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Projeto de Trinta Anos que Chega a Termo (1985-2015)

Há o real e há o irreal.
Além do real e além do irreal há o profundo.
Henry de Montherlant

O grão de areia não impede o fluxo das ondas.
Sylvain Tesson

Na transição das décadas de 1960-1970, após três anos voluntários longe do piano, retomei os estudos. Esse tempo foi determinante. Trabalhara anteriormente parte expressiva do repertório tradicional, mas a perspectiva das décadas futuras, a ter de repetir infinitamente as mesmas obras, causava-me até mal estar. Foi essa a causa essencial de minha interrupção. Ao retornar ao piano após o período “sabático”, que me levou à reflexão sobre o prosseguir, amadurecia a ideia de não apenas tocar aquilo de que gostava, mas preferencialmente também penetrar no repertório altamente meritório e pouco explorado. Estendia-se essa reflexão à criação competente da atualidade. Esse posicionamento não excluiu o repertório tradicional. Fez-me apenas um visitante homeopático. Paralelamente, interessaram-me as integrais, e compositores como Jean-Philippe Rameau, Claude Debussy e Moussorgsky povoaram meus almejos a visar à apresentação da opera omnia para piano. Todavia, o trabalho “arqueológico” chamou-me e, em 1978, iniciava a pesquisa moderna em torno do nosso compositor romântico Henrique Oswald (1852-1931), que me daria dois gostos imensos: o redescobrir e verificar que, a partir dessa caminhada, quantidade expressiva de estudiosos surgiu. Abria-se, concomitantemente ao debruçamento perene sobre a criação oswaldiana,  um leque que me levaria à apresentação de inúmeras obras extraordinárias do passado europeu relegadas ao ocultamento. Neste espaço sempre insisti em pontos que entendo precisos: o público tem necessidade da comparação, sentindo-se inseguro frente ao desconhecido; empresários e sociedades de concerto apostam basicamente no repertório super ventilado, que traz audiência e, consequentemente, lucro; a crítica, sem formação específica, louva os que se rotularam perpetuadores do repertório consagrado e o intérprete, que preferencialmente se dedica ao repetitivo, tem lá suas razões para que o extraordinário acervo repertorial – jamais o desmereceria – siga seu curso.

Em 1985, quando de um caderno com oito composições em Homenagem a Henrique Oswald publicado pela USP, conversei com um dos compositores, o americano Stephen Hartke  (1952- ), que no futuro desenvolveria brilhante carreira nos Estados Unidos. Nascia “Template”, estruturado a partir do “Sherzo-Étude” (1902) de Oswald, a primeira obra de um projeto. Ricardo Tacuchian (1939- ), com o “Il Fait de Soleil”, seria o segundo a compor Estudo para uma sequência a abranger três décadas. Frise-se que esta obra de 1981 receberia o título de Estudo tardiamente.

Ao descrever o esboço do projeto ao compositor Gilberto Mendes, o respeitado músico incentivou-me, citando seu outro amigo, o pianista e compositor norte-americano Ivar Mikhashoff (1941-1993), que encomendou, entre 1983 e 1991, 127 Tangos para 127 compositores. Considerei em nossa conversa que o Estudo por possibilitar o multidirecionamento, pois um gênero abstrato, poderia motivar uma liberdade não encontrável no Tango, devida à tipificação deste. E haveria sempre a possibilidade da virtuosidade que caracteriza incontáveis Estudos através da História.

Sob outra égide, intrigava-me a técnica pianística do Estudo. Sendo ele, em princípio, o depositário de processos específicos que cada compositor imagina para o modelo, nada mais significativo do que apreender num espaço de trinta anos, fronteira do milênio, a panorâmica do Estudo. Aonde teriam chegado as formulações? Tradição e inovação poderiam caminhar juntas? Pouco a pouco, de 1985 a 2015, recebi Estudos das mais diversas procedências. Alguns compositores foram convidados, outros escreveram espontaneamente. Um aspecto é fulcral nesse universo acadêmico em que a imensa maioria dos projetos têm mais de uma assinatura e são financiados pelo Estado, por Fundações ou pela Universidade. Jamais solicitei apoio e jamais os compositores que abraçaram a causa falaram-me em remuneração. Sob outra égide, o imediatismo torna irreal um projeto tão longo. O carvalho só é exemplo mercê do tempo de crescer, o vinho, da paciente maturação.

