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XVIº Concurso Internacional de Piano
Frédéric Chopin – Varsóvia

Frédéric Chopin por Eugène Delacroix. Óleo sobre madeira. 1838. Clique para ampliar.

Há almas que amam os sons.
Franz Liszt

Em vários posts teci considerações a respeito de concursos, sejam eles acadêmicos ou de piano. Se tantos obedecem a critérios de absoluta lisura, a não faltar o descompromisso de jurados com concorrentes, tantas mais vezes vícios se apresentam, e o público manifesta-se, apoiando ou não os resultados. O júri, não poucas vezes, ignora a possibilidade futura do concursado, interessando-lhe sim, hélas, em também não raras oportunidades, o imediatismo.
Meu prezado amigo António Menéres, de Matosinhos, em Portugal, enviou-me todo o precioso material referente ao XVIº Concurso Internacional Frédéric Chopin, realizado recentemente em Varsóvia. Os recursos tecnológicos existentes hoje não permitem desvios, e os ínfimos pormenores das execuções dos finalistas não passaram ao largo. São apreendidos para quem quiser ver e ouvir. As imagens sonoras vieram acompanhadas da recepção pública e crítica, e algumas não pouparam comentários sobre preferências que não privilegiavam a primeira colocada no concurso, a pianista russa, também excelente, Julianna Avdeeva, de 25 anos. Faz parte o debate de ideias e ele existiu, acaloradamente. Todavia, o fato de lá não estar impede-me de qualquer juízo relacionado às controvérsias.
Se os vários links me fizeram ouvir seis candidatos, a vencedora e dois outros que obtiveram, empatados (ex equo), o segundo lugar, e mais os terceiro, quarto e quinto colocados, há considerações que me parecem pertinentes, mercê da enorme diferença de temperamento dos concorrentes. Centrado em Frédéric Chopin (1810-1849), houve expectativa acima da habitual devido ao segundo centenário de nascimento do compositor. Julianna Avdeeva, Lukas Geniusas (Rússia/Lituânia-1990) e Ingolf Wunder (Áustria-1985) realizaram provas que apenas comprovariam o altíssimo nível desses candidatos. Entretanto, nada lembrou identidade. Das obras interpretadas, sim. Porém, as concepções diferenciadas dos três poderiam dirigir as preferências do público para várias direções.
Ouvir os três pianistas mencionados é ter a percepção clara de características rigorosamente distintas do entendimento da interpretação musical, da apreensão da estrutura, da forma e do gênero musical, assim como da captação de temperamentos diversos. Julianna Avdeeva mostrou que o trabalho intenso pode fluir na execução impecável, mas onde o esforço para a realização ficaria transparente através não apenas da postura ao piano, mas sobretudo na compreensão do técnico-pianístico tão bem realizado, mas a clarear ao ouvinte o imenso trabalho para que a consecução atingisse alto nível. Diria que a própria interiorização, ao se externar, faria perceber a labuta intensa. Minimiza a pianista ? Absolutamente não, pois a música flui impecável através de seus dedos, o que provoca ainda maior admiração.
Ingolf Wunder é apolíneo. Impetuoso, senhor de um domínio técnico-pianístico absoluto, no qual transparece o imenso prazer em tocar. Exagera nos efeitos, nos tempi, a causar forte impacto. O terceiro andamento do Concerto nº 1 em mi menor op. 11 demonstraria essa naturalidade e a alegria na interpretação. Tudo flui sem o mínimo esforço. Aos 25 anos, suas performances preferenciaram as obras de intensa virtuosidade. Saliente-se a execução fantástica, preferencialmente sob o aspecto técnico-pianístico, dos Estudos op. 10 nº 5 e op. 25 nº 6 (terças). Deste último, realiza a sorrir a dificuldade tipificada. Vladimir Horowitz (1903-1989), essa lenda maior do piano no século XX e possuidor de técnica e musicalidade descomunais, já asseveraria o implacável desafio contido nesse Estudo. Pois a interpretação do jovem austríaco tem esse apetite, que faz descartar os obstáculos inerentes que se lhe apresentam.
