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A Magia da Amizade

La grande objection
que les matérialistes ont toujours faite aux spiritualistes
et qu’ils font encore, mais moins hardiment aujourd’hui,
se résume en ceci: Pas de pensées sans cerveau.
L’âme ou l’esprit est une sécretion de la substance cérébrale;
le cerveau mort, la pensée s’arrête et il ne reste rien.

Je ne suis qu’un instant de Dieu,
mais tout instant est éternel.
Maurice Maeterlinck
(Gent – 1862, Nice – 1949)

As relações humanas são muito complexas, mormente quando envolvem a atividade principal do ser. Quando o músico tem o privilégio de gravar no Exterior, pode ele ser instado a fazê-lo em vários centros do planeta. Estou a me lembrar que, após recital na Rode Pomp em 2006, um agente de gravadora super conhecida mundialmente, durante o jantar no restaurante contíguo à sala de concertos, e que funcionava de quinta à sábado à noite após as récitas, convidou-me para com eles gravar, a dizer que a tiragem seria bem superior à artesanal da Rode Pomp e que a difusão, por consequência, resultaria extraordinária. Perguntei-lhe em que lugar eles gravavam. Respondeu-me que dependia das circunstâncias e que elas poderiam ser realizadas em qualquer parte do mundo. Fiz-lhe uma segunda pergunta, já a saber a resposta, pois conhecia inúmeras gravações do importante selo: “posso escrever o texto do CD”? A resposta foi clara, “não”, pois geralmente nem textos explicativos havia nesses CDs. Para mim, o texto do intérprete que acarinhou um projeto contém algo de etéreo e espiritual, a formar o amálgama com a mensagem sonora. Naquele instante chegava André Posman. Diante do agente, disse ao grande amigo que nossas gravações continuariam ad eternitatem a se processarem na mágica capela Sint-Hilarius, em Mullem, sob a direção de meu querido amigo e engenheiro de som Johan Kennivé. O cidadão ficou um tanto quanto pasmo quando me levantei e dei um afetuoso abraço em André Posman. Se anteriormente gravei CDs na Bulgária e, circunstancialmente, em Portugal, para um projeto preciso e dignificante a envolver o extraordinário compositor Lopes-Graça, é em Sint-Hilarius que meu de profundis aflora e que consigo transmitir minha mensagem musical na atmosfera do inefável. É uma dádiva ter um Grande Mestre como Johan Kennivé, sensível e sereno a captar as reverberações de Sint-Hilarius. O que podem significar a grande divulgação ou aquela palavra tão decantada, “sucesso”, diante daquilo que realmente somos? A “herança musical a ser deixada”, proposta por André Posman, tornar-se-ia o desafio incessante em busca da qualidade ímpar.

A honraria outorgada por Sua Majestade Alberto II, Rei dos Belgas, que me foi entregue pelo Sr. Cônsul Geral da Bélgica em São Paulo, Sr. Peter Claes, teve comentários vindos das longínquas terras, que me comoveram sensivelmente. Essas amizades ficaram de tal maneira intensas que seria difícil transmiti-las ao generoso leitor. Três desses amigos que estão presentes no meu cotidiano e que anualmente são motivo de alegria imensa quando chego a Gent, escreveram pequenos textos: Johan Kennivé, André Posman e Tony Herbert. Cada um a mostrar dados que nos uniram indelevelmente. Um quarto depoimento veio de Magnus Bardela, meu ex-aluno na universidade e há tantos anos meu professor absoluto na computação e no apreciar as edições de meus CDs. A ele devo gratidão eterna pela edição de quatro dos meus CDs gravados em Sint-Hilarius quando não tinha as menores condições físicas de fazê-la devido às intensas quimioterapias. Magnus foi impecável, mercê da competência muito elogiada por Johan Kennivé. Da França, François Servenière traça comovente apreciação do relacionamento humano e estabelece bela metáfora. Por fim, Álvaro Guimarães, saudoso amigo, responsável pela minha primeira visita às terras flamengas. Estivesse entre nós, certamente Álvaro teria participado desses momentos que ficarão guardados no coração e na mente (vide Álvaro Guimarães 1956-2009, In Memoriam. 04/07/2009).

