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Quando Afloram Homenagens

“Seigneur, disais-je, donnez-moi  la force de l’amour !
 Il est bâton noueux pour l’ascension de la montagne.
Faites-moi berger pour les conduire”.
Antoine de Saint-Exupéry  (Citadelle, CLXXXV)

Foram inúmeros os e-mails recebidos sobre o post do último dia 11, a homenagear a grande amiga Maria Isabel Oswald Monteiro, que partiu no dia 28 de Junho. Desta vez selecionei os enviados por três dos filhos de Maria Isabel, os de minhas filhas Maria Beatriz e Maria Fernanda, o do compositor francês François Servenière, fiel leitor de meus posts e que captou a magnitude da memorialista que foi a saudosa Maria Isabel, assim como o da competente pesquisadora, Profª Drª Susana Igayara, da Universidade de São Paulo,  uma das que receberia por parte da homenageada a acolhida generosa e atenta.

“Sem palavras!!!!!!! Texto justo e digno dessa linda e bela amizade que vocês dois construíram, e que você, com sua generosidade, hoje homenageia. Nessa grandeza você e Mamãe se reconheceram! Já incluí meus irmãos nessa mensagem, se me permite, vou divulgar junto a todos meus primos e amigos…. Muito emocionada me despeço e te agradeço por tão especial presente”.
Maria Clara Porto (Clarinha)

“A descriçao, seus momentos com ela, as palavras em seu blog para minha mãe foram como um raio de sol que invadiu meu coração! Obrigado por suas sinceras e tocantes palavras”!
Carlos Oswald Monteiro (Carlinhos)

“Somente hoje, de volta ao Rio de Janeiro, li seu texto sobre mamãe. É belíssimo, como era belíssima a amizade de vocês dois. Foram muitas as vezes que trocaram ideias, crenças em torno da música, pintura, gravura. Como mamãe adorava quando você chegava ao Rio. Mas não somente ela, mas papai também! De forma muito emocionada, agradeço a homenagem feita, expressa em texto de grande profundidade”.
Isabel Alice Oswald Monteiro Lelis (Belzinha)

“Que linda e justa a homenagem.
O artigo, as fotos que você escolheu. Parabéns, pai.
E comovente o que os filhos escreveram para você”.
Maria Beatriz Martins Lazzarini (Bê)

“Eu conhecia Maria Isabel apenas pelas elogiosas descrições de meu pai, até o momento em que tive a oportunidade de ir pela primeira vez ao Rio de Janeiro, hospedando-me em sua casa. Incrível anfitriã, de uma delicadeza e uma simplicidade que superavam os elogios tantas vezes ouvidos.
Era eu ainda uma adolescente e desconhecia muito o que ela dominava com primor, mas ainda assim ela se dirigia a mim com palavras que me faziam sentir como alguém de grande estima. Sua cultura era erudita, mas sua simplicidade e envolvimento com as demandas cotidianas revelavam grande equilíbrio. Tinha talento para os diversos domínios a que se dedicava, como artes, família, amigos e casa, sem que suspeitássemos quais as suas preferências. Havia cumplicidade entre ela e papai, perceptível na troca de olhares, na dedicação ao pesquisarem àquela altura a obra de Henrique Oswald, na compreensão, na amizade profunda que mantinham.
Me afeiçoei a ela e a toda a sua cativante família, em especial sua neta, Maria Cecília, com quem mantive amizade.
Tê-la conhecido foi um presente, assim como o foi constatar o resultado de sua dedicação à memória de sua talentosa família. Sua incansável colaboração com aqueles que continuaram sua luta – a exemplo de meu pai – fizeram dela uma mulher de grande valor”.
Maria Fernanda Martins Rosella (Fê)
 