Um outro aspecto essencial. Como estava a pensar na técnica pianística tradicional e renovada por tantos compositores de mérito, só não quis, voluntariamente, receber contribuições com o auxílio da eletrônica ou, então, destinadas ao piano preparado. A visão in loco de um piano no Reino Unido, basicamente destruído na noite anterior ao meu recital por um intérprete que “preparou” o instrumento de tal maneira que afetou cordas, martelos e até a tábua harmônica, deixou-me chocado. Felizmente, a sala de concertos tinha três pianos à disposição. Estaríamos, nestes casos, em outro compartimento, que não atenderia a desideratos precisos. Conheço inúmeras criações que recebem a colaboração da eletroacústica. Sem entrar no mérito, o piano acústico é suficientemente rico para abrigar, ainda, incontáveis contribuições, independentemente das tendências técnico-composicionais de seus autores.

Dos mais de oitenta Estudos recebidos, provenientes de vários países – Bélgica, Portugal, França, Estados Unidos, Alemanha, Bulgária, Japão – e inúmeros outros Estudos de nossos compositores, a maioria foi apresentada, mormente no Exterior. Considero que determinados Estudos da coletânea estarão futuramente no patamar mais elevado, junto daqueles considerados obras primas, pois não apenas apresentaram inovações técnico-pianísticas como articularam com maestria processos tradicionais acumulados desde o início do século XIX.

A edificação foi lenta, como também aquela voltada às gravações. Tendo perpassado, como a maioria dos pianistas, as excelsas coleções de Estudos de Chopin e Liszt, que têm quantidade enorme de gravações, muitas delas hors concours, importavam-me os Estudos compostos do final do século XIX às primeiras décadas do século XX. Como Alexandre Scriabine (1872-1915) e Claude Debussy (1962-1918) eram e são constantes temas de meus aprofundamentos, gravei na Bélgica a integral desses Estudos para o selo De Rode Pomp. Anos após, foram lançados no Brasil pelo selo Clássicos. Os derradeiros de Scriabine (Três Estudos op. 65) e os 12 de Debussy (1915) contêm ainda a mais precisa modernidade. Pierre Boulez, em entrevista ao jornal “Le Monde” (24/03/2000, p. 35), afirmaria que os Estudos de Debussy, juntamente com obras de Stravinsky (“Sagração da Primavera”), Schönberg (“Pierrot Lunaire”) e Bela Bartok (“Quarteto nº 4″), se fossem compostas hoje, seriam modernas, tão grande as inovações propostas. Em “Témoignages” nº 4 (Université Paris-Sorbonne, 2012), acrescentei “Vers la Flamme”, de Alexandre Scriabine.

Interessou-me gravar na Bélgica seleção dos Estudos que enriqueciam o projeto. Nascia o CD de Estudos Contemporâneos Belgas (selo De Rode Pomp), quando 10 compositores expressivos do país entenderam a dimensão do projeto. Fi-lo logo após em relação aos Estudos Brasileiros (selo da Academia Brasileira de Música), tendo como primeira obra do CD os magníficos “Estudos Transcendentais” (1931), de Francisco Mignone, que a meu ver são os pioneiros do gênero nesse aspecto da modernidade no Brasil. No final de Abril estarei a gravar na Bélgica CD com Estudos franceses, portugueses, da Bulgária e do Brasil. Teremos assim, nesses três CDs mencionados, uma panorâmica do gênero Estudo nessa transição tumultuada dos milênios. Digo panorâmica, pequena aliás, pois repertoriar o que foi criado nesse período pelo mundo seria impensável. Os cerca de oitenta Estudos atenderam a objetivos precisos e entendo que esses foram amplamente atingidos, graças à colaboração dos compositores que acreditaram no projeto.

