Navegando Posts em Música

O que a Imprensa não Revela

Celui-là habitera mieux qui, faute d’eau, séche dans le désert,
en rêvant d’un puits qu’il connaît,
dont il entend dans son délire grincer la poulie et craquer la corde,
que celui-là qui, de ne point ressentir la soif,
ignore simplement qu’il est des puits tendres, vers où conduisent les étoiles.
Antoine de Saint-Exupéry  (Citadelle CLXXXVII)

Não poucas vezes mencionei minhas posições como professor universitário. Apesar de lecionar piano, jamais pensei na formação de um pianista que não tivesse em conditio sine qua non uma visão musical mais ampla e também uma sólida cultura humanística, únicas salvaguardas para a edificação de um músico completo. Para quem é do métier, impossível não notar lacunas, mesmo em se tratando de um hábil virtuose de ofício, daquelas atribuições fundamentais. Fora das lides interpretativas, haverá vazio de ideias.

Flávio Metne foi meu aluno na universidade. Questionador, colocava-me sempre em posição atenta às suas elucubrações sobre técnica, repertório, mormente dos países do leste europeu e daqueles pertencente à Ásia Menor. Dialogar com Flávio era um prazer estético. Sua evolução pianística nunca foi desprovida dos porquês dos procedimentos realizados. Sempre indagava sobre as razões do técnico-pianístico ou daqueles interpretativos.  Fonte de entusiasmo para seu velho mestre. O  Trabalho de Conclusão de Curso por ele apresentado foi notável e o aluno de piano não apenas tocou, como discorreu sobre a formação histórica da música nacional do Azerbaijão.

Flávio cresceu musicalmente. Atavicamente ligado aos povos do Levante, aqueles pertencentes à região ao nascente do Mar Mediterrâneo, ou seja, situados na costa ocidental da Ásia por ele banhada, Flávio fixou-se na Síria há mais de uma década, onde desempenha profícua atividade como professor de piano do The High Institut of Music em Damasco. Desenvolve também pesquisas relacionadas tanto à música como à língua árabe. Lê constantemente meus posts e nos correspondemos com certa assiduidade.

A atual situação da Síria, interpretada com exacerbação nem sempre confiável pela mídia, fê-lo colocar suas posições a respeito daquilo que, como cidadão a participar da vida do país, observa e presencia. Pensei pois transmitir ao leitor essas agudas observações. Tendo vindo a São Paulo durante as férias escolares, encontramo-nos diversas vezes e foi um prazer enorme esse contato, que se traduziria em um segundo texto de meu ex-aluno e dileto amigo, resultado também de nossas correspondências e encontros decorrentes dessa sua vinda a São Paulo.

Em Julho escrevia-me instigante e-mail de Damasco. Reproduzo seu texto na íntegra, com sua autorização, pois o desenvolvimento do amigo tem-se dado de maneira homogênea, e o leitor poderá inteirar-se das preocupações de Flávio em áreas outras, distantes das nossas, mas humanísticas.

“A demora em escrever algumas palavras poderia denotar  falta de estima… ao contrário, sua presença como mestre e amigo é contínua, seja através das gravações que ouço e as faço ouvir, seja  pelas preciosas idéias sugeridas em seus artigos. Talvez o mais motivador seja mesmo sua postura ante a vida.

Vamos em frente. Como você pode imaginar, o país esta passando por momentos difíceis e é impossível ficar ileso, mesmo que moralmente… Foram muitas as ponderações e penso que o destino do sistema vigente poderá afetar seriamente a vida de muita gente. Otimisticamente, gostaria de acreditar  que os detentores do poder neste país estão mais capacitados do que certos líderes da Liga e chegarão a um consenso inteligente. Caso isso não aconteça, poderá haver uma longa guerra civil ou a desgraça de uma teocracia, ou talvez a fragmentação do território em pequenos países, de acordo com as maiores religiões e etnias vigentes no Levante, e estas regidas por democracias de fachada.

A sociedade síria é uma trama complexa destas etnias, religiões e suas derivações, em cada uma delas há diferenças também culturais e econômicas, também com seus aliados internos e externos. Isso deve ser levado muito em conta ao se fazer qualquer análise.