“Primeiramente para dizer que é sempre mágico estar em contato com herdeiros de criadores como Henrique Oswald. O seu artigo me calou fundo, pois sabe você como sou admirador incondicional da obra do avô de Maria Isabel, como aliás escrevi em minhas Réflexions… E apreender que essa grande dama era igualmente filha do autor dos desenhos preliminares do Cristo Redentor, no Corcovado, foi para mim um choque suplementar, pois essa criação é  tão simbólica como a estátua da Liberdade ou a nossa Torre Eiffel. Há três obras modernas monumentais de amplitude universal em nosso planeta e ei-las mencionadas. Compreendo a vontade férrea de Maria Isabel de que uma placa fosse colocada ao pé do monumento, após o esquecimento oficial!!! Na realidade, isso ocorreria em qualquer lugar… Um homem político encomenda um monumento para a sua glória e se esquece do criador… Fenômeno histórico tão comum! Gostei imenso de todas fotos e retratos de uma mulher plena de humanidade, como você bem descreve em seu texto, afável e inspiradora, cultivada, talentosa e também tão propensa a ouvir e compreender os outros. Nessas fotos, aquela em que Regina está atrás de sua amiga em cadeira de rodas apresenta-se particularmente expressiva. Regina parece respirar a música que você toca, como em comunhão com o sublime. Se a obra interpretada é de Henrique Oswald, sofri o mesmo impacto ao ouvir tanto Il Neige, no post, como a Berceuse, esta no magnífico disco com o violinista Paul Klinck, pura maravilha. Comungo a perda imensa e, como você  bem diz, ‘os amigos se vão e a vida continua’. É assim, nós transmitimos a flama às gerações seguintes como as precedentes o fizeram, à maneira das corridas de revezamento que acabamos de assistir durante as Olimpíadas. Precisamos aceitar e viver a fundo os dias incríveis que nos são dados nessa Terra. O repouso virá quando não mais estivermos no planeta! Maria Isabel está hoje no paraíso dos músicos e pintores, como meu irmão Benoît, músico também”.
François Servenière

 “Seu texto-homenagem a Maria Isabel Oswald Monteiro fez com que eu rememorasse meu encontro com ela no Rio de Janeiro, na fase final de redação de minha dissertação de mestrado sobre a obra sacra coral de Henrique Oswald. E, ao rememorar esse encontro, coloquei-me a pensar em minha trajetória como pesquisadora e professora, nos temas para os quais me voltei e na importância de momentos como esses, que são oportunidades marcantes e definidoras para nossos caminhos e nossas escolhas.
Eu sou uma das pessoas que, generosamente, Maria Izabel recebeu e incentivou, atendendo ao seu pedido. Lembro-me perfeitamente daquele encontro, numa tarde ensolarada. Eu tinha dúvidas pontuais sobre as circunstâncias da composição de algumas obras, os dedicatários e, principalmente, sobre a relação entre Henrique Oswald e seu filho Alfredo, pianista que havia se tornado religioso. Eu imaginava que haveria uma ligação entre a produção de obras sacras e as atividades de Alfredo nos EUA. Nesse mesmo ateliê que você menciona, Maria Isabel permitiu que eu folheasse as cartas que Alfredo enviava para a família. É incrível como, ao ler alguns trechos, ao ver os desenhos que Alfredo fazia no papel finíssimo, eu começava a captar sua personalidade, seu humor (Maria Isabel comentava o quanto Alfredo era alegre). Aquelas cartas, entremeadas pela conversa com Maria Isabel, iam mostrando a força dos laços afetivos da família Oswald. Eis que, de repente, eu me deparo com uma das cartas que mencionava exatamente o que eu queria saber: Alfredo escrevia ao pai, em 1929, perguntando como estava a revisão da Missa, e se ele poderia tê-la logo. Com a permissão de Maria Isabel, transcrevi um pequeno trecho, que citei em minha dissertação, comentando ainda a importância desse conjunto documental.
Terminei minha dissertação em 2001, mas nunca mais abandonei o contato com a obra de Henrique Oswald, de quem falo com entusiasmo para algum aluno, todas as semanas. Um tema forte e verdadeiro fica para sempre! Sem dúvida, a divulgação da obra de Henrique Oswald deve muito à atitude constante dessa ‘guardiã da memória’, como dizem alguns estudiosos da relação entre memória e história.
Em 2011, terminei meu doutorado em História da Educação, voltado à produção escrita por mulheres sobre música. Mais uma vez, você estava na banca julgadora. E agora esse seu texto sobre Maria Isabel fez com que eu percebesse que, sem citá-la, ela está também refletida nesta última pesquisa que eu realizei, em que concluo que as mulheres tiveram um papel fundamental na preservação da memória das atividades, das personalidades, das práticas e dos repertórios musicais.
Maria Isabel realizou um grande trabalho como divulgadora e facilitadora de atividades artísticas e musicológicas, profunda conhecedora da vida e da obra de seus familiares artistas. Deixo aqui minhas homenagens e meu sincero agradecimento”.
Susana Igayara

