Navegando Posts em Música

Quando a Criatividade se Impôe

…que forças hão-de trabalhar o mundo, se pusermos de lado a amizade?

Nenhuma vida tem qualquer significado ou qualquer valor
se não for uma contínua batalha
contra o que nos afasta da perfeição que é o nosso único dever.
Agostinho da Silva

Quantos não foram os posts em que salientei a presença sincera de poucos amigos que têm alegrado o decorrer da existência. Relações podem ser muitas, mas os verdadeiros amigos, esses são eleitos. Do tempo longínquo da Universidade quase nada sobrou, a configurar o exemplo típico da relação de trabalho que pode ser mais ou menos intensa mas se esvai como uma fumaça. É absolutamente normal, infelizmente, diria.

Magnus Bardela  é uma dessas raridades na amizade intensa que jamais teve sequer uma pequena rusga. Foi meu aluno de 1999 até sua brilhante formatura em 2002. Quando vinha às aulas, não apenas o ouvia sempre com as obras bem estudadas, como dialogávamos sobre as culturas. Enriqueceu-me com suas observações sempre sensatas. No dia de sua aula almoçávamos em algum lugar da Academia. Findo o curso, Magnus me apontou a possibilidade da internética, pois meu conhecimento era absolutamente nulo – hoje sei alguma coisa – e deu-me lições básicas. De minha parte, continuei a aconselhá-lo pianisticamente em casa. Até hoje, praticamente uma vez na semana, o jovem amigo janta conosco e é sempre motivo de alegria para Regina e para o velho professor. Tendo conhecimentos tecnológicos tão amplos e ouvido apuradíssimo, sugeri a ele estudar o complexo universo das gravações e, por duas vezes, acompanhou-me nas viagens à Bélgica, lá a permanecer por vários meses. Quando em 2004, em pleno tratamento de um linfoma tipo T, mal tinha forças para andar, foi Magnus que realizou em São Paulo as edições de quatro CDs que gravei em Mullem na planura flamenga, sempre sob a supervisão do extraordinário engenheiro de som Johan Kennivé, um dos amigos eleitos e um dos maiores experts na difícil tarefa das gravações. Magnus vinha semanalmente com os resultados. Muitas vezes acamado, ouvia e ficava impressionado com  sua precisão, sobretudo naquele estado em que o destino mostrava-se plúmbeo. Foram as únicas vezes em que esse trabalho artesanal, que entendo individual e responsabilidade do intérprete dele cuidar com esmero, teve a intervenção de um terceiro. Gratidão eterna.

Numa tarde quente de Fevereiro de 2007, Magnus observou que incontáveis eram os fatos que rememorava e transmitia ao amigo e que melhor seria eu ter um blog e continuar essas narrativas acumuladas. No começo de Março, Magnus ensina-me algo mais sobre a tecnologia que desconhecia e, a certa altura, quando regresso do estúdio com uma partitura, diz-me “Instalei um blog para você. Mãos à obra”. Pasmo fiquei e, de 3 de Março ao presente, ainda não falhei um só sábado, dia em que novo post entra. Ao mesmo tempo, Magnus iniciava a construção de meu site. Durante uns poucos meses consegui selecionar o que deveria ser aproveitado e ei-lo que surgiu.

Persistente e disciplinado, Magnus não teve o “bom vírus” da Música erradicado. Muito pelo contrário. Continua um crítico arguto. Contudo, para a condução de sua vida, estudou e acaba de brilhantemente passar por concurso público dificílimo. Entre milhares, um dos primeiros! Brevemente iniciará a função e com certeza terá uma carreira estruturada na competência e honradez, qualidades raras nos dias de hoje. Sua noiva, a inteligente e delicada Kátia, também  está a prestar concurso. Uma feliz união que muito nos alegra!

