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Divagações sobre Arte

Mário Zanini. Vagão de segunda classe. Óleo sobre tela, 1969, coleção particular.

A mais linda flor
permanece oculta.

Adágio vietnamita

Peguei o ônibus para ir ao centro da cidade, o meio mais rápido neste trânsito complexo. Há os corredores, que raramente travam. Fora dos horários de pico encontram-se sempre lugares. A terceira idade ainda tem seus poucos privilégios, e os motoristas geralmente são amáveis para com idosos. Peço licença e sento-me ao lado de um cidadão a beirar os 40 anos. Começo a ler. “Professor, o senhor não se lembra de mim?”, indagou-me. Olhei-o e o reconheci. Após mútuas saudações e real prazer nesse reencontro, perguntei-lhe a respeito de seus caminhos após se formar. Estudara comigo durante a graduação na Universidade, no primeiro lustro de 80. Continuou seus estudos musicais na Europa durante muitos anos. Voltava de aulas que ministra junto a uma escola de música, não distante de minha casa. Há tempos gostaria de conversar com seu antigo mestre a respeito de repertório pianístico, pois é professor de piano e de matérias teóricas. Culto, contou-me a respeito de suas últimas leituras, assim como de partituras que gostaria de conhecer, distantes daquele repertório super frequentado. Lembrava-se ainda de minha insistência na busca de obras pouco conhecidas, mas importantes. Marcamos um encontro que se dará oportunamente, ocasião em que mostrarei composições a meu ver fundamentais e raramente visitadas por nossos intérpretes. Foram muitos os posts em que insisti nessa necessidade de redescobrir autores. Portanto, pouparei o leitor nesse quesito.
Contudo, a nossa conversa enveredou para o caminho da obra ignota do grande público, seja ela de qualquer ordem. Comentei que nos últimos meses recebera e-mails contendo anexos que exibiam belas fotos de quadros de pintores da Rússia Imperial, do romantismo europeu como um todo e de escultores franceses do século XVIII. Fiquei realmente impressionado pela singular qualidade desses artistas absolutamente dotados, mas desconhecidos do cidadão que aprecia tradicional e socialmente as artes. E-mails que me fizeram pensar nessa absurda situação que faz proliferar apenas o conhecido ou hiperconhecido, ou seja, na essência, a redundar no empobrecimento cultural. Frisei ao ex-aluno que a arte que nos é dada conhecer assemelha-se a um leque apenas entreaberto. Sequer imaginamos toda a beleza, estivesse ele a apresentar a pintura integral. Nesses exemplos incluiria a qualidade precisa de tantos compositores belgas entre os séculos XIX e XX, a riquíssima música portuguesa desde o barroco, a culminar, como excelência, nesse grande Fernando Lopes-Graça (1906-1994) – a meu ver, um dos maiores compositores do planeta no transcorrer do século XX, infelizmente ainda não divulgado à altura de sua genialidade, apesar de esforços particularizados em Portugal. À sua obra valiosa tenho-me dedicado ultimamente. Quatro de suas extraordinárias criações deverei gravar em Maio na Bélgica, perfazendo dois CDs. E quantas mais preciosidades artísticas não há submersas por toda parte pelo esclerosamento de um Sistema ! Quantos artistas de todas as áreas permanecem sepultos ! Raras exumações acontecem: “E tudo isto a morte / Risca por não estar certo / No caderno da sorte / Que Deus deixou aberto”, como reza Fernando Pessoa.
Perguntou-me se a mesmice tinha origem precisa. Disse-lhe que marchands, empresários, editores, mídia e público, acostumados a ver, ouvir e ler o que tem circulação e o conhecido, fazem parte de um todo responsável pela situação. Comentei que sub-repticiamente autores respeitados, ao citarem exemplos nas artes, mencionam o óbvio, e a quantidade de textos sobre pintura abordando determinadas obras nos deixaria pasmos. Estariam eles cônscios desse posicionamento? Não atenderia a menção ao superdivulgado à necessidade da inteligibilidade frente ao leitor acostumado ao conhecido e perenemente repetido?