“A cada ano em que meu amigo José Eduardo gravava na Capela Sint-Hilarius, em Mullem, num piano vindo especialmente para suas gravações, os compositores podiam apreciar os sons no pequeno cemitério que circunda o templo. O piano de concerto que ocupava a capela tornava-se o centro de uma religião extraordinária e imaterial. Assim como anualmente temos a Páscoa e o Natal, assim também todo o ano meu amigo José Eduardo retornava às gravações. Representava ele a definição da duração de cada ano. Quando nós dois, irmanados, lá estávamos na obscuridade e no silêncio da noite, José Eduardo impedia que o tempo continuasse a sua trajetória, pois o cansaço não o atingia. Diria que meu amigo tinha uma outra noção do tempo. Dez horas da noite, meia noite, 5 da manhã, e a eternidade nunca esteve tão próxima. Nós ambos, o piano, a reverberação de Sint-Hilarius e os compositores que ouviam e entendiam a amizade eterna através da Música.

Penso que agora os compositores não entendem o porquê de a Música ter desaparecido de Mullem. Eu expliquei a eles: José Eduardo começou a correr. Atravessou os oceanos para mostrar aos brasileiros a pequena cidade de Mullem com as suas cervejas Triplet-Trappists, com os túmulos ancestrais do cemitério, com os compositores que reviviam a cada ano, numa ressurreição de seus espíritos e suas músicas, através das mãos do grande pianista José Eduardo Martins. Foi devido a esse trabalho, com repertórios por vezes duríssimos, noites e noites, como o alpinista que deve continuar ou morrer, que José Eduardo sofreria cirurgias na base de seus dois polegares, destruídos pelo esforço. Ele sofreu com amor. Não seria a estética uma maneira de sofrimento? Como amigo eu digo que José Eduardo Martins merece a honra de receber de Sua Majestade Alberto II, Rei dos Belgas, a condecoração “Officier de l’Ordre de la Couronne”. Tenho a certeza de que José Eduardo dirá: ‘Je t’aime beaucoup et je t’embrasse de tout coeur’.
José Eduardo é um amigo para a vida e para a eternidade”.
Johan Kennivé – Engenheiro de som

“Foi em 1999 que André Posman, organizador dos concertos na Rode Pomp, pediu-me para abrigar o grande pianista José Eduardo Martins. À sua virtuosidade como intérprete, José Eduardo tem o dom da curiosidade. Eu gostava de contar a ele tudo o que eu sabia sobre a Bélgica e sobre a minha cidade natal, Gent; José tudo ouvia interessado. Percorremos a cidade ao longo dos anos, e nada lhe era indiferente. Certamente a vida cotidiana e os costumes locais diferem bem daqueles de São Paulo. Tudo o que ele via era motivo de questionamento: como e porquê. Rapidamente vi-me incapaz de lhe dar uma boa resposta. Na realidade eu não sou especialista nesses aspectos da minha Gent. Todavia, José não podia ir dormir sem antes saber todas as respostas. É bem possível supor que ele perguntasse a cada Gantois que cruzava seu caminho, ou ainda ter ele pesquisado na biblioteca – eu não sei – mas no dia seguinte, durante o café da manhã, ele me dava a resposta bem detalhada à pergunta que eu não conseguira responder no dia anterior. Em pouco tempo, José Eduardo sabia mais do que eu sobre a vida cotidiana belga.

Resumo: José Eduardo é como os novos aspiradores robotizados. A informação é para ele o que a poeira é para o aspirador. Ele busca a informação e as assimila, sem nada escapar. Evidentemente, José Eduardo é mais do que um aspirador-robot; tem um coração de ouro, onde a Bélgica ocupa um lugar importante.
E, finalmente, José Eduardo tem um bom senso de humor.
Viva a Bélgica! Leve België! Viva o Brasil”!
Tony Herbert – meu eterno anfitrião em Gent. Sua foto ilustra o post anterior. (vide TTTT e o Saber Viver. 12/04/2008)