A foto que ilustra o presente post foi tirada  durante nosso derradeiro encontro. O e-mail que recebi após nossa visita ficará guardado em minha mente e meu coração: “Quando você chegou aqui em casa e imediatamente abriu o piano, tocando duas músicas, a nossa querida ‘Il Neige’ e a ‘Berceuse’, a emoção tomou conta de mim. Ouvi-lo executar músicas de meu avô deixou-me sem fôlego. Cada nota foi valorizada e o som se espraiou doce e apaixonadamente por toda a sala. A gente chega a ficar parada para escutá-lo. Hoje te digo, não penso em outra coisa. Na alegria de sua visita, da Regina e sua neta Isabel. Penso que Deus é muito bom por ter permitido vê-lo novamente e ouvi-lo, espalhando seu talento, que é uma dádiva. Parabéns, Zé, por espalhar alegria e beleza por onde anda e obrigada por ser o musicista que você é”. Eu que sou grato  pela ventura de um dia, no longínquo 1978, ter conhecido figura tão especial, que marcaria decididamente a minha vida.

Clique para ouvir, de Henrique Oswald, a Berceuse Op.04 n.04, com J.E.M. ao piano. Gravação realizada na Bélgica.

My post on Maria Isabel Oswald Monteiro received much feedback. This week’s post is a selection of e-mails received, all expressing admiration for our friendship and for the remarkable woman she was.

O Requinte Sonoro como Fim

Par ailleurs, je me persuade, de plus en plus,
que la musique n’est pas, par son essence,
une chose qui puisse se couler dans une forme rigoureuse et traditionelle.
Elle est de couleurs et de temps rytmés…
Claude Debussy
(Carta ao seu editor e amigo Jacques Durand. Pourville, 3 de Setembro de 1907)

As comemorações relativas ao sesquicentenário de nascimento de Claude Debussy (Saint-Germain-en-Laye, 22 de Agosto de 1862), apesar de tímidas em nosso país, trazem à pauta um dos maiores compositores da história. A importância de Debussy é incomensurável em toda a decorrência do século XX.

Se em sua formação haveria indícios de certa rebeldia contra métodos de ensino e mesmo à Instituição, seria contudo nas fronteiras dos séculos XIX-XX que, decididamente, Debussy  posicionar-se-ia como um compositor preocupado com a qualidade sonora a sobrepor a forma.  Não lhe agradando uma primeira versão de Reflets dans l’eau, primeira das peças do primeiro caderno de Images para piano (1904-1905), Debussy, em carta ao seu editor Jacques Durand, escreveria uma frase paradigmática “… resolvi, pois, compor uma outra, sobre dados novos e segundo as mais recentes descobertas da química harmônica…”. Se em tantas missivas o compositor emprega metáforas, a incursão definitiva num processo que estava a ser alimentado desde os últimos anos do século XIX faz-se “oficial”. Considere-se a  gestação da extraordinária ópera Pelléas et Mélisande  (1902), que duraria 10 anos!!!