François Couperin (1668-1733) preferia voltar-se à interpretação que o sensibilizava, em detrimento daquela que lhe causava espanto”. O pianista da Rússia/Lituânia, Lukas Geniusas, foi o que mais me impressionou. Sem a exuberância que caracteriza Ingolf Wunder, mas possuidor de técnica apuradíssima, suas interpretações têm a chama integral da música. A maneira como cuida da frase musical, os sentidos profundos da agógica e da dinâmica, o equilíbrio com que sabe dosar as características rítmicas das magistrais e distintas três Mazurkas op. 59 em suas sutis flexões, são de um artista completo, sans reproche. Como entender a essência da Mazurka sem o mais apurado senso do rubato? Geniusas atinge esse pleno desiderato. Nas tantas obras apresentadas nas várias fases do concurso, as linhas que compõem a estrutura de uma obra ganham absoluta independência e… sequência, o que é básico. Têm elas intensidades diferenciadas na permanência, o que é raro entre os pianistas. Sua presença física se contrapõe à dos dois precedentes, pois, à maneira do notável Cláudio Arrau (1903-1991), nenhum gesto é feito no sentido de causar impacto, como no caso específico de Wunder. Ao escolher, entre os Estudos, o mais introspectivo deles, o op. 25 nº 7, já não estaria a demonstrar que causar impressão frente ao público não é sua senda? Magnífica sua performance. Sob outra égide, não atenderia sua interpretação dessa obra à visão romântica do insigne pianista Alfred Cortot (1877-1962): “Uma interpretação verdadeiramente musical dessas admiráveis páginas exige que, acima do lamento doloroso da mão esquerda, sob o peso das paixões e do desalento, como devorada por dramático e inconsolável amor, plane, distante, mas penetrante e perfeitamente distinta, a voz ferida, triste e tenra da mão direita”? Lukas Geniusas é um grande pianista, já aos 20 anos de idade. Deverá percorrer o mundo a encantar – não a deixar atônitas – as gerações que o ouvirão.
Foi-nos possível assistir as performances de três outros candidatos. O terceiro colocado, o russo Daniil Trifonov, de apenas 19 anos, é já um mestre em tratar a frase musical. Rara musicalidade. A sua interpretação do Estudo das Terças já mencionado, diametralmente oposta à de Ingolf Wunder, não deixa de ser extraordinária. Prefiro-a. Fá-lo mais interiorizado, a conservar uma dinâmica mais voltada às menores intensidades, realizando com sensível expressividade os desenhos da mão esquerda, tantas vezes minimizados pelos intérpretes que visitam esse complexo Estudo, mas que visam unicamente ao impacto que o desfilar das terças produz junto ao público. Quanto ao quarto colocado, o búlgaro Eugeni Bozhanov, suas interpretações têm muita criatividade. Sabe dosar muitíssimo bem o discurso musical, sobretudo quando direcionado às baixas intensidades. Belas execuções. Tem 26 anos. O quinto colocado, o francês François Dumont, apesar de boa performance, pareceu-me mais contido. Como dois outros laureados, está com 25 anos.
A história da interpretação pianística segue sua trajetória. É possível verificar uma maior proximidade no quesito aperfeiçoamento técnico-pianístico entre os vários candidatos. Assim como no esporte, onde recordes são batidos, por vezes para causar impacto, os jovens concorrentes buscam ultrapassar barreiras. Faz parte da juventude. É salutar, desde que não se torne princípio incorporado. A música tem que fluir. E fluiu excelentemente entre os seis pianistas aqui mencionados. Algo, contudo, levou-me à reflexão. Um fundamento, que era básico nas escolas européias em meados do século passado, tem sido praticamente “descartado” pelas gerações atuais: a técnica da substituição dos dedos – questão de dedilhado -, tão imperativa, mormente nos andamentos lentos. Graças às câmaras que tudo focalizam, verifica-se que esses jovens tantas vezes desprezaram o emprego da substituição, realizando “ligações diretas”, seja na repetição de um mesmo dedo sobre a mesma tecla, ou, em frase expressiva, empregando o mesmo dedo em notas diferentes sequenciais. Compensaram bem essa “ausência” de um recurso da tradição através de discreta pedalização. Apenas uma constatação, mas questão fulcral que percorreu do romantismo até, pelo visto, bem recentemente. Inúmeros tratados sobre técnica pianística escritos por eminentes mestres pormenorizaram o processo que se direciona fundamentalmente ao denominado legato.
Quanto ao júri, ou num sentido mais amplo, júris, será que décadas se somarão a outras e bancas examinadoras continuarão a ter prioritariamente as mesmas figuras? Mesmo que relevantes, há quantidade bem grande de também ótimos músicos que circulam habitualmente pelos centros mais festejados do planeta. Qual a razão de serem chamados, não apenas em Varsóvia, mas em outros lugares do mundo e, bem particularmente, neste imenso Brasil, basicamente os mesmos examinadores? Se essa juventude particularizada em Varsóvia dá mostras de enorme renovação, qual a razão de novos ventos não atingirem os organizadores? Banca vivificada seria exemplo de tendências menos repetitivas que podem conter, no âmago, conceitos sedimentados ou estranhos. Não valeria a pena a tentativa? A Música agradeceria, e muito.