Ao sentar-me, iria continuar a leitura de A origem da obra de arte, um dos seis ensaios constantes da obra Holzweg do pensador alemão Martin Heidegger (1889-1976), na tradução francesa (Chemins qui ne mènent nulle part, France, Gallimard, 1980). Em determinado segmento, Heidegger recorrerá a uma tela de Vincent Van Gogh (1853-1890) a fim de, através de velhos sapatos de um camponês, explicar seu pensamento sobre o ser-produto do produto, passando pela sua utilidade e solidez, e chegar à transcendência a partir do desgastado par de sapatos do lavrador “Através desses sapatos passa o apelo silencioso da terra… a muda inquietude pela segurança do pão, a alegria silenciosa de sobreviver novamente à necessidade, a agonia do nascimento iminente, o arrepio sob a morte que ameaça”. Se não houver o símbolo por todos conhecido, a imaginação do leitor poderia não saber se fixar. Todavia, se outro par estivesse em hipotética obra igualmente importante, mas de pintor que, por motivos os mais díspares não teve divulgação, como passar ao leitor a carga necessária? Numa outra direção, quantos estudos, teses, artigos já não foram feitos para explicar, como exemplo entre tantos, o célebre quadro O Casal Arnolfini do pintor flamengo Jan van Eych (1390-1441)? O quadro é uma obra-prima insofismável. Contudo, qual a razão dos pesquisadores em arte fixarem-se tanto no Casal Arnolfini, analisado e dissecado de todas as maneiras ainda possíveis? “Professor, o trânsito emperrou, mas de um lado é bom conversarmos”, interrompeu-me. Continuei, pois, as divagações. Quantas extraordinárias criações de pintores do período jamais mereceram uma linha de um estudioso. Milhares de milhares de turistas ao adentrarem o Louvre correm – esse é o termo – para ver a Mona Lisa, ou La Gioconda, de Leonardo da Vinci.
Primeiramente haveria a necessidade de se partir de pesquisa virgem, o que requisitará a busca às fontes primárias e à bibliografia mais complexa. Sob aspecto outro, pelo fato da falta de comparação, a mídia silencia, pois seus modelos são basicamente os mesmos desde sempre, e marchands, agentes de programação musical ou editores, em grande maioria, preferem que assim continue. Mortos propalados efusivamente têm público cativo. Observe as programações de nossas sociedades musicais. Ad nauseam os mesmos concertos para piano e orquestra ou violino e orquestra são executados anualmente em todas as temporadas pelo país. Extraordinários? Sim. Únicos, realmente não. Num aprofundamento, não acredita você que se o público leigo soubesse que há quantidade extraordinária de concertos outros escritos também por grandes compositores, basicamente ignotos, não poderia sentir-se desapreciado, autêntico capititis diminutio de sua possibilidade de aferição? Se assim não entender, pois ele representa o elo final receptivo, nada a fazer, pois a atitude de renovação não virá nem dos agentes, tampouco dos músicos envolvidos. Sob outra égide, o público é sempre conduzido, pois não será ele a procurar o inusitado. Se a globalização tendeu para a ampliação – não entremos no quesito qualidade -, e o conhecimento se colocou à disposição de todos e de maneira veloz, paradoxalmente os mesmos arquétipos são venerados em todas as artes. Mas estes são relativamente poucos se comparados à quantidade qualitativa mantida em baús. Não creio que possa haver um ressurgimento de todos os bons autores. É impossível e, se parcela destes renascesse dos arquivos, o cidadão comum poderia desnortear-se pelo aumento excessivo da comparação. Música, literatura e outras artes sofrem o mesmo e, homeopaticamente, como que por uma quase benevolência do Sistema, um desconhecido já sepultado há muito ou pouco tempo tem exumada sua obra. Quando isto acontece, os pais da redescoberta são momentaneamente glorificados, e a mídia e os interessados se precipitam e ao tecerem elogios rasgados, sentem-se prepotentemente mais cultos. O esnobismo é uma das categorias do verniz cultural. Retirada a camada, pouco sobra. Essa é a realidade que o homem enfrenta desde séculos. E tudo indica que assim continuará.
Meu ex-aluno, hoje profissional que demonstra amar a música, reagiu bem. No íntimo, pensa aproximadamente a mesma coisa, mas como me afirmou, falta-lhe a coragem para mudar as mentalidades voltadas a um aprendizado super tradicional. A esperança veio pouco antes de chegar ao seu destino, duas ou três paradas a anteceder o centro. “Professor, passarei em sua casa” disse-me ele. “Gostaria de uma lista dessas obras que o senhor considera essenciais, mas pouco divulgadas”. Aquiesci com alegria, pois sempre acreditei nessa imensidão criativa que teimosamente o Sistema não revela. Ele desceu e segui até o ponto final a pensar que ainda poderemos fazer algo a favor do inusitado. Deixarão? O tempo dirá.