Resumidamente, vejo três tipos de oposição. Uma oposição, diríamos, ideológica, ou seja, é fundamentada em idéias, comunistas ou nacional-sírias ou seja lá o que for. Outra grita por liberdade, mas com tendências declaradamente teocratizantes e fascistas. Um terceiro grupo composto por mercenários, com slogans muito pobres, quebrando , matando e fazendo declarações falsas às emissoras tendenciosas.

Tenho, como  você, o hábito de ouvir muito as pessoas. Ouço o  padre, o ministro, o exilado, o aluno, o colega de trabalho, o parente do interior, o filho do preso político, o pedreiro, o chofer, o tintureiro, o muçulmano rico, o muçulmano pobre, o cristão francofônico, o curdo sem nacionalidade, o agente, o militar, o nouveau-riche… as emissoras estatais e estrangeiras. Na maioria deles, o que há em relação à sorte do país é um grande ponto de interrogação estampado no rosto, fora as argumentações contraditórias, o diálogo surdo… O mais desesperador é que muitos indivíduos acreditam piamente que sua religião é a escolhida e que têm o direito, legitimado em seu livro sagrado, de apagar os outros do mapa! Estes também engrossam o caldo da ‘oposição’. A pressão internacional é considerável, tendendo a uma intervenção militar mal intencionada. Por outro lado, temo que se está usando, apesar da crise, os mesmos velhos métodos de manipulação popular; métodos estes que, ao meu ver, são aqueles que poderiam levar o sistema à falência.

Ontem foi sexta-feira, feriado, e ao pôr do sol causticante fui fazer uma visita a um parente. As praças cheias, as pessoas passeando, e no caminho que leva a Damasco centenas de famílias fazendo picnic com seus apetrechos, dos quais não falta o narguile. Que boa vida….Até que ponto o cidadão comum quer se envolver? Será que eles ignoram seu destino? Ou será que, depois de tantos conturbados séculos, sabem que nada podem fazer? Chega-se a um ponto  em que tudo o que o cidadão quer, até  o mais ilustrado dos homens, é que o deixem respirar em paz.

As tais aulas da sobrevivência… desvinculei-me definitivamente de uma pequena escola onde lecionava. Coloquei um ex-aluno meu no lugar para assim não prejudicar o  diretor. Era cansativo demais por tão pouco retorno profissional e financeiro. Fico somente com as aulas no Instituto Superior, cujos alunos prestaram vestibular e passaram por um exame de admissão e onde meus esforços são, pelo menos moralmente, mais bem empregados.

Aproveitando meu gosto pela introspecção, pela contemplação, leitura, coisas do espírito enfim, saio o mínimo possível de casa, evitando lugares lotados, ambientes poluídos, trânsito… O retorno é grande pois leio os grandes mestres, escrevo bastante e o mais importante: dedos nas teclas.

O que tenho escrito? Tenho em minha mesa cinco pastas, cinco assuntos mais ou menos relacionados. O sistema que adotei: leio diversas fontes e é impossível esgotar um assunto em uma semana.Vou lendo, vivendo e refletindo e depois de um tempo começam a se estruturar idéias em frases ou parágrafos. Escrevo e coloco na devida pasta, abastecendo-a de material para ser reavaliado e organizado em forma de texto. Não me preocupo logo no começo em colocá-las em um discurso linear. Se as idéias estiverem corretas, buscam seus pares e tudo correrá bem. Tenho, portanto, a liberdade de abandonar por um tempo um assunto e retornar a outro. Forma-se assim uma espiral ascendente e, cada vez que se retorna a um motivo, as idéias se esclarecem. Nunca se sabe quando uma relação interessante pode ocorrer. As idéias precisam de tempo para amadurecer e um distanciamento é  producente; prática sugerida na adolescência pelo meu  psicanalista.

Estou ocupado, por exemplo, com um estudo, ‘Fórmulas de Polidez’, em vernáculo árabe. Não estão escritas em nenhum compêndio. Devem ser retiradas do convívio com os locais, sejam entrevistas, peças de teatro ou fontes as mais diversas. São milhares de fórmulas – herança linguística – usadas no convívio social e  para cada ocasião uma fala, sua devida resposta e, às vezes, a resposta da resposta. São muito bonitas. Já tinha recolhido há muitos anos algumas frases, mas o impulso final veio a partir do Larousse, que tem uma parte dedicada a ‘Formules de politesse correspondant à divers événements’. Este é um trabalho mais acumulativo do que analítico, mas para o qual estou elaborando um pequeno comentário.