“Foi com imenso prazer que eu soube que você receberá a condecoração “Officier de l’Ordre de la Couronne”. Como presidente da entidade cultural De Rode Pomp em Gand, eu estou profundamente orgulhoso, pois ajudei a construir a sua “herança artística” através dos 11 CDs da mais alta qualidade gravados para o nosso selo, assim como organizei mais de vinte apresentações suas como recitalista e camerista em minha sala de concertos em Gand. Também traduzi para o flamengo, para a nossa revista de música “Nieuwe Vlaamse Muziek Revue”, artigos escritos por essas mãos ricas de cultura e de conhecimento, oportunidade que tive para conhecer muitas coisas interessantes sobre a música e a cultura brasileiras.  Curiosamente, eu propus projeto similar de ‘fixação de herança artística’ para muitos grandes artistas, mas você foi o único que o realizou, você foi o único que compreendeu a empreitada, tendo vontade de investir a energia, esportividade em entender as várias situações e o precioso tempo para realizar um projeto internacional que construímos solidários. Eu lhe agradeço de todo o meu coração e chegará o tempo em que  escreverei nossa história desde os primórdios.
Eu desejo ao meu querido amigo muitos anos de fértil produção”.
André Posman – Presidente da Rode Pomp

“Acompanhei meu amigo e professor em algumas de suas atividades nas terras flamengas e lembro-me bem do inverno que enfrentamos em 2004, na ocasião do “Internationale, tweejaarlijkse vertolkerswedstrijd van hedendaagse kamermuziek” (Bienal Internacional de interpretação de música de câmara contemporânea), concurso da Antuérpia, onde JE durante três dias participaria  como membro do júri. A neve e o vento gelado nos castigavam naquelas longas caminhadas entre a estação de trem e o teatro De Singel – o que nos resultou em um resfriado de épicas proporções. Segundo a meteorologia, havia sido o pior inverno dos últimos anos.
Visivelmente cansado, pois passara as madrugadas da semana anterior gravando em Mullem, JE permanecia firme e bem humorado. No entanto, não sabíamos que o considerável esforço físico, somado à perda recente de seu querido genro, iriam despertar os primeiros sintomas de um grave linfoma, o qual combateria, durante os próximos meses, com a fé e o querer-viver incomuns que possui dentro de si.  Lembro-me do grave e-mail enviado pelo amigo: relatava o sombrio diagnóstico dos médicos e dizia que não se deixaria abater. E, de fato, não se abateu, pois fixou metas, deu recitais ainda convalescente e se propôs a gravar a integral dos Estudos de Debussy no ano seguinte – “se Deus assim permitir…”, como dizia.
Para JE, viver era poder retornar aos palcos coloridos criados por Boris Chapovalov na Rode Pomp; era se dirigir à madrugada silenciosa da planície flamenga, ao coração de sua querida Capela St. Hilarius em Mullem e deixar sua herança musical sob a companhia de pedras de mil anos e dos modernos microfones do amigo Johan Kennivé.
De lá para cá, muito aconteceu. O professor teve concedida não apenas a Divina Permissão  para o CD Debussy, mas também para tantas outras gravações, recitais, blogs, livros, honrarias e corridas(!) que vieram e ainda estão por vir.
Assim sendo, penso que a condecoração recebida do Reino da Bélgica no último dia 18 deveria ser entendida de maneira especial. Afinal, não seriam os mais de vinte CDs e inúmeros recitais lá realizados o resultado dessa relação amorosa com o país e as pessoas que JE elegeu para confiar sua música? Se assim entendermos, descobriremos o que a distinta medalha vem realmente reconhecer: o amor e a dedicação incontestes desse grande artista e amigo”.
Magnus Bardela – ex-aluno, hoje meu professor nessa complexa área da informática.

“Essa história de amor com a Bélgica contada por você é apaixonante de se ler. Descobrimos todo o tecido de relações, palavra terrivelmente adequada, quando percebemos que toda essa ramificação, efetuada por mais de 15 anos ao seu redor, foi construída por você ou por outros daquele país, para se chegar aos dias de hoje. Uma aranha não teria construído uma teia tão perfeita”!
François Servenière – compositor e orquestrador francês

In this week’s post I publish messages I received from friends in different countries with stories inspired by the insignia I received from the Belgian government.

E Tudo Começou Motivado pelo Acaso

Néanmoins, nous avons la certitude que l’infini existe,
puisqu’il est impossible d’imaginer qu’il n’existe point
et parce que son contraire, le fini,
est encore moins admissible.
Maurice Maeterlinck

Desde Março de 2007, reiteradas vezes abordei a temática relacionada às minhas ligações com a Bélgica, nascidas em 1995. Ao lembrar-me das origens dessa aproximação, que se tornaria perene, não deixo de fixar-me no acaso. Diria que trinta segundos a mais de uma situação absolutamente cotidiana e nada teria ocorrido. Em posts longínquos já escrevia sobre o fato.