À guisa de exemplificação, mencionaria compositores que, ao longo desses trinta anos, privilegiaram o projeto mais de uma vez. Da Bélgica, Raoul De Smet (1936-  ) entendeu que a proposta não se extinguiria com apenas um Estudo. Conversamos a cada ida minha ao país e dos seus polidirecionados 15 Estudos transcendentais, apresentei os seis primeiros em Gent e na Antuérpia. Boudewijn Buckinx (1945- ), numa visão totalmente oposta, criou sete instigantes e curtos Estudos pós-modernos, que fazem parte do CD já mencionado. Gilberto Mendes (1922- ), nosso compositor referencial, elaborou sete Estudos ao correr dos anos. Foram surgindo após entendimentos e, desses, dois são versões para piano solo de obras camerísticas.  O saudoso Almeida Prado (1943-2011) compôs os já célebres “Três Profecias em Forma de Estudo” (1988) e o Estudo in memoriam Alexandre Scriabine. As profecias tiveram gravação na Bélgica para o CD de Estudos brasileiros. Podem ser acessados através do YouTube. Paulo Costa Lima (1954- ), da Bahia, enriqueceu a coletânea com quatro Estudos significativos, sendo que três foram gravados em Sofia, na Bulgária, para CD lançado na Bahia. H.J. Koellreutter (1915-2005), Willy Corrêa de Oliveira (1938- ) e Celso Mojola (1960- ) comporiam três Estudos; Mário Ficarelli (1935-2014) e Ricardo Tacuchian (1939- ) criaram dois cada e as obras também integram o CD de Estudos brasileiros. De Tacuchian, a “Avenida Paulista” está no YouTube. Salientaria que Estudos de Gilberto Mendes (“Um Estudo? Eisler e Webern caminham nos Mares do Sul”), Almeida Prado (“Três Profecias em forma de Estudo”), Willy Corrêa de Oliveira (“Etüde für klavier – Hanns Eiler in memoriam: für das Volk der DDR”), entre outros Estudos Contemporâneos, foram apresentados em recitais nas cidades de Potsdam e Berlin, cinco meses antes da queda do famigerado muro em 1989, pois criados para os eventos. Há uma curiosidade que transmito ao leitor. Quando recebi o programa do recital no Palácio Sanssouci, em Potsdam, indaguei ao Diretor do Hans-Otto-Theater da cidade o porquê de terem excluído “ao povo da DDR”, expresso por Corrêa de Oliveira. A resposta foi imediata e vinda de um cidadão que acumulava o exercício como deputado: “Há dois regimes diferentes, o deles e o nosso (referindo-se à Alemanha dividida). Contudo, só há um povo alemão, pois não existe um povo da República Democrática da Alemanha. Daí termos retirado a menção”.

Os Sete “Études Cosmiques + Automne Cosmique”, do françês François Servenière (1961- ), a “Missa sem Palavras (cinco Estudos Litúrgicos)”, do compositor português Eurico Carrapatoso (1962- ), o Estudo “Et Iterum Venturus”, do búlgaro Gheorghy Arnaoudov (1957- ), o consagrado “Étude V – Die Reihe Courante”, do também português Jorge Peixinho (1940-1995) e “Um Estudo? Eisler e Webern caminham nos Mares do Sul” de Gilberto Mendes serão objeto de comentários no próximo blog, que abordará o recital na mesma Sociedade Brasileira de Eubiose, marcado para o dia 11 de Abril.

O projeto chega a termo com a gravação do CD mencionado acima, em fins de Abril, na Bélgica. Sinto-me feliz ao verificar que mais de 20 Estudos, dos mais de 80 recebidos, foram editados no Exterior. Creio que o tempo fará compreender que permanecerão.

Nestes oito anos de blogs ininterruptos tenho salientado de maneira repetitiva, mas a atender  convicções essencialmente pessoais, que a grande dádiva de minha trajetória musical foi ter encontrado sendas diferenciadas, não me esquecendo dos percursos. Estes sedimentaram projetos nunca abandonados e propiciaram-me algo inefável, estar sempre a redescobrir a joia rara repertorial ou a apresentar hic et nunc o que está a brotar dos cérebros de compositores bafejados pelas musas.