Outra pasta, o problema da avaliação pedagógica. Tenho participado anualmente das bancas examinadoras do Instituto e acredito que falta muito para uma melhor avaliação das provas práticas. Isso  me leva a uma série de reflexões a esse respeito e,  por conseqüência, foram devidamente escritas e serão propostas em futuro próximo.  Não é um texto longo e poderei enviar-lhe o rascunho se for de seu interesse. Interesse maior será o meu em moldar-me às prováveis críticas. Avante, a motivação é maior. As outras pastas também são interessantes, mas penso que já tomei demais seu tempo”.

Resultado de nossas longas conversas em São Paulo neste Setembro, Flávio escreveria:

“Nunca fui um ativista e confesso que, nos meus 40 anos, não teria paciência de sê-lo.  Sempre estou querendo saber e ouvir mais… Minha posição não me impede contudo de manifestar críticas a qualquer sistema existente.

Muitos assuntos eu não tratei em correspondências anteriores e que são, a meu ver, de suma importância. De passagem: o clientelismo impera, a corrupção institucionalizada; o código civil, importado da França,  foi enxertado numa sociedade com história e valores diversos do país de origem, muitas leis herdadas dos idos tempos otomanos ainda parasitam na constituição de uma sociedade que é governada por um partido socialista ‘laico’, alimentado pelo sonho pan-arábico. Previdência social ineficaz, sistema hospitalar péssimo, desrespeito visceral ao meio ambiente, imprensa… mais remedia do que noticia.

A sociedade levantina é puritana por natureza. A palavra como tal é crime e os tabus são muitos. Arrisco dizer que censura e puritanismo legitimam-se mutuamente. Acho pouco provável leis sobreviverem contrariamente à moral vigente. Existe, sim, uma elite educada e esclarecida. Ela tem consciência ambiental, habituou-se a fazer reciclagem, respeita a cultura alheia e integra com naturalidade os espaços em que vive, não corrompe e não é corrompida. Há bons escritores, corais relativamente bem treinados, compositores tentando, dentro de suas possibilidades, desenvolver uma linguagem nacional, programas de assistência social promovidos pela nossa excelente Primeira Dama e coisas afins.

Sob o aspecto cultural, dada a sua localização geográfica, o Levante compartilha imensamente do belo imaginário mediterrâneo. Muçulmanos e Cristãos convivem sem atritos maiores. Algumas cidades sírias poderiam bem estar em Portugal, Espanha, Itália ou Grécia e o inverso seria também válido. É só olhar os semblantes de homens e mulheres, as casas construídas com pedras escuras, ver casamentos, danças, ouvir adufes e gaitas; observar os vinhedos e as oliveiras, assim como as mulheres vestidas de luto e o culto à Virgem.  Acredito que essas semelhanças sobrevivam desde épocas anteriores às conquistas islâmicas. Indo mais a fundo,  a paisagem de cidades mais afastadas do Mediterrâneo, nela incluindo seus habitantes, aproxima-se mais de panorama existente na Península Arábica. Acrescentaria cidades a nordeste com traços mais centro-asiáticos em todos os aspectos.

A História da região não foi nada homogênea e sim plena de conturbações, seja nos tempos de Roma e de seus Césares, ou naqueles de Alexandre, pois o território pareceria fadado às ocupações.

O viajante que empreender um turismo sério, fora dos saguões cinco estrelas e restaurantes com música ‘para inglês ver’, poderá, a partir de uma atenta e prazerosa leitura das paisagens, aprender muito sobre a história da região.

Viver o cotidiano do país por uns bons quinze anos permite-me observar : os sírios vivem num país seguro? Sim. A pobreza é inferior àquela de outros do ‘terceiro mundo’? Sim. Pode-se andar pelas ruas à noite sem medo de assalto? Sim. Há alimento subsidiado pelo Estado? Sim. Há liberdade de culto? Sim. O mais relevante: a tolerância entre as diversas etnias e religiões e a solidariedade entre as pessoas, independentemente destas diferenças, é, de fato, admirável.