Primeiramente, músicos da Bélgica estiveram no Brasil em 1994 e adquiriram na loja da Funarte, no Rio de Janeiro, três LPs gravados para o selo estatal e nos quais constavam obras do notável compositor romântico brasileiro Henrique Oswald. Dois de música de câmara e um de piano solo. Faziam parte de projeto acalentado pelo ilustre compositor Edino Krieger, então presidente da entidade. Com Antônio Del Claro, gravamos a integral para cello e piano e com Elisa Fukuda, a sonata para violino e piano e mais o trio op. 9, com a participação do  competente violoncelista.

O mentor da conexão musical Bélgica-Brasil foi certamente o saudoso Álvaro Guimarães, músico atuante que residia em Gent, na região flamenga. Procurou-me no início de 1995, a dizer que os belgas estavam encantados com a obra de Henrique Oswald. Todo o projeto foi por ele organizado. Primeiramente gravamos em Bruxelas, em Julho de 1995, a integral para violino e piano, com o excelente Paul Klinck ao violino. Estou a me lembrar que cheguei em uma sexta-feira pela manhã na capital dos belgas e Paul estava a me esperar. Conheci-o naquele intante e fomos direto a Gent. Meia hora após chegar, já realizávamos o primeiro ensaio. Dez minutos a seguir, Paul ficou de costas para mim e prosseguimos. A certa altura, intrigado, perguntei-lhe o porquê dessa postura. Respondeu-me bem calmamente “nossa compreensão da obra me leva à certeza de que nos entenderemos bem”. Ensaiamos ainda à noite, no dia seguinte Paul se casava, mas mesmo assim estudamos novamente, para na segunda e terça realizarmos, sem transtornos e na mais absoluta harmonia, a gravação das obras excelsas de Henrique Oswald em Bruxelas. Momentos extraordinários.

Em Novembro dava-se o Concerto de encerramento da Novecanto, totalmente dedicado a Oswald. Fizemos, no Muziekconservatorium de Gent, obras para violino, violoncelo, trio de cordas, canto, todas com minha participação ao piano. Tivemos ainda peças para piano solo e, para finalizar, o Coral Novecanto apresentou, de maneira sublime, a missa de Requiem a capella de nosso compositor. Chorei copiosamente ao ouvir, na platéia, a impecável execução da Missa. Concerto que teve a duração de quase duas horas. No intervalo foi lançado o CD que gravei com Paul Klinck.

À noite, mal conseguia dormir. Pensamentos contraditórios me levavam a rememorar os momentos mágicos vividos, que iriam estiolar-se na manhã seguinte, quando retornaria ao aeroporto de Bruxelas e, de lá, a São Paulo. E vem o acaso.

No momento exato em que o motorista de táxi que me levaria até à estação ferroviária Saint-Peters estava para fechar o porta-malas do veículo, desce de um carro que estacionara no meio fio, André Posman, o Diretor da De Rode Pomp. Não o conhecia e estranhei quando se aproximou sorrindo, a me dizer que adorara o concerto e que gostaria de conversar comigo.  Tenho o hábito de chegar bem antes da partida de qualquer vôo. André retira a minha bagagem do porta-malas, leva-me à sede da Rode Pomp e, posteriormente, de lá ao aeroporto. Nascia uma ligação definitiva, que me fez ir à Bélgica, até o presente, 22 vezes para recitais na sala da sociedade de concertos e gravações para o selo De Rode Pomp, assim como para apresentações em tantas cidades belgas.

O meu relacionamento com a Bélgica, tendo nascido de ato amoroso musical, permanece nestes 16 anos de intensidades. Foram inúmeros os posts em que abordei com alegria as viagens ao país, mormente à região flamenga. Só na sala da De Rode Pomp são mais de vinte recitais, sempre com repertório diferente. Sob outro aspecto, foi somente após três anos consecutivos de apresentações que André Posman me convidou para gravar “É necessário deixar a sua herança”, disse ele. Dos 22 CDs gravados no Exterior, 14 tem o selo respeitado da Rode Pomp, e outros foram gravados para serem lançados em Portugal e no Brasil com a anuência da organização. André, mulher e filhos tornaram-se membros de minha família belga. Conservaria a chave da moradia de André e tantas foram as vezes em que entrei de madrugada para estudar no piano da pequena sala de concertos. Infelizmente o auditório foi demolido, mas a força de vontade de André está sempre a pensar soluções novas. À mesa dos Posmans  - André, Jamila e os filhos Taha e Yassim - sempre há um lugar à espera do amigo quando este chega a Gent.