Listening online to the winners of the 16th Chopin International Competition held in Warsaw in 2010 led me to reflections on the winner’s extraordinary performances and on the jurors’ responsibility. In my view, the jury of piano competitions throughout the world ― though outstanding pianists and musicians ― is a closed club, so that the same people control the circuit. Music would benefit from the introduction of new faces to bring fresh air and vigor to such contests.

A Morte e o Retorno às Mãos do Senhor

Almeida Prado (1943-2010). Clique para ampliar.

“Levantando de novo os olhos,
olhei e vi quatro carros que saíam dentre duas Montanhas:
estas eram montanhas de bronze”.

Zacarias 6,1
(Versículo inserido na Profecia em forma de Estudo nº 1 de Almeida Prado)

A salvaguarda do homem frente à existência é não saber o instante do acontecido, a inexorabilidade da visita da morte. O momento chega para todos e a maneira como nos preparamos durante a vida será determinante para a nossa partida. Se houve serenidade, se o homem pregou o bem e espalhou generosidade, todos os que o cercam, mormente os familiares, captarão essa transferência vida-morte com a naturalidade possível. Deslizes não terão importância, pois o que ficará na memória e no coração será aquilo que o ente que partiu deixou semeado através de seu amor e exemplos. Se, entre outras virtudes, ele transcendeu na Arte, sua obra poderá tornar-se imorredoura.
Na noite de 10 de Novembro último, uma quarta-feira, comunicava a Almeida Prado, um de nossos maiores compositores, que brevemente receberíamos as passagens aéreas para uma viagem a Paris, onde nós ambos faríamos parte do júri encarregado de julgar duas teses de doutorado na Universidade Sorbonne. Uma das teses aborda sua música religiosa para piano. Conversamos longamente por telefone e era notória a enorme felicidade do amigo ao ter sua criação reconhecida numa tão respeitada Universidade. Confessou-me que sentia ser um dos grandes momentos de sua trajetória musical.
No dia seguinte, mercê dos efeitos da diabetes adiantada e de complicações outras, o compositor é hospitalizado, sofre parada cardiorrespiratória prolongada e permaneceria em coma induzido até a manhã do dia 21, quando a morte veio visitá-lo, e essa figura humana transcendente nos deixou.
José Antônio Rezende de Almeida Prado nasceu em Santos e teve no Brasil três professores fundamentais: Dinorah de Carvalho – piano, Osvaldo Lacerda – harmonia e Camargo Guarnieri – composição. Se as bases pianísticas foram sólidas, as composicionais, sob a tutela de Guarnieri, ficariam indeléveis. Contudo, no convívio frequente com seu conterrâneo Gilberto Mendes (1922- ), uma das glórias de nossa música, o então jovem José Antônio entendeu que deveria buscar novos caminhos. Paris em longo aprofundamento e a passagem por Darmstadt surgiram naturalmente dessas conversas em Santos, terra natal de nossos dois grandes compositores. Esse debruçar maior em França deu-se sob a orientação de Nadia Boulanger e de Oliver Messiaem, dois ícones na música no século XX. Em Darmstadt soube apreender conteúdos de György Ligeti e Lukas Foss. Seria todavia Messiaen o compositor que mais fortemente marcaria a escrita de Almeida Prado, assim como acentuaria no músico santista o olhar místico, pois parte considerável da obra de nosso pranteado autor tem forte conotação religiosa. A inclinação ao sagrado está traduzida nos vários gêneros musicais, orquestra e câmara. Seria entretanto nas criações para coro e sobretudo na vasta produção para piano – seu instrumento eleito – que Almeida Prado revelaria por inteiro esse olhar místico, que perduraria durante décadas até os dias finais.