Nestes últimos decênios têm surgido métodos analíticos variados, não descartando tabelas numéricas e gráficos, para não mais me alongar, distantes de outras tradicionais. Se enquete fosse feita entre os intérpretes, pouquíssimos consultam esses novos caminhos, por vezes áridos e cerceadores, bem mais frequentados na Academia ou por outros interessados não intérpretes, friso. Mesmo as análises tradicionais, que vigoravam durante a existência do compositor, não lhe causavam impacto. Aliás, o músico francês não gostava de ver suas obras analisadas, segundo o compositor Charles Koechlin (1867-1950). No caso de Debussy, compositor que causaria efeitos inalienáveis na música do século XX, da criação erudita à música de cinema e tantas outras vertentes, a observância de suas mensagens já estaria a apontar desideratos precisos. Confessaria bem tardiamente, em 1915,  ao seu amigo Bernardo Molinari, que “… estamos ainda na ‘marche d’harmonie’, e raros aqueles a quem basta a beleza do som”. Essa constatação englobaria um universo criativo outro que, para Debussy, era o fulcro de suas intenções. Buscar a essência essencial e, nesse caminho absoluto, distanciar-se do fulgurante, da explosão sonora tão característica em muitos compositores do romantismo e do século XX, assim como de elucubrações estruturais e formais. A busca sonora implicaria forçosamente a opção clara, contrária ao refletor ofuscante. As baixas intensidades propostas no conjunto de sua obra são testemunhos eloquentes, pois cerca de 80% de sua opera omnia navega entre p e pp; portanto, nas sonoridades seletivas. Essa escolha teria tributos a pagar. Debussy é conhecido majoritariamente por quantidade relativamente pequena de sua obra. Distante de estatísticas quantitativas relativas a de alguns de seus coetâneos, a produção debussyniana é até restrita, mas impecavelmente construída. Dizia o músico francês que escrevia quando sentia a necessidade de fazê-lo.

Se considerei técnicas analíticas erigidas nas últimas décadas, que surgem e tendem por vezes ao mergulho no esquecimento, geralmente “criadas” por não intérpretes, consideraria que três aspectos essenciais sempre deveriam estar à testa no momento desse debruçar sonoro. Salientaria: a agógica (flutuação do andamento), a dinâmica (entre as baixíssimas intensidades e raríssimos fortíssimos) e as acentuações. Outros mais tendem a ser negligenciados no que se refere particularmente à criação pianística: a onipresente mão esquerda, à qual Debussy reserva participação extraordinária, e a ter como indicativo a absoluta preocupação com as  acentuações e a dinâmica. Nada passa ao largo quando Debussy escreve a notação da mão esquerda, muitas vezes a buscar a região mais grave do instrumento. Minha mestra, a grande pianista e professora Marguerite Long (1874-1966), intérprete de Debussy e dedicatária de autores como Isaac Albéniz (1860-1909), Gabriel Fauré (1845-1924) e Maurice Ravel (1875-1937), afirmava sempre, ao considerar as obras de Debussy e de Fauré, à nous les basses. Não por outra razão o compositor francês vem a ser o primeiro músico a tudo assinalar, mormente após o início do século XX. A problemática dos andamentos é outra questão relevante. Com preocupação assiste-se hoje, mais acentuadamente, à tendência de “forçar” os andamentos de suas obras, o que provoca, em tese, um gosto para a elevação dinâmica (intensidades). Contrariam esse quesito, assumido por tantos intérpretes, intenções expressas pelo autor não apenas em seus manuscritos musicais, como na sua monumental produção epistolar. O resultado é desastroso, pois a aceleração progressiva tende a colocar as criações debussynianas para piano, principalmente as de andamento vivo, num patamar “virtuosístico” que não apenas descaracteriza determinadas obras, mas à força da repetição provoca uma espécie de modismo com seguidores “fiéis”.