This post addresses my Etude project, a three decade-long work that began in 1985 with the North-American composer Stephen Hartken’s “Template” and ends in 2015. With more than 80 etudes received for the project, it gives a panoramic view of this musical genre at the turn of the 20th to 21st century. In a recital to be held on 11 April next in São Paulo, I will present etudes written by composers François Servenière, Eurico Carrapatoso, Gheorghy Arnaoudov, Jorge Peixinho and Gilberto Mendes.

 

 

 

 

 

 

 

O Texto como Respiração

Todo o homem é diferente de mim e único no Universo;
não sou eu, por conseguinte, que tem de reflectir por ele,
não sou eu quem sabe o que é melhor para ele,
não sou eu quem tem de traçar o caminho;
com ele só tenho o direito, que é ao mesmo tempo um dever:
o de ajudar a ser ele próprio;
como o dever essencial que tenho comigo é o de ser o que sou,
por muito incómodo que tal seja, e tem sido, para mim mesmo e para os outros.
Agostinho da Silva

Aos dois de Março de 2007 nascia o primeiro post publicado no blog. Já comentei anteriormente que nada teria acontecido não fosse uma observação de meu ex-aluno Magnus Bardela. No final de Fevereiro daquele ano, após conversa amistosa a rememorar fatos,  ele – que frequentou durante quatro anos minha classe de piano na USP, formando-se brilhantemente -, propôs-me a construção de um blog. Hesitei instantaneamente, mas a argumentação de Magnus foi convincente e dias após, sem que eu soubesse, durante conselhos que me dava sobre internet, construiu o blog, dizendo-me: “Está pronto, é só inserir seus textos”. Atônito, ainda hesitei, mas aos 2 de Março “Praeambulum” dava início ao caminhar com os leitores.

Mencionei várias vezes que a não interrupção desde 2007 jamais foi um problema. Certo dia o amigo Daniel Marcos me questionou “Você não se dá férias, ao menos um mês?”. A resposta foi imediata: “Nunca dei férias para minha respiração”. O ato de escrever, de  estudar piano ou de correr faz parte desse respirar, cotidiano ativo. Quanto aos blogs, a não interrupção uma semana sequer (o post entra aos sábados às 00h05min) durante esses oito anos é fruto do pensar enquanto realizo treinamentos a correr pelas ruas de minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, já mencionado em tantos blogs anteriores. A aceleração cardíaca age sobre os neurônios e as ideias fluem com naturalidade. Focalizado um tema, é só desenvolvê-lo na primeira madrugada e o texto desliza, corrente. Problemas técnicos adiaram por um ou dois dias uns poucos textos.

A pressão de ter de escrever tantos caracteres para a uma determinada publicação em tempo previamente fixado não daria resultado em meu caso particular. Essa liberdade não me impõe restrições quanto à dimensão, quiçá conteúdo. Observando os pássaros, dificilmente eles obedecem a roteiros, salvo os pombos – mormente o pombo correio ou as aves migratórias. A temática simplesmente acontece e tem acontecido sem interrupção. Música, sempre, cotidiano e suas surpresas, resenhas de livros que me atraem, impressões colhidas durante viagens e que se processam no de profundis, tardiamente quantas vezes. Diria que a observação “viajar é olhar”, da grande poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen pode ser interior. Todos os impactos que diariamente vivemos se acumulam e ficam numa espécie de álbum interior, pleno de figuras e observações. Basta um impulso, sugestão que seja, e aquela determinada página escondida no álbum interior ressurge por inteiro. “Viajar é olhar”, seja externa ou internamente. Meu celular é daqueles jurássicos, só recebe ou transmite ligações. Nada mais. Certa vez em que minhas netas se divertiam tirando fotos e selfies com aparelhos sofisticados, disse à Emanuela, a menor, que iria tirar uma foto mental simulando uma foto com tão antigo celular. Pôs-se a rir. Horas após, enviei-lhe e-mail com a imagem de meu celular e escrevi: “feche os olhos e lembre-se daquele momento, pois ele está gravado em sua mente”. Valeu como descontração, mas Emanuela guardou o episódio.

