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Um mal-entendido a resultar esclarecimentos

Julgas a árvore pelos materiais?
Falas-me da laranjeira,
criticando sua raiz ou o sabor da fibra,
o visco, as rugas da casca ou a arquitetura de seus galhos?
Não te preocupes com os materiais.
Julga a laranjeira pela laranja.
Antoine de Saint-Exupéry
(“Citadelle” cap. CCXVII)

A tradicional Revista CONCERTO de Julho último publicou matéria assinada pela colunista Camila Frésca, na qual, ao abordar o Concerto op. 10 para piano e orquestra de Henrique Oswald,  que seria apresentado no início do mês no Theatro Municipal pelo pianista Nahim Marun, insere frase a ele atribuída. A certa altura, abre aspas para palavras que seriam do pianista: “Esse concerto  foi tocado há muitos anos por José Eduardo Martins, mas usando o manuscrito, que tem muitos erros”. Ao ler o segmento, realmente fiquei atônito!!! Tive de imediato dúvidas quanto à afirmação. Conheço Nahim Marun e com ele mantenho esporádicos contatos, sempre cordiais. Sob outro aspecto, em meu blog publiquei resenha de seu ótimo livro “Técnica avançada para pianistas” (03/09/2011). Leio habitualmente a coluna de Camila Frésca, doutora em música, e entendo a frase como um mal-entendido que teve esclarecimento posterior pertinente.

Preparava “direito de resposta” quando recebo, no dia 6 de Julho, telefonema de Nahim Marun explicando-se, a dizer que palavras foram mal interpretadas. No dia seguinte enviou-me cópia de mensagem à Revista em apreço, “Carta aberta aos leitores da Revista Concerto”, na qual se posiciona com clareza. Sairá publicada na Revista de Agosto, assim como meu “Direito de resposta”. Torna-se indispensável transmitir algumas considerações de Nahim Marun em sua retificação ao segmento escrito pela colunista: “Na conversa, feita por telefone, fui  perguntado se esse concerto já havia sido feito no Brasil. A minha resposta foi afirmativa, explicando que a referida obra havia sido executada pelo pianista e Prof. Dr. José Eduardo Martins há vários anos. Mencionei também a ótima gravação do mesmo, em versão para Quinteto de Cordas, realizado pelo Prof. Martins e o Quinteto Rubio”. Insiro dois outros parágrafos:

“Portanto as aspas na minha declaração ‘Esse concerto foi tocado há muitos anos por José Eduardo Martins, mas usando o manuscrito, que tem muitos erros’ é um completo equívoco, provavelmente uma interpretação indevida do que foi dito, conectando a resposta da primeira pergunta à da segunda, alterando o contexto das afirmações feitas.

Venho aqui declarar que tenho profundo respeito e grande admiração pelo trabalho do Prof. Dr. José Eduardo Martins. Seu trabalho é uma notória referência, essencial para qualquer estudo acadêmico ou interpretativo da obra de Henrique Oswald. Não tive absolutamente nenhuma intenção fazer qualquer critica negativa ao seu pioneiro e respeitadíssimo trabalho acadêmico e musical”.

Entendo o episódio como superado, aceitando os termos expressos pelo pianista, que se posiciona com transparência. Creio mesmo ter havido um mal entendido. Ao leitor, à guisa de informação, diria que Henrique Oswald redigiu ao menos seis manuscritos do Concerto: três para a configuração original, piano e orquestra, dois para a versão para piano e quinteto de cordas e uma para dois pianos (segundo piano, redução do acompanhamento de orquestra), sempre a manter a parte do piano basicamente inalterada. Na matéria da Revista Concerto é mencionado um só manuscrito na configuração piano e quinteto de cordas, quando na realidade são dois. Designa-o como “arranjo” quando na realidade é versão (redução de orquestra para quinteto de cordas realizada pelo compositor), palavra correta e que está presente na carta do pianista Nahim Marun. O manuscrito utilizado, contendo três autógrafos de Oswald, pertence-me, pois me foi presenteado pela neta do compositor, minha saudosa amiga Maria Izabel Oswald Monteiro, que o recebeu, por sua vez, da pianista Honorina Silva, que estudou com o compositor e dele ganhou o manuscrito encadernado (119 págs). Não há uma só rasura, o que evidencia certezas plenas por parte de Oswald. Considere-se que foi nessa versão para quinteto de cordas e piano e, com todas as probabilidades, através do manuscrito mencionado, que Henrique Oswald apresentou a primeira audição em Firenze em 1894, sendo que o original para piano e orquestra foi apresentado em 1897 no Rio de Janeiro.