Aspectos concernentes à interpretação mereceriam ser citados. Interessariam mais ao leitor com o conhecimento pianístico. Salientaria a “magia” a ser buscada no emprego dos pedais. O da direita a seguir as flutuações mais tênues, num processo que requer um aprimoramento que deveria ser meta essencial de um pianista. Deve, nessa oscilação, distanciar-se o intérprete do pedal até o fundo, raras vezes a ser utilizado o processo. O da esquerda, una corda, a ter emprego tanto nas baixíssimas intensidades como, em tantas oportunidades, em outras mais elevadas, nessa procura de timbres seletivos. Consideraria ainda a necessidade imperiosa da denominada substituição, quando, sobre determinada tecla já apoiada por um dedo, sem que esta seja “abandonada”, o pianista  coloca um outro dedo, a fim de que o legato, um dos segredos da interpretação das obras de Debussy, se concretize. Frise-se que essa prática não estaria apenas no singular, pois, por vezes, pode-se substituir vários dedos sobre teclas já pressionadas. Exemplo típico se encontra em  Et la lune descend sur le temple qui fut, segunda peça do segundo caderno de Images.     

Tenho insistido em tema que não parece ter o menor interesse entre a maioria dos intérpretes, empresários, sociedades de concerto e público receptor. No que se refere à obra para piano, tocam-se prioritariamente as mesmas composições de Debussy, e algumas como chamarizes para plateias que se identificam com o compositor nesse restrito repertório. Exaustivamente o fato se repete. Nada a fazer. Criações como a maioria das peças avulsas, os 12 Études, La Boîte à Joujoux, como exemplos, passam ao largo. Da Suite Bergamasque, pereniza-se Clair de Lune; dos cadernos de Images, prioriza-se o primeiro, mormente Reflets dans l’eau; dos dois livros de Préludes, que perfazem 24 peças exemplares, alguns apenas são frequentados. Quase sempre os mesmos. Tendo apresentado a integral para piano em quatro recitais, no Brasil e em Portugal, poderia afirmar que Debussy é um dos poucos compositores que não têm obra menor, se bem que seria o próprio autor que consideraria os 12 Études pairando num outro cimo de excelência.

Clique para ouvir, de Claude Debussy, o Estudo “Pour les arpèges composés”. Gravação realizada por J.EM. em Mullem, na Bélgica.

Em todos os gêneros abordados deixaria suas impressões digitais identificadoras do estilo. Nessas marcas, o timbre inusitado, a combinação instrumental, a qualidade sonora… Considere-se ainda a devoção à natureza, não como elemento descritivo, mas como fonte essencial para a sugestão e para o simbólico.  Tem-se em muitas de suas obras o divisor absoluto das tendências na composição. Nas inefáveis mélodies para canto e piano, como exemplos, soube escolher os poetas que permaneceram: Paul Verlaine, Stéphane Mallarmé, Charles Baudelaire, Pierre Louÿs e outros ilustres mais. Sob a égide poética, tantos são os títulos de obras para piano e para orquestra de Debussy com apelo  requintado. Cuidava o compositor desse amálgama sonoro poético. Nos Préludes para piano insere os títulos no final de cada peça levando intérprete e ouvinte à sugestão. 

A ilustração inserida no post é de autoria da excelente artista búlgara Penka Kazandjiev. Após recital que apresentei em Sófia, na Bulgária, em 1996, Penka inspirou-se em L’Isle Joyeuse de Debussy, uma das obras do programa, e com rara criatividade realizou a bela homenagem em que não falta exaltação a Leonardo da Vinci.

Clique para ouvir, de Claude Debussy, “L’Isle Joyeuse”. Gravação realizada por J.E.M. em Mullem, na Bélgica.

Para o leitor interessado em se aprofundar no tema, sugeriria algumas obras exemplares: Claude Debussy, Monsieur Croche et autres récits, France, Gallimard, 1987, 361 pgs. Tem-se um conjunto de textos críticos do compositor. Claude Debussy Correspondance (1872-1918), Paris, Gallimard, 2005, 2.330 pgs. François Lesure, Claude Debussy, France, Fayard, 2003, 614 pgs. Creio ser a mais importante biografia do compositor. Recomendaria a consulta ao site www.debussy.fr  , do Centre de Documentation Claude Debussy, o mais significativo existente. Entre outras publicações, tem o Centro o renomado Cahiers Debussy, publicação anual.