A não mais de 200 metros da Rode Pomp moram Tony Herbert e Tânia. André recomendou-me em 1997 a morada, pois se tratava de um Bed & Breakfast.  O casal teve filhos e nossa amizade apenas ficou ratificada em torno de Tycho e Trixie. Continuo a ser o único ex-cliente a lá se hospedar e seria uma desfeita imensa se buscasse outro abrigo. Extensão familiar. Tony de mil talentos é meu companheiro nos muitos almoços que compartilhamos sempre nos mesmos restaurantes de Gent e nas conversas prolongadas nos momentos de descontração. Personifica, a meu ver, muito das características dos habitantes da bela cidade medieval. De sua casa saio em treinamentos para as corridas da agenda oficial de São Paulo. Correr em baixa temperatura é experiência a ser vivida.

Johan Kennivé é o mestre absoluto da gravação. Um dos mais perfeitos engenheiros de som do planeta. Sereno, psicanalista, uma outra formação pois, Johan ausculta tudo. Nada lhe passa ao largo. Nossas gravações são sempre realizadas na capela Sint-Hilarius em Mullem, na planura flamenga. Todo ano vivemos três noites mágicas, que atravessam a madrugada até o raiar. Vivemos invernos rigorosos que, ao calor dos aquecedores, trazem a temperatura ideal ao intérprete nessa transmissão decisiva. Nos momentos de cansaço, é Johan que, na condição de psicanalista, sabe interromper uma gravação para conversa sem tensão, chocolate quente e torta de maça em sua Van com a mais moderna tecnologia de gravação e que fica estacionada na parte externa da capela, junto ao pequeno cemitério que a circunda.

Ter convivido com alguns dos grandes mestres da composição na Bélgica foi outro fato que marcou. Reiteradas vezes confessei que algumas de minhas amizades mais expressivas estão entre compositores, pintores e escritores. Gravei um CD unicamente com obras de 10 compositores belgas. Boudewijn Buckinx, Lucien Posman, Frederick Devreese, Yves Bondue, Stefan Meylaers, Roland Coryn, Daniel Gistelinck, Hans Cafmeyer, Raoul De Smet, Stefan van Puymbroeck são os criadores dos Études.

O competente compositor francês François Servenière, em análise crítica, escreve sobre essa gravação de Estudos belgas para piano: “esse CD com obras dos compositores do Reino da Bélgica e dedicados ao pianista José Eduardo Martins, aqui também formidavelmente virtuose, é uma lição da renovação que se opera na  música contemporânea da Europa e que o artista brasileiro não deixou de suscitar através das encomendas ou sugestões a esses criadores, mestres de sua arte seja qual for a tendência ou a geração. Podemos constatar, ao ouvir esse CD, que não há mais muros, barreiras e limites para a  criação e que a bandeira da liberdade é novamente aquela que está a impulsionar as mais brilhantes inteligências inventivas”. Raoul De Smet (1937), compositor da Antuérpia, dedicou-me seis Études, que apresentei paulatinamente ao público belga. Sabedor de meu projeto de Estudos, que hoje conta com 70 e tantos, escreveu mais nove. Deveria tocá-los este ano, contudo as cirurgias dos polegares (rizartrose) em 2010 e 2011 obrigaram-me a adiar a edificação da coletânea, pois estamos diante de Estudos realmente de dificuldade transcendental. Creio que em 2013 ou 14 poderei gravá-los em Mullem. Avanço na idade e no entusiasmo. Sob outra égide, foi um privilégio ter sido lembrado, através dos anos, em traços e cores marcantes por cinco artistas na Flandres: o saudoso Yves Dendal, que compareeu a todos meus recitais em Gent, Lutgard Wittocx e Tim Heirman (Bélgica), Joep Huiskamp e J.D.Wachter (Holanda) e Boris Chapovalov (Rússia). Seus trabalhos podem ser visualizados no item portraits de meu site.