Como professor, Almeida Prado atuou junto ao Conservatório Municipal de Cubatão e principalmente na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Suas aulas acadêmicas eram concorridas, mormente pela ampla visão cultural que emanava de seus ensinamentos. Aposentado-se em 2000, continuou a ministrar cursos de estética musical, quando, com extrema maestria, comentava grandes criações do passado, exemplificando-as ao piano.
A produção de Almeida Prado é bem extensa a chegar a centenas de criações. Suas obras têm frequentado salas de concerto do Brasil e do Exterior, o que o deixava mais estimulado a produzir. Era membro efetivo da Academia Brasileira de Música, a convite do insigne compositor Francisco Mignone (1897-1986), como me confessaria na última conversa telefônica que mantivemos horas antes de sua hospitalização.
Tratando-se de uma singela homenagem a esse grande músico, que permanecerá pela qualidade, não me poderia furtar de revelar ao prezado leitor a interação plena entre o compositor (maratonista a correr uma prova sem fim) e o executante (atleta apto às corridas de estafetas). O intérprete, ao morrer, terá seu sucedâneo imediato. Contudo, um amálgama pode realizar-se quando compositor e executante interagem, este a propor ideias ou simples sugestões, aquele acatando-as ou metamorfoseando-as à sa manière. A integração absoluta tem resultado em criações extraordinárias por parte dos compositores e, discretamente, o intérprete recebe a decorrência de expressivas e brilhantes inteligências, a ter como consequência, tantas vezes, o maravilhamento. Assim foi com Almeida Prado. Entre 1987-1999 desceram da mente privilegiada do compositor para o papel pautado obras contundentes, pianísticas, sensíveis, totalizantes. O estímulo que discretamente buscava transmitir a Almeida Prado, para que compusesse determinadas(s) obra(s) para efeméride ou apresentação especial, jamais deixou de ter guarida por parte do amigo. Todas as suas criações, a partir desse desiderato, apresentei em primeira audição no Brasil ou no Exterior. Ao todo 12 obras, que enriquecem o repertório pianístico brasileiro e que foram a mim dedicadas. Motivo de intensa alegria.

Aquarela, pagina de rosto de Linha Melódica de Almeida Prado. Clique para ampliar.

Quando do centenário de nascimento de Heitor Villa-Lobos, coordenei caderno publicado pela Universidade de São Paulo. Das 10 composições de músicos convidados do Brasil e do Exterior, Noturnas Saudades do Rio Solimões (04/06/87) evoca, sob outra égide, o Chôro nº 5 – Alma Brasileira, do homenageado. Gravei-a em 1996 em Sófia, fazendo parte do CD Music of Tribute – Villa Lobos, lançado pelo selo Labor (U.S.A.) em 2001. Obras de Villa-Lobos e outras homenagens constantes da coletânea figuram no CD em apreço.

Primeira página de Homenagem a Camargo Guarnieri de Almeida Prado. Clique para ampliar.