Transpondo exageros movidos por parcialidades e desinformação, penso que uma reavaliação mais sensível deveria ser feita, evitando assim julgamentos e decisões políticas de consequências nefastas.”

Flávio me apresentaria fotos por ele tiradas na Síria. Compartilho cinco delas com meus leitores. Tem-se muito do país e do que vai no interior do olhar de meu querido amigo.

Flavio Metne was one of my students at the university in the past and for more than ten years he has been living in Damascus, where he is a piano teacher at the High Institute of Music. We keep in touch by e-mails and meet when he comes to São Paulo on vacation. In this post I transcribe two interesting messages received from him, in which he gives his views on today’s civil unrest in Syria and also on the diverse fabric that makes up the Syrian society.

 

O Pensamento de Daniel Barenboim

A entidade musical  apresenta pois,
essa estranha singularidade de demonstrar dois aspectos,
de existir alternativamente sob duas formas,
separadas uma da outra pelo silêncio do nada.
Essa natureza particular da música
comanda a sua própria existência
e os seus efeitos na ordem social,
pois ela supõe duas espécies de músicos: o criador e o intérprete.
Igor Stravinsky

Não poucas vezes tenho me posicionado sobre o músico completo, aquele que, sendo compositor ou intérprete, desenvolve, por vocação ou por aperfeiçoamento voluntário, a arte de pensar a música e o mundo. Acrescentaria, sob  conditio sine qua non, a categoria do teórico competente que, ao ter praticado um instrumento ou em outra situação, debruça-se acuradamente sobre a escrita musical, a evolução da música através da história e a análise tanto musical como social, atingindo a aura da confiabilidade. Só não pode existir, em termos da arte musical, o subterfúgio, o verniz que encobre a falta do conhecimento aprofundado.

Daniel Barenboim é uma exceção no meio musical. Não apenas um dos mais competentes pianistas de nossos tempos, como notável regente e pensador. Suas interpretações ao piano são referenciais e fogem do livre arbítrio tantas vezes pernicioso. Apesar de seu repertório tecladístico preferenciar uma parcela fundamental das criações franco-austro-germanicas, não há uma só de suas gravações que deixe de transmitir a veracidade possível da partitura e a emoção nela contida. Sob outro aspecto, sob sua batuta o denominado grande repertório já foi visitado e suas incursões nas óperas de Richard Wagner ou nas obras dos contemporâneos Pierre Boulez e Elliott Carter são provas de versatilidade competente, que está sempre a surpreender. Seus conceitos sobre Spinoza, Adorno e Wagner evidenciam o pensador arguto e seus diálogos com o intelectual palestino Edward Said resultaram em livro Parallèles et Paradoxes – avec Edward Said (Paris, Le Serpent à Plumes, 2003).

O livro La Musique Éveille le Temps, de Daniel Barenboim (Paris, Fayard, 2008), aponta para aspectos fulcrais do pensamento do intérprete. Alguns outros textos foram agregados à obra. Pode-se aquilatar o grau de profundidade de seus conceitos sobre música, mormente a complexa área da interpretação em sua essência essencial, naquilo que resultará após intenso debruçamento. Não se atém o livro unicamente à interpretação, e Barenboin discorre sobre seu comprometimento profundo  com J.S.Bach; sua confessa admiração pela criação de Mozart (entrevista); suas lembranças de aprendizado e amadurecimento; homenageia o extraordinário regente Furtwängler; traça seu relacionamento musical com Pierre Boulez; aborda Wagner e a ideologia; e não deixa de rememorar a intensa ligação com o pensador palestino Edward Said e aspectos concernentes à política e ao entendimento entre os homens que professam atávicos e divergentes princípios religiosos, deles decorrendo tanta incompreensão no mundo atual.