Gestual Econômico a Valorizar Texto-Música

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Carlos do Carmo na Casa de Portugal de São Paulo. Foto JEM. Clique para ampliar.

Sou trova da madrugada,
Poema do Sol desperto
Numa guitarra trinada.
E o jeito seguro e certo
Que foi raiz encontrada:
Memória de mim tão perto.

João Manuel Mendes (Fado dos meus Fados)

Reiteradas vezes comentei a respeito do gesto e de seu impacto. Quando entrevistado por Joseph Horowitz, o grande pianista Claudio Arrau (1903-1991) abordaria o tema. Aos cinquenta e tais anos percebeu que seus gestos ao tocar em público eram excessivos. Refletiu muito e chegou à conclusão de que haveria a necessidade de diminuí-los sensivelmente. Para o insigne pianista estava em causa a própria música. Arrau doravante transmitiria apenas a essência sonora e o gestual tornou-se econômico. Suas interpretações ganhariam, a partir de determinada idade, a aura da inefabilidade.
Haveria duas básicas categorias de intérpretes frente ao gesto e, nessas, nuances quanto à flexibilização dos movimentos corporais como um todo. A ausência do gesto supérfluo pode levar à síntese da exteriorização, a estar o processo inteiramente voltado à carga integral que emana da mensagem musical. Sob outra égide, movimentos excessivos, quando voluntários, estariam a evidenciar a atração nítida do intérprete pelo palco no intuito de obter o delírio da platéia. E a música em sua essência, onde realmente ela se situa, neste último caso?
Convidado pelo distinto amigo António Júlio Machado Rodrigues, dinâmico Presidente da Casa de Portugal, minha mulher e eu assistimos, após a belíssima ceia de Natal na tradicional sede da comunidade lusíada, a uma extraordinária apresentação de Carlos do Carmo, o nome mais representativo do fado desde a morte da inesquecível Amália Rodrigues. Louve-se a sensibilidade do Presidente da Casa ao trazer a São Paulo, mais uma vez, o extraordinário artista. O recital do fadista, que se fez acompanhar por excelentes guitarristas, deu-se logo após a música circunstancial e descartável que tivemos de ouvir, quando um conjunto “musical” entendeu que o limite auditivo tinha de ser transposto, e os decibéis estratosféricos fizeram-me recorrer a tampões nos ouvidos. Infelizmente, essa prática “sonora” invadiu quase todas apresentações em festas, casamentos, formaturas…
Ao adentrar o palco, Carlos do Carmo dirigiu-se ao público e calmamente pediu silêncio absoluto durante sua apresentação. Foi atendido e, somente após cada fado, portugueses e descendentes aclamavam o cantor. Conhecia-o através de vários CDs que conservo com carinho, mercê de meu afeto pelo gênero fado, mormente cantado com qualidade ímpar. Carlos do Carmo emociona cidadãos de todas as classes e músicos eruditos submetem-se ao seu fascínio. O musicólogo Rui Vieira Nery já me havia, bem anteriormente, mencionado as qualidades excepcionais do artista, presenteando-me com CDs do cantor. Em seu excelente livro sobre o fado (vide Para uma História do Fado – Origens e Trajetória, 23/02/08), Vieira Nery escreve: “Será, depois de Amália, o primeiro fadista a assumir de forma inequívoca uma vontade de passagem do Fado do recinto ‘típico’ exclusivo para os espaços de difusão ocupados pelos demais gêneros da canção urbana”. Por sua vez, o compositor António Victorino D’Almeida, em entrevistas a Paulo Sérgio dos Santos, insiste sobre suas virtudes inalienáveis, comparáveis aos nomes referenciais do canto. Seus comentários dão a dimensão do grande fadista: “E cito-lhe desde a Maria Callas, ao Frank Sinatra, ao Carlos do Carmo… São vozes incríveis. O Placido Domingo, o [José] Carreras, a Amália Rodrigues, a Edith Piaf… Coisas assim… Mas a Edith Piaf não era tanto a voz, a Edith Piaf estava sempre um pouco desafinada. Ao Sinatra compreendo que lhe chamassem ‘The Voice’. O Carlos do Carmo é outra voz assim, não é? E dentro duma certa forma de cantar, com a voz não preparada, são das maiores vozes que alguma vez ouvi” (António Victorino D’Almeida conta 50 anos na Música a Paulo Sérgio dos Santos. Portugal, Quimera, 2005, 340 pgs.). Acrescentaria, entre cantores da música popular, Bing Crosby, Nat King Cole, Charles Aznavour, Tony Bennett e Elis Regina.