Para o caderno em Homenagem a Camargo Guarnieri, igualmente publicado pela USP, Almeida Prado compõe interessante obra (06-10/10/87), a empregar, através da notação anglo-germânica, tema em que cada nota corresponderia a determinada letra dos nomes Camargo Guarnieri (C-dó, a a-lá lá, g g-sol sol, a-lá, e-mi). Para recitais que daria na antiga Alemanha Oriental, Potsdam e Berlim em Maio-Junho de 1989, meses antes da queda do muro, Almeida Prado comporia, entre 23 de Setembro e 10 de Outubro de 1988, as magníficas Três Profecias em Forma de Estudo, verdadeiras obras-primas. Gravei-as na Bélgica em 2004 e fazem parte do CD Estudos Brasileiros lançados pela Academia Brasileira de Música em 2007.

Clique para ouvir, com J.E.M. ao piano, a 1a Profecia em forma de Estudo (1988) de Almeida Prado

Integrando o livro de Prelúdios, José Antônio dedicou-me o Prelúdio nº 5 em ré menor (12/07/89), tendo na página de rosto do manuscrito uma bela aquarela do compositor. Sabedor do intrigante Estudo Eisler e Webern caminham nos mares do Sul, de Gilberto Mendes, constituído de uma linha melódica apenas, por vezes preenchida por um acorde, Almeida Prado compõe a singela Linha Melódica um Desenho Sonoro (23/04/91), a ter igualmente expressiva aquarela na página de rosto. Em 1995, Almeida Prado honrar-me-ia com os pungentes Quatro Corais para Piano sob versículos da Bíblia: 1º “Aquele que me viu, viu também o Pai” (13/04/95); 2º “Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino !” (05/04/96); “Coral de Glória a Santo Adão e Santa Eva entrando no Paraíso, levados por Jesus, o Cristo Redentor” (06/04/96); “Coral das Santas Mulheres: Santa Maria, Mãe de Jesus-Deus, Santa Maria de Cléofas, Santa Joana, Santa Maria Madalena, Santa Marta, Santa Susana, Santa Salomé, Testemunhas felizes da Ressurreição do Senhor Jesus !” (07/04/96). Tanto a Linha Melódica, como os Quatro Corais, apresentei-os em primeira audição na cidade de Gent, na Flandres. Conversara com Almeida Prado sobre minha gravação da integral dos Estudos de Scriabine para piano, que se realizaria em 2000 na Bélgica para o selo De Rode Pomp. Admirador confesso do extraordinário compositor russo, Almeida Prado compõe o intrigante estudo À la Manière de Alexander Scriabine – Étude de Couleurs en Forme de Pathwork pour le Piano (03/11/99) de 16 páginas ! Em longa carta, Almeida Prado explica a construção do excepcional Estudo, para o qual empregaria seleção de motivos existentes nos Estudos de Scriabine. Finalmente, em duas páginas suplementares, inseriu a Sequência de acordes usados nos desenhos rítmicos, sempre a pensar nos acordes seletivos de Alexander Scriabine. Apresentei-o no recital em que interpretei a integral dos Estudos de Scriabine em Gent, logo após a gravação da monumental obra do compositor russo em Mullem.
Nessa série de magníficas obras mencionadas de Almeida Prado, frisaria as Três Sonatas Barrocas – Scarlattiphonia, Triptico para piano à la Manière de Domenico Scarlatti (12-17/01/07), dedicadas à minha mulher, pianista Regina Normanha Martins. Almeida Prado era confesso admirador de suas interpretações do grande gênio napolitano.
José Antônio de Almeida Prado foi um ser privilegiado. Granjeou a admiração e a amizade de todos os que o conheceram. Estava sempre disposto a discorrer sobre música, pois tinha conceitos bem definidos, sem ser, contudo, intolerante. Se temas extra-musicais surgiam, José Antônio era aquilo que popularmente se entende como o “bom papo”, pois sabia encantar quem dele estava próximo com histórias por vezes hilariantes. Sua facilidade para improvisar ao piano em vários estilos tornou-se conhecida e admirada. Um grande compositor que nos deixa, e também uma enorme figura humana. Certamente está nos braços do Senhor !