Raramente visito o universo nebuloso da política, mormente nestes últimos anos em que a mentira é vendida como verdade e a corrupção enlameia o cotidiano. Por vezes, sem o desejar, emito considerações. Jornalistas que costumo frequentar pela leitura ou escuta radiofônica têm exercido com competência a denúncia como alerta, o confronto como dialética necessária e saneadora. Há esperanças. O país não se submeterá à primazia que está a fazer sucumbir democracias latinas. Não merece.

Temas fluem e nosso universo depende invariavelmente dos tópicos atrativos. Eles lá estão. Buscamo-los à maneira de um peregrino que, ao caminhar, pormenoriza-se naquilo que já está “pré-moldado” em sua mente. Sim, há o acaso. Não o desprezo, nunca.

Para que a sequência não tenha sofrido uma interrupção sequer ao longo dos tantos sábados, há a necessidade de querer. Meu saudoso e sábio pai nos ensinou básicos princípios que serviram aos quatro filhos: disciplina, perseverança, constância, concentração e fé naquilo em que acreditamos. Esses tópicos foram aplicados diferentemente pelos irmãos de sangue, a depender da visão individual das coisas.

Nada teria acontecido não fosse Magnus ter pressentido a ideia. Continuava a reter textos mentais em ebulição permanente, como sempre, desde meus primeiros anos. A memória tem esse poder mágico de manter o que os olhos viram externa e internamente, amalgamar olhares sem perder a precisão e, quando acionada, revelar por inteiro experiências vividas. O arquivo mental é uma de nossas dádivas maiores.

Este blog não existiria sem colaboradores dedicados que, ao longo destes anos, jamais hesitaram em ajudar-me, ignorante que sou dessa parafernália tecnológica a todo instante renovada. Difícil, nos meus 76 anos, acompanhar essas transições rápidas, sempre em direção a uma outra inovação. Desisti. Conheço o básico do básico e, graças aos amigos diletos, supro a não atualização internética.

Regina Pitta, Magnus Bardela, François Servenière, Elson Otake e Luca Vitali (in memoriam). É um privilégio tê-los a me dar suporte em esferas distintas. Desde o primeiro post, minha dileta amiga e vizinha, Regina Pitta, lê os textos e faz revisão impecável. O compositor romântico Henrique Oswald (1852-1931) escreveria ao seu amigo, Furio Franceschini, que o pior revisor é o autor e, entre esses, era ele o pior. Assertiva. O texto flui  num impulso nas madrugadas e as duas ou três leituras não são suficientes para sanar gralhas (assim os portugueses definem incorreções) que parecem querer se ocultar. E como se escondem!  É humano. Regina passa a lupa, mercê de seu conhecimento de nossa gramática. Quando dúvidas pairam, recorre à Filologia. Sinto-me seguro. Após as devidas correções e sugestões – nem sempre aceitas, mas é bom ter uma outra opinião -, escreve um resumo em inglês, devido aos leitores acima do Equador que me honram com a leitura dos blogs, traduzidos sofrivelmente pelo programa do Google.

Magnus tem sido meu guru internético. Foi ele que me ensinou o que sei, isso em 2003. Só não aprendi mais por total descaso com a aceleração infalível da tecnologia. O básico possibilita-me o convívio com teclado e tela e os acessos que consigo atingir. Quando um impasse surge, é Magnus que me socorre, pois de seu computador pode acessar o meu e sempre, até agora, tudo se resolveu. Mente privilegiada a deste amigo que diariamente envia-me gravações fabulosas que dia a dia têm enriquecido o bom lado do YouTube, a contrastar com o besteirol que infesta esse meio de comunicação.

Elson Otake, não diretamente ligado ao meu blog, tem sido o responsável pela introdução no YouTube de cerca de 80 músicas por mim gravadas no Exterior. Preciosista, tem o dom da concisão e suas montagens são louvadas aqui e alhures. Maratonista, em muitas corridas de rua abdica de sua velocidade para correr ao meu lado. Um estímulo.