Como bem afirma o autor no Prélude, “Não se trata de um livro para músicos, nem para leigos; ele é destinado, preferencialmente, ao espírito curioso e desejoso de descobrir paralelos entre a música, a vida, e essa sabedoria que se torna audível para a escuta pensante”. Num primeiro capítulo Barenboim aborda temas recorrentes e que fazem parte de suas preocupações, como som, silêncio e pensamento. Já teria afirmado que “A relação entre a vida e a morte é a mesma que existe entre o silêncio e música – o silêncio precede a música, sucedendo-a”. O conceito, a envolver o nascimento do som e a sua extinção, magnificamente tratado por Vladimir Jankélévitch nos três livros a abordar a obra de Debussy, adquire, nas intenções de Barenboim, a práxis absoluta através de suas interpretações, que se tornaram paradigmáticas. Traduz-se nesse sentido de entender o encadeamento das frases musicais, dando a cada nota o próprio sentido da individualidade. Para Baremboim, “o último som não é o fim da música e se a primeira nota está ligada ao silêncio que a precede, a última deve estar ligada ao silêncio que segue”. E a partitura conteria toda a complexidade, onde cada nota deverá ter o espírito solidário, ao transferir para aquela que a sucede a missão sequencial. A inteligibilidade das notas que desfilam nessa concepção fraterna fá-lo entender que “se o tempo for muito rápido, o conteúdo advirá incompreensível, pela incapacidade do músico de tocar todas as notas claramente, ou então, do ouvinte de entendê-las; se, ao contrário, for muito lento, também será incompreensível, pois nem o intérprete, tampouco o ouvinte captarão todas as relações entre as notas”.

Pormenoriza as categorias da leitura de um livro e da escuta musical, aquela a possibilitar as associações que se estabelecem através do texto, e esta a necessitar, a partir de cada nota, da tomada de consciência das leis físicas do som, do tempo e do espaço. A acuidade do ilustre  intérprete na captação de todos os elementos sonoros que formam o léxico da partitura vertido para a interpretação aproxima-o do enunciado constante da epígrafe do post.

Barenboim entenderia como equívoco o posicionamento de intérpretes “persuadidos de que a música do passado é atemporal, universal e fonte infinita de inspiração, ao acreditarem que, limitando-se à estreita seleção de obras dos séculos precedentes, terão um conhecimento mais aprofundado”.  O pianista-regente estaria atento à curiosidade que todo músico deve ter em relação à criação contemporânea, que pode, sob outra égide, vir a explicar as obras do passado.

Dedica um capítulo a J.S.Bach J’ai été nourri de Bach. Ter-se alimentado desde a tenra infância de conteúdo essencial da obra de Bach, mormente do Cravo Bem Temperado, deu a Barenboim o sentido sinfônico, pois a polifonia que dela emana estabelece a possibilidade da diferenciação das vozes, a propiciar a leitura tridimensional, como afirma. Como curiosidade mencionaria que Barenboim escreve ter estudado o Cravo Bem Temperado ainda menino, sob influência de seu progenitor. O mesmo se deu em relação ao meu irmão João Carlos, que trabalhou os 48 Prelúdios e Fugas da magistral obra também sob a indicação de nosso pai, gravando nos decênios seguintes a integral de J.S.Bach para teclado. Sob outra égide, meu professor de matérias teóricas e ilustre músico Louis Saguer, não orientaria durante três anos em Paris o seu aluno no sentido de analisar com profundidade, a cada semana, um prelúdio e fuga do C.B.T.? A monumental obra do Kantor seria  paradigma para Barenboim, ensinando, entre outras lições, a independência absoluta de cada um dos dez dedos e a percepção decorrente, que tem tudo a haver com o sinfônico, segundo o  pianista-chefe de orquestra. Essa confessa admiração não teria resultado no futuro regente? Ainda hoje, periodicamente Daniel Barenboim apresenta em público os dois livros do Cravo Bem Temperado, exemplo que, hélas, não parece ter guarida nas novas gerações de pianistas. Nesse capítulo, destaca a prevalência, entre os três elementos básicos da música – harmonia, ritmo e melodia –, da harmonia, eixo paradigmático da composição tonal.