Quanto às gravações, poderá o leitor consultar a ampla discografia de Claude Debussy e terá diante de si uma lista apreciável.  A escolha dos intérpretes tende a ser pessoal na maioria dos casos. Dos três CDs que dediquei à obra pianística de Claude Debussy, gravados para o selo De Rode Pomp da Bélgica, um foi reeditado no Brasil – “Doze Estudos para Piano” – pela Clássicos (www.classicos.com.br ).

In this post, a tribute to the seminal French composer Claude Debussy on the occasion we celebrate 150 years since his birth, I comment on some aspects of his works ― in particular pieces for piano ― with focus on issues such as interpretation of indications in the scores, performance and tempo, always bearing in mind that the essence of his creations lies in the use of selective instrumental timbres or, in his own words, the search for the beauty of sound.

 

 

Uma Grande Amiga Partiu

Vou catando estas palavras,
Como quem cata continhas
Para bordar no meu peito
Toda a memória que eu tinha.
Maria Isabel

Ao longo da vida podemos contar nos dedos das mãos os verdadeiros, fiéis, incomensuráveis amigos. Esses,  Portugal  reverencia com um A maiúsculo. A raridade torna-os inesquecíveis. A amizade pode surgir ao acaso e ter imediata interação. Por vezes ela vai se sedimentando aos poucos e atinge o nível da inefabilidade.

O meu encontro com Maria Isabel poderia ter sido um a mais nos tantos relacionamentos amistosos que percorrem o nosso caminhar pela vida. Permanecem essas aproximações no tangível, sem aprofundamento maior, agradáveis, diria.

Tudo aconteceu em 1978, ano em que fiquei subjugado pela qualidade das obras do nosso grande compositor romântico Henrique Oswald (1852-1931). Quis conhecer parte considerável da opera omnia do músico que nasceu e morreu no Rio de Janeiro, tendo vivido muitas décadas na Itália. O musicólogo Mozart de Araújo (1904-1988) indicou-me Maria Isabel Oswald Monteiro como a guardiã do acervo familiar do avô e interessada na divulgação de suas obras. Após telefonema formal, fui visitá-la no meio de uma tarde na Rua José Linhares, 65, no Leblon. Tão logo entrei e a cumprimentei, dirigi-me a um piano de cauda Blüthner que pertencera a Henrique Oswald, e sem mais nada dizer toquei a sua mais célebre criação para piano, Il Neige! (1902). O entendimento se fez, imediato, irreversível… Maria Isabel e seu marido, o ilustre médico Mário Monteiro, convidaram-me para jantar e tive sempre a sensação de que nos conhecíamos há séculos. Já desse primeiro encontro recebi das mãos da amiga o manuscrito autógrafo de uma Berceuse inédita, composta aos 22 de Setembro de 1886.