Foram muitos os cameristas com quem me apresentei, mormente Paul Klinck, Herwig Coryn, Françoise Vanhecke e o Kwartet Rubio, que foi um dos mais prestigiados da Europa, hoje, hélas, desativado. Tantas as cidades em que me apresentei na Bélgica, quase todas percorridas através da eficiente malha ferroviária que corta o país.

Todo esse breve histórico para dizer aos generosos leitores que vivi emoção muito grande ao receber, das mãos do Exmo. Sr. Cônsul Geral do Reino da Bélgica em São Paulo, Peter Claes, a comenda “Officier dans l’Ordre de la Courone”, outorgada por Sua Majestade Alberto II, Rei dos Belgas, em comovente cerimônia realizada na residência oficial. No momento da entrega, o flash a conter toda essa relação amorosa passou pela mente. Longa preparação para as gravações, apresentações públicas, amizades que se perpetuam em intensidade sem limites, todas as imagens que me levaram a certeza de estar a sentir na Bélgica, nos contatos musicais e afetivos, algumas das mais sensíveis experiências de minha vida. Sinto-me profundamente honrado com a comenda, que será guardada com carinho exemplar e um dia pertencerá às filhas e netas. Ter chegado aos 73 anos torna-me mais fragilizado quanto às reações afetivas. Ter sido lembrado pelo Reino da Bélgica em momento tão especial calou-me fundo.

A Bélgica continua a ser um de meus refúgios paradisíacos da mente. Dela lembrar traz-me reconforto e estímulo, pois projetos estão em permanente ebulição. Enumero a seguir os posts, editados desde 2007, tendo como temas a música, a arte e as amizades que o tempo sedimentou: Gent – A Flandres Rejuvenescida, 28/04/2007; Mullem – Sint-Hilarius, 01/05/07; A Comunhão das Pedras – A Magia de Sint-Hilarius, 03/05/07; Victor Servranckx (1897-1965) – A Grandiosidade do Fragmento ou Esboço, 12/03/08; Recitais Diferenciados – O Lúdico e o Alento, 18/03/08; Sint-Hilarius em Mullem – Meu Desiderato Sonoro, 25/03/08; Tony Herbert – TTTT e o Saber Viver, 12/04/08; Nova Travessia – Retornar à Região Flamenga, 06/02/09; Gent e seus Templos Góticos, 13/02/09; Um Belo Concerto – Qualidade sem Empáfia, 28/02/09; Álvaro Guimarães (1956-2009) – In Memoriam, 04/07/09; Travessia, Travessia – Quando Projeto Acalentado Chega a Termo, 14/05/10; E Continua o Caminhar – 21/05/10; Passar do Tempo e Gent, 04/02/11.

Last 18 August I received, from the hands of Mr. Peter Claes,  Consul of Belgium in São Paulo, the insignia “Officier de l’Ordre de la Couronne”, bestowed by His Majesty Albert II, King of the Belgians, in recognition of my dream of strengthening the ties between Belgium and Brazil through music. I was deeply moved by this tribute and the ceremony brought back memories of my many trips to the country: the privilege of knowing great musicians and composers , the 22 CDs recorded in Mulem and, above all, the rare treasure of making good friends, a blend of affection, respect and trust  that makes me feel comfortable and safe whenever I’m in Belgium.

 

 

 

 

 

 

Oxalá Esteja a Acontecer

Il faut avoir vis-à-vis de l’oeuvre que l’on écoute,
que l’on interprète ou que l’on compose,
un respect profond comme devant l’existence même.
Comme si c’était une question de vie ou de mort.
Pierre Boulez

Les instruments, quels qu’ils soient,
ne sont là que pour restituer l’énergie engrangée,
de quelque manière que se soit et la projeter vers l’extérieur,
quel que soit le talent mis en oeuvre. Il n’y a de beauté à mon sens
uniquement quand ce talent s’efface
au profit d’une compréhension intime et d’une expression parfaite de l’univers,
comme si un langage divin passait par l’impétrant qui n’avait qu’à se laisser porter.
François Servenière

Foram inúmeras as vezes em que escrevi sobre a ausência de crítica especializada em música na cidade de São Paulo. Em tempos da Universidade, pleiteei junto a colegas a inclusão de curso específico para crítica de Arte, a partir da premissa que o possível ingressante tivesse o conhecimento básico da área a que se destinasse. No campo da Música, como intérprete,  teórico ou até jornalista, a ter como conditio sine qua nom conhecer as estruturas musicais básicas e possuir escuta acurada, únicos caminhos viáveis para uma avaliação crítica a partir do entendimento competente.