Um dado significativo enunciado por Barenboim e que vem ao encontro de posições que professei em 2001 e ratificadas pelo ilustre musicólogo e saudoso amigo François Lesure, quando de minha gravação para o selo belga da integral para teclado de Jean-Philippe Rameau, diz respeito à interpretação histórica. Escreve o notável intérprete: “Penso que se ocupar unicamente de hábitos históricos e querer reproduzir a sonoridade de práticas musicais mais antigas é restritivo e não é sinal de progresso”. Lesure escrevera que o anátema lançado pelos puristas não tem mais sentido. Barenboim afirma que “a visão puramente acadêmica do passado é perigosa, pois ela está ligada à ideologia e ao fundamentalismo, mesmo na música”. François Lesure afirmaria que “não é o instrumento que assegura a priori a autenticidade da obra, mas o estilo do intérprete”. O pianista-regente, ao afirmar que não tem “nenhum problema filosófico com alguém que toque Bach e o faz soar como Boulez, mas sim com aquele que busca imitar o som daquela época”, não estaria a engrossar a legião de músicos conscientes contra a intolerância? Respeita determinados músicos fabulosos que se dedicam à execução histórica, mas aderir ao que ele denomina “movimento” de cunho  ideológico, cerceia a criatividade humana. Todavia, Barenboim está ciente que tem de haver responsabilidade nessa compreensão interpretativa de obras do passado.

Na entrevista concedida à Christine Lemke-Matwey sobre Mozart, um de seus paradigmas musicais, Barenboim discorre sobre a criação, os meios empregados pelo compositor e a extrema fluidez de sua música. Jocosamente, afirma: “Vinte quatro horas com Mozart seriam como um mês com Brahms – e eu nada tenho contra Brahms”. Dessa entrevista em torno de Mozart, uma observação que seria farol de orientação durante a trajetória do pianista-regente. Ao tocar aos 13 anos a Sonata op. 111 de Beethoven diante de júri respeitável na Academia Santa Cecília, em Roma, teve nove votos a favor e um contra, este do grande pianista Arturo Benedetti Michelangeli. O músico italiano teria-lhe afirmado que uma criança não podia saber o que fazer com aquela música. Considera Barenboim: “Fiquei, pois, permanentemente confrontado com a ideia de que é necessário ter grande experiência de vida para ser um bom músico”.

A admiração inconteste de Barenboin pelo filósofo Spinoza fá-lo discorrer sobre princípios do pensamento do autor de Ética - lido pelo pianista quando ainda em seus treze anos -, e a influência duradoura sobre sua maneira de entender a vida e a interpretação. Entende como fundamento essencial do legado de Spinoza o ultrapassar a contradição entre finito e infinito.

Capítulos são dedicados à estreita ligação com o pensador palestino Edward Said, que resultaria na fundação, em 1999, da West-Eastern Divan Orchestra, arquitetada a partir de músicos provenientes de países conflitantes do Oriente-Médio e cuja ação tem repercussão no mundo inteiro, mormente por ser Barenboim de origem judaica, o que provocaria um sem número de incompreensões, apesar da aceitação inconteste por parte daqueles que sonham ainda com uma paz duradoura entre árabes e judeus. Barenboim receberia em 2008 o passaporte palestino.

Em La Musique Éveille le Temps há capítulos fulcrais em que Daniel Barenboim  focaliza com  argúcia características de individualidade na regência do grande Wilhelm Furtwängler, que servem ainda como referências. Discorre sobre sua amizade com Pierre Boulez, compositor que ele admira e que é um de seus escolhidos quando do repertório orquestral contemporâneo. Em sendo Barenboim um dos grandes regentes das óperas de Richard Wagner, um capítulo a ele é dedicado.

Na atualidade é cada vez mais rara a incursão de um intérprete de imenso valor no campo do pensar música. A agitação hodierna quase que impede a reflexão sobre música e temas humanísticos. É, pois, relevante um livro como La Musique Éveille le Temps, ao menos para músicos e leigos de espírito curioso, como sugere o próprio Barenboim. Sob o título “A Música Desperta o Tempo” o livro foi lançado no Brasil pela Martins Fontes em 2009.

On the book “La Musique Éveille le Temps” (Music Quickens Time), written by Daniel Barenboim, pianist, conductor and – exception among musicians – also an intellectual who discusses non-musical issues. In this book he talks about the West-Eastern Divan Orchestra – with Israeli and Palestinian musicians – he co-founded with his late friend, Edward Said, presents topics on Spinoza, Bach, Mozart, Boulez, Furtwängler and, above all, reflects on the duality sound-silence and on how people perceive the universal language of music.The book is an exceptionally talented musician’s foray into the world of sound and the interconnections between music and life.