Ao consultar Johan Kennivé, um dos mais competentes engenheiros de som da Europa e com o qual realizo gravações desde 1999, recomendou-me gravar o Concerto de Oswald com o Quarteto de cordas Rubio, renomado conjunto com uma série de registros fonográficos basilares sob o controle de Kennivé, entre os quais a premiada gravação dos 15 quartetos de cordas de Dmitri Shostakovitch (Brilliant Classics, Abril-Setembro de 2002).  Cópia do manuscrito autógrafo de Oswald em apreço foi enviada ao Quarteto Rubio, que se debruçou em pormenorizado trabalho visando a uma edição digitalizada para cordas. Durante meses trocamos informações. Cheguei na Bélgica mais de uma semana antes da gravação e aprofundamo-nos nesse manuscrito autógrafo. Dirk Van de Velde, do Quarteto  Rubio, convidou o primeiro contrabaixista da Orquestra Sinfônica da Ópera Nacional da Bélgica para integrar o quinteto de cordas. Gravamos o Concerto na Capela Saint-Hilarius (séc. XI) em Mullem, Bélgica,  entre os dias 17 e 20 de Fevereiro de 2002. Completam o CD o Quarteto op. 26 para trio de cordas e piano e a Sonata para violoncelo e piano op. 44. O CD foi lançado no Brasil sob a égide da Revista CONCERTO, em coprodução com a Universidade de São Paulo e a VZW De Verenigde Cultuurfabrieken / De Rode Pomp, Bélgica, 2002.

Aprofundo-me na obra de Henrique Oswald desde 1978, mercê do apoio incondicional da família do compositor durante décadas, rigorosamente sem quaisquer outros interesses. Corroborando o exposto: cinco LPs gravados no Brasil e três CDs gravados na Bélgica (o quarto, em edição, previsto para 2018-2019), livro (“Henrique Oswald – Músico de uma saga romântica”, São Paulo, Edusp, 1995), dois trabalhos acadêmicos junto à USP (tese de doutorado em 1988 e provas para professor titular em 1992 ), edições de partituras em 1982 (São Paulo, Novas Metas) e 2002 (São Paulo, Edusp), artigos acadêmicos e inúmeros recitais consagrados a Oswald, mormente no Exterior. Apraz-me saber que, a partir de minha tese pioneira, mais de uma dezena, escritas por estudiosos do compositor, foram defendidas no Brasil e no Exterior, tendo eu integrado júris nessas duas condições. Ademais, diria que jamais neguei quaisquer aconselhamentos sobre Henrique Oswald a todos os que me têm consultado ao longo das décadas. É sempre motivo de alegria saber que a obra de Henrique Oswald está a ser apresentada.

Confio no bom bom senso do pianista Nahim Marun, que aliás, frise-se, está a realizar trabalho louvável em torno de Henrique Oswald, tendo gravado CD a ele dedicado e apresentando, em acréscimo, a primeira audição moderna no Brasil do Concerto do compositor na configuração original, piano e orquestra sinfônica, pois apresentei o Concerto na versão camerística com o Quarteto Rubio em várias cidades belgas e em São Paulo no ano de 2003, assim como  posteriormente com a OCAM (conjunto de cordas), regida pelo Maestro Gil Jardim, no Theatro São Pedro.

Clique para ouvir, com J.E.M. ao piano:

Acreditemos na má interpretação da conversa telefônica. Contudo, a dedicada colunista Camila Frésca deveria ao menos ter-me consultado a fim de certificar-se sobre o manuscrito aludido, já que meu nome foi publicado a constranger-me. Eu teria, através de um simples telefonema, dirimido dúvidas sobre o manuscrito que utilizamos para gravação e concertos.

On a damaging statement appeared in an interview published by “Revista Concerto” (July issue) regarding my manuscript of Henrique Oswald’s Concert nº 10 for piano and orchestra (reduction of orchestral score for string quintet) and my refutation of what has been said, as shown by pictures of my autograph manuscript used for recording and performances in Belgium and São Paulo.