Neste interregno à espera do início do trabalho, Magnus se propôs, voluntariamente, frise-se, a reconfigurar o meu site. Por várias vezes neste último ano falou-me de sua intenção de reformulá-lo, dando-lhe maior mobilidade e outra interação. Eu ouvia suas propostas, acrescentando pequenas alternativas às suas brilhantes ideias. Qual não foi a minha surpresa ao verificar que o amigo realmente alterou todo o site anterior, sem contudo, retirar o material contido, mas a somar outros, como no da categoria desenhos e fotos, onde em compartimento especial encontramos  algumas de um de meus hobbies favoritos, a corrida de rua, assim como parte da série de desenhos de Luca Vitali feita especialmente para o blog. Os vários itens do menu ficam constantemente à disposição do leitor ou ouvinte. Essa mobilidade permite um pronto acesso aos vários materiais existentes (website à direita do texto). Apreendeu Magnus certas características de minhas preferências. Dessa maneira, sabedor de minha plena aceitação e até prazer em verificar o passar dos anos, utilizou para a apresentação do site foto tirada pelo excelente compositor português Eurico Carrapatoso em 11 de Junho – dia de meus 74 anos – na cidade de Tomar, pouco antes de meu recital e sem que soubesse. Nela estão expressos os sulcos da idade. A gaivota a sobrevoar o Douro, captada magicamente pela câmara de minha filha Maria Fernanda, ratifica essa necessidade existente de sobrevoar e dar asas à imaginação nos posts publicados. As imagens da concentração e do instante do acontecido para os itens YouTube e gravações, respectivamente, foram tiradas de vídeo preparado pelo sensível fotógrafo belga Tim Heirman na Capela Sint-Hilarius, em Mullem, na planura flamenga, templo de meus registros fonográficos. Os desenhos em montagem de Magnus para retratos e desenhos, d’après criações de vários artistas: Yves Dendal (Bélgica), Boris Chapovalov (Rússia), John Howard (U.S.A.) e Luca Vitali (Brasil). A foto dos livros, a fazer lembrar o mergulho em busca do conhecimento e que deságua naturalmente na feitura de um currículo. Esta ilustração traduz para o intérprete o caminho  que leva ao desvelamento. O livro como símbolo, irmão da partitura, essência essencial de um músico. O curriculum como acervo de passado e presente. Bem definia o grande escritor português Miguel Torga “Quando um escritor escreve uma coisa significativa, fá-lo tendo em conta toda uma legião de escritores que o precederam”. Interpretar uma obra musical, escrever um texto literário. Há que se ter em conta a sinceridade e a eterna busca da intangível perfeição, sem esquecer o onipresente passado.

Nesta nova configuração do site, sugeri igualmente a preservação da tonalidade a se aproximar do cinza de Diego Velásquez, tão apreciado pelo ilustre Claude Debussy, mormente em seus últimos anos de vida. Mas a criação devo-a quase que na íntegra ao talento de meu jovem amigo.

Espero que os leitores que me têm acompanhado ao longo destes mais de cinco anos de posts ininterruptos possam ter os vários itens facilitados. Continuemos cúmplices, pois a presença e o estímulo que recebo de suas leituras me dão ânimo nessa caminhada até um dia…

On the new layout of my website, designed by my friend and  “webmaster” Magnus Bardela.

Impressões a Serem Renovadas

Em Braga, os recitais oferecidos na excelente Escola de Música do Mercado Cultural do Carandá, sob a direção segura da Profª Drª Elisa Lessa, correram a contento. Causou-nos viva impressão, nessa segunda visita ao Carandá, o movimento musical a visar ao aprimoramento de crianças, adolescentes e jovens dessa bela região do Minho. Saliente-se o apoio logístico do dedicado Rui Feio, atento a todos os pormenores administrativos e operacionais.

O belíssimo edifício, todo ele, representa um marco na cultura de Braga, mercê do projeto arquitetônico bem anterior, de responsabilidade do Arquiteto Souto Moura, vencedor do Prêmio Pritzker. Frise-se que a Escola de Música do Mercado Carandá tem a participação ativa da Companhia da Música que, como iniciativa privada, recebe a colaboração do Município de Braga através de protocolo firmado. Um corpo docente de mérito, a ter à disposição salas de aula com sistemas de iluminação e som inusitados,  auditório planejado com excelente acústica e espaços bem funcionais.