Carlos do Carmo na Casa de Portugal de São Paulo. Foto JEM. Clique para ampliar.

Ainda não tinha visto Carlos do Carmo em cena. Vários impactos se produziram.
Primeiramente, a escolha do repertório. Impecável. Fados primorosos, muitos deles com textos de grandes poetas portugueses e alguns de autores brasileiros. Uma garantia. Em outra percepção, musical preferencialmente, observa-se no tratamento da composição um esmero absoluto. Nada é supérfluo e a frase musical e o texto, num perfeito amálgama, associam-se irremediavelmente. Carlos do Carmo, nesse trato da melodia, consegue transmitir a respiração texto-música e tantas vezes recorre a suspensões – momentos inefáveis em que apenas as ressonâncias são “subjetivamente” entendidas. Essas pausas ou silêncios vêm sempre precedidas da preparação adequada e da sequência que faz entender métrica, sentido do texto e a frase musical em sua elasticidade agógica. Diria que, em termos musicais, tem Carlos do Carmo o sentido pleno daquilo que na música é denominado rubato, liberdade que se dá ao movimento de uma frase, sem contudo perder-se a essência do ritmo. Sob aspecto outro, possui o artista o domínio das gradações sonoras, e finais de fados arrebatadores têm a precedê-los a ascensão calculada, bem cuidada, de um mestre. À medida que me encantava com a bela récita do fadista, observei que a palavra distração – possível em apresentação de mais de uma hora ininterrupta – não teria nenhum sentido, mercê da força da transmissão. O público irmanou-se e, a pedido do cantor, quase que em sua totalidade acompanhou-o no refrão de Lisboa, menina e moça.
Nos intervalos entre os fados, comentava com meu dileto amigo Vital Vieira Curto a respeito daquilo que é essencial. Quem realmente é não necessita de artifícios. O gestual tão comum e exagerado em tantos cantores populares, que não poucas vezes se utilizam de vestimentas extravagantes, dá lugar à sobriedade, à economia dos gestos, à elegância no trajar. Diria que a atitude de artistas que entendem a mensagem musical como prioridade reflete o mais absoluto respeito ao público. Carlos do Carmo apresenta-se com gestual parcimonioso. Por vezes, as mãos indicam intenções relativas à tradução texto-música, outras vezes o colocá-las nos bolsos evitaria movimento desnecessário. Mesmo quando desce do palco, a fim de melhor se identificar com a platéia, permanece sóbrio na gesticulação. Todos se concentram naquilo que é transferido com total competência.

Júlio Rodrigues, Presidente da Casa de Portugal de São Paulo, JEM e Carlos do Carmo. Foto Regina Martins. Clique para ampliar.

Ao findar o belo espetáculo, Júlio Rodrigues levou-me até Carlos do Carmo. Externei-lhe minha admiração, a ratificar-lhe essas suas qualidades, raras na música erudita, raríssimas na popular. O excepcional fadista asseverou-me que era assim que entendia a transmissão da música. Noite para não ser esquecida.

Ao acessar o Youtube videos Carlos do Carmo, o leitor poderá ouvir fados de seu repertório.

Some days ago I attended a show of the great fado singer Carlos do Carmo in São Paulo. Charmed by his elegance, the restraint of his gestures, his impeccable choice of repertoire and subtle control of tempo for expressive purposes, I was led to reflect on the issue of the essential and the superfluous in art. Carlos do Carmo is outstanding in a casual and effortless way, holding the audience in the palm of his hand without theatrical performances. His priority is to convey his musical message with competence, not to display extravagant versions of himself. A quality rarely found in classical music performers, even rarer in pop singers. A night not to be forgotten.

Cidade que Cultua a Música

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Goiânia nasceu para ser capital,
nasceu sem infância histórica,
sem adolescência interior,
madura demais para tão pouco tempo de criação.