Almeida Prado (1943-2010) was one of the greatest Brazilian composers of the 20th century. He died on 21 November in São Paulo, just two months before our trip together to Paris to take part in the jury of two theses defense at the Sorbonne. One of the thesis is about his religious music for piano. Almeida Prado wrote orchestral, choral and solo instrumental music and this legacy will live on forever. He has dedicated 12 of his piano pieces to me, and I premiered them all in Brazil and abroad. With his death, we all lost a great composer, an extraordinary human being and I lost a very dear friend. He will be missed.

Travessia, Sereias e Amarras

Crayon de Carlos Oswald (1882-1971). Clique para ampliar.

A vida é como uma vela
que vai ardendo,
quando chega ao fim
lança uma chama
mais forte antes de
se extinguir.

José Saramago

Muito me reprovo e o aprovo tanto
quanto outrora aprovei o que hoje me reprovo.

Agostinho da Silva

A cerimônia que marcou minha admissão como acadêmico honorário na Academia Brasileira de Música, no Rio de Janeiro, teve sensível saudação ao ingressante nessa categoria especial nos quadros da ABM proferida pelo ilustre acadêmico efetivo e notável compositor Ricardo Tacuchian. Seu texto me emocionou muito ao considerar a Arte como sendo uma metáfora da Vida. O tempo nos torna mais sensíveis e a comoção advém como inevitável.
Sinto-me impedido de transcrever o texto na íntegra, não pela qualidade impecável do escrito, mas por não me pensar merecedor. Ao lê-lo, Tacuchian mencionou uma frase que me levaria às reflexões. Não as externei em minha imediata palestra, pela simples razão de que elucubrações já estavam a se formar em minha mente.
A certa altura do texto, Tacuchian comenta: “José Eduardo Martins abriu mão dos holofotes dos repertórios standard para a luz de vela da música brasileira. E quanta luz ele nos revelou com sua corajosa opção !” Desde os anos 1980 tenho-me referido aos holofotes como um dos maiores males para o auto-aprimoramento. Os holofotes inebriam tantas vezes aquele que se submete à sua intensidade. Tratar-se-ia de um processo de submissão. Diria que metaforicamente, têm eles a força de sedução das Sereias, essas figuras marinhas de alta periculosidade e perdidas no tempo. Contra os holofotes deve-se, porém, tomar as precauções outrora asseguradas por Ulisses na Odisséia de Homero, que, aconselhado pela feiticeira Circe, faz-se amarrar ao mastro de seu barco e atravessa o mar povoado pelas Sereias, sem deixar, contudo, de ouvir o canto sedutor. Não cede ao encantamento, mas desfruta o prazer de ouvir. Para o intérprete, esse posicionamento poderia representar a autorepressão: amarrar-se para não sofrer a sedução. Todavia, Ulisses não deixou de ouvir as melodias do encantamento. Seria uma questão de vontade para que um outro tipo de sedução nessa metáfora não conduzisse o intérprete a uma “morte” das intenções. Os holofotes existem, não se pode evitar. Ulisses ouviu o mavioso canto, diferentemente dos remadores do barco que tiveram ou ouvidos tampados com cera para não se jogarem ao mar, seduzidos. Fugir dos holofotes seria escapar da realidade. Submeter-se à sedução constituiria o perigo. Ponderaria, o amarrar-se unicamente visando a essência essencial da música, e não à virtuosidade pela virtuosidade, poderá evitar o entorpecimento mental. E o amarrar com os ouvidos atentos faria o músico realizar a travessia sem traumas, mas enriquecido. Ficariam ao largo, bem distante do barco, a vaidade – uma doença, segundo Saint-Exupéry -, a mesmice repertorial ad aeternum, o gestual acrobático para a platéia e, como tentáculo voraz, a composição entendida como inferior ao ato da execução. O intérprete a vencer as águas povoadas pelas mortíferas Sereias.
Sob outra égide, os holofotes têm ímpar idiossincrasia pelo inusitado. Procuram mesmo desviar o seu foco. São antagônicos. O Sistema abomina o repertório pouco frequentado. Seria este, para o status quo, o anátema de suas pretensões constituídas de agentes, mídia, público conduzido e, a finalizar, o lucro como desiderato maior. Holofote é sinônimo de concessão. Palavras irmanadas que ad nauseam provocam a repetição repertorial como fator único de sobrevivência do Sistema.