Se os últimos recitais apresentados em Portugal foram em Braga é pelo fato de sempre terminar a digressão a pensar numa homenagem simbólica à memória de meu pai, nascido nessa histórica região do Minho. O neto do empregador de meu saudoso progenitor, entre 1918 e 1928, Teotónio dos Santos e a esposa Maria Teresa, sempre nos abrigam em sua belíssima morada ao pé do Bom Jesus de Braga, onde se vive uma realidade paradisíaca. Da janela do quarto, o imenso jardim, pela manhã, recebe a visita de esquilos e de pássaros como o melro, o pombo torquaz, o pica-pau e tantos outros passarinhos canoros que não se encontram no Brasil. Vê-se tudo e mais parte da cidade e a Igreja do Bom Jesus de Braga ao alto. Os sons dos grandes sinos ao alto sobrevoam a densa mata e penetram em nossos corações. A longa escadaria que leva à Igreja é frequentada por turistas e peregrinos. No dia posterior ao recital aproveitei para correr, sempre a subir pela estrada, até bem acima da Igreja, num espaço onde, em um romântico lago, barcos a remo aguardam turistas. Várias voltas pelo lago e a descida pelas centenas de degraus mantiveram-me em relativa forma física.

Ainda em Braga tivemos a grata surpresa de assistir a um excelente recital camerístico apresentado pelo jovem e promissor violinista Miguel Simões e pelo competentíssimo pianista holandês Sander Sittig. Ouvimos interpretações convincentes da Sonata Kreutzer de Beethoven. Com sólida formação na Holanda, Miguel Simões apresentou a sua primeira audição da complexa Sonata de Beethoven. Diria que, ao longo da vida, essa obra estará in progress no  repertório do talentoso violonista que apresentou, frise-se, uma versão muito bem estruturada. A segunda parte do programa teve obras de Kreisler, Tchaikowsky e Bériot. Miguel Simões revelou intensa musicalidade, virtuosidade sem exageros e compreensão estilística, características que fazem antever um belíssimo futuro pela frente para o violinista português. A apresentação se deu no bonito Theatro Circo, construído em estilo italiano no início do século XX, que fica à Avenida da Liberdade no centro de Braga. Bonita via, que tem ao centro jardim muitíssimo bem cuidado.

Insisto em iniciar a tournée em Lisboa, na Academia de Amadores de Música, templo do grande compositor Lopes-Graça, tão bem conduzida nestes últimos anos pelo amigo e professor António Ferreirinho, assessorado por equipe que me é extremamente simpática. Sentimo-nos, Regina e eu, rigorosamente em casa. Mais ainda considerando-se que ficamos hospedados, nestas últimas digressões, no lar do dileto amigo e ilustre musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso e sua encantadora esposa Manuela, na bela Oeiras, não distante de Lisboa. Junta-se sempre a nós a fidelíssima Idalete Giga, especialista em Canto Gregoriano e Educação Musical. Encontros onde não faltam conversas musicais e boa mesa. O fato de me dedicar, há décadas, preferencialmente ao repertório pouco frequentado, faz com que essas salas menores recebam o público que realmente quer ouvir outras obras. Não desmerece o tradicional, mas tem a curiosidade da “escuta” de novos horizontes. Bem tem razão meu querido amigo Gilberto Mendes, nosso grande compositor que está a comemorar neste ano seus 90 anos: “O que importa não é a quantidade de ouvintes, mas a qualidade de público seleto que realmente lá está para o conhecimento do que componho”. Certíssimo ele. Os grandes holofotes sabem a quem procurar e tantos são ávidos pelas luzes que podem representar, por vezes, o simulacro.

Ficarão gravada em nossas mentes, de maneira indelével, essas três semanas de intensa atividade musical. Em Évora, Regina e eu tocamos em dias diferentes na bonita Igreja do Convento Nossa Senhora dos Remédios, a integrar as dependências da Eborae Musica, dirigida pela competente professora Helena Zuber. Frisemos as primeiras audições absolutas do excelente Estudo Fúrias, Volutas e Saraivadas de João Francisco Nascimento e da extraordinária Missa sem Palavras (cinco estudos litúrgicos) de Eurico Carrapatoso, compositores que me honraram com suas presenças.  Do curso a seguir, no Departamento de Música da Universidade de Évora, cujo condutor é o respeitado músico Eduardo Lopes, só tenho boas recordações pelo fato de ter ouvido promessas pianísticas debruçadas no repertório português do barroco aos nossos dias. Realmente uma alegria.

