1868-1945) e outros.

Considere-se que o piano a quatro mãos, de importância fundamental, mormente no aprendizado do jovem pianista, tem sido negligenciado não apenas pela grande maioria dos músicos, como também pelos aspirantes à carreira pianística. Poderia ser visto por estes como um “empecilho” que os distrairia do “grande” repertório. É fato. Quando intérpretes consagrados realizam performances a quatro mãos, fazem-no, quase sempre, como uma descontração. Também é fato.

A tese da Profª. Gyovana vem demonstrar que obras para quatro mãos tiveram importância fundamental no aprendizado e no aprimoramento do gosto musical durante os dois últimos séculos, da realeza à vida republicana, servindo inclusive para percepções multum in mínimo de composições camerísticas, corais ou orquestrais. Quantas não foram as gerações do passado que tiveram conhecimento de obras importantes para conjuntos através dessas pormenorizadas transcrições destinadas a quatro mãos? Repertório e prática que descortinaram vocações, pois não foram poucos aqueles que adquiriram certezas após a prática salutar a dois, tanto para desenvolvimento individual como coletivo?

Acredito firmemente que, após revisão dos vários trabalhos acadêmicos da Profª. Gyovana, um imprescindível livro poderia advir, a abordar o repertório a quatro mãos de 1808 aos nossos dias, catalogando todo o material e ainda encontrando obras ocultas, não só do Brasil como estendendo-se à produção portuguesa. São pouquíssimos os duos brasileiros de mérito, preferenciando os pianistas a prática do repertório a dois pianos, mais virtuosístico e que revela, por que não asseverar, aplausos mais efusivos. Esquecer por vezes os egos na divulgação repertorial é no mínimo salutar.

Se a tese tem real mérito, ressalte-se a exemplar sustentação realizada pela Profª. Gyovana. Mercê de repertório que lhe é familiar desde a juventude, revelou a postulante ao doutorado absoluto domínio em todas as suas respostas, a se considerar, inclusive, a admissão de determinadas incorreções existentes, fato presente e “humano” na grande maioria das teses. Ressaltou o ilustre Prof. Paulo Ferreira de Castro que a sustentação de uma tese é de suma importância na avaliação do todo e reveladora da segurança e competência do postulante.

Aprovada com o grau máximo outorgado pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a agora Doutora Gyovana de Castro Carneiro tem do que se orgulhar, e a Universidade Federal de Goiás merece parabéns por ter em seus quadros uma professora que deverá formar gerações de alunos voltados à prática pianística específica.

On the PhD thesis (The practice of piano four-hands in Brazil from 1808 to 1889) defended in Lisbon by Gyovanna de Castro Carneiro, from Universidade Federal de Goiás, where she has a teaching position. Addressing the subject from historical and practical viewpoints, the work has shed some lights on the often neglected repertoire for piano four-hands, stressing its importance for piano practicing and in confirming an inclination to follow a career. As a member of the examination board, I may say it was a great example of a professional with a lifetime involvement with the subject of her dissertation, a reflection of Gyovanna’s commitment to her research field.