Maria Isabel Oswald Monteiro foi uma mulher notável. Partiu aos 28 de Junho após longa enfermidade. Pertence àquela categoria imprescindível de predestinados à preservação da história. Memorialista, lutou bravamente, neste mundo cada vez mais embrutecido, insensível e destruidor do passado cultural, pela divulgação amorosa e competente de  figuras excelsas de nossas artes: o compositor Henrique Oswald e seu filho, o pioneiro da gravura em metal no Brasil, Carlos Oswald. Apoiou e incentivou todos aqueles que, de alguma forma, procuravam-na para pesquisar seus arquivos. Quando necessário, saía à luta para defender direitos inalienáveis omitidos pelo poder público. Quando da inauguração de placa comemorativa do cinquentenário da estátua do Cristo Redentor (1981) no Corcovado, Maria Isabel observou que faltava o nome de seu pai Carlos, o autor dos estudos e desenhos preliminares, que resultariam nessa que é uma das maravilhas modernas do planeta. Foi ter com o Governador e insistiu com veemência na colocação do nome de seu pai. O Governador de plantão aquiesceu, fez nova placa e o nome de Carlos Oswald lá está, na base do Cristo Redentor. Essa era a batalhadora. Também teve todo o empenho para que a coleção Carlos Oswald estivesse em lugar seguro, o Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro. A meu pedido doou parte do acervo do compositor Henrique Oswald à Universidade de São Paulo. Os vários manuscritos que, ao longo de nossa longa amizade, foram generosamente por ela presenteados, deverei doar um dia à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Estudou piano e canto, diplomando-se pelo Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro. Estudaria órgão em São Paulo com Furio Franceschini. Apresentou-se várias vezes como intérprete nas três categorias. Durante anos aperfeiçoou-se em diversas oficinas especializadas em gravura. Realizava saraus, divulgava as obras do avô Henrique, cuidava da memória da ilustre família de sua mãe. Diria, uma enciclopédia dos laços sanguíneos talentosos e diversificados, pois nada ficava alheio aos seus interesses, voltados a perenizar os ascendentes. Que heroína, sem quaisquer anseios de autopromoção! Não se esquecia do cotidiano e quantas não foram as vezes em que pude presenciar o carinho e a preocupação com os quatro filhos e tantos netos!

Após aquele primeiro encontro mágico de 1978, nunca mais deixamos de estar em contacto. Sem Maria Isabel jamais poderia ter realizado o trabalho de “redescobrimento” da obra de seu ilustre avô Henrique. Todos os meses, durante anos, passava um ou dois dias da semana em seu apartamento, àquela altura na Visconde de Albuquerque, 333, também no Leblon. Eram dois dias de trabalho intenso, em que em nenhum instante havia esmorecimento. Sentávamos em seu ateliê – Maria Isabel foi exímia gravadora – e, frente à janela que dava para o pátio interno do prédio cercado por frondosas árvores, verificávamos manuscritos de Henrique Oswald e Maria Isabel lia com carinho os diários da mãe do compositor, Carlota, e de sua mulher, Laudomia. Do primeiro, há narrativas da criança que se desenvolvia sobre o manto materno. Laudomia, por sua vez, narra o cotidiano e deste tem-se inclusive o relato do encontro do jovem em êxtase,  Henrique, com o grande Franz Liszt. Escritos em italiano, a caligrafia difícil das duas mulheres era percorrida com prazer e facilidade pela minha querida amiga. Que momentos inefáveis nós dois vivemos! Por vezes, Maria Isabel, após a leitura de episódio jocoso, dramático, trágico ou relativo ao desenvolvimento de seu avô paterno, parava a leitura e durante bom tempo comentávamos situações vividas por Henrique Oswald e sua família em Florença, preferencialmente. As cartas extraordinárias do grande libertário que foi Jean-Jacques Oswald, suíço-alemão, pai de Henrique, escritas em francês, igualmente eram lidas com empolgação, pois no início da segunda metade do século XIX lá está Jean-Jacques lutando contra a escravatura e também a favor dos imigrantes suíços que vieram para o interior de São Paulo. Chegou a ter a cabeça a prêmio a mando do Senador Vergueiro!  Família Oswald, figuras épicas que deixaram nas folhas e partituras amarelecidas pelo tempo, mas também nas telas, gravuras e desenhos, parte de nossa história.