François Servenière. Compositor e pensador francês de altíssimo mérito, Servenière privilegia-me com mensagens de extraordinário teor. Nossa correspondência, nascida em 2008, é abastecida semanalmente. Todos os posts têm sua leitura acurada. Se a tradução Google tem tantas falhas, Servenière consegue sempre apreender a essência dos blogs e seus comentários enriquecem meus textos, pois o amigo insere leituras paralelas e reflexões profundas sobre o tema. Tão ricas são suas mensagens que o considero, hoje, um partner de meu blog. O leitor tem acompanhado, através dos Ecos, que ele está sempre presente. Fundamental é a possibilidade de novo olhar de um autêntico intelectual francês. Estimula a comparação, faz-nos apreender aspectos que por vezes nos passam desapercebidos. Privilégio.

Rendo tributo ao meu saudosíssimo amigo e extraordinário artista plástico Luca Vitali (1940-2013). Durante anos, Luca foi colaborador dedicado. Tantas vezes mencionei que o amigo tinha um lápis no cérebro. Ao conhecer um texto, um ou dois dias após enviava-me um desenho alusivo ao tema. Alguns eram charges de humor bem refinado. Faz-me muita falta o convívio semanal que mantinha com Luca. Arte era nosso assunto fulcral. François Servenière, ao ver as ilustrações da magnífica Série Cósmica (acrílico sobre tela) do artista, ficou tão impactado que escreveu sete Études Cosmiques para piano e, após a partida de Luca, mais um Estudo, Outono Cósmico. Em Abril voltarei ao tema, pois deverei gravá-los na Bélgica juntamente com Estudos Contemporâneos de outros compositores.

A família. Sem a harmonia que nos faz unidos indelevelmente, confesso que dificilmente conseguiria empreender trajetórias. Ela me traz a serenidade necessária. Epicentro essencial.

Se já ultrapassamos os 600.000 acessos, devo esse estímulo unicamente aos leitores que têm prestigiado minha coluna. Continuarei. É o que sei fazer.

This week my blog completes eight years of nonstop work, leading me to reflect on the pleasure of posting an entry every week – a flow of ideas that come to me during my street races. In this post I recall the subjects that are dear to me, expressing gratitude for the services of those who, behind the scenes, help me in this endeavor.

 

 


As Várias Manifestações Gestuais

A obra de arte não deveria ser pretexto
para o intérprete expor seus próprios estados de alma.
Tão pouco a exibição de si mesmo, ou seja, a auto-exibição.
É dever sagrado do intérprete comunicar
de maneira intacta o pensamento do compositor,
pois ele não é que intérprete, apenas.
Claudio Arrau

Dividi em duas partes o blog sobre o gesto. Este segundo post coloca-se em dois momentos: apresentar a continuação das considerações de François Servenière sobre o gesto, mormente na modernidade e, depois, tecer reflexões pessoais sobre gestualidade, concentração, mídia, tradição e modernidade, já externadas homeopaticamente em tantos posts anteriores.

Ao regressar ao pianista Lang Lang, nascido na China em 1982, Servenière comenta: “Vejo em sua maneira de interpretar algo muito original, fundamental para a maestria do futuro, mas iconoclasta para a geração mais purista, nascida sob os fundamentos batismais da rádio, onde apenas a audição era importante. Consideravam que a transmissão áudio iria travestir e trair a tradição dos intérpretes mediúnicos, podendo ‘matar’ os poucos intérpretes ungidos num panteão ainda em vida. Eram eles os únicos que poderiam se opor a esse fervilhar multifacetado que surgiu com as novas gerações de pianistas, produzidos em massa pelos conservatórios mundiais. Essa assertiva pode ser constatada através de caminhos percorridos por essa legião de intérpretes.