Nasr Fayad Chaul

Há mais de duas décadas visito Goiânia, não com a frequência que desejaria, mas sempre com imensa alegria. Rever amigos e sentir em pleno Planalto Central uma cidade pujante em seus 76 anos de existência. Realmente uma urbe agradável. Seus belos parques causam forte impressão. Dei muitos recitais ao longo dos anos. Cursos de piano, conferências e participação em bancas integraram-me ao convívio singular goianiense. A cidade faz parte de meu universo de afeto. Muitos foram os músicos de qualidade que conheci em Goiânia e que estão a batalhar pela causa. Mencionaria, como baluarte da sólida escola pianística goianiense, a saudosa amiga Belkiss Carneiro de Mendonça, formadora de gerações de bons pianistas e professores, entre os quais Glacy Antunes de Oliveira, que se destaca com produção relevante.
Fui convidado pela dedicada Professora Gyovana Carneiro, da Universidade Federal de Goiás e uma das organizadoras da série Concertos na Cidade. Juntamente com Ana Flávia Frazão, outra competente Professora da mesma Instituição, também da nova geração, tem conduzido uma bela programação, a contar com as parcerias da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG e do Centro Educacional SESC Cidadania. Recital, conferência e também participação como membro de júri de Concurso de Jovens Talentos da EMAC 2009 preencheram minha semana no começo de Novembro.
O recital se deu no ótimo Auditório do SESC com um público entusiasta, o que contagiou o intérprete. A conferência, no Auditório da EMAC-UFG, impressionou-me pela qualidade das perguntas de professores e alunos, quando dos debates. O Concurso fez-me pensar. Só aceitei participar como jurado por saber que não haveria qualquer pressão, tão comum em outros certames do eixo São Paulo-Rio de Janeiro. Fiquei deveras feliz ao ouvir jovens talentosos e dedicados buscando realização através da música de concerto. Juventude sadia, estudiosa. Ouvimos belas vocações. Fui incumbido de dar os resultados. Conversei em público com os candidatos. Frisei com veemência que todos eram vencedores, pois subir em um palco diante de júri e realizar provas a contento requerem não apenas esforço, como amor, dedicação, disciplina e coragem. Não há vencidos. O resultado, infelizmente, tem de proclamar os mais acurados desempenhos.
Aproveitei umas poucas horas de uma tarde que intercalava calor e chuva para correr 7,5km no exterior do belíssimo parque Areião, percurso a contemplar longas descidas e subidas. Uma felicidade. Tinha de me preparar para a Maratona de Revezamento em São Paulo.
Dois importantes jornais da cidade entrevistaram-me: Diário da Manhã (Aline Mil) e O Popular (Edson Wander). As matérias foram publicadas nos dias 3 e 4 de Novembro, respectivamente. Pedi a autorização, que me foi concedida gentilmente pelos órgãos de imprensa, e reproduzo nesse post as entrevistas na íntegra.

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Diário da Manhã (3 de Novembro de 2009)

Pergunta: O projeto Concertos da Cidade é voltado para um público que não tem o costume de apreciar a música clássica ou nunca entrou em contato com esse nicho da arte. Como você enxerga essa inserção da música clássica no dia-a-dia do brasileiro? Nós caminhamos para uma maior difusão desse tipo de trabalho no país ou estamos cada vez mais longe disso? Resposta: É fundamental (a inserção da música erudita no dia-a-dia do brasileiro). Há um decréscimo progressivo da música clássica, dita de concerto, junto às massas. Fatores múltiplos como elitismo, propagação desmesurada da música de alto consumo, como rock e seus derivantes, sertaneja em todos os níveis e muitas outras manifestações. Diria que a música erudita, clássica ou de concerto tem a magia da perenidade – quando qualitativa – e, por não ser descartável, pode proporcionar ao homem a reflexão e a apreciação do belo, que tem tantas outras ligações com o aperfeiçoamento individual.

P:Você já viajou bastante, estudou fora e se apresentou em vários lugares. Como funciona essa difusão da música clássica lá fora? R: Há lá fora e lá fora. A gradação depende do lugar onde há a apresentação. Creio que o respeito que se tem ao cidadão em todos os níveis, desde o cuidado dos governos quanto à saúde, à educação e à segurança, tenha influência decisiva. Faz parte dos costumes de muitos países cultuar o passado, seja através da conservação dos museus e dos logradouros históricos, seja na preservação das culturas. Para a música, o intérprete é o elo que transporta a criação do compositor ao público. Divulga-se e preserva-se a tradição em tantos países. Ir a um concerto tem essa feliz rotina que se encontra em outras ações, como ir à missa, a um passeio, conviver com a família e com os amigos. Faz parte dos costumes e isso é salutar.