Infelizmente os meados do século XX ficaram esquecidos. Período em que a cidade contou com mais de dez críticos de música de concerto, sendo que muitos com currículo de mérito. Entre eles: João Caldeira Filho de “O Estado de São Paulo”,  H.J. Koellreutter e L.C. Vinholes do “Diário de São Paulo”, Dinorah de Carvalho do “Diário da Tarde”, Diogo Pachedo de “O Tempo”,  Arthur Kauffman da “Folha da Tarde”, Lilly Wolf do “Jornal Alemão”, Cyro Monteiro Brisolla “Correio Paulistano”, Odette de Faria do “Shopping News de São Paulo”. Todos conhecedores das estruturas que regem composição-interpretação.  Estiolou-se a crítica musical e o Maestro Júlio Medaglia faz-se exceção no desolador quadro que nos é apresentado. Escrevem, alguns com “verniz” musical ou realmente a desconhecer o que se passa numa partitura, o que invalida conceitos emitidos tanto na apreciação crítica como em artigos versando sobre música.

Estou a me lembrar de personagem que se outorgava o título de “crítico” e que, nos intervalos de recitais ou concertos, buscava auscultar opiniões de músicos. Certa vez emiti meu posicionamento a respeito de uma apresentação de artista estrangeiro. Dias após, assinado e “autenticado”, li com espanto a minha avaliação, que transmitira ao personagem, transcrita na íntegra.

Qual não foi minha surpresa ao ler pela manhã e-mails recebidos durante a noite, um de ex-aluno da Universidade de São Paulo e que, presentemente, tem sido assistido em minha casa. Teceu crítica de meu recital do dia 3 de Junho. Nele busca comentar as obras que foram executadas. Mesmo considerando a natural posição favorável de um jovem que periodicamente tem aconselhamento com o velho professor, assim como uma sua primeira incursão na área da crítica, ainda envolvida em aura romântica, resolvi colocar no post semanal a apreciação de Paulo Marcos Filla, na esperança de que, se espaço encontrar em nossa mídia já rarefeita, tenha ele a possibilidade de exercer, na competência, a rara atividade de crítico musical que conhece Música. Caso não encontre, haverá sempre a internet como atual força maior de divulgação. Mencionaria uma vez mais posição que sempre defendi, a de que minha ação nos tempos da Universidade foi a de formar o músico na acepção e jamais o tecladista em particular. Sem a apreensão humanística, o pianista, mesmo que extraordinário instrumentista, terá lacunas, por vezes, perenes. Pedi consentimento a Paulo Marcos Filla e transcrevo o e-mail completo:

Prezado Prof. Jose Eduardo, bom dia.

Estou-lhe escrevendo porque acredito não ter conseguido, pessoalmente, expressar toda a gratidão pelos momentos sensíveis e pela aula espetacular de interpretação e de vida proporcionados pelo senhor durante o recital de piano do dia 03/06/2011, no Auditório Cantidio de Moura Campos Filho, do Instituto Dante Pazzanese. As suas palavras iniciais  foram realmente marcantes, principalmente quando mencionada aquela fase de superação de um problema tão difícil. Naqueles poucos segundos em que o senhor nos explicou a respeito de os médicos terem-lhe dado de seis meses a um ano de vida, apesar de já haver lido sobre o fato nos blogs, confesso ter sido tomado por intensa emoção. De forma involuntária, naquele momento específico, além de presenciar o grande artista no palco dando as boas vindas ao seu público, diversas imagens passaram pela minha memória, acredito que tudo numa fração de segundo: todos aqueles presentes que o senhor nos deu quando da época uspiana: as aulas excelentes sobre literatura e interpretação pianísticas, todos aqueles CDs, os livros, a divulgação de um repertório de altíssima qualidade (tanto brasileiro quanto estrangeiro), mas em grande parte desconhecido, as palavras de respeito e de consideração por todos. Inclusive as aulas de piano que o senhor continua a me proporcionar. Mas, aonde quero chegar? Explico: um ser humano dessa envergadura com uma perspectiva de vida tão curta? Quanto benefício ter-se-ia perdido? Quanto conhecimento e experiência de vida não compartilhados?