Desse intenso envolvimento em torno de Henrique Oswald, sob a égide carinhosa e atenta de Maria Isabel, fui pouco a pouco construindo minha tese de doutorado, que defenderia junto ao Departamento de História da Universidade de São Paulo em 1988. Maria Isabel e o marido Mário vieram do Rio de Janeiro, o que muito me emocionou. Após a tese, a primeira realizada sobre nosso maior compositor romântico,  surgiram mais de uma dezena defendidas no Brasil e no Exterior. Quando um jovem pesquisador estava a pensar no tema Henrique Oswald, encaminhava-o à Maria Isabel e a todos ela recebia com atenção e incentivo. Se assim procedeu com a obra sonora do avô, também o fez com a criação pictórica do pai. De minha parte, sempre sob o olhar cúmplice de Maria Isabel, gravaria no Brasil, nos anos 80, quatro LPs (Funarte) e, na Bélgica, três CDs, basicamente com a obra camerística de Oswald. Quando a Edusp-Giordano publicou meu livro sobre Henrique Oswald em 1995, a alegria de Maria Isabel foi contagiante, o que a levou a publicar anos após, guardando muitas características gráficas com Henrique Oswald – músico de uma saga romântica, o seu precioso livro Carlos Oswald (1882-1971) – Pintor da Luz e dos Reflexos (Rio de Janeiro, Casa Jorge, 2000). Dizia mesmo que pai e avô deveriam estar sob o mesmo manto, daí ter buscado caminhos para certa identidade nessas duas homenagens que prestamos a Henrique e Carlos Oswald. Mulher absolutamente completa.

Quanto à obra de Carlos Oswald, Maria Isabel esteve sempre atenta à primeira tese de doutorado defendida no Brasil (2004): A Poética da Luz na Obra de Carlos Oswald. Coube à artista e professora Maria Amélia Blasi de Toledo Piza esse hercúleo trabalho acadêmico defendido junto à UNESP (Bauru). Tive o prazer de compor a banca examinadora da dissertação de mestrado da professora na mesma Universidade (1997),  que propunha estudo pormenorizado de uma obra do irmão de Maria Isabel, igualmente excelente pintor e gravador: Henrique C.B. Oswald: O Mural da Santíssima Trindade em Botucatu.

Nos últimos anos sua saúde declinaria. Conseguiu superar várias etapas e, mesmo limitada em seus movimentos e comunicação verbal, permanecia atenta a tudo o que a cercava. Nossa correspondência internética prosseguiu até bem pouco antes de uma crise mais forte. O e-mail que recebi de Maria Clara Porto, filha de Maria Isabel, dias após seu falecimento, bem traduz as qualidades inalienáveis da mãe: “…múltipla, talentosa, excelente dona de casa, mãe e avó dedicadíssima, costurava, bordava, tricotava com excelência. Cantou, tocou piano, escreveu poesias, fez gravura em metal e foi a matriarca de nossa família. Apoiou meu pai, sempre! Filha amorosa e irmã exemplar, amiga dos amigos, inteligente, sensível, viveu seus últimos anos com uma doçura que a todos cativava. Os Natais organizados por ela em torno daqueles que a serviam serão lembrados para sempre por todos, um presente escolhido para cada um deles, enfim, muito fácil falar dela, sobre ela, meu modelo, minha mãe adorada e inesquecível, que para sempre estará nos nossos corações”.  Continuará a semear o bem através do exemplo de vida que legou.

Clique para ouvir Il Neige!, de Henrique Oswald, com J.E.M. ao piano. Gravação realizada em Bruxelas.

This post is a tribute to Maria Isabel Oswald Monteiro, a dear friend that passed away last June. Granddaughter of the outstanding Brazilian composer Henrique Oswald and daughter of the painter and engraver Carlos Oswald, author of the final design of the statue of Christ the Redeemer in Rio de Janeiro, Maria Isabel grew up in a very artistic environment and studied piano, organ, singing and engraving. A memorialist, the struggled to keep alive the memory of her father and grandfather and in 1978 lovingly engaged with me in the research on Henrique Oswald’s works, focus of my PhD thesis defended at the University of São Paulo. As a result of our pioneer work, many academic papers on Henrique Oswald have appeared since then. My thesis later turned into a book and Maria Isabel, following my example, also published a book on her father Carlos Oswald, saying that father and grandfather should be equally revered. In her daughter’s words, she was “multiple, talented, excellent housewife, devoted mother and grandmother, sewing, embroidering and knitting with excellence. She sang, played the piano, wrote poetry, practiced engraving and was the matriarch of our family”. An absolutely remarkable woman, a great friend that will always remain in my heart.