 

Os 51 Exercícios para Piano de Johannes Brahms

Apele para a inteligência e a razão dos alunos,
conduza seus trabalhos mais com a mente do que com os dedos,
ensine-os a pensar e a se concentrar mais.
Os alunos devem entender claramente
que o importante não é a quantidade de horas
e sim a qualidade do trabalho.
O trabalho puramente mecânico, sem pensamento, é inútil.

Georges Amédée Saint-Clair Mathias (1826-1910)
Recordação de ensinamento recebido de seu mestre Frédéric Chopin

Desde 2007 foram inúmeros os posts em que abordei a problemática pianística, tanto no aspecto da interpretação como no do ensinamento. A transmissão de conhecimentos adquire tipicidade, pois durante os anos de aprendizado as aulas têm um cunho individual, mormente no Ocidente. Incontáveis são os processos de ensino, e contam-se às centenas os métodos publicados desde o período barroco, visando à edificação inicialmente de um cravista e, na sequência histórica, de um pianista. Se considerada for a essência desses métodos, quase todos seguem o desenrolar da história e, geralmente, há quase que parte de um déjà vu. Todavia, se talento houver por parte do autor, alguns processos novos quando aceitos pela comunidade, mercê dos resultados, serão incorporados aos métodos que constantemente enriquecem a bibliografia específica.

Verifica-se que a imensa maioria dos professores de piano no Ocidente dedica-se unicamente às aulas individuais. Se à prática do ensino somar-se aquela da interpretação, essas lições podem ter a configuração coletiva, as famosas master classes, quando o pianista-professor busca exemplificar in loco as intenções que estão a ser transmitidas.

Em termos de Brasil, a nossa literatura voltada à solução dos problemas em suas imensas gradações é pequena, tanto a direcionada ao técnico-pianístico como a literário-analítica, se comparada  com a de alguns países europeus, da Rússia, Japão e Estados Unidos. Apesar de basicamente partirem de acúmulos de outras culturas, louvem-se determinados atributos novos encontráveis em algumas publicações pátrias.

O pianista Nahim Marun tem sólida formação pianística e desempenha com invulgar competência a sua atividade profissional. Teve dois mestres da maior expressão, que foram Izabel Mourão no Brasil e Grant Johannesen nos Estados Unidos, onde estudou durante vários anos. Os longos períodos, em etapas diferentes, sob a orientação de dois notáveis pianistas e professores propiciaram a Marun o embasamento competente. Realizou seu mestrado no The Mannes College of Music de Nova York, doutorado na Unicamp e pós-doutorado na Paris-Sorbonne. Como pianista, Marun tem significativa discografia premiada. Presentemente é professor nos cursos de graduação e pós-graduação na Unesp. Sob outra égide, Marun tem o raríssimo dom da curiosidade, não se restringindo ao ensino ou à atividade pianística meritória, mas a buscar os porquês da problemática técnico-pianística e suas implicações no desenvolvimento de um jovem que aspira a bem tocar. Foge pois de uma mentalidade, hélas, tão presente no Brasil, do professor que tem como meta a preparação de jovens “concurseiros”, o que, em certo aspecto, pode impedir a abertura das mentes desses aspirantes para voos mais altos quanto ao conhecimento musical abrangente e à apreensão humanística.

A técnica pianística tem sofrido inúmeras transformações, mormente a partir da segunda metade do século XX, e o professor atento tem de acompanhar e preparar-se para novas abordagens. Mesmo se a apreensão repertorial fixá-la em períodos históricos delimitados, entender a evolução do técnico-pianístico a partir da tradição torna-se imperativo.

Pois teria sido essa uma das razões de Nahim Marun ter escrito o substancioso livro “Técnica avançada para pianistas – Conceitos e relações técnico-musicais nos 51 Exercícios para piano de Johannes Brahms” (São Paulo, Unesp, 2010). Segundo relatos, Brahms foi bom pianista e percorreu um repertório dos mais fascinantes, que abrangia obras importantes de Bach, Beethoven, Schubert e Schumann, assim como quase toda o sua vasta e complexa produção pianística solo, camerística ou mesmo os dois concertos para piano e orquestra de sua lavra. Essa frequência ao grande repertório publicamente apresentado seria prova inequívoca da competência pianística de Brahms. Todo esse longo caminho a desvelar para o leitor brasileiro o compositor-pianista foi traçado com profunda acuidade por Marun. Menciona comentários da época, que nos fazem captar a familiaridade voluntária do compositor com o piano e a preocupação em legar aos pósteros Exercícios que pudessem servir ao aperfeiçoamento dos pianistas.