P: Dos visitados e conhecidos, em qual país o senhor mais admirou o tratamento e a valorização dada à música erudita. R: Todos nós elegemos nossas cidades e países. Faz parte da natureza humana. Tenho especial afeto por Portugal, Bélgica, França, Bulgária, Romênia… Diria que já visitei dezenas de vezes Portugal, sempre para recitais ou conferências. Sou um admirador incondicional da música erudita portuguesa, do barroco à contemporaneidade. Tantas outras vezes estive na Bélgica para apresentações e gravações, todas realizadas na mágica capela de São Hilário em Mullem, no coração da região flamenga. Data do século XI e, dos 20 CDs que gravei no Exterior, 15 foram naquela bela capela. A França está enraizada através de minha formação com grandes mestres. Mantenho relação profunda com Paris, mercê de meu trabalho relacionado a Claude Debussy e a Jean-Philippe Rameau, compositores extraordinários.

P: Onde o sr. se sente mais a vontade, nos grandes palcos ou nas apresentações mais reservadas e com produção mais tranquila, como essa que vai ser feita em Goiânia? R: Desde meados dos anos 90 estou mais ligado às gravações. Prefiro-as à apresentação pública. É um ledo engano pensar que microfones não captam a alma do intérprete. Tudo está lá. Aos 71 anos dirijo-me à idade da síntese e a gravação tem a magia de registrar o que realmente sinto e penso. Sim, o palco é importante, mas pode tantas vezes representar o culto ao holofote. Sob outro aspecto, desde os anos 80 me apresento em Goiânia. Faz parte de meu universo de afeto.

O Popular (4 de Novembro de 2009)

Pergunta: O que pesa mais na hora de escolher o repertório de seus concertos? Resposta: Habitualmente, o intérprete herda repertório sacralizado. Se considerarmos o amplo leque a abranger as salas de concerto em países que acatam a música denominada clássica ou erudita, verificamos que uma parte do repertório, bem menor do que a ponta de um iceberg, é apresentada em público. Ousaria dizer que não ultrapassa um dígito o percentual do qualitativo apresentado para as platéias ávidas por ouvir sempre as mesmas obras e, de preferência, os mesmos intérpretes. Até os 30 e tais anos aprendi e toquei muito o repertório super tradicional, importantíssimo para a formação de todo pianista. Mas, a uma certa altura, parei de tocar por três anos. Ao retornar, em fins dos anos 60, a escolha estava feita. Só estudaria aquilo de que gostasse e um imenso universo se abriu.

P: Há uma crítica frequente de que nossas escolas pouco estudam e executam os compositores brasileiros. O senhor comunga dessa visão? R: Não é bem assim. Toca-se sempre as mesmas obras, de Villa-Lobos, Francisco Mignone, Camargo Guarnieri e tantos outros. Mas toca-se. Não há a vontade por parte de tantos professores de sondar o inusitado, e ele existe. Estou a me lembrar de Henrique Oswald, o nosso grande compositor romântico. Quando iniciei os meus estudos relativos à sua obra e à sua vida em 1978, tocava-se dele para piano duas ou três peças apenas. Isso é fato. Minha tese de doutorado foi sobre Oswald, no longínquo 1988. Gravei cinco LPs no Brasil e três CDs no Exterior contendo expressiva parcela de sua obra de câmara e para piano solo. Presentemente, mais de uma dezena de teses e gravações esparsas estão a apontar para um caminho que deu certo.

P: O senhor se aposentou na USP, mas há ainda alguma relação extemporânea com a universidade ou outras universidades? R: Tenho ainda um orientando, que defenderá sua dissertação de mestrado, e três alunos de graduação. Por motivos pessoais, após a compulsória dou as aulas em minha casa e no fim do semestre repasso as notas à secretaria. Brevemente estarei totalmente sem relação com a Universidade de São Paulo. Convites recebo, como o presente, mas raríssimos. No Exterior não houve a menor descontinuidade, e continuo a tocar e dar palestras em Universidades como em Évora, Coimbra, Minho em Portugal, Sorbonne em França e outras salas de concerto da Europa. Se tenho artigos a escrever para o Exterior para revistas e livros arbitrados, sinto-me, sob outro aspecto, liberto das amarras, tantas vezes inócuas, do jargão acadêmico. Meu blog semanal, ininterruptamente escrito desde Março de 2007, é prova.