 

 


Quando a distância temporal determina emoções

Caminho, caminho, caminho.
Quando me encontro no jardim,
que é uma pátria de aromas
,
sento-me em um banco.
Olho e vejo folhas que voam e flores que fenecem.

Sinto que tudo morre e renasce.
Sensações que não me abalam.
Sou vigilância em pleno mar.
Não se trata de paciência,
pois é na caminhada que encontro o prazer
e não em seu término.
Antoine de Saint-Exupéry
(“Citadelle”, cap. CLXXXVI)

No penúltimo post comentava o programa do recital que apresentei no Theatro Municipal no dia 28 de Junho. Há recitais e recitais. O realizado naquele dia revestiu-se de aura diferenciada. O distanciamento tão imenso do tempo entre duas apresentações não permitia entender a récita como mais uma. Nascido em São Paulo, tendo me apresentado umas poucas vezes no Theatro Municipal, sendo que o último recital deu-se aos 17 de Junho de 1963, pois com orquestra apresentei-me nos anos 1970, o evento causou-me uma nostálgica sensação a anteceder o momento de entrar no palco. Quantos não eram, entre aqueles do numeroso público, que vieram ao mundo nesses 54 anos decorridos. Temos certamente duas gerações no espaço de tempo pouco superior a meio século!!!

Sempre que passo pelo Theatro Municipal, contornando-o durante inúmeras corridas como as do Centro Histórico ou da São Silvestre, lembro-me, entre uma longa respiração e outra, de minhas apresentações no mais tradicional e belo teatro da cidade. Pensava igualmente que jamais retornaria para realizar recitais naquele recinto. A minha total idiossincrasia quanto a ter um empresário, fruto talvez de minhas escolhas repertoriais, tornaram-me o que se denomina um low profile. Rigorosamente sinto-me bem nessa situação, pois a liberdade de agir, os locais eleitos no Exterior, para onde me desloco anualmente para apresentações destinadas a públicos que têm absoluto respeito ao repertório pouco frequentado, assim como para as gravações na mágica capela de Saint-Hilarius, perdida na planura flamenga da Bélgica, levam-me, já a caminho dos 80 anos, a considerar que a missão está a valer.

Não me desviando das propostas erigidas desde a década de 1970, o repertório apresentado no dia 28, luso-brasileiro, continha obras de quatro compositores portugueses e outros quatro brasileiros. Ao adentrar o palco, tendo o piano com plena luz e uma sombra a encobrir o público, entendi que este era numeroso pela vibração que acompanha a entrada de um intérprete. Proferi algumas palavras iniciais e lembrei-me, mercê da sugestão do Sr. Cônsul Geral de Portugal em São Paulo, Dr. Paulo Lourenço, idealizador da magnífica série de eventos que teve como título “Experimenta Portugal’17″, de mencionar aquela longínqua apresentação. Dei ênfase à frase, pois disse “aos 17 de Junho de… 1963″ e, para minha surpresa, fui aplaudido. Descontração maior, clima mais propício não poderia existir. “… Resistir, quem há-de?”, lembrando-me do soneto de Luiz Guimarães Júnior, “Visita à casa paterna”.

O programa, iniciado com duas Sonatas basilares de Carlos Seixas (1704-1742), foi sendo apresentado e poemas da poetisa portuguesa Violeta Figueiredo foram lidos, a anteceder cada uma das seis peças de Eurico Carrapatoso, executadas em primeira audição no Brasil, dando prosseguimento à récita. Escusado dizer que a excepcional coletânea teve guarida absoluta e, após o recital, vários estudantes pediram-me cópia da partitura. Como não sentir emoção ao tocar os seis “Estudos Transcendentais” e “Adamastor – O Gigante das Tempestades”, de Francisco Mignone, tendo presente a viúva do compositor, a pianista Josephina Mignone, incansável batalhadora nessa luta hercúlea pela preservação da memória desse imenso músico brasileiro. Na ordem, Gilberto Mendes, Fernando Lopes-Graça e Júlio Medaglia, sendo que a pequena peça deste, “Zé Eduardo arpeggiando no choro”, pelas características da obra e minha primeira incursão no gênero, mereceu aplausos inusitados. Há um fato que sempre me intriga. Quando apresento obras do notável compositor português Jorge Peixinho (1940-1995), criações austeras, seriais, de difícil entendimento inicial para o público, a reação é imediata e calorosa. Assim sempre ocorreu, seja com “Villalbarosa”, composta em 1987 para o centenário de Villa-Lobos, seja com o “Étude V Die Reihe-Courante”. Criações telúricas, que extraem todos os recursos possíveis do piano e cujo emprego dos pedais se mostra rigorosamente singular. Nessa duas obras tenho de utilizar luvas, pois há glissandos que percorrem todas as teclas, brancas e pretas, processo basicamente impossível de ser realizado com as mãos abertas desprotegidas.