Estou a me lembrar de ter conversado com nosso grande compositor Francisco Mignone (1897-1986) sobre os 51 Exercícios de Brahms, logo após o mestre brasileiro, informalmente, ter exemplificado com a mais absoluta destreza, em visita que fizera a nossa casa, determinados exercícios por ele criados que “enroscariam” os dedos de pianistas experientes. Realizava-os em todas as tonalidades e em andamentos bem rápidos, a manter a mesma dedilhação. Disse-me que os “seus” preparavam os dedos para as suas composições, assim como os de Brahms para as dele. O compositor alemão, aliás, igualmente propunha a transposição de seus Exercícios. Nesse item preciso, Marun pormenoriza com atenção a criação desses exercícios e sua aplicação em tantas obras de Johanes Brahms. Os pianistas sabem que há particularidades transparentes na escrita do compositor tedesco. Dir-se-ia que suas obras sinfônicas podem perfeitamente se adaptar ao piano e vice-versa. Brahms edifica um idiomático técnico-pianístico tipificado, onde não falta a presença de sólida densidade estrutural. Quantas não são suas obras que apresentam massa de acordes na configuração vertical ou fluidos, ou a insistência – verdadeira impressão digital – da relação de três figuras contra duas ou, ainda, construções técnico-pianísticas complexas? René Leibowitz não observaria (L’évolution de la musique, Paris, Corrêa, 1951) que, se houvesse a hipotética “fusão” Schumann-Brahms, teríamos o compositor romântico por excelência, pois a fluência natural e a espontaneidade melódica de Schumann se ajustariam a toda a estrutura de sólida confecção proposta por Brahms?

Nahim Marun pormenoriza, embasado documentalmente, as origens dos 51 Exercícios até a publicação em 1893 e a feitura de outros 30 adicionais, posicionando-os ao longo da trajetória. Tabelas  expostas dão a exata orientação ao leitor do histórico de exercícios e estudos ao longo dos séculos, das várias escolas que focalizavam o técnico-pianístico como um todo, assim como a aplicação dos 51 Exercícios na avaliação de Brahms, Pozzoli e Isidor Philipp. É excelente o capítulo 4, “Os 51 Exercícios de Brahms”, em que Marun detalha cada exercício e a sua utilização prática em obras do compositor. Posteriormente encaminha o leitor à destinação de cada um e como realizá-lo.

Farta iconografia, a esclarecer posições corporais e das mãos sobre o teclado, leva o leitor estudante ou pianista à compreensão da importante obra. A visualização dos procedimentos impediria o entendimento equivocado.

Em Le Piano de Marguerite Long (Paris, Salabert, 1959), método, a meu ver, que conseguiu realizar a mais completa síntese dos modelos tradicionais técnico-pianísticos em fórmulas concentradas, a lendária pianista e professora foi buscar exemplos significativos de exercícios através da história. Clementi, Bériot, Hanon, Tausig têm configurações básicas inseridas no método. Os exercícios 8a e 8b dos 51 Exercícios estão presentes na obra, em subcapítulo dedicado aos arpejos, sob o título Exercice d’après Brahms.

Considero o livro de Nahim Marun obra indispensável para a biblioteca de estudantes e pianistas. O entendimento dos 51 Exercícios não apenas  fornece elementos fulcrais à preparação e feitura de tantos procedimentos de Johannes Brahms, como aplica-se à técnica pianística como um todo, dos compositores precedentes aos pósteros que tiveram como material formulações tradicionais, corroborando pois a formação do pianista.

An appreciation of the book “Técnica Avançada para Pianistas” (Advanced Piano Practice Technique), written by the pianist and teacher Nahim Marun, in which he addresses Brahms’ 51 Exercises for Piano. Thanks to Marun’s solid professional background and rare competence, the work allows not only the understanding of techniques related to Brahms’ piano pieces, but also of a great many technical problems found in piano music as a whole. An indispensable reading for both students and teachers.