A seguir, um breve relato da apresentação:

No que diz respeito à performance pianística, a Ballade, do compositor Claude Debussy, foi simplesmente cativante, tamanha a força de expressão e refinamento sonoro do intérprete. O piano Yamaha, com sonoridade geralmente um pouco metálica em relação ao Steinway de Hamburgo, por exemplo, nas mãos do mestre José Eduardo Martins emitia  graves profundos e generosos, médios e agudos brilhantes, mas sempre aveludados. Nas Danses – Sacrée et Profane, também de Debussy, com transcrição de Jacques Durand, evidenciou-se um procedimento que tanto me chama a atenção na performance de José Eduardo: o tratamento “microscópico” da pedalização. Quando do toque de uma única nota do baixo, o pedal direito era acionado com enorme controle, de maneira a fazer o abafador sair parcialmente das cordas. Esse tratamento diferenciado resultou em efeito timbrístico único, uma sonoridade reverberativa, salientando o caráter etéreo do compositor. Puro encantamento.

Na peça seguinte, Nuages Gris, de Franz Liszt, deparamo-nos com uma obra de caráter “despretensioso” em termos de virtuosidade técnica e arrebatamento emotivo. Bem diferente do que estamos acostumados ao apreciar Liszt. Em Nuages Gris, o compositor desbrava, de maneira muito pessoal e introspectiva, um caminho sonoro bastante cromático, com um sentido bem definido rumo ao atonalismo. E a interpretação do pianista José Eduardo foi capaz de expressar perfeitamente as intenções do compositor. Quase sem interrupção, o recital prosseguiu com as Duas Lendas (São Francisco de Assis falando aos pássaros; São Francisco de Paula caminhando sobre as ondas) e Funerais, todas essas obras também do compositor húngaro. Na primeira das Duas Lendas, de sonoridade bem “wagneriana”, o pianista tratou os agudos de maneira a expressarem o conteúdo descritivo  dessa peça, fazendo-nos rememorar os agudíssimos das obras mais introspectivas de Richard Strauss, sobretudo quando executadas pela Orquestra Filarmônica de Berlim, sob a regência de Herbert von Karajan. Na segunda das Duas Lendas, a generosidade virtuosística ondulante dos graves foi capaz de expressar a caudalosidade das águas e das ondas a embasarem o caminhar de São Francisco de Paula, cujo fervor foi aqui representado pela bela melodia na região central do teclado. Para encerrar a coletânea de obras de Liszt, Funerais. O toque igualmente generoso dos graves fazia ecoar sinos e ritmos marciais fúnebres e guerreiros por todo o auditório, embasando com firmeza as funções harmônicas características em Liszt nessa monumental obra onde o cromatismo é constante nas várias linhas da partitura. Durante a execução, uma força de expressão única do pianista fez ressoar, em nossa alma, o lirismo das belas melodias, nas baixas e altas intensidades. E, ao encerrar a obra, uma tremenda força de ânimo reproduziu uma poderosíssima avalanche oitavada dos graves, levando o publico a aplaudir de pé.

Na sequência, obras de Scriabin. A Valse op.38 foi substituída pelo Noturno para a mão esquerda. Nesse Noturno, verificamos a propriedade com a qual o pianista explorou a espacialização do teclado do Yamaha de 3/4 de cauda. Fechando os olhos, a sensação era a de que as duas mãos estavam sendo empregadas na execução dessa obra. Para encerrar, Vers la Flamme op.72. Nas palavras bastante oportunas do pianista, se Vers la Flamme tivesse sido composta hoje, ela seria considerada como uma bem sucedida obra modernista. Certamente uma das obras mais difíceis e emblemáticas da literatura pianística.

Aplaudido de pé durante vários minutos, José Eduardo Martins concedeu-nos, como bis, a interpretação de obras curtas (dois “atomics”) de compositor belga e o magnífico Estudo op. 42 n. 5 de Scriabin.

Recital com entrada franca e valor incomensurável.

Paulo Marcos Filla

After my recital at the Dante Pazzaneze concert hall last June 3, I received an e-mail from one of my former students at the university commenting on my performance. Leaving out the enthusiasm of a young student for his old teacher, I transcribe here his message in its entirety, for I believe he has a gift for the job and proves my point that classical music critics should possess musical knowledge – a quality seldom found  among those writing reviews and criticisms for the press nowadays.