A vela tem infindáveis interpretações desde a antiguidade. Chama que mantém a vida e que, pouco a pouco, ao se extinguir, leva à morte; agrupadas, estimulam a devoção coletiva; contempladas, conduziram a pena de compositores, poetas, escritores, teólogos, pensadores…; acesas na união dos amantes, alimentaram a flama da paixão; oscilando nos berços, despertaram a esperança. A aparência de fragilidade da tênue iluminação foi responsável pelo caminhar pensante das civilizações. A luz de uma vela tem como sinônimos meditação, concentração, humildade. Não se coaduna com a superficialidade ou com o desamor. Pressupõe, em suas oscilações motivadas por mínima respiração, a possibilidade da serenidade que virá a seguir, quando a chama retornar ao impassível. A luz de uma vela tem propriedades que sempre entendi surdamente musicais. A chama dança, transfigura-se em suas contorções; enriquece o prisma das cores ao modificar, como em um caleidoscópio, as suas intenções de luz; dimensiona os contrastes da sombra; proporciona-nos a metáfora da dinâmica sem som, pois suas intensidades variam sempre.
Estava ainda a refletir sobre esse binômio antagônico quando encontro meu dileto amigo e colega uspiano Gildo Magalhães, Professor Associado da FFLCH da Universidade de São Paulo e um dos mais requisitados mestres da Academia para participações em congressos e colóquios no Exterior. Retornara de Genebra há dias, onde esteve a coordenar grupo reunindo dezenas de representantes de vários países, que lá estavam a tratar propostas para minimizar dificuldades na vida de deficientes físicos. Mente tranquila, mas ágil e brilhante. Fomos tomar um curto. Cientista, sabe apreender conteúdos técnicos. Disse-lhe que estava a pensar sobre a dialética holofote-vela. Fiquei surpreso. Gildo começou a expor o multum in minimo que a chama de uma vela contém. Disse-lhe que anotaria suas precisões na matéria. Sorriu e continuou: “… a chama da vela transforma o ar em plasma, no qual os elementos constituintes se separam. Isto provoca a dinâmica da forma, das cores e do próprio brilho. O plasma é o quarto estado da matéria, além dos sólidos, líquidos e gases. Só há esse fenômeno visível a olho nu no Sol, pois ele tem toda a dinâmica – manchas solares, protuberâncias representadas pelas explosões. O Sol com o fenômeno da larga irradiação é responsável pelas perturbações na ionosfera terrestre.” Entusiasmava-me o relato espontâneo de Gildo, que continua: “A vela quando queima é também um microscópico Sol, com propriedades tão interessantes que levaram o inglês Michael Faraday (1791-1867) a escrever um dos maiores clássicos da história da ciência, ‘A história química de uma vela’, sem conhecer ainda a teoria moderna do plasma”. Nossa conversa se prolongou e, ao despedir-me do amigo, senti-me enriquecido.
Ricardo Tacuchian proporcionou-me encontrar uma chave que leva ao enigma pessoal. Vela. Enquanto a chama estiver acesa, continuarei a buscar o inusitado e a difundi-lo, repetindo-o nessa tentativa de mostrar a qualidade de autores que permanecem injustamente pouco frequentados, do passado e do presente. A própria vela está a queimar há muitas décadas. Sua chama ainda tem intensidade.
Jean Christophe, músico e personagem central da saga que marcaria gerações de leitores através desse romance notável de Romain Rolland, já a morrer diria sobre a música: “Eu nunca te traí, você jamais me traiu, nós estamos seguros um do outro. Partiremos juntos, minha amiga. Fique comigo, até o fim !” A minha senda continuará a ser trilhada. A musa permanece ao meu lado, pois a chama ainda ilumina. Que assim seja até o fim !

The speech made by the composer Ricardo Tacuchian at the cerimony of my nomination as an honorary member of the Brazilian Academy of Music led me to reflections upon the differences between the spotlight and the candle light and other thoughts.