O que dizer da magnífica “Valse-Caprice” op.11 nº 1, de Henrique Oswald? Uma das criações mais comunicativas do repertório brasileiro, estará presente em meu próximo CD, já editado e com previsão para lançamento entre 2018 e 2019. O público a desconhecia, pois o manuscrito não foi encontrado e poucas cópias da edição publicada subsistem em arquivos institucionais. Uma das alunas de Henrique Oswald, Honorina Silva, presenteou-me com uma cópia, ela que foi intérprete notável de Oswald. Também a interpretação dessa magnífica Valsa a encerrar o programa mereceu efusivos aplausos. Friso sempre que esses são destinados prioritariamente às obras, sendo eu apenas o mensageiro.

Duas peças extra-programa foram apresentadas: “Oraison dominicale des Castors”, síntese da síntese de uma obra, pois essa pequena “oração”, que faz parte das “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste”, evolui em forma de coral, após a menção de um canto, apenas a melodia. Um primor. E como sempre faço ao apresentar os denominados encores, interpreto de vez duas peças. “Viva-Villa”, de Gilberto Mendes, encerraria o recital que, diferentemente de tantos outros ao longo de meu caminho, sensibilizou-me muito.

Uma sugestão ficaria para a programação do Theatro Municipal. Presentemente não mais imprimem os programas. Tive de me socorrer junto ao Consulado Geral de Portugal em São Paulo, que na última hora fotocopiou o programa. Que os responsáveis pela programação do teatro entendam que o programa editado faz parte de uma apresentação. Qual a memória escrita que restaria de uma récita? Os sons podem permanecer nas mentes do ouvinte ou se volatizarem, o papel comprova e reaviva lembranças.

On my delight in playing once more in the great hall of Theatro Municipal de São Paulo last 28 June, fifty-four years after my previous solo recital at the same theatre, the most traditional and impressive in the city, as confirmed by the pictures that illustrate this post, taken by photographer André Hoss during my performance.

 

(clique na imagem para a leitura do programa)

Recital de encerramento

As agências internacionais de concertos
apoderaram-se inteiramente da nossa vida musical,
onde colocam (por vezes a peso de ouro) o êxito acumulado do “centro”.
E nem sequer passa pela cabeça das instituições e dos seus “programadores”
que Brasil e Portugal, juntos,
bem podiam criar uma nova dinâmica
de efectivo intercâmbio que se projectasse
não só no espaço cultural luso-brasileiro, mas também para fora dele.
Mário Vieira de Carvalho
(Professor Catedrático de Sociologia da Música na Universidade Nova de Lisboa)

A última vez que me apresentei como recitalista de piano no Theatro Municipal de São Paulo foi aos 17 de Junho de 1963, com programa dedicado a J.S.Bach.  A progressiva destinação do Theatro Municipal às temporadas líricas, ao ballet e aos concertos orquestrais possivelmente retirou do mais tradicional teatro paulistano muitas das apresentações solo, que foram deslocadas para outras salas da cidade. Estou a me lembrar de que, na minha juventude, o Theatro Municipal abrigou apresentações de muitos dos maiores intérpretes solistas da história: Arthur Rubinstein, Claudio Arrau, Walther Gieseking, Zino Francescatti, Ruggiero Ricci, Christian Ferraz, Alexander Brailowsky, Leonid Kogan, Pierre Fournier, Guiomar Novaes, Magda Tagliaferro, Gérard Sousay e tantos mais. Minha primeira ida ao Theatro Municipal foi para assistir ao pianista Alexander Uninsky. Tinha eu pouco mais de dez anos e o espetáculo  maravilhou-me. A todas as apresentações dos intérpretes mencionados meu irmão João Carlos e eu assistíamos entusiasmados! Quando crianças, sempre acompanhados de nossos pais.