Por que fiquei emocionado com a interpretação de Lang Lang do famoso concerto de Tchaikovsky? Ele teria compreendido que a música de tradição, habitualmente denominada clássica ou erudita, muitas vezes com desprezo, necessitará de nova metodologia para poder concorrer com as insípidas presenças na web, que deploramos amargamente, você e eu. Lamentamos a capacidade perdida da música erudita de poder seduzir o espectador frente ao desarranjo infinito que nos é proporcionado por esses espetáculos de vídeos YouTube sem pé nem cabeça, pela apologia insana à pornografia, sem contar sexo, assassinatos e a decadência  mais estereotipada, salvo em Roma antes da queda. Até mensagens bárbaras de fundamentalistas são apresentadas! Lang Lang compreendeu que, para concorrer com a web atual, em batalha aparentemente perdida para o besteirol, seria necessário mostrar movimento, vivacidade, teatralidade, mise-en-scène e qualidade vivificada e renascida, pois a imagem alimenta-se ‘bestamente’ de movimentos e vida. Ação de muitas câmaras e gestos, montagens sofisticadas, pois, mesmo que o purismo o contradiga, evidentemente o progresso passa por uma análise de fundo e de forma! Orquestras e metteurs en scène compreenderam essa tendência. Talvez estejamos nessa fase necessária – mas não o suficiente – da transição, onde intérpretes aprendem uma nova linguagem, justamente essa da cena frente à câmara quando, pouco a pouco e por vezes tateando, compreendem a necessidade atual, vital e irreversível, dessas técnicas inovadoras. Acredito, em contrapartida, que haverá uma volta à verdade da linguagem essencial entendida por você.

Na realidade, a gestualidade de Lang Lang não é tão diferente daquela de músicos clássicos de todas as gerações, que adentravam o palco diferenciando-se da concorrência mostrando personalidades expansivas, diferentes daquilo visto até então. Estive presente em numerosas premières de jovens. A teatralidade mais ou menos excessiva, a depender da personalidade, perturbava-me, como o perturba.Compreendi com o tempo que se tratava de natural inclinação ao inusitado nesse vislumbrar da carreira. Como você demonstra com eloquência, o intérprete regressa naturalmente à tradição mais comedida e sábia de sua arte quando sua personalidade acaba sendo aceita e adubada pelo público. Stravinsky foi radical ao compor ‘A Sagração da Primavera’ e resultou, o mesmo fazendo Pierre Boulez, ainda mais radicalmente! Conheci os primórdios da carreira do pianista François-René Duchâble. Era eu ainda um menino. Extrovertido e expansivo no palco àquela época, Duchâble era de estatura pequena. Quando assisti a um seu concerto – ele deveria ter 50 anos – presenciei o sábio sobre a montanha, já sem a necessidade de fazer acrobacias e gestualidade excessiva para deslumbrar multidões. Duchâble encarnou dois personagens, o gênio precoce e o sábio. A primeira atitude, para se fazer conhecido, a segunda, para transmitir. Toda essa metamorfose em apenas uma personalidade desejosa de imortalizar a verdade da música em lances largos, elegância, profundidade. A verdade estaria nessa transformação. Penso que Lang Lang tem suficiente talento e inteligência para traçar o mesmo caminho percorrido pelos grandes mestres. Os excelsos compositores também não trilharam sendas que se metamorfosearam?  Aí estão Debussy, Mozart, Ravel, Stravinsky, Beethoven, mestres absolutos, para mais não dizer” (tradução: J.E.M.).

A tradição obedece à constância, dela é integrante. Porém, fluxos motivados pela passagem do tempo, não a tornam imutável. Impossível seria tratando-se de interpretação. A tradição pressupõe pequenas flexibilizações. Se assim não fosse, estaria embutida, aprisionada. Contudo, a espinha dorsal – mercê da partitura, das fontes, do debruçamento de estudiosos e da oralidade – é salvaguarda para que a continuidade tradicional permaneça. Se a modernidade e a tecnologia sempre in progress avançam para cenário cada vez mais exposto, intérpretes adeptos da tradição no suceder de gerações não têm essa preocupação com o efeito gestual e a transmissão da mensagem musical. Antolha-se-me que o gesto expõe o carimbo rigorosamente individual quando dos excessos nos tempos atuais. Insubstituível, personalíssimo, o gesto mediático exacerbado não encontra imitadores. Ele é efêmero, pois estiola-se com o “criador”. Tem, sim, descobridores de outras “técnicas” de expressão corporal. Seria do mais extremo mau gosto uma réplica de Lang Lang em suas transformações corpóreo-faciais, como beiraria o grotesco a adoção postural excêntrica de Glenn Gould frente ao piano. Os gestuais do virtuosístico e estereotipado Lang Lang e os praticados por Glenn  Gould, artista de raríssima inteligência, não têm e não tiveram, respectivamente, seguidores, mas servem e serviram para autopromoção. Impossível a indiferença ao vermos essas duas personalidades em ação. Não obstante, é fácil entender que há fundamental diferença entre os dois, pois no pianista canadense, apesar das excentricidades, a presença da plena convicção quanto à interpretação meticulosamente planejada torna-se transparente.