Em Tomar ficamos hospedados em casa do excelente regente coral e diretor da Escola de Música Canto Firme, António de Sousa. Ele e sua esposa, Rosário, são dedicados e sabem receber com aquela naturalidade característica da gente portuguesa. Se meu recital foi na ótima e moderna Biblioteca da cidade, o de Regina se deu na Escola Canto Firme. No dia seguinte à minha apresentação, a aula oferecida na Canto Firme para jovens atentos, serviu para a exposição de Canto de Amor e de Morte de Lopes-Graça, entre outros temas interpretativos.

Digressão finda, resta o prazer de termos apresentado, em nossos distintos recitais, não apenas obras em primeira audição dos compositores portugueses de relevo como Eurico Carrapatoso e João Nascimento, como criações pouco executadas de Fernando Lopes-Graça e Frederico de Freitas. Não deixamos de mostrar ao público que nos ouviu obras de Villa-Lobos, Francisco Mignone e Fructuoso Vianna, que também encantaram os seletíssimos ouvintes.

Planos são construídos com antecedência. Já estamos a planejar nova tournée, que será amadurecida nos meses que se seguirão. Faz parte da interação e esta é razão básica para a travessia. Repertório não falta, e qualitativo. É só querer.

 

 

E Notícias Mais

Recebi da excelente jornalista Manuela Paraíso o comunicado referente à publicação em seu respeitado “Na Outra Margem” de entrevista realizada em Lisboa no Templo de Lopes-Graça, a Academia de Amadores de Música, de tantas lembranças do passado, fixações do presente e esperanças para futuras apresentações.

Manuela Paraíso é uma pessoa extraordinária. Culta, competente, navega na seara musical com beleza e encanto. Sabe conduzir uma entrevista. Ficamos a discutir Lopes-Graça e tantos outros assuntos por mais de hora e meia. Não senti o tempo passar, tão precisas eram as perguntas de Manuela Paraíso. Foi pois com alegria que abri seu site e ouvi as duas partes da longa entrevista, entremeadas por gravações constantes dos dois CDs que acabam de sair em Portugal pela PortugalSom, motivo de nossa viagem às terras lusitanas e da tournée que está a prosseguir com recitais alternados apresentados pela Regina e por mim. Portanto, é também com alegria que partilho com meu leitor essa conversa descontraída, dividida em duas partes pois, serena por vezes, empolgadas outras.

Clique aqui para visitar o Blog “Na Outra Margem”, de Manuela Paraíso, com a entrevista gravada de J.E.M.

Após Lisboa e Évora, já comentadas, estivemos em Lagos. Pianos estavam à nossa disposição na bem organizada Academia de Música de Lagos. Não faltaram passeios pela orla marítima, quando o ilustre musicólogo Prof. Dr. José Maria Pedrosa Cardoso e eu discutimos tantos aspectos sobre música sob o “canto” das dezenas de gaivotas que sobrevoam o local. Dias para degustações de peixes da rica região algarvia preparados pelo Mestre do Mar, Firmino, sogro de José Maria. Não faltou a visitação à grutas da costa de Lagos até a Ponta da Piedade que muitos autores as consideram mais belas do que as que margeam as ilhas gregas.

Em Tomar tivemos dois recitais. Apresentei meu programa no dia 11 de Junho, dia de nascimento do grande compositor barroco português Carlos Seixas (1704-1742). Na peça extra-programa disse que prestava homenagem ao grande coimbrão e ao meu pai que também nasceu nesse dia (1898-2000). Foi quando uma voz interveio: “dia do senhor professor também!“. É fato. Uma alegria sem dúvida. Após o recital, a surpresa. Um bolo a comemorar o evento. Para o intérprete, emoção a não ser esquecida nos agora 74 anos. Tudo preparado pelos anfitriões António de Sousa (Diretor do Canto Firme e regente empolgado e competente) e sua mulher Rosário, a autora dos quitutes especiais e da agradável surpresa. No dia 12 Regina voltou a encantar a todos e ao seu marido em particular. Com uma apresentação exemplar desfilou o Livro de Maria Frederica, as Sonatas de D. Scarlatti e obras de Fructuoso Vianna, Francisco Mignone e Villa-Lobos. Todos destacaram o seu toque elegante e a clareza na exposição das obras.

A tournée continua. Braga, a terra de meu pai. Nossos recitais se darão no Mercado Cultural do Carandá, Escola tão bem dirigida pela competente Professora Doutora Elisa Lessa. Portugal, sempre Portugal…