Quanto ao Theatro Municipal, o atual prefeito João Dória realizou para a cidade um benefício cultural a ser elogiado, pois o teatro ficou em passado recente à mercê de algumas figuras hoje envolvidas com a Justiça. Propiciou o alcaide uma democratização dessa sala de espetáculos centenária. Foi pois com alegria que recebi do Senhor Cônsul Geral de Portugal em São Paulo, Dr. Paulo Lourenço, convite para encerrar a programação “Experimenta Portugal’17″ que, durante todo o mês de Junho, mostrou à cidade eventos diversificados em vários locais, numa promoção relevante. Junho tem significado especial para Portugal, pois o dia 10 (dias de Camões) é a data nacional do país. O recital se enquadra na programação do Theatro Municipal, que às quartas-feiras, às 20:00hs, tem realizado espetáculos solistas ou camerísticos com boa aceitação pública. Está pois meu recital marcado para o dia 28 deste mês.

Para tanto, apresentarei programa luso-brasileiro que se estende do barroco à contemporaneidade. O ouvinte poderá “viajar” sonoramente através de propostas de compositores de grande valor com linguagens rigorosamente distintas. Diria, não há no programa elaborado dois estilos que se poderiam assemelhar. Aos 79 anos, poderia afirmar que, entre minhas escolhas durante a trajetória, a música de Portugal e do Brasil faz parte atuante de meu repertório, sem distinção, repartida de maneira bem equânime, inclusive em número de CDs gravados, seis brasileiros e outros seis com obras portuguesas significativas.

No programa apresentarei obras de oito autores, também selecionados equilibradamente. Inicio com duas Sonatas do compositor barroco nascido em Coimbra, Carlos Seixas (1704-1742). Seixas, falecido precocemente, legou importante criação distribuída em vários gêneros. Gozou da amizade de Domenico Scarlatti (1685-1757), que teceria elogios ao colega coimbrão, 19 anos mais jovem. Carlos Seixas compôs mais de 100 Sonatas para teclado. Na Bélgica gravei 23 Sonatas para o selo De Rode Pomp. As duas escolhidas são contrastantes, sendo a Sonata em  lá menor (71) plena de poesia e a em dó menor (16) jocosa e virtuosística, com determinadas ornamentações, recorrentes durante a obra, que fazem lembrar a técnica da guitarra.

Também pelo selo De Rode Pomp gravei as “Trente Six Histoires pour amuser les enfants d’un artiste” (1999), obra basilar de Francisco de Lacerda (1869-1934). Apresentei-a mais de uma vez em várias cidades portuguesas. Quando do lançamento de meu livro “Impressões sobre a Musica Portuguesa” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011), apresentei na legendária cidade universitária não apenas muitas dessas pequenas peças, como também duas homenagens a Francisco de Lacerda. O compositor francês François Servenière (1961- ) comporia “Trois musiques pour endormir les enfants d’un compositeur” e o compositor português Eurico Carrapatoso (1962- ), as “Six histoires d’enfants pour amuser un artiste”,  inspiradas nos poemas da poetisa portuguesa Violeta Figueiredo. Pede o compositor que o intérprete leia os curtos e sugestivos poemas antes da apresentação de cada uma das peças da coletânea.

Os “Estudos Transcendentais” de Francisco Mignone (1897-1986), compostos em 1931, pertencem definitivamente ao repertório mais significativo de nossa criação musical para piano. Neles, Mignone emprega processos arrojados, mormente sob o aspecto da busca de resultados sonoros.

Em 1979 solicitei a Francisco Mignone uma obra para comemorar 20 anos de minha primeira apresentação em Lisboa. Surgiu “Adamastor – O Gigante das Tempestades”, inspirado em “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões.

O longo convívio com Gilberto Mendes (1922-2016) na Universidade de São Paulo aprofundou laços de amizade. Ele me honraria com muitas obras que apresentei no Brasil e em vários países europeus. Entre essas: “Viva Villa”, “Il Neige Encore”, Sete “Estudos”, “Sonatina” e mais algumas. Muitas delas têm sido apresentadas no Exterior por pianistas de diversas nacionalidades, o que vem demonstrar que, contemporâneo, Mendes nunca foi compositor de uma única apresentação, fato rigorosamente comum entre seus pares. Para os meus 70 anos, que também seriam lembrados em Portugal, Gilberto Mendes compôs “Largo do Chiado” (2008). A curta peça evoca o fado preferido por Gilberto, “A Severa”, canção que sabia de memória desde o filme português de José Leitão de Barros datado de 1930 e primeira película sonora realizada em terras lusíadas.