P: Seu site é uma iniciativa que destoa da relação que os artistas do meio erudito têm com a tecnologia, não? R: Estava na antecâmara da aposentadoria. Hoje, como a música, o blog tem sido respiração. Curiosamente, os temas e desenvolvimentos surgem quando corro pelas ruas três vezes por semana. Já participei de dez provas oficiais, inclusive da São Silvestre. Deverei chegar em São Paulo no sábado à noite e já às seis da manhã estarei em Interlagos para a Maratona de Revezamento. Nossa equipe tem o sugestivo nome TA LENTOS. Já estou inscrito para a próxima São Silvestre em seu percurso de 15km.

P: O senhor mantém ainda seu programa de rádio? R: De 1993 até 2004 fui o coordenador de Tempo de Concerto, da Rádio USP-FM. Quando acometido de um câncer com prognósticos sombrios passei a coordenação ao grande violonista e professor Edelton Gloeden, dileto e fiel amigo. Continuei a apresentar contudo meu programa. Meses atrás, sentimos pressões quanto à programação, que apresentou não apenas infindável coleção de CDs inéditos como entrevistas extraordinárias durante 16 anos. Pedimos o desligamento. Foi tudo. Havia sim interação e o público escrevia-nos, o que resultava em forte estímulo. Mas há os tempos do Eclesiastes. Quanto ao público, está a haver diminuição. Diria natural, devido à estrondosa ascensão de outras manifestações “musicais”.

P: Acha que o impacto das novas tecnologias (o MP3 em especial) sobre o consumo da música de concerto é igual ao da música popular? R: Diria, outro tipo de impacto. Ajudará contudo a divulgação maior da música de concerto.

P: Em seu blog, o senhor citou o pianista Oscar Levant, dizendo que na guerra das vaidades do meio gostava mais de ser considerado segundo melhor pianista que o melhor. Quem o senhor acha o melhor “segundo pianista” brasileiro hoje? R: O drama é o holofote. Na medida que ele se torna o epicentro, nada a fazer. Pode o intérprete ser hábil virtuose, o público incensar, mas e a música, onde ficaria em sua mente? Acredito que desde que apenas o compositor a ser interpretado seja a essência, o pianista, no caso, deixa de preocupar-se com ser ou não “o melhor”. A arte pianística não pode ser julgada objetivamente, como no caso do atletismo. A mídia e os empresários podem induzir o público a entender quais os melhores. Todavia, se não houver a plena identificação com a profundidade musical, haverá sempre uma lacuna, mesmo que salas fiquem repletas e luzes iluminem mais acentuadamente determinados músicos. Sinceridade e fidelidade relacionadas à música. Poderia acrescentar que, fora desses parâmetros, vive-se na ilusão. E a ilusão é a aparência da verdade.

P: E os novos projetos? há novas gravações em vista? concertos fora do país, publicações etc.? R: Jean Philippe Rameau é um imenso compositor. Gravei na Bulgária a sua obra completa para teclado, que foi lançada em duplo CD na Bélgica, pelo selo De Rode Pomp. Dentro de alguns dias haverá o lançamento desse álbum em São Paulo pela Clássicos Editorial. Dias após será a vez de meu segundo livro de textos publicados no blog: Crônicas de um Observador (II). Até 2012 tenho apresentações, gravações e atividades musicais na Bélgica, Portugal e em França. Os projetos surgem. Aos 71 anos, tenho sempre esperanças.

The city of Goiânia, in the Central-West of Brazil, is the capital of the state of Goiás. It is only 76 years old, with plenty of green areas and intense musical life. I’ve been playing regularly in Goiânia for the last 20 years and have strong bonds of affection with the city. In this post I give an account of my last visit two weeks ago for a recital, a talk to students of the Universidade Federal de Goiás (UFG) and to take part, as member of the jury, of the New Talents Competition – 2009 of EMAC (School of Music and Performing Arts of UFG). I also transcribe the interviews I gave for two of the major newspapers of Goiânia.