Esse debate me fez percorrer vídeos de alguns pianistas, do passado ao presente. Apresento alguns links que poderão ser acessados pelo leitor. Acredito que a economia dos gestos, quase que sine qua non no passado, ajudava a transmissão da mensagem musical nesse respeito absoluto à tradição. Se houve exceções bem anteriores, inclusive a de Franz Liszt (1811-1886), frise-se que o extraordinário pianista e compositor húngaro teria sido o primeiro a apresentar recital sem partitura e parte essencial de suas récitas era constituída de obras de sua lavra. Seu gestual era único, segundo relatos. No meu entender, ratifico, torna-se improvável o não contágio do gesto sobre a transmissão. Interfere na frase musical, nas acentuações, sensivelmente na agógica e no estilo. Certamente o intérprete de gestual exacerbado, que está a “transmitir-se”, preferencialmente à mensagem musical, não deverá ser aquele que carrega a chama olímpica da tradição. Daí minhas observações no e-mail a Servenière, postado no blog anterior. Porém, ele tem razão em suas considerações. Tempos modernos clamam pelo gestual. E não apenas isso. Empresários, que visam obviamente ao lucro, plateias que se empolgam com o virtuose “fenômeno”, que entendem a gestualística como meio fundamental, sociedades de concerto que aceitam ser aquele o “cara” a ser cultuado, pois adorado pelo público que acorrerá numeroso ao evento, mídia “comprometida”. Todo um esquema estaria montado e tende à aceleração. Essa tendência hodierna, regada fartamente pelas câmaras onipresentes, favorece o gesto. Intérpretes se submetem. É a lei do mercado. Todavia, tantos da média e nova geração não são atraídos pelo canto das sereias. A meu ver, felizmente. Questão de estilo.

Os links levam aos vídeos. Intercalo atitudes frente à transmissão da mensagem musical.

Vladimir Horowitz (1903-1989)
Schubert-Liszt / Soirée de Vienne – Valse Caprice nº 6

 

Lang Lang (1982- )
Scriabine / Étude op. 8 nº 12 – Patético

A não compreensão do mood do  Estudo – a sinfonia nº 6 de Tchaikovsky também leva o nome de Patética – é clara. O termo patético, ligado aos afetos, estaria mais próximo do drama ou mesmo da tragédia. O gestual totalmente voltado às câmaras contradiz intenções contidas na palavra.

Arturo Benedetto Michelangeli (1920-1995)
Domenico Scarlatti / Sonata in B minor

 

Mitsuko Uchida (1948- )
Mozart / Concerto in D minor / K466

A interpretação, nitidamente voltada às câmaras traduz, inclusive, paradoxos. A pianista está a reger e sendo amplamente filmada. O gestual exagerado não combina com a atitude dos ótimos músicos, inteiramente voltados à partitura. Praticamente não olham para os gestos de Uchida quando a reger! A regência mostra-se, pois, “virtual” a enfatizar a regente-pianista.

Glenn Gould (1932-1982)
J.S.Bach / Partita nº 4 / Sarabanda

 

Jean  Doyen (1907-1982)
Chopin / Fantaisie-impromptu Op.66

 

In today’s post I resume François Servenière’s views on pianists that act dramatically to dazzle audiences, followed by my own comments on the subject. As illustration, a series of links with videos of pianists of different personalities and styles, so that readers can compare them and draw their own conclusions.