De Fernando Lopes-Graça (1906-1994), compositor que tive o privilégio de conhecer e de cuja amizade privei desde 1958, gravei três CDs, a maioria com obras em primeira audição. Apresentarei “Morto, José Gomes Ferreira vais ao nosso lado”, pertencente às nove “Músicas Fúnebres”, nas quais Lopes-Graça homenageia amigos que partilhavam ideologia e conceitos artísticos e literários. Como a peça apresenta várias vezes o tema de “Jornada”, uma das canções de Lopes-Graça  sobre versos do poeta José Gomes Ferreira e pertencente às “Canções Heróicas”, antes da interpretação da composição tocarei a canção precedida da leitura dos versos do ilustre poeta português.

Júlio Medaglia (1938- ), um dos músicos mais versáteis do país, compôs uma peça para CD de Estudos Brasileiros que gravei na Bélgica e lançado pela Academia Brasileira de Música. “Zé Eduardo arpeggiando do choro” nasceu após solicitar ao amigo um choro para piano, mercê de ter ouvido uma outra composição sua do gênero dedicada ao quinteto de metais da Orquestra Sinfônica de Berlim. Um primor que continua a granjear ótima recepção.

Mantive com Jorge Peixinho (1940-1994) uma amizade que me estimulou muito no sentido de entender melhor a escrita decorrente do pensamento da Escola de Darmstadt, com a qual Peixinho tanto se identificou. Gravei duas obras do notável músico, “Villalbarosa” para o selo Labor dos Estados Unidos (2001) e, mais recentemente, o “Étude V Die Reihe – Courante” (1992) para o selo Francês ESOLEM (2017), criação que explora de maneira notável a “série” (técnica de composição baseada na disposição de 12 sons sequencialmente diferentes – total cromático da oitava) e que veio enriquecer a coletânea de Estudos para piano que iniciei em 1985 e que teria a duração de 30 anos, findando pois em 2015. Em blogs anteriores escrevi a respeito do projeto, criado com data marcada para ser finalizado. Tem-se uma panorâmica do gênero Estudo na passagem do milênio. Recebi cerca de 80 Estudos vindos de inúmeros países.

Finalizarei o programa com uma obra de nosso grande compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931), músico que tive o privilégio de redescobrir e dele gravar cinco LPs no Brasil e três CDs na Bélgica, sendo que um quarto deverá ser lançado no próximo ano. A “Valse-Caprice” op. 11 nº 1 é simplesmente extraordinária em sua condução e apresenta temas contagiantes. Na realidade, uma grande Valsa.

Mesclar obras brasileiras e portuguesas é motivo de alegria. Todavia, vergonhosamente em nosso país não se toca música erudita ou de concerto composta em Portugal. Continuamos a reverenciar os mesmos compositores consagrados europeus, os de sempre. Por motivos que poderiam ter explicação numa análise mais profunda, passando pela colonização, teimamos em dar as costas à excelente criação musical erudita, clássica ou de concerto portuguesa. Exceções das exceções existem e ficam nessa categoria.

Convido os leitores que me têm prestigiado desde Março de 2007 através do blog a assistir um programa diversificado, que bem posiciona criações relevantes oriundas de nossos países, que deveriam ser sempre irmãos em todos os aspectos. Preservemos esse amálgama que existe a partir de tantos elos insubornáveis, eternos.

On my forthcoming recital on 28 June at the Theatro Municipal, part of the agenda of “Experimenta Portugal 17”, event promoted by the  General Consulate of Portugal in São Paulo. The recital will be entirely dedicated to Luso-Brazilian composers: Carlos Seixas, Eurico Carrapatoso, Francisco Mignone, Gilberto Mendes, Fernando Lopes-Graça, Júlio Medaglia, Jorge Peixinho and Henrique Oswald. A richly varied programme ranging from the Baroque to the present, with extraordinary works from Portugal and Brazil, “sister nations” that should be always united by genuine ties of friendship.